Pepetela: "O livro policial é o pretexto"

Doris Wieser


 

   
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Arthur Carlos Maurício Pestana dos Santos (*1941), melhor conhecido por seu nome de guerra Pepetela (Pestana em umbundu), é um dos mais importantes autores de Angola dos nossos dias. Na atual literatura lusófona ele se destaca por ser um escritor popular e muito experiente que recebeu vários prêmios importantes (prêmio Camões 1997 entre outros). Sua obra é objeto de numerosos estudos acadêmicos e valorizada tanto pelos leitores como pelos críticos. A biografia do escritor está impregnada pela história do seu país, que sofreu uma longa guerra civil (1975-2002) logo depois da guerra de independencia contra Portugal (1961-75). Durante seus estudos universitários em Lisboa Pepetela juntou-se ao Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) e teve que sair de Portugal por motivos políticos. Exilou-se na Argélia onde concluiu a carreira de sociologia. Na década dos 70 lutou como guerrilheiro pela libertação de Angola. Depois da independência foi vice-ministro da educação e hoje é professor de sociologia na Universidade Agostinho Neto em Luanda.

Sua obra compreende até a data atual treze romances, duas peças de teatro e um livro de contos. Com seus dois romances mais recentes, "Jaime Bunda, agente secreto" (2001) e "Jaime Bunda e a morte do americano" (2003), Pepetela deu um passo na direção do gênero policial pela primeira vez. Através do anti-herói Jaime Bunda (paródia de James Bond) o autor analisa a sociedade de Luanda aguçadamente e sobre tudo com muito humor.

Tive a oportunidade fazer a seguinte entrevista em Munique durante a visita do autor a Alemanha em Abril de 2005.

 

DW: Porquê o senhor escolheu escrever romances policiais depois de ter escrito mais de uma dúzia de romances de outro estilo, que expressam inquietudes de caráter histórico-político?

P: Há várias razões. Uma das razões é que o primeiro livro que eu tentei escrever era um policial. Eu tinha então quinze anos de idade e nem terminei... mas havia essa tentativa. Eu tinha lido muitos livros policiais e gostava. Ultimamente já não leio muito, mas é um gênero que eu gosto. E então, em um momento dado eu já não tinha idéia para mais nada e era o momento de fazer um livro policial. Mas o livro policial é o pretexto, eu não quis saber nem perguntei a polícia como é que se faz investigação policial. Isso eu imaginei. O interessante era mais bem a situação, a realidade e o humor. Por causa do sucesso muita gente me perguntou se tinha mais, então fiz um segundo livro. Agora parei, porém mais tarde provavelmente farei um terceiro. Mas ainda não, agora voltei aos livros não policiais.

DW: E neste momento o que está escrevendo?

P: Terminei agora um livro. Um romance mais na linha clássica, digamos. Em português deve sair lá por outubro. O título é “Perdedores” e é sobre a nova burguesia que tem crescimento em Angola.

DW: Quais são as vantagens ou virtudes do gênero policial para a sua literatura?

P: Eu achei que era uma forma talvez mais ligeira que atraia novos leitores. Os jovens não estão muito habituados a ler. São muito influenciados pelo cinema e filmes no geral e por isso uma forma de atrair estes leitores jovens seria através do gênero policial. No fundo disso mesmo descreve-se a sociedade da mesma maneira mas talvez com mais agilidade. É mais fácil porque o policial entra em todos os lados, entra em todas as classes e meios sociais. Foi isso que achei e de fato funcionou e portanto penso voltar a fazer.

DW: O senhor já disse em entrevistas anteriores que os romances de Jaime Bunda são “falsos policiais”. O que entende o senhor com este termo? Quais seriam as características fundamentais desta nova forma do gênero policial?

P: Sim, exato. A fundação policial, criminosa é só um pretexto para analisar a sociedade. É isso o que os livros policiais são. Os livros da escola americana dos anos trinta e quarenta também eram. Era uma análise da sociedade americana através do policial. Sempre foi. Agora o que eu acho de diferente é o seguinte: Acho que num livro policial o autor sabe o fim desde o princípio. Ele encaminha o livro para o fim. Eu não sei o fim. Por isso é um pouco anti-policial. E também o detetive, o herói, é um anti-herói, é mais anti-herói do que herói.

DW: Também por isso o Jaime Bunda descobre outra coisa do que tinha procurado?

P: Exato. Por acaso.

DW: Os seus romances continuam sendo romances policiais, a despeito das diferenças com as obras ditas "clássicas" do gênero. Onde estão os limites do gênero policial? Qual seria a sua definição mínima?

P: Tem que ter um crime ou uma suspeita de crime e uma investigação. Não sei exatamente, eu não sou teórico.

DW: Quais são os seus autores preferidos do gênero? Clássicos e contemporâneos.

P: Do policial contemporâneo eu tenho lido mais os que misturam história. Realmente os meus preferidos são os antigos americanos e o Conan Doyle e também o Simenon na França, que o Jaime Bunda não gosta porque não é americano. O Simenon, a Agatha Christie... os clássicos são realmente os que eu gosto. Eles têm uma coisa incrível. É uma coisa que eu não sou capaz de fazer. Eu venero estes mestres, eu não sou capaz de imitá-los, eu não sei fazer essa tarefa complicada.

DW: Como surgiu a idéia de fazer uma paródia de James Bond - um James Bond subdesenvolvido?

P: A idéia do personagem nasceu há muito tempo, pouco tempo depois da independência. E curiosamente - as coisas da literatura sempre são curiosas - nasceu num jogo de basketball o que não tem nada a ver. Em 1975 havia uma situação política, militar e econômica também muito complicada e havia muito poucas atividades culturais, e desportivas nenhuma, particularmente não havia jogos. Mas havia um grupo de antigos participantes de basketball que tinham um interesse em retomar a modalidade. Criaram a comunidade basketball. Mas os jogadores estavam há muito tempo sem jogar, sem treinar, dois o três anos sem treinar e a comer funje e a engordar. A comunidade começou com um jogo internacional, pois não podia ser só nacional. Então foi convidada a seleção do Congo que é um país vizinho para fazer o primeiro jogo da federação nacional de Angola. E o Congo foi a Angola e começou a jogar e Angola começou a perder. E então ao pé do sítio onde estavam, sentavam-se as pessoas da federação. E houve um senhor muito indignado com o treinador: “O senhor não põe o meu filho jogar porquê? Nós estamos a perder e o meu filho não entra. Se deixa o meu filho entrar, vamos ganhar. Angola está a perder e o senhor a reclamar, e o meu filho não entra.” Finalmente o treinador deixou o rapaz entrar. Quando ele chegou à linha, eu vi o filho daquele senhor e pensei “não é possível”, porque era uma bola maior do que a bola de basketball. Ele entrou, não apanhou nenhuma bola, não conseguia saltar e as bolas passavam e a Angola perdeu. Então foi nesta altura que eu pensei: Olha aquela bunda, é só bunda. Surgiu então a idéia de um personagem que vai ser uma bunda imensa.

Muitos anos depois quando tentei escrever um livro policial, resolvi associar as duas coisas: o livro policial e essa figura. Então é ali onde surge a alusão. A figura tinha que ser bunda mas também polícia, pensei Bond. E então o chamei Jaime para parecer James Bond. Mas é a única semelhança que há entre ele e o James Bond. Jaime Bunda é um James Bond sem tecnologia, um James Bond subdesenvolvido.

Agora o que é difícil é a tradução. Em português funciona bem, mas para os outros eu explico no princípio do livro o que significa o nome.

DW: Qual é a relação do seu país com o gênero policial? Existem obras angolanas do gênero?

P: Jaime Bunda foi a primeira obra policial angolana ... que eu saiba e que as pessoas saibam lá, porque foi apresentada como a primeira. Houve um autor que escreveu pequenas histórias policiais, mas era quase didático. Overido de Melo se chama. Escreveu umas quatro historinhas policias que vinham com uma explicação depois, nem era bem uma história policial e não era um romance.

DW: Uma das características básicas do gênero policial é que acontece um crime. O quê é que atrai o senhor no crime? Que tipo de crime o interessa? Crimes de grande escala, de caráter político ou individual?

P: Como eu disse o gênero é o pretexto. Este livro que acabei agora começa com um crime, mas não é um livro policial. Porque pára ali e acabou, não tem conseqüências. Ninguém investiga, ninguém descobre. Neste novo livro há um crime e o autor avisa logo, espera ai, isso não é um livro policial, esquece. Nas duas primeiras páginas as pessoas pensam que é um livro policial. Porque, depois de ter escrito dois livros policiais e fazer um livro que começa com um crime, a gente pensa logo que é um policial. Misturei com a economia, há muita gente que rouba neste livro, mas não é policial. Então o policial não é só o crime, tem que haver o crime e a investigação ao volta.

DW: O órgão policial dos SIG (Serviços de Investigação Geral) que aparece nos livros de Jaime Bunda existe com este nome e com essas funções em Angola? E se não, em que medida as suas obras refletem a realidade angolana?

P: Não, é fictício. Inventei um nome que não se parecesse com nenhum dos serviços secretos que existem para não houver confusão. Eu acho que toda a ficção está baseada em alguma realidade. Não propriamente estas histórias aconteceram, mas podiam ter acontecido. Digamos que há um clima geral que seria mais ou menos representativo de tudo aquilo que é a realidade, mas depois já é a imaginação do autor que inventa as histórias. Neste livro a parte do policial eu acho o menos importante. Importante é levar o leitor à sociedade de Luanda ou pelo menos a algumas camadas da sociedade.

DW: Como caracterizaria a relação do povo angolano com os órgãos policiais? É uma relação de medo, desconfiança...?

P: Não há muita confiança do povo em relação à polícia. Diria até que os policiais que andam e passam na rua não merecem confiança. Sempre que podem tentam extorquir o dinheiro das pessoas por alguma forma. E sem conhecer as leis. Pegam produtos dos vendedores da rua e o dinheiro, coisa suja. É uma má relação entre as pessoas e a polícia, um estado inquieto, psicológico, pode-se dizer, sobre a credibilidade das instituições. Em Angola a polícia é das instituições menos críveis. O governo, o parlamento, os tribunais são do mesmo jeito.

DW: Que tipo de contato teve o senhor com a polícia? Por exemplo: Já acompanhou um policial no trabalho?

P: Não, tudo pura ficção. Eu conversei com alguns advogados que até podem contar essas histórias. Mas não foi muito útil. Eu queria a história principal, um crime que poderia descobrir. Eu não sabia qual era o tema deste livro. A morte da Catarina, da menina do livro, é o princípio, o começo, mas o verdadeiro crime é outro. Tinha que ser um bom crime. Tinha havido um crime lá na época em Angola, o chamado crime dos trilhões, não é bilhões, é trilhões. Foi por desvio de fundos, deram um crédito e não pagaram, foi num banco de ações. Mas eu achava que era um crime complicado demais e não consegui encaixar. Por isso escolhi o crime mais banal que existe, um assassinato. Mas eu acho que para o terceiro livro vou documentar melhor e usar umas técnicas mais apuradas.

DW: Acho que a ironia, o humor e a galhofa dos livros de Jaime Bunda são em grande medida responsáveis pelo êxito destas obras. O humor do senhor é um sintoma do seu otimismo frente ao desenvolvimento do seu país, ou é uma ironia "pós-moderna" que não tem em vista uma possível mudança positiva?

P: O humor faz parte dos angolanos. Os angolanos são pessoas capazes de rir da própria desgraça. E ao contar a sua desgraça para o outro todos riem. É natural, sobre tudo os da costa, de Luanda. E portanto, nestes livros o humor veio do personagem, do personagem principal. Obviamente criei o humor para a história. Mas também porque isso interessava mais aos angolanos, isso eles liam com mais interesse do que aquilo que faz propriamente o policial. O angolano não tem muito hábito de ler romance policial, o que ele gosta é de rir.

DW: Então o Jaime Bunda é um personagem realista neste sentido.

P: Exato. Eu costumo contar uma história. Mesmo quando estávamos na guerra contra os portugueses nunca conseguíamos nos apanhar. Nós sempre chegamos atrasados nas emboscadas. Eles montavam emboscadas e os angolanos nunca estavam lá. Chegar atrasado é um aspecto negativo, mas naquela circunstância era bom. Isso é o caráter dos angolanos.

DW: O Jaime Bunda é o que os críticos chamam um anti-herói. Na segunda metade do livro Jaime Bunda e a morte do americano, o personagem mostra uma evolução na personalidade em direção ao positivo. Não obstante, o motor do comportamento dele parece ser mais a sua arrogância do que uma verdadeira preocupação pelo outro. O senhor quis mostrar uma atitude positiva para a vida atual angolana? O Jaime Bunda vira ao final um herói ou um pseudo-herói?

P: Eu acho que continua sendo um pseudo-herói. Exatamente porque tinha que ser um pouco melhor do que os americanos. Arranjou um pouco um orgulho angolano. Por acaso algumas pessoas disseram que o primeiro livro estava melhor, era mais angolanista, e o segundo está um pouco sério. Por isso acho que tenho que fazer um terceiro.

DW: E no terceiro o Jaime Bunda vai ficar mais positivo ou volta a ser anti-herói.

P: Vai voltar anti-herói. Também porque no segundo era um história verdadeira, uma história que aconteceu, que eu conheci quando era criança. Um engenheiro português foi assassinado em Benguela e um suspeito inocente morreu na cadeia. Eu fui a Benguela procurar jornais porque sabia que existiam alguns que contavam sobre o crime. Mas não consegui encontrar os jornais da época. Então, eu pus um personagem que é um escritor, o mais velho Raúl, a contar a história verdadeira que é trágica no fundo. Neste contexto eu não consegui fazer um Jaime Bunda tão negativo como o primeiro. O primeiro tinha umas coisas de maluco ou gênio, será?

DW: O tema já era outro...

P: É, é, o tema é outro e acaba sendo mais sério também. Embora já tenha algum molde e joguei mais com estes aspetos. Mas eu acho que é mais sério e por isso mais positivo, um pouquinho mais positivo, mas isso é temporário.

DW: No romance se faz um paralelismo entre a situação colonial com Portugal como força colonizadora e o atual "imperialismo" de Estados Unidos, através da repetição deste crime acontecido nos anos 50. Em quê medida o senhor faria este paralelismo fora da literatura?

P: No fundo é assim. Muitos paises que antes eram dependentes das tropas coloniais, das potências colonizadoras, hoje são dependentes de Estados Unidos. E Estados Unidos tratam com a mesma arrogância esses países como os colonizadores em tempos atrás. Mas será que ainda existe isto? Claro que em nome dos princípios da democracia, bem, muito bem, mas sempre que os seus interesses estão em jogo eles também esquecem as democracias, esquecem dos direitos humanos... Guantánamo... estes casos. Queria propor no livro exatamente aquilo que se passou. Os americanos não fazem tortura eles próprios mas deixam fazer. Ah, eu não posso saber, não posso ver...

DW: Pode descrever um pouco o atual estado das relações políticas e econômicas entre Estados Unidos e Angola?

P: Estados Unidos é muito importante. O petróleo angolano já é oito ou nove por cento do mercado americano e vai aumentar para quinze por cento. Um parceiro que a gente chama estratégico. Quer dizer, nós queremos fazer uma revolução e a sétima esquadra intervém. É isto o que significa. E os jovens angolanos têm muita admiração. Eles só querem Estados Unidos e Estados Unidos, são muito amigos. A nova elite que se está formando agora tem estudado em Estados Unidos ou Londres, mas a maior parte em Estados Unidos.

DW: E como está a relação do povo angolano com Portugal? Ainda existem muitos ressentimentos?

P: As generalizações são muito perigosas sempre. É um pouco arriscado de falar em nome de todos os angolanos, mas aquilo que me parece é que toda história criou uma série de problemas e de ressentimentos que são perfeitamente compreensíveis. Apesar disto, parece que o processo de entendimento entre angolanos e portugueses correu bastante bem e bastante rápido. A questão da independência foi uma tremenda confusão porque a bandeira portuguesa foi escamoteada de Angola, levada quase do mastro para o mar, aquela coisa que se faz, baixa-se um bandeira e sobe-se a outra. Mas apesar de todas essas coisas, parece que não há grandes ressentimentos. Por vezes há problemas que surgem, por exemplo, uma parte da população que tem ligação com angolanos que estão em Portugal. Uma vez houve um assassinato numa discoteca em Portugal. Isso cria um certo clima em Angola.

Tive a ocasião de assistir a relações que se estabeleceram depois da independência da Argélia entre a Argélia e a França e estas relações são muito mais complicadas ainda hoje, do que as que há entre Angola e Portugal. Acho que os nossos países superaram mais facilmente este fosso.

DW: O senhor tem mostrado muita preocupação pelo fato de Angola ter adotado modelos ideológicos ou sociais dos países europeus, as antigas forças colonizadoras, e ainda não criar seu próprio projeto. A ironização ou a re-escritura do gênero policial também é uma maneira de enfrentar o discurso colonial e produzir um novo discurso?

P: É, no fundo é... Em termos literários Angola realmente é muito influenciada pela literatura que se faz na Europa e nos Estado Unidos. Mas nós podemos subverter isso, fazer um livro policial que é subversivo na medida que não é policial. O humor é o que conta no fundo, essa passagem, a coisa ao contrário, é uma subversão do gênero. É um pouco uma atitude anti-colonial, anti-imperial. Essa é a idéia.

Eu como cidadão tenho algumas idéias. Já é altura de tentarmos resolver os nossos problemas nós próprios, com a nossa cabeça. Nós já copiamos muitas coisas, mas as cópias nunca são tão boas como o original. Muitas vezes o original também não achei tão bom, e a cópia é ainda pior. Já é altura de começarmos a pensar e a tentar resolver os nossos problemas com calma e à nossa maneira, digamos, de acordo com a cultura angolana, de acordo com a maneira de ser dos angolanos. Por exemplo, que tipo de sociedade nós queremos ter. Em que tipo de sociedade nós queremos viver. Da mesma maneira, que tipo de casa nós queremos ter. Queremos ter uma casa com mandioqueira no quintal? Ou queremos ter uma casa no oitavo andar. E isso tem a ver com a cultura. A forma de organizar a sociedade e a vida política tem a ver com a cultura. Já é altura começarmos a pensar nisso. Não vai ser fácil, vamos cometer muitos erros. Mas é melhor cometermos erros com a nossa cabeça do que cometer erros com a cabeça dos outros.

DW: Nos seus romances de Jaime Bunda descreve um controle dos jornais por parte dos SIG. Se existe este tipo de controle ideológico no jornalismo, pode atingir também a literatura? O senhor falou alguma vez de uma intimidação para os escritores. A censura é um problema em Angola hoje em dia?

P: Não, neste momento não. Eu fiz uma menção de dois jornalistas presos. Havia uma série de processos contra jornalistas e nós, os escritores, pensamos que estamos lá em cima, que não nos acontece nada, cuidado, o que acontece com os jornalistas vem a atingir a nós. Chamei atenção para isso. Porque realmente os escritores em Angola nunca sofreram censura. Era uma tradição da Angola desde a independência de realmente não haver censura por livros. Nos livros não há e nunca nenhum escritor foi perseguido por um livro. Houve escritores perseguidos, (,) mas por outras coisas, não por um livro, não por causa da literatura. O escritor que sofreu mais com a censura fui eu e francamente não foi nada.

Entretanto a coisa melhorou, para os jornalistas também. Censura para literatura não existe, censura para os jornais, o rádio, não existe. Mas existem a televisão, a rádio nacional e o principal jornal que há, que são do estado, do governo, que têm uma orientação política própria, governamental. Pode ser que ai haja censura. Há outras estações de rádio que são nitidamente de oposição e muitos jornais privados que dizem o que querem. Mas há dois ou três anos que não há nenhum processo contra jornalistas. A situação melhorou neste aspeto.

DW: Como podemos caracterizar a visão política da geração da utopia e a dos jovens angolanos de hoje?

P: Houve um amigo meu que disse que esta geração que a gente diz da utopia é chamada assim hoje em dia em Angola. Depois do livro ficou o nome. Nos jornais falam da geração da utopia e já não dizem que é o nome do meu livro. Já entrou o nome. Há uma nova geração que sofreu muito com a guerra, teve muitos problemas. .... esta é a geração do holocausto, um exagero evidente, é claro. O holocausto sem ligação com o holocausto da Alemanha. É um holocausto em geral, muita gente morreu e foi uma geração sacrificada.

A juventude privilegiada de hoje que vive na cidade infelizmente tem a visão do consumismo. Porque na zona rural os jovens não têm perspectiva nenhuma.

DW: Quantos livros pode vender um escritor angolano em Angola em comparação com a venda em Portugal?

P: Em Angola há um problema de mercado. As pessoas que têm vontade de ler não têm dinheiro para comprar os livros, que são caríssimos, ou melhor, os salários são muito baixos. E as pessoas que têm dinheiro não lêem, não se interessam pela literatura. De maneira que hoje em dia há muito pouca gente a ler e o mercado de literatura é muito fraco. Diferentemente dos anos 80 em que os livros tinham edições enormes.

Depois da independência, poucos anos depois, quando a União dos Escritores foi criada, formou-se uma editora que é a principal editora em Angola. Os livros eram feito a preços extremamente baratos. Aliás, o livro era vendido ao preço de uma banana. Quer dizer que era possível comprar os livros facilmente, a gente comprava-os. Havia edições muito grandes. E nessa altura publiquei dois ou três livros que são os meus mais conhecidos As aventuras de Ngunga, Mayombe etc. que foram publicados em muitos milhares de exemplares. Depois houve uma mudança de situação. Deixou de haver subsídios do estado para os livros. Os livros ficaram muito caros, e essa é a situação atual.

Hoje em dia há dois tipos de escritores angolanos. Há um número muito, muito pequeno de escritores angolanos que é publicado fora de Angola. A grande maioria dos escritores só é publicada em Angola. Os escritores que são publicados em Angola vendem mil, dois mil exemplares no máximo. Em quanto os que são publicados fora, em Portugal, vendem muito mais. Eu vendo tranqüilamente vinte ou trinta mil em Portugal, dez vezes mais do que em Angola. Também acontece que moram uns angolanos em Portugal e eles já têm um melhor nível de vida. Eles compram os livros dos angolanos que sentimentalmente estão ligados à terra. Uma boa parte das pessoas que compram estes livros em Portugal têm uma relação com Angola ou são angolanos. De Jaime Bunda já saíram sete edições em Portugal.

DW: A literatura angolana vende bem no Brasil também?

P: Vende-se muito menos bem no Brasil, porque o Brasil é especial. Eu gosto muito do Brasil, tenho muitas relações particulares com o Brasil. Mas os brasileiros só publicam e só lêem geralmente ou livros brasileiros ou livros norte-americanos. Pode acontecer de lerem um argentino, mas é porque está perto deles. De maneira que os nossos livros angolanos, moçambicanos etc. têm muito menos saída no Brasil.

Também há uma grande dificuldade nos outros países africanos. Praticamente os livros não vão para os outros países africanos. Agora já começa a haver mais livros angolanos em Moçambique, muito poucos, mas vão aparecer. Mas o inverso não é verdadeiro. Os livros moçambicanos não vão aparecer em Angola e a mesma coisa com os caboverdianos etc. O que pareceria natural não acontece, apesar de haver uma comunidade dos países de língua portuguesa. Uma das prioridades seria fazer que os livros circulassem nos países da comunidade.

DW: Se fosse possível viver da literatura o senhor deixaria de dar aulas?

P: Não porque eu estive um ano só a viver da literatura. Pagaram direitos de autor pagaram um filme, depois não fizeram o filme. Dar aula para mim é muito importante porque faz ter uma relação muito estreita com os alunos, com os jovens para compreender as novas gerações. E isso também é importante para a minha literatura.

DW: Uma última pergunta: No ano 1993 o senhor teve uma bolsa do DAAD para uma estadia de criação artística em Berlim onde escreveu A geração da utopia. Pode falar sobre a sua experiência com os alemães e a Alemanha? Quais são as nossas características negativas e quais as positivas?

P: Eu tinha já algum contato com a Alemanha. Os alemães já estavam a trabalhar comigo outras vezes, (,) mas por períodos pequenos. Mas dessa vez já deu para conhecer-lhes um pouco melhor, mas também em Berlim andei muito pela leitura e fiquei com uma idéia do país. Eu gostei muito de estar cá, e a minha família toda gostou. Em primeiro lugar, já não estávamos habituados a viver num país organizado. Naquela altura também não havia guerra em Angola, foi um momento em que não houve guerra antes das eleições. Mas de qualquer modo, nós moramos principalmente num país em guerra. Aqui - na Alemanha - é um país pacífico. Este aspecto era muito importante. Um país organizado e em paz. Portanto sentíamo-nos bem, naturalmente. Também digamos que os alemães eram pessoas muito sérias. Quando prometem cumprem. Fazem um contrato, cumprem. É essa pequena escala que eu soube, provavelmente na grande escala, onde há grandes interesses já não, já é outra história. Mas na pequena escala do cidadão, quem cumpre as regras não tem problema nenhum. E a gente não teve problema nenhum, cumpríamos as regras do país e aquilo que nos prometeram cumpriram sempre na Alemanha, são pessoas sérias. As coisas que existem estão a funcionar muito bem.

Então havia - e acho que melhorou - era uma atuação bastante fria e distante dos alemães. Isso que as pessoas chegavam na rua e eu falava inglês e respondiam não sei. Notei agora desta vez que estou cá, isso mudou. Os alemães estão muito mais abertos, muito mais disponíveis. Eu entro agora em qualquer lado, entro e já falam inglês e não tem problema, todos falam. E parece que estão mais simpáticos, mais abertos. Provavelmente já é uma influencia da União Européia porque têm mais contato. Eu noto isso, 12 anos, eu noto a diferença.

Antes eu notava uma diferença entre os alemães do oeste e os alemães do leste. Os alemães do oeste em Berlim não tinham tempo para dar uma explicação na rua. Mas na Berlim oriental tinha pessoas que paravam e às vezes até me acompanhavam para o lugar. Talvez por causa da reunificação os do oeste aprenderam com as do leste, e hoje estão muito mais disponíveis. Isso foi uma impressão que eu tive. Acho que particularmente em Berlim - numa crônica escrita num jornal da Angola - ainda é Ber-lim. Cortado no meio. Acho que ainda há um pouco isso, uma certa diferença em alguns preconceitos. Mas isso é muito subjetivo da minha parte porque estive pouco tempo.

Mas aquela idéia do alemão que é transmitida pelos filmes americanos, de guerra mundial e tudo, o fascismo e não sei o que, aquela idéia do alemão rígido e a gritarem-se, nós tínhamos este preconceito. Mas vivendo em Berlim eu descobri rapidamente que era falso. Absolutamente falso. É um preconceito que foi passado sobre tudo pelo cinema, e realmente formou-se a idéia mundial. Porque quando eu ou a minha mulher ou a minha filha dizem: Nós ficamos em Berlim e gostamos muito, as pessoas respondem: Gostaram? É mesmo? Em qualquer parte do mundo. Eu acho que este preconceito não é justo, não é verdade. Talvez em alguma época tinha sido assim, talvez nos anos trinta ou nos anos quarenta. Mas isso é uma época passada.

Nós fizemos amigos em Berlim e depois da viagem eu fui presidente da Associação dos Amigos da Cultura Alemã em Angola. Ainda existe, hoje com pouca atividade, mas existe. Não falo alemão mas sou amigo da cultura alemã.

 

© Doris Wieser 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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