O mar barrocamente inesquecível do ex - marinheiro esquizofrênico Arthur Bispo do Rosário

José Luiz Dutra de Toledo

Nomes de marítimos, de comerciários e de médios e altos hierarcas da oficialidade da Marinha, nomes de todos os lugares do mundo, nomes de coisas dentaduras, garrafas (quase todas de plástico), chinelos de pés de chinelo, imagens de macumbeiros, colares de pai - de - santo, telhas, bóias de isopor usadas na sinalização das entradas de portos, estandartes feitos de lençóis de hospícios, cetros e faixas parecidas com aquelas usadas em desfiles de Miss (desbotadas pela distância que nos separa dos anos 50 e 60), casacos e fardas de marinheiros totalmente bordados com nomes de pessoas que lhe eram inesquecíveis e com cores deslumbrantes de fundo enfim, um monte de cacos esteticamente simbólicos dispostos em painéis ou em objetos com suportes deslocáveis por rodinhas de tábuas de caixotes (infantís e móveis como as ondas do mar revolto do peregrino barroco Arthur Bispo do Rosário): tudo isso e muito mais vem sendo exposto por várias cidades brasileiras (de médio e de grande porte) pelo carioca Museu Bispo do Rosário. Estupefacção, perplexidade, êxtase, delírio, polêmica, escândalo, choques estéticos, glamour, charme, sabedoria, fragmentos fractais de fluxos irregulares e inusitados, caóticos e pós - caóticos, aleatórios, imprevisíveis e pequenas e representativas amostras formais do todo ou de todo um trajecto. Muito excitante e imaginativo o universo barroco, expressivo, dadaísta (como o seu vaso sanitário feito com tábuas de caixotes de maçãs argentinas tendo um pinico plástico ao fundo ou seu painel de solas de sandálias do povão: símbolos de caminhadas sem fim... ) deste genial esquizofrênico!... Muito...

Sergipano, carioca, cidadão do mundo, negro, branco, brasileiro, internacional, interplanetário ou lunático, Arthur Bispo do Rosário navegou e sintonizou-se com os ritmos de todas as ondas e fluxos que a liberdade e a loucura lhe proporcionaram e quando tenta registrar e expressar tudo isto torna-se tão impressionantemente barroco quanto os latinismos de Vieira e de Alphonsus Guimaraens e até mesmo lembra-me Aleijadinho, o isolado que se martiriza pela sua obsessiva arte.

Suas capas e mantos (como no caso dos Beatles) eram asas para seus vôos. Asas que, algumas vezes, tinham origem em seus oníricos lençóis. Como todo ser simbólico, Arthur Bispo do Rosário tecia por fios e teias elos entre o consciente e o inconsciente, entre a representação do real e o próprio real, numa tentativa artística e existencial de superar a sua esquizofrenia. Está aí mais um lance da sua genialidade humana.

II - Sobre a necessidade de se organizar a biblioteca em que trabalhamos:

Para que tenhamos um melhor manejo, um mais eficiente controle e uma melhor visualização do acervo da nossa biblioteca (visando um melhor atendimento do usuário e uma certa garantia de preservação, mais rápida localização das suas peças e uma idéia bastante aproximada do seu grau de desatualização) trabalhamos com a constante tarefa de organizar e apresentar os nossos livros, vídeos, pastas temáticas, fitas cassete e álbuns fotográficos.

Para tal, antes de tudo, precisamos ter noções conceituais básicas sobre os vários objetos e campos do conhecimento, horizontes interdisciplinares e intercomplementares (para que possamos especificar os temas e sub-temas de cada área) e , assim, podermos classificar as coleções de fontes bibliográficas (ou não) que constituem os nossos acervos, os conteúdos que socializaremos em nossos serviços de bibliotecários.

Uma biblioteca é um espaço de reflexão, de buscas curiosas e interessadas, nunca um depósito de coisas (como um armazém no qual se toma lá e se dá cá) e, menos ainda, um lugar para se copiar ou para se reproduzir fragmentos e trechos de obras literárias, artísticas ou científicas. O intento reprodutivista é plenamente realizado por máquinas e o nosso trabalho de pesquisa e de produção e / ou criação de novos conhecimentos não é mecânico, mas , sumamente, intelectual e epistemológico. Cognitivo. Nunca reprodutivista nem multiplicador de fragmentos do que já é sabido. Tendo em vista esta observação fundamental sobre o serviço de uma biblioteca e dos profissionais que nela trabalham, sua organização deve se dirigir à consecução ou à máxima realização deste papel e do nosso compromisso educativo e cultural.

III - O invencível morreu!... Que vergonha!...

Óh! Não é possível!.. Golias, o que aconteceu contigo, irmão?!... Será a Benedicta que te feriu de morte? Não posso acreditar!... Parece brincadeira ou uma gozação!... Ou sinal de novos tempos? Sei lá, não sei...

(14 de Novembro de 2001 - Ribeirão Preto/S.P. _ Brasil) .

IV- Observações não conclusivas:

Eu não acho que tenho andado com a cabeça baixa, na verdade tenho tentado proteger as vidas das formiguinhas que trabalham por onde caminho. (...) Quanto aos meus escritos é bom asseverar que não se tratam de confidências de um doente nem pretendo apresentar-lhes a mundi-visão de um doente, mas também não deixo de arranhar tais conteúdos, por que haveria de omiti-los?

 

José Luiz Dutra de Toledo; 49 anos e 11 meses; historiador, ensaísta, cronista, educador, bibliotecário, hemerotecário, defensor dos animais e da vida (acima de tudo). Mineiro que viveu no Rio Grande do Sul, em Minas e no Estado de São Paulo e viajou por mais de dez estados brasileiros e 3 países estrangeiros (Uruguay, Portugal e Espanha).

© José Luiz Dutra de Toledo, 2001
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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