R. Leontino Filho    3    Poemas

 

Enigma

o homem decifra a noite
cores perdidas
no sem sentido das estradas
maciez e voz
apagando imagens

o homem decifra o espelho
metáforas duplicadas
no sem sentido das conversas
máscara e medo
espalhando suicídios

o homem decifra o homem
viagens selvagens
no sem sentido das mudanças
lança a morte
cobiçando cinzas

mesmo assim o homem habita
a noite
estrelas em mudança
estradas duplicadas
no sem sentido
das conversas selvagens

as cores, as metáforas, as viagens
pensando
a cegueira das feridas

o homem chora
cheira terrores
na inquieta maciez da morte

o homem guarda
grandes campos
na máscara cobiçada dos suicídios

do outro lado
o avesso do homem
tarde azul
c
          a
          i
          n
          d
          o

       

 

 

 

Lágrima

imaginar os passos
o som lento
a construção da tristeza

imaginar as dívidas
o ritual ancestral
a canção absurda da terra

imaginar os exílios
a saudade farta
a pátria em pedaços

no hemisfério dos olhos
a imaginação passeia
doce migração dos lares

no hemisfério dos olhos
a memória registra o arco-íris
larga solidão dos reinos

no hemisfério dos olhos
o poema desencarna
fria calmaria dos becos

a língua no hemisfério dos olhos
nem imagina as migalhas de culpa
cuspindo vícios
rachando cabeças
afogando sombras

a lágrima no hemisfério dos olhos
nem imagina os restos de sonho
moldando passos
devorando sentidos
borrando tristezas

imaginar todo hemisfério
é revolver o inverso dos olhos
tudo descontar, à revelia
separar pedaços de crepúsculo
misturar pousos
romper acordos

todo hemisfério é imaginação
inocência gasta
v a d i a

     

 

 

 


Ofício

os braços carregam a transparência dos beijos
acendem
guerrilhas
gozos
gastos

os braços descrevem a dádiva da carne
comprimem
suspiros
sopros
soltos

os braços aderem aos erros da amada
descansam
nômades
nortes
nunca

os braços dissolvem a resistência do coração
enfrentam
bússolas
barcos
benditos

os braços desmancham o princípio dos espaços
colhem
lágrimas
lugares
lentos

os braços tecem os venenos da alma
geram
tédios
tipos
tensos

os braços cavalgam longínquos cristais
furor desatado
nó resoluto
dos riscos
inadiável sentido fincado
no brilho do passado

pingos entrecortados
colisão de afagos
os braços
abraços e barcos
de adeuses
infinita nostalgia
hoje
rachadura

    

 

© de los poemas R. Leontino Filho, 2001
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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