A centopéia, o ranheta e outros bichos:
sobre historiografia literária brasileira hoje [1]

Prof. Dr. Marcelo Paiva de Souza

Universidade Federal do Espírito Santo - UFES - Brasil
mrclpvdsz@hotmail.com


 

   
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Resumo: Procedendo a um rápido balanço do processo de renovação da historiografia literária brasileira durante as últimas décadas, o artigo discute o estado atual da questão, à luz das relações - nem sempre pacíficas - entre sociedade, história e teoria da literatura.
Palavras-Chave: literatura brasileira, teoria da literatura, historiografia literária brasileira da segunda metade do séc. XX.

Abstract: This article attempts a survey of recent approaches to the study of Brazilian literary history, focusing in particular on the set of problems raised by the complex relations of literary theory to historiography, history and society.
Key-words: Brazilian literature, literary theory, Brazilian literary historiography in the last 50 years.

 

Em um artigo de 1970 [2], onde rebate entre irônico e atrabiliário opiniões de resenhistas sobre livro de sua autoria publicado nos Estados Unidos no ano anterior, The History of Polish Literature, Czeslaw Milosz observava que as renitentes perguntas sobre o método conduziram a historiografia literária ao penoso estado de uma centopéia neurastênica: pensando em qual perna mexer primeiro, acaba não podendo sair do lugar. Pese embora a alguém o ingrediente de quase desaforada provocação contido na metáfora, as palavras do poeta e ensaísta polonês, à época professor de línguas e literaturas eslavas em Berkeley, são duplamente interessantes. Por sua graça, antes de mais nada, mas também por conta do conjunto de problemas que delimitam. Repare-se que, de um lado, elas correspondem a um diagnóstico - cujo acerto e atualidade resta discutir. De outro, alertam para um risco - cujo tamanho e eventuais conseqüências resta avaliar. Parece portanto no mínimo razoável não as perdermos de vista, já que se trata aqui de indagar, ainda uma vez, e a despeito do que Milosz provavelmente nos diria, acerca do ofício do historiador da literatura.

E no entanto, a referida centopéia... se move! A seu modo, claro, o que significa que certa sinuosidade está longe de ser mero acidente de percurso. Não se terá apagado de todo da memória o prestígio de orientações como a nova crítica anglo-saxã e o estruturalismo de corte francês. Naqueles tempos, aliás bem recentes, história e literatura não andavam exatamente em bons termos uma com a outra. Evocando o período de surgimento e consolidação do New Criticism no cenário acadêmico norte-americano, Herbert Lindenberger conta ter testemunhado os apuros dos professores cujo trabalho pudesse de alguma forma ser timbrado de histórico. “Essas eram as pessoas”, escreve, “a quem chamávamos (não raro com maligna satisfação) de doutos filistinos, eruditos que apesar da multidão de fatos em seu poder pareciam cegos e surdos às nuances verbais cujo adequado entendimento reputávamos a principal tarefa dos estudos literários (...)”.[3]

O sujeito por assim dizer coletivo desse relato se desenha com vividez por trás da primeira pessoa do plural. “Chamávamos”, “reputávamos”. Nós, está se vendo, o autor citado e toda uma formação geracional de paladinos da abordagem intrínseca da literatura, mais ou menos desdenhosos do obsoleto aparato intelectual das interpretações históricas. E isso inclusive quando tinham mostras do vasto alcance da ótica que supunham perempta, conforme se infere do que pôde constatar o próprio Lindenberger. Um dos exemplos de que lança mão é digno de nota, pois a princípio surpreende saber que um livro como Mimesis, de Erich Auerbach, traduzido para a língua inglesa em 1953, foi lido não sem simpatia pelos novos críticos. Tudo indica entretanto que por um motivo bastante sintomático. Aos olhos daqueles leitores, que outra coisa fazia o romanista alemão, examinando meticulosamente pequenos excertos de obras magnas do cânon literário ocidental, senão uma espécie de close reading? O desacerto da recepção dificilmente poderia ser maior. Porém, na medida mesma em que se atrofiava nela o escopo das análises de Auerbach, confinadas à bitola das diretrizes em voga, fica patente a força do viés anti-histórico no perímetro de influência do paradigma em questão.

Na órbita do outro paradigma aludido, o estruturalista de sede francesa, amplamente influente durante as décadas de 60 e 70, mudada é bem verdade a ordem dos fatores, não se alterava muito o produto. Aqui, o viés anti-histórico se patenteava desde logo nos estreitos vínculos com a lingüística de Saussure: do ângulo preferencial da poética, entendida como possível ciência da literatura, enfim liberta dos escolhos de tudo que fosse externo a si mesma, importava menos a obra concreta (parole) do que a abstração dos códigos e suas respectivas regras de combinação (langue), contava menos a singularidade do texto nas coordenadas da sociedade e da história do que as leis gerais de que resultaria o texto.

Ora, estremecidas assim as relações entre o literário e o histórico, manda a boa lógica concluir que a situação de uma disciplina como a história da literatura não devia ser fácil. De fato, segundo atesta o crítico, historiador e teórico da literatura polonês Henryk Markiewicz, numerosas dúvidas e suspeitas pairavam então no ar [4]. Sirva de exemplo delas o título seu tanto quanto apocalíptico da conferência proferida por René Wellek no VI Congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada em Bordeaux no ano de 1970 - “The Fall of Literary History”. Ou este outro, de inegável topete, de um artigo de Max Wehrli publicado por volta da mesma data - “ Gibt es eine deutsche Literaturgeschichte?” [5]

Mas afinal o horizonte não era tão sombrio quanto aparentava. Sem contar o fato de que não obstante sobressaltos e ceticismos histórias da literatura continuavam a ser escritas [6], àquela exata altura novas tendências teóricas começavam a abrir caminho nos debates, trazendo consigo de volta a uma posição de destaque nos estudos literários a dimensão histórica [7]. Visto da perspectiva de hoje, o importante ensaio de Hans Robert Jauss, “Literaturgeschichte als Provokation der Literaturwissenschaft”, de 1967, constituía um claro indício dessa correção de rumo. Que as décadas seguintes confirmariam de forma cabal: ressalvadas suas especificidades, é no terreno da vizinhança entre literatura e história que se desenvolvem as pesquisas de conhecida repercussão do neomarxismo de um Fredric Jameson, da crítica pós-colonial de um Edward Said, do materialismo cultural de um Raymond Williams e do novo historicismo de um Stephen Greenblatt. Igualmente conhecida é a pauta das candentes discussões contemporâneas em torno dos estatutos da narrativa ficcional e da narrativa historiográfica, das características e limites de ambas as práticas discursivas, de suas similaridades e diferenças [8]. Em suma, e há algo de ironia no quadro, tão íntimo passa por ser agora o consórcio entre o literário e o histórico, que suas ligações cada vez mais perigosas vão se tornando objeto de crescente alarme e não raro indignada censura. [9]

A riqueza e a vitalidade do panorama grosseiramente esboçado acima são tais que chegam a aturdir. Tomar toda a atividade que aí se vê (e seus variados desdobramentos) por uma evidência de neurastenia não parece muito justo, ainda que se considerem o momento e as circunstâncias em que foi escrito o ensaio de Czeslaw Milosz mencionado mais atrás. Eficaz assim quanto fosse como um expediente retórico, para um autor a braços com críticos de sua obra, a imagem do inseto de cem pés imobilizado no lugar não era a rigor um diagnóstico certeiro. E tampouco procedia de fato o brado de alerta que se pudesse depreender dela. O questionamento teórico-metodológico não expunha o exercício da historiografia literária ao risco da paralisia. Pelo contrário. Um rápido exame do caso brasileiro poderá ser instrutivo a respeito.

É matéria de consenso entre os especialistas que A literatura no Brasil (1955-1959), obra coletiva planejada e dirigida por Afrânio Coutinho, e Formação da literatura brasileira (1959), de Antonio Candido, constituem um marco no estudo de nossas letras [10]. Para um autor como Benedito Nunes, por exemplo, durante a década de 50 do século passado - e sobretudo graças à contribuição de Candido e Coutinho - a historiografia literária brasileira ingressava em uma nova fase. Assentada até ali sobre um arcabouço teórico essencialmente oitocentista, herança do gesto fundador dos românticos e dos posteriores esforços de sistematização de Sílvio Romero e José Veríssimo, a disciplina era enfim submetida a uma revisão completa de suas premissas conceituais e metodológicas [11]. Escusado observar que essa revisão não terá sido igualmente bem sucedida em Formação da literatura brasileira e A literatura no Brasil. À parte isso no entanto, vale insistir que muito embora fossem distintos o instrumental analítico e os enfoques de Candido e Coutinho, ambos os críticos se votaram, por volta da mesma época, a uma mesma tarefa: redimensionar a fundo a investigação de nosso patrimônio literário em perspectiva histórica.

Diversos fatores concorreram para que se tornasse viável tal empreitada. Simplificando bastante o assunto, cabe salientar desde logo o poderoso impulso colhido à atmosfera intelectual resultante do modernismo de 22. Papel de destaque também desempenhou, a partir do decênio de 30, o processo de gradual adensamento e ampliação da rede de instituições de ensino superior no país. As iniciativas de Afrânio Coutinho e Antonio Candido tampouco se deixariam compreender adequadamente sem o devido realce da tradição local a que os dois pertencem, da própria lógica interna de desenvolvimento dos estudos literários no Brasil. Não menos necessário, por fim, seria proceder a um levantamento da linhagem dos quadros de referência teórica mobilizados em Formação da literatura brasileira e A literatura no Brasil. Na obra concebida por Coutinho salta à vista, como se sabe, o débito para com os preceitos do New Criticism [12]. Na obra de Candido, por outro lado, talvez seja para com as ciências sociais a dívida mais conspícua, o que decerto não exclui todavia a presença de elementos hauridos em outras fontes. Refletindo sobre a “estratégia crítica” empregada na Formação, João Alexandre Barbosa identifica no trabalho de Antonio Candido a conjunção “de dois tipos de influências importantes: os estudos antropológicos de traço funcionalista, principalmente ingleses e norte-americanos, articulados pela leitura sociológica de herança marxista, e uma teoria da obra literária como estrutura estética, absorvida no trato com o New Criticism”. [13]

Eis então que o influxo da nova crítica se faz sentir em ambas as obras em apreço. E causa talvez alguma estranheza constatá-lo. Afinal, que ligações puderam se estabelecer entre uma abordagem fundamentalmente anti-histórica da literatura e as modalidades de história literária a que associamos os nomes de Candido e Coutinho? A propósito deste último, Wilson Martins percebe uma espécie de contradição, pior, uma inconseqüência no fato de que o incansável apostolado estetizante do crítico tenha procurado guarita numa história da literatura:

(...) doutrinando sem cessar sobre o que a crítica deve ser, Afrânio Coutinho jamais demonstrou, pela prática dos seus princípios, o que ela pode ser. Em teoria, tratava-se de substituir a abordagem historiográfica (ou “historicista”, como ele prefere dizer em terminologia depreciativa) pela análise técnica do texto, mas é coisa que nem ele, nem os seus discípulos realmente fizeram. A obra máxima em que a doutrina deveria ter encontrado comprovação foi... uma história literária, na qual a abordagem “historicista” é inevitável e natural, embora dissimulada, no caso, pelo vocabulário supostamente estético ou “estilístico” (outra palavra prestigiosa, empregada, aliás, a contra-senso e, ao que parece, posteriormente abandonada). [14]

Descontada a empedernida ranhetice do crítico, seria possível concordar com a afirmação de que, na prática, Coutinho acaba ficando aquém dos postulados de sua própria reflexão teórica. Daí por diante no entanto o argumento de Wilson Martins não pode passar sem reparos. Recordem-se os termos do idealizador de A literatura no Brasil: de um lado achavam-se os praticantes de uma história literária que “era mais história do que literária”; de outro, os estudiosos que aspiravam, assim como ele, “a uma história” - efetivamente - “literária da literatura” [15]. Não se tratava portanto de renunciar à apreciação histórica em prol de um exame restrito à dimensão das técnicas textuais. O que se pleiteava, e nesse ponto Coutinho e Candido estavam de acordo, era a substituição de uma abordagem historiográfica por outra, zelosa do componente estético e da relativa autonomia da obra de arte verbal. Um projeto dessa natureza envolve muitas dificuldades, mas é coisa bem diferente da quadratura do círculo insinuada por Wilson Martins.

Em lugar de simplesmente defender Coutinho, porém, importa assinalar que a ironia de que é alvo tem por pressuposto uma concepção bastante tosca do comércio teórico. Se a orientação crítica em que fulano se louva é anti-histórica, fulano só pode fazer crítica anti-histórica; se beltrano troca idéias com um tipo que cortou uma de suas próprias orelhas, beltrano sem sombra de dúvida vai acabar com uma orelha a menos. Seguindo essa linha de raciocínio, não poderíamos poupar nem a Candido da acusação de incoerência, já que também ele, conforme se viu, foi tomar ao New Criticism ferramentas analíticas usadas em sua Formação da literatura brasileira.

Será outra quem sabe a lição a extrair dos fatos. Trocando idéias com o tipo que preferiu ter uma orelha a menos, beltrano pode enfim resolver-se a não melindrar, sob nenhuma hipótese, as graciosas volutas de cartilagem que traz penduradas nos dois lados da cabeça. Pode furar os próprios olhos de terror e compaixão ou pode não fazer absolutamente nada. De qualquer modo, o diálogo com seu interlocutor o terá conduzido a um instante crítico, no sentido etimológico do adjetivo, um instante de discernimento e escolha, cuja óbvia relevância nunca é demais encarecer. E tanto mais decisivas se revelam essas ocasiões de confronto com o pensamento e os juízos de estranhos num âmbito disciplinar como o da história da literatura, tradicionalmente pouco permeável às “mudanças das conjunturas metodológicas e oscilações das sucessivas modas”, segundo verifica um grande especialista no assunto à vista do caso polonês [16]. Não carecêssemos ainda de estudos críticos amplos, aturados e sistemáticos sobre nossa produção crítica, disporíamos porventura de dados conclusivos no que respeita aos pontos de contato entre as múltiplas ramificações do debate teórico das últimas décadas e as realizações de monta da historiografia literária brasileira recente. Na falta de um mapeamento exaustivo da questão, bastem apenas algumas indicações.

Para começar, um livro de Flora Süssekind publicado em 1987, Cinematógrafo de letras: literatura, técnica e modernização no Brasil [17]. A pesquisa enfrenta um problema espinhoso da periodologia de nossas letras - o assim chamado pré-modernismo. Conceito precário, como logo se vê, já por definir seu objeto em virtude do que ele não é. Em geral consideramos pré-modernista o escritor ou a obra que, não fazendo mais parte do naturalismo ou do parnasianismo, tampouco pertencem ao modernismo, mas de algum modo o antecipam. A imprecisão talvez diminuísse com o amparo de molduras descritivas centradas precipuamente na dinâmica interna da produção literária brasileira de fins do séc. XIX a começos do XX. Noutras palavras, ao invés de porfiar na manobra de apreensão do pré-modernismo por suas bordas, seria o caso de tentar compreendê-lo por dentro. Essa, ao que parece, a visada de Flora Süssekind. Sua preocupação não é obter um inventário estático das diferenças e semelhanças dos pré-modernistas em relação, respectivamente, a seus predecessores e sucessores. Trata-se antes de caracterizar, no trânsito entre textos e contextos pertinentes, a especificidade dos processos em curso no período que investiga. E aqui na verdade a inovação. Pois a autora analisa o labor da forma em prosadores como Euclides da Cunha, João do Rio, Lima Barreto e Hilário Tácito, para só mencionar estes nomes, do ângulo das transformações que iam acarretando os avanços tecnológicos introduzidos no país com o incremento da voga modernizadora. Que mudanças se efetuavam na sensibilidade do escritor às voltas com o novo cenário urbano e seu peculiar ritmo de vida, pontuado pela marcha mecânica de bondes e automóveis? Que alterações sugeria - e aos poucos impunha - ao fazer literário a presença avassaladora da linguagem do jornal e do cinema?

A perguntas assim procura responder o trabalho de Flora Süssekind, escorado em farta documentação e apurado tirocínio interpretativo. Seus interessantes achados com certeza devem muito à tradição de estudos para a qual contribuíram desde Tristão de Ataíde e Brito Broca, até Alfredo Bosi, José Paulo Paes, Antonio Dimas, Nicolau Sevcenko e Francisco Foot Hardman. Cinematógrafo de letras deve não menos contudo a inspirações oriundas do circuito teórico internacional. Em particular de um artigo de Hans Ulrich Gumbrecht publicado em 1985, “O corpo versus a imprensa: os meios de comunicação no início do período moderno, mentalidades no reino de Castela e uma outra história das formas literárias” [18]. Na esteira da teoria dos sistemas do sociólogo Niklas Luhmann, o texto advoga a inclusão de uma nova perspectiva, por muito tempo estranhamente ignorada, à práxis dos historiadores da literatura. Gumbrecht argumenta acerca da importância dos meios de comunicação enquanto “elementos constitutivos das estruturas, da articulação e da circulação de sentido” [19]. Segundo as palavras de João Cezar de Castro Rocha, numa esclarecedora apresentação do percurso intelectual do teórico da literatura alemão, a tese aí defendida é a de que

(...) as condições concretas de articulação e de transmissão de uma mensagem influem no caráter de sua produção e recepção. Não é verdade, por exemplo, que a transição do uso da máquina de escrever para o computador exige do usuário muito mais do que uma acomodação automática a uma técnica diferente de registro? Não se trata somente de uma técnica exterior ao processo cognitivo, pois, assim como sabemos, por experiência própria, que o emprego do computador favorece o surgimento de formas inéditas de raciocínio, o mesmo se passou com a introdução de novas formas de comunicação no passado. E o pleno entendimento dessas formas, assim como das modificações provocadas pelo seu advento, demanda uma atenção renovada à materialidade dos meios de comunicação. [20]

Episódios como a invenção da escrita ou da imprensa, o surgimento da máquina de escrever, do rádio ou da televisão, configurariam quiçá “possíveis limiares epistemológicos”, inaugurando “um novo horizonte holístico para a história”, uma vez que as mutações “das formas comunicativas afetam todos os outros subsistemas sociais” [21]. Mutatis mutandis, é desse instigante horizonte, ainda não muito freqüentado entre nós, que participa o trabalho de Flora Süssekind que há pouco tínhamos em mira. [22]

Caminhos ainda não muito usuais em nossos estudos literários palmilham também as autoras de A formação da leitura no Brasil [23], Marisa Lajolo e Regina Zilberman. Sua meta - conforma lapidarmente formulada em obra anterior - “uma compreensão da literatura que ultrapasse a mera descrição dos constituintes estruturais dos textos.” [24] Advertindo quanto à estreiteza das concepções que se ancoram com exclusividade na imanência do literário, Zilberman e Lajolo o entendem como elemento integrante de uma prática social determinada, cuja historiografia deve incluir, para que se faça plena justiça à complexidade de seu objeto, os modos de produção, bem como os de circulação e consumo das obras. É o leitor o grande herói de A formação da leitura no Brasil, é o roteiro histórico de constituição e subseqüentes transformações dessa “solerte figura” que se tenta recompor ali, em planos distintos, porém concatenados, passando da análise das feições do leitor implícito na prosa de ficção ao inquérito das condições do mercado editorial, do exame das características dos livros escolares à investigação do segmento feminino do público ledor. Como as próprias autoras reconhecem, uma obra dessa natureza dificilmente seria possível sem o andaime do que chamam de “história canônica da literatura brasileira” [25]. História a que aliás se reporta, desde logo, o título A formação da leitura no Brasil, como que a sinalizar, no claríssimo eco à Formação da literatura brasileira de Candido, as relações de continuidade entre o empreendimento de Marisa Lajolo e Regina Zilberman e nossa tradição crítica e historiográfica. Mais uma vez entretanto isso não é tudo. E as próprias autoras se incumbem de apontar, metodicamente, o horizonte das discussões teóricas em cuja contigüidade se localiza o trabalho que desenvolvem:

O Desconstrutivismo, a Literatura Comparada, a Estética da Recepção, a Teoria da Tradução, a Análise do Discurso - eis algumas das tendências que, minando a autoridade do texto e a soberania do autor, reconhecem que da perspectiva do público e do leitor também se constrói a história da literatura e calibra-se a reflexão sobre a criação literária. [26]

Recapitulemos. Até este ponto foram indicadas algumas das obras responsáveis, cada uma a seu modo e em sua medida, pelo processo de renovação da historiografia literária brasileira durante as últimas décadas. O sucinto comentário dedicado a Afrânio Coutinho, Antonio Candido, Flora Süssekind, Marisa Lajolo e Regina Zilberman procurou realçar, de um lado, em que consistiu a novidade de seus respectivos aportes; de outro, a que - hipoteticamente - essa novidade se deveu. Se a tática logrou êxito, ficou assim demonstrado o papel central que desempenhou, caso a caso, o diálogo atento e criterioso do crítico com as tendências teóricas de força em seu tempo. Mas tanto barulho por tão pouco? Não se repisa um sovado lugar-comum alardeando a imprescindível reciprocidade entre teoria, crítica e historiografia literárias? Com efeito. Vejamos todavia se não vale a pena repisá-lo.

No Brasil, poucos mais habilitados para tratar do assunto aqui em pauta do que Alfredo Bosi, autor de clássicos de nascença como História concisa da literatura brasileira e Dialética da colonização. Um texto recente do crítico paulista, “Por um historicismo renovado: reflexo e reflexão em história literária” [27], se detém longamente na matéria de nosso interesse. Será oportuno trazer à baila os seus argumentos. Segundo afirma logo de início, Bosi está empenhado na “busca de um historicismo aberto, largo e profundo, que saiba fundar conceitualmente uma história da literatura como história das obras literárias.” [28] A ênfase nos atributos daquilo que se procura não seria gratuita em um estilista tão sóbrio. O fosso cavado pela adjetivação - aberto, largo e profundo - divide por assim dizer dois campos epistemológicos. De cá, o historicismo em cujo encalço se põe o autor. De lá, doutrinas ultrapassadas tais como o historicismo nacionalista dos românticos e o historicismo de cunho sociológico de positivistas e evolucionistas. O fulcro de uma história da literatura como história das obras literárias não se esteará, portanto, na representatividade, valor aferido a partir dos pressupostos nebulosos de nação ou raça por exemplo, mas na irredutível singularidade dos textos, tomados enquanto “individuações descontínuas do processo cultural” que “podem exprimir tanto reflexos (espelhamentos) como variações, diferenças, distanciamentos, problematizações, rupturas e, no limite, negações das convenções dominantes no seu tempo.” [29]

Uma vez fixado esse ponto de fuga - as exigências de uma historiografia literária que não sacrifique aos contextos a individualidade dos textos - Bosi revisita as obras de alguns dos principais historiadores e críticos da literatura brasileira com o intuito de averiguar de que forma equacionaram os dados do problema. São passados em revista a seguir os nomes de Romero, Veríssimo, Araripe Jr., Mário de Andrade, Ronald de Carvalho e Nélson Werneck Sodré, entre outros. Abreviando drasticamente a trama cerrada da exposição do autor, anote-se tão-só que de acordo com seu juízo História da literatura ocidental, de Otto Maria Carpeaux, e Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido, encontram saídas felizes para o persistente impasse entre historicismo e formalismo, entre a inserção do texto no tempo e no espaço e a compreensão do caráter singular da obra literária. Articulados em via de mão dupla processo histórico-social e criação estética individual, ganha corpo graças a Candido e Carpeaux uma outra historiografia, em cuja “perspectiva ampliada, respeitosa dos direitos da memória, da imaginação e da reflexão crítica, (...) recebem nova luz as relações entre literatura e sociedade, literatura e nação.” [30]

O leitor se vê tentado a conjecturar que subjaz às considerações de Alfredo Bosi uma espécie de declaração de princípios. Pois não é mesmo um historicismo renovado, assim como o do título do ensaio que nos ocupa, o fundamento das análises primorosas enfeixadas em Céu, inferno e Literatura e resistência? [31] Chama a atenção além disso no texto do autor um discreto, mas poderoso ferrão polêmico. “No final do séc. XX”, escreve Bosi, “quando a prática dos Estudos Culturais (Cultural Studies) se arrisca de novo a simplificar as relações entre literatura e sociedade, vale a pena retomar os nós conceituais da questão.” [32] Muitas páginas depois, o crítico torna à carga, arrazoando que a lição metodológica de Antonio Candido conserva “candente atualidade hoje quando a prática dos Estudos Culturais (Cultural Studies) voltou a tratar o texto literário como variante da indústria cultural ou mero instrumento de lobbies.” [33] Deixemos por ora de lado o problema da atualidade do modelo historiográfico de Candido, para observar mais de perto o entrevero de Alfredo Bosi com os estudos culturais.

Primeiro assalto: uma voz solitária e já por isso simpática se ergue contra uma prática difusa e tudo leva a crer algo obscurantista que corre o risco, à beira do séc. XXI, de simplificar mais uma vez as relações entre literatura e sociedade. Vitória de Bosi, por pontos. Segundo assalto: a despeito das conquistas de estudiosos que corrigiram as distorções daquele historicismo sempre disposto a reduzir a obra a mero sintoma ou documento, uma prática difusa e com certeza obscurantista volta a simplificar, como era a regra em priscas eras, as relações sutis entre literatura e sociedade. Vitória de Bosi, por nocaute. O que não chega propriamente a surpreender. Mas não convence. Se bem que não devam faltar motivos para a investida do crítico, a peleja dá a impressão de trucagem, o adversário atacado não parece de carne e osso. Que autores, entre todos que por isto ou aquilo passam por praticantes dos estudos culturais, tratam a obra literária como simples instrumento de lobbies? Que obras, entre todas que de algum modo podem ser associadas aos Cultural Studies, fazem pouco dos nós conceituais que amarram sociedade e literatura? Não sendo embora o caso de tomar partido na tediosa controvérsia, vem a propósito indagar que benefícios se auferem desse duelo em efígie, dessa quizília com um rótulo.

Tudo posto na balança, fica manifesta na argumentação de Alfredo Bosi certa, digamos, inapetência para o convívio desarmado e fraterno com certas idéias alheias. E parece perdida uma valiosa oportunidade intelectual. A rigor isso ainda não decide se há de ser a danação ou a vida eterna a recompensa do grande crítico. Preocupa no entanto que a ocorrência não seja bem um fenômeno isolado no âmbito da reflexão mais recente acerca de nossa historiografia literária. Como vão sendo horas de encerrar, considere-se apenas mais um exemplo, “Os equívocos da crítica à Formação[34], artigo apresentado por Ligia Chiappini na III Jornada de Ciências Sociais da UNESP, evento realizado em Marília entre 31/V e 2/VI de 1991 em homenagem a Antonio Candido. O título taxativo do texto diz quase tudo, porém não nos dispensa da tarefa de acompanhar, ao menos em suas linhas gerais, o raciocínio ali exposto. Ligia Chiappini começa frisando que para ela e boa parte dos antigos alunos de Candido o evento organizado em Marília tinha um sentido maior do que “ressaltar a importância do crítico, do sociólogo, do historiador e teórico da literatura, que, afinal, já se fez reconhecer suficientemente tanto no Brasil como no exterior.” [35] Conforme a acertada ponderação da autora, tratava-se antes de

(...) indiretamente, ao apreciar aspectos de um intelectual e sua obra, explicar um pouco para nós mesmos da sua influência; fazer um balanço do que lhe devemos, para conseguir ver mais claros os próprios caminhos, a partir do reconhecimento dessa dívida. Porque, ao contrário do que postularia uma estéril rebeldia infantil, reconhecer a contribuição duradoura de um mestre não significa prestar-lhe um culto obnubilante, mas atender à primeira condição para, assimilando-a em profundidade, superá-la. [36]

Por infelicidade, não será essa contudo a direção tomada adiante. O tempo era curto para tanto e os organizadores da jornada haviam recomendado a cada participante a análise de um só aspecto da obra de Candido. Premida pelas circunstâncias, Ligia Chiappini opta por não mais que explicitar o embasamento teórico da Formação, para então passar a “esclarecer alguns equívocos da crítica” ao livro, em especial os cabeludos, claro, como aqueles cometidos na “leitura sectária” de Haroldo de Campos.

As escusas da autora para mudar de rumo são de todo aceitáveis. Mas a direção que toma talvez mereça discussão. Sem entrar no mérito da acesa querela sobre o seqüestro do barroco, nem subscrever o disparate de que toda leitura é igualmente válida, convenha-se: não será velando sem descanso pela ortodoxia na recepção das obras de Candido que alcançaremos superá-las. Caberia até mesmo arriscar uma hipótese que solicita estudo à parte. Como se sabe, a fortuna crítica de Formação da literatura brasileira constitui, sozinha, parte expressiva do melhor que se tem pensado entre nós ultimamente sobre historiografia literária. As intervenções de Haroldo de Campos, Paulo Arantes, Luiz Costa Lima, Ligia Chiappini e Roberto Schwarz, para só lembrar algumas, aí estão para prová-lo. A discussão sobre o livro de Candido por certo é necessária e fecunda. E ao que consta nada perdeu de seu interesse. No entanto, a quase invariável gravitação à volta desse eixo não tem cerceado nalguma medida o terreno de nossas pesquisas e reflexões acerca dos problemas teóricos concernentes ao exercício da história da literatura? Preso à órbita da Formação, o debate contemporâneo sobre historiografia literária brasileira não periga incidir, senão em vícios, ao menos em certa rigidez de perspectiva?

Na impossibilidade de aprofundar no momento essas questões, voltemos ao preito de Ligia Chiappini a Antonio Candido. Qualquer pessoa minimamente familiarizada com a crítica literária brasileira do último meio século sabe - ou de imediato percebe - que a acrimônia do texto da autora em face de Haroldo de Campos é parte do repertório bem mais amplo de tensões, desinteligências e desaforos próprios às relações entre as duas correntes antagônicas de pensamento que remontam, respectivamente, à revista Clima e ao grupo fundador da poesia concreta [37]. Não será exagero afirmar que, por um lado, a própria existência e complexidade desse antagonismo, a temperatura característica da disputa e a firmeza dos partis pris nela envolvidos prestam um eloqüente testemunho acerca do grau de amadurecimento dos estudos literários no país. Por outro lado, se a musa crítica brasileira chegou de fato a sua “acabada maioridade” [38], como quer Leda Tenório da Motta, se atingiu uma fase de incontestável diversidade de pontos de vista e de métodos, conviria não poupar nenhum esforço para que o pluralismo a custo obtido não degenerasse em cega hostilidade (ou, pior, em surda e muda indiferença).

Retomando por fim o tema do modelo historiográfico implícito na Formação da literatura brasileira, passemos a palavra em primeiro lugar a Antonio Candido, que numa entrevista concedida a Beatriz Sarlo em 1980 assim se exprimia sobre o clássico lançado em 1959: “É um livro de juventude e no qual trabalhei dez anos, mas que hoje já não me agrada.” [39] Coquetterie do autor? Excessiva modéstia? Opinião sem maior peso, escapulida ao calor e ao acaso das circunstâncias? De tudo isso, talvez, um pouco. De qualquer maneira, a declaração flagra um movimento saudabilíssimo de autocrítica, o qual vale a pena reter e sublinhar. Porque a atualidade da Formação é a única que ela ainda poderia possuir hoje: uma atualidade relativa. Está com a razão Roberto Schwarz quando escreve sobre os sete fôlegos do livro [40]. Mas nem Antonio Candido, nisso aliás muito mais jovem de espírito do que muitos de seus discípulos, nem Antonio Candido, dizíamos, negaria que num e noutro passo a obra sente uma senhora falta de ar. Não se desconhece que as fronteiras do que entendemos por literatura em nossos dias vêm sendo continuamente questionadas e redesenhadas. Um estudioso como Antonio Risério reivindica com veemência para a crítica e a historiografia literárias o que chama de textualidades extra-ocidentais nos trópicos brasileiros, os cantos tribais dos aborígenes e os orikis da cultura nagô-iorubá por exemplo [41]. Propostas como essa convidam a traçar de novo, com novas réguas e compassos, os contornos do objeto da disciplina, convidam a pensar uma história literária do Brasil, a qual se renove para bastante além do modelo disponível na Formação da literatura brasileira. Possibilidade que de resto o próprio Candido parece endossar, com a devida cautela, numa fala durante reunião preparatória para a elaboração de uma Historia de la literatura latinoamericana transcorrida na Unicamp de 3 a 6/X/1983. No sentido de “abrir eventualmente um espaço” para manifestações culturais reprimidas ou desqualificadas como folclore, entre as quais cita as cavalhadas, os cantos e danças de índios e negros, o autor sugere que seja aprofundado o

(...) critério bastante interessante (...) de acolher no corpo da literatura não só aquilo que se considera como tal hoje em dia, mas também outras modalidades, ou seja, aquilo que num determinado momento era considerado literatura (por exemplo, um discurso político ou jurídico do tempo da Independência). E também, talvez, aquilo que nunca foi considerado como tal. [42]

Sabe-se lá que bichos podem sair desses anseios e especulações. Não obstante isso, seria um belo tributo ao mestre continuar daqui.

 

Notas:

[1] A primeira versão deste texto foi uma conferência apresentada no congresso Literatura: fronteiras e teorias, realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo entre 1 e 5/XII/2003.

[2] Milosz, Czeslaw. “O historii polskiej literatury, wolnomyslicielach i masonach”, texto mais tarde incluído no volume Prywatne obowiazki. Olsztyn: Pojezierze, 1990.

[3] Lindenberger, Herbert. “Toward (and After) a New History in Literary Study” in The History in Literature: on Value, Genre, Institutions. New York: Columbia University Press, 1990, p.189.

[4] Markiewicz, Henryk. “Dylematy historyka literatury” in: Literaturoznawstwo i jego sasiedztwa. Warszawa: PWN, 1989. Os dois exemplos que refiro mais adiante foram tomados a este texto.

[5] Diagnósticos igualmente sinistros podem ser encontrados hoje entre nós em Fischer, Luis Augusto. “Para uma descrição da literatura brasileira no século XX” in Véscio, Luiz Eugênio & Santos, Pedro Brum (org.). Literatura e história: perspectivas e convergências. Bauru: Edusc, 1999. Resguardada embora sob a ressalva acerca do seu caráter “bisonhamente redutor”, lê-se ali a afirmação de que a história da literatura é uma “das vítimas mais contundentes (...) do recente ataque irracionalista patrocinado pela voga do formalismo pós-modernista” no Brasil. E mais ainda: “Olhamos para o panorama acadêmico e nos fica a impressão de que a noção mesma de história, no sentido trivial de relato de conjunto sobre determinado tema considerado ao longo do tempo, desapareceu do horizonte” (ob. cit., p.97-98).

[6] Markiewicz dá notícia de obras de fôlego - realizadas ou em realização no momento em que escrevia - de autores alemães, franceses, russos e poloneses. Entre nós, para acrescentar mais um dado à lista, era publicada em 1970 a primeira edição da História concisa da literatura brasileira de Alfredo Bosi.

[7] Sobre o assunto, ver o artigo citado de Lindenberger.

[8] Ver sobre o assunto Lima, Luiz Costa. “A narrativa na escrita da história e da ficção” in A aguarrás do tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

[9] Confira-se a propósito Chiappini, Ligia. “Literatura e história: notas sobre as relações entre os estudos literários e os estudos historiográficos” in Literatura e sociedade, n° 5, 2000, São Paulo, DTLLC-USP.

[10] Já em 1961, em tese apresentada ao II Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, realizado em Assis, São Paulo, João Alexandre Barbosa salientava o mérito de A literatura no Brasil e Formação da Literatura Brasileira por lograrem estabelecer “uma correlação maior entre os estudos histórico-literários brasileiros e as perspectivas da crítica moderna” (cf. “Ensaio de historiografia literária brasileira” in Opus 60: ensaios de crítica. São Paulo: Duas Cidades, 1980, p.49).

[11] Nunes, Benedito. “Historiografia Literária do Brasil” in Crivo de papel. São Paulo: Ática, 1998, p. 239 et passim.

[12] Não poucos aliás têm Afrânio Coutinho na conta de um mero “vulgarizador de doutrinas alheias”. Confira-se a propósito Martins, Wilson. A crítica literária no Brasil, vol. II; 3ª edição atualizada. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2002, p. 55-62 et passim.

[13] Barbosa, João Alexandre. “Paixão crítica” in A leitura do intervalo. São Paulo: Iluminuras, 1990, p.60.

[14] Martins, Wilson. Ob. cit., p.62.

[15] Coutinho, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. 17ª edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. Os trechos mencionados encontram-se, respectivamente, às páginas 15 e 16.

[16] Bolecki, Wlodzimierz. “Czym stala sie dzis historia literatury” in Polowanie na postmodernistów. Kraków: Wydawnictwo Literackie, 1999, p.353. A observação de Bolecki quanto à relativa estabilidade dos problemas e métodos no domínio da história literária parece aplicável, sem maiores adendos, ao caso brasileiro. À parte o recorte cronológico efetuado em cada uma das obras, há mais semelhanças do que diferenças, por exemplo, entre Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido, e a recém-publicada A literatura no Brasil - origens e unidade, de José Aderaldo Castello (São Paulo: Edusp, 1999). Dando outro exemplo, e dessa vez deixando de lado a diferença de nacionalidade de seus autores, com o que ela possa implicar em termos de particularidades em seus respectivos ângulos de visão, há mais convergências do que discrepâncias entre a História concisa da literatura brasileira, de Alfredo Bosi, e a História da literatura brasileira de Luciana Stegagno Picchio (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997). Evidentemente, não equivale isso a dizer que a historiografia literária não muda, ou que a reflexão meta-historiográfica não procure instá-la a mudar. Sobre propostas contemporâneas de renovação da história da literatura, leia-se a valiosa coletânea organizada por Olinto, Heidrun Krieger. Histórias de literatura: as novas teorias alemãs. São Paulo: Ática, 1996. Sobre o assunto, consulte-se ainda Süssekind, Flora. “Relógios e ritmos” in A voz e a série. Rio de Janeiro: Sette Letras; Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.

[17] Süssekind, Flora. Cinematógrafo de letras: literatura, técnica e modernização no Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1987.

[18] Há uma tradução brasileira do ensaio em Gumbrecht, Hans Ulrich. A modernização dos sentidos; trad. de Lawrence Flores Pereira. São Paulo: Editora 34, 1998.

[19] Gumbrecht, Hans Ulrich. Ob. cit., p.67.

[20] Rocha, João Cezar de Castro. “A materialidade da teoria” in Gumbrecht, Hans Ulrich. Corpo e forma: ensaios para uma crítica não-hermenêutica; org. de João Cezar de Castro Rocha. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998, p.18.

[21] Gumbrecht, Hans Ulrich. “O corpo versus a imprensa”, ob. cit., p.71 (o grifo é do autor).

[22] E a autora é a primeira a demonstrá-lo, mencionando explicitamente o artigo de Gumbrecht a que se aludiu.

[23] Lajolo, Marisa & Zilberman, Regina. A formação da leitura no Brasil; terceira edição. São Paulo: Ática, 1999 (a primeira edição é de 1996).

[24] Idem. A leitura rarefeita. São Paulo: Ática, 2002, p.11 (a primeira edição da obra, lançada pela Brasiliense, data de 1991).

[25] Idem. A formação da leitura no Brasil, p.309.

[26] Ibidem, p.10-11.

[27] Bosi, Alfredo. “Por um historicismo renovado: reflexo e reflexão em história literária” in Literatura e resistência. São Paulo: Cia das Letras, 2002. O artigo foi originalmente publicado in Teresa, revista de literatura brasileira, número 1, São Paulo, FFLCH-USP, 2000.

[28] Ibidem, p.9.

[29] Ibidem, p.10.

[30] Ibidem, p.53.

[31] Confira-se a propósito o que escreveu Davi Arrigucci Jr. sobre Céu, inferno: “(...) é no espaço da literatura brasileira e em algumas incursões no terreno teórico que o livro mostra sua garra. Bosi é o autor da História concisa, manual indispensável ao estudo de nossas letras. Agora volta mudado; mais detido, penetrando fundo em figuras centrais de nossa literatura - Machado, Raul Pompéia, Graciliano, Guimarães Rosa, Drummond... O ensaísta amadureceu e intensificou sua visada analítica, refletindo sobre a própria arte da interpretação, sem no entanto abandonar a perspectiva histórica como um ponto de vista fundamental nos estudos literários. Não descuida, por isso, da análise formal nem se afasta do presente. Ao contrário, se esforça por integrar todo detalhe significativo no movimento geral da sociedade e no curso das idéias, sem perder de vista seu próprio tempo.” InCéu, inferno, de Alfredo Bosi”. Outros achados e perdidos. São Paulo: Cia das Letras, 1999, p.329-330.

[32] Bosi, Alfredo. “Por um historicismo renovado”, p.11.

[33] Ibidem, p.43.

[34] Chiappini, Ligia. “Os equívocos da crítica à Formaçãoin D’Incao, Maria Ângela & Scarabotolo, Eloísa Faria (org.). Dentro do texto, dentro da vida: ensaios sobre Antonio Candido. São Paulo: Cia das Letras, 1992.

[35] Idem, ibidem, p.170.

[36] Ibidem, p.170.

[37] Ver sobre o assunto Motta, Leda Tenório da. Sobre a crítica literária brasileira no último meio século. Rio de Janeiro: Imago, 2002.

[38] Motta, Leda Tenório da. Ob. cit., p.201.

[39] Candido, Antonio. “Variações sobre temas da Formaçãoin Textos de intervenção; seleção, apresentação e notas de Vinicius Dantas. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2002, p.93.

[40] Schwarz, Roberto. “Os sete fôlegos de um livro” in Seqüências brasileiras. São Paulo: Cia das Letras, 1999.

[41] Risério, Antonio. Textos e tribos: poéticas extraocidentais nos trópicos brasileiros. Rio de Janeiro: Imago, 1993.

[42] Ibidem, p.109-110 (o grifo é meu).

 

© Marcelo Paiva de Souza 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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