A vida humana em sua constante Metamorfose:
uma análise sócio-semiótica da obra de Franz Kafka

Soraya Maria Romano Pacífico1 y Lucília Maria Sousa Romão2
Universidade de São Paulo (Brasil)


 

   
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RESUMO: Partindo dos postulados greimasianos, pretendemos fazer uma análise sócio-semiótica da obra de Franz Kafka, buscando compreender o percurso gerativo do sentido, pois entende-se que o sentido do texto não é apreendido através de uma simples leitura e sim através da análise de nível de leitura. Buscamos mostrar que o sentido apreendido no texto é homologado pela/na cultura, uma vez que os valores que circulam os textos trazem marcas sociais, históricas e ideológicas.

 

I - Introdução

Para realizar este trabalho, parte-se do pressuposto que, no discurso, articulam-se língua (o sistema, social) e fala (individual) sendo que, dessa articulação, resulta a produção do sentido como nos indica Barros (1988:4) “é da relação entre a invariante do sistema e a variação social que surge o sentido do discurso. A articulação do discurso com a formação social não é, por conseguinte, fortuita e ocasional ou secundária e acessória”.

Pode-se considerar metaforicamente a construção de um texto como a construção de uma casa, uma vez que ambos não se constroem só pelo interior, o processo final se dá através da conciliação do interno com o externo. E é na análise dos aspectos externos do discurso que apreende-se o social, o histórico, o ideológico. O discurso é o porta voz dos acontecimentos sócio-histórico ideológicos porque ele é veiculado pela linguagem e “a linguagem cria a imagem do mundo, mas é também produto social e histórico. (...) A medida que os sistemas lingüísticos se vão constituindo vão ganhando certa autonomia em relação às formações ideológicas. Entretanto, o componente semântico do discurso continua sendo determinado por fatores sociais. É esse componente que contém a visão do mundo veiculado pela linguagem”, Fiorin (1993: 53).

Entendendo o discurso dessa maneira, percebe-se que, através dele, o homem pode agir no mundo colocando-se na sociedade, marcando sua visão de mundo, provocando mudanças ou confirmando os valores que circulam em sua volta. Dessa forma, procuramos trabalhar com um corpus que mostrasse claramente as marcas da enunciação no enunciado e possibilitasse ao leitor uma leitura social, histórica e ideológica atual, com o intuito de tornar mais produtiva a apreensão da significação. Baseado neste critério e considerando-se a obra de grande valor, optou-se por analisar “A Metamorfose” de Franz Kafka, que, como veremos no desenvolvimento deste trabalho, mostra um discurso, no qual circulam valores que estão cada vez mais enraizados na vida humana.

Objetivamos analisar o texto através de um percurso gerativo do sentido, pois entende-se que o sentido do texto não é apreendido através de uma simples leitura e sim através da análise de nível de leitura, que geram um percurso “que vai do mais simples ao mais complexo, do mais abstrato ao mais concreto”, Greimas & Courtes, apud Barros, D. L. P. (1988:15). Partindo da análise desses níveis, pretende-se mostrar que o sentido apreendido no texto é homologado pela/na cultura, uma vez que os valores que circulam os textos trazem marcas sociais, históricas e ideológicas.

Também pretendemos tecer um caminho para o leitor percorrer o texto, analisá-lo, criticá-lo e encontrar no texto identidades ou adversidades, enfim transformar a relação leitor/texto numa interação, em que o leitor deixe de ser um passivo receptor da mensagem e torne-se um co-autor do texto, instaurando um lugar privilegiado para a interpretação.

 

II. Fundamentação teórica

A fundamentação a teoria semiótica greimasiana, centrada na produção da significação do texto, analisa o percurso gerativo do sentido, tomando-o como ponto de partida para a analisar o texto os três níveis que constituem o seu percurso: o nível fundamental, o nível narrativo e o nível discursivo. No três níveis encontra-se um componente sintático e um componente semântico.

No nível fundamental, estão os valores que sustentam o texto. A sintaxe fundamental apresenta a oposição desses valores, os quais pertencem à mesma categoria semântica (ex; bem x mal, morte x vida). A semântica fundamental apresenta uma taxionomia (eufóricos, disfóricos) e uma categoria tímica, ou seja, a direção que os valores do texto percorrem podendo ir do positivo (euforia) para o negativo (disforia) ou o caminho inverso. Conforme Greimas (1979 b:9) aput Barros (1988: 24):“Tratar-se de uma categoria ‘primitiva’; dita também proprioceptiva, com a qual se procura formular, muito sumariamente, o modo como todo ser vivo, inscrito em um contexto, ‘se sente’, e reage ao seu meio, considerando o ser vivo como ‘um sistema de atrações e repulsões’”.

A etapa seguinte é o nível narrativo, no qual as invariantes promovem a narratividade presente em todos os textos e ocorrem transformações de estados provocadas por um sujeito do fazer. Na sintaxe narrativa ocorre a organização sintagmática da narrativa e encontram-se dois tipos de enunciado: enunciado de estado (relação entre sujeito e objeto) e enunciado de transformações (mudanças que ocorrem de um enunciado de estado a outro). A narrativa apresenta um esquema canônico, que compreende quatro fases: manipulação (destinador/ destinatário); competência (poder, querer, dever, saber); performance (fazer ser) e, por fim, sanção (destinador/ julgador).

Esse esquema não implica que toda narrativa deva obrigatoriamente apresentar essas quatro frases, pode acontecer, dependendo do texto, que uma frase seja mais marcada que a outra ou ainda que uma subentenda a outra. Sobre isso, Greimas & Courtes (s.d.:298) afirmam que :“O esquema narrativo, enquanto modelo canônico, deve ser tomado como referência, a partir do qual são calculados os desvios, as expansões e as variações narrativas, e estabelecidas as comparações entre as narrativas diferentes. Só pode ser entendido no topo da estrutura sintática hierárquica que se está examinando, ao definir-se como modelo hipotético de uma organização geral da narratividade que procura mostrar as formas pelas quais o sujeito concebe sua vida enquanto projeto, realização e destino”. Na mesma linha, caminha o trabalho de Barros (1988: 41) para quem: “a hierarquia sintática da narrativa vai do programa ao esquema passado pelo percurso”.

Os programas narrativos se organizam formando um percurso narrativo, que é “uma seqüência hipotáxica de programas narrativos (abreviados PN), simples ou complexos, isto é um encadeamento lógico em que cada PN é pressuposto por um outro PN”. (Greimas & Courtes, s.d.p.300). A semântica narrativa aborda a relação do sujeito com o objeto-valor, necessário para a concretização da performance principal. É através dessa performance que o sujeito entra em conjunção ou disjunção com o objeto-valor.

No nível discursivo, o texto se individualiza e ganha características próprias. Aqui as estruturas sêmio narrativas são assumidas pelo sujeito da enunciação, a partir de uma sintaxe, e de uma semântica. “A sintaxe discursiva goza de certa autonomia em relação às formações sociais, enquanto a semântica depende mais diretamente de fatores sociais. (...) A semântica discursiva é o campo da determinação ideológica propriamente dita”, Fiorin (1993: 18-19)

A sintaxe discursiva aborda aspectos estruturais do discurso, como pessoalização, temporalização, espacialização, relação enunciador/ enunciatário. A semântica discursiva reveste o nível narrativo com temas e figuras, dando concretude ao discurso. Os temas remetem a elementos não observáveis no mundo natural enquanto figuras remetem a elementos do mundo natural. Segundo Fiorin (1993:24) para entender um discurso figurativo é preciso, pois, antes de mais nada apreende o discurso temático que subjaz a ele.

Paralelamente à essa análise do corpus, pretende-se associar elementos extralingüísticos do contexto sócio-histórico e sabendo-se que a semiótica ainda não possui elementos suficientes para abordar os aspectos externos, admite-se que será necessário recorrer a outras teorias, que preencham tais lacunas sem com isso tornar a análise contraditória. Procura-se-á encontrar na enunciação a meditação entre os mecanismos lingüísticos e extralingüísticos do discurso.

 

III. O percurso da metamorfose do homem ao inseto

O corpus que será analisado, como já foi citado, é a obra de Franz Kafka “A metamorfose” e, devido a sua extensão, não será apresentado aqui na íntegra, mas, à medida que a análise for se desenvolvendo, serão apresentados fragmentos da obra para ilustração das idéias e da discussão teórica que ora travamos.

No nível fundamental, considera-se a oposição dos valores que circulam no texto, dada pela sintaxe fundamental, a saber a oposição entre a liberdade e a opressão (exploração). O sujeito Gregor Samsa vivia oprimido pela família e pelo patrão, pois precisava trabalhar muito para pagar a dívida que seus pais tinham para com seu patrão. “- Acordar cedo assim deixa a pessoa completamente embotada, pensou. - O ser humano precisa ter o seu sono. Outros caixeiros viajantes vivem como mulher de harém. Por exemplo, quando voltou no meio da tarde ao hotel para transcrever as encomendas obtidas, esses senhores ainda estão sentados para o café da manhã. Tentasse eu fazer isso com o chefe que tenho: voaria no ato para a rua. (...) E mesmo que pegasse o trem não podia evitar a explosão do chefe. (...) E se anunciasse que estava doente? Mas isso seria extremamente penoso e suspeito, pois durante os cinco anos de serviço Gregor ainda não tinha ficado doente uma única vez. Certamente o chefe viria com o médico do seguro de saúde, censuraria os pais por causa do filho preguiçoso e cercearia todas as objeções apoiado no médico, para quem só existem pessoas inteiramente sadias refratárias ao trabalho” (p.9-10).

Infere-se desse trecho que Gregor considerava o patrão um tirano, um explorador, porém ele se sujeitava a essa tirania a fim de livrar a família da dívida. Por sua vez, a família também o oprimiu e explorou, pois deixou a responsabilidade da dívida só para Gregor. “Ah, meu Deus! pensou. - Que profissão cansativa escolhi. (...) Me é imposta esta canseira de viajar, a preocupação com a troca de trens, as refeições irregulares e ruins, um convívio humano que muda sempre, jamais perdura, nunca se torna caloroso. (...) Se não me contivesse, por causa dos meus pais, teria pedido demissão há muito tempo; teria me postado diante do chefe e dito o que penso do fundo do coração”. p.8,9 (...) “Ora, o pai era na verdade um homem saudável, porém velho, que não trabalhava há cinco anos (...). É a velha mãe, que sofria de asma, a quem uma caminhada pelo apartamento já era um esforço (...) - deveria ela agora, por acaso ganhar dinheiro? E deveria a irmã ganhar dinheiro, que com dezessete anos era ainda uma criança e cujo o estilo de vida até agora dava gosto de ver, consistindo em vestir roupas bonitas, dormir bastante, ajudar na casa, participar de algumas diversões modestas e acima de tudo tocar violino?” (p.44)

Com relação à semântica fundamental (categoria tímica), é possível dizer que, no texto, os valores partem da opressão determinada como negativa (disfórica) e vão em busca da liberdade, que é positiva (eufórica). Porém, a busca da liberdade não é alcançada, fica apenas no nível do desejo, posto que ela não se concretiza. A seqüência opressão (disforia) - não opressão (não- disforia) e liberdade (euforia) se apresenta assim: Gregor passa toda sua existência oprimido; enquanto trabalha sente-se trucado e sonha com a liberdade e, depois da metamorfose, fica literalmente preso em seu quarto, olhando a janela e vendo a liberdade do mundo lá fora. “(...) Se não me contivesse por causa de meus pais, teria pedido demissão há muito tempo. (...) Bem, ainda não renunciei por completo à esperança: assim que juntar o dinheiro para lhe pagar a dívida dos meus pais - deve demorar ainda cinco a seis anos - vou fazer isso sem falta. Chegará então a vez da grande ruptura” ( p.9) “(...) Freqüentemente passava noites inteiras deitado ali; sem dormir um instante, apenas arranhando o couro durante duas horas. Ou então não refugava o grande esforços de empurrar uma cadeira até a janela, para depois rastejar rumo ao peitoril e, escorado na cadeira inclinar-se sobre a janela - evidentemente em nome de alguma lembrança do sentimento de liberdade que outrora lhe dava olhar pela janela.” (p.44). Após a metamorfose, Gregor libertou-se do patrão e da responsabilidade familiar, mas tornou-se prisioneiro dentro de seu próprio mundo.

No nível narrativo, que leva em conta a relação de sujeito-objeto, a sintaxe narrativa materializa enunciados de estados e enunciados de fazer, que analisaremos a seguir. O enunciado de estado é dado pela a relação de junção entre sujeito “Gregor” e os objetos “emprego”, “dinheiro”, “família”, “mundo humano”. O enunciado de fazer: a transformação que a metamorfose opera na relação Gregor com os objetos. “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.(p.7). Assim chegamos à interpretação de que o enunciado de estado conjunto (S O) se apresenta assim: S (Gregor)? O (emprego, dinheiro, família, mundo humano), ao passo em que o enunciado de estado disjuntivo (S O) se define da seguinte maneira: S (Gregor)? O (emprego, dinheiro, família, mundo humano). Os enunciados de fazer operaram a transformação da conjunção que o sujeito Gregor mantinha com os objetos-valor para a disjunção com esses objetos.

Quanto aos programas narrativos, é possível afirmar que, no programa narrativo 1, Gregor tem o emprego e sustenta a família (o sujeito do fazer é Gregor). No PN2, Gregor perde o valor da liberdade, sente-se oprimido (o sujeito do fazer é o patrão e a família; o sujeito de estado é Gregor). Já no programa narrativo 3, o personagem central é abandonado por todos e morre, para o alívio de sua família (o sujeito do fazer é a família; o sujeito de estado é Gregor)“(...) - Morto? Disse a senhora Samsa e ergueu os olhos interrogativamente para a faxineira, embora pudesse verificar por si mesmo e até reconhecer tudo sem verificação.” (p.82) “(...) - Bem, disse o senhor Samsa - agora podemos agradecer a Deus.”( p.82) “(...) A senhora não precisa se preocupar com o jeito de jogar fora a coisa aí do lado. Já está tudo em ordem.” (p.86)

Também marcamos que o programa narrativo 5 mostra a família volta a ter uma vida normal (o sujeito do fazer é a família). As fases da narrativa também foram objeto de nosso interesse (PN de base), ficando assim registra que, na manipulação, a família de Gregor e seu patrão o manipulam para trabalhar e pagar contas. Na fase competência, o sujeito Gregor deve fazer, pode fazer e sabe fazer o trabalho para pagar a dívida da família; com relação à performance, o sujeito Gregor realiza o trabalho e sustenta a família. Por fim, na sanção, é sancionado negativamente, pois anulou-se completamente, perdeu sua liberdade, sua identidade e não obteve o menor reconhecimento.

No tocante ao programa narrativo (de uso), a sanção aparece com a família sancionada negativamente desde o início, pois encontra-se na falência.“(...) A preocupação de Gregor na época tinha sido apenas fazer tudo para a família esquecer o mais rápido possível a desgraça comercial, que havia levado todos a um estado de completa desesperança”. p.41. Na manipulação dá-se que, após a metamorfose, a família até então acostumada constantemente a explorar Gregor se sente obrigada a ganhar dinheiro. A necessidade de sobrevivência a manipula. Até então, a competência aparece camuflada, pois a família revela que pode fazer e saber, fazer e começa a trabalhar. “(...) - Era aquele ainda que o seu pai? O mesmo homem, que costumava ficar enterrado na cama, exausto (...). Agora porém ele estava muito ereto, vestido com um uniforme azul justo, de botões dourados, como usam os contínuos de instituições bancárias (...) os olhos escuros emitiam olhares vividos e atentos; o cabelo branco outrora desgrenhado, estava penteado com uma risca escrupulosamente exata e luzidia.” (p.57) “(...) A mãe, muito curvada sobre a luz, costurava finas roupas de baixo para uma loja de modas; a irmã, que tinha aceito um emprego como vendedora, à noite estudava estenografia e francês para conseguir talvez mais tarde um posto melhor.” (p.62)

Considerou-se apenas os programas narrativos principais, uma vez que estes já atendem aos objetivos propostos. Num primeiro momento, o destinador-manipulador (a família e o patrão) manipula Gregor por intimidação, pois ele deve realizar o trabalho a fim de pagar a dívida e prover a família. A manipulação de Gregor (sujeito-operador) começa com a sanção negativa de sua família, que estava falida. Num segundo momento, destinador-manipulador passa a ser a vida, que manipula também por intimidação a família de Gregor (sujeito-operador) que deve trabalhar para ganhar dinheiro e sobreviver.“(...) Entretanto esse dinheiro não bastava de maneira alguma para permitir que a família vivesse de renda; talvez fosse suficiente para sustentá-la um, no máximo dois anos, não mais que isso. (...) Mas o dinheiro para viver tinha de ser ganho.” (p.43,44)

A semântica narrativa ocupa-se dos objetos modais e dos objetos de valor. Para o sujeito Gregor o objeto modal é o emprego (que ele tem porque é humano) necessário para ele conseguir o objeto-valor (dinheiro, bom apartamento, boas roupas para a irmã, enfim, sustentar a família). Através do objeto modal, Gregor entra em conjunção com o objeto valor. Contudo, a opressão, a falta de consideração para com o ser humano “Gregor” provocaram nele uma metamorfose, a partir da qual ele entra em disjunção com a vida humana e seus valores, perdendo o objeto modal (emprego) e conseqüentemente o objeto valor. “A mãe concluiu:- Não é como se nós mostrássemos, retirando os móveis, que renunciamos a qualquer esperança de melhora e o abandonamos a própria sorte, sem nenhuma consideração?(...) Elas lhe esvaziavam o quarto; privavam-no de tudo que lhe era caro”. (p.50,52)

No nível discursivo, marcamos que a sintaxe discursiva, serão analisadas as projeções da enunciação do enunciado e as relações entre o enunciador e o enunciatário. Nas projeções da enunciação do enunciado estão projetadas uma pessoa (ele), um tempo (não agora = então) e um espaço (lá), que se relacionam na instância da enunciação. Tem-se uma debreagem (enunciativa), com a presença de um narrador produzindo um efeito de sentido de objetividade devido a ausência do “eu”. “(...) O grave ferimento de Gregor, que o fez sofrer mais de um mês. - a maçã ficou alojada na carne como uma recordação visível, já que ninguém ousou removê-la parecia ter lembrado ao pai que Gregor, a despeito da sua atual figura triste e repulsiva, era membro da família que não podia ser tratado como um inimigo, mas diante do qual o mandamento do dever familiar impunha engolir a repugnância e suportar, suportar e nada mais”. (p.61)

Percebe-se também, no texto, debreagens internas, quando o enunciador dá a palavra a uma das pessoas do enunciado ou da enunciação já instalados no enunciado, simulando um efeito de “realidade” como os recortes apontam a seguir. “(...) - Gregor, chamaram - era a mãe - é um grande quarto para sete. Você não queria partir?” (p.11); “(...) - Sim, sim, obrigado mãe, já vou me levantar.” (p.11); “(...) - por acaso a música incomoda os senhores?; Ela pode ser imediatamente interrompida e “- Pelo contrário, disse o senhor do meio”. (p.71) O texto apresenta-se em discurso indireto livre, deixando ouvir a voz do narrador “(...) Aí Gregor ficou outra vez no escuro, enquanto do outro lado da porta as mulheres misturavam suas lágrimas ou fitavam a mesa com os olhos secos”. p.65) e a voz do personagem Gregor “(...) Eu tenho apetite, sim - disse Gregor a si mesmo, preocupado -, mas não por essas coisas. Como se alimentam esses inquilinos, e eu aqui morrendo”. (p.71)

Na debreagem temporal, será considerado um tempo anterior à metamorfose e um tempo posterior a ela. Basicamente o que predomina no texto é o pretérito imperfeito. Existe um passado e um passado em relação a esse passado (que é anterior à metamorfose). Esses tempos são marcados em duas instâncias, a saber, antes e depois da metamorfose. Antes da metamorfose, “(...) Ele achava que daquele negócio não havia sobrado absolutamente nada para o pai - pelo menos o pai não lhe dissera nada em sentido contrário e, seja como for, Gregor também não havia interrogado a esse respeito” (p.41); “(...) Tinham sido bons tempos e nunca se repetiam... Tanto a família como Gregor acostumaram-se a isso: aceitava-se com o dinheiro, ele o entregava com prazer, mas disso não resultou mais nenhum calor especial... Gregor porém pensava nisso de maneira muito definida e tinha a intenção de anunciá-lo solenemente na noite de Natal”. (p.42); “(...) Mas além disso o dinheiro que Gregor trouxera todos os meses para casa - ele só reservava alguns florins para si mesmo - não tinha sido todo gasto e formara um pequeno capital.” (p.43)

Após a metamorfose, o tempo se apresenta assim: “(...) Mas infelizmente a irmã não estava aqui, era o próprio Gregor quem precisava agir. E sem pensar que ainda não conhecia suas atuais faculdades para se mover”... (p.28); “(...) Que vida tranqüila a família levava! Disse Gregor a si mesmo e sentiu, enquanto fitava o escuro diante dele, um grande orgulho por ter podido proporcionar aos seus pais e sua irmã uma vida assim, num apartamento tão bonito”. (p. 34-35); “(...) mas depois ele já não estava mais com ânimo algum para cuidar da família, sentia-se simplesmente cheio de ódio pelo mau tratamento”. (p.66); “(...) Logo descobriu que não podia absolutamente mais se mexer. (...) Sua opinião de que precisava desaparecer era, se possível,a inda mais decidida que a da irmã. Permaneceu nesse estado de meditação vazia e pacífica até que o relógio da torre bateu a terceira hora da manhã. (...) Depois, sem intervenção da sua vontade, a cabeça afundou completamente e das suas ventas fluiu fraco o último fôlego.” (p.80-81)

Em relação à debreagem espacial, pode-se dizer que o espaço restringe-se à casa de V, mais especificamente ao quarto de Gregor, local onde ele passa toda fase da metamorfose até sua morte. Achamos importante registrar que, sobre a relação argumentativa entre enunciador e enunciatário, pode-se dizer que a sociedade (na figura da família e do patrão), através de seus valores, manipula o sujeito Gregor a assumir as responsabilidade da família, pois os pais estão “velhos”, a irmã é muito “nova” e o patrão quer o dinheiro.

O discurso autoritário do pai não deixa espaço algum para Gregor expor suas idéias, seu ponto de vista; ele passa a ser um simples receptor de ideologia do outro. Constata-se a ausência do diálogo entre Gregor e a família, o que caracteriza o discurso autoritário que neste texto é o discurso do enunciador manipulador. Ele crê no discurso e aceita a manipulação, porém, depois da metamorfose, ele descobre a mentira do discurso da família, pois eles podem e sabem trabalhar, só não o faziam, porque até então Gregor se deixava ser explorado, não enxergava o que havia por trás da máscara de sua família.

Pode-se considerar este texto, além de autoritário, polêmico, uma vez que o texto parte de um discurso mentiroso, mas na aparência é dito verdadeiro e durante seu percurso o enunciatário vai descobrindo a verdade que subjaz a ele, cabendo ao enunciatário estabelecer um conforto entre ideologia do explorador e do explorado.

A semântica discursiva busca compreender temas e figuras subjacentes ao discurso analisado, no nosso caso nos parece pertinente afirmar que está em jogo a degradação humana, em conseqüência da exploração a que são submetidos os indivíduos, fazendo com que gradativamente eles percam sua liberdade e sua identidade (tema 1). A exclusão do indivíduo de seu meio quando ele está em disjunto com seus bens (tema 2), o poder patriarcal (tema 3), o homem visto somente como instrumento de produção (tema 4) e a mulher vista como objeto de sedução para a aquisição de um casamento conveniente (tema 5) também se configuram como temas subjacentes à história, recobertos por figuras do mundo humano, que tendem a concretizar o discurso.

Com referência ao tema 1, o texto todo é construído sobre ele, deixando claro a decomposição do sujeito Gregor frente à sociedade, à família, ao patrão, à própria vida, perdendo, diante de tanta opressão, as condições mínimas de ser humano transformando-se literalmente num bicho nojento. “Quando certa manhã Gregor Sansa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso (...) No começo ela também o chamava ao seu encontro, com palavras que provavelmente considerava amistosas, como “venha um pouco aqui, velho bicho sujo!” ou “vejam só o velho bicho sujo!” (p.68) “(...) Todas elas migraram para o quarto de Gregor - mesmo a lata de cinzas e a lata de lixo da cozinha. Agora a faxineira, que estava sempre com muita pressa, simplesmente arremessava ao quarto de Gregoro que não era usado no momento...” (p.69) “(...) Queridos pais, disse a irmã e como introdução bateu a mão na mesa - assim não pode continuar. Se vocês acaso não compreendem, eu compreendo. Não quero pronunciar o nome do meu irmão diante desse mostro por isso digo apenas o seguinte: precisamos tentar nos livrar dele”. (p.77)

As figuras do “inseto monstruoso”, “bicho sujo”, “lata de cinzas” e “lata de lixo”, “monstro”, denunciam a podridão da sociedade humana, o papel desprezível e nojento que o explorador submete o explorado, que se vê obrigado, a rastejar para sobreviver. “(...) A irmã notou logo a nova diversão que Gregor havia descoberto - ao rastejar ele deixava aqui e ali vestígios de sua substância adesiva - e então ela pôs na cabeça que devia dar a Gregor a possibilidade de rastejar na extensão máxima do quarto, retirando os móveis que obstavam, sobretudo o armário e a escrivaninha.” (p.48)

Em relação ao tema 2, afirmamos que a retirada dos móveis figurativiza a privação de Gregor de todos os seus bens, de tudo que lhe era caro e o ligava ao passado. O “quarto alto e vazio” figurativiza a privação de Gregor com a liberdade, com a vida, pois o quarto tornou-se o único espaço permitido para tal sujeito. Constata-se a denuncia da marginalização do ser humano, colocando fora do seu meio quando se encontra em condição desprestigiada, apagando-se o que ele foi e considerando-se apenas o que ele é no momento. Os fragmentos a seguir confirmam isso: “(...) Tinha realmente vontade de mandar que seu quarto - confortavelmente instalado com móveis herdados - se transformasse numa toca em que pudesse então certamente se arrastar imperturbado em todas as direções, ao preço contudo do esquecimento simultâneo rápido e total do seu passado humano? “... Nada deveria ser afastado; tudo deveria permanecer; não podia se privar dos bons influxos dos móveis sobre o seu estado...” (p.50) “(...) Mas o quarto alto e vazio, era forçado a permanecer de bruços no chão, o angustiava...” (p.35-36) “(...) Pode-se no momento estar incapacitado de trabalhar, mas essa é a hora certa para se lembrar das realizações passadas e para se pensar que mais tarde, uma vez superados os obstáculos, sem dúvida se vai trabalhar com mais afinco e forças mais concentrados”. (p.26).

Com referência ao tema 3, o poder patriarcal é marcado pela figura autoritária do pai, seu tom de voz, sua ideologia, que acredita no dever dos membros da família de servi-lo.“(...) E já o pai batia, fraco mas com o punho, numa porta lateral.” Gregor, Gregor, chamou. - O que há?E depois de um intervalo curto advertiu outra vez, com a voz mais profunda: Gregor, Gregor!” (p.11-12) “(...) Implacável, o pai o pressionava, emitindo silvos como um selvagem.” (p.30) “(...) Nenhum pedido de Gregor adiantou, nenhum pedido também foi atendido; por mais humilde que inclinasse a cabeça, com tanto mais força o pai batia os pés.” (p.30)“(...) Gregor ficou paralisado de susto; continuar correndo era inútil, pois o pai tinha decidido bombardeá-lo.” (p.58) “(...) O senhor Sansa virou-se para elas...Depois bradou: - Agora venham aqui, Parem de pensar no que passou. E tenham um pouco de consideração por mim” (p.86)

Percebe-se que o pai sugou de Gregor toda a vida, tudo de bom que Gregor pode lhe proporcional sem retribuir a mínima consideração, negando-a inclusive na sua morte, fazendo com que a mãe e filha esquecessem o passado e cuidassem apenas dele, o pai.

Quanto ao tema 4, pode-se exemplificá-lo através da figura do patrão, (chefe), que não aceita desculpas e não considera o empregado como ser humano, explorando-o até as últimas conseqüências e depois, quando o vê metamorfoseado foge, sem questionar a menor possibilidade de ajuda. “(...) Tentasse eu fazer isso com o chefe que tenho: voaria no ato para a rua. (...) Também, é estranho o modo como toma assento nela e fala de cima para baixo com o funcionário”. (p.9) “(...) E mesmo que pegasse o trem não podia evitar uma explosão do chefe, pois o contínuo da firma tinha aguardo junto ao trem das cinco e fazia muito tempo que havia comunicado a sua falta”. (p.10) “(...) Porque Gregor estava condenado a servir numa firma em que à mínima omissão se levantava logo a máxima suspeita? Será que todos os funcionários eram sem exceção vagabundos?” (p.16). Estava claro o lugar ocupado pelo chefe (em cima), o lugar daquele que detém o poder, em oposição ao lugar do empregado (embaixo), aquele que rasteja

O tema 5 surge no final do texto, onde após a família se livrar de Gregor, sai para passear em liberdade e seus pais despertam para o fato da filha estar moça e poder “ser usada” para conseguir um bom casamento que, talvez, os sustentasse como Gregor havia feito até a metamorfose. “(...) Enquanto conversavam assim, ocorreu ao senhor e à senhora Sana, quase que simultaneamente, avista da filha cada vez mais animada, que ela - ... - havia florescido em uma jovem bonita e opulenta. Cada vez mais silencioso e se entendendo quase inconscientemente através de olhares, pensarem que já era tempo de procurar um bom marido para ela. E parece-lhes como uma confirmação dos seus novos sonhos e boas intenções quando, no fim da viagem, a irmã se levantou em primeiro lugar e espreguiçou o corpo jovem.” (p.87)

A “jovem bonita e opulenta”, espreguiçando o “corpo jovem” figurativiza a sedução da mulher, aqui utilizada como alvo para aquisição de um bom marido. “Bom” neste contexto, está sendo empregado para dissimular a intenção dos pais. A chuva presença constante no texto figurativiza a vida triste e fria de Gregor, sua melancolia e solidão. “(...) O olhar de Gregor dirigiu-se então para janela e o tempo turvo - ouviam-se gostas de chuva batendo no zinco do para-peito - deixou-o inteiramente melancólico” (p.8) “(...) Certa vez, de manhã cedo - uma chuva violenta batia nas vidraças...”. (p.68)

Outra figura importante encontrada no texto é a figura da maçã, que remete ao discurso religioso como fruto do pecado, aqui também pode ser considerado como tal, tendo o mesmo sentido, pois através desse fruto, o pai tenta matar o filho. “(...) Quando nesse momento alguma coisa atirada de leve, voou bem ao seu lado e rolou diante dele. Era uma maçã, A segunda passou voando logo em seguida por ele; Gregor ficou paralisado de susto (...)Da fruteira em cima do bufê havia enchido os bolsos de maçãs e, por enquanto sem mirar direito, atirava uma a uma. (...) Uma que logo se seguiu, pelo contrário, literalmente penetrou nas costas dele (...) ele sentia como se estivesse pregado no solo e esticou o corpo numa total confusão de todos os sentidos.” (p.58)

 

IV. Conclusão

“A metamorfose” deixa transparecer a oposição entre o mundo “real” e o mundo interior, em que pessoas com Gregor Samsa não têm lugar na sociedade, pois acreditam nessa sociedade, fazem planos que nunca se realizam, buscam a liberdade que jamais existirá, porque o mundo “real” tem o poder de aniquilar seres humanos não-egocêntricos, não-exploradores, não-opressores, transformando-os em meros rastejadores.

Porém, o grande efeito de sentido desse discurso está na inversão dos papéis atribuídos ao sujeito Gregor e à sociedade em geral. Ele foi metamorfoseado num “inseto monstruoso”, num “velho bicho sujo”. Mas a sujeira e a monstruosidade estão na sociedade, que se deixa metamorfosear a cada dia, tornando-se corrupta e nojenta, palco da decomposição humana.

Essa leitura foi possível porque considerou, conforme dito nos objetivos propostos, o contexto social, as ideologias que circulam nas diversas camadas sociais (família, empregador, empregado, etc) e são homologadas na cultura. Enfim, buscou-se ancorar o texto nos mecanismos lingüísticos e extralingüísticos, pois acredita-se que sem essa união a interpretação seria singular e improdutiva.

 

V. Bibliografia

Barros, Diana L. P.. Teoria do Discurso: fundamentos semióticos. São Paulo: Atual, 1988

Barros, Diana L. P.. Teoria Semiótica do texto. São Paulo: Ática, 1990.

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Notas:

[1] Profa Dra da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

[2] Profa Dra da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

 

© Soraya Maria Romano Pacífico y Lucília Maria Sousa Romão 2004
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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