As amigas en Nubosidad variable de Carmen Martín Gaite

Lélia Almeida*
Professora do Departamento de Letras da Unisc
(Universidade de Santa Cruz do Sul, Brasil)
lelialme@yahoo.com.br


 

   
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RESUMO

A genealogia e a amizade femininas têm sido temas constantes na literatura escrita por mulheres do mundo inteiro nas últimas duas décadas. Nas literaturas espanhola e latino-americana o fenômeno também é recorrente. O texto de Carmen Martín Gaite, Nubosidad variable é, sem dúvidas, um marco ficcional de referência para a representação da personagem feminina numa perspectiva de gênero, levando-se em conta o tema das amigas e do universo dos afetos femininos.

Palavras-chave: gênero, literatura latino-americana, literatura espanhola, crítica e teoria feminista, emancipação feminina.

RESUMEN

La genealogía y la amistad femeninas son temas constantes en la literatura escrita por mujeres del mundo entero en las últimas dos décadas. En las literaturas española y latinoamericana este hecho también es recurrente. La novela de Carmen Martín Gaite, Nubosidad variable, es, sin lugar a dudas, un marco ficcional de referencia para la representación del personaje femenino en una perspectiva de género, teniendose en cuenta el tema de las amigas y del universo de los afectos femeninos.

Palabras-clave: género, literatura latinoamericana, literatura española, crítica y teoría feminista, emancipación femenina.

 

1 Irmandade, sororidad, os díficeis caminhos da construção de uma cumplicidade

O livro que, sem sombras de dúvidas, inaugurou uma temática nova entre as escritoras mulheres, foi Nubosidad variable, da espanhola Carmen Martín Gaite1, e que trata da amizade entre as mulheres. Muito embora não seja o primeiro a tratar desse tema, é como se ela o colocasse em evidência num momento determinante e de forma inovadora, nos inusitados anos 90 quando todas as formas de afetos e relacionamentos estão sendo postas à prova, checadas, experimentadas, desconstruídas, e num momento que se convencionou chamar a terceira onda do feminismo, que se dá a partir dos anos 80.

Para Ana de Miguel, este momento do feminismo

[...] se centra en el tema de la diversidad de las mujeres (...) Este feminismo se caracteriza por criticar el uso monolítico de la categoría mujer y se centra en las explicaciones prácticas y teóricas de la diversidad de situaciones de las mujeres. Esta diversidad afecta a las variables que interactúan con la de género, como son el país, la raza, la etnicidad y la preferencia sexual [...] y, efectivamente llevando esta logica a su extremo tendríamos que concluir que es imposible generalizar la experiencia de cada mujer.2

Exemplo magistral destes tempos, o filme do também espanhol Pedro Almodóvar, Tudo sobre minha mãe, dos anos 90, talvez dialogue de forma anárquica, emocionante com textos como o da Gaite, sobre a complexidade das relações humanas, onde todos os estereótipos do feminino, masculino, homem, mulher vêm literalmente abaixo, onde as mães não são mães biológicas, os homens vivem como mulheres, as mulheres podem viver com outras mulheres e um travesti é o requinte da feminilidade, como se pode constatar no discurso da personagem Amparo sobre ser autêntica e verdadeira quando tudo nela/nele é postiço.

Tempos em que o tema das relações de amizade entre as mulheres deixa de ser vista como uma naturalidade ingênua, cheia de altos e baixos provocados muitas vezes por situações muito mais externas a elas do que em relação a elas mesmas. E que reforçam as máximas machistas de que as mulheres são todas iguais, reagem sempre da mesma maneira e que são todas amigas, ou, por outro lado, que as mulheres se detestam, se invejam, se enfeitam para competir umas com as outras e não para os seus pares masculinos, etc.

Num momento em que essas máximas estão sendo questionadas pelas próprias mulheres o tema das relações entre elas assume um caráter muito mais político, realista e por isso mesmo mais difícil de ser abordado, compreendido. A dificuldade talvez resida no fato de que as relações entre as mulheres assumem agora o caráter de um pacto, uma escolha, uma aliança. Longe da idéia inicial da existência de uma irmandade dos primeiros feminismos, ou de um desejo de solidariedade que se evidenciava - hoje sabemos - muito mais como uma retórica ou como metáfora do movimento feminista e menos como prática entre as mulheres, essas relações mostram-se hoje, na sua complexidade.

Elizabeth Fox-Genovese esclarece que a idéia de uma irmandade entre as mulheres (o termo em inglês é sisterhood, e em espanhol sororidad, de soror, no sentido de uma comunidade de irmãs, de iguais) se estabeleceu, nos primórdios do feminismo, na contrapartida da idéia de que a maneira masculina de viver, se relacionar ou fazer política, é individualista, racional e competitiva. As mulheres, ao contrário, lutariam por relações igualitárias, não competitivas, já que partilharam, ao longo dos séculos, experiências opressivas semelhantes. Assim, a idéia de uma irmandade se estabelece como

[...] a afirmação da solidariedade e semelhança entre todas as mulheres. À medida que essa concepção foi se revelando no interior dos anos 60 e início dos 70, ela passou a ser uma das mais poderosas armas do movimento de mulheres de classe média. Esses próprios grupos forjaram uma prática de irmandade ao proporcionarem um espaço psicológico no qual as mulheres podiam conhecer melhor a si mesmas através do conhecimento uma das outras.3

No entanto, a prática do próprio movimento de mulheres demonstrou a sua diversidade, as mulheres eram diferentes nas suas experiências relativas à classe social, etnia, raça ou sexualidade. A idéia de irmandade, construída a partir da necessidade de uma rede de apoio mútuo e em oposição ao modo masculino de ser, viver, ou fazer política, não se sustentava de forma vigorosa ,

[...] embora nem sempre de modo explícito, a noção de irmandade tem oferecido modelo e substância aos laços que nutrem, suportam, sustentam e valorizam as mulheres entre si.4

Tal procedimento, no entanto, negaria as diferenças entre as mulheres, as experiências das mulheres do Primeiro Mundo das dos países do Terceiro Mundo, das negras, das lésbicas, das negras com suas reivindicações específicas, das brancas-acadêmicas-de-classe-média, diferente das mulheres pobres-trabalhadoras-analfabetas. Assim, para a autora, a idéia de irmandade do movimento feminista funcionou como uma metáfora que evocava laços não competitivos entre as mulheres, baseada numa ética do cuidar e como uma retórica poderosa do feminismo ao conclamar todas as mulheres ao redor de sua causa e seus preceitos.

O desejo de uma irmandade ou de um pacto de irmãs talvez garantisse uma identidade entre as mulheres e a expressão de suas experiências. No entanto, distanciar-se da norma patriarcal nem sempre nos garantiu a descoberta ou valorização de sua contrapartida, uma norma, um dizer da experiência feminina revalorizada. Antônio Flávio Pierucci também se refere à idéia da irmandade, da amizade como uma naturalidade entre as mulheres, como uma utopia, uma quimera do feminismo. Para ele a " womanhood/sisterhood foi uma quimera, 'quimera e dissimulação' "5 que veio pôr fim à visão inocente de uma feminilidade única, essencial. Para ele, o feminismo, que, primeiro se apresenta como um movimento de igualdade, acima das diferenças, que depois se propõe como diferença/feminino/singular e num terceiro momento, descobre-se como o da diferença entre as mulheres,

[...] o momento atual é de tentativas, as mais diversas, tentativas de elaborar, modificar ou combinar estruturas conceptuais que possam dar conta da "multiplicidade feminina" (Evans, 1992), que elucidem o trabalho paciente de inventariar a multiplicidade (Veyne,1982) e as formas de multiplicação das diferenças "dentro".6

Já para a antropóloga mexicana Marcela Lagarde, a idéia de uma irmandade, longe de ser considerada uma naturalidade dada entre as mulheres, deve ser construída entre elas. A autora resgata a idéia de uma inimizade histórica entre as mulheres, gerada na ambivalência feminina. Elas seriam fiéis a um mandato patriarcal onde cada mulher é um inimigo em potencial da outra, disputando com as demais mulheres um lugar no mundo a partir do reconhecimento e da valorização masculinos. Para ela esse conflito, essa relação de inimizade, essa ambivalência se estabelece primeiramente entre as mulheres e suas mães, também desvalorizadas, depois entre seus pares, quais sejam, amigas, irmãs, filhas, parentes, colegas de trabalho, etc., e também consigo mesmas. Para Lagarde, a irmandade é política, fundamental entre as mulheres, englobando o movimento de mulheres em suas diferenças e semelhanças, que partiria de um esforço voltado à

[...] por desestructurar la cultura y la ideología de la feminidad que encarna cada una, como un proceso que se inicia en la amistad/enemistad de las mujeres y avanza en la amistad de las amigas, en busca de tiempos nuevos, de nuevas identidades. Las francesas (Gisele Halimi) llaman a esta nueva relación entre las mujeres, sororité, del latin sor, hermana; las italianas dicen sororitá; las feministas de habla inglesa la llaman sisterhood; y nosotras podemos llamarla sororidad: significa la amistad entre las mujeres diferentes y pares, cómplices que se proponen trabajar, crear, convencer, que se encuentran y reconocen en el feminismo, para vivir la vida con un sentido profundamente libertario.7

Assim, a relação das mulheres com seus pares, suas amigas, partindo da sua matriz primeira, o espelhamento da relação mãe e filha, desdobra-se numa relação onde as amigas, as outras reencontram a mãe perdida, a mãe afetiva, valorizada, recriando uma genealogia. Para ela,

[...] En esta relación, unas son el espejo caleidoscópico de las otras, que a su vez, lo son de otras, y así sucesivamente. Cada cual permite a las demás mirarse a través de la mirada y la escucha, de la crítica y del afecto, de la creación, de la experiencia.8

E assim se estabelece uma aliança forjada a partir de uma escolha, uma necessidade, um pacto afetivo e político, pelo qual

[...] Las mujeres podemos cuidarnos a nosotras mismas, lograr que la mirada diaria al espejo esté dedicada a reconocernos y la mirada a las cosas sea para mirarnos en ellas y nuevamente reconocernos. La herida fundante de la madre niña sin madre de la que nos habló Franca Basaglia hace años, sólo puede ser cicatrizada com la alianza entre las amigas.9

A própria concepção de irmandade usada nos primórdios do movimento feminista é agora revista, retomada.

Também Anna María Puissi reivindica um pacto de irmandade entre as mulheres, único capaz de aglutinar a experiência comum, baseada e iniciada na relação mãe e filha e que precisa ser ressignificada, revalorizada, já que a fragilidade dessa relação inicial deveu-se à submissão das relações sociais das mulheres às genealogias masculinas e à negação das genealogias femininas como fundamentais na construção identitária das mulheres. Segundo ela,

[...] precisamos de nuestras propias reglas de convivencia, para dar vida a un mundo común de las mujeres (Rich 1979); necesitamos un orden social y simbólico que nos corresponda y nos ofrezca medidas y criterios de orientación para nuestro pensar, juzgar y actuar com fidelidad hacia nosotras mismas. Un orden simbólico no construido como reacción ante el otro, pues esto nos mantiene todavía en el horizonte del hombre [...] Más bien un orden simbólico generado, autónomamente, por las mismas relaciones entre mujeres, y en primer lugar por esas relaciones de precedencia/descendencia que traducen socialmente el segmento genealógico madre/hija y que conservan su potencia simbólica, multiplicándola.10

Diferentemente da máxima masculina de que as mulheres são todas iguais e, portanto, sem valor, idéia na qual as mulheres acreditaram por longa data, submissas aos preceitos masculinos sobres suas práticas sociais e sua própria subjetividade, a idéia da irmandade, da necessidade das mulheres se relacionarem, deixa de ser, na atualidade, uma metáfora ou uma retórica, como definiu Fox-Genovese num primeiro momento e passar a ser um imperativo, uma necessidade de as mulheres se vincularem entre si. Para Ana María Puissi, em seu texto sobre como educar na diferença,

[...] las relaciones vinculantes y de dependencia entre las mujeres, que son necesarias para nuestra libertad individual y colectiva, pierden su carácter casual y de arbitrio y su exceso de carga psicólogica, porque responden a una auténtica economía de intercambio, de compromiso, de alianza, entre intereses específicos [...] de manera que la complicidad o la solidaridad de género se traduzca en un vínculo o pacto explícito, que los deseos o proyectos de una o de varias se precisen y se hagan visibles, y que de vez en cuando se declare cual es el planteamiento, el objeto del intercambio, y cuáles son las reglas y los sujetos del compromiso.11

Assim, a amizade feminina, longe de se originar de uma naturalidade baseada apenas na aparência de uma semelhança, é um pacto, uma escolha, a escolha de um vínculo, de uma aliança. Porque embora sejamos diferentes, temos experiências que nos irmanam e nos aproximam, de forma real ou intuitiva, como a experiência da maternidade, das experiências relativas a sexualidade, perda da virgindade, menstruação, menopausa, entre outras.

O tema das genealogias femininas nos romances contemporâneos - o fenômeno ocorre tanto no Brasil, como na Europa, América Latina, etc. - se constrói através dos diálogos entre mães e filhas, irmãs, avós e netas, entre amigas, através dos quais é possível refletir sobre a diversidade e a complexidade dos afetos femininos e sua expressão na literatura de autoria feminina das últimas duas décadas. A idéia da construção de uma genealogia realiza-se a partir da necessidade de uma cumplicidade inquebrantável entre as mulheres e que teria como origem o desejo de uma identidade comum, uma semelhança, uma parecença. Essa identidade, essa similitude aparece num jogo especular, num movimento de espelhos onde, por um lado, as imagens se refletem e, por outro, se desdobram.

É através desse movimento de repetição que se tem assegurada uma identidade comum, um jeito de ser e de sentir característicos e que garantem a genealogia, o sentido de pertencimento. Pertencer a sentimentos e experiências que só se explicam numa comunidade feminina, numa comunidade de iguais, formas de expressões que também buscam uma singularidade, um novo sentido para a leitura do mundo feminino e seus afetos. No entanto, muitas vezes é através da diversidade e mesmo das relações de hostilidade entre as mulheres e suas linhagens que se estabelece a genealogia. Há um movimento de negação que também é um movimento de inclusão, as minhas iguais e os nossos problemas e condutas que não queremos repetir. A identificação se dá num movimento de negar e transformar algo que é nosso, das muitas mulheres que repetem em gestos inconscientes e hipnóticos comportamentos que não desejam mais.

Reza a mística masculina que as mulheres não são solidárias entre si, que o sentido dos seus afetos mais ambivalentes têm como fim único e último competir pela aprovação masculina. Na contrapartida da hostilidade feminina, os homens, em suas ancestrais sociedades secretas e superprotegidas, são capazes de estabelecer alianças e pactos indestrutíveis, que vigoram ao longo de muitas gerações, e que se configuram em alianças quase sempre institucionais, sejam clubes de toda espécie, sociedades secretas, todas elas cheias de regras de admissão, permanência e exclusão.

No entanto, não se fala sobre as relações das amigas, das mulheres e suas outras, com seu universo feminino de afetos, que não é pequeno e que é absolutamente antiinstitucional. As mulheres dialogam, se confidenciam e passam a vida inteira orbitando ao redor da mãe, com ou sem inúmeras dificuldades e complicações, orbitando ao redor das irmãs, convivendo com as colegas de trabalho, as amigas, as tias, as avós, as filhas e as netas e das inúmeras outras figuras femininas com quem elas dividem uma existência inteira de favores, trocas, solidariedade as mais variadas e que as fazem conseguir carregar, de forma mais ou menos suportável o imenso universo doméstico tão trivial e banal para os homens, e para a esfera pública e tão sobrecarregado para as mulheres.

Vizinhas fazem parte desse mundo de pequenos favores e grandes confidências, terapeutas, babás, empregadas, amigas, etc. Esse mundo de dentro do mundo constrói ao longo da vida de uma mulher uma rede compacta e infinita onde as mulheres cumprem, umas para as outras, um papel fundamental, onde as mulheres, como as filhas de suas mães, as mães de suas filhas, precisam umas das outras.

Essa necessidade não provém simplesmente de um sentimento de que somos dependentes e necessitamos de cuidados extras, essa necessidade é vital, nesse ciclo das mulheres em movimento, onde o movimento de uma vai confirmando os desejos, as dificuldades e, principalmente, a coragem de uma para as outras, como se o que precisássemos, ao nos olharmos no espelho, fosse a afirmação de uma identidade, de uma parecença.

As mulheres escrevem sobre esta relação primeira, fundamental entre elas, o mundo da amizade entre as mulheres, suas diversas variações fazem parte de um mundo arcaico, do misterioso mundo da mãe e sobre o qual as mulheres e suas histórias têm tentado contar. Alguns desses romances têm averiguado de forma profunda este elo, este vínculo fundamental.

Mas sobre outros vínculos as mulheres também escrevem, a história das irmãs, das amigas, e só confirmam que as mulheres vêem nas outras e na sua relação de amizade entre elas - nem sempre fácil ou despojada de invejas, ódios ou competições - uma relação estruturante, no mais das vezes gratificante, recorrente na história e biografia das mulheres em geral. No entanto, não é errado afirmar que as histórias que nos são contadas pela literatura de autoria feminina dessas duas últimas décadas dão-nos o testemunho de uma diversificada constelação onde as relações de afetos entre as mulheres evidenciam narrativas em que a solidariedade, o amor, a admiração, o respeito e, sobretudo, uma grande amizade é a tônica.

A necessidade de reconciliação das mulheres com seus pares, condição essencial para a construção de uma identidade valorizada e legitimada é resgatada no ensaio de Francine Masiello, com outro nome diferente de irmandade, mas que segue uma mesma linha de significados, recorrentes, e que respondem a um desejo de genealogia, herança parecença. Ela reflete sobre o significado da relação de amizade entre as mulheres hoje:

[...] Que significa hoy la amistad entre mujeres? Qué pueden tener en común las amigas que se encuentran a falta de algo mejor sin caer en la cuenta de que sus risas en común durán más de veinte minutos con las militantes apasionadas que quieren hacer una de dos? No se trata de "uniones homosexuales com instintos coartados en su fin", como definía Freud al vínculo civilizador entre varones y que dio madera a la Iglesia y al Ejército. No es la pregunta por la propia femineidad la que lleva a las mujeres a las otras, tampoco la homosexualidad. Es aún un sentimiento sin nombre, de ahí el escándalo que sucita. No tiene aún historia como el de Fierro y Cruz, o el de Moreira y Julián. Es imposble de blanquear de erotismo por el mero hecho de que no hace jugar la genitalidad, ni de reducir a un lesbianismo tasado por un heterosexualismo exhausto. A veces se parece a un amor que da vida una y outra vez sin que haya nadie colmado ni nadie exangüe, que podría asimilarse a una palabra también nueva: mismidad. Pero vale la pena recordar la frase de Santa Teresa de Jesús: "Importa tanto este amor de unas com otras, que nunca querría que se os olvidase".12

 

2 Alguns exemplos de um mesmo desejo: as amigas na literatura de autoria feminina

Tema complicado entre as mulheres, o universo dos seus próprios afetos, a própria Carmen Martín Gaite, falecida em Madrid, em julho de 2000, aos 75 anos de idade, tinha suas dificuldades em concordar com a hipótese de uma irmandade, avessa ao que se convencionou chamar de literatura de mulheres ou literatura feminina ou que nome se dê, detestava a idéia do gueto, de ver seu nome em antologias femininas, em mesas de seminários somente com mulheres, achava que essa separação sistemática da literatura dos homens terminava por manter as mulheres numa situação sempre à margem, excluídas, vistas de forma secundária em relação a um cânone masculino.

O fato é que se formos acompanhar os textos publicados a partir dos anos 80 e 90 e que abordam esse tema - o da amizade entre as mulheres - e, principalmente, no âmbito da língua espanhola, tanto na América Latina como na Espanha, poderíamos dizer não, que o texto da Gaite foi um precursor - não podemos ignorar textos fundantes de língua inglesa, como Pentimento de Lilian Helman ou Sula da Toni Morrison, entre tantos outros, espalhados de forma irregular pelas décadas anteriores - , mas que o da Gaite foi o que melhor realizou este projeto temático, literário, convertido num verdadeiro topoi entre as mulheres escritoras, o tema das amigas e suas complexas relações, seus difíceis afetos.

Quando Elisabeth Badinter13 diz que o amor maternal é uma conquista das mulheres e não uma naturalidade, eu tendo a concordar que todas as formas de afetos femininos são verdadeiras conquistas políticas das mulheres, escolhas e que só agora, depois de muitas perdas e possibilidades de escolhas, e que as mulheres trazem essa questão para uma espécie de consciência. É como se Nubosidad variable realizasse uma síntese, a síntese de um desejo, de tudo o que as mulheres vinham vivendo até então. Separadas, divorciadas, desquitadas recentemente, misturadas com as mais diversas formas de afeto que transcendiam a norma única do matrimônio heterossexual, as mulheres viviam universos outros, onde amigos, amigas, filhos, filhas, terapeutas, vizinhos, amigos de bares, entre outros etc., passaram a constituir uma verdadeira teia de afetos e desafetos, encontros e desencontros que deram a tônica das turbulências da época.

Comparados com o texto de Gaite, outros textos contemporâneos que atualizaram o tema, como os das chilenas Andrea Maturana e Marcela Serrano, ou das mexicanas Elena Poniatowska, Angeles Mastreta, Sara Sefchovich, da argentina Liliana Heker, da cubana Cristina García , não só prepararam o caminho, como beberam da mesma fonte, parecem ter-se permitido percorrer um caminho sinalizado por todas ao mesmo tempo.

Como nos exemplos de Sonhos cubanos e As irmãs Agüero da cubana Cristina Garcia, que analisa as relações nem sempre amigáveis entre mães e filhas, onde a negação e a hostilidade também cumprem um papel importante, modelar, relações entre irmãs que se espelham de forma absolutamente antagônicas em relação a uma mãe desconhecida e distante, da mesma maneira Júlia Álvarez cria, através de um episódio histórico, o universo onde crescem e se desenvolvem a biografia de três irmãs que têm os destinos irremediável e tragicamente unidos na trama de En el tiempo de las mariposas, um romance que conta a história de três mulheres que ousaram lutar contra a violência política.

La casa de la Laguna, de Rosario Ferré, onde em diferentes planos da narrativa temos relações entre noras e sogras, avós e netas, mães e filhas, todas com o sentido de dar às personagens femininas um sentido de herança, linhagem, parecença, continuação e onde a própria casa cumpre um papel simbólico, central. La Flor de Liz , de Elena Poniatowska, privilegia tanto o tema das amizades entre as mulheres, como o das irmãs, mães e filhas, avós e netas, questionando o sentido do que seria uma trágica herança, através da qual a marginalidade feminina é vista também do ponto de vista do exílio e do sentir-se estrangeira.

A nicaragüense Gioconda Beli, nos romances La mujer habitada e Sofia de los preságios, também trata desses temas. Isabel Allende, em seu A casa dos espíritos, cria uma dinastia de mulheres cujos nomes evocam brancura e que traçam entre si uma herança. Laura Esquivel em Como água para chocolate mistura uma história de amor em que as irmãs, umas disputam entre si o amor do mesmo homem, outras se ajudam, onde a mãe é uma figura autoritária e a “nodriza”, uma figura maternal.

Marcela Serrano narra a relação entre as amigas e irmãs em Nosotras que nos queremos tanto e entre um grupo de mulheres em El albergue de las mujeres tristes. Andrea Maturana em El daño, dá voz a duas amigas, que se procuram no trajeto de uma viagem com um sentido absolutamente especular. Da mesma maneira, em Olvidando olvidos a protagonista de Adelaida Nieto, uma atriz dialoga com diferentes personagens femininas dramáticas para contar sua história e seus conflitos paternos. Margo Glantz, em Genealogías relata, através da história da sua família e da sua relação com a mãe, um pouco da história da imigração judaica no México. Liliana Heker, em El fin de la historia, conta a história de duas grandes amigas que têm seus destinos absolutamente alterados e suas vidas afetadas pela ditadura na Argentina.

A leitura dessas autoras latino-americanas contemporâneas mostra-nos que há outros grupos de afetos, vínculos de afetos importantes na vida das mulheres, diferentes do núcleo historicamente relatado - mulher-marido-filhos - e que nem sempre se centram especificamente nas relações entre as amigas, muito embora elas possam estar presentes e representar o núcleo principal e significativo: também são importantes as irmãs, as mães e as filhas, as netas e as avós, as mulheres e suas amas ou empregadas, etc.

Há quem diga que alguns desses textos que tratam especificamente das amizades femininas, foram cópias deslavadas, plágio mesmo do texto de Martín Gaite, mas poderia também dizer-se de outra maneira, dizer-se, por exemplo, que esse tema era imperioso na vida das mulheres e que Carmen Martín Gaite foi quem melhor o apresentou abrindo um caminho.

Quando um tema ou um jeito de contar uma história começam a se repetir, é necessário olhar o fenômeno com atenção, alguma coisa está querendo ser dita daquela maneira, de um determinado jeito, e aquele tema quer contar o pensamento, a preocupação ou o jeito de viver de uma época.

O texto da Gaite sintetizou um momento, uma conversa, um jeito de contar (não por acaso ela passou anos experimentando e especulando sobre a questão do interlocutor na obra literária, aliás, de forma única, o que dá a dimensão da criação de uma verdadeira poética mesmo dentro da sua ficção), um tema urgente para as mulheres, o de como elas se relacionam com seus pares, suas dificuldades, suas habilidades.

Biruté Ciplijauskaité, em seu livro La novela femenina contemporánea (1970-1985 - hacia una tipología de la narración en primera persona), afirma que, especificamente, a narrativa que envolve as mulheres em suas relações familiares com outras mulheres é um fenômeno recorrente e contemporâneo e corresponde a uma técnica que ela denomina de

[...] "espejo de las generaciones": Dentro de éstas, hay otros aspectos que llaman la atención, como la relación entre madre (o padre) e hija; el tema cada vez más importante de la maternidad presentado desde el punto de vista de la madre; la técnica muy interesante del "espejo de las generaciones" para mostrar cambio y continuidad en la existencia femenina. (La imagen del espejo sirve hoy casi siempre para desencadenar el proceso de concienciación.) En todas, la memoria tiene un papel importante y configura el discurso.[p.38]14

Este fenômeno e esta técnica têm como objetivo, nas ditas narrativas, em sua maior parte, o despertar da consciência feminina por parte da protagonista, na medida em que ela se compara com seus pares, compara sua vida e suas possibilidades com as de suas mães e avós e escolhe como projetar sua vida presente e futura. Têm um sentido de conscientização e de libertação de papéis sociais ou condicionamentos psicológicos que atrapalham o seu desenvolvimento como mulher, pessoa plenamente desenvolvida.

Este espelhamento, no entanto, este olhar-se, mirar-se, comparar-se com outras mulheres não se dá somente entre mães e filhas, como propõe Biruté Ciplijauskaité, dá-se, como se pode observar em inúmeras autoras latino-americanas contemporâneas, entre as mulheres, de diversas maneiras. E, muitas vezes, num só texto vemos contemplado o dilema em diferentes grupos. Tal constatação amplia a reflexão inicial deste trabalho, o tema da amizade entre as personagens femininas dos textos de autoras mulheres, para uma reflexão mais abrangente: a idéia da irmandade e o das relações entre as mulheres no universo ficcional, tendo em vista que esta constelação de relações é significativa na construção da personagem feminina e na aquisição de sua consciência como mulher, conhecedora de seus condicionamentos psicológicos, dos preconceitos culturais e desejos de libertação, através de sua vida e de seu discurso.

Aqui, o tema da genealogia feminina, crucial para a literatura produzida pelas autoras contemporâneas, se concretiza de duas maneiras: Carmen Martín Gaite, leitora de outras autoras resgata de forma inovadora o tema do universo dos afetos femininos e reconduz a discussão sobre o cânone feminino na literatura, do ponto de vista dos estudos de Gilbert e Gubar (1998) sobre a ansiedade da autoria em La loca del desván. Diferentemente do cânone masculino que, segundo Harold Bloom, é constituído por heranças e influências, o que criaria uma “angústia da influência” nos autores. Na hora de escrever e publicar, as autoras, segundo a leitura de Gilbert e Gubar, sofrem de uma “ansiedade da autoria”, representada no texto literário e mesmo na biografia de algumas autoras pela metáfora da “Louca do sótão”, metáfora de sentimentos de isolamento, inadequação, situações de clausura e que se refere tanto às dificuldades de criar, como de trazer a criação feminina a público e situá-la dentro de um cânone literário que a valorize, legitime e reconheça.

A importância desse resgate do sentido de uma genealogia na vida das mulheres, seja na hora de escrever, de criar, seja na trajetória das próprias personagens femininas criadas nesses novos romances, no caminho de novas tramas, é fundamental para a revalorização da figura materna na vida das mulheres, via única, segundo algumas teóricas feministas, para a construção de uma identidade íntegra, capaz de garantir experiências gratificantes na existência das mulheres:

[...] El discurso de la diferencia supone pensarse como sujeto sexuado femenino, es un nombrar el mundo desde nuestra parcialidad, nuestra imaginación. Una manera de hacerlo es entrando en un mundo que ha estado relegado hasta ahora a un segundo plano y es el mundo simbólico de la madre. Este mundo simbólico tiene su origen en la relación de la hija con la madre, relación que, en palabras de Luísa Muraro y el grupo Diótima (1992), falta en el patriarcado. Según Muraro el eslabón que une la relación con la madre y la configuración del orden simbólico es la palabra ya que la madre nos enseña a hablar aunque para algunos la lengua que hablamos sea la del padre. Es desde nuestra concienciación en la edad adulta como hemos de ser capaces de crear ese orden simbólico y podemos hacerlo de dos maneras, mediante la recuperación de la relación infantil con la madre y mediante el reconocimiento de su autoridad.15

 

3 Espelho, espelho meu, ai de nós sem as nossas amigas!

Nubosidad variable abre com uma epígrafe da italiana Natalia Ginsburg de quem Gaite em algum momento já se confessou fã absoluta. Aqui, a idéia do espelho, artefato feminino por excelência, através do qual trabalhamos o narcisismo, questionamos as parecenças ou diferenças, nos medimos com nossos pares, refere-se à unidade (ou à falta de unidade) do relato, do que vai ser contado e que tem a ver também com uma maneira fragmentada que as mulheres têm de contar suas histórias, cartas, diários, monólogos, a memória, expressão fragmentária da percepção de si mesmas:

[...]Cuando he escrito novelas, siempre he tenido la sensación de encontrarme en las manos con añicos de espejo, y sin embargo conservaba la esperanza de acabar por recomponer el espejo entero. No lo logré nunca, y a medida que he seguido escribiendo, más se ha ido alejando la esperanza. Esta vez, ya desde el principio no esperaba nada. El espejo estaba roto y sabía que pegar los fragmentos era imposible. Que nunca iba a alcanzar el don de tener ante mí un espejo entero.16

O tema do espelho é retomado por Rosiska Darcy de Oliveira, ao falar do Movimento das Mulheres e de uma cultura feminina. Para ela, existe uma diferença marcante entre a ambigüidade e a ambivalência, ambivalente é a pessoa que vive ou exprime a contradição e o conflito, ambígua é aquela que não consegue se dar conta do que lhe ocorre e identificar cultura feminina é um movimento ambíguo:

[…] O movimento de mulheres é hoje o espelho onde se reflete a ambigüidade feminina, benfasejo espelho que, tendo o papel passivo de receber a imagem, tem o papel ativo de devolvê-la. Esse espelho deve permitir à mulher que nele se contempla reconhecer seu rosto fragmentado, que se refaz desses mesmos fragmentos, insolitamente reencontrados, e que tem, nesse reencontro, seu enigma e desafio. Só esse espelho poderá tornar a ambigüidade, inscrita nos fatos e transcrita no psiquismo feminino, visível àquela que a vive, abrindo assim caminho para sua transformação em ambivalência assumida, consciência da contradição do sim e do não, das tensões que decorrem desse sim e desse não, da paralisia que se instala entre eles. (p. 89)17

Segundo a autora, o Movimento Feminista encorajou as mulheres a escrever. Ela acredita que a presença do feminino na literatura não é delimitável senão como crise e o que se chamaria de feminino na literatura teria a ver com as genealogias:

[…] Nas mulheres que escrevem hoje vivem as mães, as avós que esconderam diários, vive também a experiência do livre exprimir-se, assim como vive ambigüidade face ao que se está sendo. Nas mulheres que estão escrevendo vive uma ancestralidade feminina que forma com a experiência andrógina de hoje uma coisa sem equivalente que aliás, não se repetirá. Talvez seja essa coisa que estamos chamando de feminino na literatura. (p. 130)18

Duas amigas, Sofía e Mariana, se reencontram inesperadamente numa exposição de pinturas e decidem escrever-se cartas, retomando assim a amizade da infância adiada, perdida no tempo ocupado e exigente da vida adulta. A interlocução se dá entre o diário de Sofía, um caderno de colagem, e as cartas de Mariana, que vão-se transformando, as cartas em diários, os diário numa longa carta que é o próprio romance. Assim, o espelhamento, o desdobramento das parecenças e diferenças se dá também na medida em que ora uma é receptora e a outra é emissora, e depois os papéis invertem-se novamente, num movimento através da qual, uma ocupa o lugar da outra, se parece com a outra, poderia ser como a outra.

As personagens se comunicam através da escrita, escrevem uma para a outra sobre suas lembranças e sobre a atualidade de suas vidas em crise. A genealogia feminina aparece também como nos demais textos citados, na sua forma característica, - as complexas relações entre mães e filhas e avós - num diálogo de identidades e heranças e que se mostra nas suas dificuldades e espelhamentos, os afetos entre essas figuras naquilo que têm de mais ambivalente e essencial: a figura materna é um modelo que deve ser seguido e também um modelo a ser superado, recriado, transformado, para que o desdobramento das identidades se realize. Em Nubosidad variable, a genealogia feminina clássica na literatura de mulheres, a tríade mãe-filha-avó, surpreendente em Gaite, ressaltando a figura materna de Sofía, em sua humanidade, suas contradições, - muito históricas, aliás - desdobra-se para o eixo das amigas, quase irmãs de tão próximas, desejosas de intimidade e identidade. A retomada da relação entre mãe e filha, mesmo póstuma e que aparece como um episódio fantástico no texto, num sonho, numa aparição, se constitui no perdão necessário para que as rupturas aconteçam e a inteireza da identidade se constitua. Como reflete Mariana :

[...]Tu vida, aunque sólo la atisbo a través de una rendija, está claro que lleva un ritmo distinto de la mía. Y es que hemos crecido. Crecer es empezar a separarse de los demás, claro, reconocer esa distancia y aceptarla. (p. 57)19

A história das duas amigas que se reencontram num momento crucial da existência de ambas, a maturidade, a decisiva maturidade e revêem, numa contabilidade muito própria o que foi feito, o que deixaram de fazer, porque determinados sonhos foram deixados para trás, e de que maneira é possível resgatá-los, retornar ao entusiasmo dos sonhos primeiros, os mais próximos a nós mesmos. Uma é psicanalista, a outra é escritora, ambas têm a crença no poder inabalável, curativo e transformador da palavra, e é por isso que o livro é um epistolário, onde a história de vida das duas vai ser revisitada, revista, recontada, para ser reconstruída. O pacto entre as duas, explicitado por Mariana, segue uma tradição entre ambas, a resolução de comunicar-se primeiramente por cartas, cautelosamente:

[...] Ya vendrás a verme algún día, espero. Aunque mejor no proyectar nada. De momento, a lo escrito se contesta por escrito. Era otra de tus reglas de oro, y lo debe de seguir siendo, porque no me mandas el teléfono. Claro que yo podría buscarlo, y de hecho lo he buscando mirando en la guía de calles. Mi primer impulso ha sido llamarte para decirte que vinieras, luego me he dado cuenta de que no, de que aún puede ser quebradizo el suelo que pisamos. Esta cautela previa de lo espitolar me parece saludable. (p.23)20

A crise instalada na vida das duas é revisitada através de um diálogo que só as amigas são capazes de suportar, cuidar, dividir. Mariana, a psicanalista compara o momento da crise àquele em que percebemos nossas resistências e condicionamentos como tubos de um encanamento sólido, de uma construção rígida, e que num dado momento não nos servem mais:

[...]Ahora sé por mis estudios y por confidencias del diván que las cosas que no se aclaran a su debido tiempo van formando como un muro de escoria porosa que enseguida se empieza a solidificar hasta que al final no hay piqueta que lo derribe. La pared de mampostería, sí, exactamente eso. Un dique fraguado con cemento de cobardía e inercia, que acaba impidiendo el paso a una relación antaño transparente. Se obstruyen los conductos de la tubería y se va almacenando por dentro mucha mierda, aunque no lo sepamos porque tarda en oler. Lo malo, además, de esas tuberías del alma es que se localizan mal y que no sirve cualquier fontanero, tiene que ser uno muy especializado. (p.25)21

Aos sonhos e os afetos que não servem mais, como roupas que há muito deixaram de servir, e de que, por estranhos hábitos e tristes acomodações, não nos desfazemos, nos apegamos ainda mais numa mistura de culpa, acomodação e sentimentos de desvalor. Os sonhos que esquecemos que sonhávamos, como era mesmo que se queria ser, sentir, como era mesmo que se sonhava quando se achava que sonhar era importante, era mais importante que viver? As duas, colocadas no meio do caminho de suas vidas, quando tais questionamentos são inadiáveis, antes que o corpo comece a morrer por nós nas suas doenças que são criativas metáforas de ausências e carências, se reencontram e colocam uma na mão da outra, outra vez, uma vez mais, os sonhos perdidos e o afeto necessário, como uma licença para dizer que é importante ir em frente, continuar, que há mais mundo pela frente, apesar dos nossos fantasmas e medos e fracassos. E que é mais fácil a afirmação de uma identidade comum, quando nos aceitamos nas nossas diferenças e especificidades, porque ainda precisamos muito umas das outras e porque o mundo está longe de ser um lugar fácil para as mulheres.

A amizade entre as meninas começa de forma muito próxima, íntima e, ao mesmo tempo, selvagem. Seja de que maneira for, o universo feminino é sempre muito mais interno que externo, diferente da amplidão e das regras de um jogo de futebol, por exemplo. Muitos são os descaminhos que fazem com que se perca essa proximidade, essa intimidade, um mundo onde as figuras femininas vão perdendo a importância , o valor, seja real ou simbólico, não contribui muito para que nos sintamos melhores ou diferentes.

A literatura de Carmen Martín Gaite, entre outras autoras, resgata a importância dessa proximidade identitária, quentura nas mãos, riso solto de meninas alegres, ainda sem rédeas, alegria do corpo que brinca, cabelos soltos numa tarde de vento, de velocidade, correrias, um mundo enorme, uma alegria maior ainda que precisa ser lembrada, que precisa ser resgatada.

 

Considerações finais

O tema da amizade feminina foi resgatado por autoras do mundo inteiro nas últimas duas décadas e popularizado pelo cinema em sucessos como os Como água para chocolate, A casa dos espíritos, Júlia, Tomates verdes fritos, A colcha de retalhos, O clube da felicidade e da sorte, O clube das desquitadas, Sonata de outono, A partilha, alguns deles baseados em livros citados neste trabalho. Evoca-se uma necessidade imperiosa de as mulheres revisitarem suas relações afetivas com as outras mulheres, desdobramentos irrecusáveis das suas relações primeiras com mães, avós e outras cuidadoras. As ambivalências, contradições e dúvidas advindas dessas relações são fundamentais para a construção de um processo identitário com o qual as mulheres serão capazes de reivindicar para elas e para sua genealogia, filhas, netas, um mundo mais justo, mais humano, um mundo mais humano para elas e suas corajosas tribos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Notas:

[1] GAITE, Carmen Martín. Nubosidad variable. Barcelona: Anagrama, 1992.

[2] MIGUEL ALVAREZ, Ana . “Movimiento feminista y redefinición de la realidad”.

[3] FOX-GENOVESE, Elizabeth. Para além da irmandade. Estudos Feministas. Florianópolis, n.0 ,p. 31-56, 1992.

[4] Idem, p. 37

[5] PIERUCCI, Antônio Flávio. Ciladas da diferença. São Paulo: Editora 34, 1999.

[6] Idem, p. 149.

[7] LAGARDE, Marcela. Hacia una nueva cultura feminista: Enemistad y sororidad. Memoria, México, 1989, 28:24-46.

[8] Idem.

[9] Idem.

[10] PUISSI, Ana Maria. “La pedagogia de la diferencia”
http://www.creatividadfeminista.org/artículos/feminismo

[11] Idem.

[12] MASIELLO, Francine. “Conhecimento suplementar: queering o eixo norte/sul”. Estudos Feministas, Florianópolis, 2000, v.8,n.2.

[13] BADINTER, Elizabeth. Um amor conquistado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

[14] CIPLIJAUSKAITÉ, Biruté. La novela femenina contemporánea (1970-1985):hacia una tipología de la narración en primera persona. Barcelona: Anthropos, 1988.

[15] CARBAYO-ABENGOZAR, Dr. Mercedes. A manera de subversión: Carmen Martín Gaite. Espéculo. Revista Literaria de Estudios Literarios (Universidad Complutense de Madrid) 1998. Ver também MURARO, Luísa. El orden simbólico de la madre. Madrid: Horas y Horas, 1992.

[16] GAITE, Carmen Martín. Nubosidad Variable. Barcelona: Anagrama, 1992, p. 3.

[17] DARCY DE OLIVEIRA, Rosiska. Elogio da diferença. O feminino emergente. São Paulo: Brasiliense, 1981.

[18] Idem.

[19] GAITE, Carmen Martín. Nubosidad variable. Barcelona: Anagrama,1992.

[20] Idem.

[21] Idem.

 

* Professora do Departamento de Letras da Unisc (Universidade de Santa Cruz do Sul), Mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS, doutoranda em Literatura Hispanoamericana pela Universidad Nacional de Cuyo.

 

© Lélia Almeida 2003
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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