LEITURA E PERCEPÇÃO ESTÉTICA:
RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA,
DE LIMA BARRETO

Alice Áurea Penteado Martha
Universidade Estadual de Maringá


   

 

Este trabalho procura reconhecer, a partir da leitura de dois artigos publicados na imprensa carioca, em 1909, modos diferenciados de percepção estética em relação ao livro Recordações do escrivão Isaías Caminha, de Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), responsabilizando-os, inclusive, pela gênese dos clichês que passaram a identificar a produção do escritor nos manuais didáticos e de história da literatura desde então. No primeiro artigo, publicado em A Notícia, Medeiros e Albuquerque, com o pseudônimo J. Santos, aponta defeitos graves na obra, oriundos, a seu ver, do emprego de recursos da sátira na narrativa; no segundo, Carlos Eduardo (J. Brito) reconhece como virtudes o que Medeiros e Albuquerque havia apontado como traços de arte inferior.

O estudo das origens dos clichês que marcaram as leituras críticas sobre a obra de Lima Barreto pode ser iniciado por essa duplicidade de visões. De um lado, leitores que, aceitando a concepção veiculada por Medeiros e Albuquerque, reconhecem a produção do escritor como panfletária, aproximando-a da sátira, mas não referendam a escolha de elementos estilísticos como a ironia, o humor e a caricatura, empregados na construção de seus textos; de outro, aqueles que avalizam o ponto de vista de Carlos Eduardo, posicionando-se favoravelmente à literatura militante proposta pelo escritor, conferindo-lhe estatuto artístico, na medida em que consideram seus recursos de linguagem como suporte de uma criação literária diferente, dissonante, mas reconhecida como arte.

A marca de escritor panfletário, veiculada pelos articulistas mencionados, é uns dos clichês perpetuados pela visão da crítica sobre a obra e a figura do escritor Lima Barreto, entre outras que têm sua gênese também nesse momento: boêmio, romancista dos humildes, escritor desleixado, antifeminista, para citar apenas as mais constantes. Este texto, parte da tese de doutoramento que analisou a fortuna crítica à obra de Lima Barreto, produzida entre 1907 a 1994, entretanto, atém-se às observações sobre o surgimento do chavão escritor panfletário, bem como às indicações da repercussão e manutenção desse clichê nos manuais de história literária brasileira.

 

Recordações: modos de ler

Embora o primeiro artigo sobre a obra de Lima Barreto tenha sido publicado em 1909, é significativo registrar que, dois anos antes da publicação do Recordações do escrivão Isaías Caminha, o crítico mais respeitado no meios intelectuais do início do século, no Brasil, José Veríssimo, tenha se referido ao jovem escritor de forma abonadora. No dia 09/17/1907, Veríssimo anota em sua coluna Revista Literária, do Jornal do Commércio, no Rio de Janeiro, ter lido na revista Floreal, editada por Lima Barreto, um artigo de M. Ribeiro de Almeida e o começo de uma novela, Recordações do escrivão Isaías Caminha, nos quais acreditava descobrir alguma coisa. Ao fechar o comentário, enfatiza a simplicidade, a sobriedade e o sentimento de estilo dos escritores citados. Entretanto, é preciso registrar que o crítico lera apenas apenas o início da narrativa que iria desancar o meio intelectual brasileiro, notadamente jornalistas e literatos e, após a publicação do livro, jamais se referiu a ele ou a qualquer outra obra do escritor.

Já no texto publicado em 15 de dezembro de 1909, Medeiros e Albuquerque caracteriza o Recordações como gênero venenosíssimo do roman à clèf. Após breve introdução, aparentemente positiva, já que aponta a clareza, a segurança e o vigor do estilo do romancista, o artigo arrola, como decepção, traços negativos que, aos olhos do crítico, desabonam o livro: além de mau romance, por ser gênero "à clèf", mau panfleto, porque não tem a coragem do ataque direto; arte inferior do roman à clèf; que intenta o escândalo por motivos extra-literários e não por atrevida concepção literária. A invectiva, o ataque indireto, traços do que denomina mau panfleto, incomodam o crítico que não reconhece a qualidade estética da narrativa, apontando razões extra-literárias (possivelmente a vingança pessoal) para a postura combativa, satírica, de Lima Barreto:

Mas seu [de Lima Barreto] livro é, ao mesmo tempo, uma decepção, porque todo ele é feito de alusões pessoais, de descrição de pessoas conhecidas, pintadas de modo deprimente. É menos romance que panfleto. E o resultado é que assim fica sendo um mau romance e um mau panfleto.

Mau romance, porque é da arte inferior dos "roman à clé".

Mau panfleto, porque não tem a coragem do ataque direto, com os nomes claramente postos e vai até a insinuações a pessoas que mesmo os panfletários mais virulentos deveriam respeitar.

O que parece é que o autor quis provocar um escândalo em torno de sua obra. Se esse escândalo fosse por uma atrevida concepção literária, não haveria senão que acolher-lhe a audácia com simpatia. Mas querer o escândalo para uma obra literária por motivos extra-literários não é digno de um artista. (Medeiros e Albuquerque, 1909)

A crítica dura faz do artigo de Medeiros e Albuquerque o instaurador do pensamento depreciativo a respeito da obra satírica de Lima Barreto. Com traços impressionistas e biográficos, o texto opta pela valorização do gosto, ou do bom gosto, remanescente do racionalismo clássico, muito próximo do bom senso, da clareza e do equilíbrio pregados pelo classicismo; valoriza o quem é esse autor? e considera a obra como discurso do escritor, o que pode levar a uma séria desconfiança de que os parâmetros de tal crítica são projeções dos sociais. Na introdução, o crítico caracteriza o livro como venenoso, venenosíssimo, revelando, a seguir, que não possui do senhor Lima Barreto o mínimo conhecimento pessoal ou literário. Ao enfatizar semelhante desconhecimento, Medeiros e Albuquerque parece confirmar a discriminação social e literária a que era submetido o escritor carioca em seu campo intelectual. Em outras palavras, pode estar dizendo: quem é Lima Barreto, em termos literários e posição social, para levantar a voz em direção à elite intelectual do país? A questão se torna mais significativa quando se sabe que Medeiros e Albuquerque era divulgador da idéia, bastante comum à época, que os negros não tinham [têm] nenhuma capacidade literária (Medeiros e Albuquerque, 1934, p.25)

Além disso, o texto, como crítica jornalística, ou crônica literária, mede a repercussão imediata da obra e, no caso de Recordações, essa repercussão foi, como se sabe, negativa, notadamente nos jornais, uma vez que o livro satirizava a imprensa, na crítica que fazia a O Globo, jornal fictício que representava O Correio da manhã, bem como os críticos literários responsáveis pelo julgamento imediato do que se escrevia no país. O texto de Medeiros e Albuquerque ilustra bem o modo vigente de fazer crítica: valendo-se do já estabelecido e convencionado, evidencia o impasse entre aceitar e valorizar a originalidade da obra e considerar como escândalo o caráter inusitado e diferente do livro de Lima Barreto.

No mesmo tom de Medeiros e Albuquerque, Alcides Maia continua a trabalhar a imagem do escritor vingativo, que produz a obra apenas para penalizar o grupo que o excluiu, no caso a imprensa carioca. A premissa é a mesma do primeiro texto: não se trata de um romance, mas de um álbum de fotografias, pois a realidade adere sem retoques à estrutura da obra. A nota predominante é, ainda, a biográfica: Lima Barreto, mulato ofendido e discriminado, não perdoa seus algozes por formarem a opinião através da imprensa e fere-os no que possuem de mais sagrado, a arte de escrever. Para Alcides Maia, os recursos estilísticos empregados pelo escritor não conferem ao texto a virtude artística ou literária: O volume [Recordações], vez por outra, dá a penosa impressão de um desabafo, mais próprio das secções livres que do prelo literário. (Maia, 1909)

Os artigos de Medeiros e Albuquerque e Alcides Maia podem também ser responsabilizados pelos chavões referentes ao estilo do escritor panfletário, tais como: simplicidade; sobriedade; sentimento de estilo; estilo bom; seguro; clareza de exposição; sobriedade de forma; estilo claro, corrente; clareza com que veste o pensamento; não possui preocupaçõezinhas de toilette gramatical, entre outras. Aparentemente positivas, tais marcas, vazias, nada dizem sobre os aspectos estilísticos do escritor e permitem o afloramento de expressões de caráter negativo: imperfeições de linguagem; Machado de Assis sem correção gramatical; linguagem viciosa, descuidada; escreve mal; frase: veste pobre de idéias; propositadamente desorganizado e desdenhoso a certas qualidades de estilo; incertezas de estilo; não corrigiu os vícios de linguagem.

Antônio Torres insiste no jargão de escritor descuidado, em artigo publicado em A Notícia, em 27 de julho de 1916. Considerando que todo leitor tem o dever de cuidar da língua, observa que o autor do Recordações não cumpre a contento tal obrigação, ainda que o conteúdo interessante de seus escritos transpareça sob as "vestes pobres" de seu estilo:

O sr. Lima Barreto escreve mal, diga-se logo, escreve mal. Escreve mal neste sentido que a sua frase é mal cuidada, incorreta perante as soleníssimas regras da Gramática. Mas dentro dessa veste pobre há idéias, conceitos interessantes, imagens e comparações curiosas e um cunho de personalidade que nos fazem esquecer do desataviado da forma para só atender à beleza do fundo. (Torres, 1916)

Em 1917, Veiga Miranda, ainda referindo-se a Recordações, aponta nas figuras limanas o que considera maquillages tremendas, suas máscaras grotescas e concebe a caricatura como demolição absoluta. Representante do pensamento crítico oficial, Veiga Miranda discorda do caráter militante da obra de Lima Barreto, materializado no emprego da caricatura; para ele, o recurso não promove a transfiguração do real em arte, as personagens são decalques, figuras grotescas e títeres nauseantes:

As figuras apresentam maquillages tremendas, são mascarados grotescos em que facilmente se deixam reconhecer os tipos alvejados. Não há, porém, verdadeira cintilação, não há verve nesses decalques, de sorte que falham todos os efeitos felizes, quase sempre visados em semelhantes galerias, para restar-nos apenas uma sensação de enfaro, de condoimento por aquela série de títeres nauseantes. (Veiga Miranda, 1917)

A partir do artigo de Medeiros e Albuquerque, é válido dizer que, embora os elementos da sátira, ou do que o crítico denomina mau panfleto, fossem evidentes no primeiro livro de Lima Barreto, grande parcela da crítica jornalística, ofendida por se ver caracterizada sarcasticamente, vergastou o escritor, ignorando os aspectos estilísticos que caracterizam o gênero, como a caricatura, que José Veríssimo (1910), em carta dirigida ao escritor, logo após a publicação de Recordações, chamou de excessivo personalismo, Medeiros e Albuquerque, de alusões pessoais, Alcides Maia viu como álbum de fotografias e Veiga Miranda considerou como máscaras grotescas.

Por outro lado, a leitura do pequeno trecho do artigo de Carlos Eduardo, ou J. Brito, escrito também por ocasião do lançamento do Recordações, e transcrito pelo próprio articulista, em 1916, em novo texto, agora sobre Policarpo Quaresma, comprova a existência de um enfoque diferenciado, valorizador dos recursos da sátira na obra de Lima Barreto:

Há quase sete anos eu escrevia, a propósito do primeiro livro do senhor Lima Barreto, "Recordações do escrivão Isaías Caminha", as seguintes palavras: "...Mas, mesmo com suas imperfeições, com seus traços sobrecarregados, elas revelam um novo e original espírito, sarcástico, frio às vezes, outras doloroso, irônico quase sempre - em todo caso um escritor cujo futuro pode ser brilhante na nossa literatura. Como uma charge, o livro do Sr. Lima Barreto faz sorrir, mas quando se chega à última página, uma impressão dolorosa, amaríssima, começa a crescer no fundo da nossa alma: porque, através daquela feroz caricatura, claramente reconhecemos a simples a atrós, a penosa, a degradante Realidade das Cousas... (Carlos Eduardo, 1916).

Como se vê, o texto de J. Brito, de 1909, atesta que o crítico já reconhecia os elementos satíricos em Recordações do escrivão Isaías Caminha, percebendo no livro o novo e o original que se configurava pelo sarcasmo, pela ironia, pela caricatura, pela charge, enfim. Uma visão contrastante em relação àquela cuja gênese se encontra no texto de Medeiros e Albuquerque, que enfatizava o predomínio do traço pessoal, da fotografia, como forma de vingança na obra de Lima Barreto. Para J. Brito, mesmo no Policarpo, a qualidade essencial é a caricatura, ou a arte da blague, que insere o escritor na galeria de grandes nomes que se valeram do recurso:

Apenas e com um grande consolo que se observa que todas essas qualidades [da blague, da caricatura] se apuraram no Polycarpo Quaresma, que o subjetivismo do Isaías foi modificado de forma a dar ao recente livro um tom mais independente de objetivismo, em que o autor nos dá um estudo mais sóbrio de typos e costumes da sociedade brasileira nos primitivos anos da República. (Idem, idem.)

Mário Matos escreve no Diário Mercantil, de Juiz de Fora (MG), em 16 de outubro de 1913, com o pseudônimo de Alberto Olavo, um artigo que também desafina o tom da crítica oficial, representada pelo texto de Medeiros e Albuquerque. Ao ser questionado se conhecia o Recordações, o articulista responde que já lera alguma coisa a respeito do livro, apontando a existência de dois pólos na crítica à obra de Lima Barreto: um artigo laudatório, outro de descomposturas. Conhecedor do ambiente literário do início do século, conclui: Em todo caso, parece-me que é um livro bom, devido ao silêncio malicioso que se fez em torno da obra. (Matos, 1913) Após a leitura, Mário Matos valoriza a crítica social contida no livro, reconhecendo, inclusive, a funcionalidade dos recursos formais de que lança mão o autor:

A um temperamento menos avisado e ainda cheio de ilusões, pode o Sr. Lima Barreto parecer perverso deturpador do destino e do móvel dos homens, emprestando-lhes sentimentos subalternos, ódios oblíquos... No entanto, as Recordações são um grito de revolta, um impulso incontido de um espírito contra o exibicionismo, as exterioridades fantásticas sob cujo fulgor se oculta o pensamento obscuro da cupidez, da vaidade, do egoísmo desabalado. (Idem, idem.)

O caráter combativo, de crítica social, entendido como grito de revolta contra o exibicionismo que oculta sentimentos torpes da sociedade, é elogiado por Mário Matos, que, ao enfatizar os recursos estilísticos utilizados pelo escritor, demonstra reconhecer e valorizar o caráter diferente do gênero satírico:

A sua escrita traz o calor de uma alma inquieta, que padece a ânsia do mistério das coisas, do sortilégio que paira sobre a existência humana. A maior influência literária e moral sobre a organização de Lima Barreto é Dostoyevski... O seu processo é angustioso e tem uma piedade fácil por aqueles que são dominados pela idéia fixa, contanto que essa idéia seja um sentimento nobre. As Recordações são uma auto-biografia. Aí está, porventura, o segredo de seu atrativo, da grande questão da sua palavra escrita... Os defeitos do seu livro vêm também deste feitio e estes defeitos são unicamente o tom muito pessoal que, em certas páginas, transparece. (Idem, idem.)

Ao considerar o caráter autobiográfico do livro, Mário Matos vê vantagens e defeitos, equilibrando o ponto de vista negativo de outros críticos. Reconhecendo o caráter corrosivo da sátira, configurado pela elaboração caricaturizada das personagens em Recordações, valoriza o processo de desmonte de ídolos utilizados pelo escritor para promover a desestabilização do jornalismo e de jornalistas, denunciando a falsidade de seus propósitos. Aponta, em suma, o caráter avesso da narrativa limana, visível pela forma como o escritor apanha o real, ou seja, o aspecto noturno da vida de um jornal, escalpelando e denunciando o processo de construção de seus ídolos:

Lima Barreto faz a história de um jornal e dos homens de um jornal. Encara a questão sob seu aspecto noturno, aquele que fica do outro lado, desconhecido do público. Isto é, desmancha os novos ídolos, mostra-nos as suas maneiras, o como se fazem as glórias, o ódio que, na azáfama do jornal, divide e separa os jornalistas.

A psicologia do jornalista indígena, com a voracidade de impor o seu nome e captar as simpatias, Lima Barreto trata-a com perversidade, escalpelando e derrocando as suas artimanhas, os seus processos mecânicos. (Idem, idem.)

Embora se observe a tensão judicativa em torno da obra de Lima Barreto, estabelecida sobretudo pelos modos de ver diferenciados de críticos como Medeiros e Albuquerque, João Ribeiro, Carlos Eduardo e Nestor Vítor, entre outros, pode-se considerar, nesse primeiro período da produção crítica, o predomínio da postura mais estigmatizadora, ou seja, aquela determinada pela crítica oficial que, reconhecendo-se na obra do escritor, não dá crédito aos recursos estilísticos por ele empregados, como forma de não avalizar o conteúdo organizado por intermédio deles.

Ao final da leitura dos primeiros textos sobre o Recordações, pode-se considerar que as impressões iniciais de José Veríssimo sobre o livro, veiculadas em sua coluna Revista Literária, valorizadoras da simplicidade, sobriedade e sentimento de estilo, foram substituídas por expressões menos afáveis a respeito dos recursos estilísticos de que se valia o escritor panfletário. Os clichês sobre a linguagem do escritor sintetizam a imagem que os críticos, seus contemporâneos, formulavam não só sobre sua produção, mas principalmente a respeito de sua posição na sociedade. Os hábitos boêmios, a vida desregrada, a humildade de sua condição social e financeira afloram de forma predominantemente negativa e se sobrepõem às questões literárias, numa clara demonstração de que a vertente oficial da crítica não conseguia desvincular a imagem que formava do homem da imagem da literatura por ele produzida.

 

Em síntese...

Concluindo, é interessante observar que o emblema de escritor panfletário continuou repercutindo em manuais didáticos e em obras de história e crítica literária, como se lê no texto de Nélson Werneck Sodré, dedicado ao escritor em sua História da literatura brasileira (Interpretações do Brasil), de 1938, que resume, sob o ponto de vista consagrado da historiografia literária, as contradições da crítica em relação à obra de Lima Barreto. O historiador vê a produção limana como realização de crítica social, porém, paradoxalmente, desvaloriza os recursos utilizados para a consecução de seu conteúdo crítico. Embora não considere a ideologia social em Lima Barreto como decorrência de seus ressentimentos, Sodré aponta a caricatura como parte perecível de sua obra, considerando o traço carregado, fortemente intencional, sarcástico e virulento como causa de uma produção pontilhada de defeitos, descuidada na forma e, por vezes, desconexa.

Nem mesmo Francisco de Assis Barbosa, biógrafo de Lima Barreto, escapou da divulgação de alguns rótulos amargos sobre sua vida e obra, retomando, inclusive, a ótica de Medeiros e Albuquerque no que se refere ao caráter panfletário de sua produção. Ao tratar de Recordações, aponta o tom panfletário como causa da descida de nível estético do livro que, do meio para o fim, como que se transforma,[...] num verdadeiro panfleto contra a imprensa da época, em contraste, até certo ponto chocante, com o desenvolvimento harmonioso dos primeiros capítulos. (Barbosa, 1952, p.168)

Para Antonio Candido e Aderaldo Castello, em Presença da Literatura Brasileira (1964), o traço panfletário do escritor deriva de seu ideal patriótico, traduzido pela visão quixotesca e caricatural com que expressou sua crítica aos valores e instituições nacionais, notadamente aos políticos, aos militares, à imprensa e ao funcionalismo público. Segundo os críticos, o caráter de panfleto da obra de Lima Barreto, ao lado da despreocupação no tratamento da linguagem, pode ser responsável também por sua desigualdade de composição e estruturação. Otto Maria Carpeaux, por outro lado, em sua História da Literatura Ocidental (1964), no capítulo denominado Fin de siécle e depois, vê ressonância, em Lima Barreto, do que denomina to muckrake, profissão literária especificamente americana do primeiro decênio do século XX que se caracterizava, como quer a expressão, pela denúncia de escândalos e corrupções.

No Dicionário de Literatura Portuguesa e Brasileira (1967), Celso Pedro Luft, depois de pequena introdução biobliográfica, ao fazer a apreciação do romancista, explica seu empenho pela sátira como proveniente do ressentimento por sua condição de mulato e da neurose que não soube sublimar, enfatizando a condição de panfletário como a causa principal das imperfeições de sua obra.

A freqüência no emprego do jargão, desde seu início, não apresenta, também nos livros de história literária, uniformidade de julgamento, pois, para alguns historiadores, panfletário pressupõe um escritor pouco afeito às virtudes artísticas do estilo, uma vez que o panfleto carrega o estigma da pressa e do momentâneo no ato criador; para outros, porém, o adjetivo condensa apreciação crítica mais positiva e, apontando, inclusive para o caráter revolucionário, de aprofundamento da crítica social na obra de Lima Barreto, caracteriza-o como precursor do chamado romance de 30 no Brasil.

A partir do anos 70, entretanto, a crítica universitária empenha-se em negar a caracterização simplista de Lima Barreto como escritor panfletário. Embora os pesquisadores apontem o caráter combativo de suas obras, ressaltam as diferenças entre literatura e simples panfletagem, notadamente, em razão do predomínio, na literatura, do valor estético, ao lado do empenho social, o que configura a síntese entre meio e mensagem.


Referências bibliográficas

  • Albuquerque, Medeiros e. Isaías Caminha. A Notícia. Rio de Janeiro, 15/12/1909.

  • __________. Homens e cousas da Academia. Rio de Janeiro: Renascença, 1934.

  • Barbosa, F. Assis. A vida de Lima Barreto. Rio de Janeiro: José Olympio, 1952.

  • Candido, A ; Castello, J. A . Presença da Literatura Brasileira. História e Antologia. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1964.

  • Carlos Eduardo (Pseud. de J. Brito). Lima Barreto: Triste fim de Policarpo Quaresma. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 14/07/1916.

  • Carpeaux, Otto Maria. História da Literatura Ocidental (Vol.6). Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1964.

  • Maia, Alcides. Crônica literária. Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 16/12/1909.

  • Matos, Mário. Recordações do escrivão Isaías Caminha. Diário Mercantil. Juiz de Fora, Minas Gerais, 16/11/1913.

  • Sodré, N. Werneck. História da Literatura Brasileira (seus fundamentos econômicos). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1938.

  • Torres, Antônio. O sr. Lima Barreto, romancista. A Notícia. Rio de Janeiro, 27/07/1916.

  • Veiga Miranda. Triste fim de Policarpo Quaresma/ Recordações do escrivão Isaías Caminha. Jornal do Commércio. São Paulo, 04/03/1917.

  • Veríssimo, José. Revista Literária. Jornal do Commércio. Rio de Janeiro, 09/12/1907.

  • ______. Carta a Lima Barreto. In: Barreto, A. H. de Lima. Obras Completas. Correspondência Ativa e Passiva ( 1º tomo). São Paulo: Brasiliense, 1956.

 

© Alice Áurea Penteado Martha 2001
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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