Narrativa e experiência: a marca das mãos do oleiro

Luiz Antonio Mousinho

Universidade Federal da Paraíba- UFPB -BRASIL
Doutor em Teoria e História Literária -UNICAMP - Brasil
lmousinho@yahoo.com.br


 

   
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RESUMO:
Em alguns de seus textos, a escritora brasileira Clarice Lispector coloca o choque entre culturas como possibilidade de conhecimento de nossa própria cultura. Pela via da paródia, do dialogismo e da polifonia (Bakhtin), suas narrativas buscam desconstruir certo enrijecimento perceptivo ocasionado por um saber que poderíamos chamar "de viés cartesiano", entranhado no senso comum. Em contrapartida, nos mesmos textos, parece haver uma revalorização da experiência e da narrativa como pólo germinador, ante a fragmentação da informação (Benjamin). Estudamos aqui aspectos de três narrativas, sendo elas o conto "A menor mulher do mundo", de Laços de família, e as crônicas "Corças negras" e "Viagem a Bolama", publicadas em A descoberta do mundo. Dentre as categorias de nossa abordagem do texto, destacaria as de narrador e focalizador (Genette).

 

“E assim, quando o motorista ligou o rádio, ouviu que o bacalhau produzia nove mil óvulos por ano. Não soube deduzir nada com essa frase, ela que estava precisando de um destino”.
        (Clarice Lispector - “A bela e a fera”).

Na prosa da escritora brasileira Clarice Lispector é algo recorrente a tematização de personagens vistos em meio à rotina, ao amorfo de uma vida cotidiana automatizada e despertados para uma ampliação de percepção da existência, a partir de um incidente qualquer. No conto “A bela e a fera” (Lispector: 1992), por exemplo, é revelado que tudo na vida burguesa da protagonista Carla Sousa Santos havia sido macio como um pulo de gato, até o deparar-se com um mendigo na rua, visão que a faz mergulhar nas fachadas falsas de sua vida. É o topos na narrativa clariceana do incidente qualquer que quebra a naturalidade da vida diária, desloca seus lugares-comuns, amplia as percepções na rotina cegada, dispersa entre fragmentos que não se iluminam.

Em alguns textos de Clarice, o contato com uma outra cultura é que vai provocar a instabilidade do solo comum. Entre esses textos estão duas crônicas publicadas em jornal, posteriormente reunidas em A descoberta do mundo, intituladas “Corças negras” e “Viagem à Bolama” (Lispector: 1992-b). Antes, observaremos alguns aspectos da questão do choque cultural no conto “A menor mulher do mundo”, suplementando aspectos apresentados em outro estudo. [1]

No ensaio “Conceito de Iluminismo”, Adorno e Horkheimer (1980) questionam certa racionalidade instaurada desde o século XVII pela ciência moderna. Em vários de seus registros e permanências, tal racionalidade, de raiz cartesiana, entranhou-se em nossa sociedade - branca, civilizada, ocidental, capitalista - trazendo reflexos profundos no modo de reprodução da ciência, dos modos de sentir e pensar. Num de seus ensaios, Marilena Chauí lembra que o sujeito cartesiano é dotado do poder de instaurar a própria objetividade, quando esta acaba se resumindo ao conjunto de “operações realizadas pelo sujeito a fim de determinar completamente um objeto”. Fica assim pressuposta “a separação entre sujeito e objeto como termos independentes e exteriores um ao outro”. [2]

O conto “A menor mulher do mundo”, de Laços de família, de Clarice Lispector, desconstrói esse olhar cartesiano, ao colocar em confronto dois tipos distintos de cultura, a nossa e a de tribos africanas. A fatura literária, baseada em forte viés paródico e fundada numa espessura dialógica e, mais que isso, polifônica, permite romper a naturalidade grudada sobre a superfície das coisas, colocando em perspectiva os tipos de racionalidade com os quais lidamos e, sobretudo, a vida cotidiana que passa sem ser vista, sentida. [3]

Duas linhas principais se evidenciam no texto. Na primeira, certo discurso cientificista, com caricatos traços positivistas, encarnados de maneira mais evidente sobretudo no personagem Marcel Pretre. Ele, um cientista-explorador, pétreo na dedicação aos ideais da ciência positiva. Marcel Pretre, cientista, explorador, embrenhado nas selvas do Congo Central, descobre a tribo dos menores pigmeus e, entre eles, a menor das menores pigméias, menor mulher do mundo. Sua descoberta é divulgada no suplemento dos jornais dominicais, com imagens e textos sendo recebidos em lares de classe média brasileira. Tal recepção de informações através da mídia, as reações que resultam dessa recepção, trazem traços de vários modos de percepção social, com seus lugares-comuns estabelecidos, o que é impresso de maneira forte na própria estrutura narrativa, que mimetiza e desestabiliza tais lugares-comuns, tais modos de perceber. Numa segunda linha, isto é feito através do trato relativo à informação jornalística.

Em “Sobre alguns temas em Baudelaire”, Walter Benjamin assinala como a narração (do narrador tradicional, a narração oral) não visa comunicar o puro-em-si do acontecimento, se infiltra na vida de quem a relata e é dada “ao ouvinte como experiência” (Benjamin, 1980-c, p.3). Desenvolvendo mais detidamente no ensaio “O narrador” as relações entre narração (oral) e informação, o autor assinala como uma das características desta, a de ela já vir amarrada por todos os lados de explicações. Em dois momentos seguintes, Walter Benjamin notará a falta de certa amplitude de oscilação na informação, seu caráter unívoco, a falta dessa força de germinação que faz o texto criativo apontar para o entroncamento de vários sentidos.

Como dirá Freud, noutro contexto, os textos dos sonhos e da obra artística como “todos os textos genuinamente criativos, são produto de mais de um motivo único e mais de um único impulso na mente do poeta e são passíveis de mais de uma interpretação (Freud s/d: 279). Essa possibilidade de “superinterpretação” do sonho e da obra literária confirma seu caráter ambíguo, plurívoco. Merleau-Ponty assinalará, por sua vez, que “o equívoco é essencial à existência humana, e tudo o que vivemos, ou pensamos tem sempre vários sentidos” [4]. Noutro momento o filósofo francês também apontará o quanto é necessário “que reconheçamos o indeterminado como fenômeno positivo”. [5]

É esse indeterminado positivo, esse equívoco amplificador de percepções, desoxidador do que por vezes se faz cegueira perceptiva no lugar-comum, é essa amplitude de oscilação (para voltar a Walter Benjamin) que por vezes é sonegada como possibilidade pelo que Adorno chama de sociedade tecnificada instaurada a partir do Iluminismo.

A relação cindida com a natureza para esse tipo de racionalidade, para essa nossa racionalidade, será assinalado de maneira radical por Adorno e Horkheimer. Segundo os autores, a natureza só interessará ao homem na medida em que possa ser aplicada para ser dominada ela própria pelos homens e para dominar outros homens. (Adorno & Horkheimer 1980:90). Além disso, para os autores o Iluminismo “incinerou os últimos restos de sua consciência de si” e “só um pensar que faz violência a si próprio é suficientemente duro para quebrar os mitos”. Desencantado de mitos, o mundo parece seguir por si, como em crônica de Clarice Lispector, onde o narrador assinala que a vida parece o estar num transatlântico enorme de onde se perdeu a consciência de se estar nele.

O confronto entre uma racionalidade que se instaura a partir de uma cisão com o mundo natural e outro tipo de vida possível em integração ampla com a natureza, vai ser colocado em pauta pela ficção em “A menor mulher do mundo”. No início do texto, o explorador Marcel Pretre é visto embrenhado nas profundezas da África Equatorial. Encontrada a tribo de pigmeus de pequenez surpreendente, ele prossegue e progride, mais longe vai, surpreso, tendo sido informado de tribo menor ainda. Em progressão máxima, a tribo mínima é achada, o menor ser dela, medido: 45 centímetros, “madura, negra, calada”. “‘Escura como um macaco’”, como sai na informação dada por ele à imprensa.

Os discursos científico e jornalístico vão mediar o tempo todo (estilizados, parodiados) a apresentação da personagem [6]. O discurso literário vai ativar tais modos de a personagem ser olhada. E vários outros, como o de um narrador que freqüentemente desliza, não se compromete com os olhares dirigidos à tribo de pigmeus. Por vezes se volta a esses olhares, mas com freqüência, se afasta deles, com freqüência subverte-os.

O querer entender os pigmeus representará um momento difícil para os personagens que recebem informações e imagens dos aborígenes pelos jornais. É representada então a tentativa de entendimento possível da diferença perturbadora, uma aproximação difícil feita pelo explorador amarelo, por nós leitores, pelo narrador a perscrutar a escuridão da outra cultura, o enigma da outra pessoa. Particularmente pelo explorador Marcel Pretre, munido do aparato cientificista/ positivista que se coloca de maneira afastada e elevada - por vezes cindido e senhor de si em relação ao seu objeto de estudo, por vezes comovido e perturbado ao deparar com os pontos cegos de seu saber instrumental.

A primeira definição sobre a pigméia menor do mundo refere-se à sua cor e a um assemelhamento dela com o reino animal. “Escura como um macaco”, é dito no texto, em forma de citação, num estilo de sucintez próprio do recorte da informação jornalística. E com todo um lastro cultural nosso (branco, civilizado, ocidental) de aproximação dos traços dos negros aos macacos, numa separação claramente hierárquica entre os humanos, o que em outros momentos históricos justificou instituições como a escravidão. [7]

O conjunto de dados narrativos em “A menor mulher do mundo” parece desfazer o tempo todo uma intenção etnocêntrica centrada nos personagens, empenhados em apagar a diferença através de classificações tranqüilizadoras. A postura do narrador e vários outros elementos textuais, desmascaram as tentativas de reduzir o outro ao mesmo, o que é feito com forte recurso à ironia.

Os elementos associam a personagem Pequena Flor aos mistérios perturbadores das profundezas da floresta e configuram os traços que resultam numa unidade de efeito semelhante à que dá vida ao personagem Marcel Pretre, visto apegado aos instrumentos tão precários quanto presunçosos de seu saber científico, melhor, de um certo saber cientificista, positivista, que ele encarna pelo exagero de linhas e traços próprios da caricatura.

O texto não nega a ciência ou o que pode haver de belo na vertigem do olhar o outro com desejo, medo ou sede de conhecimento. O que o conto desvela é um olhar etnocêntrico que busca encontrar identidades no outro e não as encontrando rejeita esse outro como inferior ou aberrante. Esse olhar tanto se faz presente no discurso leigo, na fala do senso comum, como na atitude científica redutora, ambas revelando forte impulso ideológico.

No conto, vê-se ainda o abalo que a possibilidade de outros modos de vida instaura no lugar-comum do ambiente familiar, que rejeita justamente o que é visto como não-familiar e por isso transferido para a esfera do anormal, da exceção à natureza. Isso quando as facetas das relações sociais, dos costumes e das crenças são sentidas exatamente como pertencentes à esfera do natural, do único, da identidade, da negação da diferença.

No conto “A menor mulher do mundo”, várias estratégias hierarquizadoras vão sendo ironizadas, ao mesmo tempo em que vai sendo mostrada a cultura do diferente e a natureza em um processo de integração.

Na leitura do conto percebe-se o quanto a estrutura narrativa se tece num jogo que busca revelar o relativo de dados culturais sentidos como leis naturais, instaurando um deslocamento de posições onde um Eu se entende dolorosamente pelo que vê no Outro, melhor, "que se entende no que supõe ver no Outro" (Santos: 1987). A linguagem literária torce a aparente naturalidade grudada sobre as coisas, propondo um novo olhar sobre tais dados. Vê-se o texto interessado em ativar sentidos, ampliar a percepção, flagrando mesmo o choque cultural e o esforço dos personagens postos em cena em encobri-lo.

Indagado certa vez sobre relações entre natureza e cultura, Claude Lévi-Strauss realçou as tensões entre ambos os termos, historicamente postos em pólos opostos.

"durante toda a tradição judaico-cristã e mais ainda desde o nascimento da ciência moderna no século 17, o homem se considera mestre e senhor da natureza, considera que ela é sua, que pode fazer com ela o que bem entender. Essa atitude criou uma espécie de fosso entre a racionalidade e a ordem natural, que se tornou apenas um objeto, um instrumento, e não um interlocutor. Mas há também o fato de que, no seu desenvolvimento, o pensamento científico nos fez compreender muito mais do que compreendíamos pelo passado. Nesse sentido, ele nos aproximou da natureza. É um fenômeno de dois gumes. Mas não sou dos que desprezam e se afastam do pensamento científico. Tenho muito respeito por ele. Tento utilizá-lo não para submeter-lhe a natureza, mas para melhor compreendê-la" (Lévi-Strauss 1989: 25).

No conto, a voz narrativa vai, através de discretos e afinados recursos de linguagem, estilizando o discurso científico e dos meios de comunicação, introduzindo um tom paródico que descola a visão da obra desses discursos, denunciando seu caráter ideológico.

A posição de olhares que miram Pequena Flor é fascinada, porém hierarquizadora. Toda sociedade talvez deva precisar de seus centros, como forma de defesa da própria cultura, de instauração de seu próprio cosmos [8]. Porém, a partir da racionalidade instaurada na nossa, tal mecanismo de defesa se tornou instrumento de destruição e esvaziamento da cultura alheia. De atrofia e empobrecimento na nossa própria experiência, com suas possibilidades de vida, seus espaços perceptivos cimentados a um lugar-comum por vezes vazio de significação. Talvez a necessidade de pré-concepções no desenhar os cosmos possíveis de grupos sociais seja inevitável. Porém, as pré-concepções rígidas, estas sim, já são a ideologia, imersa em seu movimento paralisante, falseador. [9]

No final da narrativa, o explorador mostra-se resignado a tomar notas, em meio à sua desorientação pela incapacidade de reter Pequena Flor nos parâmetros do seu saber. Tal desorientação geral ante a estranheza instaurada pela diferença presentificada por Pequena Flor, pretende-se equacionada de forma mais simples por alguém, na sede geral por referências: "— Pois olhe — declarou de repente uma velha, fechando o jornal com decisão —, pois olhe, eu só lhe digo uma coisa: Deus sabe o que faz".

A impossibilidade de racionalizar o não-classificável está refletida no gesto lacônico do explorador e na entrega da solução à instância divina (pela velha), portanto no discurso da ciência e na fala do senso comum. A ânsia por similaridades se apossa dos vestígios do não percorrido e, impotente para desfazê-los, resigna-se na crença de que, por linhas tortas, o percurso far-se-á único. Matizando mais: no pólo lugar-comum do senso comum, estaria talvez a brecha por um entendimento em algum momento mais aberto e tolerante, para uma discreta generosidade no acreditar em outros mundos possíveis, em aceitá-los.

Uma terceira leitura possível é sugerida por trecho de crônica da autora justamente “Estado de graça”. Nele, a narradora, ao refletir sobre os riscos e o erro se tal estado de graça nos fosse dado com frequência, afirma que “Deus sabe o que faz”, assinalando o risco de passarmos “definitivamente para o outro lado da vida, que também é real, mas ninguém nos entenderia jamais. Perderíamos a linguagem em comum” (Lispector: 1992-b, 91). Parece haver aí, então, o assinalamento da necessidade das culturas, de nossa cultura, preservar suas referências, seus cosmos. Porém, veja-se que a frase é a mesma da velha. No conto, esse chegar ao ponto de deixar para lá ou para a instância divina as aberturas perceptivas permitidas pelo contato com a cultura do outro, não ensaia anular a diferença, nem estabelecer hierarquias, reconhece a alteridade e suas possibilidades, mas chega num ponto que se resguarda.

Recusando uma necessária explicação para o problema trazido pelos jornais, o gesto da velha, partindo da experiência, parece recuperar a possibilidade de certa amplitude de oscilação, antes congelada pela informação fragmentária, pelo gesto científico e do senso comum, fixado em certezas; gesto talvez amparado na tradição e na oscilação prevista na noção de que são muitos os caminhos de Deus.

 

O estado dos outros

Na crônica “Corças negras”, publicada em A descoberta do mundo, é novamente tematizado o deslocamento perceptivo provocado pelo contato com as culturas africanas. Nesse pequeno texto, a autora narra sensações de uma passagem sua por vilas da Libéria. A narradora se vê em meio a pretos que misturam dialetos com palavras do inglês tomadas e pronunciadas “como se fossem mais um dialeto local” (1992-b: 190).

A postura do narrador é de atenção e abertura às diferenças que cautelosamente se desenham no contato entre visitantes e nativos. E o que é dito e calado - os sons da voz e suas ausências, assinalam esse contato marcado de pequenas descobertas e de certa possibilidade de susto. A narradora percebe o quanto e como as moças pretas liberianas interrompem-se em meio às conversas e ouvem com prazer e atenção a própria voz ao cumprimentarem os visitantes - “dizem com cuidado e prazer: hellô - prestam atenção à ressonância do que disseram, riem e então continuam”.

A fixação da percepção nos sons da voz, sentidos em suas singularidades, os coloca como canal privilegiado de contato com a outra cultura e mesmo de entendimento da nossa cultura, de traços despertos a partir do esbater-se com a diferença da outra cultura. Há como que uma espécie de fechamento da paisagem que possibilita uma abertura do objeto na fixação da percepção, com a redução do movimento em redor e possibilidade de focalização da atenção [10]. Na crônica, o rumor das vozes parece destacado e aumentado no texto, onde tais vozes são sentidas como águas que escorrem, entornam e enchem bilhas, trazem tons em escalas novas, alegria.

“sua voz é tão cantante que parece encher de água uma bilha”

“reclama ela entornando a bilha com sua voz de risos”

“A moça então explode em outra lengalenga que dessa vez enche várias bilhas com chuva cantante”.

“de repente tantos risos misturados à letra l e tantos espantos alegres como se o silêncio tivesse debandando”

Quando o silêncio debanda, as vozes são risos, nessa alegria marcada percebida a cada movimento dos liberianos. Mas - anota o narrador - não “há um traço de escárnio ou vontade de poder e o riso: o riso é uma mistura de fascinação, vontade de agradar, humildade, curiosidade e alegria”, riso cujo uso traz matizes diferentes do que há entre nós, onde se faz freqüentemente elemento de poder e hierarquização. Nos embates de “Corças negras”, a curiosidade entre os personagens é recíproca e se faz pelo olhar. “Sou extremamente examinado por um negro jovem”. E, noutro trecho:

“Uma delas me olha atentamente, quase encabulo. E muito de súbito brota em frase longuíssima, arenga sem raiva onde não reconheço um só r ou s, apenas variações na escala do l, vaivém de lengalenga. Recorro ao intérprete. Este resume curtíssimo: ‘She likes you’. A moça então explode em outra lengalenga que dessa vez enche várias bilhas com chuva cantante. O intérprete: meu lenço na cabeça. Tiro-o, mostro como usá-lo. Quando vejo, estou cercada de pretas moças e esgalhadas, seminuas, todas muito sérias e quietas. Nenhuma presta atenção ao que ensino, e vou ficando sem jeito, assim rodeada de corças negras. Nos rostos opacos a listras pintadas me olham. A doçura contagia: também me aquieto, doce. Uma delas então se adianta no seu pé leve, e como se cumprisse um ritual - eles se dão inteiramente à forma - pega nos meus cabelos, alisa-os, experimenta-os, concentrada. Todas assistem” (Lispector: 1992-b, 190).

Os traços ritualísticos no gestual africano vão ser ressaltados no texto e certo envolvimento encantatório na maneira do narrador perceber os liberianos - sobretudo as pretas corças - vão reafirmar tal envolvimento. Assonâncias, aliterações, esboços de anagramas dão um ritmado viscoso, envolvido. Assim: “As negras jovens pintam o rosto com traços ocre”. Ou: “quando vejo, estou cercada por pretas moças e esgalhadas, seminuas, todas muito sérias e quietas”. As listras olham, as coisas são percebidas reintegradas, reencantadas.

As várias mediações que permeiam nossas relações sociais, suas defesas e limites, têm muitas de suas hierarquias quebradas na experiência do outro, como no momento no qual a narradora-personagem, sabendo do gosto do nativo em dar adeus, experimenta um adeus e o rapaz ao qual o gesto se dirige, "com aplicação, numa delicadeza de oferenda, ingênuo e puro, faz gestos obscenos” [11]. Isso na crônica, assinada por Clarice Lispector. No conto A menor mulher do mundo, o explorador Marcel Petre se emociona e concede um derramado “ - Você é Pequena Flor”, isso “com uma delicadeza de sentimentos de que sua esposa jamais o julgaria capaz” (Lispector, 1983: 89), nomeando pela primeira vez a pigméia. Pequena Flor esboça em resposta ao nome estabelecido o gesto de coçar-se “onde uma pessoa não se coça”(Lispector: 1993, 89), desestabilizando o conforto dado pela classificação recém-estabelecida. Neste momento, o explorador desvia pela primeira vez os olhos, o que vai ser recorrente ao longo do texto.

Mas vamos voltar à crônica “Corças negras”, publicadas no Jornal do Brasil de 5 de abril de 1969. Nela, os liberianos são percebidos como sendo “de um preto fosco e unido que parece repelir água, como o cisne, que nunca está molhado”. Na alusão às moças como corças negras, pode-se perceber também a forma não redutora, curiosa e carinhosa - fascinada, com a qual a narradora vê e se relaciona com esse outro representado por elas, notando-lhes cada gesto, cada som da outra língua, percebida em sua alteridade. Vendo a maneira positiva como os bichos estão representados no todo de sua obra, fica mais claro ainda o elogio na figuração dos liberianos em aproximação com os bichos. Em certa passagem do romance A maçã no escuro, por exemplo, o protagonista Martim está no curral e percebe os animais como se estes “já tivessem atravessado a infinita extensão da própria subjetividade a ponto de alcançarem o outro lado”(ME 1982: 91), essa “plenitude ontológica: identidade sem fissuras” que Benedito Nunes (Nunes 1989: 132) assinala ao ler os bichos em Clarice.

O contrário disso são os momentos que vimos do conto “A menor mulher do mundo”, onde a pigméia da tribo dos menores pigmeus é lida e contada pela mídia e pela média da população urbana e pelo cientista que a descreve como sendo por vezes semelhante a um cachorro, a um macaco, a um bicho qualquer. Aí há clara reificação, porém ela parte dos personagens e é desnudada pelo narrador, pelo conjunto de dados da narrativa. Daí a importância de atentar no texto, entre outros traços, para a diferença entre quem vê e quem narra, quem detém a focalização e a instância narrativa, qual a perspectiva e qual voz, para citar as categorias de G.Genette, que marcam a distinção entre focalizadores e narradores (Genette: s/d). No caso da ficção, sua força é extraída exatamente dos vários pontos de vista colocados, do jogo entre eles, da concorrência de vozes e acentos que fazem o jogo narrativo.

A presença de elementos de estilização e paródia instauram uma tensão nas narrativas de Clarice Lispector, tensão esta que assinala alguns dos principais dados de sua escritura Isso visto que o desfoque entre falas, gestos e posturas de narradores e focalizadores determinam fundamentais atares e desatares destas narrativas.

Em “A menor mulher do mundo”, boa parte do impacto que o conto provoca vem pelo coro absolutamente dissonante do narrador com os personagens. O narrador a princípio parece reforçar de maneira absolutamente violenta e redutora as posições e crenças - etnocêntricas - dos personagens, quando na verdade está desmascarando tais posições, através do engendramento de um segundo plano intencionalmente acentuado, para falar com Bakhtin. E a visão da narrativa está posta neste entrechoque entre narrador e personagens além de em outros elementos colocados nas narrativas. É preciso entender os acentos postos em cada entrechoque destes, pois, como ensina Bakhtin, “não perceber o segundo plano intencionalmente acentuado significa não compreender a obra”(Bakhtin 1990: 119)

No texto e em grande parte dos textos de Clarice, tem-se uma objetivização da linguagem média que é bastante reveladora. Tal linguagem média era percebida por Bakhtin como a

“linguagem comumente falada e escrita pela média de um dado ambiente, tomada pelo autor precisamente como a opinião corrente, a atitude verbal para com seres e coisas, normal para um certo meio social, o ponto de vista e o juízo correntes. De uma forma ou de outra, o autor se afasta dessa linguagem comum, põe-se de lado e objetiviza-a, obrigando-a a que suas intenções se refranjam através do meio da opinião pública (sempre superficial e freqüentemente hipócrita) encarnado em sua linguagem”(Bakhtin 1990: 108).

Em Tristes trópicos Claude Lévi-Strauss pensa o lastro de remorso que teria determinado o nascimento da etnografia no Ocidente. Ele também reflete sobre o quanto as outras sociedades, sejam elas melhores ou piores que a nossa (“não o podemos saber”), podem ajudar-nos a nos libertar das nossas, “não porque esta seja absolutamente ou apenas má, mas porque é a única de que temos de nos libertar: libertamo-nos pelo estado dos outros” (Lévi-Strauss s/d: 493).

Em um terceiro texto de Clarice Lispector, outra crônica, a escritora descreve em poucas linhas uma viagem à Bolama, também na África (ADM: 381). Mais uma vez o som da voz é notado — “Falam os negros um português de Portugal engraçadíssimo”. Assinala ainda a narradora que eles não têm a nossa noção de idade: um menino de 8 anos fala ter 53 anos de idade. E os portugueses os tratam a chicote. Ela pergunta se seria necessário tratá-los como se não fossem seres humanos. A resposta: “de outra maneira eles não trabalham”. “Fiquei meditativa. A África misteriosa. Neste mesmo momento em que alguém lê, lá está a África indomável vivendo”. E arremata. “Lamento a África. Gostaria de poder fazer um mínimo que fosse por ela. Mas não tenho nenhum poder. Só o da palavra. Só às vezes”.

A palavra será a maneira humilde, precária que seja, da narradora tentar juntar os cacos de uma realidade que vem em fragmentos, e por isso mesmo fere, mas traz a possibilidade iluminadora do brilho de um instante. Macabéa, de A hora da estrela, ouve as informações estilhaçadas da rádio relógio, Carla Sousa Santos (de “A bela e a fera”) não consegue saber o que fazer com a informação de que o bacalhau põe 9 mil óvulos por ano, “ela que estava precisando de um destino (Lispector: 1992 :117).

No caso das crônicas sobre a África, a escritora parece perplexa ante os dados da tragédia africana. Por um lado, fascinada ante a promessa de felicidade sugerida pela alegria, pela lembrança de ter um corpo, do poder perceber mais amplamente as coisas do mundo, certas facetas do seu próprio mundo, possibilidade que a outra cultura permite, sugere. Ao mesmo tempo, o choque ao notar a espécie de punição que sofre esse mundo africano desarmado, descolado ante forças centrípetas de uma ordem mundial tecnificada, que só pode olhar essa integração com a natureza como o signo da sua derrota, seu atraso na escala do tempo. [12]

Esse outro africano que parece teimar em não se colar a um certo progresso dentro de um tipo de racionalidade que expande-se, conquista territórios, delimita a percepção e esquece o corpo, racionaliza uniformemente a vida, multiplica o lucro. Por vezes desencanta o mundo. [13]

Mas, nos textos, permanece lá a África e seu mistério, um outro lugar instaurado, que desloca a percepção rotineira presa a si e lança outras possibilidades perceptivas. Expansão que é posta em linhas e contra-linhas no depoimento pessoal assumido pelo narrador das crônicas ou na força da ficção que desestabiliza as certezas e forja restaurar um ser à flor da pele que o lugar-comum - a cegueira da percepção, o hábito, os laços sociais - haviam mantido represado e são libertados justamente pelo que pode ser aprendido com o Outro. Esse Outro apresentado na sinuosidade de uma escritura que não sabe aconselhar, que também talvez esteja desorientado, porém ensina a ambição de alargar a percepção, de disseminar a vida e a situá-la de alguma forma numa tradição esquecida, trazendo também às vezes em seus traços “a marca de quem narra, como à tigela de barro a marca das mãos do oleiro” (Benjamin: 1980-a, 63).

 

Bibliografia

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Notas:

[1] Cf. Magalhães, Luiz Antonio Mousinho. “A menor mulher do mundo: a flor forjada”. In: FARIAS, Sônia Lúcia Ramalho de (org.). Literatura e memória cultural: tradição e modernidade. João Pessoa: Editora Universitária/ Idéia, 1997.

[2] Apud PONTIERI: 1999, 20.

[3] Como assinala Diana Luz Pessoa, o termo dialogismo termo recobre o princípio dialógico constitutivo da linguagem e de todo discurso, enquanto a polifonia caracterizaria um certo tipo de texto, aquele em que o dialogismo se deixa ver, aquele em que são percebidas muitas vozes, por oposição aos textos monofônicos que escondem os diálogos que os constituem. Cf. BRAIT, Beth. Bakhtin, Dialogismo e construção de sentido. Campinas: Edunicamp, 1997.

[4] Merleau-Ponty, Maurice. A fenomenologia da percepção. São Paulo: Freitas Bastos, 1971.p.180.

[5] Idem, ibidem, p.24.

[6] Paródia e estilização estão entre os tipos de discurso que, segundo Bakhtin, mantém uma dupla orientação, “dirigindo-se ao objeto referencial da fala, como no discurso cotidiano e (...) remete[endo] a um segundo contexto, ao ato da fala de um outro emissor” (Bakhtin 1983: 464). Na estilização, há o momento de revelar, através da fala do “autor” (leia-se narrador) “aspectos individuais ou típicos de alguém” (Bakhtin 1983: 465). Na estilização “o autor utiliza a palavra do outro no sentido de suas próprias intenções, de seus próprios projetos” (471). Na paródia, como na estilização, “o autor emprega a fala de um outro, mas, em oposição à estilização, se introduz naquela outra fala uma intenção que se opõe diretamente à original. A segunda voz, depois de se ter alojado na outra fala, entra em antagonismo com a voz original que a recebeu, forçando-a a servir a fins diretamente opostos” (Bakhtin 1983: 471).

[7] Ao mesmo tempo, é sabida a paixão clariceana pelos animais (“Por que um cão é tão livre? Porque é o mistério vivo que não se indaga”, é dito em A descoberta do mundo. ADM: 513). Tal valorização não é o que acontece aqui, quando o movimento do explorador e dos que lêem o jornal é claramente reificador, reificação que é desconstruída pelo conjunto de dados da narrativa.

[8] Cf. Eliade, Mircea. O sagrado e o profano - a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

[9] Cf. EAGLETON, Terry. Ideologia: uma introdução. Trad. Silva Vieira e Luiz Borges. São Paulo: Editora da Unesp: Editora Boitempo, 1997. 19.

[10] Para falar com Merleau-Ponty , quando ele diz que “olhar o objeto é mergulhar nele (...)e os objetos formam um sistema onde um não pode se mostrar sem esconder outros”. Cf. Merleau-Ponty. Idem, ibidem, 80-81.

[11] E aqui o baixo corporal reverte a cena, como na coceira constrangida de Pequena Flor.

[12] “As culturas humanas não pertencem a uma mesma escala”, conforme assinala Margareth Mead. MEAD, Margareth. Sexo e temperamento. São Paulo: Perspectiva, s/d.

[13] Todos podem ser como a sociedade todo-poderosa, todos podem se tornar felizes, desde que renunciem à pretensão de felicidade” (Adorno e Horkheimer, p.144). “Riscar os índios/ nada esperar dos pretos” é o que dizem parodicamente os versos de uma canção que revela algo desse movimento implícito de conquista e expansão. Cf. Veloso, Caetano. “Estrangeiro”. CD Estrangeiro. Philips.

 

© Luiz Antonio Mousinho 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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