Nos rastros do rastreador: Antonio Candido.
Sobre a crítica literária brasileira

Professor Ms. Flávio Leal *


 

   
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“Uma crítica que se queira integral deixará de ser unilateralmente sociológica, psicológica ou lingüística, para utilizar os elementos capazes de conduzirem a uma interpretação coerente. Mas nada impede que cada crítico ressalte o elemento de sua preferência, desde que o utilize como componente da estruturação da obra”.
(Antonio Candido. In: Literatura e Sociedade. P. 07)

“A encenação é o esforço incansável para o confronto do ser humano consigo mesmo”
(Wolfgang Iser. In: O Fictício e o Imaginário P. 363)

“Escrever é, pois, ao mesmo tempo desvendar o mundo e propô-lo como uma tarefa à generosidade do leitor”.
(Jean-Paul Sartre. In: Que é a literatura? P. 49)

 

I

Uma crítica coerente, eficaz e perspicaz se coloca em uma posição de respeito diante da obra literária, perante a produção artística. Tal respeito deve ser, entretanto, limitado, pois a análise da obra requer o conhecimento de valores articulados pela tradição crítica que serão respeitados, mas não devem ser somente reproduzidos. A tradição pode ser um avanço nos estudos ou, ao mesmo tempo, grilhões que nos impedem e nos imobilizam sem percebermos. Reproduzimos conceitos e não temos o saber dos valores que são articulados nesta tradição. Assim, o compromisso crítico que é um ato político deve ser rememorado e, acima de tudo, deve sofrer uma reflexão rígida, mas também digna que a obra literária e sua crítica merecem pelo esforço alcançado e ‘conhecimento’ da dimensão crítica, i.e., política alcançada.

Todavia, alguns conhecimentos se tornam axiomas que são, quase sempre, o desejo de certa hegemonia do Poder. Antonio Candido se coloca no pólo oposto, ou seja, na posição de Crítico, cidadão, professor, intelectual, pensador. Crítica para Candido possui a acepção de Crisis, conflito, descoberta, debate e ensaio. Por isso, uma crítica coerente não se esquece do compromisso político de todo ato intelectual e de sua cidadania.

A Literatura é parte integrante da cultura e como tal deve ser pensada em relação ao humano e sua expressão. Candido, com sua perspicácia, (não vejo aqui palavra mais observadora) possui este trabalho intelectual que é acima de tudo um ato político.

Entretanto, surge um questionamento que espero que ecoe ainda mais no ambiente da crítica literária contemporânea, no Brasil: Após meio século de produção contínua de A. Candido; após suas aulas e atitudes que modificaram tanto a Historiografia como a Crítica Literária, em um país hoje massificado e com pouquíssimos leitores, o que faremos diante do Brasil contemporâneo? ou será melhor nos fecharmos nas Torres de Marfim que são as academias-universidades, castelos do saber reprodutores com suas fundações falsas, salvo algumas exceções evidentemente, e assumirmos o papel que hoje é cumprido por muitos “intelectuais” da literatura, os iniciados que tudo sabem e detestam o senso-comum de um país periférico?

Este ensaio se propõe a refletir sobre algumas considerações da obra de Antonio Candido, sabendo que seria impossível em um ensaio ou artigo debater tamanha produção intelectual. Este seria um trabalho de pesquisa árdua e exaustiva [1]. Entretanto, assumo aqui uma arriscada empreitada que é uma leitura de Candido e de alguns aspectos de sua obra pelo viés contemporâneo, reconhecendo sua magnitude e seu valor diante de nossa tradição dos Estudos Literários, no Brasil. Pergunto-me, estando no trabalho acadêmico, qual o papel e posição do estudioso de literatura diante de sua sociedade do século XXI? Após os acontecimentos históricos do século XX e suas constantes variações políticas e esperanças de modificação, esta pergunta foi debatida até a exaustão. Mas e agora? Com uma sociedade de excluídos e outros massificados? Onde estará o intelectual que se põe como debatedor de sua realidade? Escrever é um ato político, ou era?

Antonio Candido, durante estes quase sessenta anos de trabalho intelectual, sofre agora uma iniciativa de pesquisa de sua obra, nos últimos decênios do século XX. Esta, penso eu, cansou de ser reproduzida e comemorada. É hora de revermos seus valores, posições, descobertas, assimilações de teorias e fontes, seu processo crítico-metodológico, enfim, dar o devido valor que sua obra merece que é a razão da própria crítica: debater-se, fascinar, descobrir e jamais reproduzir, i.e., a crítica é o conflito de uma inteligência e o sentimento das aventuras do espírito.

Antonio Candido surge no contexto de um país que se iniciava, ou se inicia, na crítica literária acadêmica. Surgem nas décadas de 40 e 50, no círculo chamado Uspiano, pois a Universidade de São Paulo recém-inaugurada promovia uma reflexão que era, i. e., é seu pilar; obras que são todas tentativas de repensar o Brasil e seus meandros. A década de 50 é aberta por Lucia Miguel Pereira, Mestra de Candido, com sua História da literatura brasileira (prosa e ficção: 1870 - 1920), logo após Otto Maria Carpeaux publica sua Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira, em 1951. Um ano após, Wilson Martins aparece com sua obra: A crítica literária no Brasil. Em, 1954, Antônio Soares Amora publica sua História da literatura brasileira (os séculos XVI-XX).Mas também, em 1956, Alceu Amoroso Lima lança sua Introdução à literatura brasileira. Um ambiente bastante rico que se fecharia, digo a década, com as duas maiores publicações deste meio século para a historiografia e crítica literárias: a primeira, em 1955 - 1959, do impositor metodológico Afrânio Coutinho, fundador da Universidade do Rio de Janeiro, com sua A literatura no Brasil, e, finalmente, em 1959, o Mestre Antonio Candido com os dois tomos da Formação da literatura brasileira: momentos decisivos.

Veja-se que o surgimento de uma obra como a Formação foi num meio no qual outras grandes produções eclodiram, semeando o ambiente intelectual brasileiro. Sem contar também quatro grandes figuras contemporâneos vindas das décadas anteriores: Caio Prado Jr., Celso Furtado, Gilberto Freyre e, sem dúvida, Sérgio Buarque de Holanda.

Antonio Candido em seu trabalho intelectual iniciou seus estudos pelas Ciências Sociais (c.f. Parceiros do Rio Bonito), por isso, talvez, o aspecto social em suas análises é tão clarividente (p.ex. Literatura e Sociedade; Dialética da malandragem etc). Iniciando, nos Estudos Literários, com sua tese: Introdução ao Método Crítico de Silvio Romero, que demonstra o cuidado, respeito e a acuidade pela tradição para dar um passo além, no caso de Candido, de outros, aquém.

Leitor proustiano que rumina a tradição, rememorando-a e realizando sempre reflexões sobre seus valores. Este é o papel do crítico que se propõe a progredir e jamais reproduzir valores articulados tradicionalmente. Candido, em sua trajetória política, como nos diz Arrigucci, crítico de excelente cepa e argumentação intelectual, que os:

[...] traços gerais de sua escrita parecem incorporar, desta forma, sem apagar a marca personalíssima, um pendor para traduzir a objetivação da experiência coletiva, de que se faz naturalmente porta-voz. Assume, por isso, uma função decisiva no contexto brasileiro, onde sua obra significa, em seu movimento a uma só vez de herança e passagem, um ponto privilegiado da lucidez crítica e da consciência histórica com relação à tradição. [2]

Herança e Passagem são duas acepções que Candido sempre tentou, com suas atitudes políticas, privilegiar em seu trabalho crítico. Respeitando a tradição que a disciplina possui: Silvio Romero, José Veríssimo, Araripe Jr., Carpeaux, Mário, entre outros, mas também leitor compulsivo de seus contemporâneos, sua obra marca o respeito e a reflexão para uma produção política que possui sua mirada no social.

Antonio Candido jamais se alienou diante de sua sociedade e de seu tempo. Como professor, militante do Partido, escritor e intelectual, sempre manteve suas posições sociais e democráticas. Preocupado e envolvido com seu tempo e sociedade, possuiu uma atitude política diante de seu país. Envolvido com seu trabalho, Candido sempre realizou leituras do Brasil e de suas formações, sendo artísticas, culturais ou sociais. A Formação da literatura brasileira (1959) é um reflexo de sua preocupação com um país que precisava se formar, ou melhor, desejava sua formação, mesmo que apenas no plano cultural e literário. Se não temos uma formação econômica, temos Candido que nos deu subsídios para observarmos a “Formação” literária de um país na ‘periferia do capitalismo’.

Antes de discutirmos as noções, conceitos da Formação da literatura brasileira e seus pressupostos para debatermos as propostas contemporâneas para possíveis desenvolvimentos das discussões [evito aqui as palavras: teorias de Candido], faço um parêntese para falarmos de alguns “movimentos” do ensaísta Candidiana e suas artimanhas de linguagem em seu labor crítico.

Candido, como todos nós sabemos, possui uma linguagem acessível a qualquer leitor. Uma escrita que evita os conceitos dogmáticos e prisioneiros da especulação que imobiliza a contradição que é o “nervo da vida”. Com uma sensibilidade artística e rítmica, faz da crítica literária uma forma de expressão artística. A crítica de Candido é arte, flexível, ressoa como um poema que se debate para alcançar a expressão que melhor descreve as aventuras do espírito. Lucidez e sensibilidade artística ajustam-se a uma linguagem que se assimila com o objeto estudado e analisado para criar uma expressão que se modele com a obra, criando assim um mimetismo que facilite sua entrada no universo da obra artística ficcional. O melhor de Candido é sua ‘percepção viva’ das contradições da vida que geram profusão na argumentação ensaística. Seu trabalho se pauta na flexibilidade diante das contradições, pois a liberdade faz parte da arte, i. e., da crítica e do trabalho intelectual-artístico, já observada no começo de seu percurso intelectual, na Revista Clima, como os denominava Oswald: os Chato-boys.

Candido tem como preferência o ensaio. A forma mais adequada onde suas argumentações e flexibilidades puderam aflorar, explicando [3] o complexo com requinte e mais acessibilidade ao leitor, ele:

sem relaxar o fio da disciplina intelectual e o rigor dos conceitos, assume muitas vezes em Antonio Candido a dimensão de um ato político, num meio em que poucos têm acesso à cultura e em que a retórica da complicação do discurso pode funcionar como instrumento de dominação política ou da mais solene mistificação. [4]

Esta crítica explicativa, pautada no conhecimento e na acessibilidade, com seu caráter político, marca o trabalho de A. Candido e seu perfil de intelectual empenhado. Candido não poderá ser nomenclaturado como um ‘Intelectual Engajado’, pois suas ações e produções sempre privilegiaram os movimentos democráticos de expressão e pensamento, por isso sua crítica é Empenhada e comprometida com a sociedade, a arte, o pensamento, a liberdade, a expressão, enfim, com a humanidade.

Justamente por não dar respostas ou adequações ao que foge do conhecimento e da experiência, a ficção permite tornar concebível o que a vida extratextual parece ser: uma constante perseguição de si mesmo e do mundo, abalando as certezas com sua força libertadora e adentrando nos espaços insondáveis do ser para descortiná-lo. Descobrindo o outro, irrealizando o mundo para realizá-lo a posteriori, a ficção retorna ao homem para descobrir-se como homem, como humanidade, sendo o crítico papel importante, integrante e inerente deste processo artístico.

 

II

Creio que neste século XX, ao meu ver, a maior e mais significativa obra sobre os estudos literários brasileiros, historiografia e crítica, poder-se-ia chamar Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, publicada em 1959. Componente de todas as graduações no ensino superior de Letras, a Formação cristalizou-se como cânone em relação aos estudos sobre a Literatura Brasileira, dentro e fora do Brasil. Composta de dois tomos, os quais abordam a Formação da literatura brasileira, a partir dos árcades neoclassicistas setecentistas e se firmando como sistema orgânico constituído no século XIX, por meio dos românticos com seus vieses nacionalistas, para eclodir finalmente em Um Mestre na Periferia do Capitalismo: Machado.

Candido elabora conceitos que norteiam suas concepções e trabalho de pesquisa sobre a Formação, rompendo com a “versão etnológica da história, desarticulando também - pela primeira vez cabal - o chamado método utilitário-funcional de Sílvio Romero” [5]. O conceito-núcleo é o de Sistema. Aqui, abro espaço para discuti-lo.

A ‘única grande querela’ talvez, infelizmente, criada após sua publicação, foi realizada por Haroldo de Campos [6]: O seqüestro do barroco na formação da literatura brasileira: o caso Gregório de Matos. Ao meu ver, é inconcebível como uma obra da amplitude e significância de Formação tenha se resumido no ensino de literatura ao mero e simplista debate entre estas duas grandes figuras: Haroldo (o poeta-defunto ou defunto-poeta) faço aqui palavras de um Mestre as minhas homenageando Haroldo, e Candido com sua Formação grandiosa.

A Formação, com seu arcabouço teórico, realiza uma distinção entre as manifestações literárias, termo caro e já fixado por José Aderaldo Castelo em sua Presença, e o próprio conceito de Literatura, que será entendido por Candido como um sistema com sua organicidade, ou seja, a Literariedade dos textos estará não mais no aspecto imanentista de cada obra, mas sim em sua relação de existência na sociedade e seus aspectos de recepção e tradição que farão a obra como objeto existente em um sistema articulado por uma tríade dinâmica e histórica (autor-obra-público).

Este conceito de sistema literário norteia todo o pensamento de Formação, dando-lhe um caráter de avanço conceitual e teórico nos Estudos Literários. Conceito-núcleo, Candido diferencia, sem menosprezo, as:

[...] manifestações literárias de literatura propriamente dita, considerada aqui como um sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas dominantes duma fase. Estes dominantes são além das características internas (língua, temas, imagens), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes de seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns a outros. ( Formação - I, p. 25)

Desta forma, o processo formativo dinâmico da Literatura brasileira, concebida como sistema literário com sua organicidade, possuindo uma constituição progressiva de um sistema articulado e coeso em uma tríade com interação constante e dinâmica, denomina a concepção de Literatura. O Barroco por não se articular em uma tradição é seqüestrado pela concepção de Sistema, coerentemente.

Para ratificar o conceito de Sistema, já debatido por Costa Lima que delineia algumas fontes teóricas do processo crítico-metodológico de Candido, como por exemplo o funcionalismo antropológico inglês [7], e por Marisa Lajolo [8] em seu esplêndido ensaio, Candido nos diz que a literatura concebida por esse viés é um conjunto, “sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores”. É um sistema que apenas permanece vivo se houver a recepção não-passiva do leitor, interagindo com a produção literária modificando-a. A este processo se junta o autor, “termo inicial” do processo literário, criando assim uma configuração orgânica da “realidade literária” com uma tradição histórica e literária composta por uma tríade coesa, componentes de um processo formativo da Literatura, na obra: Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos.

Tais conceitos formulados pelas abordagens de Candido começaram a ser debatidos nos últimos decênios do século XX, ao meu ver, discussões tardas. Uma obra da amplitude e discussão como a Formação deveria ser repensada e não somente comemorada. A tradição deve ser perpetuada como reprodução ou reflexão?

Desta forma, aqui uso as próprias palavras de Candido sobre a literatura do século XIX, para criarmos uma possível reflexão, objeto de incansável pesquisa candidiana, em seu ensaio: Dialética da Malandragem sobre as Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida:

O sentido profundo das Memórias está ligado ao fato delas não se enquadrarem em nenhuma das racionalizações ideológicas reinantes na literatura brasileira de então: indianismo, nacionalismo, grandeza do sofrimento, redenção pela dor, pompa de estilo, etc. Na sua estrutura mais íntima e na sua visão latente das coisas, elas exprimem a vasta acomodação geral que dissolve os extremos, tira o significado da lei e da ordem, manifesta a penetração recíproca dos grupos, das idéias, das atitudes mais díspares, criando uma espécie de terra-de-ninguém moral, onde a transgressão é a apenas um matiz na gama que vem da norma e vai ao crime. Manuel Antônio de Almeida é talvez o único em nossa literatura do século 19 que não exprime uma visão de classe dominante”. [9]

A Dialética da Malandragem, crítica dialética realizada por Candido, demonstra sua concepção sobre a Literatura e suas possíveis abordagens. Como sempre respeitando a tradição, Antonio candido se refere no seu ensaio às críticas anteriores desarticulando-as para criar a sua abordagem dialética das classes sociais, entre a ‘ordem e a desordem, na obra Memórias ...’. Vale também a pena ler a crítica feita por Roberto [10]sobre os pressupostos de uma Crítica Dialética Marxista; Dialética da Malandragem como ponto chave na crítica literária brasileira. Entretanto, esta por ora não é nossa abordagem. Refiro-me a citação acima para pensarmos a construção do sistema literária na Formação da literatura brasileira. Candido se refere às “racionalizações ideológicas reinantes na literatura brasileira” do século XIX: “indianismo, nacionalismo, grandeza do sofrimento, redenção pela dor, pompa de estilo, etc”. Partes integrantes que compuseram um sistema literário nacional, coeso, tradicional e histórico. Afirmando posteriormente que “Manuel Antônio de Almeida [leia-se Memórias . . .] é talvez o único em nossa literatura do século 19 que não exprime uma visão de classe dominante”. Desta forma, pergunto-me: Até quando nossa literatura estará vinculada aos Mecanismos de Poder existentes, assim como as literaturas européias fizeram? Nossa literatura, na Formação exprime nosso caráter nacional, de um povo vasto e pluri-étnico? A resposta é afirmativa e dialética, [perdoe-me o par antitético]. As etnias tornam-se presentes pela ausência, como por exemplo o indianismo, que expressa uma realidade transmudada, que não corresponde à representação de uma parcela significativa de uma nação. Assim como no próprio Memórias, onde o negro aparece como pano-de-fundo para as aventuras de Leonardo Pataca. Presente pela ausência, de acordo com os mecanismos de poder social, econômico e ideológico de uma nação que necessita, ainda necessitando, de representação literária, que é reproduzida ainda com seus pressupostos, salvo engano, excludentes.

Agora, a proposta talvez mais sensata para iniciar uma nova abordagem seja: partamos do conceito de sistema, ampliando o conceito de Literatura para manifestações artístico-literárias de várias etnias e classes sociais que formaram este país chamado Brasil: o índio, negro, imigrante e o excluído social. Poder-se-ia tentar conjugar de forma ‘harmônica’, com suas faturas e transgressões, os possíveis sistemas existentes no Brasil. Porque assumirmos a existência de apenas um sistema literário orgânico, no Brasil?

Os indígenas com sua tradição secular: canções, lendas, rituais, poesias, produções artísticas etc; os negros que tanto sofreram a ferro e fogo com sua “capacidade poética” [11] e manifestações artísticas em silêncio opressor, como: sua poesia, religiões, rituais, canções, danças, mitologias etc. Mas também, e porque não, mirar a literatura produzida por imigrantes que já vivem no Brasil e realizam aqui a sua produção artística. Esta seria uma forma de conseguirmos uma ligação, relação, com outros países, demonstrado como a sua literatura faz parte da nossa e vice-versa, numa Confluência literária, artística e cultural, numa "assimilação recíproca", como nos diz Candido. Outra opção seria o estudo das manifestações artísticas urbanas na periferia das metrópoles brasileira: a música, a poesia, as danças, enfim, pesquisar as produções ficcionais destas expressões. Assim, estudar a existência de possíveis sistemas e suas inter-relações, na formação de um macro-sistema literário que exprima as várias faces de um Brasil étnico e cultural, com suas classes sociais de excluídos, guerreiros em uma nação “na periferia do capitalismo”. Esta seria a tarefa de uma crítica realmente empenhada com seu trabalho intelectual, com a democracia, com a Literatura Brasileira e, principalmente, com o “povo brasileiro”.

Para exemplificar a conjugação de possíveis sistemas, notemos os rituais religiosos do Candomblé que efetua uma absorção dos rituais católicos com seus santos e guerreiros - mártires. Houve o contrário? Outro exemplo muito caro a mim é a Literatura de cordel com sua estética riquíssima, trazida, quiçá, dos Trovadores portugueses, que se mantém de forma transformada e lida por milhões de pessoas no nordeste brasileiro e, sem dúvida, em grandes centros urbanos brasileiros.

Caberia uma reflexão sobre a expressão de um Brasil completo, transfiguração de um povo que se quer representado e lido. Possíveis sistemas e suas inter-relações, com seus componentes (autores - obras (sentido lato) - públicos), numa convivência dialética, entre a Ordem e a Desordem, não somente respeitando as manifestações artísticas tachadas como Folclore, mas sim entender realmente os valores de produções vinculadas ao Poder que despreza uma população contingente que forma este país. Fala-se tanto em democracia, acesso à educação (Literatura), direitos humanos, solidariedade (sinônimo de remorso), mas continua-se a reprodução de fatores sociais e intelectuais discriminatórios. Faço aqui minhas propostas e de alguns contemporâneos.

Seria esta uma proposta de ampliar o repertório proposto por Candido em sua Formação da literatura brasileira. Todavia, falta-nos a concepção de literatura mais abrangente, não excludente; para isso faço as palavras do Mestre Candido as minhas, em seu texto: Direito à Literatura:

Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações. Vista deste modo a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povoe não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contacto com alguma espécie de fabulação. [12]

Evidentemente, um trabalho que necessitaria de uma acepção tão discutida nas últimas décadas, pouco utilizada, a Interdisciplinaridade entre as ciências. A literatura é “verdadeiramente enciclopédica, a literatura faz girar os saberes, não fixa, não fetichiza nenhum deles; ela lhe dá um lugar indireto, e esse indireto é precioso” [13]. Por isso, antropólogos, etnólogos, historiadores, críticos e historiadores literários, artistas, teóricos, intelectuais, etc. poderiam pôr em prática um conceito existente que poucos conhecem a acepção e pouquíssimos a praticam: Democracia.

Outra argumentação sobre sistema ou sistemas é realizada e oferecida por Marisa Lajolo, em seu artigo: A leitura na Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido. Ela nos diz que seria interessante, inicialmente, conhecermos os elementos componentes do sistema literário brasileiro (autor-obra-público) para quem se “queira inscrever-se na linha teórica que Antonio Candido funda em 1959” [14], realizando uma leitura da formação da literatura brasileira. Outro passo “desta mesma agenda” seria o estudo analítico comparativo da[s] “formação[ões] e desenvolvimento[s] dos sistemas literários [grifos meu] da América Latina”, termina Marisa em suas propostas em um excelente artigo sobre a leitura da formação.

Para encerrarmos este tópico, gostaria de ressaltar uma última questão que me instiga e que não possuo a resposta. Assim, forças de desagregação e inorganicidade estão presentes e visíveis na Literatura contemporânea, parecendo “um repositório de forças de desagregação” [15], decompondo-se. Então, pergunto-me se há sistema hoje como o concebemos, pela corrente crítica e teórica fundada por Candido. Seria um passo importantíssimo, ao meu ver, repensarmos o sistema diante de e na literatura contemporânea, para compreendermos nossos valores e aspectos da ficção e o que se está delineando. A análise da possibilidade de existência de diversos sistemas se conjugando em uma literatura brasileira explicaria, quem sabe, a inorganicidade visível e aparente na nossa contemporaneidade. Talvez, esta tarefa política iria “recobrar a prática esclarecida da explicação [candidiana que] é, portanto, uma das tarefas prioritárias da crítica atual” [16] como nos diz Merquior. Assim, realizar realmente o vínculo teórico, ideológico e cultural entre Literatura e Sociedade.

A crítica dialética é uma passagem, um ponto de mutação nos Estudos Literários. Assim, uma mutação “da crítica de função puramente local à crítica de sondagem do mundo contemporâneo; da crítica em que o nacional é historiado à crítica em que ele é historicizado. Contrariamente ao que sustentam os nacionalistas, a reflexão dialética depende da análise formal, cujo referente não é o país-projeto, mas o país verdadeiro (o das classes sociais)”. [17]

 

III

Na nossa contemporaneidade, digo nesta virada de séculos, duas correntes de pensamento, entre várias, fazem-se sentir com vigor na disciplina dos Estudos Literários, no Brasil: A teoria da Estética da Recepção e do Efeito e os Estudos Culturais ou Transculturais. Gostaria de realizar aqui uma aproximação dos pressupostos básicos da primeira, da recepção, de acordo com Wolfgang Iser, com a concepção de Literatura e feitura ficcional por Antonio Candido.

Candido sempre evitando uma “verdade epidérmica”, em suas análises críticas, em suas abordagens do texto ficcional, desde o começo de sua trajetória intelectual, tentou abordar o texto em sua quase totalidade estética e histórica. Evitando e repudiando análises sociologistas, funcionalistas, idealistas e individualistas, rechaçando qualquer abordagem do texto ficcional enrijecida e estéril, explorou em suas interpretações o fator estético da obra, conciliando-o com o ‘fator social e o histórico’ inerentes à ficção.

Numa relação salutar entre Literatura e a Vida social, respeitando os limites estéticos e históricos da obra, Candido inicia seu trabalho crítico, criando uma coerência intelectual durante toda sua carreira, evitando modismos ou ‘revoluções teóricas’, leia-se aqui Estruturalismo. Desta forma, “seja dito entre parênteses que a ligação refletida entre a análise estética e análise histórico-social representou, e representa, um passo à frente substantivo, vistas as dificuldades teóricas levadas em conta e vencidas. Não vejo onde possa haver conformismo nesse empreendimento, comprometido com a crítica das formas artísticas e também das estruturas sociais.” [18] Havendo sim empenho em obter uma crítica empenhada com a sociedade e a obra estética, Candido conseguiu realizar uma visão que seria, atualmente, debatida por intelectuais desta corrente, como Iser, para acabar com a querela entre as críticas imanentistas e sociologistas.

A relação entre ficção e realidade empírica, entre texto e contexto, suas fronteiras e feituras, suas inter-relações e processos de constituição; estes são aspectos que tanto Candido como Iser, ao meu ver, trazem à tona às suas discussões, sendo importante ressaltar uma pequena distância temporal entre eles.

Candido, em sua concepção de feitura ficcional, diz que uma interpretação estética assimila “a dimensão social como fator de arte. Quando isto se dá, ocorre o paradoxo assinalado inicialmente: o externo se torna interno e a crítica deixa de ser sociológica, para ser apenas crítica. O elemento social se torna um dos muitos que interferem na economia do livro, ao lado dos psicológicos, religiosos, lingüísticos e outros” [19]. O externo [Contexto - Realidade empírica] se torna interno [Texto - Obra estética] e o elemento social se torna um dentre vários elementos que compõem o texto ficcional, em um movimento dialético entre ficção e realidade. Evidentemente, que Candido reconhece esta transgressão ficcional dos fatores sociais, assumindo a autonomia da ficção em face da realidade e as relações de reciprocidade existentes entre ambas as esferas. Assim, ele “vendo os problemas sob esta dupla perspectiva, percebe-se o movimento dialético [grifo meu] que engloba a arte e a sociedade num vasto sistema solidário de influências recíprocas”. [20]

Wolfgang Iser, em seu texto básico e excepcional: Os atos de fingir ou O que é Fictício no Texto Ficcional, capítulo componente do seu livro O Fictício e o Imaginário, faz uma análise da relação entre sistemas contextuais preexistentes, contexto, e o fictício no texto ficcional, por meio dos Atos de Fingir que são transgressões na elaboração da obra e no seu processo de existência literária. Iser nos diz em relação ao contexto, as realidades empíricas, que:

[...] estas realidades, ao surgirem no texto ficcional, neles não se repetem por efeito de si mesmas. Se o texto ficcional se refere à realidade sem se esgotar nesta referência, então a repetição é um ato de fingir, pelo qual aparecem finalidades que não pertencem à realidade repetida. Se o fingir não pode ser deduzido da realidade repetida, nele então surge um imaginário que se relaciona com a realidade retomada no texto. Assim o ato de fingir ganha a sua marca própria [...] [21]

Não há representação puramente concebida, re-presentada. Há um complexo processo de elaboração do texto ficcional, cujos Atos de Fingir realizam as transgressões adequadas para fornecer ao texto ficcional o aspecto de autonomia, de “desnudamento da ficção”. O reconhecimento do texto ficcional como tal pela recepção.

A aproximação que proponho entre Iser e Candido passa pelos Atos de Fingir e pelos textos de Candido, Literatura e a Sociedade e Dialética da Malandragem. Comecemos pela concepção de Candido sobre a ação de elaboração da ficção:

Eles marcam [fatores socioculturais], em todo caso, os quatro momentos da produção, pois: a) o artista, sob o impulso de uma necessidade interior, orienta-o segundo os padrões da sua época, b) escolhe certos temas, c) usa certas formas e d) a síntese resultante age sobre o meio. [...] Como se vê, não convém separar a repercussão da obra da sua feitura, pois, sociologicamente ao menos, ela só está acabada no momento em que repercute e atua, porque, sociologicamente, a arte é um sistema simbólico de comunicação inter-humana [...] [22] [Grifos meus]

Os fatores socioculturais participam da/na elaboração do ato ficcional, como afirma Candido em todo o seu trabalho crítico. Entretanto, sabemos que sua concepção crítica é de que o dado ficcional não vem diretamente do mundo extratextual; mesmo rearticulando este, a ficção possui sua autonomia de existência. Esta relação existencial dialética “depende de princípios mediadores, geralmente ocultos, que estruturam a obra graças aos quais se tornam coerentes as duas séries, a real e a fictícia”. [23]

Estes “Princípios mediadores” norteiam o trabalho ficcional em sua elaboração transgressora entre texto e contexto, gerando, de acordo com Candido, uma “redução estrutural dos dados externos”, que é a transformação - transgressão - dos dados externos que se tornam internos, criando dessa forma sua “especificidade relativa” do texto ficcional. Esta articulação do externo realizada pelo autor fornece o aspecto de ficção à obra estética diferenciando-a de documento, pois a realidade pode ser percebida, mas não descrita como tal no texto ficcional.

Candido cria uma certa nomenclatura para designar os textos que fornecem com maior claridade aspectos da realidade extratextual. São os “textos translúcidos” [24] que se contrapõem aos “textos opacos”, que não sentem tanto o poder do “arbítrio transfigurador” do processo ficcional. Ambos devem ter tratamento diferenciado, sendo os dois tipos “válidos” para perceber e sentir a realidade que lhes é inerente.

Sobre elaboração autoral do texto ficcional, segundo Candido, a integração (leiam-se Seleção e Combinação - Iser) é responsável pelo aspecto satisfatório para sentir a realidade no texto ficcional. Candido nos diz que o autor:

[...] os organiza de modo integrado [suprimir, complementar, valorizar - operações básicas da ‘Produção do mundo’ - Goodman], o resultado é satisfatório e nós podemos sentir a realidade. Quando a integração é menos feliz, parece-nos ver uma justaposição mais ou menos precária de elementos não suficientemente fundidos, embora interessantes e por vezes encantadores como quadros isolados. Neste último caso é que os usos e costumes aparecem como documentos, prontos para a ficha dos folcloristas, curiosos e praticantes da petite historie [25] [grifos meus]

O modo integrado realizado pelo autor na transgressão da realidade para a criação do universo ficcional pode ser satisfatório, ficcional, ou não, apenas documento, reprodução. O ato de seleção é um processo de transgressão que pode ser: supressão, escolha, valorização de certos aspectos, infração de limites e valores, subversão de expectativas, complementação, enfim, a criação de um universo que irrealiza a realidade a partir de sua recepção, em uma operação de ‘Produção do mundo’. Em um processo de “tematização do mundo” (Weltzuwendung), a ficção é gerada.

Segundo Iser, o Ato de Seleção, que é um ato de fingir, transgressor, que se insere no texto ficcional, criando a relação entre ficção e realidade extratextual. Esta é assumida como repertório que o autor irá manipular, transgredir e selecionar, para logo após:

[...] implantar [no texto ficcional que] não significa imitar as estruturas de organização previamente encontráveis, mas sim decompor [criando uma intencionalidade do texto]. Daí resulta a seleção, necessária a cada texto ficcional, dos sistemas contextuais preexistentes, sejam eles de natureza sócio-cultural ou mesmo literária. A seleção é uma transgressão de limites na medida em que os elementos acolhidos pelo texto agora se desvinculam da estruturação semântica ou sistemática dos sistemas de que foram tomados. Isso tanto vale para os sistemas contextuais, quanto para os textos literários a que novos textos se referem [26] [grifos meus]

A seleção não é mera representação que imita o extratextual, mas um processo transgressor que cria um processo de interação interna, transgredindo os limites dos “sistemas contextuais” ou dos textos alheios referidos e escolhidos pelo processo de seleção, que é um ato de fingir. “Quando a integração é menos feliz, parece-nos ver uma justaposição mais ou menos precária de elementos não suficientemente fundidos”, isto ocorre quando a seleção não transgrediu os limites de forma satisfatória. Desta forma, a seleção os “organiza [os sistemas contextuais preexistentes] de modo integrado” para criar o aspecto de realidade transfigurada do ato ficcional.

Outro aspecto da estrutura de reflexão de Candido poderia ser conjugado ainda com as teorias de Iser sobre a feitura do processo ficcional. A Combinação, que também é um ato de fingir transgressor, dá uma pista sobre a elaboração e a intencionalidade do texto. Ela fornece uma força de convicção do ato ficcional que:

depende pois essencialmente de certos pressupostos de fatura, que ordenam a camada superficial dos dados. Estes precisam ser encarados como elementos de composição [grifo meu], não como informes proporcionados pelo autor, pois neste caso estaríamos reduzindo o romance a uma série de quadros descritivos dos costumes do tempo. [27]

A combinação como ato de fingir cria relacionamentos intratextuais, relacionando os aspectos internos do texto e externos dos “sistemas contextuais preexistentes”, criando o ato ficcional e suas nuances para se revelar como “fact from fiction”. “O relacionamento alcança esta ‘faticidade’ específica pelo grau correspondente de sua determinação, mas também pela influência exercida nos elementos que ela relaciona entre si” [28]. Neste relacionamento combinatório os dados serão vistos como elementos de composição, evitando a redução do texto ficcional a mero processo descritivo documental. Assim, o texto ficcional não será redução dos “quadros descritivos dos costumes do tempo”, mas transgressão destes fatores transfigurando-os em fatos de ficção, em atos de fingir, pura transgressão que será reconhecida na irrealização do mundo pelo leitor neste processo de recepção, pois “a arte é um sistema simbólico de comunicação inter-humana”.

A ficção se diferencia de todos os discursos científicos porque a ficção não quer ser vista como tal; ela é ato de fingir em relação ‘sistemas contextuais preexistentes’. Ela assume sua posição, diferencia-se pelo seu “desnudamento de sua ficcionalidade” [29]. Enquanto as ciências querem o sentimento de todo real, a ficção não cobiça este estatuto, “ [...] pois o sentimento da realidade na ficção pressupõe o dado real mas não depende dele. Depende dos princípios mediadores, geralmente ocultos, que estruturam a obra e graças aos quais se tornam coerentes as duas séries, a real e a fictícia” [30]. Sendo as duas sérias coerentes, ambas se relacionam em interações constantes e recíprocas, gerando relacionamentos de criatura e criador e vice-versa. A ficção estará sempre se desnudando, pois não deseja para si a medalha da verdade, mas sim da perseguição, descoberta e da criação.

Assim retorna ao texto ficcional uma realidade de todo reconhecível, posta entretanto agora sob o signo do fingimento. Por conseguinte, este mundo é posto entre parênteses, para que se entenda que o mundo representado não é o mundo dado, mas que deve ser apenas entendido como se o fosse. Assim se revela uma conseqüência importante do desnudamento da ficção. Pelo reconhecimento do fingir, todo mundo se organizado no texto literário se transforma em um como se. O pôr entre parênteses explicita que todos os critérios naturais quanto a este mundo representado estão suspensos. Assim nem o mundo representado retorna por efeito de si mesmo, nem se esgota na descrição de um mundo que lhe seria pré-dado. Estes critérios naturais são postos entre parênteses pelo como se. [31]

Sob o signo do fingimento, o mundo é posto entre parênteses, pois o mundo representado não é o dado, mas deve ser entendido como se o fosso. Agora, assumindo a ficção seu desnudamento, pelo reconhecimento do fingir, todo o mundo se articula sob o império do Como se. Na suspensão dos critérios naturais do mundo dos ‘sistemas extratextuais preexistentes’, o mundo ficcional não se esgota por efeito de si mesmo, tendo em vista que seu processo será sempre transfigurador e de transgressão, sob o signo do Como se.

Para encerrarmos o aspecto do ‘desnudamento da ficção’, sabemos que o que dá o aspecto de senso de realidade à ficção não é representação dos dados concretos, seus enquadramentos descritivos, mas a “sugestão de uma certa generalidade, que olha para os dois lados e dá consistência tanto aos dados particulares do real quanto aos dados particulares do mundo fictício”. [32]

Ao meu ver, Candido foi um precursor para o pensamento e respeito pelo processo completo da ficção. Possuindo a consciência que a comunicação artística se completa em uma interação dinâmica entre os elementos que a compõem e que fazem parte em momentos “momentos indissoluvelmente ligados da produção e se traduzem, no caso da comunicação artística, como autor, obra, público” [33]. Estas instâncias possuem seus condicionamentos sociais que devem ser analisados em uma “crítica coerente” que admita em uma conjugação salutar uma interpretação estética e história, considerando todos os aspectos da “arte é um sistema simbólico de comunicação inter-humana”, em um jogo permanente de relações de interação “entre os três, que formam uma tríade indissolúvel”.

Desta forma, encerro minha discussão esperando que a aproximação entre Candido e Iser tenha se completado. Seria necessário realizar um estudo aprofundado de diversas relações textuais e teóricas entre ambos, porém aqui por limite fica a sugestão para pensamentos e debates futuros. Quem quiser se incluir na corrente crítica fundada por Candido, em seu trabalho acadêmico e crítico, terá um trabalho árduo e complexo pela frente.

Com um respeito não subserviente, criar uma crítica que se queira integral com reflexões que promoverão uma atividade crítica que “deixará de ser unilateralmente sociológica, psicológica ou lingüística, para utilizar os elementos capazes de conduzirem a uma interpretação coerente”. [34]

 

I V

A literatura foi de fato parte integrante no processo de dominação por parte dos mecanismos de Poder. Atuando ainda, infelizmente, num processo ativo de reprodução dos mecanismos de Poder que são excludentes em sua natureza. A formação de uma literatura nacional passou por percursos de expressões de minorias vinculadas ao Poder que estavam em um país que se formava, desprezando qualquer manifestação artística que não estivesse na rota de uma expressão poética neste contexto formador e articulador do Poder do Estado Nacional. Sendo assim, pergunto-lhe, leitor consciente, até quando leremos nossa literatura desta forma: uma expressão excludente de uma minoria cerrada em si. Até quando o excluído e fará presente pela ausência. Devemos, neste momento, resgatar a expressão assinalada pela crítica literária neste último meio século que apontou novos paradigmas e novas vertentes ou apenas nos limitarmos numa reprodução de jargões que vigoram por décadas e mais décadas para nos louvarmos como senhores do saber. Será que a lição antropofágica de Oswald foi aprendida realmente ou ainda somos reféns de uma moda de dominação intelectual agora subcutânea e disfarçada de avanço e pensamento.

A literatura é por natureza humanizadora e como tal não pode ser subserviente ao Poder. Ela deve sim fornecer tanto a fruição (à la Barthes) como promover a inquietude do espírito. Esta “necessidade de conhecer os sentimentos e a sociedade”, combater as opressões e se empenhar numa literatura e numa sociedade, estas atitudes políticas promovem ao conhecimento e ao prazer estético o exercício da reflexão que é o “nervo da vida”: a contradição na aventura do espírito. Esta Humanização que é própria literatura é entendida como:

o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, a afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. [35]

A capacidade de penetrar no reino do desconhecido e desvendar o véu do Poder, revelando a face da dominação e da coerção, estas são atividades humanizadoras da Literatura. Assim, ela irrealiza o mundo na leitura para que o leitor possa realizar o seu mundo de forma consciente e astuta a fim de conhecer e mirar o outro lado do hábito, do Poder. Sendo assim, a literatura torna-se um bem imprescindível como: “certamente a alimentação, a moradia, o vestuário, a instrução, a saúde, a liberdade individual, o amparo da justiça pública, a resistência à opressão etc.; e também o direito à crença, à opinião, ao lazer e, por que não, à arte e à literatura” [36]. Uma sociedade justa e promotora do saber e do humano desenvolve sua humanidade, o seu respeito pelo próximo e sua reflexão diante de seu universo vivenciado, literário ou não. “A fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável” do ser humano e de sua realidade. [37]

Aqui, para encerrarmos nossa interação, há algumas propostas que gostaria de realizar sobre os futuros estudos acerca da historiografia e crítica literárias. Abaixo, relaciono alguns aspectos que poderão ser estudados pela futura crítica que se cristaliza em nosso meio crítico e para que esse possua um real avanço será necessária a reavaliação da crítica e da historiografia literárias do século XX. Para que isto ocorra, ao meu ver, seria imprescindível a reflexão sobre:

Estes são alguns aspectos que poderiam enriquecer os estudos literários da Literatura Brasileira e seu desenvolvimento disciplinar. Desta forma, poderíamos partir das conquistas obtidas pelo Professor Candido, respeitando seu alcance e proporcionando novas reflexões acerca da Literatura e suas fronteiras.

O verbo Arruar citado por José Petronillo de Santa Cruz, na homenagem realizada a Antonio Candido pelo Livro Esboço de Figura traz-nos uma metáfora que utilizo aqui como encerramento. Ele nos diz que: “como está no Aurélio - é, primeiramente, termo de engenharia e urbanismo: ‘traçar ou abrir ruas para fazer vila ou cidade’. E, logo em seguida, outro sentido: ‘passear pelas ruas, percorrer as ruas’”. (p. 69). As ruas do saber abertas por Candido nos seus passeios pela Literatura Brasileira, sem dúvida, deixaram-nos um legado que é um desenvolvimento incomensurável. Evitando meras apologias e reproduções:

Quem, porém, examinar atentamente sua bibliografia verá que Antonio Candido, através de sua atividade e de sua produção literária é alguém que soube e ainda hoje sabe arruar. O arruar de Antonio Candido está nos livros que publicou - tão poucos para tanto arruar! - e nos artigos, estudos, prefácios publicados no Brasil e fora daqui e que denotam uma grande paixão em andar pelas ruas do saber, com apetite literário ou perspicácia sociológica, mas também como o engenheiro ou um urbanista do primeiro sentido da palavra, abrindo ruas e demarcando caminhos.” [38]

Passeando ou abrindo ruas, descobrindo saberes ou rememorando-os, analisando a literatura em um exercício de respeito e admiração, Antonio Candido assume seu lugar perante a Literatura Brasileira e a sua sociedade. E agora? Qual é nosso lugar? Descobriremos se nos atrevermos a arruar pelas ruas do saber da Literatura Brasileira, tal qual o Professor Candido o fez.

Assumo aqui O Medo de uma geração que é nosso legado, que nos dará combates com vitórias e perdas que nos farão mais fortes e perspicazes. Assumo o medo de uma nação, de uma geração e de sociedade brasileira. Desejo o medo desse combate para adentrar nas “casas do medo” com seus “duros tijolos de medo”. “Vamos para a frente”, sejamos “Fiéis herdeiros do medo” que geram arruares.

 

O Medo (seis ultimas estrofes)

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
antigiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.
        (Carlos Drummond de Andrade)
        (O Medo - Rosa do Povo p. 118-20.)

 

Referência bibliográfica:

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Notas:

* Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito Santo - UFES - Brasil.

[1] C. f. Bibliografia no encerramento deste ensaio.

[2] ARRIGUCCI JR., Davi. “Movimentos de um leitor (ensaios e imaginação crítica em Antonio Candido)” In: Outros achados e perdidos. São Paulo: Cia das Letras, 1999. p. 240.

[3] MERQUIOR, José Guilherme. “O texto como resultado (notas sobre a teoria da crítica de Antonio Candido)”. In: Lafer, Celso (Org) Esboço de figura: homenagem a Antonio Candido. S. P.: Duas Cidades, 1978. p. 121. Merquior, em seu texto, ressalta a importância da crítica de Antonio Candido e sua face de pendor explicativo, argumentativo.

[4] ARRIGUCCI JR., Davi. “Movimentos de um leitor (ensaios e imaginação crítica em Antonio Candido) In: Outros achados e perdidos. S.P.: Cia das Letras, 1999. p. 239

[5] PRADO, Antonio Arnoni. “Dimensão Crítica da Formação”. In: De la Serna, Jorge. Antonio Candido: Homenagem. São Paulo. Ed. UNICAMP, 2003. p. 419.

[6] CAMPOS, Haroldo de. O seqüestro do barroco na formação da literatura brasileira: o caso Gregório de Mattos, seg. ed. Salvador: FCJA, 1989.

[7] LIMA, Luiz Costa. “O conceito de história literária na Formação” In: Pensando nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

[8] LAJOLO, Marisa. “A leitura na Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido”. In: De la Serna, Jorge. Antonio Candido: Homenagem. São Paulo. Ed. UNICAMP, 2003.

[9] C. f. CANDIDO, Antonio. “Dialética da Malandragem”. In: ALMEIDA, Manuel Antonio de. Memórias de um Sargento de Milícias - Ed. Crítica - Cecília de Lara (Org.) - Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978. p. 340-1.

[10] SCHWARZ, Roberto. “Pressupostos, salvo engano, de ‘Dialética da Malandragem’”. In: LAFER, Celso (Org) Esboço de figura: homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1978. p. 133 - 156.

[11] C. f. RISÉRIO, Antônio. Textos e tribos. Rio de Janeiro: Imago, 1993.

[12] CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. 3a. ed. (Revista e Ampliada). São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1995. p.242.

[13] BARTHES, Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 1979. p. 18.

[14] LAJOLO, Marisa. “A leitura na Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido”. In: De la Serna, Jorge. Antonio Candido: Homenagem. São Paulo. Ed. UNICAMP, 2003. p. 70.

[15] SCHWARZ, Roberto. “Os sete fôlegos de um livro” In: Seqüências brasileiras. São Paulo.: Cia das Letras, 1999. p. 58

[16] MERQUIOR, José Guilherme. “O texto como resultado (notas sobre a teoria da crítica de Antonio Candido)”. In: Lafer, Celso (Org.) Esboço de figura: homenagem a Antonio Candido. S. P.: Duas Cidades, 1978 p. 127.

[17] SCHWARZ, Roberto. “Pressupostos, salvo engano, de ‘Dialética da Malandragem’”. In: LAFER, Celso (Org) Esboço de figura: homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1978. p. 138.

[18] SCHWARZ, Roberto. “Os sete fôlegos de um livro” In: Seqüências brasileiras. S.P.: Cia das Letras, 1999. p. 52.

[19] CANDIDO, Antonio. “Crítica e Sociologia”. In: Literatura e Sociedade. 7a. ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1985. p.07

[20] Idem. p. 24.

[21] ISER, Wolfgang. “Os Atos de Fingir ou O que é Fictício no Texto Ficcional” In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da Literatura em suas fontes. 2a Ed. ver. e ampl.. - Rio de Janeiro: F. Alves, 1983. p. 385.

[22] CANDIDO, Antonio. “Literatura e a Vida social”. In: Literatura e Sociedade. 7a. ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1985. p. 21.

[23] SCHWARZ, Roberto. “Pressupostos, salvo engano, de ‘Dialética da Malandragem’” In: LAFER, Celso (Org) Esboço de figura: homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1978. p. 136.

[24] CANDIDO, Antonio. Estruendo y liberación. Ensayos críticos (editores: Jorge Ruedas de la Serna y Antonio Arnoni Prado) México: Siglo XXI, 2000, p. 14-5.

[25] CANDIDO, Antonio. “Dialética da Malandragem”. In: Almeida, Manuel Antonio de. Memórias de um Sargento de Milícias - Ed. Crítica - Cecília de Lara (Org.) - Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978. p.327.

[26] ISER, Wolfgang. “Os Atos de Fingir ou O que é Fictício no Texto Ficcional” In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da Literatura em suas fontes. 2a Ed. ver. e ampl.. - Rio de Janeiro: F. Alves, 1983. p. 388.

[27] CANDIDO, Antonio. “Dialética da Malandragem”. In: Almeida, Manuel Antonio de. Memórias de um Sargento de Milícias - Ed. Crítica - Cecília de Lara (Org.) - Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978. p. 328.

[28] ISER, Wolfgang. “Os Atos de Fingir ou O que é Fictício no Texto Ficcional” In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da Literatura em suas fontes. 2a Ed. ver. e ampl.. - Rio de Janeiro: F. Alves, 1983. p. 392-3.

[29] Idem. p. 398.

[30] CANDIDO, Antonio. “Dialética da Malandragem”. In: Almeida, Manuel Antonio de. Memórias de um Sargento de Milícias - Ed. Crítica - Cecília de Lara (Org.) - Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978. p. 337

[31] ISER, Wolfgang. “Os Atos de Fingir ou O que é Fictício no Texto Ficcional” In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da Literatura em suas fontes. 2a Ed. ver. e ampl.. - Rio de Janeiro: F. Alves, 1983. p.400.

[32] CANDIDO, Antonio. “Dialética da Malandragem”. In: Almeida, Manuel Antonio de. Memórias de um Sargento de Milícias - Ed. Crítica - Cecília de Lara (Org.) - Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978. p. 336.

[33] CANDIDO, Antonio. “A literatura e a Vida Social”. In: Literatura e Sociedade. 7a. ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1985. p 22.

[34] Idem. p 07.

[35] CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. 3a. ed. (Revista e Ampliada). São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1995. p.249.

[36] Idem. P. 241.

[37] Idem. P. 263.

[38] SANTA CRUZ, José Petronillo de. “O Arruar de Antonio Candido”. In: LAFER, Celso (Org) Esboço de figura: homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1978. P. 69-70.

 

© Flávio Leal 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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