A boa questão de agora:
O papel da educação na sociedade tecnicista

Jorge Lucio de Campos
Escola Superior de Desenho Industrial
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ESDI/UERJ)


 

   
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RESUMO
O crescente fascínio que as novas técnicas e tecnologias vêm exercendo sobre as sociedades contemporâneas - fascínio que as faz serem amiúde tratadas como práticas e saberes autojustificáveis - pode conduzir aquelas sociedades a um perigoso embotamento simbólico em relação a si mesmas, ou seja, aos seus códigos, valores e potencialidades mais elementares. Nesse contexto, uma educação emancipatória pode vir a exercer um papel decisivo para uma retomada de consciência relativamente ao problema. Isto deverá acontecer, sobretudo, mediante a atuação de educadores-pensadores aptos a fornecerem os subsídios conceituais mínimos para a referida retomada.
Palavras-chave: Educação, cultura, tecnologia.

ABSTRACT
Title: The good question of today: The role of education in a technicist society
Author: Jorge Lucio de Campos
The increasing fascination exerted by the new techniques and technologies on contemporary societies - fascination that treat them like self-justifiable practices and knowledges - can drive those societies to a dangerous symbolic unawareness regarding themselves, that is, to their most elementary codes, values and potentialities
. In this context, an emancipative education may play a decisive role for a critical reconsideration of the problem. This might happen, above all, by the performance of ‘thinkers-educators’ able to provide minimum conceptual foundations for that reconsideration.
Keywords: Education, culture, technology.

 

“A história da verdade - do poder próprio aos discursos
aceitos como verdadeiros - está totalmente por ser feita”
Michel Foucault

 

1

É inquestionável que uma discussão se tornou imperiosa nos meios pensantes (e mesmo nos não-pensantes) do mundo inteiro: a que diz respeito aos reflexos - ontopsicológicos, socioculturais, poético-estéticos e econômico-políticos - dos avanços tecnológicos sobre o ‘jeito humano de ser’. Seja como for, é uma tentação difícil de evitar: na era das redes1, das virtualizações2 e dos simulacros3, as técnicas estão por toda parte e se infiltram até mesmo em nossas frestas mais íntimas, demarcando ali novas territorialidades, se abalizando como os efetivos pressupostos - quase que como o único parâmetro - de nossas ações presentes e futuras. De um modo ou de outro, jamais se esteve tão fascinado com a parafernália tecnológica, ou pior: jamais se esteve tão à mercê da ordem turbulenta de suas derivações intrínsecas.

E este fascínio é tanto, diante de um fenômeno que surpreende tanto por sua alta capacidade de regeneração e revigoração, que uma quantidade cada vez maior de pessoas se entrega, de corpo e alma, a um perigoso jogo (amiúde de cartas marcadas) de instabilidade simbólica. Por um lado, é certo que variegados mecanismos de formação profissional estão sendo ativados neste fin-de-siècle, aumentando bastante as expectativas de uma inserção justa no mercado de trabalho - do mesmo modo que a telematização do socius, em sua estreita vinculação com os atuais termos de interlocução propostos pela linguagem digital, altera, num nível sempre atraente, tanto os efeitos de superfície quanto as grandes categorias da subjetividade contemporânea. Por outro lado, também é certo que, como bem alertou Foucault4, um número crescente de dispositivos silenciosos de exercício da autoridade estão sendo disparados no calor da hipertrofia, em curso, do binômio técnica-poder (com a conseqüente atrofia da instância ética).

Pondo um pouco de lado a questão de saber se, como sugere Lévy5, tal quadro favoreceria a constituição libertária de uma humanidade esteada - em sua transição para uma sociedade dita tecnodemocratizada - por uma inteligência coletiva6, com efeito, é notório que novos paradigmas de aquisição de conhecimento e de constituição de saberes alimentam nossas expectativas relativamente à chegada de um era marcada (enfim?) pela emancipação e pela consciência-de-si. Outros ainda (que Nietzsche, de bom grado, associaria aos perfis do profanum vulgus e do homo docilis) vão além disso e quase que deixam, por conta disso, regular o seu próprio destino (e o de sua prole) por aquela instabilidade simbólica, acreditando fazerem o que é certo. Afinal de contas, para elas, já não resta dúvida de que o tema da superação de nossos limites pela sofisticação técnica é, de fato, o assunto dos assuntos, a discussão pervasiva, a coqueluche oportuna de nosso século...

É compreensível que alguns respirem aliviados diante desse momento emblemático em que, já galgados todos os degraus carcomidos da escada do progresso, enfim se atinja a cumeeira, sendo razoável regalar-se com isso. Tratar-se-ia, quem sabe, de um novo otimismo leibniziano fendido em duas mentalidades muito recorrentes hoje em dia, se assemelhando o processo, para a primeira delas, a uma espécie de ‘frutescência’, ou mesmo ao apanhamento de uma ‘semeadura’ iniciada não há muito, mas implementada, decerto, com inegável intensidade, à custa de muita paciência, desprendimento e resignação... Já para a segunda, tratar-se-ia antes de um acontecimento sinuoso, porém inexorável, de pouco adiantando qualquer aversão ou lamúria de nossa parte, pois este se tem dado (e continuará a se dar) assim, de qualquer modo, cabendo a cada um de nós (ao menos aos sensatos e despertos) relaxar e aproveitar a positividade da situação.

A primeira mentalidade - qualificada, com conotações inteiramente distintas, por posicionamentos tão antípodas quanto os chamados ‘tecnofílicos’ e ‘tecnofóbicos’7, de esperançosa - não seria, na verdade, nem um pouco menos preocupante que a segunda, qualificada, dentro da mesma lógica de raciocínio, de resignada. E a coisa não pararia aí, existindo, obviamente, um fieira de outras atitudes possíveis, também recorrentes, de aposta nessa inserção do elemento técnico-tecnológico no âmago de nossa existência, com destaque, v. g., para a oportunista e a alienada (semi-invisíveis sob a lente míope ‘tecnofílica’, porém excessivamente notórias sob a lupa hiperbólica ‘tecnofóbica’) as quais poderemos abordar melhor numa outra oportunidade.

 

2

Embora haja convicção, em relação a essas novas tecnologias intelectivas, de que seja imenso o seu potencial de transformação das subjetividades - ou até por isso - o que importa no momento (que também é o momento deste ensaio) é que, mais do que nunca, urge ir além do ‘como’ (ou, do que dá no mesmo, da vertigem das narrativas fáceis e do júbilo das visões panorâmicas) e enfrentar questões bem mais ácidas e sisudas nelas mesmas, que envolvam os malditos ‘por que?’ (maldito na época que corre, mas benfazejo em outras ocasiões) e ‘a troco de que?’, quando se trata de efetivamente avaliar, com a sinceridade e a responsabilidade devidas, uma questão tão vital quanto esta. Como não poderia deixar de ser, a influência da velocidade tecnológica sobre a educação e seu adequado papel na equação ´ensinar-aprender´ é um assunto que vem despertando um progressivo interesse na academia. Seria em função disso que a exata questão de agora, a inevitável questão de agora, a boa questão de agora, é a da técnica... sendo, por outro lado, um arriscado equívoco pensá-la isoladamente, ou seja, fora de um contexto bem mais amplo.

Entretanto, mais do que sobre os saberes e práticas técnicas propriamente ditos ou sobre os objetos técnicos8, como resíduos que são daqueles saberes e práticas - amiúde surpreendentes e reluzentes - , deveríamos refletir sobre o alcance e o significado (assim como se faz diante de um enigma e de suas imanentes tortuosidades) desse apreço acrítico-contagioso pelas tecnicidades-nelas-mesmas que nominam de tecnicismo ou tecnologismo. Deveríamos nos entregar a um mapeamento genealógico sobre o que move (e tem movido nos últimos tempos) as suas seguidas desfigurações e reconfigurações. Antes de mais nada, é preciso determinar que forças estão sendo, seqüencialmente, tensionadas no horizonte desse contexto. Sabemos que, em nenhum outro momento histórico, o capital cognitivo expressou tão bem a rivalidade, posta intencionalmente em prática, entre os multifacetados sujeitos sociais em sua radical (porém inaparente) interferência não só na utilização epidérmico-cotidiana, como também no próprio enraizamento ´imaginário´ (em nossas sensibilidades individual e coletiva) daqueles objetos técnicos.

Não são poucas as configurações (ou, como prefere Lévy, os agenciamentos sociotécnicos)9 que as tecnologias podem assumir num determinado momento de seu deslanchamento. É sabido que vivenciamos, agora, talvez o mais agressivo e insolente daqueles momentos. Mas quais seriam exatamente aquelas configurações? Seria viável determiná-las, levando-se em conta - como se faz necessário hoje, mais do que em qualquer ocasião anterior - que o caos e o acaso também influenciam, e muito, tal processo? Quanto mais a consciência tecnológica amadurece, mais ela se dá (ou, ao menos, deverá vir a se dar) conta da ingerência de ambos sobre os fatos. O que isso poderá representar? O que isso representa, agora, para nós? Em que medida o tecnicismo, enquanto enredo amplamente explorado pelos meios de comunicação de massa, poderá continuar nos desviando de uma correta reflexão sobre seus usos e sentidos? A quem interessaria, de perto, a atual cruzada disseminadora da hipertrofia técnica? A anodinização gradual do pensamento discursivo pelas imagens resultará, verdadeiramente, em que? O que pensar da onda planetária de virtualização10, e de seus resultados na esfera da sociocultura?

Estas são questões que devem ser, essencialmente, colocadas antes, juntamente com outras que, apesar de seu maior apelo, não devem ser consideradas geneticamente secundárias - sobretudo graças ao “alucinante distanciamento entre a natureza dos problemas colocados à coletividade humana pela situação mundial da evolução técnica e o estado do debate ´coletivo´ sobre o assunto, ou antes do debate mediático”11. Entre elas estariam, por exemplo: toda técnica (ou tecnologia) é, necessariamente ´boa´ ou ´má? Para além do forçoso reducionismo dessa dicotomia, poderia ela ser ambas, ou seja, simultaneamente boa e má, dependendo do contexto? Ou antes, não sendo nada disso, encarnar, pura e simplesmente, um procedimento ´neutro´? Deveríamos rejeitá-la em bloco ou a priori aceitar suas peculiaridades?

A seu propósito, pode-se dizer que várias vozes inteligentes, contrapondo-se ao grande silêncio reinante, se já não as colocaram antes, o estão fazendo agora e, acertadamente, com a contundência adequada. Muito já se falou da ruptura ‘apocalíptico-irracionalista-revolucionária’ sustentada pelos (pós)-filósofos pós-modernos12 e pós-estruturalistas cujas dicções tem se caracterizado pela eleição de um malin génie, causador de todos os males que ora nos assolam. Seria o caso da ‘morte do autor’ e da ‘textualidade do mundo’ exploradas à exaustão por Derrida13, do ‘desaparecimento do real’, hipótese cardial das propostas de Baudrillard14, da ‘teoria do pânico’ de Kroker e Cook15 e mesmo das ‘obras derivantes’ e ‘peregrinações do sentido’ investidas, principalmente, pelo último Lyotard16, além do tema das interações entre a ‘velocidade tecnológica’ e o ‘aparato estratégico-logístico-militar’ e, ainda, entre os ‘sujeitos individualmente tomados’ e o ‘Estado político’ na dromologia de Virilio.17

Para outra dessas vozes, a da historiadora da ciência (bióloga primatologista de formação), Donna Haraway18, urgiria sim, prioritariamente, acabar com a ilusão - arraigada em nossas cabeças modernosas - das ‘técnicas neutras’, meramente ‘instrumentais’, uma vez que qualquer uma delas, necessariamente, se dá numa associação direta, velada ou não, com um contexto mais amplo, em parte determinando-o, em parte sendo por ele determinada. Segundo ela, assim como o homem sempre se colocou no cerne (como fundamento integrante) de suas realizações, tudo o que ele vem realizando também passou a ser parte dele, passou a necessariamente compô-lo. O que significa, em outras palavras, que o homem se faz e desfaz na simultaneidade do que ele realiza e desrealiza, seja pela via técnico-tecnológica seja por qualquer outra.19

Isto posto, pode-se afirmar que, nas atuais circunstâncias, o fenômeno técnico desponta como bem mais do que um pormenor anônimo da configuração imaginal do socius, aquela na qual se delinearia a possibilidade de um interfaceamento efetivo entre o homem e o universo. Por outro lado, também não parece restar dúvida de que, presentemente, a técnica é uma das dimensões mais representativas, queiramos ou não, lamentemos ou não, de nossa atual condição antropológica e de suas regras de autotransformação. A paulatina hibridização entre o dado humano e o inumano, entre o homem e a machina, entre o estado de cultura e o estado de natureza, agencia ou, quando nada, projeta codificações inéditas de condições-de-subjetividade e planos-de-subjetivação. A impregnação, cada vez mais vertiginosa, das várias facetas da vida social pelas marcações ‘frias’ do maquinismo generalizado, assim como deslocamentos menos visíveis, neste sentido, ora ocorrendo em nossa esfera intelectual, obrigam-nos a reconhecer, é preciso voltar a afirmar, a técnica como um dos mais importantes motivos filosóficos e políticos da atualidade. A nossa própria compreensão do que seja o mundo passa, obrigatoriamente, por aquilo que é transmitido e ‘permitido’ (enquanto sentido) pela mídia e pelas redes eletrônicas (em minha opinião, o mais recente e eficaz, porque o mais bem dissimulado, de todos os MCM)20. Porém como analisar, com um mínimo de firmeza, as sinceras conseqüências de nosso contato íntimo com esse novo corpo sem órgãos, ainda por demais instável e imprevisível, que chamamos ciberespaço?

 

3

O papel dos MCM dentro desse processo vem sendo especialmente destacado por outra importante voz, a do pensador italiano Gianni Vattimo. Em seu livro A sociedade transparente21, ele nos oferece um vigorosa diagnose da situação, mesmo que sob um ponto de vista, por opção, panorâmico. Ali o atual status quo é caracterizado como sendo o da emergência do que Vattimo chama de uma ‘sociedade da comunicação generalizada’. De um modo ou de outro, é difícil negar que uma das ocorrências marcantes da contemporaneidade não tenha sido a proliferação dos meios técnicos de comunicação e, a partir dela, a consolidação simbólica de uma fileira de ‘neomitos’, entre eles, o do tecnicismo redentor.

Hodiernamente, sugere ainda ele, quase tudo teria se tornado (como condição de visibilidade, de existência ´densa´) um objeto ou alvo de comunicação. Associando tal fenômeno (o da disseminação desenfreada da informação factual ou mesmo ´factóide´) com o da emergência dos vários pluralismos diccionais típicos do momento ‘pós-moderno’, ele igualmente nos chama a atenção para a estratégica confluência entre o fim do colonialismo histórico (embora um novo neocolonialismo esteja de vento em popa, sempre mais eficiente do que antes, enquanto evento), sobretudo no pós-guerra, e o desenvolvimento acelerado dos sistemas de comunicação globalizada. Tal confluência resultou na viabilização de um cenário em que um número indefinido de micronarrativas está sendo implementado, o que significa dizer, não só fabricado como também constantemente reciclado e reforçado.

Como uma alternativa ao que Baudrillard chamou belamente de ‘orgia’22 - o momento explosivo da modernidade, o da liberação em todos os domínios (...) (o da) assunção de todos os modelos de representação e de anti-representação23, que teria coincidido com o período da grande expansão modelar do ocidente e com a hegemonia de seu projeto megaimperialista - estaríamos vivenciando, recentemente, um momentopós-orgiástico’, um em que (percorrendo) todos os caminhos da produção e da superprodução virtual de signos, de mensagens, de ideologias, de prazeres, (estando) hoje tudo liberado, o jogo já feito, nos encontraríamos, coletivamente, diante da pergunta crucial: o que fazer (...)?24 Crise da história, de um figura dominante da história, de uma visão cêntrica da história... Miopia que passou a encará-la como uma movimentação longínqua rumo a uma rigorosa racionalização: a do ‘progresso’.

Os meios eletrônicos de comunicação, como não poderia deixar de ser, tem gerado várias alterações em nossa sensibilidade. Passou a ser impossível não perceber o mundo à nossa volta de uma outra maneira, ou seja, segundo coordenadas muito frescas. Estamos nos referindo a próteses poderosas que não só nos permitem uma visão íntima e detalhada do real, como também nos acenam com a possibilidade de brincarmos um pouco com isso, de recriarmos a própria realidade (convertendo-a numa espécie de trans-realidade ou, como prefere Baudrillard, numa hiper-realidade) segundo desígnios fascinantes: lúdicos, científicos, mercadológicos, etc.

Refiro-me aqui, entre outras coisas, a um urdimento de simulacros multiplicados, multiplicáveis e multiplicantes cujo impacto sobre a teoria e a prática pedagógicas não poderia também ser menos desconcertante. Não há como negar que algumas das alterações se prestam a nos excitar muito: a tendência é que as escolas saiam, progressivamente, das ´famigeradas´ (seriam isso mesmo?) salas de aula para se nutrirem e reforçarem (ou descaracterizarem?) em novos espaços onde o perigo residirá in essentia em sua capacidade de reproduzir identidades, inteiramente reestruturadas, de si mesmas e de seus personagens fundamentais.

Em meio a uma blitz de signos sem qualquer espessura (com destaque, entre eles, para os que a própria tecnologia propõe de si), formadores e formandos, educadores e educandos, ensinantes e aprendentes, vão, aos poucos, perdendo a capacidade de dialetizar com o concretum das situações, perdendo também, infortunadamente, a sensibilidade para a teorização. Isso se torna grave na medida que eles acabam não mais se percebendo como sujeitos produtores de sentido, e sim como meros decodificadores da tríplice burocracia da lei, do contrato e da instituição25. Seria como simples clones do grande ‘código’ que se descaracterizariam como educadores-pensadores, permitindo, para piorar a coisa, o aviltamento da própria cena formativo-pedagógica em sua acepção nobre e urgente de espaço de formação fundante.

Na esteira de Haraway, urge sim desconfiar dos rumores, plantados por alguns comunicólogos, de que, sendo uma práxis e um saber culturalmente neutros, a técnica e a tecnologia só não seriam positivas, só não seriam emancipatórias, se assim o quiséssemos, se assim o permitíssemos; de que sua influência deve ser medida sobretudo por seu nível de uso (intensivo ou não) em sala de aula; de que elas são tão-somente um outro instrumento (dos mais poderosos, é claro) à disposição de professores e alunos. Como afirma Apple,

“a nova tecnologia não se resume a uma simples reunião de máquinas e de seus respectivos softwares. Ela encarna um forma (perigosa) de pensamento que, na prática, orienta uma pessoa a se aproximar do mundo de uma determinada maneira. Os computadores subtendem, portanto, maneiras de pensar que, sob as atuais condições educacionais, são primacialmente técnicas. Quanto mais as novas tecnologias transformam a sala de aula em sua própria imagem, mais uma lógica da técnica virá substituir o discernimento crítico, político e ético. O discurso na sala de aula centrar-se-á na técnica (na forma) e não no conteúdo que, de fato, importa. Uma vez mais o ‘como’ substituirá o ‘por que’...”26

Diante deste quadro, resta finalmente perguntar: como deve proceder um educador-pensador? O que vem a ser um educador-pensador hoje em dia? Pois, mais do que nunca, se faz necessária uma tomada de posição não somente por parte dele, mas de cada de um nós, (indiscutivelmente) envolvidos, em maior ou menor grau - de bom grado ou a contragosto - pela voragem informacional que, aos poucos, vai tragando nossa capacidade de gerar e processar conceitos. O que pode um educador-pensador fazer, assim como o jovem educador, que os velhos não puderam ou não quiseram? Certamente não bastará acomodar-se ao simpático ramerrão dos tecnicismos do ‘como’ e do ‘quanto’.

É preciso voltar-se a adquirir o hábito do afastamento e, perfurando o problema como um aríete, acolher no branco da distância o que talvez esteja ocorrendo demasiadamente perto, com cores em demasia... Só assim será possível avaliar o poder de fogo desse outro desafio e, aí sim, compartilhar ou não de seus esquemas de demarcação. Por ora não basta dizer: não, eu não quero por que não quero ou devo aceitar isso. Posta de lado a rigidez do fato, faltará ao educador-pensador - e não somente em relação ao tecnicismo - produzir nessa hora enunciados apenas seus e, voluntariamente, falar de si mesmo, sobre seus próprios limites, desejos e paixões. Sem texto, sem discursividade, a educação é nada ou muito pouco, um grão de areia na ventania do pragma capitalista, inábil para desempenhar sua função formativa, decisiva para que a civilização volte a ter rumos.

Se a tecnologia estiver, inexoravelmente, no horizonte de nossa cultura, se for ela, de fato, a nossa nova aurora - e ao que tudo indica já o está sendo, o será de qualquer jeito - nem por isso deveremos aceitar seus excessos, cometê-los em seu nome contra nós mesmos, abrir mão de conquistar direitos como se isso fosse natural. Mesmo que nos dê muito trabalho, que demande uma desconfortável sensação de fadiga, caberá aos que se propõem pensar (entre eles, repito, sem dúvida, o nosso educador-pensador) não o acolhimento fácil de instigantes devires, mas um enfrentamento duro de questões, um olhar sempre quente, e atento, para as glaciais artimanhas do código.

 

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Notas:

[1] Cf. de Paulo Vaz, “Agentes em rede” e de Mark Nunes, “Baudrillard in Cyberspace: Internet, Virtuality, and Postmodernity”.

[2] Cf. de Arthur Kroker e Michael A. Weinstein, “The Political Economy of Virtual Reality: Pan Capitalism” e de Sherry Turkle, “Virtuality and its Discontents: Searching for Community in Cyberspace”.

[3] Cf. de Philippe Quéau, Eloge de la simulation e de Jean Baudrillard, Simulacres et simulation.

[4] Cf. de C. P. Killick-Moran, “Foucault on sexuality and bio-power. The genealogy of the shift from life to law in the conceptualisation of power”.

[5] Pierre Lévy, As tecnologias da inteligência, pp.7-20.

[6] Lévy, “A planetarização e a expansão da consciência”.

[7] Ambos os termos, apesar de sua recorrência e até mesmo popularidade leigo-acadêmica, se mostram muito precários. Tratam-se, na verdade, de rótulos tão válidos quanto quaisquer dos outros, a todo momento, fabricados e fartamente despejados sobre nossos ombros pela mídia, ou seja, vazios em seu conteúdo e exagerados em seu alcance semântico. Autores pejorativamente classificados como ‘tecnofóbicos’ (entre eles, Heidegger, Baudrillard e Virilio), assim como ‘tecnofílicos’ (Negroponte e Lévy, por exemplo), graças a seus possíveis exercicios de ‘futurologia’ e/ou ficcionismo científico, estão, em verdade, longe de sê-lo, desde que o que tem caracterizado suas falas são tão-somente seus investimentos e marcações pessoais, mais ou menos enfáticas, de determinadas particularidades das questões que os ‘movem’. Seria um simplismo considerar pensadores de sua envergadura e com sua capacidade de engajamento intelectual como tendo posicionamentos acriticos, gratuitos ou, mesmo, de má-fé, seja a favor ou contra qualquer coisa ou detalhe (ou estado) de coisa.

[8] Gilbert Simondon, Du mode d´existence des objets techniques.

[9] Lévy, As tecnologias da inteligência, p. 7.

[10] Lévy, O que é virtual, pp. 15-25.

[11] Id. ibid.

[12] Pessoalmente, os considero antes ‘neomodernos’ ou ‘modernos tardios’ que ‘pós-modernos’. Mas essa é uma discussão longa e penosa demais para este momento e que merece uma abordagem, no mínimo, mais paciente e adequada. Para a obteção de subsídios sobre alguns de seus aspectos, remeto ao ensaio - originalmente a minha Tese de Doutorado junto à ECO/UFRJ - A vertigem da maneira: Pintura e vanguarda nos anos 80, Rio de Janeiro: Diadorim, 1993.

[13] Cf. de John P. Leavey, Jr., "Four Protocols: Derrida, his deconstruction".

[14] Cf. de Hygina Bruzzi de Melo. A cultura do simulacro: Filosofia e modernidade em J. Baudrillard.

[15] Arthur Kroker e David Cook. The postmodern scene.

[16] Cf. de Christopher Norris, The truth about postmodernism e, principalmente, de Stuart Sim, Jean-François Lyotard.

[17] Cf. de Manuel DeLanda, War in the age of intelligent machines.

[18] Cf. a propósito seu Simians, cyborgs, and women: The reinvention of nature.

[19] Deve ficar patente aí o afastamento intencional, por parte de Haraway, de uma concepção cartesiana que pensa o sujeito como um ser (res) isolado, independente e fora do mundo por ele pensado (cf. dualismo cartesiano entre uma substância puramente pensante - a res cogitans - e uma outra puramente material - a res extensa). Na verdade, o homem deve ser considerado como sempre estando imerso no mundo (o ‘seu-nosso’ mundo), produzindo nessa imersão a sua própria humanidade através das incontáveis e complexas relações que estabelece com seus ‘semelhantes’ e ‘diferentes’, sejam estes ´como´ ele ou não.

[20] Neste ponto, certamente (e tenho consciência disso) entro em rota de colisão com Lévy.

[21] Gianni Vattimo, A sociedade transparente, pp. 9-19.

[22] Jean Baudrillard, A transparência do mal, pp. 9-19.

[23] Id. ibid. p. 9.

[24] Id. ibid.

[25] Gilles Deleuze, “Pensamento nômade”, p. 58

[26] Michael Apple, “The new technology: Is it part of the solution or part of the problem in education?”, p. 65.

 

Poeta e ensaísta, Jorge Lucio de Campos é Graduado e Mestre em Filosofia pelo IFCS/UFRJ, e Doutor e Pós-Doutor em Comunicação e Cultura pela ECO/UFRJ. Professor Adjunto da ESDI/UERJ e da UCAM, publicou, entre outros, os livros Do Simbólico ao Virtual: A Representação do Espaço em Panofsky e Francastel (Perspectiva/UERJ, 1991) e A Vertigem da Maneira: Pintura e Vanguarda nos Anos 80 (Diadorim/UERJ, 1994). É também Parecerista (Assessor Técnico-científico) da FAPERJ e Consultor ad hoc da Comissão de Especialistas de Ensino de Design da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação e Cultura (CEE-Design/SESu/MEC).

 

© Jorge Lucio de Campos 2003
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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