Filosofando com o Martelo
(Um ensaio sobre o Espírito Livre)


Edilson Antônio Alves*
edilson@docla.zzn.com


 

   

"Nossos impulsos menos serenos são
perigosos unicamente quando são negados
ou incompreendidos. Quanto se evita este erro,
o problema de acoplá-los a um bom sistema social
pode resolver-se com ajuda da inteligência
e da boa vontade.
"
(RUSSEL. Autoridad y Individuo, 43, 1992)

 

Considerações Preliminares

Quando me refiro à Filosofia do Martelo, tento me respaldar na obra do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), grande questionador de sua cultura, no século XIX, como também dos ranços da humanidade, próprios do saber moral, burocratizado e escravizante.

A estruturação de seu pensamento está amparada numa concepção libertadora de existir, onde seu filosofar se assemelha ao fazer do martelo; destruir construções arcaicas e obsoletas que impossibilitam o reerguer de uma morada nova, para registrar com seus tijolos, uma história dionisíaca e potencializada.

Esta concepção filosófica, dentro da História alemã tem, já no século XVIII, um primeiro respiro, movimento este, basicamente juvenil, reagente a uma concepção universal e cosmopolita; muito evidente na Alemanha de Frederico II. Este processo cosmopolita visava burocratizar o Estado (cidades Estado, pois a Alemanha ainda não tinha a conformação geopolítica de um país) para que o mesmo pudesse vir-a-ser, de fato, um Estado forte e conquistador. Situação que vem a se concretizar só na segunda metade do século XIX, com a Guerra Franco-prussiana, contudo esta problemática não me interessa no presente ensaio, por isso não me aterei mais na mesma.

Tal movimento, com o nome de Sturm und Drang (Tempestade e Assalto), comungava ideais libertadores um século antes de Nietzsche. Assim, imagino que o mesmo tenha interferido, quiçá influenciado, o pensamento nietzschiano, como um todo.

São hipóteses que podem se confirmar em uma leitura mais apurada, destes dois momentos da História "universal" alemã, todavia não me impede de levantar algumas possibilidades, pois, como apregoa Nietzsche: "Para que exista o prazer de criar, para que a vontade de vida se afirme eternamente a si mesma, tem que existir, também, o ‘tormento da parturiente’." (NIETZSCHE. Crepúsculo de los Idolos, 23, 2000). E o prazer de criar se encontra, justamente, na despreocupação de convenções morais, sociais e políticas, sobremaneira, nas convenções intelectuais academicistas.

A diferença que se mostra, junto a estes dois momentos, seria a forma como Nietzsche encarou tal situação, levando até às últimas conseqüências suas concepções. Não é a toa que se forjou uma lenda ao seu redor: "Nietzsche matou Deus, mas não conseguiu carregar o cadáver!".

Defendendo a rebelião do indivíduo contra os valores convencionais, estes dois movimentos privilegiam o sentimento, em detrimento da razão. Conscientes de sua própria individualidade, priorizam o instinto, porém, sem relegar a razão ao vazio; conflito eviterno que enobrece a dialética do existir.

À luz dessas considerações, a atmosfera criada por Nietzsche conferiu a seus "tradutores" (pois, sua filosofia incita à várias representações cognoscentes) respirar um ar louco e genial. Dessa forma, seu perspectivismo se abre, flexibilizando o conhecimento e incutindo nestes tradutores, a saudável sensação de imparidade e extemporalidade – tão bem expressos na vida do filósofo –, características próprias do homem de espírito livre (neste ensaio, mais adiante, estarei detalhando um pouco mais a concepção espírito livre).

O experimentalismo, inerente ao homem de espírito livre, conforma a situação de devir e do eterno retorno do mesmo. Situação essa, que vai debruçar sobre o Ser, um caráter dialético e libertador, além de possibilitar-lhe humanizar-se, mas sempre retornando ao zero, tendo em vista que, o zero não é o vazio, senão o recomeço. Tudo isso reunido, configura no indivíduo a liberdade de poder questionar aquilo que ele questionou anteriormente, quebrando os dogmas de seu mundo cognoscente exterior. Demais, os dogmas de sua própria racionalidade momentânea.

Vejamos como Scarlett Marton definiu este experimentalismo:

"Em seus escritos, a intenção de fazer experimentos com o pensar encontra tradução em perseguir uma idéia em seus múltiplos aspectos, abordar uma questão a partir de vários ângulos de visão (..), refletir sobre uma problemática adotando diferentes perspectivas." (MARTON. Nietzsche, a Transvaloração dos Valores, 1993, 1996).

Essa quebra constante, esse eterno refazer-se acaba por mostrar a peculiaridade do martelo nietzschiano; seu filosofar se funde e desmonta a golpes de martelo.

As convicções espontâneas dos homens podem, neste contexto, se racionalizarem livremente. A vontade de potência do Ser de espírito livre, intercederá pela mutação constante dos valores humanos. Caráter este que confere ao mesmo a transvaloração de todos os tipos de valores, muito além de bem e mal.

Todavia, tal transvaloração só se mostrará possível quando o indivíduo assassinar sua cognoscência, racionalizada por valores externos (valores sociais e coletivos) e fazer brotar novas tonalidades de "cor", voltadas à sua individualidade – não pensemos individualidade como sinônimo de egoísmo, pois não é isto que o autor apregoa. E ainda, quando sua cognoscência estiver amparada no maniqueísmo das relações humanas, a supressão de valores como bem e mal pode ser encarada como o ponto de partida dessa mutação constante, tendo em vista que o indivíduo só se plenifica numa metamorfose ambulante.

Seguindo a ética da dominação constante, os princípios, que até o momento reinam imperiosos no cognoscível dos Seres, foram estruturados de acordo com a ética socrático-cristã, seguindo uma formação proposital e conformativa.

Esta ética, mencionada acima, tem, segundo o professor Caio César Próchno o intento "de menosprezar o corpo em prol da Alma, que, para eles [Sócrates e Platão], seria o centro absoluto de toda e qualquer racionalidade." (PROCHNO. Nietzsche e a Poética do Corpo, 2000), ou seja, quando Nietzsche propõe a inversão do socratismo, está propondo também o repensar dos valores racionais, pois, segundo Zaratustra "O ser próprio procura também com os olhos dos sentidos, escutar também com os ouvidos do espírito. E sempre o ser próprio escuta e procura: compara, subjuga, conquista, destrói. Domina e é, também, o dominador do eu." (NIETZSCHE. Assim Falou Zaratustra, 1998)

Neste sentido, para Nietzsche, não existe uma separação entre Alma (sentimentos, paixões e instintos) e Corpo (razão) – como fez Sócrates e, logo depois, seu discípulo Platão –, ambos (Corpo e Alma) têm que caminhar em conjunto, pois, um possibilita ao outro o eterno questionar.

Um outro questionamento, que notei nesta condenação da ética socrático-cristã feita por Nietzsche é referente à vida da Alma, ou vida após a morte, isto é, preserva-se o Corpo para que a Alma não sofra danações (esta última consideração, muito mais voltada para o cristianismo).

À luz dessas considerações, nota-se que as várias nuances de "imoralidade" e "falta de ética" foram forjadas para criarem um homem ideal e submisso. Não se mostrava interessante para as organizações dominantes da época, como também para as organizações eclesiásticas (tanto naquele momento histórico como no instante de agora), dar aos segmentos sociais considerados inferiores, capacidades cognoscentes libertadoras.

Em toda a História da humanidade, os grilhões mostram-se necessários e eficazes para disciplinar os "corpos". Sendo assim, quando dissolvermos as algemas e evadirmo-nos da gaiola, poderemos momentaneizar nossa razão, conferindo-lhe um caráter atemporal e anti-dogmático (o caráter atemporal da razão, se define por sua flexibilidade, neste contexto estaremos filosofando a golpes de martelo, quebrando todos os nossos dogmas e pré-conceitos e criando novos conhecimentos), para, logo em seguida, preconizar uma "raça" nova, com espírito livre.

A essencialidade humana deve estar travestida de uma vontade de potência, a mesma que nos acompanha já no nascimento, como primeira característica de nosso espírito. Esta vontade de potência se instrumentaliza como o fazer do Martelo, é ela que possibilita-nos dissolver "verdades", sobretudo quando estas estão condicionadas em valores convencionados, por isso, me refiro aos valores "inerentes ao homem cosmopolita e universal", também estou questionando-lhes.

Para a fundação do homem livre, o filósofo enumera alguns dados que poderiam possibilitar tal formação, contudo, sempre deixando claro que as fórmulas, até hoje estruturadas, devem ser o ponto de partida para a formação deste homem. De que forma isso acontece? Justamente a partir do momento em que nos utilizamos de tais fórmulas como ponto de partida para a dissipação das mesmas, ou noutras palavras; partimos das fórmulas para questioná-las, quebrando-as com o martelo nietzschiano.

Ademais, elucidarei com mais detalhes esta quebra a partir de agora, como verão a seguir.

 

Elementos Para a Fundação de um Novo Homem e com Espírito Livre

Ilustrando esta nossa indagação, nada mais claro que esta passagem da obra de Nietzsche, em que o filósofo demonstra com bastante veemência sua posição acerca destes novos valores.

Vejamos:

"Seja qual for o ponto de vista da filosofia em que hoje tomemos posição: visto a partir de cada posição, o caráter errôneo do mundo em que acreditamos viver é o que de mais seguro e firme nossos olhos podem captar: encontramos fundamentos e mais fundamentos, em compensação, que poderiam induzir-nos a suposições de que há um princípio enganoso na ‘essência das coisas’." (NIETZSCHE, Para Além de Bem e Mal, § 34, 1885/6., 1999)

Partindo do pressuposto de que nada em nosso universo está dado, a não ser nossas paixões e apetites humanos, temos a cabal afirmativa de que nossa representação imagética de mundo, em seu estado mais "essencial", senão primitivo, é algo circunscrito na orbe das emoções.

Representadas pela vontade de potência, essas paixões seriam o único e balbuciante gemido de nossa consciência, como também, de nossas "verdades" primeiras e figurativas.

"Viver – assim se chama para nós, transmudar constantemente tudo o que nós somos em luz e chama; e também tudo o que nos atinge; não podemos fazer de outro modo." (NIETZSCHE. "Prefácio a segunda edição", § 3, © 1886. In: A Gaia Ciência, 1999).

Ao deixarmos de ser o passado, arrastando a tagarelice moral de nossos antepassados, deixamos também de ser escravos de nossas veleidades e mesquinharias, visto que, ambas fazem parte da sordidez ilógica de um passado viciado pelo ranço positivista e, sobremaneira, egoísta.

Os homens que anseiam pela libertação integral e inalienável de seus iguais, devem buscar suas paixões e depurar seu espírito, porque o mesmo ainda esconde fragmentos de um tempo que não lhe pertence e que, no entanto, o conformou.

A ousadia de denunciar um passado irresponsável e absoluto é, ao mesmo tempo, a transmutação constante de tudo o que "essencialmente" somos, em nossa chama e luz internas.

Para tornar-nos aqueles que somos, temos de nos transformar em legisladores de nós mesmos, sempre buscando o novo como elemento capital de nosso presente e, com isso, aniquilar um passado não pertinente ao nosso ser, a saber: esse que adotamos a partir do viés eurocêntrico de nossos "Patrícios".

Somos os donos de nosso presente e, como tal, somos os senhores de nossa criação, contudo, ignoramos essa tão senhorial e valorosa virtude. Faz-se o instante de restaurá-la!!

As convicções que permeiam nosso passado ainda se mostram soberanas à conformação de nossa vida atual, ao mesmo tempo que nossa criação torna-se cada vez mais evidente. São armadilhas que enclausuram nossa vontade de potência e coíbem a chama germinal de nossos anseios.

O ensejo humano se encontra sob o jugo de pré-conceitos, e estes últimos sob a égide de um passado impessoal. Ademais, a partir do momento em que anseios e conceitos tornam-se pessoais e não mais se deixam sucumbir a um contraproducente e ilegítimo passado, a criação floresce e lança suas pétalas aos quatro cantos do vento, espalhando pelo bosque da existência, homens de espírito livre e, também, senhores de suas vidas, quiçá de seu futuro.

Assim, este indivíduo com espírito livre, teria em mãos uma instrumentalização, usando-a necessariamente, para suas atitudes transvalorativas, propondo possibilidades e enumerando erros; como "os quatro erros" que a humanidade insiste em repetir e que enumero a partir de agora.

Vejamos:

"Qual pode ser nossa doutrina? – Que ao homem ninguém suas propriedades, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e antepassados, nem ele mesmo." (NIETZSCHE, Friedrich. "Los cuatro grandes errores", In: Crepusculo de los Idolos, 1888, UFU, 2000, § 8.)

Neste interregno, a humanidade se vê coroada de Grandes Erros que acabaram corrompendo a razão, a ponto de incutir nos homens a servilidade de uma realidade distorcida, opressora e, acima de tudo, homogeneizante, não permitindo a este indivíduo a emancipação de seus atos, na qualidade de uma necessidade cabal de vida, esta última que se encontra em constante transmutação humanizante e revolucionária. "Ao homem, ninguém dá propriedade, nem incute doutrinas", visto que, seu espírito livre é senhor e condutor de seus atos. Espírito que proporciona vontade de potência ao Ser.

Segundo Nietzsche, estes erros se vêem expressos em quatro grandes eventos cognoscentes, a saber:

  • Erro da confusão da causa com a conseqüência;

  • Erro de uma causalidade falsa;

  • Erro das causas imaginárias e

  • Erro da vontade livre.

"Todo erro, em sentido, é conseqüência de uma degeneração dos instintos, de uma desagregação da vontade (..)" (Ibdem, idem: § 2).

A partir do momento em que as ideologias dominantes instituem modos de vida e estabelece verdades, o controle sobre os povos torna-se mais fácil. Para atingir este propósito, a razão se desvirtua, dando lugar a uma outra razão "aceitável, concebível e conformadora".

A artimanha psicológica mais usada é a estruturação das vidas humanas em causa e conseqüência, absolutizando conceitos e entronando verdades. Ademais, é construído uma re-trasnvaloração de valores morais e "comuns a todos", degenerando os instintos humanos e legitimando uma razão deturpada e errônea, por exemplo: a enfermidade de um jovem é culpa dele e de seus hábitos sedentários, esta é a racionalidade apregoada pelo "já instituído" (leia-se ideologia dominante), no entanto, sabemos que a má alimentação desse jovem é conseqüência única e inalienável de seu estado de empobrecimento e sua sensível exclusão dessa ordem instituída, ou seja, valores são transvestidos e absolutizados, o que é conseqüência torna-se causa.

Os feitos e atos dessa moral reinante fazem parte, a priori, de valores que foram instituídos com o advento de uma verdade "comum e absoluta", padronizada e sacralizada pela ideologia dominante. Tendo em vista os intentos de legitimação de um statu quo e a consolidação sistêmica de uma situação, ambos, também, recorrentes e direcionados por essa moral absoluta.

O ato da vontade se transforma em consciência absoluta a todos os pensamentos que, necessariamente, haveríamos de ter, ou noutras palavras, "criamos um mundo de causas, como um mundo de vontades". Todo nosso pensamento foi condicionado por causas a priori, e desconhecidas de nossa verdadeira cognoscência essencial. A empiria é o reflexo daquilo que quiseram que acreditássemos, logo, a legitimação de "nosso mundo de vontades".

Assim:

"A psicologia mais antiga e mais prolongada atuava aqui, [ela] não fez nenhuma outra coisa: todo acontecimento era para ela um ato, todo ato, conseqüência de uma vontade, e o mundo se converteu para ela em uma pluralidade de agentes, a todo acontecimento se lhe imputou um agente (um «sujeito»)." (Idem: § 3).

Quando o espírito se converteu em causa geral, nossa consciência (leia-se vontade) tornou-se conseqüência desse espírito absoluto e sistematizado, por isso, nós mesmos legitimamos nossa dominação.

As representações que foram engendradas por essa consciência a priori, e determinadas por uma situação dominante irão incutir, erroneamente, em nossa consciência em si, valores próprios dessa moral dominante; mesmo acordados vamos reproduzir tal ótica, ou melhor, a maioria de nossos sentimentos e vontades vão eternizar as causas imaginárias que, erroneamente, nos foram impostas como causas naturais, "surge assim uma habituação a uma interpretação causal determinada, a qual empecilha, em verdade, uma investigação da causa e, inclusive a exclui." (Idem: § 4). A razão se vê predada de sua racionalidade, servindo de arma para a legitimação dessa ordem exclusiva e escravizante.

A grande preocupação dos homens, quando querem, sempre foi tentar fomentar propostas e insinuações, com o intuito de desmascarar esta ordem e dessacralizar a moral absoluta e opressora. Muitos conseguem vislumbrar novos rumos, todavia, o sentimento de medo, recorrente do desconhecido, satisfaz um sentimento de poder ao mesmo tempo que obstaculiza a exploração desse desconhecido.

À luz dessas considerações, a aclaração e conseqüente elucidação da razão, figurada erroneamente, proporcionará ao indivíduo-agente uma sensação de emancipação psicológica, o instinto passa a agir, tentando dominar o medo do desconhecido e começa a propor uma nova ordem. O querer torna-se, então, prova de verdade e o prazer, irradiado dessas novas sensações, consegue libertar o homem de seus grilhões e de sua moral inconsciente e impositora. Nesse instante, o homem cria sua própria moral e destrona déspotas psicológicos, amparado no fundir-se com o Martelo.

No terceiro erro da razão dominante, o novo fica excluído como causa, se metamorfoseando em uma conseqüência necessária e libertadora.

Ao cair por terra, a moral e a religião dominante (leia-se razão dominante) se mostram hostis aos nossos olhos; nossa razão essencial começa a questioná-las e irrompe em nosso espírito o sentimento de emancipação, frente a estes papéis dominantes.

Finalizando, tentaremos levantar o erro da vontade livre, o mais danoso á humanidade.

Desde remotas datas, a doutrina cristã têm incutido nos homens livres essa vontade, também livre, segundo ela, a vontade livre é a legitimação da culpa e do pecado, a saber: o homem só se torna culpável, doravante o momento que assume sua vontade perante outros homens, sua liberdade está condicionada á sua culpa ante a humanidade. Esse homem cristão há que assumir seu espírito pecador diante da sociedade, assim, ele terá as benesses do "paraíso celestial" (novamente retomo à crítica nietzschiana da ética socrático-cristã).

Com essa premissa, o grande questionamento empreendido por Nietzsche é o seguinte: "(..) é absurdo querer direcionar seu ser até uma finalidade qualquer. Nós inventamos o conceito de «finalidade»: na realidade falta a finalidade (..), não existe nada que possa julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isto significaria julgar, parar, condenar o todo ... Porém, não há nada fora do todo!" (Idem: § 8).

Assim, ao apontar estes Quatro Grandes Erros da humanidade moderna, nosso interlocutor vem a público para questionar as atitudes eviternas dos seres humanos, intencionando uma retomada de nossa consciência essencial.

À luz dessas considerações segue o seguinte questionamento, até que ponto não estamos reproduzindo e legitimando uma ideologia que nos massacra diariamente, as vezes no formato da exclusão, outras no da inclusão?

Partindo do pressuposto de que o homem é responsável por seus atos e por sua consciência, por que então não questionamos este statu quo que nos oprime e nos conforma?

E ainda, filosofar a marteladas, como propõe o autor, poderia ser o ponto de partida para a construção deste novo indivíduo, que não se deixa massacrar em situação alguma, ao mesmo tempo que massacra os dogmas e as convenções.

A proposta que se apresenta tem estruturas cognoscentes ainda desconhecidas por muita gente, contudo, que esse desconhecimento seja encarado como o incentivo do conhecer. E que o Corpo e a Alma gritem juntos, para proporcionar ao indivíduo aquilo que lhe foi arrancado em seu seio primeiro (vontade de poder), pois, a racionalidade momentânea e espontânea conformaram sua estrutura física, enquanto o social conformou seus grilhões, impossibilitando-lhe de atingir seu espírito livre.

Espero que o amigo leitor busque suas próprias respostas (leia-se verdades). E faça como Nietzsche, ao bradar: Morte aos Filisteus e aos homens fracos de espírito que nos enganam e nos escravizam!!

30/03/2001

 

Bibliografia Consultada

DURANT, Will. A História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 2000.

MARTON, Scarllet. Nietzsche, a Transvaloração dos Valores. Rio de Janeiro: Moderna, 1996.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Más Allá del Bien y del Mal. Uberlândia: UFU, 2000.

____________________. "A Gaia Ciência" & "Para Além de Bem e Mal", In: Obras Incompletas. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

____________________. Crepusculo de los Idolos. Uberlândia: UFU, 2000.

PROCHNO, Caio Cesar. Nietzsche e a Poética do Corpo, UFU, 2000 (mimeo).

RUSSEL, Bertrand. Autoridad y Individuo. 1992.

 

* Edilson Antônio Alves. Historiador formado pela Universidade Federal de Uberlândia - Brasil.

 

© Edilson Antônio Alves 2001
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

El URL de este documento es http://www.ucm.es/info/especulo/numero19/martelo.html