José Nêumane Pinto


Suênio Campos de Lucena


    


José Nêumane Pinto é um conhecido comentarista da imprensa brasileira. mas Nêumane é também um poeta, um grande conhecedor da produção poética brasileira e seu nome tornou-se presença constante nos suplementos literários com a publicação da antologia Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século, organizada por ele. Como toda antologia que se preze, recebeu muitas críticas e elogios. Nesta entrevista, Nêumane fala sobre a poesia brasileira e os percalços encontrados no preparo e na publicação da antologia.


 

"Itabira é apenas um retrato na parede e como dói". Até que ponto o fato de ter nascido e passado sua infância na Paraíba interferiu em sua poesia e na forma de você ver a poesia?

Eu acredito – e gosto de acreditar – que a poesia não é uma opção, mas uma vocação, quase uma danação. É uma espécie de loucura que sustenta minha lucidez. Escrevendo poesia, eu me acerto com meus demônios e economizo a conta do psicanalista. Lendo poesia, sintonizo-me com o humano. A Paraíba, minha raiz, penetra fundo nos veios de minha poesia. São ritmos que ouvi dos violeiros da fazenda de meu avô, no sertão onde nasci, ou dos emboladores de coco da feira de Campina Grande. Isso é base. O resto é decoração.

Por falar nisso, qual sua visão da poesia brasileira contemporânea?

No Brasil, faz-se mais poesia do que se lê. Nem os autores lêem sua própria produção poética. A quase totalidade da produção é de experimentalistas do vazio ou formalistas subcabralinos, que, tentando imitar o mestre João Cabral de Melo Neto, abastardam sua herança forte e digna. Desde a geração 60 de São Paulo e dos camaleões do Rio vem emergindo uma produção muito interessante. Isso não quer dizer que seja algo concentrado no Sudeste. Ao contrário. Há uma excelente poesia contemporânea sendo criada por Aníbal Beça em Manaus, João Jesus de Paes Loureiro em Belém do Pará, Arlete Nogueira da Cruz, Nauro Machado e Luiz Cassas em São Luiz, Adriano Espindola, Floriano Martins e Soares Feitosa em Fortaleza, Sanderson Negreiros e Luiz Carlos Guimarães em Natal, Marcos Tavares e Hildeberto Barbosa Filho em João Pessoa, Nei Leandro de Castro e Thereza Christina Rocque da Motta no Rio de Janeiro, Ricardo Soares em São Paulo e Maria Carpi em Porto Alegre. De propósito, não citei nenhum dos poetas incluídos na antologia Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século, exatamente para mostrar como é amplo o movimento de uma poesia de excelente água ao longo do País inteiro, capaz de resgatar a qualidade da monocultura experimentalista e subcabralina.

Hoje, há uma escassez de poetas brasileiros vivos tão populares como nos casos de Drummond e Bandeira, por exemplo, a despeito de nomes como Adélia Prado e Ferreira Gullar. Nossa poesia se encontra numa torre de marfim?

Será? De fato, as vanguardas tentaram isolar dos anos 50 para cá a poesia erudita do povo e estigmatizar a poesia popular. Os concretos de São Paulo fizeram isso explicitamente. Haroldo de Campos disse à Folha de S. Paulo não haver autorizado a publicação de seu poema na antologia da Geração porque era "eclética demais", ou seja, aberta aos poetas populares. E Décio Pignatari reclamou ao mesmo repórter da bajulação ao mercado feito pelo organizador. Mas acho que essa é uma maré vazante, que hoje parece muito importante mas daqui a 100 anos não vai merecer mais do que uma notinha de pé de página na história da poesia. Enquanto isso, os que produziram sem se isolar na torre de marfim, merecerão destaque. Dentre esses, recorrendo apenas à memória, cito Orides Fontela, Hilda Hilst, Alberto da Cunha Melo, Ruy Espinheira Filho, Ivan Junqueira, Leonardo Fróes, Roberto Piva, Alberto da Costa e Silva e por aí afora.

Toda seleção é arbitrária, pessoal e subjetiva. Mesmo assumindo isso, entretanto, como você chegou aos Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século?

Como diria Jack, o Estripador, vamos por partes. A Antologia está dividida em partes. Eu lhe diria que há muito pouco de arbitrário, pessoal e subjetivo tanto na escolha dos pré-modernistas quanto na dos modernistas e na geração de 45. São poetas de reputação cristalizada independentemente do gosto de quem escolhe, no caso o meu. Daí para a frente, eu acho que meu critério foi o de um jornalista, de um editor. Os critérios são vários e muitas vezes interfere, é claro, a arbitrariedade. Há poetas que entraram por gosto pessoal, caso de Bráulio Tavares. Outros que foram impostos pela fortuna crítica a seu respeito, caso de Chico Alvim, de quem não sou particularmente um admirador fanático. Você pode alegar que há arbitrariedades cometidas no sinal oposto, o da rejeição. De fato, as exclusões de Ana Cristina César e Manoel de Barros desagradaram a muita gente e devem ser debitadas exclusivamente em minha conta pessoal de leitor e organizador.

Sendo assim, não será de estranhar se os poetas escolhidos em seu livro não coincidirem com os selecionados pelo Prof. Ítalo Moriconi, a sair pela Objetiva?

Não conheço a escolha feita pelo professor Moriconi. Mas em princípio eu lembro que ele selecionou poemas, não poetas, como eu fiz. Portanto, nossas listas teriam mesmo de divergir. Além disso, não é, a meu ver, possível haver duas listas iguais de cem melhores poetas, mesmo quando os autores tiverem grande identidade de gosto e idéias. Por isso, mais do que por vaidade, fiz questão de assinar a antologia na capa. O leitor há de ficar sabendo que a escolha foi minha e não quis dourar a pílula com legitimidade acadêmica, que não possuo, ao contrário do professor Moriconi, que as tem de sobra.

A revista editada pela Biblioteca Nacional Poesia Sempre foi uma de suas fontes?

Sim. Claro.

Como foi trabalhar com os Profs. Rinaldo Fernandes e Sandra Moura? Teve gente fazendo campanha para colocar o "seu poeta" preferido?

Trabalhar com Rinaldo e Sandra foi muito fácil. Várias pessoas fizeram lobby, mas sempre foi um lobby pedido por mim. E a esse lobby devo alguns acertos magníficos. Só para dar um exemplo, meu poema favorito de Carlos Pena Filho é "Improviso no Bar Savoy". Mas dois pernambucanos eméritos - Cláudia Cordeiro, em Recife, e Aluízio Falcão, em São Paulo - lutaram bravamente pelo "Soneto do desmantelo azul". Se quiser ver como eles têm razão, vá à página do poema e o releia. Veja que beleza que é!

Creio que as cobranças de ausências são chatas, mas inevitáveis: Ana Cristina César, Antonio Cícero, Cacaso, Helena Kolody, Torquato Neto e, principalmente, Manoel de Barros.

Você não vai querer que eu explique por que não escolhi cada um, não é mesmo? Vamos generalizar: nenhum deles está na antologia porque não acho que qualquer um deles seja um dos cem melhores poetas brasileiros hoje. Será arbitrário? Talvez! Mas haverá explicação melhor?

Por falar em chatos (segundo o seu editor Luiz Fernando Emediato), os poetas concretistas – Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos-, não autorizaram a publicação. Perde a poesia e a antologia?

Paulo Salles escreveu no site Digestivo Cultural que, se o grupo concreto tivesse autorizado a publicação de seus poemas, ainda assim a antologia teria 100 poetas, mas apenas 97 poemas, como ficou. Não posso responder por ele nem pelo editor, que você citou. Até porque de todos os selecionados Haroldo de Campos e Décio Pignatari foram os que definiram melhor meu trabalho. Haroldo reclamou de a antologia ser "eclética demais". Não sei se é. Mas se for, foi intencional. Não sei se é boa ou ruim, mas eclética ela quis ser mesmo. E Décio queixou-se de ela atender a uma vaga entidade chamada o "mercado". Eu só fiz a antologia para isso. Sempre achei que tem gente demais fazendo e gente de menos lendo poesia no Brasil. A intenção original da antologia foi mesmo a de atingir um público que normalmente não lê poesia. O sujeito é atraído por esse truque dos 100 mais, dos 100 melhores, que sempre dá resultado comercial, vai lá, gosta de um ou outro poeta e compra uma obra dele. Não diria que isso seja um desserviço à poesia e à cultura no Brasil. Ou é?

O livro está dividido em categorias literárias que obedecem a uma certa cronologia. Não daria para se conciliar essa intenção didática com um índice remissivo, mais ágil na hora de se localizar determinado poeta?

Talvez. Tudo o que for feito para facilitar a vida do leitor será uma boa providência.

Você escreveu uma biografia da sua conterrânea Luiza Erundina, além de diversos livros de poesia e de bastidores políticos, boa parte vistos quando foi assessor de político. Hoje, é comentarista de um importante jornal. Essas funções todas te dão prazer ou se pudesse largaria tudo para ficar procurando rimas?

O ministro da Cultura, Francisco Weffort, depois de ler a antologia, me escreveu um bilhete dizendo que a prova de que o Brasil ainda tem jeito é um sujeito como eu, que dedica 24 horas por dia à crítica política, ainda acha tempo para se dedicar à poesia. Respondi-lhe que ele estava enganado. Na verdade, eu sou essencialmente um poeta e prosador e só faço análise política para sobreviver. Nem João Cabral de Melo Neto, que foi o maior poeta do mundo em seu tempo, conseguia viver de poesia, meu caro. Como eu, um bissexto de talento limitado, poderia almejar tanto? Acho que a resposta que dei a Weffort responde também a sua pergunta. Não responde?

Esta entrevista apareció originalmente en la revista Verbo21 (Brasil) http://www.verbo21.com.br/

 

© Suênio Campos de Lucena 2001
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

El URL de este documento es http://www.ucm.es/info/especulo/numero18/neumane.html