Matraga e bem-bem: conflito ético.
Uma leitura de "A hora e vez de Augusto Matraga"
de João Guimarães Rosa

Professor Ms. Flávio Leal


 

   
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“- Epa! Nomopadrofilhospritossantamêin! Avança, cambada de filhos-da-mãe, que chegou minha vez!... ”
Nhô Augusto (Matraga)

“E chamando assim o povo com seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir, negue-se a si mesmo: e tome a sua cruz, e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua vida perdê-la-á: mas o que perder a sua vida por amor a mim, e a do Evangelho, salvá-la-á”
Evangelho de São Marcos: 8,34-5

 

I - Apresentação

“A hora e vez de Augusto Matraga” [1], narrativa que instiga pensamentos e discussões há mais de meio século, é lida mais uma vez numa tentativa de abordagem crítica. Este ensaio se propõe a analisar o ethos do personagem Augusto Matraga, em sua trajetória de construção ética. O personagem percorre um caminho de construção ética, abandonando o ethos anterior, patriarcalista, absorvendo a ética cristã, na segunda fase de sua trajetória, até culminar em conflito com o representante da ética jagunça do sertão, Joãozinho Bem-Bem. O conflito final, cena ímpar na literatura brasileira, é um embate de valores éticos, no universo roseano.

Com proporções humildes, este artigo cria possíveis discussões sobre essa narrativa, que poderiam ser desdobradas em uma análise mais profunda e ampla. Matraga e sua construção ética serão o tema aqui exposto e debatido. Há indícios na obra que fortalecem esta abordagem sobre a construção ética (ethos) os quais serão sublinhados ao decorrer da análise.

Chegaram “A hora e vez (do conflito ético) de Augusto Matraga”.

 

II - A Ética: Ethos e suas definições

Antes de adentrarmos na narrativa, é necessário neste momento uma delimitação sobre os possíveis conceitos de Ética, como reflexão sobre ethos. Assim, o que seria ethos?

Durante o pensamento ocidental, provido dos antigos, a Ética fora debatida, interpretada e discutida por muitos, usando o senso crítico e os valores para delimitá-la e explicá-la. Entretanto, é muito comum e notório, até no meio acadêmico, o uso do termo sem explicações plausíveis e bases sólidas. Utiliza-se o conceito sem conhecê-lo, infelizmente. Desta forma, usaremos para ingresso nesta discussão os pensamentos de Henrique C. de Lima Vaz que esboça uma delimitação coerente sobre o termo e estudo. Ele nos diz que a ética é “a codificação racional de um ethos que se supõe vivido pela comunidade histórica ou que esta se supõe viver” [2]. Esta abordagem sobre o comportamento humano, em suas particularidades, cria um saber racional sobre o ethos chamado Ética.

O ethos é a “transcrição da physis na peculiaridade da praxis ou da ação humana e das estruturas histórico-sociais que dela resultam” [3]. Physis e ethos são “manifestações primeiras do ser”. De acordo com o Prof. Fernando Mendes Pessoa, em seu curto, entretanto, esplêndido ensaio sobre os pensamentos de Henrique Lima Vaz, ele nos diz: “Desde os pensadores que foram denominados pré-socráticos até Aristóteles, a physis sempre foi compreendida pelos gregos como o vigor que anima os fenômenos vitais em sua emergência originária: a physis é princípio, arche da vida” [4]. Desta forma, sendo princípio da vida, arche da vida, ethos e physis devem ser refletidos também no homem do sertão que é além de tudo Humano.

Assim, para entendermos Ética, devemos compreender o conceito de ethos. Segundo Vaz, a primeira acepção etimológica de

“ethos (com eta inicial) designa a morada do homem (e do animal em geral). O ethos é a casa do homem. O homem habita sobre a terra acolhendo-se ao recesso seguro do ethos. Este sentido de um lugar de estada permanente e habitual, de um abrigo protetor, constitui a raiz semântica que dá origem à significação do ethos como costume, esquema praxeológico durável, estilo de vida e ação”. [5]

Esta metáfora da morada indica que o mundo torna-se habitável ao homem, a partir de uma assimilação ética dos costumes. Mas também, o espaço do ethos não é dado ao homem, mas por ele incessantemente (re)construído, reformulado e elaborado, assim como sua morada. Guardemos, pois, este conceito entre nós, que será retomado adiante.

A segunda acepção traz o ethos (com épsilon inicial) que “diz respeito ao comportamento que resulta de um constante repetir-se dos mesmos atos. É, portanto, o que ocorre freqüentemente ou quase sempre (pollákis), mas não sempre (aeí), nem em virtude de uma necessidade natural” [6]. Este conceito delimita o ethos como o processo formador do hábito (hexis), dado de uma certa comunidade. Assim, o homem efetuará a inscrição de seu ethos na praxis humana vivida e exigida dentro de uma hexis, hábito vivido e sempre reconstruído.

Desta forma, o ethos como “costume, ou na sua realidade histórico-social, é o princípio e norma dos atos que irão plasmar o ethos como hábito (ethos- hexis)” [7]. Entre estas formulações, há uma circularidade de instâncias: costumes (ethos), ação (praxis), hábito (ethos- hexis). Todas envolvidas em um processo humano-social, em que a ação ética procede do ethos que é a inscrição da praxis social na hexis, hábito.

 

III - A ética patriarcal-sertaneja

“Aí o povaréu aclamou, com disciplina e cadência:

- Nhô Augusto leva a Sariema! Nhô Augusto leva a Sariema!”

“- Que foi, hein? ... Que foi?

Foi o capiauzinho apanhando, estapeado pelos quatro cacundeiros de Nhô Augusto, e empurrando para o denso do povo, que também queria estapear.

- Viva Nhô Augusto! . . .”

Uma procissão acabada, um leilão atrás da igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici, onde “duas mulheres-à-toa (Angélica e Sariema)” são colocadas no leilão para serem arrematadas. De repente, houve um “deslocamento de gentes, e Nhô Augusto [filho do coronel Afonsão Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira], alteado, peito largo, vestido de luto, pisando pés dos outros e com os braços em tenso, angulando os cotovelos, varou a frente de massa, se encarou com a Sariema, e pôs-lhe o dedo no queixo. Depois, com uma voz de meio-dia, berrou para o leiloeiro Tião: - Cinqüenta mil-réis! ... ”. Com a prepotência do mais forte, com arrogância arremata a prostituta que estava enamorada de um ‘capiauzinho’. O peão tenta retirá-la da confusão mas Nhô Augusto, entre os gritos da multidão, dá-lhe ‘três pescoções” guardado por quatro cacundeiros seus. O capiau amarelo é arremessado no meio da multidão que apóia o mais forte, que vivencia e representa o ethos sertanejo. Esta é a preceito do sertão, ou seja, a lei do forte. “Sertão é onde manda quem é forte com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado” [8].

Arrematada a mercadoria, encerrado o leilão, impulsionado pela multidão, após ter conseguido, como toda sua vida, o respeito e o medo, Nhô Augusto sai, levando no braço, sua compra, seu ethos. Este homem, Nhô Augusto, gerado em um sertão, filho do Coronel Afonsão, possui sua ética sertaneja que não descarta a fé, mas a utiliza para seus fins éticos, a força e o respeito dos fortes. O sertão é assim, “manda quem é forte com as astúcias”. Sendo filho de um Coronel, com terras e ‘cacundeiros’, Nhô Augusto leva uma vida desregrada ao olhar institucional e moral. Sua ética provém do sertão, onde tudo pode ser realizado pelo ‘forte’. Até mesmo comprar a Sariema (Tomázia - chamada assim pelo Capiau), que foi levada até o “Beco do Sem-Ceroula, onde há três prédios - cada um deles com gramofone tocando, de cornetão à janela - e onde gente séria entra mas não passa”. (AM: 344). Lá, depois de aclamado pelo povo, manda a rapariga embora por ter “perna de manuel-fonseca, uma fina e outra seca! E está que é só osso, peixe cozido sem tempero ... Capim p’ra mim, com uma sombração dessas! ... Vá-se embora, frango-d’água! Some daqui!” (AM: 345). Seu ethos (costume) é sempre realizado por ser o forte, por comprar tudo e todos. Seus capangas, suas terras e seu respeito são obtidos pelo seu ethos (tomado como a segunda acepção acima exposta). Ethos como costume de uma sociedade articulada, um fator social, uma forma de conduta do humano no seu meio histórico-social, que no início da narrativa é o sertão inscrito na figura de Nhô Augusto e no povo do “arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici”.

O menino Quim Recadeiro aponta na rua para avisar-lhe, o chefe Nhô Augusto, que possuía um recado de sua esposa, Dona Dionóra, que queria ver-lhe. Nhô Augusto interrompe e manda “desvirar”, dizendo que lá não ia e manda Quim levar Siá Dionóra e Mimita, a filha, no dia seguinte, para o Morro Azul. Siá Dionóra, no dia seguinte, termina por ir embora com o apaixonado Ovídio Moura, caso de ‘desonra’, para morte ‘matada’, lavada com sangue no sertão, onde o respeito parte da honra e da força, nos valores éticos.

Quim Recadeiro, avisado por Ovídio Moura, na estrada, que agora Dona Dionóra era sua mulher (vai viver comigo), obedece inicialmente, e retruca “- homem sujo! ... Tomara que uma coruja [símbolo da desgraça e azar] ache graça na tua porta! . . .” (AM: 348). Cuspindo em cima, “e tocou para trás, em galope doido, dando poeira ao vento. Ia dizer a Nhô Augusto que a casa estava caindo” (AM: 348). Realmente, a casa estava, lembremo-nos, pois, da primeira acepção de ethos, como morada do homem, seu refugio e sua proteção. Pois, neste momento a ‘casa’ de Nhô Augusto está caindo, isto é, a ética começa a ruir. A figura da casa percorre três momentos da narrativa que serão demonstrados nesta análise, secionando a narrativa em fases a partir das ‘casas físicas’, representantes das éticas vivenciadas por Augusto Matraga, no decorrer do caminho de construção ética.

Quim Recadeiro, ao chegar para avisar seu chefe sobre o ocorrido, “Nhô Augusto, não: estava deitado na cama - o pior lugar que há para se receber uma surpresa má” (AM: 349). A casa caindo e o dono dentro. Avisa-lhe “­- ... Eu podia ter arresistido, mas era negócio de honra, com sangue só p’ra o dono, e pensei que o senhor podia não gostar ... - Fez na regra, e feito! Chama meus homens!” (AM: 349). A regra da honra, do sertão, do forte, do seu ethos, lavada com sangue, mesmo inocente às vezes, entretanto justificada pelo ethos.

Walnice N. Galvão, em seu livro, As Formas do Falso, analisa a condição jagunça do sertão e afirma que “destituído de formas organizatórias e institucionais que regulamentem suas relações com os demais homens, os conflitos, por mínimos que sejam, só podem ser resolvidos mediante a violência” [9]. Esta marca de violência percorre o sertão e o homem na sua praxis (ação) que se inscreve na sua hexis (hábito) patriarcal. Essa é a ética do sertão jagunço, aquela que chama os cacundeiros para solucionar com armas os conflitos. “O exercício privado e organizado da violência é, ao longo da história brasileira, uma instituição e não uma exceção” [10]. O ethos do homem sertanejo possui uma peculiaridade própria, da lealdade à força, da morte ao respeito, do forte sobrepujando o fraco e da vingança ao companheirismo. Entretanto, o jagunço, propriamente dito, possuindo seus códigos, não institui uma violência desregulada. Matraga em sua ética de coronel - patriarcalista ainda embuído da ética dos fortes, ou melhor, não se deu conta que sua força partia do ethos que é socialmente articulado, e o forte também está sujeito à sua própria ética.

Assim, Quim Recadeiro retorna ‘com nova desolação’, avisando-lhe que os ‘bate-paus’ foram comprados pelo Major Consilva. A violência faz-se presente na narrativa porque esta é o ethos do sertão jagunço-patriarcal. Nhô Augusto se depara com sua própria ética, o ethos patriarcalista, pois iria acertar primeiro com o Major Consilva para depois matar Ovídio e Dionóra. Entretanto, como o ethos é um fator social, ou seja, articulado em uma comunidade que se supõe vivê-lo e articulá-lo, Major Consilva realiza o mesmo ethos de Nhô Augusto, compra os cacundeiros. Ele, Consilva, “o dono da casa foi falando alto, risonho de ruim: - Tempo do bem-bom acabou, cachorro de Esteves! . . .” (AM: 351). Agora, o dono da casa, da morada, do ethos patriarcalista-jagunço do sertão, derrota o “Nhô Augusto [que] Esteves” na sua ética, no seu ethos. Esta derrota é a hexis (hábito) deste universo sertanejo. Assim, Nhô Augusto não mais tem seu ethos, após a surra de porrete [11] (Matraque - francês), picado de faca, “abrasaram o ferro com a marca [12] de gado do Major - que soía ser um triângulo inscrito numa circunferência -, e imprimiram-na, com chiado, chamusco e fumaça, na polpa glútea direita de Nhô Augusto” (AM: 352-3), pelos seus próprios ‘bate-paus’, que agora pertenciam ao Major Consilva, dentre os quais estava o capiauzinho de Sariema, completando sua vingança contra o comprador de sua “mulher-à-toa”, também exercendo o ethos da estrutura social sertaneja.

Nhô Augusto está humilhado, marcado e derrotado, em uma sociedade (“Viver é muito perigoso”) que possui seus códigos próprios, numa “existência em fio-de-navalha” [13]. Esta é a ética jagunça, com seus códigos, normas e ‘leis do mais forte’.

“Mas recuaram, num susto, porque Nhô Augusto viveu-se, com um berro e um salto, medonhos. - Segura! Mas já ele alcançara a borda do barranco, e pulara [14] no espaço. Era uma altura. O corpo rolou, lá embaixo, nas moitas, se sumindo” (AM: 353), no abismo. Ele “viveu-se”, ou seria melhor, ‘reviveu-se’, porque nasce neste instante o novo Nhô Augusto, pois já não existe mais Augusto Esteves, que possuía o ethos patriarcalista. Inicia-se, a partir deste fragmento narrativo, a construção ética de Augusto Matraga, que vai perdurar durante toda sua trajetória até o próprio conflito que firmará sua ética.

 

IV - A construção do ethos de Nhô Augusto

“Eu vou pr’á o céu, e vou mesmo, por bem ou por mal!... E a minha vez há de chegar... P’rá o céu eu vou, nem que seja a porrete”
      (Nhô Augusto)

Quando encontrado por um casal de ‘pretos’ [15], paradigmas do ethos cristão nesta narrativa, Nhô Augusto inicia sua trajetória na construção de um novo ethos. Levaram-no para “o casebre dos dois, que era um cofo de barro seco, sob um tufo de capim podre, mal erguido e mal avistado, no meio das árvores, como um ninho de maranhões” (AM: 353). Sua nova morada (ethos) é o casebre que representa a humildade, o trabalho, a contenção, o amor ao próximo, o perdão, a busca da redenção, o seu novo ethos é o Cristão.

Certo dia, o padre trazido pelo casal de ‘pretos’ (Mãe Quitéria e Pai Preto Sarapião), ‘uma noite, muito à escondida’, conversou com Nhô Augusto, ‘aconselheou-o’ dizendo: “- Você nunca trabalhou, não é? Pois, agora, por diante, cada dia de Deus você deve trabalhar por três [16], e ajudar os outros, sempre que puder. Modere esse mau gênio: faça de conta que ele é um poldro bravo, e que você é mais mandante do que ele ... Peça a Deus assim, com esta ejaculatória: ‘Jesus, manso e humilde, fazei meu coração semelhante ao vosso . . .’ (... ) Cada um tem a sua hora e vez: você há de ter a sua” (AM:356). Assim, após essa inserção no pensamento cristão do evangelho, inicia-se a “mortificação do corpo” para se obter o caminho da salvação da alma.

Trabalhar por três (Pai, Filho e Espírito Santo), mortificar o corpo, “viveu uma exaltação da alma através de um ininterrupto rebaixamento do corpo” [17], afirma Renato Janine. Também, há uma observação deste crítico que em nossa abordagem não condiz com a narrativa Roseana, nesta abordagem. Afirma Janine que não deu certo essa penitência do corpo: “E no entanto não deu certo. Pense o leitor nessa outra dor. Falei do sofrimento que pode vir de chegar tarde demais aquilo que tanto desejamos no passado. Agora, a dor é porque não deu certo a redenção pelo bem. Dará, se vier por Bem-Bem?” [18].

Nesta abordagem, tendo como viés a formação do ethos (Ética), a afirmação de Renato não nos ajuda, pelo contrário, torna-se equivocada. Vejamos porque. Lima Vaz ao discorrer sobre a formação do ethos, que é uma instância social, afirma que em “um ethos já socialmente instituído (costumes) o indivíduo seria por ele envolvido e extrinsecamente condicionado” [19]. Desta forma, no período que Nhô Augusto se encontra trabalhando ‘por três’, trabalho solidário, chamado de maluco, quase sempre sozinho, respeitando a vida e a natureza, mortificando os impulsos, está sendo condicionado em uma ética, aqui denominada cristã. “Há, sem dúvida, um mundo de valores belíssimos, autênticos, que por si mesmos, opõem-se frontalmente aos valores do patriarcalismo” [20]. Entretanto, sua formação anterior, o ethos jagunço-patriarcalista, ainda se encontra. Essa ambivalência é a luta de Nhô Augusto para conseguir sua redenção, salvação pelo porrete, sua construção ética que vai perdurar até o conflito ético final com Bem-Bem, que é prova ‘viva’, ao contrário do que Janine afirma, aqui tomada como vitória de sua trajetória de mortificação do corpo e obtenção da ética cristã. Assim, no Tombador, a aprendizagem desse ethos fora obtido porque um verdadeiro cristão deverá dar a vida assim como Cristo a deu pelo semelhante: “Porque o que quiser salvar a sua vida perdê-la-á: mas o que perder a sua vida por amor a mim, e a do Evangelho, salvá-la-á” (Evangelho de São Marcos: 8,34-5).

“Mas, como tudo é mesmo muito pequeno, e o sertão ainda é menor, houve ... ” (AM: 360) um encontro com um velho conhecido, Tião da Thereza. Este lhe contara que sua filha Mimita perdera-se na vida, seduzida por um ‘cometa’, caíra na vida. Sua mulher, Dionóra, ainda amigada com Ovídio; Major Consilva, ainda, mandando em Murici, mas também o “mal-arrumado” fora que Quim Recadeiro “tinha morrido de morte-matada, com mais de vinte balas no corpo” pelo Major Consilva e seus ‘cacundeiros’. Ele, Quim, havia jurado vingança pela suposta morte do patrão, Nhô Augusto. Este é outro enfático exemplo da ética patriarcalista do jagunço, isto é, há um empregado, recadeiro, que ao ver seu patrão desmoralizado no hábito desse ethos toma para si a desonra, jurando e tentando uma vingança sangrenta.

Todavia, mesmo sabendo sobre a vida de cada componente de sua vida passada, Nhô Augusto retoma sua vida de educação do novo ethos pedindo que Tião não diga a ninguém sobre seu atual estado e morada. Por quê? Já tinha chegado até aquele momento de redenção, seria, para ele, um ‘erro’ retomar a vida de descontrole; reiniciar seu ethos patriarcalista seria outro erro, diante do novo ethos cristão. Já que ir para o céu, por bem ou por mal, era o objetivo, a ética, Nhô Augusto iria mesmo nem que fosse “a porrete”.

Nesta trajetória de redenção, no ethos cristão, há o encontro de duas éticas, ou melhor, o contato de dois homens que se assemelham, reconhecem-se e respeitam-se. Joãozinho Bem-Bem surge no Tombador. Nhô Augusto, ao saber da vinda do chefe dos jagunços, se apresenta: “E Flosino Capeta [jagunço do bando que avista Nhô Augusto] pasmou deveras, porque era coisa mais custosa deste mundo seu Joãozinho Bem-Bem se agradar de alguém ao primeiro olhar” (AM:365). Para Joãozinho Bem-Bem, Nhô Augusto é o igual, a mesma ética, o mesmo código de valores. Bem-Bem reconhece traços da ética patriarcal-sertaneja de Nhô Augusto. Assim, Bem-Bem é convidado por Nhô Augusto para se ‘arranchar’ no sítio, no quintal, não entraram na casa pobre, logo após surgem o respeito entre ambos e as saudações: “Mano velho”, “Companheiro”, “amigo”, “parente” e “senhor”. Inicia-se, pelo viés do ethos cristão, a tentação de Nhô Augusto, que poderá desvirtuá-lo de sua salvação.

Quando todos, o bando, Bem-Bem e Nhô Augusto, estão acampados, arranchados, Nhô Augusto experimenta a arma papo-amarelo, rifle de longo alcance, logo Bem-Bem o instiga a acertar um pássaro, entretanto, a fala de Nhô augusto é própria do ethos cristão: “- Deixa a criaçãozinha de Deus. Vou ver só se corto o galho ... Se errar, vocês não reparem, porque faz tempo que eu não puxo dedo em gatilho... Fez fogo” (AM:370). Logo, são criados a amizade e o reconhecimento dos ‘iguais’, gerando assim o convite do jagunço, ou seja, a tentação que aflige o cristão:

“- Mano velho, o senhor gosta de briga, e entende. Está-se vendo que não viveu sempre aqui nesta grota, capinando roça e cortando lenha ... Não quero especular coisa de sua vida p’ra trás, nem se está se escondendo de algum crime. Mas, comigo é que o senhor havia de dar sorte! Quer se amadrinhar com meu povo? Quer vir junto? - Ah, não posso! Não me tenta, que eu não posso, seu Joãozinho Bem-Bem . . .” (AM: 371).

O bando de Bem-Bem parte e a aprovação fora vencida. Nhô Augusto conseguiu vencer a tentação de retornar ao ethos que havia tido, no qual havia perdido tudo, numa ‘queda brutal’. Agora, seria impossível retornar já que seu ethos já fora reelaborado. E sempre com sua “ejaculatória”: “- cada um tem a sua hora, e há-de chegar a minha vez!” (AM:373).

Numa manhã comum de trabalho, na lida do dia, no cabo da enxada, a natureza, os pássaros, tudo já fazia sentido para Nhô Augusto. Para entendermos esta passagem na narrativa que vai gerar a partida de Nhô Augusto para o Conflito Ético, há uma correlação com a vida de Sã Francisco de Assis, que poderá ajudar-nos.

Quando Walnice Galvão realiza seu ensaio, Matraga: Sua Marca, ela nos diz que “São Francisco é o santo que deixou a maior lição de felicidade. Aceitava, louvava e proclamava a beleza e o valor de tudo o que existe, chamando de irmãos não só os homens como também cada flor, cada pássaro, cada estrela, a Lua, o Sol, o fogo” [21]. Nhô Augusto celebra a beleza da natureza ao apreciar os pássaros, numa união franciscana com as criações divinas. “- Virgem! Estão todas assanhadas, pensando que já tem milho nas roças ... Mas, também, como é que podia haver um de-manhã mesmo bonito, sem as maitacas?! . . .” (AM:374). Logo após sua celebração franciscana, Nhô Augusto “ainda não possuía idéia alguma do que ia fazer. Mas, dali a pouco, nada adiantavam, para retê-lo, os rogos de mãe Quitéria e de pai preto Sarapião”. (AM: 375). Indo-se obter sua hora e vez, ele, Nhô Augusto, prevê sua trajetória, de seu ethos cristão, de sua redenção e salvação. Para isso, para obter sua ética e “paz cristã” era necessário partir: “-Adeus, minha gente, que aqui é que mais não fico, porque a minha vez vai chegar, e eu tenho que estar por ela em outras partes!” (AM:375). Tenta partir para seu trajeto a pé, mas Mãe Quitéria lhe diz que deveria aceitar a oferta de Rodolpho Merêncio, um jegue. Nhô Augusto não queria “mas, depois, aceitou, porque mãe Quitéria lhe recordou ser o jumento um animalzinho assim meio sagrado, muito misturado às passagens da vida de Jesus” (AM: 375). Partiu, desta forma, montado em um jumento, seguindo os passos da via crucis, como um verdadeiro cristão que deve mortificar o corpo, amar ao próximo, seguir as palavras de Deus, e, acima de tudo, seguir os ensinamentos de Cristo e seu modelo de vida ética. Nestas circunstâncias, o ‘Homem do Jumento’ vai ao encontro (de sua hora e vez) da consumação da ética cristã!

 

V - A hora e vez (do conflito ético) de Augusto Matraga

“- Se arrepende dos pecados, que senão vai sem contrição, e vai diretinho p’ra o inferno, meu parente seu Joãozinho Bem-Bem!... ”
      Nhô Augusto (O Homem do Jumento)

A cultura, conforme Vaz, é “o domínio onde o ethos se explicita formalmente na linguagem das normas e valores e se constitui como tradição” [22]. Esta tradição ética pressupõe uma continuidade de normas, valores, costumes, condutas e experiências. Toda comunidade que vivencie um ethos dá seguimento, de qualquer maneira, a certa praxis inserida em um hexis (hábito) social. Porém, é um dado da construção do ethos que “o indivíduo se realiza eticamente como tendo alcançado o senhorio de si mesmo (autárqueia) ou na qual a praxis individual é exercida como perfeição (enérgeia) do próprio indivíduo”. [23]

Nesta relação de continuidade, tradição, construção e modificação, acontece o conflito ético que é parte integrante e não anômala deste processo. Este conflito ético comprova a particularidade da natureza histórica do ethos, que se situa em constante ocasiões e desafios, que se configuram e colocam novos trajetos para as sociedades histórico-humanas. Assim, o conflito ético não é “uma eventualidade acidental mas um componente estrutural da historicidade do ethos. Ele se dá propriamente no campo dos valores e seu portador [Augusto Matraga] não é um indivíduo empírico, mas o indivíduo ético que se faz intérprete de novas e mais profundas exigências do ethos[24]. Desta sorte, o conflito ético, também chamado conflito de valores, que rompe com a tradição, depara-se com outro ethos, neste momento ocorre o conflito que é próprio da historicidade da formação ética social.

Na narrativa roseana, Augusto Matraga se torna o portador do Ethos cristão, apreendido durante sua convivência com o casal de negros (Mãe Quitéria e Pai Preto Sarapião) e o padre, com o trabalho solidário, com a mortificação do corpo, com o controle dos ímpetos, enfim, este portador chamado Nhô Augusto, que não era ‘nada’, será um indivíduo excepcional, será, de acordo com os escritos de H. Lima Vaz, “uma personalidade ética excepcional [que] é capaz de viver o conflito ético nas suas implicações mais radicais e tornar-se anunciador de novos paradigmas éticos, como foi o caso na vida e no ensinamento de Buda, de Sócrates e de Jesus” [25] e também Augusto Matraga.

Esta personalidade, o portador do novo paradigma ético, deve ser uma figura “excepcional”. Nhô Augusto que não era ‘nada’, tornou-se, por intermédio da construção ética, o portador de novos paradigmas éticos, no sertão.

No universo sertanejo, o ethos é o do mais forte, das armas, dos jagunços, da justiça dos robustos, da força, em que os valores são respeitados [26], ‘estado de lei’, onde a lealdade junta-se à crueldade do mais forte. Joãozinho Bem-Bem é o representante desse ethos jagunço-sertanejo, protetor e perpetuador do sistema patriarcalista.

Antes de adentrarmos no conflito, na hora e vez de Augusto Matraga, cabe observarmos um detalhe muito importante. Há um fator preponderante: Joãozinho Bem-Bem, senhor do seu ethos, a ética do jagunço, do seu universo, do seu mundo, do sertão. Senhor da ética patriarcalista-jagunça. Sabemos que toda ética visa sua universalização, logo, será possível supor que Bem-Bem, como já fora analisado por tantos críticos, como o Mal puro (duas negativas ou afirmativas negam-se), mas também como palavras onomatopaicas do tiro da arma de fogo, seria, pois, o nome do senhor do ethos aristotélico?. Pois, como afirma Aristóteles, toda “Arte e investigação” visa a um Bem qualquer, no seu Ética a Nicômaco. Se tomarmos esse pensamento, tendo em vista que caberia uma reflexão mais atenciosa e aprofundada, poder-se-ia afirmar que a ética jagunça também almeja ao Bem. Este é tomado como fim, onde o indivíduo tornar-se-ia “senhorio de si mesmo”. Logo, seria plausível afirmar que mesmo o ethos jagunço, com suas normas e valores estabelecidos, é uma ética que procura a organização de seu meio social e histórico. Desta forma, na sua criação ficcional, Rosa teria posto no nome do personagem toda sua carga semântica, para designar o senhor da Ética do Sertão, a ética jagunça-sertaneja, “senhorio de si mesmo” e do seu universo.

Nhô Augusto, percorrendo seu caminho de construção ética, o Homem do Jumento, “e quando o jegue empacava - porque, como todo jumento, ele era terrível de queixo-duro, e tanto tinha de orelhas quanto de preconceitos, - Nhô Augusto ficava em cima, mui concorde, rezando o terço, até que o jerico se decidisse a caminhar outra vez. E também, nas encruzilhadas, deixava que o bendito asno escolhesse o caminho, bulindo com as conchas dos ouvidos e ornejando” (AM: 378). Indo à direção da sua hora e vez, Nhô Augusto, como um bom cristão exercitando sua paciência e tolerância, adentra no arraial do Rala-Coco, conduzido pelo jerico, o Homem do Jumento. Nesta vila, havia uma agitação incomum, era seu Joãozinho Bem-Bem com seu bando, “que está descendo para a Bahia” . “Estavam aboletados, bem no centro do arraial, numa casa de fazendeiro, onde seu Joãozinho Bem-Bem recebeu Nhô Augusto, com muita satisfação”(AM:379).

Notemos, pois, que o símbolo da morada percorre a narrativa, pois há três momentos. Tomando uma das duas concepções de ethos, a de morada, proteção, durante a narrativa, as três moradas dos ethos correspondentes: a casa de Nhô Augusto, ao receber a mensagem de Quim; o casebre cristão do casal de prestos (Mãe Quitéria e Pai preto Sarapião) e, por fim, a terceira e última morada, a casa do conflito, “de fazendeiro” patriarcalista, onde seu Joãozinho Bem-Bem se encontra, o representante do ethos jagunço-sertanejo.

Bem-Bem, ao receber Nhô Augusto, trata-o com muita satisfação dizendo: “- Está vendo, meu velho? Quem é que não se encontra, neste mundo? ... Fico prazido, por lhe ver. E agora o senhor é quem está em minha casa ... Vai se arranchar comigo. Se abanque, mano velho, se abanque! ... Arranja um café aqui p’ra o parente, Flosino! [grifo nosso]”(AM: 379). Nhô Augusto, neste momento, está na “morada”, diante do ethos jagunço, que se fará presente no momento final de sua hora e vez.

Bem-Bem e Nhô Augusto iniciam uma ‘prosa’ sobre o Juruminho, jagunço que fora morto à traição. Surge o convite de Bem-Bem para que Nhô Augusto entre como componente de seu povo, de seu bando. “- Que-o-quê! Essa mania de rezar é que está lhe perdendo [para o ethos cristão]... O senhor não é padre nem frade, p’ra isso; é algum? ... Cantoria de igreja, dando em cabeça fraca, desgoverna qualquer valente ... Bobajada! ...

- Bate na boca, seu Joãozinho Bem-Bem meu amigo, que Deus pode castigar!” (AM:380). Surge, então, a última tentação para Nhô Augusto. “é convite como nunca fiz a outro, e o senhor não vai se arrepender” (AM: 381). Bateu a mão na “winchester”, como um gato em um passarinho. Mas os lábios se mexiam com em um “creio-em-deus-pai”.

Walnice Galvão, ao descrever a condição jagunça e seu universo, diz-nos que:

“Aparentemente, o jagunço não é um criminoso vulgar. As noções de honra e de vingança, bem como o cunho coletivo de sua atuação, estão inextricavelmente ligados à sua figura. O jagunço não é um assassino: ele é um soldado numa guerra; o jagunço não mata: ele guerreia; o jagunço não rouba: ele saqueia e pilha. ‘Crime, que sei, é fazer traição, ser ladrão de cavalos ou de gado ... não cumprir a palavra ... ’( Sô candelário - GS:V : 252)” [27]

Esta condição do ethos jagunço instiga os pensamentos crítico-literários, sociológicos, filosóficos, culturais etc. Este ensaio toma Bem-Bem como paradigma da jagunçagem, representante da ética do sertão. Este senhor do Bem sertanejo, Joãozinho Bem-Bem, ou seja, senhor da organização e da ordem sertaneja, onde o ‘estado de lei’ deve ser respeitado e cumprido. O fragmento derradeiro, o qual gerará o conflito ético entre Matraga e Bem-Bem, representa estas éticas e o embate existente.

Trouxeram o ‘velho’, ‘um pobre pai’, cujo filho havia matado Juruminho, rogando a Bem-Bem misericórdia e perdão, ou sua vida no lugar das de sua família. Logo, diz Bem-Bem, como líder e senhor ético:

“- Lhe atender não posso, e com o senhor não quero nada, velho. É regra [lei do sertão, do ethos]... Senão, até quem é mais que havia de querer obedecer a um homem que não vinga sua gente, morta de traição? ... É a regra. Posso até livrar de sebaça, às vezes, mas não posso perdoar isto não ... Um dos dois rapazinhos seus filhos tem de morrer, de tiro ou à faca, e o senhor pode é escolher qual deles é que deve pagar pelo crime do irmão. E as moças ... Para mim não quero nenhuma, que mulher não me enfraquece: as mocinhas são para os meus homens. . .” (AM: 382)

“É a regra”, a lei do sertão, do jagunço, da ética da jagunçagem patriarcalista. Para o estudo da Ética, há o conhecimento, dentro da tradição ética, sobre a lei-não-escrita, que Bem-Bem chama de ‘regra’. Essa lei não redigida (ágraphos nómos), própria da tradição ética, com sua formação na fonte divina, é assinalada por Lima Vaz em seus escritos, realizando uma referência ao texto de Sófocles, Antígona. Entretanto, Nhô Augusto reconhece os limites e condições do ethos jagunço, porque:

“a transgressão supõe primeiramente a consciência dos limites de uma liberdade situada. A partir desses limites reconhecidos e aceitos, o conflito ético coloca o indivíduo em face do apelo que surge de exigências mais profundas e aparentemente paradoxais do ethos: o apelo a sacrificar o calmo reconhecimento dos limites e a segurança protetora das formas tradicionais desse mesmo ethos, e lançar-se no risco de um novo e mais radical caminho da liberdade” [28]

Nhô Augusto, admitindo o universo jagunço, sua condição e limites, se propõe a transgredir a ordem e o ethos, interferindo no assunto ‘de traição’ e, conseqüentemente, na praxis jagunça em sua hexis (hábito). Sangue por Sangue, para se obter respeito e ordem.

Logo após o último apelo do ‘velho pai’, clamando pela força de Deus contra Satanás (Joãozinho Bem-Bem), Nhô Augusto interveio, pedindo a Bem-Bem: “- Não faz isso, meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, que o desgraçado do velho está pedindo em nome de Nosso Senhor e da Virgem Maria! E o que vocês estão querendo fazer em casa dele é coisa que nem Deus não manda e nem o diabo não faz!” (AM: 382-3). O ethos cristão o impede de se calar e termina, pois, por cometer uma transgressão contra o ethos jagunço. “- Pois pedido nenhum desse atrevimento eu até hoje nunca ouvi nem atendi! ... ” (AM: 383), fala Bem-Bem, senhor de sua Ética. “- Pois então ... - e Nhô Augusto riu, com quem vai contar uma grande anedota -... Pois então, meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, é fácil ... Mas tem que passar primeiro por riba de eu defunto ... (AM: 383). E então, Teófilo Sussuarana, que era muito bronco, caminhou em direção de Nhô Augusto. Inicia-se o conflito ético:

“- Epa! Nomopadrofilhospritossantamêin! Avança cambada de filhos-da-mãe, que chegou minha vez!” (AM: 383). Chegaram a vez e a hora da redenção, da afirmação do ethos cristão, a liberdade e da transgressão. Também, como um verdadeiro cristão, Nhô Augusto se torna o Agnus Dei (Cordeiro de Deus). Dando sua vida pela família, age como verdadeiro cristão em uma vida de imitatio Christi: “um verdadeiro cristão deve imitar Cristo, escolher a pobreza, o insulto, o sofrimento, a privação, até, como no caso dos grandes místicos, conseguir sofrer o mesmo que Cristo sofreu” [29], de acordo com W. Galvão. Esta trajetória de cristão, percorrida por Nhô Augusto, vai culminar no confronto físico com Joãozinho Bem-Bem. Mas, como um cristão pode promover ou efetuar a violência? Afirma Renato Janine Ribeiro, em seu ensaio, que Nhô Augusto usa a força como a ação de um ‘Mártir’ [30], aquele que morre por ter a fé, ou melhor, entrega sua vida pela fé em Cristo. Esse martírio é demonstrado na passagem final da narrativa, no conflito ético.

De acordo com a fé cristã, no Evangelho de São Marcos, há:

“E chamando assim o povo com seus discípulos, [Jesus Cristo] disse-lhes: Se alguém me quer seguir, negue-se a si mesmo: e tome a sua cruz, e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua vida perdê-la-á: mas o que perder a sua vida por amor a mim, e a do Evangelho, salvá-la-á”
Mc: 8,34-5

Nhô Augusto, desta maneira, clama a Santíssima Trindade, símbolo da fé e ética cristã, amparado pelas palavras de Cristo e pela conduta ética de um mártir cristão, pôs suas mãos em armas e ‘matraqueando a casa de tiros’, com os cabras saltando e Nhô Augusto “gritando qual um demônio preso e pulando como dez demônios soltos” e ‘os cabras correndo’, ‘a coronha do rifle, no pé-do-ouvido ... Outro pulo ... Outro tiro . . .’ (AM: 383-4). De repente, a voz de seu Joãozinho Bem-Bem aos cabras: “- Sai, Cangussu! Foge, daí, Epifânio! Deixa nós dois brigar sozinhos!” (AM: 384). Rolaram Joãozinho Bem-Bem e o Homem do Jumento, para fora da casa (da morada do ethos patriarcal), pois o conflito toma o ambiente externo, no meio do arraial do Rala-Coco, onde o povo começou a assistir ao conflito ético, uma peleja de fortes.

“- Se arrepende dos pecados, que senão vai sem contrição, e vai diretinho p’ra o inferno, meu parente seu Joãozinho Bem-Bem! ... - Ui, estou morto ... A lâmina de Nhô Augusto talhara de baixo para cima, do púbis à boca-do-estômago, e um mundo de cobras sangrentas saltou para o ar livre, enquanto seu Joãozinho Bem-Bem caía ajoelhado, recolhendo seus recheios nas mãos” (AM:384). Dá-se a morte para a ética vencida. Matar em nome de Cristo e da Boa-nova (fé cristã). Nhô Augusto derrota o símbolo do ethos jagunço-patriarcalista, em sua hora e vez de redenção e salvação, no conflito ético.

Nhô Augusto, ainda diante da morte, tenta converter, para seu ethos cristão, seu Joãozinho Bem-Bem que morre satisfeito, por ter sido assassinado por um forte, esse prazer é proveniente de sua ética jagunça. Porém, Nhô Augusto lhe diz, assim como Cristo na cruz perdoando um ladrão e levando-o ao reino dos céus, de acordo com a fé cristã: “- Feito, meu parente, seu Joãozinho Bem-Bem. Mas, agora, se arrepende dos pecados, e morre logo como um cristão, que é para a gente poder ir juntos ... ” (AM:385). Entretanto, devido ao sofrimento tamanho, morreu. “E foi mesmo”.

Após a morte de Joãozinho Bem-Bem, o povo do arraial do Rala-Coco tenta socorrer Nhô Augusto que já não conseguia caminhar. Ele pede que:

“- P’ra dentro da casa, não, minha gente. Quero me acabar no solto, olhando o céu, e no claro ... Quero é que um de vocês chame um padre ... Pede para ele vir me abençoando pelo caminho, que senão é capaz de não me achar mais ... E riu.” (AM: 385).

O conceito de ethos, neste momento de recusa na entrada na casa, toma a outra acepção, ou seja, o ethos como o processo formador do hábito (hexis), dado de uma certa comunidade. Dessa forma, o ethos não está mais limitado à morada do homem, por conseguinte será o costume, a propagação da ética cristã no sertão, que não deve ser limitado em uma ‘casa’, um exemplo de um santo (Clama o Velho pai: “- Traz os meus filhos, para agradecerem a ele, para beijarem os pés deles! ... Não deixem este santo morrer assim ...” AM: 386), de um mártir, que morreu por sua fé em Deus.

Dentre as pessoas que estavam assistindo à morte de Nhô Augusto, estava seu primo João Lomba. Então Nhô Augusto, em ritual de morte de um bom cristão, senhorio de seu ethos cristão, após a vitória ética sobre o ethos jagunço, diz ao seu primo dois preceitos básicos do cristianismo, seus sacramentos: casamento e paternidade, que não foram reconhecidos quando Nhô Augusto possuía o ethos jagunço-patriarcalista:

“- Põe a benção na minha filha ... seja lá onde for que ela esteja ... E, Dionóra ... Fala com a Dionóra que está tudo em ordem! Depois, morreu”.(AM: 386).

A transgressão estabelecida é a força geradora do conflito ético que deve ser analisado como o fator inerente à própria natureza do ethos. “O ethos, afinal, não é senão o corpo histórico da liberdade, e o traço do seu dinamismo infinito inscrito na finitude das épocas e das culturas” [31], de acordo com Lima Vaz.

Nhô augusto perdeu sua vida, para conseguir salvá-la? Bem, Joãozinho Bem-Bem perdeu a sua pelo viés cristão, porém, o Homem do Jumento, o santo, ganhou sua liberdade, redenção e salvação (E riu. AM: 385), consagrando a ética cristã, e, acima de tudo, obteve o título canônico popular, Augusto Matraga.

 

VI - Referências:

ANDRADE, Vera Lúcia. “Conceituação de jagunço e Jagunçagem em Grande Sertão: Veredas”. In: Guimarães Rosa. 2 ed. Org. Eduardo Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991, p. 491-499.

CANDIDO, Antonio. “O Homem dos Avessos”. In: Guimarães Rosa. 2 ed. Org. Eduardo Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991, p. 294-309.

GALVÃO, Walnice Nogueira. “Matraga: sua marca”. In: Mitológica Rosiana. São Paulo: Ática, 1978.p. 41-74.

GALVÃO, Walnice Nogueira. As Formas do Falso. 2 ed. São Paulo: Perspectivas, 1986.

LOPES, Paulo César Carneiro. “Pobres e Ricos - a antítese fundamental”. In: Utopia cristã no sertão mineiro. Uma leitura de ‘A hora e vez de Augusto Matraga’ de João Guimarães Rosa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997, p. 86-118.

PESSOA, Fernando Mendes. “A Hora da Liberdade e Vez de Augusto Matraga”. In: Revista Sofia - Ano I - Nº 0 - outubro de 1994. Vitória: Ed. CCHN - UFES. P. 80-92.

RIBEIRO, Renato Janine. “Augusto Matraga, a salvação pelo porrete”. In: Personae: grandes personagens da literatura brasileira. Lourenço Dantas Mota, Benjamin abdala Junior organizadores. SãoPaulo: Editora SENAC São Paulo, 2001, p. 195-208.

ROSA, João Guimarães. “A hora e vez de Augusto Matraga”. In: Sagarana. Rio de Janeiro: Record, 1984.

VÁSQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. Trad. de João Dell’Anna. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1975.

VAZ, Henrique C. de Lima. Escritos de Filosofia II: Ética e Cultura. São Paulo: Ed. Loyola, 1988.

 

Notas:

[1] ROSA, João Guimarães. “A hora e vez de Augusto Matraga”. In: Sagarana. Rio de Janeiro: Record, 1984. Sagarana fora publicado inicialmente pela Editora Universal em 1946. No corpo deste ensaio, será referido pelas iniciais (AM) com sua página relacionada.

[2] VAZ, Henrique C. de Lima. Ética e Civilização, Síntese Nova Fase nº 49 (1990).

[3] Id. Escritos de Filosofia II: Ética e Cultura. São Paulo: Ed. Loyola, 1988. P. 11

[4] PESSOA, Fernando Mendes. A Ideologia da Práxis Absoluta e o Niilismo Ético In: Síntese Nova Fase, Belo Horizonte, v. 22, n. 70, 1995. p. 383.

[5] VAZ, op. cit., p. 12-3, nota 3.

[6] Ibid., p. 14.

[7] Ibid., p. 15.

[8] ROSA, J. Guimarães. Grande Sertão: veredas. 7 ed. Rio de Janeiro, José Olímpio, 1970. p. 17/8.

[9] GALVÃO, Walnice Nogueira. As Formas do Falso. 2 ed. São Paulo: Perspectivas, 1986. P. 39.

[10] Ibidem. p. 21.

[11] C. f. LOPES, Paulo César Carneiro. “Pobres e Ricos - a antítese fundamental”. In: Utopia cristã no sertão mineiro. Uma leitura de ‘A hora e vez de Augusto Matraga’ de João Guimarães Rosa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997, p. 97.

[12] C. f. GALVÃO, Walnice Nogueira. “Matraga: sua marca”. In: Mitológica Rosiana. São Paulo: Ática, 1978.p. 41-74.

[13] CANDIDO, Antonio. “O Homem dos Avessos”. In: Guimarães Rosa. 2 ed. Org. Eduardo Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991, p. 299.

[14] C. f. GALVÃO, Walnice Nogueira. “Matraga: sua marca”. In: Mitológica Rosiana. São Paulo: Ática, 1978.p. 57. Walnice, em sua pesquisa sobre os indícios religiosos cristãos, diz-nos que São Francisco de Assis “querendo encontrar Deus, quem o encontra primeiro é o Irmão Leo, que lhe conta o conselho que recebera de um anacoreta: ‘Deus é um abismo. Salte! Se não tem coragem, vá para casa. Case-se e assente”.

[15] C. f. LOPES, op. cit., p.102, nota 11. Paulo faz uma ressalva importante para compreendermos o aparecimento do casal na narrativa: “casal de negros que, sendo como tais as principais vítimas da perversidade do nosso sistema patriarcal colonial e posterior e, portanto, de Nhô Augusto, são os únicos que o acolhem quando da sua queda brutal”.

[16] C. f. GALVÃO,. op. cit., p. 63, nota 14. Walnice analisa as referências tríades na narrativa: Matraga/Augusto Esteves e Nhô Augusto; Muricí/Tombador/ Rala-Coco.

[17] RIBEIRO, Renato Janine. “Augusto Matraga, a salvação pelo porrete”. In: Personae: grandes personagens da literatura brasileira. Lourenço Dantas Mota, Benjamin Abdala Junior organizadores. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2001, p. 199.

[18] Ibidem. P 199.

[19] VAZ, Henrique C. de Lima. Escritos de Filosofia II: Ética e Cultura. São Paulo: Ed. Loyola, 1988. P. 28.

[20] LOPES, Paulo César Carneiro. “Pobres e Ricos - a antítese fundamental”. In: Utopia cristã no sertão mineiro. Uma leitura de ‘A hora e vez de Augusto Matraga’ de João Guimarães Rosa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997, p. 100.

[21] C. f. GALVÃO, Walnice Nogueira. “Matraga: sua marca”. In: Mitológica Rosiana. São Paulo: Ática, 1978. p.57.

[22] VAZ, Henrique C. de Lima. Escritos de Filosofia II: Ética e Cultura. São Paulo: Ed. Loyola, 1988. P. 25.

[23] Ibidem. P. 25-6.

[24 Ibidem. p. 30.

[25] Ibid. p. 30-31.

[26] Lembremos, pois, do julgamento de Zé Bebelo, em Grande Sertão: Veredas. Cena ímpar da Literatura Brasileira.

[27] GALVÃO, Walnice Nogueira. As Formas do Falso. 2 ed. São Paulo: Perspectivas, 1986. P.18.

[28] VAZ, Henrique C. de Lima. Escritos de Filosofia II: Ética e Cultura. São Paulo: Ed. Loyola, 1988. P. 34.

[29] GALVÃO, Walnice Nogueira. “Matraga: sua marca”. In: Mitológica Rosiana. São Paulo: Ática, 1978.p.55-6.

[30] RIBEIRO, Renato Janine. “Augusto Matraga, a salvação pelo porrete”. In: Personae: grandes personagens da literatura brasileira. Lourenço Dantas Mota, Benjamin abdala Junior organizadores. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2001.

[31] VAZ, Henrique C. de Lima. Escritos de Filosofia II: Ética e Cultura. São Paulo: Ed. Loyola, 1988. P. 35.

 

Flávio Leal. Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito Santo - UFES - Brasil.

 

© Flávio Leal 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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