O conto contemporâneo gaúcho:
em tempos de descontrução do conceito de infância

Flávia Brocchetto Ramos1 - Marli Cristina Tasca2


 

   
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RESUMO: A recorrência de personagens infantis e do mundo pueril nas narrativas contemporâneas gaúchas sugere a infância como um período que gera preocupações e reflexões. Assim, pretende-se analisar o modo de representação da infância nos contos “Outro brinde para Alice”, “Verdes canas de Agosto” (Sérgio Faraco) e “Guri” (Cíntia Moscovich). Essas narrativas privilegiam a perspectiva infantil e apontam para a desconstrução do conceito de infância, desvelando o sofrimento e a exclusão dos pequenos, através da morte física ou simbólica dos mesmos.

Palavras-chave: conto gaúcho contemporâneo, personagem, representação.

ABSTRACT
The appellant presence of childish characteres and the puerile world in contemporary gaúchas narratives, present the childhood as a period of life generating troubles and reflection. For that reason, we intend to analyze in which way the childhood is represented in the short stories “Outro brinde para Alice”, “Verdes canas de Agosto” (Sérgio Faraco) e “Guri” (Cintia Moscovich). Those narratives gives prominence to the infantile perspective and point out to the deconstruction of the childhood concept, revealing the kids suffering and exclusion through their physical or symbolical death.

 

1 Introdução

A reestruturação dos papéis ocupados pela criança na sociedade atual faz oportuna a reflexão acerca da puerícia e da sua representação nos contos gaúchos, tendo em vista que, a exemplo do que se verifica no restante do mundo ocidental, a idéia de infância no Rio Grande do Sul é ainda recente. A exclusão infantil que se verifica na literatura regionalista nasce na vida familiar e cultural, estabelecendo-se em favor da manutenção do autoritarismo do adulto, uma vez que o sistema patriarcal sustenta a marginalização das classes consideradas mais fracas, e a infância, como o período em que a criança depende financeiramente de um adulto, tende a ser vista como etapa periférica da humanidade.

Entretanto, a recorrência de protagonistas mirins e do mundo pueril nas narrativas contemporâneas dirigidas a leitores adultos, sugere a meninice como preocupação social que demanda reflexão. É sabido que a construção das personagens infantis manifesta o sentimento de infância da sociedade em que a obra foi concebida, de modo que a forma como a criança é apresentada permite apreender a visão ideológica que há no texto, advinda da imagem que o contexto de produção tem dessa fase.

Considerando-se que a “validade” do ser é, via de regra, determinada pela sua função e pela capacidade de prover o próprio sustento, a importância da criança passa a centrar-se no adulto em potencial que nela reside. Assim, persiste, para com os pequenos, o desejo de torná-los maduros o mais breve possível, o que justifica a precoce aproximação com o mundo adulto, e contribui para a negação do status infantil e, portanto, para a marginalização da criança.

Nesta perspectiva, faz-se relevante a investigação, aplicada a literatura gaúcha, tendo em vista a necessidade de compreensão da própria identidade cultural contemplada que, em última instância, baliza os valores sociais cultivados com relação aos pequenos. Com intuito de suscitar o pensamento em torno de tais questões, o presente estudo enfoca o universo infantil evocado por contos publicados por escritores gaúchos, à luz de reflexões propostas por Philipe Áries, Regina Zilberman, Vânia Maria Resende, Gaston Bachelard e Flávia Brocchetto Ramos.

Para tanto, foram selecionados três contos contemporâneos: “Outro brinde para Alice” e “Verdes canas de agosto”, de Sérgio Faraco e “Guri”, de Cíntia Moscovich, que privilegiam a infância em seus temas, personagens e perspectivas. A escolha dessas narrativas faz-se em virtude da representatividade das mesmas e do possível diálogo entre os símbolos a que apelam para compor a noção de infância. Nessas histórias, a vivência das personagens infantis é marcada pelo sofrimento, que provoca o leitor, instigando-o à construção de novos sentidos para a meninice no contexto atual.

Os contos “Outro brinde para Alice” e “Verdes canas de agosto” são apresentados por narradores que trazem à tona suas recordações e/ou impressões em torno de fatos marcantes da infância, resgatando, desta forma, o ponto de vista infantil pela memória. “Guri”, por sua vez, é contado por um narrador que, em sua onisciência, transmite ao leitor as experiências e sensações das personagens e da protagonista mirim.

Nas narrativas citadas, a vida das personagens infantis aproxima-se do mundo adulto, pela experimentação da doença, da traição e da morte e suscitando o questionamento de tais realidades, por meio da denúncia que promovem.

 

2 Moléstia física da criança : a impotência do adulto

O conto “Outro brinde para Alice” é apresentado por um narrador que, secundariamente, toma parte do mundo narrado. Os acontecimentos são parte do passado do contador, que, de modo saudosista, participa ao leitor suas impressões acerca de um fato que marcou sua infância. A nostalgia estabelece um elo com o passado regionalista e autoriza o narrador a recuperar seu passado, revivendo-o.

Assim, o narrador, para mostrar a história, escolhe a perspectiva da criança que presenciou os acontecimentos, cuja secundariedade na trama permite-lhe atentar para a verdadeira conotação dos fatos e a postura das demais personagens perante os mesmos, filtrados pela ótica do contador.

Os regionalismos presentes na narrativa, tais como “arreliou”, “embromador”, “trompadas” e “copito”, bem como a designação de lugares citados e revelação de ações das personagens (a exemplo de tomar chimarrão), vêm contextualizar a história, sinalizando a localização espacial e temporal do cenário, típico do sul do Brasil.

O universo rural do conto guarda seu característico ar de aconchego e proteção domésticos. Notamos que a família, aqui, respeita a noção tradicional de núcleo composto pelos laços sangüíneos. Assim, pais, filhos e parentes próximos são unidos pelo parentesco e pelo sofrimento que partilham. Além desses fatos, tem-se a fé religiosa que mais subsiste no ambiente campesino, por meio da manutenção das origens, a permear latentemente a trama.

O uso de grande número de diminutivos para se referir à criança, a partes do seu corpo ou a objetos que lhe dizem respeito, mais do que meramente indicar o tamanho do ser, reforça a idéia de pequenez com que é tratada a criança, transformando-se também em recurso expressivo para denotar a afetividade e os cuidados que circundam a puerícia, bem como a fragilidade e a dependência associados à infância.

Neste ambiente, a casa guarda sua função de abrigo para o corpo e para as lembranças do narrador. Mas a proteção que envolve a criança não é suficiente para preservá-la das intempéries da vida, diante das quais a família apega-se ainda mais a Cristo e ao sacrifício dele, no intuito de obter um milagre que restitua a vida da menina doente, já desenganada pelo médico do interior.

Verificamos, deste modo, a presença de poderes que balizam os valores aceitos na comunidade rural: desde a fé religiosa até o conhecimento científico, ambos impotentes perante a moléstia de Alice. Além disso, sob a ótica da criança que narra, paira um desconhecimento acerca da doença que acomete a irmã, mas uma intrigante certeza sobre o seu destino reforça a noção de sabedoria intuitiva atribuída aos pequenos. Já o sinal que a mãe, insistente, pede a Jesus na cruz é interpretado pelos pais como uma sentença de salvação, quando, conforme a visão do narrador-mirim e da avó, simboliza o sacrifício e a morte física. O coração, órgão vital, a sangrar, sinaliza a morte corporal certa.

Entretanto, a hora do jantar com os convivas à mesa e a presença do vinho como oferenda, parece aludir à Última Ceia em que Jesus anuncia seu sacrifício e o vinho, tornado sangue, faz-se fonte de vida eterna para quem o beber. Assim, o mesmo sangue que simboliza o sacrifício (a morte), pode reportar à imortalidade. O sangue derramado, aludindo ao suplício da infância inocente, é sorvido pela avó em favor da vida eterna de Alice, numa oferta da sabedoria e da experiência para o bem da infanta.

A vida que inicia na criança é elemento central de união e alegria doméstica e a simples possibilidade de perdê-la transforma a rotina da família e a conduz a um abismo de desespero e desencontro. Vemos que os adultos necessitam preservar a infância para suster a própria vida em sua estabilidade e continuidade.

A imagem da meninice como fonte de felicidade é, de certa forma, bastante recorrente. Tal sentimento não se constrói apenas em virtude dos aspectos lúdico e onírico que caracterizam a puerícia. Intimamente associado à idéia de infância está o sentimento de esperança nela depositado pelos adultos, que esperam que a vida que ali brota, vingue em todas as suas potencialidades positivas e traga a transformação e a salvação. Conforme postula Vânia Maria Resende (1988: 54), “a criança é mediadora entre o plano real e o ideal, sustentando a esperança da passagem do real ao ideal, em conseqüência das transformações, de que apenas ela poderá dar conta, calcadas na preservação do contato livre e sensível com o mundo e os homens”.

Desse modo, a morte de Alice representa mais do que isso; avança, apontando a morte de tudo o que ela poderia vir a ser e a construir; a morte de um símbolo que, a exemplo de Cristo, conjuga inocência e esperança.

 

3 Morte simbólica da infância: a perda do espaço social e da identidade

Dessacralizando o amor e o sexo pueris, temas geralmente tratados à luz de tabus ou de tentativas moralizantes, “Verdes canas de agosto” apresenta, através do olhar saudosista do narrador, cujo discurso entremeia a narrativa, a instigante visão infantil acerca do amor, da inserção da criança em classes sociais e do preconceito que atinge as camadas desprivilegiadas.

Embora existam sutis semelhanças entre o espaço de ação aqui evocado e o espaço da narrativa anteriormente considerada - visto que nelas se verifica a presença da “farmácia Braz” e da personagem secundária de mesmo nome (doutor Braz)3, parece haver entre ambos um distanciamento temporal e uma transformação advinda do progresso, determinando as grandes diferenças entre as vivências das personagens infantis dos contos. Assim, em “Verdes canas de agosto” são atestadas as descobertas e desilusões infantis, nascidas uma da outra.

A clara menção à prostituição infantil vem conflituar as noções de amor e casamento, concebidas pelo narrador quando criança, como exercícios de compromisso e de fidelidade. Ao mesmo tempo, aponta para a distância entre as vivências de um e outro personagem, que convivem em pólos distintos, e têm seus comportamentos visivelmente influenciados pelo ambiente familiar circundante.

A afinidade entre o homem e o meio que o cerca, constatada neste conto, é, conforme Regina Zilberman (1992:54), “característica do tratamento do espaço num texto regional”, sendo que a paisagem constitui, por vezes, uma extensão da personalidade do protagonista ou do sentimento da história. Entretanto, ao mesmo tempo, existe um distanciamento da prosa regionalista que, além de rural, sustenta a inexistência de antagonismos sociais, uma vez que todos (independente de classe social), “devem mostrar as mesmas virtudes humanas”. No texto regionalista, embora haja divisão social, a desigualdade ou conflito é atenuado, posto que a atividade comum justifica o mito da ‘democracia rural’. (ibid.,50).

Em “Verdes canas de agosto”, não há a vivência comunitária dos valores e o ambiente citadino contribui para a estratificação social, configurando-se, portanto, um rompimento da unidade entre os homens, concebida inicialmente pela prosa regionalista gaúcha.

Dessa forma, enquanto o garoto convive com a proteção de um aconchegante lar e com os zelos maternos, a menina está submetida ao desamparo, à falta de higiene, à promiscuidade e tem sua intimidade gratuitamente violada. Tais elementos, que certamente compõem o atual quadro social da miséria, determinam a interrupção da infância, uma vez que colocam a criança em contato direto com mazelas sociais e situações indignas que lhe exigem reações adultas.

Assim, essa postura recupera a forma de tratamento comum na “velha sociedade tradicional européia”, na qual, conforme Ariès (1981), a duração da infância é reduzida ao seu período mais frágil, ou seja, a fase em que o filho do homem (adulto em miniatura) ainda não consegue bastar-se. Tão logo a criança adquira algum desembaraço físico, passa a integrar-se aos adultos e partilha das vivências deles.

No entanto, gradativamente, a sociedade ocidental constrói um sentimento de infância, como pode ser percebido pela indumentária confeccionada para as crianças e pelo modo de representá-las em artes como a pintura. O tratamento diferenciado para o infante vem sofrendo alterações significativas, já que atualmente as roupas utilizadas pelas meninas, por exemplo, assemelham-se, no que se refere à sensualidade, bastante aos modelos destinados às mulheres adultas. O mesmo ocorre em relação à fotografia, pelo tom sensual evidenciado em alguns álbuns de crianças, constituídos por fotos realizadas em estúdio, que não se diferenciam dos álbuns de jovens. A modificação no tratamento também é sentida na forma como a literatura tem representado os pequenos, retratando a precocidade de suas vivências, de modo a questionar o valor e o lugar atribuídos à meninice.

Notamos que o sapateiro, cujo nome não é considerado importante a ponto de pertencer às lembranças do narrador, é identificado apenas pela sua função. Temos, então, a sugestão de que a importância das coisas, determinante para sua permanência na memória, está associada à função social das mesmas. Assim, o caráter inútil da infância faz da mesma algo dispensável, devendo ser abandonada tão logo se dê a conquista de maior autonomia da criança com relação aos cuidados maternos, de modo que o contato com as vivências adultas garanta à criança seu precoce ingresso na realidade das pessoas maduras.

Nesse conto de Faraco, a desvalorização da meninice é reforçada no último parágrafo, quando a infância se descobre relegada ao último lugar, uma vez que João-menino ocupa um quarto lugar na quadra onde mora e na fila no canavial, atrás dos adultos e das crianças corrompidas por interesses adultos.

Inclusive o cão, tido, sobretudo na prosa gauchesca, como amigo do homem e animal de estimação das crianças, é, na narrativa, caracterizado por seu ódio a “gente pequena”, o que contribui para a idéia de desproteção da infância de Isabel; por isso, o contato entre a menina e o animal sustenta-se, numa relação de cumplicidade. Notamos que, no mundo de Isabel, não há mais lugar para a inocência ou mesmo para o sonho, já que a realidade é severa demais.

A mesma realidade, por sua vez, é enfocada através da ótica da criança que, na pessoa adulta do narrador, a compõe com suas lembranças e suas impressões sobre os objetos e fatos. A linguagem do narrador, simples e cuidada, reporta-o às reminiscências de criança que, evocadas, são manifestadas, muitas vezes, em expressões tipicamente infantis e às vezes coloquiais. Já a fala das personagens parece ser indicativa do seu grau de acesso à educação escolar, em sua aproximação ou distanciamento da língua padrão, conforme observamos ao comparar a fala de Isabel com a da mãe de João.

Da mesma forma, a “casa” assume grande destaque não apenas em virtude das lembranças que, girando em torno deste espaço, são resgatadas pelo narrador, mas por fazer-se um contundente atestado da desigualdade social. Portanto, os atributos da morada do sapateiro (feia, suja e precária), estendem-se às próprias pessoas que a habitam.

É interessante atentar para a simbologia que se mostra subjacente às cores dos objetos. Torna-se possível entender, então, a cor azul da casa do menino João como representativa do sonho infantil que tinha, neste micro-universo de aconchego e proteção, espaço e condições propícias à sua manutenção.

Todavia, a mesma cor se apresenta, na casa do sapateiro, tão desbotada que já é outra, meio indefinida, mais triste, e adquire o tom das canas maduras. A infância, tomando para si tais características, está tão desprotegida e exposta, que assume conotações adultas; e a criança, em tempo de ainda ser “verde”, submetida a tal realidade, abandona-se à postura que lhe é exigida.

Por outro lado, o abandono do abrigo da casa em direção a um espaço amplo e aberto (o sítio), simboliza, para o garoto, um rompimento com a relação de ingenuidade e confusão para com as experiências maduras e, ao mesmo tempo, um distanciamento dos laços excessivamente protetores da família. O afastamento do lar em direção ao exterior aproxima o menino da desilusão e do choque com a realidade, com a indiferença e com a traição.

O ato de descoberta sexual que selou o “casamento” das personagens, enquanto ação furtiva de apropriação de algo que não lhes cabia, aproxima-se do “roubar pitangas”. O “faz-de-conta” não é manifestado pelo imaginário infantil que modifica a realidade, mas através de uma expressão que, pronunciada, autoriza ações antes impossíveis ou proibidas. Tem-se, então, a cor deste objeto de roubo, o vermelho, embora não mencionado, como sinalizador do signo de sensualidade e desejo, que, por sua vez, efetiva o contato com a miséria humana. O descortinar um mundo de valores divergentes, diante do qual a primeira reação é a fuga, leva o menino à frustração e ao desencanto pelo divórcio da expectativa sonhada e da realidade vivida, ao mesmo tempo em que aponta para a decadência moral que rompe com a tradição virtuosa predominante na literatura regionalista gaúcha.

É válido observar que a constância do nome João, designativo das figuras masculinas das classes populares do conto, ao invés de assegurar-lhes uma identidade particular, coloca a todos no anonimato e em condições de igualdade perante a vida, ao mesmo tempo em que sugere a continuidade do ciclo, a sucessão das crianças às rotinas dos adultos, a manutenção do status vigente, pela repetição dos produtos sociais. Entretanto, através da repetição manifesta-se o anseio de reinventar o passado pela modificação, no futuro, dos mesmos elementos.

A imagem de ciclo, incluindo a noção de crescimento, também permite associar as “verdes canas” à imaturidade infantil. Contudo, enquanto a maturação do canavial enseja, primordialmente, a passagem do tempo, a maturação da criança depende, nesse caso, de vivências de dor, perda e frustração, pois estas, especialmente, assinalam a passagem da infância para a vida adulta, independente da idade cronológica.

Vemos, então, como o tempo adquire importância secundária, sendo apenas relacionado às ações das personagens. As referências temporais, bem como as espaciais, não localizam, pois, precisamente o leitor no cenário da narração, mas servem à caracterização das personagens e à sinalização da seqüência das ações. Assim, o mês que dá nome ao conto, mais do que situar temporalmente o leitor, indica determinado estágio do crescimento das crianças, que, como as canas, encontram-se numa fase prematura do seu desenvolvimento. O período de reprodução é, deste modo, antecipado, considerando-se que, na região sul do Brasil, o tempo propício para a floração inicia em setembro e, na narrativa, está localizado em agosto.

Resgatando a tendência regionalista inaugurada por Cyro Martins, em 1934, a narrativa eleva-se à categoria de denúncia, recuperando alguns aspectos do Regionalismo, mas despindo-os do ufanismo e da índole festiva, em favor da expressão das desigualdades sociais (Zilberman, ibid., 82-83). Quero rever essa citação - aqui e especifico do conto. Assim conjugados, os elementos do texto reforçam a idéia de perda da identidade e do espaço social, que marginaliza a puerícia.

 

4 O flagelo da infância: a precariedade da troca simbólica com o adulto

Quando a Literatura assume papel contestador, denuncia, muitas vezes, a exclusão à qual a criança vem sendo submetida, retratando a realidade de exploração, abandono, miséria, desestruturação familiar e promiscuidade que permeia o universo infantil. No conto “Guri”, de Cíntia Moscovich, tem-se a imersão da criança no meio adulto, não apenas como espectadora e mais do que como mera partícipe, mas como verdadeira protagonista que vivencia, no seio da sociedade, a divisão de classes sociais e a desigualdade.

Conforme sustenta Ramos (1994: 57), há que se considerar a obra literária como possível geradora de novas concepções de mundo e de infância, que são despertas a partir da leitura. Assim, a literatura passa a ser uma forma de crítica à realidade contemporânea, que priva a criança do mundo de sonhos, fantasia e brincadeira que lhe seria próprio, propondo o questionamento acerca da sociedade que concebe a infância e, no entanto, não sabe acolhê-la, protegê-la e cultivá-la.

Sob este enfoque, a imagem da criança divorcia-se da visão ingênua de quem vive um plano fantástico, irreal. O abandono desse comportamento, caracteristicamente infantil, deriva da necessidade de sobrevivência, que prima pelo saber-fazer, pelo sucesso nas tarefas práticas e cotidianas, em detrimento da ludicidade.

A criança com seu sofrimento, assumida pelo narrador onisciente, ganha voz e relevo na narrativa. Ao mesmo tempo em que as preocupações dos pequenos, via de regra consideradas fúteis e destituídas de importância, assumem a carga essencial que permeia a luta pela vida.

Neste contexto, a relação entre mãe e filho como fonte e sustentáculo da vida, opõe-se à ausência desta interação no cotidiano de abandono. A idéia de ausência é ainda reforçada pela inexistência de um nome próprio para o garoto, que é apenas “guri”, bem como pela nudez do mesmo à hora da morte; nudez que, por sua vez, também sinaliza a desproteção e o despojamento de vida do menino, diante da iminência do fim.

Por outro lado, a imagem da mão materna à testa do filho, a reestabelecer-lhe e nutrir-lhe a vida, recupera a função primitiva do cordão umbilical e o laço de dependência entre ambos, que, na vida, foi se empobrecendo e quase cai no esquecimento.

Da mesma forma, a água, guardando simbolicamente a acepção de fonte de vida, torna-se objeto de desejo para a infância sedenta. O líquido precioso é somente obtido em devaneio, pois, entornado na roupa, não chega a ser ingerido. E o elo tátil, estabelecido a partir da mãe para vivificar o filho, é também interrompido. Vê-se assim como a vida é negada à infância, que permanece em seu abandono. Entretanto, a água derramada ainda pode aludir ao batismo, ritual de iniciação que, purificando o menino, insere-o de fato no mundo adulto e prepara-o para o suplício.

Notamos que nenhum dos personagens do conto possui nome. O fato sinaliza a perda de identidade das pessoas, em que o indivíduo como único, nomeado, personalizado, perde seu espaço social e passa a constituir uma massa uniforme cujas partes não se reconhecem independentemente.

Nesse conto, a criança participa de forma assustadoramente consciente do inevitável da morte e se depara com algo determinante que não pode ser transformado, nem por meio da brincadeira ou do mágico, a exemplo da dura realidade que a circunda. O mergulho onírico do protagonista estabelece uma possível associação entre o sonho e a morte, enquanto meios para transcender o real.

O contato com a morte vem suscitar, para mãe e filho, algumas (re)descobertas. O garoto concebe intensamente o que a vida já lhe teria mostrado: o caráter transitório da felicidade e seu nascedouro nas coisas miúdas ou mesmo no seu oposto.

Aliás, o término do ciclo, simbolizado pela morte, sugere a convivência de extremos, de antagonismos. Assim, “vida-morte” (que demandam sofrimento) e “felicidade-infelicidade” fundem-se e nutrem-se mutuamente. Lembramos também que a aproximação do braço materno com um cordão umbilical, estabelecido pelo tato, representa uma regressão ao princípio da vida.

A mãe, por sua vez, perante a morte, percebe a simbiose indispensável que deveria permear a existência de genitor e concebido, ao mesmo tempo em que se reconhece misericordiosa, aproximando-se, em sua atitude, da figura de Maria com o Filho aos braços; Maria do subúrbio que a vida castigou, que esqueceu as rezas, mas que deseja preservar e proteger o filho.

Além dessa imagem, o cenário de pobreza, a nudez do garoto e a presença da intensa luz branca, ao mesmo tempo em que contemplam a idéia de santidade, aproximam o protagonista de Cristo, no sacrifício da criança pela remissão, conforme sugere o último parágrafo do conto: “O guri crucificado sem a cruz de fato e de direito”. O chocante apelo à crucificação associa a morte do menino à representação da morte do sentimento de infância, aliado ao flagelo, descrédito e não reconhecimento da criança, pela ausência da cruz merecida e conquistada.

À intensidade da luz, segue-se a sublimação da dor física, sugerindo a compensação do sofrimento e podendo aludir ao ditado popular segundo o qual “após a tempestade vem a bonança”. Permite ainda compreender a morte como a libertação do sofrimento que a vida enseja. Nestes termos, a puerícia é descaracterizada nas vivências do protagonista. Mesmo possuindo um corpo mirrado, a criança é, como um adulto, diariamente submetida à injustiça social, conhece a dor e a (in)felicidade tanto ou mais que o adulto, vivencia o rompimento entre o sonho, o desejo e a penosa realidade.

O narrador em terceira pessoa assume a perspectiva infantil, através da qual estabelece um diálogo com o leitor, transcendendo às ações visíveis da trama. Ganham relevo as impressões, os pensamentos e as sensações das personagens, inclusive o que elas não sabem nomear, ou que lhes passa despercebido.

O leitor é, já no princípio do conto, situado temporalmente. Mas notamos que, apesar da localização do acontecimento no período matinal, não há marcação clara do tempo decorrido. Por outro lado, a manhã, aurora do dia, traz, paradoxalmente, a interrupção da aurora da vida humana.

Tomado pelos devaneios da personagem infantil, o narrador abandona a contagem do tempo, como convém à entrega ao fluxo da (in)consciência. O vôo do tempo é suspenso e comprimido pelo espaço de estabilidade da personagem (Bachelard, 1998: 28). O espaço da casa, segundo Bachelard (ibid., 26) mantém o homem abrigado das tempestades da vida. Antes de ser jogado no mundo, o homem é colocado no berço da casa. As funções da casa, assim concebidas como o abrigo do corpo físico e das lembranças, são, em “Guri”, corrompidas. No regaço desse espaço privado, lugar fechado de perspectivas, a criança está desfeita de agasalho ou de proteção, e permanece exposta aos reveses da vida. Entretanto, a casa ainda guarda seu sentido de amparo e refúgio à vida, e o prematuro abandono do local traz consigo a morte.

Os espaços do conto, desta forma, contribuem para a idéia de que a infância vem sendo estreitamente cerceada. Assim, tem-se, no quarto, a cama estreita dividida com o irmão, espaço fechado que exige do corpo a posição de prostração, o difícil abandono desse espaço, a estrada e, por fim, o corredor branco e iluminado, simbolizando estágios intermediários entre cidade e arrabalde, vida e morte. Instaura-se, então uma nova concepção da infância, determinada pela ordem sócio-econômico-cultural e destituída dos elementos simbólicos e lúdicos com que, usualmente, é representada.

Opondo-se à sociedade tradicional, a família é, aqui, apresentada como um núcleo desestabilizado e violado pela miséria. Deste modo, as funções que antes lhe cabiam com relação aos filhos, quais sejam a educação, a proteção e a sobrevivência, reduzem-se a esta última, porquanto necessidade biológica primordial. Logo, exclui-se do contexto o acesso à cultura, à fruição e ao brincar, como aspectos secundários diante da primazia da vida.

A figura adulta masculina, detentora do poder e da responsabilidade pelo sustento do clã, na sociedade rural e patriarcal, perde o seu status e adquire um papel substituível no cenário da trama. Tal fato leva também à reestruturação das funções sociais dos demais membros da família. Verificamos a sobrecarga de papéis que a nova configuração social atribui à mulher e a marginalização da infância pela imposição do trabalho e pela exclusão social e cultural.

Com a modernidade e os progressos humanos, deu-se a sensível propagação dos espaços urbanos, nos quais são acentuadas as diferenças sociais; e a marginalização das classes consideradas mais fracas torna-se ainda mais contundente, ao mesmo tempo em que assume um caráter universal, transcendendo limites regionais.

A construção da ação no enredo faz-se através da mímese, ou seja, da imitação do real por meio da conjugação entre o verossímil e o lógico, permitindo atribuir à obra um caráter mais geral ou universal que a história, circunscrita a relatos de acontecimentos particulares. (Aristóteles, 1990: 115-116).

Além das expressões “guri” e “piá” que, regionalmente, designam “menino”, não se verifica, na linguagem do conto, a presença de outras marcas que localizem o conto no cenário sul-rio-grandense. Estes, por sua vez, não servem à delimitação de um espaço regional para a trama ensejada, mas conferem destaque à criança, célula central da história.

Afora as marcas locais citadas, são praticamente inexistentes manifestações da oralidade. A linguagem, embora sirva à expressão das personagens, é formal e de extrema sensibilidade. O tom dramático tecido pela mesma conduz o leitor ao choque, à indignação e à sensibilização para com a dor que subjuga a infância.

Assim, a meninice tem sua trajetória determinada pela qualidade das relações estabelecidas com o adulto e com o ambiente. O empobrecimento de tais trocas, retratado no enredo, ao mesmo tempo em que pontua a sorte do protagonista, marca o tom de crítica e denúncia da narrativa.

 

5 Considerações finais

Os contos analisados desvelam, por meio da linguagem simbólica, o significado da meninice na sociedade atual, denunciando o sofrimento dos pequenos, a precocidade das vivências adultas e a precariedade da relação estabelecida com os mais velhos. Tais aspectos sustentam a realidade de exclusão da criança e sinalizam a desconstrução da noção de infância.

Em “Outro brinde para Alice”, a personagem infantil estrutura-se pelo sacrifício e desengano quanto às expectativas futuras. Tal condição é desencadeada pela enfermidade física da criança e, instaurando um âmbito de dor, traz reflexões sobre a morte e a aniquilação das esperanças projetadas na infância.

O conto “Verdes canas de agosto” distancia-se do cenário interiorano da narrativa anterior, permeado pela religiosidade familiar, e enfoca a iniciação sexual do menino, aliada à prostituição infantil, cerceadas pela miséria e pela negação da própria infância. O mesmo apresenta, como realidades associadas à desigualdade social, de um lado o descaso para com valores morais e a dispersão da identidade infantil e, de outro, o desencanto pela traição e pela indiferença que subjazem às vivências pueris em seu encontro com o mundo.

Já em ”Guri”, são recuperados alguns elementos empregados nos contos anteriormente citados. Assim, temos um cenário tipicamente suburbano, em que novamente se faz o apelo à situação de doença e morte associadas à infância, por meio do sinalizador de flagelo, inocência e descrédito que é a cruz, a exemplo do que se dá em “Outro brinde para Alice”.

Podemos verificar, nestes três contos, elementos que, embora distintos, apontam para a vida ou para a necessidade de vivificar: o vinho, as canas em crescimento e a água, a compor a noção de infância. A imagem do cordão umbilical, evocada por “Guri”, além de apresentar a imprescindibilidade da concessão de vida à meninice, concebe o ato associado à relação entre o adulto e a criança. Tal relação, enfocada também pelas demais narrativas, sustenta-se na indiferença ou na impotência dos grandes para com os fatos que acometem a puerícia. A morte da criança, física ou simbólica, pode ser aliada à progressiva anulação da infância na contemporaneidade, quer por meio da negação do seu espaço social, quer na luta dos pequenos pela sobrevivência.

Outro aspecto que aproxima os três contos é a ausência do brinquedo, que comumente caracteriza a puerícia, assinalando a pobreza do diálogo entre a criança e a sociedade. A precariedade de signos, conferidos à infância através de objetos destinados à sua manipulação, manifesta a proposta de um modelo adulto em que há escassez de meios culturais e lúdicos oferecidos às personagens crianças para sua interação e construção.

O ato de brincar é, por sua vez, mencionado em dois dos contos, mas assume conotação diversa da usual, sendo revestido de implicações mais sérias. Em “Verdes canas de agosto”, o furto das pitangas, anunciado como a brincadeira escolhida, enseja outro acontecimento que causa ainda maior estranheza: o contato sexual. Já em “Guri”, o lúdico é apenas cogitado em pensamento, admitido na idéia de faz-de-conta e de imitação da vida e expresso pelo desejo de “brincar de fingir que estava morrendo”, que se configura impossível, uma vez que os efeitos da experiência fazem-se reais e irreversíveis.

O sentimento comum com relação à meninice é composto pela dor, pelo sofrimento (físico ou subjetivo) e, sobretudo, pela perda. Esta última, muito latente, aparece, referindo-se à infância, na perda da saúde, na perda da vida e na perda de si mesma.

As cores que tingem a meninice dos contos são, por sua vez, representativas das vivências infantis, sendo percebidas como índices, que podem estabelecer diálogos com o enredo. A intensidade do vermelho no conto “Outro brinde para Alice”, por exemplo, pode ser entendida como a certeza que confirma a sentença de morte da criança, prevista pelo garoto narrador, enquanto, em “Verdes canas de agosto”, a suavidade do azul que pinta a casa vem sinalizar a vulnerabilidade do espaço infantil e o verde das canas, a precocidade da experiência sexual e da transição para a vida adulta.

Os contos, suscitando tais reflexões em torno da infância, além de revelar o contexto sócio-econômico e cultural que produziu as narrativas, apontam para a necessidade de resignificação social da infância, independente do limite espacial, donde advém o caráter mais universal das histórias. Tal proposta, caminho potencial para a transformação, justifica-se no papel de denúncia social e de ruptura admitida pela Literatura, que não se limita a retratar determinada realidade, perpetuando-a, mas passa a contestá-la e, até mesmo, a antecipá-la, através da perspectiva privilegiada e do simbólico veiculado na arte.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ARISTÓTELES, Poética - Tradução, Prefácio, Introdução, Comentário e Apêndices de Eudoro de Souza. 2 ed. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1990.

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MOSCOVICH, Cíntia. O reino das cebolas: contos e narrativas. Porto Alegre: Prefeitura Municipal de Porto Alegre /Fumproarte/ Mercado Aberto, 1996.

RAMOS, Flávia Brocchetto. A representação da infância na narrativa infantil brasileira: 1919 a 1976 - Dissertação de Mestrado - Porto Alegre: PUCRS; 1994.

RESENDE, Vânia Maria. O menino na literatura brasileira. São Paulo: Perspectiva, 1988.

ZILBERMAN, Regina. A literatura no Rio Grande do Sul. 3. ed, Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992.

 

Notas:

[1] Doutor em Teoria da Literatura PUCRS. Professora da Universidade de Caxias do Sul e da Universidade de Santa Cruz do Sul.

[2] Acadêmica do Curso de Letras - Universidade de Caxias do Sul/CARVI.

[3] Médico e dono de uma fazenda, no segundo conto.

 

© Flávia Brocchetto Ramos - Marli Cristina Tasca 2003
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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