A poesia de Helena Kolody: busca do essencial

Antonio Donizeti da Cruz1
Universidade Estadual do Oeste do Paraná
donizeti@unioeste.br


 

   
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RESUMO
Este artigo apresenta o processo de criação poética de Helena Kolody, poeta brasileira, filha de emigrantes ucranianos, nascida em Cruz Machado, Paraná, Brasil (1912-2004). Os temas recorrentes na lírica de Kolody são: o tempo; a contemplação; a permanência; a solidão; a memória; a transitoriedade, entre outros. Com doze livros publicados, várias antologias e obras completas, Kolody realiza um fazer poético enquanto busca da síntese, projetada nas formas escolhidas e no enxugamento dos textos. Os poemas sintéticos, tais como os dísticos, tercetos, quadras, epigramas, tankas e haicais (poesia de origem japonesa), são formas poéticas escolhidas pela poeta.
PALAVRAS CHAVES:
Lírica, fazer poético, síntese, Helena Kolody.

ABSTRACT
This articles presents the process of the poetic creation of Helena Kolody who is a Brazilian poet, daughter of Ukrainian emigrants and who was born in Cruz Machado city in Paraná state, Brasil (1912-2004). The recurrent themes into the Kolody’s lyric: time, contemplation, permanence, loneliness, memory, transitority, among others. With twelve published books, a lot of anthologies and complete works, Kolody while realizes a poetic “doing”, looks for the synthesis of her production. She chooses synthetic form poems such as: distiches, tercets, quartets, ephigrams, “tankas and haicais” (Japanese poetry).
KEYWORDS:
Lyrics, “doing poetic”, synthesis, Helena Kolody.

A inquietação é um dos eixos temáticos da poesia de Helena Kolody2, visto como questionamento da linguagem e como uma solicitação original da consciência; uma agitação interior do sujeito, voltando-se para si-mesmo. Assim, ele se vê forçado “a inquirir os sinais de sua origem e transcendência, procurando na existência o sentido da vida”, tal como afirma o filósofo Lavigne (1958, p. 28-29). O poeta - “instaurador de sentido nos signos”, no dizer de Esteban (1991, p. 43), - é um ser em constante busca, deixando transparecer no poema sua inquietação e questionamentos. Em se tratando da questão da brevidade da vida, a poesia é o sinal do ser humano e seu testemunho perante o futuro. Na modernidade, segundo Paz, “o poema assume a forma da interrogação. Não é o homem que pergunta: a linguagem nos interroga” (1982, p. 345).

No itinerário poético de Helena Kolody, poeta da modernidade, evidenciam-se certas temáticas constantes, dentre as quais, a questão da brevidade da existência, a inquietação do poeta em relação à vida, ora a exaltação intensa da vida ora o desencanto. Também, percebe-se a temática do amor, do desejo de realização, da questão da vida e da morte, da solidão e busca de sentido para a existência. Em sua poesia, a vertente da religiosidade - a nostalgia da totalidade, a aspiração ao absoluto (“Tu", "Senhor", "Deus") - aponta para o desejo de um mundo transcendente. A questão da brevidade da vida e transcendência ficam evidentes no poema “Mergulho”3. O sujeito lírico revela-se inquieto, dividido entre o plano terreno e o espiritual:

Almejo mergulhar
na solidão e no silêncio,
para encontrar-me
e despojar-me de mim,
até que a Eterna Presença
seja a minha plenitude (p. 70).

No texto, percebe-se uma busca do eu-lírico em relação ao plano espiritual. O silêncio está associado à condição de solidão, pois o poeta, ser solitário e solidário, é capaz de dar sentido à vida. Entre as limitações próprias da condição da vida no plano físico e no plano espiritual, há o espaço intermediário, ou seja, o momento presente, no qual o poeta almeja mergulhar. Na interiorização do instante e despojamento, o eu-lírico constata que através de seu canto é quase possível preencher o vazio existencial.

O tanka “Sabedoria” mostra a temática do efêmero, da brevidade da vida, do tempo e da saudade. No poema, salientam-se o exercício lúdico, as pausas dos versos, as ligações dos segmentos frasais e o conteúdo das recordações do sujeito lírico, que inquieta-se perante a vida:

Tudo o tempo leva.
A própria vida não dura.
Com sabedoria,
colhe a alegria de agora
para a saudade futura (p. 29).

Há uma perfeita relação semântica entre os versos do poema, mostrando que a vida é finita como as coisas que passam. O texto aponta para uma questão essencial: o ser humano tem um tempo a cumprir na existência. Por isso, a necessidade de se viver intensamente o presente, ou seja, o carpe diem é a tônica que movimenta o poema e remete para a necessidade de se buscar com sabedoria a alegria de agora tendo em vista a saudade futura.

O poema “Queixa” apresenta o inconformismo em relação ao sofrimento, à angústia e à tristeza, por parte do sujeito lírico que se questiona:

Tu, Senhor, que repartes os destinos:
Por que me deste o árido quinhão
De sonho, de tristeza e solidão? (p. 196)

Os versos são marcados por um lirismo terno. No último verso do poema, os três signos: sonho, tristeza e solidão denotam a introspecção do sujeito lírico, que se sente inquieto perante a vida. As enumerações contribuem para a manutenção do ritmo do poema. O tom de indagação que direciona o texto mostra um conflito entre o eu e o mundo circundante. O questionamento da linguagem pode estar relacionado à consciência tensa, inquieta do eu poético, em constante interrogação.

No haicai intitulado “Os tristes”, a inquietação do sujeito lírico enquanto questionamento fica evidente:

Em seus caramujos,
os tristes sonham silêncios.
Que ausência os habita? (p. 26).

São versos marcados por um sentimento melancólico. Salienta-se a temática da solidão, pois em meio à ausência e silêncios, os tristes sonham. A imagem do caramujo remete à idéia de isolamento e introspecção. No verso final, destaca-se a indagação do sujeito lírico. Em “Emblema”, poema composto por três versos, a temática do sofrimento e da religiosidade aparecem de forma nítida, em que o eu-lírico salienta sua inquietação: “A fogo imprimiste, Senhor,/ Na carne de meu coração/ A tua insígnia de dor” (p. 195). São versos que revelam que a dor e o sofrimento são inseparáveis da vida. A religiosidade e o amor se fazem presentes no poema “Prece”, em que o sujeito lírico suplica:

Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,
De ser o coração singelo que perdoa,
A solícita mão que espalha, sem medidas,
Estrelas pela noite escura de outras vidas
E tira d'alma alheia o espinho que magoa (p. 217).

No texto, o amor é forma divinizada de oferenda, de desejo de partilha com os outros. A linguagem metafórica caracteriza-se pela rigorosa disciplina e pela concisão, visíveis na brevidade das composições, quase sempre apoiadas no esquema recorrente das rimas. O signo estrelas é metáfora de bondade e de amor. No poema abaixo, intitulado “Transeuntes”, o efêmero e o eterno cruzam-se numa rede de sentidos. Os versos do poema apresentam uma atitude inquieta do eu poético, que anseia por atingir o mundo transcendente:

Transeuntes
da vida provisória:
que rumor de asas eternas
para além das fronteiras e dos símbolos! (p. 59).

Nos versos do poema, percebe-se que o ser humano vive uma “vida provisória”, ou seja, o texto trata da brevidade da vida. O sujeito poético alicerça a construção de uma lírica, através de um eu que se caracteriza pelo desejo de realizações e buscas. As imagens e símbolos, na poesia kolodyana, apontam para o caráter transitório da vida e também para o plano espiritual. Nesse sentido, Gilbert Durand assevera que “o símbolo, no seu dinamismo instaurador em busca de sentido, constitui o próprio modelo da mediação do Eterno no temporal” (1995, p. 108).

O poema “Viagem infinita” expressa a condição do homem peregrino em permanente viagem. O eu-lírico declara:

Estou sempre em viagem.

O mundo é a paisagem
que me atinge
de passagem (p. 39).

O poema apresenta uma linguagem condensada, característica essencial da poesia kolodyana. A rima é também um dos recursos fundamentais em sua poesia, justamente pelo poder de suscitar inesperadas alianças de termos, de sentidos. Não se trata apenas da sonoridade, musicalidade, mas o que está em jogo é a estrita relação entre som e sentido. O “estar em viagem” aponta para a condição itinerante do ser humano. Assim, a viagem simboliza a busca da verdade, da paz, da imortalidade, da procura e da descoberta de um centro espiritual (Chevalier & Gheerbrant, 1991, p. 951). Se a viagem infinita representa a busca do plano transcendente, o mundo apresenta-se como uma morada transitória dos homens, pois ele é só uma “paisagem” que atinge o sujeito lírico de “passagem”.

O haicai intitulado “Depois” aponta para a relação do homem com a natureza. O momento presente inquieta o eu-lírico que sabe de sua situação enquanto viajante das galáxias, ao afirmar:

Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
universo afora (p. 26).

A temática da transitoriedade do ser, faz-se presente nos versos do poema, situando o onde, o quando e o que do acontecimento poético. No haicai “Desafio”, o sujeito lírico declara:

A vida bloqueada
instiga o teimoso viajante
a abrir nova estrada (p. 27).

Nos versos do poema, percebe-se as ligações dos segmentos frasais, a sonoridade e o jogo de palavras. O texto mostra que é necessário vencer os obstáculos da vida, para abrir novos caminhos. A estrada é símbolo de viagem e transitoriedade do ser que está sempre em busca de realizações.

Em “Solidão”, a temática do tempo, da solidão, da insatisfação humana e do sofrimento aparece de forma nítida. Nos dois primeiros versos do poema (fragmento), o eu-lírico confirma que "Estamos sempre sozinhos/ Em nossas horas maiores" (p. 170). São versos que revelam que o homem é por natureza um ser solitário. A solidão é a profundeza última da condição humana. Para Octavio Paz, o homem é nostalgia e comunhão, por isso, cada vez que se sente a si mesmo, sente-se como carência do outro, como solidão (PAZ, 1984, p. 175). Essa afirmativa do autor fica evidente nos poemas kolodyanos. O tema da solidão também está presente no poema Cantar, mostrando que partilhar a solidão é uma maneira de ir ao encontro do outro. Os versos do poema exemplificam a afirmação: "Quem vai cantando/ não vai sozinho./ Dançam em seu caminho/ o sonho e a canção" (p. 50). Ao se referir à solidão, Helena Kolody afirma:

Há uma espécie de solidão positiva e necessária: para pensar, para sonhar, para criar, ou, simplesmente, olhar pela janela a paisagem lá fora. É na solidão que a gente consegue olhar para dentro de si e encontrar-se. O próprio sonho floresce na solidão. E toda criação é, a princípio um sonho lúcido(In: BASSETI, 1990, p. 5).

Na poesia de Helena Kolody, a temática da solidão, relacionada à questão da vida e da morte, é recorrente. A autora expressa sua maneira de ver o mundo e, ao mesmo tempo, realiza uma poesia enquanto busca de sentido existencial e resistência. No poema “Ensaio”, os signos vida e morte apontam para a solidão. Em três versos, com uma linguagem lúdica, o sujeito poético afirma:

A solidão da vida,
Longo ensaio
Da solidão da morte (p. 156).

Nos versos do poema, a vida e a morte se fundem numa rede de sentidos. A solidão da vida parece ser somente um ensaio, para a “grande solidão” de cada ser humano. Nesse sentido, a poesia é capaz de comunicar uma profunda consciência do sentido da vida e seus mistérios, pois como diz Octavio Paz, “vida e morte são apenas dois movimentos, antagônicos mas complementares, de uma mesma realidade” (1984, p. 177).

Na poesia de Kolody, a morte aparece como experiência cotidiana, mas marcada por ausências e despedidas, conforme se pode constatar no texto “’Anoitecer”, em que o eu poético afirma:

Amiudam-se as partidas...
Também morremos um pouco
no amargor das despedidas.

Cais deserto, anoitecemos
enluarados de ausências (p. 84).

Verifica-se, nos versos, a linguagem metafórica e a preocupação do eu poético em relação à palavra, enfatizando o ato comunicativo. Nas séries "cais deserto, anoitecemos/ enluarados de ausências", percebe-se um ritmo cadenciado. A imagem do cais deserto remete à idéia de solidão. O morrer um pouco, as partidas e despedidas, faz com que o sujeito sinta a ausência dos que se foram. Ele também acaba por se envolver, pois "anoitecemos/ enluarados de ausência. O vocábulo “anoitecemos” pode siginificar a metáfora de envelhecer (p. 33). A morte também pode estar relacionada ao aspecto lúdico. No texto intitulado “Jogo”, o sujeito poético mostra que a poesia é jogo e luta “de vida e morte” com as palavras:

A morte espreita, em silêncio
O vivo jogo dos homens
No tabuleiro do tempo.

Estende, às vezes, de repente,
A longa mão feita de sombra
E tira um peão do tabuleiro (p. 147).

Se o jogo é, fundamentalmente, um símbolo de luta entre as forças da vida e da morte, nos versos kolodyanos, o jogo também aponta para este sentido. Na primeira estrofe, a morte observa o vivo jogo dos homens para, só depois, estender sua “mão de sombra”, e tirar um peão do tabuleiro. O vocábulo peão induz à metáfora de homem. Com uma linguagem metafórica, o sujeito poético cria significados precisos. No poema, a palavra é a pedra que ele joga no xadrez do poema: poesia feito jogo. As palavras-imagens vão sendo “colocadas” no tabuleiro do poema e, no final, tem-se o poema, composto de versos singulares. No prólogo da obra O outro, o mesmo, o escritor Jorge Luis Borges, afirma que a poesia é um xadrez misterioso, cujas peças mudam como um sonho (1999, p. 258), pois “Em seu austero canto, os jogadores/ Regem as lentas peças. [...] Não sabem que a mão assinalada/ Do jogador governa o seu destino,/ Não sabem que um rigor adamantino/ Sujeita seu arbítrio e sua jornada” (BORGES, 1999, p. 211). Dessa forma, os versos de Kolody e de Borges apontam para a idéia do inesperado e do jogo. Ou seja, os homens fazem parte da peça de um tabuleiro de xadrez e, de repente são retirados do jogo. A mesma temática da vida e da morte está presente no poema dístico intitulado “Tempo”. O eu-lírico declara:

Cai a areia da vida
Na ampulheta da morte (p. 145).

Nos versos do poema, salienta-se o caráter lúdico da linguagem poética, ou seja, o que o poeta essencialmente faz é jogar com as palavras. As imagens da areia e da ampulheta estão organizadas na estrutura do poema de forma harmoniosa, confrontando com as palavras vida versus morte. A ampulheta, símbolo do tempo, está relacionada ao título do poema. No poema sintético intitulado “Areia”, percebe-se a temática da efemeridade da vida:

Da estátua de areia,
nada restará,
depois da maré cheia (p. 82).

Os versos apontam para o caráter efêmero e transitório da existência. O signo areia funciona como metáfora de corpo; maré cheia como metáfora de morte. No jogo da linguagem aparece claramente os questionamentos do sujeito lírico. No texto “Diálogo”, a temática diz respeito à questão da vida, relacionada à problemática do ser que se questiona, em busca do sentido da vida:

Debruçados sobre a vida,
indagamos seus mistérios
e raramente alcançamos
suas respostas cifradas.

Ao calor do interrogar-se
nuvens ocultas esgarçam-se,
a luz em nós amanhece (p. 76).

No texto predomina o trabalho metafórico da linguagem sobre outros recursos poéticos, tais como paralelismos, rimas, assonâncias. São versos que acentuam a condição do sujeito “plural”, que se indaga frente aos segredos da vida. Com uma linguagem elaborada e metafórica, a poeta celebra a vida e o canto festivo nos versos do poema intitulado “Alegria de viver”:

Amo a vida.
Fascina-me o mistério de existir.

Quero viver a magia
de cada instante,
embriagar-me de alegria.

Que importa a nuvem no horizonte,
chuva de amanhã?
Hoje o sol inunda o meu dia (p. 35).

A consciência da brevidade da vida e o futuro incerto fazem com que o sujeito lírico valorize o momento presente. No texto, a morte é um processo natural, surgindo como uma perspectiva certa da finitude do homem. A consciência de que a morte pode chegar a qualquer momento, não é obstáculo para que o sujeito lírico viva intensamente o momento presente. Um outro texto que traz o encanto e a magia da vida é o tanka “Aquarela”, com grau máximo de comunicabilidade e lirismo, em que o eu poético busca o instantâneo e a integração da vida e da natureza:

Sol de primavera.
Céu azul, jardim em flor.
Riso de crianças.
Na pauta de fios elétricos,
uma escala de andorinhas (p. 28-29).

A linguagem do poema é marcada por uma força lírica na qual o sujeito poético conjuga a relação do sentimento vital integrada à constante renovação cíclica da vida. Neste tanka, os elementos da natureza se relacionam de maneira harmoniosa. No “coração do poema”, destaca-se o verso “riso de criança”, que simboliza a simplicidade natural, a espontaneidade. São versos deste teor que comprovam a simplicidade da poesia kolodyana, pois eles fluem naturalmente como voz sonora, capaz de bem-dizer a vida e seus instantes.

Em “Dom”, verifica-se o poder mágico das palavras, em uma linguagem lúdica, rica em associações de idéias, símbolos e metáforas. Em três versos, o eu poético sintetiza o pensamento:

Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la (p. 51).

A temática do poema mostra a questão da religiosidade e também a problemática que envolve o ser humano: as possibilidades e impossibilidades de realizar-se. O vocábulo estrela é a metáfora de vida. Se há os que fazem da estrela um sol de realizações, há os que nem conseguem atingir seus objetivos, justamente por não descobrirem a sua estrela. Símbolo do princípio da vida, a estrela é fonte de luz. Já o sol é fonte de calor, de luz e de vida. É também, símbolo de inteligência cósmica e da luz do conhecimento (CHEVALIER & GHEERBRANT, 1991, p. 836-841).

Em “Sempre madrugada”, poema dístico, os versos são simples e fluentes, marcados por um ritmo dinâmico:

Para quem viaja ao encontro do sol,
é sempre madrugada (p. 70).

Através dos versos livres e da sonoridade, mostra-se a temática da busca de realização humana. Salienta-se também que o ser humano está sempre em viagem, em busca de um sol que o realize. Em “Cronos”, poema dístico, o sujeito lírico reforça a idéia expressa nos versos anteriores:

Não é o tempo que voa.
Sou eu que vou devagar (p. 55).

O “estar em viagem” é um processo temporal delimitado pelas circunstâncias da vida. No afã de conquistar as realizações humanas, faz-se necessário “apressar a lida”. No poema sintético “Sem aviso”, o sujeito lírico salienta: “Sem aviso,/ o vento vira/ uma página da vida (p. 35). São versos que apontam para a brevidade da vida. Percebe-se a sutileza do sujeito poético em articular a linguagem, atingindo a essência e um alto grau de concisão. No texto, o eu-lírico expressa a condição efêmera da vida, através da metáfora vento que funciona como morte. No poema “Hora plena”, o eu-lírico alerta para a necessidade de se viver o momento presente:

Hora plena, a do meio-dia.
As figuras não projetam sombras.
A luz incide, vertical, nas criaturas.

Hora total em que o ser atinge
a plenitude (p. 47).

Nesse sentido, a poesia de Kolody apresenta uma linguagem metafórica que aponta para a busca de sentido exitencial. Sua poesia parte da experiência cotidiana e a transcende mediante a imagem poética a uma dimensão maior, despertando no leitor uma consciência de plenitude, ou seja, linguagem enquanto revelação da condição humana: presença e finitude.

A obra kolodyana apresenta uma maneira intensa de entender e expressar os sentimentos do mundo, numa poesia que tem por centro temático a inquietação, em que a vida, "a inquietação suprema de viver", alia-se à "suprema angústia de pensar". O tema da inquietação, na poesia kolodyana, se refere à busca de sentido para a existência, sentido este evidenciado através do processo criador. Dessa forma, constata-se que seus poemas se traduzem em versos tranqüilos, apaziguadores, até mesmo esperáveis, em termos do código lírico, ou seja, a inquietude temática se resolve na composição em que predomina a harmonia.

Em relação à síntese e ao “estado de poesia”, Helena Kolody afirma que “o nascimento do poema” surge da inspiração, mas depois vem o “burilamento, que antes eu não fazia. O meu burilar é principalmente cortar. Muitos poemas foram reduzidos, qualquer um pode notar isso, a três versos. Ao mesmo tempo, parece que a poesia vem mais enxuta, mais essencial” (In: VENTURELLI, 1995, p. 23).

Cumpre observar que, entre os primeiros críticos a apresentar a poesia Helena Kolody estão Rodrigo Júnior e Andrade Muricy. A autora teve orientação muito especial de Muricy. Ela declara que na sua formação escolar seu contato era com textos literários simbolistas e parnasianistas, e que chegou à literatura modernista através da obra A nova literatura brasileira, de Andrade Muricy (MURICY, 1936). “Por ser amigo de meus amigos, ele me ofereceu o livro e para mim foi uma descoberta. Eu não conhecia nenhum daqueles autores, porque nada do que eu lia ia além de Olavo Bilac” (In: VENTURELLI, 1995, p. 20). A autora afirma ainda que Muricy lia seus textos, mas “não mexia no que a gente escrevia. [...] Uma vez ele me falou: “reparei que você chega mais ao objetivo nos poemas curtos. Você tem talento para a síntese. Os seus poemas mais breves são os melhores” (Id.; ibid.).

Consoante as afirmações da autora e a evolução de sua obra, nota-se que na lírica kolodyana ocorre um “enxugamento” dos textos, encaminhando-se cada vez para um estilo direto, privilegiando a economia dos meios de expressão. A força de seus poemas reside no alto grau de concisão e síntese. A autora realiza um fazer poético marcado por uma linguagem densa, sutil, registrando o instantâneo, a fugaz e as coisas mais simples. Tal como o tecelão que vai escolhendo os fios e emaranhando-os no tear, da mesma forma, Kolody constrói seus poemas, elaborando-os cuidadosamente. Os poemas kolodyanos possuem uma relação de sentido que os mantêm interligados a uma constante temática: a construção do poema, o fazer poético, seu material: palavras, frases, linguagem; as dificuldades encontradas pelo sujeito poético na construção de seus poemas; a tentativa do poeta de - por meio de um trabalho com a linguagem - transpor muros e barreiras, tendo em vista a livre expressão de seus anseios e desejos.

Seus poemas sintéticos, condensados (haicais, tankas, dísticos, tercetos, epigramas, entre outros), são construídos a partir das coisas simples e cotidianas e remetem às profundas reflexões sobre o sentido da existência. Essencialmente lírica, sua poesia tem o poder de despertar o leitor para a observação da “linguagem-natureza” mostrando que a poesia é signo de vida, poder, alquimia e nostalgia. Helena Kolody tem uma obra inconfundível. Desde a sua primeira obra, Paisagem interior (1941) a Reika (1993), sua poesia evolui no sentido de síntese reflexiva, concisão e alto grau de lirismo espontâneo, contido, numa linguagem que é, acima de tudo, busca do essencial.

 

NOTAS

[1] Professor de Teoria da Literatura da Unioeste - Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Campus de Marechal Cândido Rondon - Paraná - Brasil.

[2] Helena Kolody, natural de Cruz Machado, PR, Brasil (1912-2004). Filha de imigrantes ucranianos, a autora publicou doze livros de poesia e doze antologias e tem uma fortuna crítica expressiva.

[3] In: KOLODY, Helena. Viagem no espelho. Curitiba: Editora da UFPR, 1999 (5ª ed.). Este e os demais poemas de Kolody fazem parte desta antologia que reúne as doze obras da autora.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BASSETI, Alzeli. Helena Kolody: poesia feito gente. Brasília: revista de Circulação Nacional, Brasília, n. 53, p. 2-5, jul.1990.

BORGES, Jorge Luis. Obras completas de Jorge Luis Borges. São Paulo: Globo, 1999

CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991.

DURAND, Gilbert. A imaginação simbólica. Lisboa: Edições 70, 1995.

ESTEBAN, Claude. As palavras da inquietaçäo. In: Crítica da razão poética. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

KOLODY, Helena. Paisagem interior. Curitiba: Escola Técnica de Curitiba, 1941. (Edição da Autora. Capa de Helvídia Leite. Impresso nas Artes Gráficas da Escola Técnica de Curitiba).

KOLODY, Helena. Reika. Curitiba: Ócios do ofício, 1993 (Editado pela Fundação Cultural de Curitiba).

KOLODY, Helena. Viagem no espelho. (5ª ed. ). Curitiba: Editora da UFPR, 1999.

LAVIGNE, Jacques. A inquietação humana. Porto Alegre: Asa, 1958.

MURICY, Andrade. A nova literatura brasileira. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1936.

PAZ, Octavio. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

PAZ, Octavio. O labirinto da solidão e post-scriptum. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

VENTURELLI, Paulo (Org.) Helena Kolody. Curitiba: Ed. da UFPR, 1995 (Série paranaense, n. 6).

 

© Antonio Donizeti da Cruz 2004
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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