O tempo fragmentado:
Uma leitura de "Idade madura",
de Carlos Drummond de Andrade

Cristiano A. da Silva Jutgla

Universidade de São Paulo/USP/ BRASIL
Doutorando em Literatura Brasileira -USP
crisaug2005@yahoo.com.br


 

   
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Ao longo de seus quase sessenta anos, A rosa do povo, publicada em 1945, consagrou-se como uma das principais obras poéticas da literatura brasileira. Uma das razões para tamanho reconhecimento é a qualidade expressiva advinda do tenso e crítico diálogo do sujeito-lírico drummondiano com questões centrais de seu tempo, em especial com a história brasileira e européia, aspecto este apontado com freqüência por seus principais estudiosos. A fim de situarmos ao leitor quanto ao debate acadêmico, faremos em perspectiva diacrônica um breve levantamento de alguns momentos da fortuna crítica de A rosa do povo. Partimos, assim, de Milliet (1981[1945]).

Havia um perigo, de tocaia, à espera de Carlos Drummond de Andrade: o da poesia política. E confesso que andei temeroso, muito tempo de vê-lo cair na armadilha da moda. Entendam-me bem, não me oponho à participação do poeta, mas sim à sua adesão oportunista à demagogia. (...) Sua poesia social (e política) é tão dura e tão natural quanto a outra. Sua sobriedade, seu pudor, sua tristeza serena, sua esperança tímida e sua fé não se perdem na nova fase. (MILLIET, 1981, 19)

Segundo Milliet (1981[1945]), esta preocupação do sujeito-lírico perpassa seus versos, resultando numa poética que, apesar do grau de envolvimento com seu tempo, não se tornaria datada tanto por não ser panfletária como por seu ao alto nível de expressividade.

Candido (1995[1965]), nos anos sessenta, ressaltaria também a importância da matéria histórica na constituição do livro, compreendendo que a tematização dos conflitos sociais e políticos em A Rosa do Povo advém de um processo nada inédito na poesia drummondiana, mas que já se iniciara em meados dos anos 30.

Essa função redentora da poesia, associada a uma concepção socialista, ocorre em sua obra a partir de 1935 e avulta a partir de 1942, como participação e empenho político. Era o tempo da luta contra o fascismo, da guerra de Espanha e, a seguir, da Guerra Mundial - conjunto de circunstâncias que favoreceram em todo o mundo o incremento da literatura participante. (CANDIDO, 1995 [1965], 125)

No final dos anos 70, Simon percebe a tensão presente em A rosa do povo devido a seu embate na busca por encontrar, em seu discurso estético, uma expressão para problemas de seu tempo.

Em A rosa do povo, publicada em 1945, contendo poemas escritos entre 1943 e 1945, o poeta atinge o clímax da prática participante - já esboçada em Sentimento do mundo (1935-1940) quando o “tempo presente” se instaura como matéria do poema - ao mesmo tempo que atinge a consciência mais profunda da “crise da poesia”. (SIMON, 1978, 52-3)

Mais recentemente, Arrigucci Jr. (2002) reforçaria a existência desta perspectiva crítica nas relações entre história e poesia que perpassa toda a obra de Drummond.

Desde o início, o conteúdo de verdade da poesia de Drummond, como em toda grande poesia, é histórico até o mais fundo (...). E não é histórico porque reproduza fatos históricos, (...) mas porque revela uma consciência verídica da experiência histórica entranhada profundamente na subjetividade e na própria forma poética que lhe deu expressão. (ARRIGUCCI JR., 2002, 2-3)

Pelos trechos acima, é possível notar, por parte da crítica, um consenso segundo o qual a obra de 45 se caracteriza por transformar em matéria literária seu contexto de produção; esta percepção se concretiza em expressões tais como: “poesia social (e política)” (MILLIET); “literatura participante” (CANDIDO); “prática participante” (SIMON); “consciência verídica da experiência histórica” (ARRIGUCCI JR.).

De certo modo, estas definições procuram abordar e ao mesmo tempo conceituar a difícil questão da matéria histórica no livro. Nosso sucinto corpus deixa entrever que, embutida em tais expressões, reside a tentativa de compreender e dar um sentido à obra complexa e de grande influência na literatura brasileira como é caso de A rosa do povo. Contudo, por detrás das referidas expressões, bem como os trabalhos até realizados, a crítica tem se pautado, nas últimas seis décadas, por uma certa tendência a generalizar o que é específico, uma vez que a própria crítica ainda não se debruçou de maneira mais aprofundada sobre a questão. Sua abordagem acerca do problema da história nos poemas drummondianos acaba criando um empobrecimento do debate ao interpretá-los sem uma leitura mais detalhada. Assim, uma temática em A rosa do povo como o autoritarismo, que por sua especificidade já exigiria uma leitura mais detalhada, tende a ser interpretada por meio de rótulos como poesia “social”, “política” ou “engajada”, sem uma análise mais detida de traços constitutivos dos poemas como a linguagem, léxico, imagens, metáforas, sintaxe.

Para se ter uma idéia, até o momento, afora alguns artigos (MARQUES, 1998), (GINZBURG, 2000), há apenas um trabalho de fôlego sobre o livro, no caso, Drummond: uma poética do risco, (Simon,1978) cuja abordagem e perspectiva crítica imanentes ao texto inovavam os estudos sobre o livro, confirmando a necessidade de se analisar e interpretar a lírica drummondiana sob um prisma que não diluísse o diálogo tenso entre sujeito-lírico e matéria histórica em definições generalizantes e redutoras como “poesia política” ou “fase engajada”. Quase dez anos após a publicação do trabalho de Simon, no ano da morte do poeta, Py (1987) chamaria a atenção para o problema em artigo sobre as edições de Drummond [1]. Interessa-nos propor neste artigo uma proposta de leitura do poema “Idade Madura” que aborde sua temática principal, no caso, o “tempo”, sob um viés que não a entenda a partir das definições das quais grande parte dos críticos tem se valido nas últimas seis décadas quando o assunto é A rosa do povo.[2]

O “tempo” na obra de 1945 parece resultar de uma intensa complexidade advinda de um jogo de forças entre o contexto brasileiro dos anos 30 e 40, autoritário, e o olhar crítico de um sujeito-lírico fragmentário, indicador de um alto grau de consciência, o qual procura, dentro de sua constituição também fragmentária, resistir a essa situação por meio de recursos expressivos que rompem com o horizonte de expectativa de sua época [3]. Desse modo, o tema ganha outra dimensão, permitindo observá-lo não só em um determinado momento da vida brasileira e internacional, no caso a ditadura de Vargas e a segunda guerra mundial, mas toda a história brasileira do século XX, com a qual a lírica de Drummond tanto se debateu.

De um primeiro contato com o poema, chama-nos a atenção, ao longo de suas nove estrofes de versos irregulares, uma leitura do sujeito-lírico quanto à passagem do tempo que foge à idéia comum de que seu transcorrer, seu acúmulo (contado em número de anos) seria positivo ao ser humano. A perspectiva adotada por esta voz não se dá por meio do elogio normalmente encontrado no senso-comum, segundo o qual, a experiência do sujeito acumulada ao longo de anos ou décadas, num constante e linear progresso, lhe daria uma certa sabedoria capaz de auxiliá-lo a compreender melhor a vida ou mesmo a realizar seus desejos. Esse posicionamento contraria a idéia que o adjetivo “madura” normalmente nos traz à mente. O sujeito-lírico ruma em sentido diverso à crença em uma felicidade trazida pela passagem do tempo, negando-a logo nos primeiros versos do poema.

Na mesma estrofe, em que se nega “as lições da infância” e as “palavras” “desaprendidas na idade madura”, elemento de forte apelo à imaginação humana, e à própria literatura, notamos que o sujeito-lírico imediatamente justapõe à desconstrução destes elementos uma afirmação que se apresenta como um movimento de resistência, uma espécie de contra-fluxo ao que foi deixado de lado nos quatro primeiros versos: “Tenho todos os elementos/ao alcance do braço.” O sentido totalizador dos termos “todos” e “todas” configura uma oposição às negações anteriores, resultando a estrofe de modo geral em uma dinâmica de negação e afirmação, que aponta para um impasse entre a resignação e a ação e que estará presente em todo o poema. Esta contradição interna da primeira estrofe se faz notar também quando comparamos as estrofes entre si; assim, se a primeira tinha por característica o movimento entre a negação e a afirmação, a segunda se constrói por uma espécie de força afirmativa no interior do sujeito-lírico: “lúcido cavalo/com substância de anjo/circula através de mim.” e em seu exterior como visto na seqüência de verbos no presente (atravessar, absorver, beber, desfazer, tornar a criar, esquecer-se, dormir e recomeçar) indicadores de uma tentativa de reação.

O sujeito-lírico enfrenta lagos frios, faz e desfaz, recomeça; contudo, às suas ações serão contrapostos mais adiante elementos causadores ora de impasses, ora de resignação, ora até mesmo de indiferença frente à destruição do ser humano inserido no tempo capitalista. São traços indicadores de uma forte consciência referente à noção de que a percepção crítica, dentro do capitalismo, não se traduz diretamente em condições e ações concretas de subversão ou implosão dos mecanismos opressivos, ou seja, o sujeito-lírico está consciente quanto às limitações de mudança, como se verá adiante. A partir desta constatação, observemos que a contradição instaurada pela leitura crítica do tempo não se processa apenas na estrofe; ela manifesta-se também entre elas; assim, se a primeira é marcada por uma dificuldade entre negar o passado (as lições da infância desaprendidas na idade madura.”) e afirmar a capacidade presente (“tenho todos os elementos ao alcance do braço”), a segunda estrofe pode ser vista como uma resolução momentânea do problema através da consciência de si (“Estou solto no mundo largo.”) e das ações (“beber”, “desfazer”...). Em suma, a terceira estrofe diverge enormemente da estagnação e da ação vistas nas duas primeiras anteriores.

É interessante notar aqui a imagem da água, a qual, embora pertencesse ao sujeito-lírico e pudesse ajudar, alegoricamente falando, no combate ao fogo na mata, “irrigava jardins particulares/de atletas retirados, freiras surdas, funcionários demitidos.” Esta oscilação de reflexões e atitudes nos revela um sujeito melancólico[4], que, como tal, se encontra na divisa entre a loucura e o pensamento; ele não se caracteriza por um pensamento linear, mas sim diverso e inconstante; trata-se de uma autoconsciência que se autocritica constantemente.

O melancólico sujeito lírico não emprega os recursos para salvar a “mata”, para auxiliar a coletividade, mas para interesses particulares de seres em ruína. A mesma indiferença da terceira estrofe se prolonga na próxima, quando ele, novamente por meio de uma alegoria, se mostra indiferente à dor dos demais.

Porém, na quinta estrofe (e esta adversativa vem confirmar a luta do sujeito-lírico entre a alienação, em termos marxistas, e a ação), o sujeito-lírico reage, mostrando, por meio de uma seqüência de imagens concretas, a dimensão da tragédia na qual todos estão inseridos: “Moças fatigadas se entregam/soldados se matam/no centro da cidade vencida”. Aqui a consciência do tempo aparece no passado; ao reconhecer a luta dos “outros poetas”. Ou seja, as injustiças são históricas e continuam seu movimento de exploração individual e coletiva dos seres humanos, por isso coexistem dentro do sujeito-lírico pretérito, presente, futuro e pós-futuro: “Antes de mim outros poetas,/depois de mim outros e outros/estão cantando a morte e a prisão.”

Essa incorporação crítica do tempo foge e subverte as bases frias da lógica capitalista que impõe o tempo como algo linear, como se as mazelas do passado pudessem desaparecer da constituição do sujeito moderno, restando-lhe viver obrigatoriamente o presente. Em vez disso, o sujeito-lírico, a partir de sua perspectiva crítica, assume o presente como possibilidade de luta e imagina no futuro um projeto utópico: “Resisto e penso/numa terra enfim despojada de plantas inúteis,/num país extraordinário, nu e terno,”.

O sujeito-lírico reage e nega uma leitura positivista do tempo enquanto progresso e melhora, uma vez que a história, o tempo concretamente falando, bem como sua somatória, não se traduz necessariamente em engrandecimento do ser humano; vive-se, antes, em um tempo de regulamentação, de controle, de ausência de ritos, em que “pássaros se transformam em pedra”, “soldados se matam”; o tempo, tal como posto e construído historicamente pelo capitalismo, só pode ser medido, controlado, lançado sobre as cabeças de maneira arbitrária por ser gerado em um sistema que não leva em consideração outras concepções de tempo como, por exemplo, o da reflexão, do espírito ou da natureza, mas tão somente da produção em série e do controle físico e mental de seus subordinados; o resultado é um sujeito fragmentário e melancólico.

A sexta estrofe se afina com a anterior ao marcar sua tentativa de resistência; interessante agora ver que além da crítica anteriormente notada, há uma associação sobreposta de níveis temporais dentro do sujeito-lírico bem como diversas imagens de teor surrealista: “mitos proletários, condutos subterrâneos,/janelas em febre, massas de água salgada, meditação e sarcasmo”. Dado que só vem confirmar a leitura crítica sobre o tempo que foge à idéia lógica e seqüencial comumente a ele associado.

O sujeito-lírico assume dentro de si o tempo como algo dinâmico muito além do mero fato histórico isolado que não pode ser entendido e interpretado seqüencialmente em fases e épocas, prática tão comum à perspectiva historicista, afinal, os dilemas históricos não se dissipam com a passagem do tempo; não há superação das injustiças, pois elas persistirão enquanto não forem resolvidas no plano material e simbólico; seu causador, o capitalismo, continua a todo vapor. [5]

Na sétima e oitava estrofes, o sujeito-lírico vale-se de estratégias como a mutação em diversos personagens e objetos para resistir à resignação do sujeito reificado. Note-se que a assunção insólita de papéis causa uma sensação de estranhamento; contudo, tal situação não é estranha a nós seres humanos, pois dentro do mundo do trabalho capitalista, nossos corpos e mentes se transformam em objetos, não sendo os termos, no discurso marxista, de “reificação”, “coisificação” para conceituar esses fatos.

O sujeito-lírico inverte, por meio do reconhecimento, a situação de objeto do ser humano e procura emprega-la a seu favor. Estratégia semelhante se dá quando diz que negociará “em voz baixa com os conspiradores” e que “transmitirá recados que não se ousa dar nem receber”. Estratégia esta, na luta contra a barbárie, indicada no último verso da estrofe: “serei as coisas mais ordinárias e humanas, e também as excepcionais”, enfim, frente a um sistema bem organizado ‘tudo depende da hora/e de certa inclinação feérica,/viva em mim qual um inseto.” Assim, percebemos no transcorrer do texto de um lado um movimento pendular, formador de uma dialética, entre a crítica ao tempo presente na tentativa de reação do sujeito-lírico (estrofes 1, 2 , 5, 6, 7 e 8) e das concretas manifestações reificantes do tempo sobre o sujeito (estrofes 3, 4); neste segundo grupo encontram-se as hesitações do sujeito-lírico e a percepção das dificuldades de se lutar contra tamanha força de destruição.

A nona e última estrofe parece reunir tanto imagens, contradições, hesitações, ambivalências vistas nas estrofes anteriores. Como um arremate do movimento lançado pelo título, ela se inicia com a repetição do mesmo, mostrando sua existência no sujeito: “Idade Madura em olhos, receitas e pés, ela me invade/com sua maré de ciências afinal superadas.” O interesse ou desprezo do sujeito-lírico pelas “ciências afinal superadas” reafirma sua consciência quanto à própria manipulação dos humanos pelos discursos, ao mesmo tempo reconhece a finitude do ser ao notar as marcas no corpo; estes “sinais’’, de maneira concomitante, esclarecem e diminuem sua coragem.

Desse modo, às idéias iniciais de progresso, avanço e conhecimento, imediatamente invocadas em nossas mentes pelo título “Idade Madura”, se contrapõem outras idéias, que no transcorrer do poema indicam um tempo marcado pela fragmentação, ruína e melancolia causadas no sujeito pelo capitalismo, resultando numa impossibilidade de realização dos desejos, em suma, é impossível alcançarmos a felicidade dentro do jogo mercadológico.

O sujeito-lírico em “Idade Madura” se caracteriza, portanto, por uma profunda cisão constitutiva: de um lado a estagnação, a apatia, de outro, a resistência. Seu movimento aparece no poema na completa indiferença aos “pássaros sufocados”, passando pelas ações em busca de autonomia: “desfazer”, “tornar a criar” e “recomeçar ontem”; alcançando a existência reificada “serei faca de pão”, “toalha”, “remédio”, chegando a “negociar com conspiradores”. Situações e perspectivas diversas entre si, marcadas no corpo e no espírito do sujeito pela passagem do tempo, cujo resultado é um conjunto heterogêneo qual um mosaico não-harmônico de pedras desconexas em relação à imagem alienada constantemente vendida aos seres humanos. A própria promessa de integridade e completude do sistema, ilusoriamente tão presente na mercadoria, oferecida pelo tempo capitalista, não ocorre nunca.

Ao tematizar a precária condição de seu tempo individual, de sua “idade madura”, o sujeito lírico nota que há uma contradição entre a situação de seu corpo, mente, bem como de sua existência e o discurso de progresso. O movimento do sujeito-lírico ao longo do poema confirma essa oscilação; tanto assim que, após longas estrofes, de imagens tão variadas e dispersas para a lógica capitalista, por ter adotado um pensamento crítico frente a seu drama, na busca pela autonomia resistente contra a anomia reificante, ele enxerga alguma possibilidade frente à destruição como indica o último verso, o mais curto e ironicamente o mais forte de todo o poema.

A configuração das estrofes, comprova a existência de um movimento formador de uma dialética, composta de uma tentativa de reação do sujeito-lírico (estrofes 1, 2 , 5, 6, 7 e 8) e de concreta reificação (estrofes 3, 4). Trata-se, nesse sentido, de um embate fundamental na luta contra, numa perspectiva marxista, a alienação. Nesta dialética, o embate do sujeito melancólico não findará nunca; a consciência precisa se manter alerta à ideologia do tempo progressivo, à experiência como prêmio de pseudoconsciência, o suejeito-lírico continua: “resisto e penso”.

Por meio da análise, podemos constatar que o poema “Idade Madura” se assenta, no tocante à sua forma e a seu conteúdo, em uma constante oscilação do sujeito lírico ao longo do poema, alternando momentos de estagnação e de reação, dependendo da estrofe, frente à idéia de passagem do tempo como progresso. Tal ambivalência de posicionamentos se dá também por meio das imagens empregadas no texto, constituindo um amplo leque heterogêneo de personagens e objetos assumidos pelo poema.

Sob uma perspectiva geral, percebemos que em A rosa do povo, a temática mais imediata de seus poemas, como a guerra e o nazismo, parece não apenas significar uma intensa preocupação do escritor para fatos prementes ao contexto de produção da obra, mas uma estratégia de resistência diante de uma situação política e social, em que a formação autoritária e, portanto, e violenta da sociedade brasileira encontra respaldo no pensamento oficial, de cunho marcadamente reacionário e conservador (CARNEIRO, 1995), (SILVA, 1991). Dentro de um ambiente oficialmente autoritário, homogeneizador, Drummond constrói sua crítica por meio de uma linguagem cifrada, fragmentária, muitas vezes estranha à lógica sintática e à semântica da língua portuguesa; estes traços se constituem em um “arsenal” capaz de criar choques no leitor. Prova disso são os vários poemas construídos com uma linguagem de forte carga alegórica, cujas imagens, em um primeiro momento, não permitem um reconhecimento direto de sua temática pelo leitor como é o caso de “Idade Madura”.

Essa variação de assuntos, sob base alegórica, permite diferentes graus de aferição pelo leitor, aparentemente gritante numa primeira leitura, entre exposição e introspecção dos temas, resultando ora numa temática reconhecível, ora não tão reconhecível, diz respeito, conforme a análise de “Idade Madura” pretendeu mostrar, à aguda consciência do sujeito-lírico quanto às condições de produção sob as quais seus versos nascem. Trata-se de uma estratégia empregada por uma voz que, assim como todas as outras vozes contrárias, vive em um “tempo pobre” em que não se pode dizer direta e explicitamente o que se pensa tanto pela opressão oficial como mercadológica, além da própria impossibilidade de a linguagem na modernidade dar conta expressar a fragmentação do sujeito. Sua resistência põe em xeque, porém, as concepções nacionalistas e conservadoras do Estado Novo e dos movimentos autoritários da Europa.

O tempo em “Idade madura” é fragmentário e melancólico, sua vivência está inserida em um sistema capitalista de imposição de normas e cobranças por meio da violência, longe, portanto, de qualquer indício de melhora do ser humano; a conseqüência é que o sujeito na modernidade se constitui por meio do impasse, impasse este que se dá no poema por meio de um movimento pendular da consciência que, até certo ponto, consegue refletir sobre sua condição precária, mas que, dada a luta contra sua própria alienação, apresenta uma conduta ambivalente, ora estagnada, ora reativa. Como visto pela análise, suas ambivalências constitutivas se mostram nas estrofes, que, de maneira didática, podem ser divididas em dois grupos; o primeiro, composto pelas estrofes 3 e 4, indicam um estado de paralisia frente ao tempo, o segundo, composto pelas estrofes 1, 2, 5, 6, 7 e 8, traz na resistência sua marca.

O risco de Drummond só faz sentido uma vez que a “Idade Madura” com a qual tem de lidar não se processou de modo linear e cumulativo, como apresentado pela ideologia capitalista de produção em série e acumulação de riquezas; além disso o conjunto de fatos na vida do sujeito moderno, sob o olhar drummondiano, não se traduzirá em felicidade, em serenidade; a passagem do tempo também não significa uma redenção ou um conhecimento da vida capaz de resolver os impasses tanto individuais quanto coletivos; o tempo ao longo da existência não se dá de maneira “feliz” no presente, são antes eventos traumáticos que, somente em uma condição masoquista, poderia trazer real felicidade ao sujeito. O individualismo, a competição, a fome, a solidão, a indiferença, prosseguem sua marcha vendendo a vida como deve ser sem cessar, pois o tempo da tragédia capitalista não pára.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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——O observador no escritório. Rio de Janeiro: Record, 1985.

ADORNO, Theodor. Educação e emancipação. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

——Educação após Auschwitz. In: Sociologia. São Paulo: Ática, s/d

ARRIGUCCI JR., Davi. Coração partido - uma análise da poesia reflexiva de Drummond. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987

BOSI, A. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1983

CANDIDO, A. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 4. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1975

——Vários escritos. 3. ed. São Paulo: Duas Cidades, 1995

CARNEIRO, Maria Luíza Tucci. O anti-semitismo na era Vargas (1930-1945). 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1995

GINZBURG, Jaime. Drummond e o pensamento autoritário no Brasil. 2000, mimeografado.

MARQUES, Reinaldo. “Tempos modernos, poetas melancólicos” In: Modernidades tardias. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998

MILLIET, Sérgio. Diário crítico de Sérgio Milliet. 2. ed. São Paulo, Martins/Edusp. 1981 Vol III.

PY, Fernando. Edições dos livros de Carlos Drummond de Andrade. Língua e literatura, FFLCH/USP v.16, p. 77-88, 1987/1988

SANSEVERINO, Antonio Marcos. Dramatização lírica e a impossibilidade do diálogo em Drummond. In: Formas e medições do trágico moderno: uma leitura do Brasil. São Paulo: Unimarco, 2004.

SANT’ANNA, Affonso. Romano de. Drummond: o gauche no tempo. Rio de Janeiro: Lia/ MEC, 1972

SCHWARZTMAN, Simon e outros. Tempos de Capanema. São Paulo: Paz e Terra/FGV, 2000

SILVA, José (org.). O feixe e o prisma: uma revisão do Estado Novo. 1. O feixe: o autoritarismo como questão teórica e historiográfica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991

SIMON, Iumna Maria. Drummond: uma poética do risco. São Paulo: Ática, 1978

 

Notas

[1] “Convém assinalar, por fim, que A Rosa do povo, ao que nos consta, é até agora o único livro de Drummond a merecer um estudo de fôlego de caráter monográfico. Queremos nos referir a Drummond: uma poética do risco, de Iumna Maria Simon.” PY, Fernando. Edições dos livros de Carlos Drummond de Andrade. Língua e literatura, FFLCH/USP v.16, p. 77-88, 1987/1988

[2] Destaco aqui o trabalho de Camilo (2000): Da rosa do povo à rosa das trevas, o qual, embora faça referências constantes ao livro de 1945, tem em Claro enigma seu objeto principal de pesquisa.

[3] Valho-me do conceito de “horizonte de expectativa”. Cf. “O texto poético na mudança de horizonte de leitura.”, ISER, Wolfgang. apud LIMA, Luiz Costa. Teoria Literária em suas fontes. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1983. 2 vol

[4] Empregamos o conceito de melancolia de acordo com Benjamin (1987).

[5] Como indica Ginzburg: “O fato de Drummond, fragmentariamente, associar diversas camadas temporais de passado - um passado imediato, gerações anteriores, tempos remotos - sugere a afinidade, pela perspectiva das ruínas, entre os dilemas de diferentes tempos. Problemas deste século se ligam ao século anterior, problemas do presente se ligam ao de vinte anos antes. Historicamente, isso sinaliza a persistência de problemas sócio-políticos.” (GINZBURG, 2000)

 

Poema

Idade madura

As lições da infância
Desaprendidas na idade madura.
Já não quero palavras
nem delas careço.
Tenho todos os elementos
ao alcance do braço.
Todas as frutas e consentimentos.
Nenhum desejo débil.
Nem mesmo sinto falta
do que me completa e é quase sempre melancólico.

Estou solto no mundo largo.
Lúcido cavalo
com substância de anjo
circula através de mim.
Sou varado pela noite, atravesso os lagos frios,
Absorvo epopéia e carne,
bebo tudo,
desfaço tudo,
torno a criar, a esquecer-me:
durmo agora, recomeço ontem.

De longe vieram chamar-me.
Havia fogo na mata.
Nada pude fazer,
nem tinha vontade.
Toda água que possuía
irrigava jardins particulares
de atletas retirados, freiras surdas, funcionários demitidos.

Nisso vieram os pássaros,
rubros, sufocados, sem canto,
e pousaram a esmo.
Todos se transformaram em pedra.
Já não sinto piedade.

Antes de mim outros poetas,
Depois de mim outros e outros
estão cantando a morte e a prisão.
Moças fatigadas se entregam, soldados se matam
no centro da cidade vencida.
Resisto e penso
numa terra enfim despojada de plantas inúteis,
num país extraordinário, nu e terno,
qualquer coisa de melodioso
não obstante mudo,
além dos desertos onde passam tropas, dos morros
onde alguém colocou bandeiras com enigmas,
e resolvo embriagar-me.

Já não dirão que estou resignado
e perdi os melhores dias.
Dentro de mim, bem no fundo
há reservas colossais de tempo,
futuro, pós-futuro, pretérito,
há domingos, regatas, procissões,
há mitos proletários, condutos subterrâneos,
janelas em febre, massas de água salgada, meditação e sarcasmo.

Ninguém me fará calar, gritarei sempre
que se abafe um prazer, apontarei os desanimados,
negociarei em voz baixa com os conspiradores,
transmitirei recados que não se ousa dar nem receber,
serei, no circo, o palhaço,
serei médico, faca de pão, remédio, toalha,
serei bonde, barco, loja de calçados, igreja, enxovia,
serei as coisas mais ordinárias e humanas, e também as excepcionais:
tudo depende da hora
e de certa inclinação feérica,
viva em mim qual inseto.

Idade madura em olhos, receitas e pés, ela me invade
com sua maré de ciências afinal superadas.
Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas,
descobri na pele certos sinais que aos vinte anos não via.
Eles dizem o caminho,
embora também se acovardem
em face a tanta claridade roubada ao tempo.
Mas eu sigo cada vez menos solitário,
em ruas extremamente dispersas,
transito no canto do homem ou da máquina que roda,
aborreço-me de tanta riqueza, jogo-a toda por um número de casa,
e ganho.

                   Carlos Drummond de Andrade (In: A rosa do povo)

 

© Cristiano A. da Silva Jutgla 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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