A arte de amar e O amor natural:
Drummond e Ovídio, teóricos do erótico

Maria Amélia Dalvi Cristo

Graduanda da Universidade Federal do Espírito Santo - UFES - BRASIL
madcristo@yahoo.com.br


 

   
Localice en este documento

 

É a arte com que a vela e o remo são manejados que permite às naus navegarem rapidamente, a arte que permite às carruagens correrem ligeiras: a arte deve governar o Amor. (...) É a experiência que me dita esta obra: escutem um poeta ensinado pela prática. (...) O que cantaremos é o amor que não infringe a lei.
     (Ovídio)

 

Resumo:
Este trabalho coteja Ars amatoria, de Ovídio, e O amor natural, de Drummond, numa perspectiva que tenta ver o que há de comum - e o que não - na obra de ambos os poetas. Lêem-se possíveis formas do amor e do amar em uma e outra obra, buscando a compreensão de como o pensamento reflexivo leva do gozo dos sentidos do corpo ao gozo dos sentidos do texto. Para bem além de “velho bandalho”, Drummond irmana-se a Ovídio, teórico do erótico.

 

Já assinalou Jesus Antônio Durigan, com propriedade, que é um tanto quanto complicado responder à questão: “O que é um texto erótico?”. Não bastasse o inquietante problema, em si, “por ser um fato cultural, o texto erótico se apresenta como uma representação que depende da época, dos valores, dos grupos sociais, das particularidades do escritor, das características da cultura em que foi elaborada” (DURIGAN, 1985, p. 7 - grifo meu). O que se quer aqui é, então, partindo de tais noções - ou seja, a) a dificuldade de delimitar até que ponto um texto pode ser lido como erótico e até que ponto pode ser lido como (também) teórico; e b) a questão “texto erótico” está sempre permeada pelo fatos culturais, em qualquer época -, de algum modo, traçar um paralelo entre os contextos da produção poética de A arte de amar, de Públio Ovídio Nasão, e de O amor natural, de Carlos Drummond de Andrade.

A idéia deu-se deste modo: li, recentemente, a interessantíssima tradução erudita de Antônio Feliciano de Castilho, em versos, para o português, de Ars amatoria, de Ovídio. Tendo concluído, há pouco, meu último ano do projeto de Iniciação Científica - cujo relatório final intitulou-se “Poesia e prazer: Drummond - sob a pele a peleja das palavras”, a temática impressionou dados os muitos possíveis paralelos entre o extenso poema latino e o delicioso O amor natural, livro de poemas libertinos escrito com a máxima inteligência formal drummondiana. Os possíveis paralelos de que falo vão desde a coincidência entre informações factuais relativas à história contemporânea a um e outro poeta, até a aproximação que julgo pertinente entre temas tratados num e noutro livro.

Como não sou estudiosa de poesia latina, o primeiro passo quando, animada com tais possibilidades, decidi por este recorte foi buscar alguma coisa, na internete mesmo, sobre Ovídio. Encontrei, por exemplo, que

O poeta romano Ovídio Nasão nasceu no ano 43 a.C. Vindo de uma família abastada de cavaleiros, poeta festejado, Ovídio era como um Don Juan do império de Augusto. Confessou ter amado todas as mulheres - "as altas ou baixas, louras ou morenas, esbeltas ou opulentas, instruídas ou ignorantes, contanto que fossem belas e não tivessem ultrapassado o sétimo lustro de vida". (Isto é, que tivessem entre 35 e 40 anos, a idade, segundo ele, em que as mulheres atingem o "mais alto grau da ciência amorosa".) Em 1 a.C., ele escreveu A arte de amar, uma espécie de poema didático em que ele compara a arte da conquista amorosa às estratégias usadas pelos militares nas guerras. (...) O poeta ensina desde o modo como o apaixonado deve cuidar da aparência até os jogos que ele deve empreender para deixar a amante à sua inteira disposição. Com quase 50 anos, Ovídio (...) foi exilado por Augusto. Morreu cerca de dez anos depois. Seus ensinamentos sobre a conquista do amor permanecem até hoje: "Se alguém desconhece a arte de amar, que leia este poema e, uma vez por ele instruído, ame". (extraído em 04/05/2005 de “Arredai-vos, homens covardes”,

e que

Ovídio, o grande vate romano, teve, até os cinqüenta anos de idade, tudo o que um poeta pode almejar: fama, fortuna e um grande sucesso entre as mulheres. Foi então que um raio imperial o alcançou. Um decreto com o lacre de Augusto jogou-o, desterrado, para bem longe de Roma. O imperador, sempre cioso em manter uma fachada de respeitabilidade, encontrou entre os pertences da sua ex-mulher, Júlia, vocacionada à libertinagem, a Ars amatoria (A arte de amar) de Ovídio. Tratava-se de um manual de intriga e sedução escrito em versos, provavelmente nos princípios do ano I, a quem o novo César atribuiu os desatinos da ex-imperatriz. Além disso, a dissolução dos costumes era combatida oficialmente pelos censores e demais magistrados, na tentativa de manter elevada a fidelidade aos valores do Estado romano. Do dia para noite, a atrevida vida mundana de Ovídio, que trafegava nas serestas romanas com o desembaraço de um verdadeiro soberano das letras latinas (a maioria dos grandes poetas, como Virgílio, Propércio e Horácio, havia morrido), fora-se para sempre. O poeta, já no caminho do exílio para Tomos, um distante lugarejo na costa do Mar Negro, onde veio a falecer nove anos depois, no ano 17, não poupou lágrimas e choramingas mil - registradas no seu Tristia, uma interminável lamúria - na tentativa de demover o senhor de Roma e rever sua punição. Nem quando Augusto morreu, no ano 14, ele pôde manter as expectativas de um retorno. O sucessor dele, o sisudo Tibério, também casara com uma doidivanas, cultora de Vênus, a quem os intrigantes diziam ter também aspirado as estrofes envenenadas de erotismo do pobre exilado. Assim, o poder esqueceu-se de Ovídio. Mas, felizmente, não o mundo das letras. (extraído em 04/05/2005 de “Ovídio e a Idade do Ferro”, http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/ovidio.htm)

Surge aqui, parece, o primeiro contraponto possível com o brasileiríssimo Carlos Drummond de Andrade. O amor natural, diferentemente de Ars amatoria (A arte de amar), veio a público somente após a morte de seu autor - mais precisamente, cinco anos após -, revelando, ou antes, acentuando novas faces drummondianas, até então quase escondidas. O conjunto dos 40 poemas eróticos, inédito até 1992, foi guardado em segredo, por cerca de duas décadas, competindo aos herdeiros a tarefa da publicação póstuma [1], embora organizada ainda em vida pelo poeta. Alguns poucos poemas do livro foram divulgados em revistas eróticas brasileiras na década de 70 e outros, cedidos pelo próprio escritor, serviram de base para uma tese acadêmica; todavia, ao que parece, houve um certo receio de Drummond - cônscio do risco que é, como se pôde ver no degredo imposto a Ovídio, tematizar o erótico, o sexo, o prazer, o corpo - em torná-los acessíveis a um grande número de leitores.

Embora a poesia drummondiana dispense maiores apresentações - dada sua posição canônica na literatura brasileira e, pode-se dizer, latino-americana - há que se destacar que, antes de fazer-se escritor consagrado, e de, quem sabe, portanto, ter o que temer quanto à repercussão de seus escritos, publicou muitos textos, num e outro jornal, periódico ou revista, e continuou colaborando com vários deles até 1984, quando encerrou a carreira de cronista regular, depois de 64 anos dedicados ao jornalismo. A notabilidade de sua produção, clichês à parte, aumenta se consideramos a variedade, daquilo que, autoral ou tradução, tornou público, prosa e poesia, em vida: Alguma poesia (1930); Brejo das almas (1934); Sentimento do mundo (1940); Poesias (1942); uma tradução de Thérèse Desqueyroux, de Mauriac, (1943); Confissões de Minas (1944); A rosa do povo e O gerente (1945); uma tradução de Les liaisons dangereuses, de Laclos, (1947); Poesia até agora (1948); Claro enigma, Contos de aprendiz e A mesa (1951); Passeios na ilha e Viola de bolso (1952); Fazendeiro do ar & Poesia até agora e uma tradução de Les paysans, de Balzac, (1954); Viola de bolso novamente encordoada (1955); 50 poemas escolhidos pelo autor e uma tradução de La fugitive, de Proust, (1956); Fala, amendoeira e Ciclo (1957); Poemas e uma tradução de Doña Rosita la soltera, de Lorca, (1959); uma tradução de Oiseaux-Mouches orthorynques du Brésil, de Descourtilz, (1960); Lição de coisas, Antologia poética, A bolsa & a vida e uma tradução de L’Oiseau bleu, de Maeterlinck, e uma de Les fourberies de Scapin, de Molière, (1962); uma tradução de Sult, de Knut Hamsun, (1963); Obra completa (1964); em colaboração com Manuel Bandeira, Rio de Janeiro em prosa & verso (1965); Cadeira de balanço (1966); Versiprosa, José & Outros, Uma pedra no meio do caminho, Minas Gerais (Brasil, Terra & Alma) (1967); Boitempo & A falta que ama (1968); Reunião (1969); Caminhos de João Brandão (1970); Seleta em prosa e verso (1971); O poder ultrajovem (1972); As impurezas do branco e Menino antigo (1973); Amor, amores (1975); A visita, Discurso de primavera e Os dias lindos (1977); Discurso da primavera e algumas sombras (2ª edição corrigida e aumentada), 70 historinhas, O marginal Clorindo Gato (1978); Poesia e prosa (5ª edição revista e atualizada) e Esquecer para lembrar (1979); A paixão medida (1980); Contos plausíveis (em edição não-comercial) e O pipoqueiro da esquina, com Ziraldo (1981); A lição do amigo (1982); Nova reunião e O elefante (1983); Boca de Luar e Corpo (1984); Amar se aprende amando, O observador no escritório, História de dois amores, Amor, sinal estranho e Contos plausíveis (em edição comercial) (1985); Tempo, vida, poesia (1986); e, publicação póstuma, deixou imprimir-se em faces novas: O avesso das coisas, Moça deitada na grama, O amor natural e Farewell.

Enumerar aqui a extensa produção drummondiana quer - mais que eximir o analista de qualquer culpa por deixar de lado um tanto tão vário de coisas e, de quebra, ajudar a justificar o recorte feito - assinalar que a leitura a ser construída, embora se pretenda conectada a toda obra poética do gauche itabirano, forçosamente, para não caracterizar inapelavelmente esta tentativa como um trabalho de Sísifo, teve que abdicar de muitos aspectos possíveis, parece, que poderiam vir a esclarecer a edição póstuma de O amor natural.

Naquilo que me parece comum nos destinos das duas obras - Ars amatoria e O amor natural - em pauta, há o que se afirmou sobre a obra do poeta latino: “Muito embora a matéria [de A arte de amar] (...) possa ser considerada bastante ousada para o momento em que foi ela escrita (...), os assuntos explorados são tratados com delicadeza e nobreza, num tom leve, poético e, por vezes, jocoso.” (CARDOSO: 1992, p. 8) - e não se pode perder de vista que os poemas drummondianos, embora publicados somente nos Noventa brasileiros, foram escritos, ao que tudo indica, em plena vigência, ainda, da ditadura militar que foi instaurada no Brasil nos fatídicos 21 anos transcorridos entre 1964 e 1985, sendo, portanto, contemporâneos do desbunde e do deboche típicos da literatura marginal que vigorou nesta época, com os quais talvez não se quisessem confundidos.


De posse de alguma informação sobre um dos autores em pauta, no caso, Ovídio, e sua obra, A arte de amar, fui à cata de algum livro que, mais confiável que as informações pinçadas aqui e ali na net, pudesse constar na minha bibliografia básica acerca do assunto. Encontrei duas edições bem faladas do extenso poema latino: uma, da L&PM, era a tradução, em prosa, de Dúnia Marinho; outra, uma edição também brasileira, em verso, bilíngüe, com tradução dos portugueses Natália Correia e David Mourão-Ferreira e prefácio da professora Zelia Ladeira Veras de Almeida Cardoso. E lá, no “Prefácio” desta última aquisição, me deparei com algumas informações interessantes:

a) “Ovídio foi um poeta de grandes qualidades. Contemporâneo de figuras importantíssimas da literatura latina, tais como Virgílio e Horácio, não se deixou ofuscar por eles e soube conquistar seu espaço próprio no mundo literário romano. Para isso contribuíram sua enorme cultura, seu virtuosismo no manejo do verso, a facilidade que tinha para escrever sobre diferentes assuntos, a capacidade de agradar ao público e, sobretudo, seu talento incomparável, capaz de dirigir-lhe o espírito brilhante, perspicaz e irreverente.” (p. 7);

b) “[Ovídio] participou das modificações decisivas que ocorreram nessa época [governos de Augusto e Tibério]: pôde acompanhar, de perto, os passos que levaram à Pax Romana, presenciou a implantação das políticas do princeps, observou a evolução social e cultural que se processava na ‘Cidade Eterna’ e viveu intensamente as conseqüências determinadas pela consolidação de uma estrutura nova. A obra de Ovídio reflete esse momento particular. Os textos que escreveu na mocidade - Amores e Heróides - revelam plena adesão do poeta à estética alexandrina (...). Para compor essas obras Ovídio se inspirou em modelos alienígenos mas soube construí-las com originalidade, demonstrando suas possibilidades de criar. (...) Preparam o terreno, de alguma forma, para a “trilogia” seguinte, representada pela Arte de Amar e pelos opúsculos intitulados Remédios do Amor e Cosméticos para o Rosto.” (p. 7-8);

c) “A Arte de Amar, poema em três livros, publicado no início de nossa era, já foi considerada como a teoria da qual Amores e Heróides representam a aplicação prática; com esse texto, valendo-se de recursos aparentemente ‘didáticos’, Ovídio compõe uma paródia de tratado científico em que, de maneira irônica, espirituosa e natural, discorre sobre a ‘técnica da sedução’.” (p. 8).

Inspirada especialmente nesta última informação, me certifiquei de que talvez não seja assim tão absurdo lê-lo para além de “velho bandalho” [2] ou mero “poeta libertino” - o que não seria, por si, pouca coisa -, mas, antes de tudo, tal como quero pensar também sobre Drummond, talvez seja absolutamente pertinente que Ovídio seja lido como “teórico do erótico”. Há, na obra de ambos - e, falando em particular na obra do brasileiro, há, desde Alguma Poesia -, uma tradição autóctone, que remonta às primeiras produções poéticas tanto de um quanto de outro, que faz pensar o corpo, o amor e as relações privadas e públicas que engendra, e o prazer carnal que se volta sobre si mesmo, visando à técnica que serve não somente às táticas amorosas (como se de guerra fossem), mas principalmente àquela que serve à arte e, portanto, à fruição de sentido.

Nesse particular - a tradição em tematizar o corpo, o amor e as relações privadas e públicas que engendra, e o prazer carnal que se volta sobre si mesmo - é de muitíssima importância destacar, ao longo da produção de Drummond, pelo menos:

a) a abundância de poemas que tratam explicitamente tais questões, já desde o primeiro livro, Alguma poesia, de 1930: vejam-se, por exemplo, “Casamento do céu e do inferno”, “Cantiga de viúvo”, “Iniciação amorosa”, “Balada do amor através das idades”, “Cabaré mineiro” e “Quero me casar”;

b) a pontual afirmação de Affonso Romano de Sant’Anna acerca do assunto:

O tema do amor e do erotismo, evidentemente, não é exclusividade de O amor natural. Ele está presente em todos os seus [de Drummond] livros. O que ocorre é um desnudamento temático. Pode-se dizer, por exemplo, que nos primeiros livros o amor aparece tratado ironicamente (...), não existe uma visão inteiriça do corpo amado. Isto contudo vai se modificando. A partir do meio da obra, o corpo do poeta e da amada vão ganhando mais consistência na medida em que o poeta gauche entra em contato com os grandes conflitos sociais (...). Ao mesmo tempo em que a questão amorosa começa a ser tratada de maneira menos episódica e irônica, começa também a ganhar uma densidade metafísica (...). Sintomaticamente, a temática amorosa torna-se mais presente nos últimos livros do poeta. (...) Os poemas ganham uma eroticidade maior, como se o poeta estivesse se desinibindo, ou como se Eros estivesse jogando sua última cartada contra Tanatos. (SANT’ANNA, 1993, p. 82-83)

Então, imediatamente, já que a vaidade é um mal (ou um bem) que nos assola, e já que quase sempre me sinto impelida a essa coisa estranha que é comparar uma coisa a outra, me lembrei de um texto que escrevi há poucos meses sobre Drummond, na tentativa de “panoramizar” sua obra. Pensei: várias afirmações que lá estão, acerca da produção drummondiana, poderiam, até onde minha ignorância permite comparar, servir ao poeta latino. Desta feita, exponho agora o que eu escrevi antes, na expectativa de que fique claro aquilo que vi de comum nos dois, Ovídio e Drummond:

Efetuadas “três constatações básicas” acerca da produção drummondiana - a) “sua obra não é um bazar onde os temas e os assuntos se amontoam”; b) tópicos como ironia, família, terra, destruição, repetição, cromatismo, província, gauche, entre outros, “só podem ser entendidos devidamente quando postos num jogo de correlação”; e c) “longe de ser apenas um dos temas em profusão em sua obra, o tempo é a coordenada a partir da qual se podem reagenciar os tópicos principais de sua poesia” (SANT’ANNA: 1980, p. 13) - destacam-se, de Alguma poesia (1930) a Farewell (1996), características ou marcas que, ao longo de mais de 50 anos de atividade sistemática, hão de consolidar-se: 1. seriedade e humor, que se confundem com sobriedade, cautela, possibilidade de aproximação investigativa e serenidade, diante da vida e do fazer poético (...); 2.correlação entre diversos aspectos, formais e temáticos, que se arranjam, num “autor com rara vocação clássica”, como “um projeto poético-pensante” caracterizado pelo emprego de elementos do uso comum e de técnicas de composição que consistem na perturbação das formas líricas tradicionais, o que esbarra, muitas vezes, na metalinguagem, na ambigüidade e na auto-referencialidade (...); 3. organização rítmica a partir da repetição, sem preferência por elemento sintático ou categoria gramatical, e da repetição enumerativa (...); 4. direção para o formalismo: coisa que, livro a livro, e sem grandes sobressaltos, vai se encorpando, vai abrindo espaço (...); 5. poesia como “superação da tricotomia presente-passado-futuro”.


 

Voltando a Ovídio, descobri, ainda, que nem depois de morto o poeta romano teve o luxo do sossego - coisa que também assola o nosso itabirano, Drummond, que tanto quis ser esquecido (será mesmo?) depois do encontro com a iniludível. Ruy Nunes, em “Da Alegria de Amor ao Deus de Amor” (extraído em 04/05/2005 de

Note-se o contexto social e cultural em que aparecem os trovadores e a concepção do amor cortês. É a época do renascimento do século XII, da ressurreição das cidades, do progresso econômico, da renovação dos estudos, das escolas e da vida religiosa. Surgem, então, as escolas episcopais, transforma-se o estudo das artes liberais com o sucessivo enriquecimento de suas disciplinas, graças às traduções das obras antigas e dos livros filosóficos, literários e científicos dos muçulmanos. Começa o movimento das Cruzadas, o intercâmbio com o Oriente, a fundação de novas ordens religiosas. E, concomitantemente com o desenvolvimento das escolas clericais, surge um novo tipo de educação seletiva dos leigos, nas cortes e castelos dos senhores feudais, com a promoção da poesia e do conto, em língua vulgar, da música, da cortesia, da delicadeza no amor e das boas maneiras, formas de sociabilidade que concorreram para melhorar as condições de vida aristocrática, para lhe adoçar a rudeza e a barbárie.

Note-se, também, a simbiose entre a literatura e a espiritualidade. Estuda-se o amor e sobre ele se escreve nos mosteiros de Cister, nas escolas dos Cônegos de São Vitor. (...)

Por outro lado, ressalte-se a importância das obras de Ovídio nos estudos clericais e na prática do amor cortês. No curso das artes liberais, elas eram lidas no original latino e num dos Accessus ad Auctores, “Ovidii de Amatoria Arte”, o seu livro A arte de amar, é considerado matéria de Ética, “quia de moribus puellarum loquitur...”. Fora das escolas clericais e monásticas, a obra podia ser lida em traduções como a do poeta Chrétien de Troyes, versão hoje perdida. Outras traduções corriam e, entre elas, aliás bem resumida, foi a de mestre Elias, clérigo residente em Paris, destacando-se, ainda, o poema imitador da A arte de amar, A chave do amor, que o autor anônimo inicia com um recurso desconhecido por Ovídio. Diz que o deus do amor lhe apareceu em sonho e lhe ordenou redigir as regras da sua arte.

Acerca da importância ou freqüência, não somente na educação seletiva de leigos e clérigos, mas principalmente dos usos populares - se é que se pode chamar assim - que a obra ovidiana atingiu, Ruy Nunes continua:

Os poemas de Ovídio, principalmente o seu tratado de amor conhecido como A arte de amar, contribuíram para a constituição das teorias do amor do século XII. Eles eram compulsados nos claustros e nas cátedras das escolas episcopais, assim como pelos trovadores e pelos poetas, autores de poemas e romances. Não só era citado nos tratados e nas obras fictícias da literatura, como em cartas que retratavam situações vividas e doridas da paixão amorosa, tal como em citações feitas por Heloísa para o seu amante e esposo, Abelardo. Como observa Gaston Paris, Ovídio escreveu para os leitores que viviam nas cidades do império, descreveu as experiências amorosas da aristocracia romana e as formas de sedução amorosa corrente entre os libertos, um mundo profundamente distante e diferente das cortes feudais e dos pequenos e rudes burgos do século XII. Mas, o fato é que através de seus poemas difundiu-se a concepção do amor puramente carnal. Foi obra dos poetas do século XII a elevação do conceito de amor pela exaltação do sentimento amoroso e pela promoção da mulher amada, a dama dos sonhos e dos desejos dos cantores, de regra uma mulher casada. Logo, porém, na poesia e na prosa, essa concepção desandou na exaltação do amor adúltero e na rejeição e na condenação do amor e da união matrimonial.

E a perseguição àquilo que A arte de amar ovidiana pudesse ter desencadeado - quem sabe, a volta, o retorno à valorização de um amor carnal, não matrimonial e, talvez por isso mesmo, visto como “mais livre”, digno de ser cantado em prosa ou em verso - não pára por aí, como se vê:

Na metade do século XIII a Universidade de Paris mergulhara numa tremenda crise com a introdução no ensino acadêmico das obras de Aristóteles, com o surgimento de correntes racionalista e naturalista do pensamento, com a luta de facções por causa das cátedras, os seculares e os mendicantes, com o aparecimento e o prestígio do averroísmo [3] latino ou aristotelismo radical. (...) Ao saber dessa crise universitária, o papa João XXI, em carta datada de Viterbo, de 18 de janeiro de 1277, ordenou a Estevão Tempier que empreendesse uma investigação e lhe comunicasse os resultados no prazo mais rápido possível. A celeridade do processo, levado a cabo por Tempier e pela comissão que formara com mestres e teólogos, excedeu as expectativas. Em menos de um mês estava pronta uma lista de 229 proposições condenadas e que figuravam no decreto promulgado por Estevão Tempier aos 7 de março de 1277 (Cf. Denifle, Chartularium Universitatis Parisiensis, t.I, n 432, pp.486-558).

(...)

O alvo principal do decreto era o aristotelismo radical ou averroísmo latino quanto às doutrinas da eternidade do mundo, do intelecto único, comum a todos os homens, do determinismo universal, da negação da liberdade e da Providência. Dessas doutrinas, era especificamente averroísta a da unicidade do intelecto humano.

Aos 10 de dezembro de 1270, Estevão Tempier já condenara 13 proposições de inspiração aristotélica ou averroísta. Agora, em 1277, quis condenar o racionalismo averroísta, mas por obra e graça dos ferrenhos adversários de Santo Tomás de Aquino, acabou por condenar, também, 15 proposições do aristotelismo moderado, tomista. Nas reprovações do decreto percebe-se o estabelecimento de uma ligação entre o averroísmo e a imoralidade. Tempier reprova a teoria da dupla verdade: uma proposição poderia ser verdadeira em filosofia e falsa em teologia e vice-versa, e censura uma obra de geomancia, e todos os livros de necromancia, magia e astrologia, contrários à fé ortodoxa e aos bons costumes.

Entretanto, antes dessas últimas censuras, o bispo de Paris condenou o tratado De deo amoris, sobre o deus do amor, identificado com a obra de André, o Capelão, composto no fim do século XII, inspirado na Arte de Amar de Ovídio, constituindo uma súmula do amor cortês, uma apologia do fin amor das cortes de amor occitânicas.

Embora já longuíssimas as citações, convém concluir a história: a partir de então, os poemas ovidianos que tratassem libertinamente o amor foram banidos do grupo das obras cuja leitura era permitida pela Igreja Católica - como ensina José-Ignacio Ciruelo em sua “Introdução” à tradução, publicada em 1983, que fez da Ars amatoria, os Fastos e as Cartas pônticas eram tolerados, mas os poemas de amor (Amores e Heróides, obras da juventude, e A arte de amar, Remédios do amor e Cosméticos para o rosto) e as Metamorfoses foram considerados proibidos. A nós importa, é bem verdade, quase que tão somente a leitura hoje possível. No entanto, a leitura possível hoje, a nós que não sabemos latim escorreitamente (e nem de qualquer outro modo), é via tradução. Configura-se, assim, um novo problema. Como assinala Zelia de Almeida Cardoso (1992, p. 11-12):

As primeiras traduções dos poemas de Ovídio em línguas modernas também remontam ao fim da Idade Média, havendo o Renascimento e a invenção da imprensa dado grande impulso a outras traduções.

Hoje seus poemas se acham vertidos na maior parte das chamadas “línguas cultas” do mundo. Com o passar do tempo, todavia, tradutores novos se aventuraram pelo campo da transladação lingüística e propõem traduções recentes que correspondem, em geral, a “leituras” e interpretações pessoais, ou seja, a maneiras modernas de compreender o texto antigo.

A tradução que uso, então, é a que Zelia de Almeida Cardoso prefacia - uma tradução recente, de maneiras modernas -, embora ela mesma lhe aponte algumas particularidades e ressalvas, tais como a liberdade, ou irregularidade, métrica, rítmica e rimática. E é nessa tradução que encontro quatro versos tais como “Muitas vezes ao vê-las (tantas são!) / a abundância retarda a nossa escolha. / Porque se vêm gozar o espetáculo / também gozam o espetáculo que dão.” (OVÍDIO: 1992, p. 27). O trecho citado faz parte do livro I, que “se refere às muitas formas de conquistar as mulheres” (CARDOSO: 1992, p. 8); em específico, faz parte do discurso-conselho ovidiano que procura ensinar “a quem não tema / os prazeres mais a furto concedidos...” (OVÍDIO: 1992, p. 21) aonde se devem procurar as mulheres que servirão como alvo do conquistador-aprendiz: “Assim tu que procuras a matéria / de um amor que te prenda longamente, / aprende, antes de mais, quais os lugares / que as mulheres freqüentam geralmente.” (Op. cit., p. 23). E justamente este trecho, que acentua a natureza narcísea feminina, me fez lembrar a mulher que se exibe e se recusa no belíssimo “A moça mostrava a coxa” (ANDRADE: 1993, p. 15-18) - notavelmente epigrafado por versos extraídos de Carmina Burana - drummondiano.

“A moça mostrava a coxa”

A moça mostrava a coxa,
a moça mostrava a nádega,
só não mostrava aquilo
- concha, berilo, esmeralda -
que se entreabre, quatrifólio,
e encerrra o gozo mais lauto,
aquela zona hiperbórea,
misto de mel e de asfalto,
porta hermética nos gonzos
de zonzos sentidos presos,
ara sem sangue de ofícios,
a moça não me mostrava.
E torturando-me, e virgem
no desvairado recato
que sucedia de chofre
à visão dos seios claros,
qual pulcra rosa preta
como que se enovelava,
crespa, intata, inacessível,
abre-que-fecha-que-foge,
e a fêmea, rindo, negava
o que eu tanto lhe pedia,
o que devia ser dado
e mais que dado, comido.
Ai, que a moça me matava
tornando-me assim a vida
esperança consumida
no que, sombrio, faiscava.
Roçava-lhe a perna. Os dedos
descobriam-lhe segredos
lentos, curvos, animais,
porém o máximo arcano,
o todo esquivo, noturno,
a tríplice chave de urna,
essa a louca sonegava,
não me daria nem nada.
Antes nunca me acenasse.
Viver não tinha propósito,
andar perdera o sentido,
o tempo não desatava
nem vinha a morte render-me
ao luzir da estrela-d'alva,
que nessa hora já primeira,
violento, subia o enjoo
de fera presa no Zôo.
Como lhe sabia a pele,
em seu côncavo e convexo,
em seu poro, em seu dourado
pêlo de ventre! mas sexo
era segredo de Estado.
Como a carne lhe sabia
a campo frio, orvalhado,
onde uma cobra desperta
vai traçando seu desenho
num frêmito, lado a lado!
Mas que perfume teria
a gruta invisa? que visgo,
que estreitura, que doçume,
que linha prístina, pura,
me chamava, me fugia?
Tudo a bela me ofertava,
e que eu beijasse ou mordesse,
fizesse sangue: fazia.
Mas seu púbis recusava.
Na noite acesa, no dia,
sua coxa se cerrava.
Na praia, na ventania,
quando mais eu insistia,
sua coxa se apertava.
Na mais erma hospedaria
fechada por dentro a aldrava,
sua coxa se selava,
se encerrava, se salvava,
e quem disse que eu podia
fazer dela minha escrava?
De tanto esperar, porfia
sem vislumbre de vitória,
já seu corpo se delia,
já se empana sua glória,
já sou diverso daquele
que por dentro se rasgava,
e não sei agora ao certo
se minha sede mais brava
era nela que pousava.
Outras fontes, outras fomes,
outros flancos: vasto mundo,
e o esquecimento no fundo.
Talvez que a moça hoje em dia...
Talvez. O certo é que nunca.
E se tanto se furtara
com tais fugas e arabescos
e tão surda teimosia,
por que hoje se abriria?
Por que viria ofertar-me
quando a noite já vai fria,
sua nívea rosa preta
nunca por mim visitada,
inacessível naveta?
Ou nem teria naveta...

O prazer de ver não supera aquele de ser vista, desejada. A moça que recusa entregar-se ao desejo do poeta em “A moça mostrava a coxa” - instaurando, quem sabe, uma espécie de vassalagem amorosa dos tempos modernos - inspira versos, tal como a mulher-genérica com que Ovídio encerra o livro I: “É assim que a mulher que às vezes teme / entregar-se a um homem de valor, / cai nos braços de um aviltante sedutor.” (p. 95). A dúvida drummondiana - se, hoje em dia, a “inacessível naveta” se abriria - é respondida pelos versos ovidianos lidos. E ainda, o jogo amoroso tão longamente dissecado no poema de Drummond, vem analisado pelo poeta romano, alguns séculos mais experiente: “Para começar, convence o teu espírito / que todas as mulheres sem exceção / há de atraí-las a tua sedução. / Basta que lances a rede irresistível. (...) / Mesmo essa de quem pensas ‘não me querer’ / não julgues que te nega. / Se o amor clandestino agrada ao homem / não é menos simpático à mulher. / São os homens porém mais desastrosos na arte de fingir. / É refinada a mulher no fingimento / de alimentar um secreto sentimento. / Se os machos combinassem / do amor não tomar a iniciativa / quanta mulher rendida / o nosso amor viria suplicar! (...) / Não há mulher por mais feia que seja / que com o próprio aspecto não esteja satisfeita. (...) / Não molestes com beijos mal roubados / os seus lábios sensíveis delicados; / que queixar-se não possa da tua grosseria. / Roubar um beijo e não roubar o resto / é uma falta de jeito que merece / perder os favores já concedidos. / Depois do beijo, ó homem, por que esperas / para outros desejos consumar? / Não é pudico teu comportamento; / deste sim mostras de um tosco acanhamento. / Teria sido violência, dizes; / mas dessa violência não fogem as mulheres; / o que elas gostam de nos conceder, / muitas vezes concedem resistindo.” (p. 85).

O cotejo entre, no mínimo, alguns trechos do livro I de A arte de amar, de Ovídio, e o poema de Drummond, me faz pensar que: a) um e outro desejam mais que a comunhão simplesmente carnal com a mulher - no primeiro, a arte da conquista visa ao encontro com aquele que lhe há de prender longamente (“Enquanto podes ir à rédea solta / elege pois aquele a quem dirás: / ‘Só tu, só tu me podes agradar!’ (...) / Assim tu que procuras a matéria / de um amor que te prenda longamente, / aprende”, p. 23); no segundo, se vê este desejo manifesto em “Tudo a bela me ofertava, / e que eu beijasse ou mordesse, / fizesse sangue: fazia” e.nos poemas de abertura [i] e fechamento [ii] de O amor natural; b) um e outro têm uma visão particular da mulher: ora deusa, ora senhora impiedosa, ora virgem inocente, ora manipuladora sagaz - e essa visão se coaduna àquilo que, na prática, mesmo meramente literária, se verifica, da literatura latina, passando pela lírica trovadoresca e chegando à modernidade brasileira; c) um e outro, quem sabe, por circunstâncias comuns que provavelmente nos escapam - mudanças políticas e sociais?, adversidades privadas e/ou públicas?, receio da recepção? - aderem a um modo irônico, leve, bem humorado, clássico, jocoso e, simultaneamente, grave de teorizar. E mais não digo, porque a pesquisa está só no início.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Prosa e poesia. 8. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992.

ANDRADE, Carlos Drummond de. O amor natural. Ilustrações de Milton Dacosta. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1993.

CARDOSO, Zelia Ladeira Veras de Almeida. “Prefácio”. In: OVÍDIO. Arte de Amar. Tradução de Natália Correia e David Mourão-Ferreira, com ilustrações de Luís Alves da Costa e apêndice com a tradução erudita de Antônio Feliciano Castilho. São Paulo: Ars Poetica, 1992, p. 7-15.

DURIGAN, Jesus Antônio. Erotismo e literatura. São Paulo: Ática, 1985.

HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. 1 CD room.

NUNES, Ruy. “Da Alegria de Amor ao Deus de Amor”. (extraído em 04/05/2005, de

OVÍDIO. Arte de Amar. Tradução de Natália Correia e David Mourão-Ferreira, com ilustrações de Luís Alves da Costa e apêndice com a tradução erudita de Antônio Feliciano Castilho. São Paulo: Ars Poetica, 1992.

OVÍDIO. A arte de amar. Tradução de Dúnia Marinho da Silva. Porto Alegre: L&PM, 2001.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Carlos Drummond de Andrade: análise da obra. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. “O erotismo nos deixa gauche?”. In ANDRADE, Carlos Drummond de. O amor natural. Ilustrações de Milton Dacosta. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1993, p. 77-84.

[s. a.]. “Arredai-vos, homens covardes”
(extraído em 04/05/2005, de http://veja.abril.com.br/especiais/homem_2004/p_034.html).

[s. a.]. “Ovídio e a Idade do Ferro”
(extraído em 04/05/2005, de http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/ovidio.htm).

 

Notas:

[1] Quando desta sua primeira publicação, pela Record, a reunião dos 40 poemas recebeu ilustrações - que tematizam, também, o corpo e o erótico - de Milton Dacosta (1915-1988), marcando, assim, o ponto alto da parceria de Drummond com o ilustrador - que se iniciou em 1957, com a capa do livro de crônicas Fala, Amendoeira.

[2] Expressão usada por Drummond, durante uma entrevista, em que dizia retardar a então possível publicação de seus poemas eróticos temendo a "acusação", derivada de uma recepção indevida, de "velho bandalho".

[3] Doutrina do médico e pensador árabe Averroes (1126-1198), voltada para uma interpretação pessoal do aristotelismo que, muito embora tenha influenciado decisivamente a cultura intelectual do medievo europeu, se mostrou hostil à ortodoxia católica (tal como ocorre, p.ex., em sua afirmação da finitude da alma humana individual), sendo por isto duramente combatida pela filosofia escolástica e duas vezes condenada pela Igreja (1240 e 1513), segundo o Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa.

[i] Amor - pois que é palavra essencial comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.

      Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

      O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

      Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

      Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

      Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

      E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

      E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

      Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

      Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
         (ANDRADE, 1993, p. 5-7)

[ii] Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante.
Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor - o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

      Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.

      Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe?
enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.

      Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
do sêmen aljofrando o irreparável ermo.
         (ANDRADE: 1993, p. 72)

 

© Maria Amélia Dalvi Cristo 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

El URL de este documento es http://www.ucm.es/info/especulo/numero30/drumovid.html