ENTREVISTA COM FERNANDO MONTEIRO SOBRE
A MÚMIA DO ROSTO DOURADO
DO RIO DE JANEIRO


Entrevista feita por José Castello


   


  
1- "A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro" tem uma estrutura fechada, que parece barrar a entrada do leitor. É como se, sobre a narrativa, estivesse esticada uma tela, e só restasse ao leitor o acesso por pequenos rombos (capítulos). A visão que lhe fica da história, ou das histórias, resulta fragmentada, esfacelada mesmo. Como foi a montagem dessa estrutura?

R- Essa primeira pergunta já vai direto ao "nervo" do livro - ou seja, ao "esfacelamento" da narrativa, que é (ou tenta ser), na Múmia, a própria visão fragmentada que temos das coisas, da vida enfim. Do quê podemos ter certeza, quando a "aventura" finda? Do mesmo modo como, ao pé de um afresco em ruínas, temos apenas uns cacos para entender uma cena, formar um sentido, contar uma história (ou contar a versão da versão de uma história etc). Eu já havia começado a praticar isso em A Cabeça no Fundo do Entulho (na última narrativa, que dá título ao livro) e na terceira parte de Aspades, Ets etc. Mas sempre achei que poderia ir mais longe, que não estava esfacelado o bastante. E que havia alguma coisa "arrumada" na mente literária dos seus respectivos narradores. Ao mesmo tempo, eu queria também tentar que as coisas se narrassem a si mesmas, entende?, numa espécie de alucinante autonomia de cacos, como uma ascese se forma de um jardim de Gaudí... Ali, no meio e na dobra das coisas, talvez fosse possível "surpreender" um naco de realidade bruta e confusa (como aliás é, para nós, a percepção de tudo). Ou como na teoria de montagem de Eisenstein: "da justaposição de um plano a outro resulta sempre uma terceira qualquer que nunca sabemos o que vai ser" (mais ou menos isso, não sei, quem pode se recordar das coisas?). Disso tudo, talvez emergisse uma "inteligência" da própria narrativa, que escaparia até para mim (digo isso sem burla, sem estar tentando fazer charme etc).
Participo, eu próprio, desse sentimento de estar alijado do centro misterioso da Múmia, acreditem. Há qualquer porta ali que também me barra, a mim - e "a morte tagarela", o nome da Porta, talvez ri do meu esforço, e sabe que mais uma vez fracassei, provavelmente, naquela ambição de surpreender as coisas, os "acontecimentos", num alucinante simulacro do sentido que nos escapa.

2- A mistura de cenários (a Rússia czarista, o Brasil de Vargas, o Egito antigo, etc) ajuda a criar no leitor essa sensação de ausência de um chão. Ele avança na leitura, mas não sabe ao certo onde pisa. Isso parece ter algo a ver com o mundo unificado, mas também por isso sem nuances, em que vivemos hoje, o tal mundo globalizado. Algo assim lhe passou pela cabeça?

R- Sim, eu tentei também passar essa "simultaneidade" esvaziada de hoje, que elimina espaço, tempo e significado. Partindo de Paris - via Anchorage - para Pequim, no Concorde, você chegará na capital da China na mesma hora do café em que tomou o avião (isto é, do mesmo dia). Ou seja, sua longa viagem foi engolida pelo ausência de tempo, numa espécie de sentido "anti-horário" que o devolverá à mesma hora da partida. E as muitas horas de vôo não estarão em nenhum lugar, senão na sua mente e no seu coração apertados contra a irrealidade do buraco negro em que - parece - tudo é de fato para se perder. A Múmia, então, se situa nesse vórtice estranho que nos obriga a viver a aventura solipsista da vida num clima mais do que nunca igual, "unificado" como você diz: Pequim está lá fora e o passageiro atordoado come os mesmos croisssants fantasmagóricos da sua partida, olhando para aves pousadas nos postes, contra o céu vazio.

3- O Egito antigo é uma espécie de reserva de sonhos intocados, num mundo em que quase tudo pode ser conhecido, ou parece poder ser conhecido imediatamente. Temos a instantaneidade (CNN, internet, satélites), a ruptura dos grandes espaços (vôos intercontinentais, e mesmo aventuras interplanetárias), tudo diminui. Restam esses pontos remotos que, mesmo explorados pelo turismo de massa, continuam indecifráveis, e fascinam sobretudo porque são zonas inacessíveis em seu todo. Essa foi uma razão para um escritor do Recife se preocupar pelo Egito antigo? Ou você não se considera um escritor do Recife?

R- O Egito, a Mesopotâmia, a Anatólia antiga são os "planetas" do passado. Podemos ainda viajar para eles, chocados com a vulgaridade, atual, do espírito afundado entre as cinzas. Quando eu me encontro com um escritor amargurado, um poeta ofendido, nas pontes e ruas do Recife e a conversa se inicia, inevitavelmente, pelas maledicências de província, eu costumo responder: "não estava sabendo de nada disso". Aí o meu amigo se espanta: "não? Todo mundo tá sabendo." E aí eu esclareço: "Eu vivo na Suméria." E, quando me despeço desses amigos, costumo dizer: "Vou voltar para Méroe."
Mas - que ninguém se engane - nem por isso estou fora do orbe, no oco armorial da irrealidade cotidiana. Eu vivo nas fronteiras extremas da Mongólia interior, mas estou sabendo do preço exato que se paga, em Nova Iorque, pela réplica do colar de pérolas falsas de Jacqueline Onassis... ou como foi importante, para António de Oliveira Salazar - e suas teses de ditador - ler o elogio do colonizador português feito por Gilberto Freyre.

4- As frases incompletas, as citações interrompidas ou suspeitas, os desfechos de atos desconhecidos, tudo parece apontar para a falência da máquina narrativa. Quanto mais o autor regista, descreve, reproduz diálogos, mais eles se perdem, se turvam, se misturam. Teu livro é uma reflexão sobre os limites da literatura?

R- Eu padeço de uma grande desconfiança da "máquina de narrar" - depois de ter tentado ler tudo. Começando por bula de regulador feminino (literatura erótica dos meus tempos de menino) até chegar, anos depois, à "Consciência de Zeno" (influência enorme sobre a escrita de Joyce) -passando pela epopéia de Gilgamesh, o Livro dos Mortos e os livros esquecidos, de escritores laterais como Damon Runyon, Victor Segalen e outras imaginações perdidas - tudo me levou a duvidar do que nos é contado, como Conrad já indicava no Lord Jim: a história que é narrada por Marlowe não merece confiança nenhuma, diz ele, nas entrelinhas. Temos a paixão de ouvir, no entanto, e seguiremos pedindo que nos contem, para não dormir. Por esse fio precário, eu - quase envergonhado do artificialismo da literatura - no entanto sigo praticando a "arte morta" (no dizer de Pound) um pouco para que, como uma serpente oca e coberta de milhares de pequeninos bichinhos pululantes, ela pareça pulsar, vista de longe (a imagem - cortante como uma navalha - não é minha, mas do cineasta Ingmar Bergman, hoje retirado e descrente de quase todas as manifestações artísticas).

5- Como você se situa, ou se vê, no cenário da literatura brasileira de hoje? Em que pares se espelha, ou de quem se vê próximo? E, sobretudo, de quem se vê distante? Você saberia apontar teus ancestrais literários?

R- Eu sou provavelmente uma espécie de ET na atual literatura brasileira. Talvez porque faça - ou tente fazer - a literatura que gostaria de ler. E eu gosto dos escritores que trabalham nas dobras, aqueles secretos autores de histórias que não quiseram contar. Sinto-me distante dos "regionalistas" e dos armoriais do Nordeste preso aos modelos do passado, ao mesmo tempo em que reconheço como "ancestrais" (para usar a sua palavra) mais o Melville de Pierre do que o das grandes narrativas - que também admiro - assim como a grande lição gótica que ainda vem nos vem de Hawthorne, ao lado dessa universidade de dúvida que é Conrad, assim como a tessitura psicológica de Henry James, dos grandes russos, de Nabokov seguem nos interessando. Admiro Camilo José Cela - que participa, como personagem, na Cabeça no Fundo do Entulho (Prêmio BRAVO de Literatura/99), Calvino, Borges, Kadaré, Singer, Thomas Bernhardt, Damon Runyon... para citar alguns contemporâneos - dentre os nomes da "estrada principal" e dos caminhos laterais da literais da literatura. contemporânea.

6- Teu livro aponta na direção contrário da literatura de best seller, da literatura fácil, digestiva, de consumo, que domina hoje o mercado brasileiro. Em que medida isso te deixa na solidão? Se não é vender, o que você busca com o escrever?

R- Cabe à minha editora - a Globo - saber "vender" o tipo de ficção que eu pratico. É o que eu espero dela: a competência em definir meu perfil, como escritor, para os leitores que ainda procurem a leitura como mergulho (e que são em maior quantidade do que se imagina). Meu primeiro romance foi publicado primeiro em Portugal, em 1977 - e acho que o Aspades, a Cabeça e a Múmia têm chances editoriais lá fora, em tradução. É o que espero, também, da editora: a audácia de levar esses livros -que têm um certo acento cosmopolita- para públicos que apreciam textos assim, na Europa e nas Américas (dizer que eu não penso nisso seria uma modéstia falsa, indigna).

7- Teu romance, a rigor, não tem personagens, embora esteja atulhado deles. O que essa atitude, essa escolha, significa para você? Nada há de "psicológico", de confessional, de pessoal, nenhuma marca aparente. No entanto, é um texto inconfundível, de Fernando Monteiro. Que pegada é essa que fica?

R- Esse é, talvez, o mistério final do livro. Uma "lacuna" que falta preencher - e da qual se fala na orelha do livro, ao referir um livro talvez atulhado de personagens mas que passa muito bem sem nenhum. Apesar do "eu" do personagem, real, de Dmitri Vonizin, dos falsos diários escritos por ele, na primeira pessoa, essa marca não fica no livro, imagino... e até mesmo espero que não fique, para leitor algum. A rigor, o livro não trata propriamente "de um erudito russo que viveu no Brasil" - apesar da sua história de "amor impossível" pontuar a narrativa - conforme as sinopses resumem (e teriam que resumir, para consumo de notícias etc). Na verdade, do que trata esse livro? É um falso novo romance-reportagem? Um velho "romance da arqueologia" ou um poema - em prosa - de coisas perdidas? O que o leitor prefere que seja a Múmia? Talvez seja o primeiro livro que o leitor deva definir, pegando todas as peças soltas e encaixando nesse escrínio da capa, que é uma caixa de charuto reaproveitada feita por mim. Costumo aproveitar as caixas dos charutos baianos que fumo e fazer bricolages, montagens com fragmentos de fragmentos das coisas que passaram pela minha vida. Talvez o autor de A múmia do rosto dourado do Rio de Janeiro esteja mais "fora" - na capa - do que dentro do sarcófago do livro...

   

© José Castello 2001 (Permitida a reprodução.)
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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