O Graal no Livro de José de Arimateia,
versão Portuguesa da Estoire del Saint Graal

Isabel Sofia Calvário Correia
Escola Superior de Educação de Coimbra
isabelcorreia@yahoo.com


 

   
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O Livro de José de Arimateia1 é a versão portuguesa da Estoire del Saint Graal que em termos de enredo é a parte introdutória de um ciclo constituído pelo Lancelot en prose, por uma redacção primitiva da Queste del Saint Graal e pela Mort Artu2. Sendo uma tradução quase literal da Estoire, O LJA tem também estreitas ligações com o Lancelot e com a Demanda do Santo Graal, que contém uma versão da Queste primitiva e episódios da Mort Artu. A nosso ver, só é possível entender a dimensão das personagens e dos momentos em que elas intervêm se considerarmos estas obras como membros de um todo.

O texto de que nos ocupamos chegou até nós numa versão do século XVI, mas crê-se que terá sido traduzido no século XIII3 e que se destinava a um público composto essencialmente por membros da nobreza. Uma primeira leitura desta narrativa poderá contradizer tal afirmação, uma vez que predominam temas como a evangelização do Oriente e do Ocidente, a provação espiritual das personagens principais, os milagres e as visões maravilhosas. Este romance abre com um extenso "prólogo" do autor que explica como recebeu instruções de Deus para copiar um livro onde se tratava a história do Graal. A narrativa principal centra-se no percurso dos antepassados de Galaaz, bem como na história de José de Arimateia e de seu filho Josefes que seguem um caminho de evangelização do Oriente transportando uma relíquia sagrada, o graal. Estas personagens representam o começo de três grandes instituições: Mordaim, o rei de Sarraz, é o começo da realeza cristã, Nascião, o antepassado fundador da linhagem, é o primeiro cavaleiro cristão e Josefes representa a Igreja.

O graal é um motivo sobejamente conhecido desde Chrétien de Troyes no Perceval ou li Roman dou Graal. Todavia, há estudiosos que defendem que esta "relíquia cristã" tem origem em narrativas celtas, não tendo nenhuma conexão com o Cristianismo. Não é nosso propósito considerar estas teorias, visto que na narrativa de que nos ocupamos o graal pertence claramente ao universo do maravilhoso cristão, mais concretamente ao miraculoso. Pretendemos sim, evidenciar de que maneira esta sagrada relíquia se articula com o tema principal do LJA, a construção de uma linhagem que se destaca em relação a outras que o romance refere.

No inicio da narrativa do LJA (exclui-se o prólogo a que já nos referimos), José de Arimateia vai a casa de Pilatos pedir o corpo de Jesus para lhe dar uma sepultura digna. Porém, antes de ir à casa do procurador, José foi ao sítio onde o filho de Deus comera com os apóstolos e “ali era a escudela honde o filho de Deos comera com os apostollos (...) e dipois que Joseph teve a escudela foi muy ledo e levou-a pera sua casa”(LJA, cap.16, p.86). Momentos antes de sepultar o corpo do redentor, o cavaleiro cristão vai a casa buscar a escudela e

“colheo em ella tanto daquelle sangue quanto elle mais pode e depois tornou-o a guardar em sua casa. Por este sãgue mostrou Deos depois muitas vertudes em terra de promisão e em outras muitas terras” ( LJA, cap.16, p.87)

Após soterrar o corpo de Jesus, José foi perseguido e preso pelos judeus que o consideraram um traidor. O prisioneiro é abandonado num cárcere e depois da ressurreição de Cristo, os guardas decidem não lhe dar de comer. ( LJA, cap. 19) Mas Jesus não abandonou o seu servo e “trouxe-lhe por companhia e por conforto a santa escudela que elle guardar em sua casa com todo o sangue que lhe colhera” (LJA, cap.19, p.88). Graças a essa precioso sangue, José de Arimateia sobreviveu à prisão sem mazelas.

Parece-nos que este episódio é uma amplificação da passagem bíblica em que José de Arimateia recolhe o corpo de cristo da cruz para o sepultar condignamente. O aproveitamento dessa personagem é também notório no Evangelho de Nicodemo4 que apresenta uma passagem bastante semelhante à do LJA. Neste texto apócrifo, José de Arimateia é preso pelos judeus num local selado, mas depois de receber a visita de Jesus é libertado miraculosamente. Vejam-se as passagens destas narrativas:

“Tomaram José e fecharam-no numa casa sem janelas, colocaram guardas à entrada e selaram a porta detrás da qual José ficou prisioneiro (...) Mas quando abriram a porta não o encontraram no seu interior (...) Mas à meia noite enquanto eu estava de pé a rezar, a casa onde me fechastes revolveu-se pelos cantos e uma espécie de clarão veio ofuscar os meus olhos (...) Ele tomou-me pela mão e com todas as portas fechadas, transportou-me para o meio da minha casa.” Evangelhos Apócrifos, p. 170

“Que o metessem em tal lugar honde se naão pudesse achar sinal delle (...) meterã-no no carece e ficrão dous com elle (...) enviarã ao carçereiro de Caifas que nõ desse de comer a Joseph, ante ho deixasem na prisão morrer de fome (...) p.87 tanto que ressucitou trouxe-lhe por companhia e por conforto a santa escudela (...) E quando abaixo decenderam vio tam grande claridade como se il candeias fossem acesas” (LJA, p.92)

As semelhanças conteudísticas são óbvias, pelo que nos parece que o redactor do LJA não era alheio a estes textos apócrifos. Todavia, não nos podemos esquecer que a natureza das narrativas é diferente, o que acontece no LJA é um aproveitamento de um episódio, provavelmente de fácil reconhecimento por parte do público, para conferir autenticidade à história do graal. Ora, quem seria mais indicado para guardar o santo vaso do que aquele que recolhera o corpo de Cristo? A santa escudela é um receptáculo que contem o corpo do Salvador visto que o que lhe confere a capacidade de manter José durante trinta e seis anos é o sangue de Jesus. Desta forma, parece existir uma identificação, na forma de sinédoque, entre Jesus e o seu sangue o que faz do graal uma representação de Cristo.

Depois de o libertar da prisão, Jesus ordena a José que vá pregar o seu nome, mas antes de partir tem de construir uma arca pequena para a santa escudela (LJA, cap. 28) que os deve acompanhar na sua missão de evangelização. À primeira vista, parece ser possível identificar esta arca portátil com aquela que no Antigo Testamento transportava as Tábuas dos Dez Mandamentos e conduzia o povo eleito. Não cremos que uma interpretação literal faça muito sentido porque Jesus- e a santa escudela que O representa- testemunha a nova lei, o Novo Testamento, daí que comparar a arca do graal com a arca da aliança nos pareça um pouco forçado. Todavia, se considerarmos o sentido alegórico5 da passagem do Antigo Testamento as semelhanças entre a arca do LJA e a de Moisés já não serão tão descabidas: tal como a arca da aliança simbolizava a lei a seguir pelo povo de Deus, a arca de José, alegoricamente, representa Cristo, a nova lei que ele e os outros cristãos têm de divulgar entre os pagãos. Mais uma vez, parece confirmar-se que a santa escudela é um símbolo de Cristo e da nova lei, o que ganha mais sentido se tivermos em conta que o tempo da história6 no Livro de José de Arimateia é o do advento do cristianismo.

Quando manda José e os seus pregar a fé cristã, Jesus impõe uma condição: “tu soo veraas a escudela que eu nom quero que a outrem toque senam tu e teu filho Josefes” (LJA, cap. 28, p.97). Esta ordem sublinha o carácter sagrado da relíquia que os cristãos transportavam pois nem todos estavam autorizados a tocar-lhe. Começam-se a estabelecer hierarquias na relação com o sagrado que se confirmam quando este objecto fica a cargo do filho de José, Josefes. Como sabemos, durante a conversão de Mordaim e o seu reino José de Arimateia vai perdendo protagonismo, passando o filho a assumir o lugar cimeiro nas disputas teológicas e no “serviço do graal”. A desvalorização da figura de Arimateia prende-se com a sagração de Josefes que passa a ser o primeiro bispo da cristandade ordenado pelo próprio Deus. ( LJA caps. 42-44). A partir desse momento Josefes será simultaneamente bispo e guardião do graal.

Até aqui vimos que o santo vaso era uma representação de Cristo, pertença da linhagem de Arimateia- mais concretamente José e o seu filho- e que requeria um sacerdote para ser seu guardião. Mas o que é o graal? A resposta a esta pergunta assume contornos complexos porque, a nosso ver, este objecto tem várias significações simbólicas que vão evoluindo ao longo do LJA e da Demanda.

Quando Josefes passa a ser o responsável pelo graal parece quase evidente que este se identifica com o cálice da missa. Contudo, parece-nos importante ver como os textos definem esta relíquia antes de partirmos para conclusões talvez demasiado fáceis.

No Lancelot en Prose há uma definição precisa do graal: “ Li sainz Graax est li vaissiaux ou Nostre Sires menga l’aingnel le jor de Pasques” ( Lancelot, CVI, 45). A Estoire segue o mesmo caminho: « illuec trova Joseph l’escüele en quoi le Fiex Dieu avoit mangié » (Estoire, cap. 35, p. 24). Como já vimos, o LJA faz uma tradução quase literal daquilo que é dito na Estoire: “ali era a escudela honde o filho de Deos comera com os apostollos” ( LJA, cap. 16, p. 86).

Num nível semântico, o graal parece ser sinónimo de prato e não de cálice. Segundo Michelle Szilnik o graal é designado por escudela

“pour en rappeler l’origine et insister sur sa fonction première : le graal est le plat (...) d’autre part, il nourrit ses gardiens, non seulement spirituellement mais aussi physiquement.»7

Desta forma, o significado do graal nestas narrativas não é o de cálice da missa, uma vez que é dito claramente que se trata de um prato e também porque, como se pode ver no Lancelot e na Demanda, ele proporciona alimentos aos que o guardam, aos que o visitam e àqueles a quem aparece. Além disso, parece-nos, como já disse José Carlos Miranda8, que mesmo na sagração de Josefes o graal não se confunde com o cálice da missa:

“vio estar o amgo que tomou a patena e cobrio ho caliz (...) e ho outro ango tomou em huas toalhas a escudella” (LJA, cap.43, p. 120).

O graal parece ser uma relíquia santa merecedora de respeito e oração, mas distinta do cálice da liturgia eucarística. Esta distinção torna-se clara quando este objecto começa a adquirir outros sentidos. Se até aqui as benesses do graal estavam reservadas a Josefes, ou seja , à Igreja, no momento em que Nascião vê os seus mistérios a santa escudela começa a estar associada à cavalaria cristã. Como sabemos, após ter-se convertido ao cristianismo, Nascião deseja ver os mistérios “das relíquias que Josefes trazia” (LJA, cap.51, p. 158) e quando contempla o santo vaso sofre de uma cegueira temporária, mas este castigo é efémero porque o cavaleiro é imediatamente curado9. Quando ele vê a Santa escudela lembra-se que quando era escudeiro ouviu uma voz que lhe disse:

“Sarafes, que cuidas tu? Este cuidar nom comprirás ata que nom vejas as maravilhas do santo greal” (LJA, cap. 51, p.159). Por esta passagem, podemos entender que Nascião estava predestinado a ver o graal, ou seja, este objecto deveria ser contemplado pelo primeiro cavaleiro fundador da linhagem, como aliás é dito no LJA por um anjo: “bem asy como Nascião he ho primeiro hom que as maravilhas do greal vio, (...) ao primeiro e derradeiro do precioso linhagem mostrarei eu as minhas maravilhas.(LJA, cap.51, p. 161, sublinhado nosso)

A nosso ver, a partir deste momento o graal começa a adquirir novos contornos na narrativa. A visão total das maravilhas que a santa escudela proporciona não está destinada a nenhum sacerdote, mas a dois cavaleiros da linhagem escolhida. Assim, esta relíquia, ou melhor, as visões que ela proporciona não são exclusivas da Igreja- representada por Josefes- mas sim dos mais altos membros da linhagem. Note-se que é dito que Nascião foi o primeiro que viu o graal na sua plenitude o que, a nosso ver, afasta ainda mais este objecto de possíveis semelhanças com o cálice da missa. Se o santo vaso fosse uma alfaia da igreja seria estranho que as suas benesses se (pre)destinassem a dois cavaleiros.

Após a visão do graal por Nascião, o romance centra-se na construção das personagens essenciais da linhagem, Mordaim, Nascião e Celidones. O Santo Vaso continua entregue a Josefes e só quando o filho de José chega à Grã-Bretanha é que se elege um novo guardião. Alain, primo de Josefes, é o escolhido porque decidiu ficar virgem e dedicar a sua vida ao serviço do graal10.

Depois da morte de Josefes, o Rico Pescador11 passa a ser o guardião do graal até que ele e os irmãos chegam à “Terra Foreira” (LJA, cap. 115) onde reinava um rei pagão que sofria de lepra. Com a promessa de cura, o rei Arfasão converte-se ao cristianismo chegando mesmo a matar todos aqueles que recusaram aceitar a nova fé. O monarca foi curado pelo santo graal, tal como Alain lhe dissera: “eu te mostrarei um vaso que tã som te de ho veres serás são de toda gafidade”. (LJA, cap.104).

Não é de estranhar que o santo vaso tivesse poderes curativos. Como sabemos, os cristãos da Idade Média ocidental veneravam as relíquias sobretudo porque esperavam que estas os protegessem ou os curassem de alguma enfermidade12. Desta forma, sendo a santa escudela uma relíquia tão importante- o prato onde Jesus comeu- e contendo o sangue de Cristo, seria incongruente que não se demonstrassem os seus poderes. Além disso, os poderes curativos do graal residiriam não tanto no objecto em si, mas no precioso sangue que continha. A cura da lepra pelo sangue é um motivo que vamos encontrar também na Demanda quando a irmã de Persival morre ao dar todo o seu sangue para que uma “dama gafa” se curasse ( Demanda, cap. 441-442). Tanto no LJA como na Demanda esta cura pelo sangue representa a redenção dos pecadores pela Paixão de Jesus13. Assim, o milagre da cura de Arfasão14 conduz o monarca à redenção dos seus pecados e à adopção plena da nova fé.

Arfasão pede a Alain que deixe ficar o santo graal na sua terra, prometendo-lhe que construirá um castelo para guardar a relíquia. Além disso, o rei oferece a sua filha ao irmão de Alain, Josues que será o futuro guardião da santa escudela. Pelo que acabámos de afirmar, depois da cura do rei, o santo vaso assume outros contornos. Até aqui tinha sido uma relíquia móvel, objecto de conversão prodigalizador de curas e alimentos. Os seus guardiães eram um bispo e posteriormente um parente de Josefes, virgem e disposto a dedicar-se ao graal. Depois do milagre, o rei diz que vai construir um castelo e que a escudela fica à guarda de um homem casado, senhor desse castelo. Ora, parece-nos evidente que o graal se identifica com uma relíquia guardada numa castelania feudal com o objectivo de proteger o senhorio e os que aí habitam15. Depois de o castelo estar construído, aparecem milagrosamente umas letras vermelhas que anunciam o seu nome:

“este castelo deve de ser chamado Orberique e as letras erã espritas caldeo e orberique tanto quer dizer naquela limguag como lugar do mui sãto vaso” (LJA; cap. 105, p.370)

Como se pode ver, estava predestinado que o graal fosse guardado num castelo o que aproxima este objecto da cavalaria e nos faz voltar às palavras que o anjo disse a Nascião, isto é, que ele e o último da linhagem seriam os únicos a merecer a graça do graal na plenitude.

A santa escudela será guardada num castelo por todos aqueles que descendem de Josue, irmão de Alain, ou seja, pelos Ricos pescadores. Todavia, como sabemos, a guarda do graal não foi suficiente para impedir que o reino se viesse a transformar em “Terra Gasta”. Lambor, um dos descendentes de Josue, foi morto pela espada de Salomão que foi indevidamente empunhada por um rei vizinho, Urlão. Depois deste golpe foram os dois reinos chamados “terra erma” (LJA, cap.116). Além disso, Peles, filho de lambor foi ferido por uma lança e “foi depois chamado tolheito (...) numqua pode sairar daquella chaga atá que o mui bom cavaleiro Galaaz (...) o veio ver (LJA, cap.117, p. 373).

Como é possível que uma relíquia tão santa não protegesse o reino onde estava guardada? A resposta a esta pergunta resume o significado que o graal assume no LJA e que se concretiza na Demanda. Como já sugerimos, os guardiães do graal eram apenas isso, a única benesse que o santo vaso lhes reservava era a abundância alimentar ( por exemplo, Lancelot, CVI, 43,45) e o alimento espiritual ( Demanda cap.595). A visão da santa escudela pertencia a Galaaz e termina com ele. Depois de contemplar o graal, o cavaleiro morre e com ele desaparece a santa relíquia: “ Tam toste que ele [Galaaz] foi morto av o ua gram maravilha (...) ua mão veo do céo mas nom virom o corpo cuja mão era e filhou o Santo Vaso e levou-o conta o céu” (Demanda, cap.628, p.457)

Desta forma, o graal é o emblema da cavalaria cristã, mais concretamente da linhagem de Galaaz. Como sabemos, no início da Demanda, o graal aparece na corte do rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda decidem partir em busca deste objecto milagroso. O único que o obtém é Galaaz porque era o melhor de entre os melhores e conservava a sua virgindade. O graal estava ao alcance de todos os cavaleiros, mas só aquele que vinha da linhagem de Nascião- o derradeiro- o alcançou. A santa escudela não pertencia ao altar da Igreja, mas sim àquele que pela sua exemplaridade estava predestinado a obter a sua graça. O graal está definitivamente ligado à linhagem de Nascião, confirmando a sua supremacia: os guardiães do graal- de José de Arimateia a Peles- apenas preparam a vinda do Bom Cavaleiro. É certo que o graal, no LJA, é também usado como objecto de conversão, mas lembremo-nos que assim que a Grã- Bretanha se converte ao cristianismo este objecto passa a pertencer a um senhor feudal. Assim, depois da ordem estar estabelecida, o graal apenas aguarda que se cumpra a profecia que o anjo anunciou a Nascião.

Considerámos os sentidos que a santa escudela assume no LJA, desde relíquia móvel até “propriedade” da linhagem escolhida. Este objecto assume dimensões complexas: pertence a José de Arimateia, passa para o seu filho Josefes que é sacerdote e que, após a sua morte, escolhe um parente que por ser virgem seria o indicado para guardar o graal. Todavia, notemos que o único sacerdote é Josefes, Alain era virgem, mas não se diz que era bispo como no caso de Josefes. Parece natural que o graal estivesse associado a um alto membro da Igreja porque era necessária a evangelização do reino de Sarraz, a sagração do espaço para que se cumprissem os desígnios divinos, a constituição da linhagem escolhida.

Assim, a santa relíquia teria de ser guardada por um sacerdote porque era imperativo instituir a lei cristã. O mesmo se passa quando Josefes chega à Grã- Bretanha, o graal tem a função de confortar os cristãos no seu caminho evangelizador e de, já na posse de Alain, contribuir para a conversão dos pagãos. Depois da ordem cristã estar estabelecida, a santa escudela é mantida num castelo feudal até á vinda de Galaaz, ou seja, já não tem a função de converter, mas sim de recompensar a verdadeira cavalaria cristã. Como se vê na Demanda, o grande objectivo de Galaaz foi a contemplação- e no fundo a aquisição- do grande emblema da linhagem, o graal.

 

NOTAS:

[1] In MIRANDA, José Carlos Ribeiro- A Demanda do Santo Graal e o Ciclo Arturiano da Vulgata. Porto, 1998, pp. 91 e seguintes.

[2] A este respeito veja-se MIRANDA, José Carlos- Conto de Perom, o Melhor Cavaleiro do Mundo. Texto e Comentário de uma narrativa do Livro de José de Arimateia, versão portuguesa da estoire del Saint Graal.Porto,1994 e CASTRO, Ivo de- "Livro de José de Arimateia" In LANCIANI & TAVANI- Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa.Lisboa, 1993.

[3] Evangelhos Apócrifos. Lisboa, 1991

[4] Segundo os Padres da Igreja, o texto bíblico deveria ser lido tendo em conta quatro sentidos: o sentido literal, isto é, a veracidade histórica dos acontecimentos, o sentido alegórico, ou seja, a verdade religiosa geral que o texto anuncia, o sentido moral, aquele que permite ao cristão aplicar os ensinamentos da Bíblia no quotidiano e o sentido anagógico que permite a adaptação da passagem à vida eterna, a um momento depois da morte. In PAUL, Jacques- Histoire Intellectuelle de l’ Occident Médiévale. Armand Colin, 1998.

[5] Veja-se LOOMIS, Roger Sherman - Arthurian Literature in the middle ages: a collaborative History .Oxford Uiversit Press, 1979.

[6] Por tempo da história entendemos "tempo matemático propriamente dito, sucessão cronológica de eventos" In REIS, C e LOPES, A.C- Dicionário... Coimbra, 1994.

[7] SZKILNIK, Michelle- L’ Archipel du Graal. Genéve,1991, p.50

[8] MIRANDA, José Carlos- Galaaz e a Ideologia da Linhagem. Porto, Granito, 1998, p. 105 e seguintes

[9] Nascião é curado pelas gotas de sangue que caíam da lança que ferira Josefes, aquela que há-de sangrar até à chegada do Bom Cavaleiro. (LJA, cap.51)

[10] Parece-nos que o “serviço do graal” consiste na guarda desta relíquia e na oração que deveria ser feita porque se trata de um objecto sagrado.

[11] Esta alcunha foi associada a Alain porque depois de ter pescado um só peixe, conseguiu multiplicá-lo de forma a ter alimento suficiente para todos os cristãos que o acompanhavam. Graças a este episódio, um decalque quase fiel do milagre bíblico da multiplicação dos peixes, Alain e os da sua linhagem- os guardiães do graal- passaram a ser designados por Ricos Pescadores. (LJA, cap. 104)

[12] Veja-se VAUCHEZ, André- A Espiritualidade da Idade Média Ocidental. Séc.VIII-XIII. Lisboa, 1995, pp.179-185.

[13] No LJA esta representação é quase literal porque o pecador é curado pelo sangue de Jesus. Já na Demanda é o sangue da irmã de Persival, uma virgem filha de rei.

[14] Note-se que esta cura também funciona como a prova viva que os pagãos parecem necessitar para se converterem ao cristianismo. Sobre este assunto veja-se o capítulo 2.

[15] Sobre a feudalização do graal veja-se MIRANDA, José Carlos- Galaaz ..., Porto, 1998, pp.105-122.

 

Edições utilizadas:

A Demanda do Santo Graal ed., NUNES, Irene Freire- Lisboa, INCM, 1995.

Chrétien de Troyes- Perceval ou le Roman du Graal. Paris, Gallimard, 1974.

Evangelhos Apócrifos. Lisboa, Estampa, 1991.

Lancelot.Roman en Prose du XIIIe siécle ed. MICHA, A - Genéve, Droz, 1979, 9 tomos.

L’Estoire del Saint Graal. ed. PONCEAU, Jean Paul. Paris, Honoré Champion, 1997, 2 tomos.

The Portuguese Book of Joseph of Arimathea. ed Henry CARTER Paleographical Edition, Chapel Hill, North Carolina Press,1967.

 

© Isabel Sofia Calvário Correia 2004
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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