Elas Brigam como bichos e Morrem por Amor: As Vivandeiras
Uma Leitura de Personagens Femininas na Literatura do Sul

Ms. Lélia Almeida1

lelialme@yahoo.com.br


 

   
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RESUMO
As personagens femininas de autoria masculina na literatura do Rio Grande do Sul, e na Região do Prata, do fim do século XIX e boa parte de Século XX, apresentam padrões e perfis que se assemelham. Nas obras de autores como Javier de Viana, Acevedo Díaz, Simões Lopes Neto, Alcides Maya, Erico Verissimo, Luiz Antonio de Assis Brasil e Dionísio da Silva, as chinas, índias, curandeiras, cativas ou as negras, personagens marginalizadas e excluídas, possuem características parecidas. No presente trabalho, a partir de uma leitura comparatista e de gênero, analisaremos um grupo específico deste universo feminino, o das intrigantes e singulares vivandeiras.

Palavras-chave: literatura comparada, crítica feminista, literatura do Rio Grande do Sul, literatura latino-americana, fronteira e região, vivandeiras.

RESUMEN
Los personajes femeninos de autoría masculina en la literatura del Río Grande del Sur e de la región del Plata, del final del siglo XIX y parte del siglo XX, presentan padrones y perfiles que se asemejan. En las obras de autores como Javier de Viana, Acevedo Díaz, Simões Lopes Neto, Alcides Maya, Erico Verissimo, Luiz Antonio de Assis Brasil e Dionísio da Silva, las chinas, indias, curanderas, cautivas o las negras, personajes marginadas y excluidas, poseen características parecidas. En el presente trabajo, a partir de una perspectiva comparatista y de género, analizaremos un grupo específico de ese universo femenino, el de las intrigantes y singulares vivanderas.

Palabras-clave: literatura comparada, crítica feminista, literatura do Río Grande del Sur, literatura latino-americana, frontera y región, vivanderas.

 

CANÇÃO DA VIVANDEIRA [2]

Ai que vida que passa na terra
Quem ouve o rufar do tambor
Quem não canta na força da guerra
Ai, amor, ai amor, ai amor

Quem a vida quiser verdadeira
É fazer-se uma vez vivandeira
Só na guerra se matam saudades
Só na guerra se sente o viver

Só na guerra se acabam as vaidades
Só na guerra não custa morrer

Ai que vida, que vida
Ai que sorte tão bem escolhida

Ai que vida que passa na guerra
Quem pequena na guerra viveu
Quem sozinha passando na terra
Nem o pai, nem a mãe conheceu

Quem a vida quiser verdadeira
É fazer-se uma vivandeira

Ai que vida é esta que eu passo
Com tão lindo gentil mocetão
Se eu depois da batalha o abraço
Ai que vida pra meu coração

   

Que ternura cantando ao tambor
Ai amor, ai amor, ai amor

Que harmonia tem a metralha
Derrubando fileiras sem fim
E depois, só depois da batalha
Vê-lo salvo, cantando-me assim

Tuas marchas te fazendo trigueira
Mais te amo gentil vivandeira

Não me assustem trabalhos da lida
Nem as balas me fazem chorar
Ai que vida, que vida, que vida
Esta vida passada a cantar

Que eu lá sinto no campo o tambor
A falar-me meiguices de amor

Mas deixemos os cantos sentidos
Estes cantos do meu coração
E prestemos atentos ouvidos
Rataplão, rataplão, rataplão

Rataplão, rataplão, que o tambor
Vai cadente falando de amor.

 

INTRODUÇÃO

A representação das mulheres da fronteira como personagens que atravessam a literatura do sul, se dá de maneira marcante e dramática. Longe de serem moças casadoiras e bem comportadas, sua característica principal é a da marginalidade e da exclusão. Exclusão em relação a uma norma patriarcal que dita um modo feminino de ser idealizado, e marginalidade em relação a uma sociedade que as nega como cidadãs e as rejeita.

Tanto como personagens e como objeto de análise, as mulheres da fronteira não encontram espaço de reconhecimento e legitimidade. A escassez de material, tanto nos estudos literários como na historigrafia, atesta esta evidência.

Este trabalho se propõe a analisar as personagens que encarnam as mulheres da fronteira na obras de alguns escritores brasileiros, argentinos e uruguaios do século XIX e século XX. A leitura destas personagens quer refletir sobre o lugar e importância destas figuras, refletindo, também, desta maneira, sobre as representações do feminino e das relações entre os homens e as mulheres da fronteira.

Os estudos sobre mulheres, recorrentes na atualidade, ao considerarem a mulher como tema de investigação, consideram o sexo como categoria analítica legítima porque social, “en el sentido de que la experiencia y existencia de la mujer como grupo social diferenciable del hombre se debe a factores sociales y no naturales o biológicos”. [3]

Para Rita Schmidt [4], neste mesmo sentido,

[...] Enquanto o termo sexo se refere ao dado biológico, o termo gênero constitui um sistema social, cultural, psicológico e literário construído a partir de idéias, comportamentos, valores e atitudes associadas ao sexo, através do qual se inscreve o homem na categoria do masculino e a mulher na do feminino. Essas categorias desempenham papéis na sociedade, no contexto do poder patriarcal, moldando realidades e processos de significação, pois está na base da ordenação simbólico-conceitual do mundo de acordo com o princípio da Lei do Pai. (p.31)

A representação das personagens femininas, e aqui, a das mulheres da fronteira em textos de autoria masculina, nos possibilita, sem dúvidas, investigar sobre o imaginário literário dos escritores do sul, que apresentam estas personagens de maneira singular.

As mulheres da fronteira, conhecidas, historicamente, como as que têm fogo nas ventas e usam faca na bota, são mulheres fortes, viris, que não se submetem e, são, mesmo assim, vítimas das mais diferentes situações de violência, exclusão e de muitos preconceitos.

Os autores escolhidos para a análise destas personagens são Javier de Viana, Acevedo Díaz, Simões Lopes Neto, Alcides Maya, Erico Verissimo, Luiz Antonio de Assis Brasil e Dionísio da Silva.

 

1 MULHERES QUE ESCREVEM SOBRE OUTRAS MULHERES

Na atualidade, muitos são os estudos que tratam da análise das personagens mulheres em obras de autoria tanto masculina como femininas. Estes estudos, que configuram uma linha de investigação própria da crítica literária feminista propõem um olhar crítico e esclarecedor das representações do feminino na cultura patriarcal.

O trabalho de Ingrid Stein (STEIN, 1984, p.13), Figuras femininas em Machado de Assis, tem como objetivo a análise das figuras femininas nos romances de Machado de Assis

(...) com a intenção de através dela, dar uma contribuição à crítica sobre o autor, na medida em que procurarei verificar, do ponto de vista feminino, a situação da mulher na realidade social da cidade do Rio de Janeiro na segunda metade do século passado e, a partir daí, estabelecer como e até que ponto o escritor refletiu a realidade feminina em sua obra, bem como tentar cristalizar a sua visão de mulher. (p.13)

Para tanto, escolhe, a partir dos romances machadianos, as personagens que vão traçando um perfil feminino da sociedade carioca e brasileira do século XIX e divide-as em mulheres mártires, adúlteras, solteironas celibatárias, viúvas machadianas e mulheres marginalizadas.

O trabalho de Maria Antónia Lopes [5] em Mulheres, espaço e sociabilidade. A transformação dos papéis femininos à luz de fontes literárias (segunda metade do século XVIII), parte de alguns questionamentos como:

(...) Como se vivia a vida de relação no nosso país (Portugal) nesse século, que é social por excelência? O modelo estrangeiro era ou não conhecido? Tinha ou não gerado seguidores? As mulheres viviam ou não reclusas? E se não, como se processara a sociabilização das mulheres portuguesas? Que tensões e conflitos a transformação provocou? Como passaram a ser vividas e representadas as relações entre os sexos? Que educação recebiam as mulheres? (LOPES, 1989, p.9).

Tentando responder a estas questões e abordando fontes literárias para ler as representações das condutas femininas, divide o seu trabalho, basicamente, em tópicos que falam sobre a clausura do espaço doméstico, das mulheres solteiras, das casadas e das viúvas.

Em Estados da Mulher. A identidade feminina na ficção ocidental, Nathalie Heinich [6] esclarece que o propósito de seu estudo visa mais do que criar um simples repertório ou nomenclatura dos diferentes estatutos femininos na ficção ocidental:

(...) trata-se de compreender como se estrutura este espaço de possibilidades, como se articulam estas configurações, que deslocamentos se podem produzir de uma posição a outra; e de observar ao mesmo tempo o trabalho que opera a ficção em relação à realidade. (Heinich: 1988, pp.16:17).

Classifica as personagens analisadas em raparigas sem história, raparigas a tomar, raparigas mal-tomadas, raparigas deixadas, as outras, as emancipadas, as viúvas, as concubinas, as mulheres banidas e punidas, as cortesãs, as mulheres de má vida, as atrizes, as prostitutas, as domésticas e as governantas, as solteironas e as pedantes, as tias gentis e as tutoras malvadas, as loucas e as bruxas.

Maria Thereza Caiuby Crescenti Bernardes [7] em seu capítulo “Romances urbanos no Rio de Janeiro do século XIX: repositório de imagens femininas”, de seu trabalho Mulheres de ontem? Rio de Janeiro. Século XIX, citando detalhadamente autores como Macedo, Machado de Assis, José de Alencar e Aluísio Azevedo, classifica as personagens femininas dos romances destes autores em diferentes grupos que abarcam as filhas ainda meninas, jovens casadoiras, casadas sem filhos, mães de família, viúvas casadoiras, viúvas, solteironas, mulheres sem estado civil mencionado e as mundanas.

Em Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX, Maria Odila Leite da Silva Dias [8] faz referência assídua às personagens femininas dos romances de Machado de Assis, José de Alencar, Domingos Olympio, Álvares de Azevedo, e busca através de algumas mulheres de grupos populares uma possibilidade de conhecer um universo feminino esquecido pela historiografia oficial. Trata-se das padeiras, quitandeiras, donas ausentes, senhoras e ganhadeiras, escravas, tecelãs, costureiras, fiandeiras, bruxas, mulheres-machos, miseráveis e necessitadas.

Há um fio condutor nestas leituras, a constatação de que há um motivo comum que vitimiza estas mulheres a um estado de precariedade e necessidades supremas: a perda da proteção paterna - e no caso das personagens gaúchas este fato se explica pela quantidade de baixas masculinas nas inúmeras guerras, o que deixava as mulheres da família em franco desamparo - a viuvez, ou a solteirice.

A antropóloga mexicana Marcela Lagarde [9] em seu já clássico e exaustivo trabalho sobre as mulheres, para analisar as diferentes formas do que ela concebe como cativeiro feminino [10] , divide seu grupo de análise entre “madresposas, monjas, presas, putas y locas” e as vê como mulheres pertencentes às classes sociais de duas maneiras: pela via patriarcal, como filhas, esposas, mães ou amantes; e, por conta própria, por serem elas mesmas operárias, burguesas, camponesas, etc. Por uma via ou por outra, as mulheres são, historicamente, vítimas de uma situação de cativeiro que as torna sem autonomia e dependentes, mesmo que em diferentes graus e formas umas das outras. (Lagarde, 1997, p. 170).

As “madresposas” estariam cativas da e na maternidade, na conjugalidade, na família e no espaço doméstico. As monjas no tabu da sexualidade, enclausuradas pela religião no convento. As presas estariam cativas do delito e do mal, nos cárceres. As prostitutas na sua sexualidade dividida, sendo objeto de prazer para outrem, da prostituição, nos bordéis. E as loucas estariam cativas da sua loucura genérica, da racionalidade, nos manicômios (Lagarde, 1997, p.174).

Também Mary Del Priore [11] constrói sua leitura classificatória em Ao sul do corpo: condição feminina, maternidades e mentalidades no Brasil Colônia, em que vai às fontes para conhecer as “mães sem qualidades”, as mulheres seduzidas e as mulheres abandonadas, as mães que davam leite e as mães que davam mel, as filhas da mãe, a santa-mãezinha, as diabas, as sereias, as medusas e as melancólicas, as madres enfeitiçadoras. E, conhecendo-as, falar das práticas da maternidade, do matrimônio, procriação, parto ou abortos no Brasil Colônia.

E sobre o século XVIII, Leila Mezan Algranti [12] em Honradas e devotas: Mulheres da colônia. Condição feminina nos conventos e recolhimentos do sudeste do Brasil, 1750-1822, pergunta-se quem eram aquelas mulheres enviadas, na calada da noite, sistematicamente, ao recolhimento feminino da Santa Casa da Misericórdia? E que motivos ou condutas morais as faziam ser enclausuradas? Ou qual seria a história daquelas órfãs e viúvas? Mulheres que viviam a reclusão tanto como preservação da honra e da virtude, como possibilidade de um diferenciado espaço de sociabilidade e de independência, longe da família. Mesclam-se aqui a história das mulheres religiosas e das mulheres que, por toda sorte de circunstâncias, muitas vezes, alheias à religião, são aceitas em estadias permanentes ou passageiras.

Todas estas estudiosas, à sua maneira, explicitam o desejo de ouvir a história destas vozes silenciadas e murmurantes e, que, na atualidade, através da sua interlocução com elas, querem saber quem eram aquelas mulheres, como sentiam, o que pensavam e como viviam.

Neste sentido, no Rio Grande do Sul, o trabalho de Lisana Bertussi [13] sobre a evolução da temática feminina na poesia gauchesca de autoria masculina - que para a autora, evolui de uma perspectiva machista anterior para um momento atual mais libertador, é minucioso e pioneiro.

Delci Lopes da Silva Pelliciolli [14] analisa a função, o papel das mulheres na Revolução Farroupilha, usando para isso uma classificação de mulheres índias, negras, brancas e combatentes. E analisa a conquista do espaço feminino nas letras através da educação formal, por mulheres como Clarinda da Costa Siqueira, Rita Barém de Melo e Luciana de Abreu, entre outras.

Cíntia Schwantes [15] em seu artigo sobre as personagens femininas em contos de Simões Lopes Neto vê estas personagens femininas, que surgem num mundo que não comporta as mulheres (Schwantes, 1997, p. 110), como elementos disruptivos e que reorganizam a ordem do mundo masculino (p.110). Baseando sua leitura da gauchesca e de Simões Lopes Neto na teoria de Joanne S. Frye, em Living Stories, afirma que as personagens femininas na literatura escrita por homens e com protagonistas masculinos estão encarceradas no que ela chama de “textos da feminilidade” (Schwantes, 1997, p. 111), em que, freqüentemente, serão meros pretextos para a ação masculina. Para ela, a simples presença destas mulheres, neste mundo sem mulheres, sejam quais forem suas ações ou condutas - desencadeia uma violência que sempre termina por vitimizá-las.

Em meu trabalho [16] sobre as personagens femininas em O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, percebi de maneira bastante gráfica a representação do corpo feminino, na literatura gaúcha de autoria masculina, através de suas personagens, na divisão de um corpo sexuado, sujo, degradado e de um corpo assexuado, limpo e materno.

A estas personagens, representadas em antinomias tão evidentes, e na tentativa de uma classificação esclarecedora, chamei, umas em oposição às outras, de dignas esposas e indignas amásias. As mulheres da fronteira, as chinas, índias, negras, cativas, curandeiras, prostitutas e vivandeiras, se inserem, sem dúvidas, no segundo e último grupo. Ao das que não correspondem aos preceitos e condutas femininas exemplares prescritas, historicamente, pela sociedade patriarcal às mulheres que não são boas filhas virgens, esposas e mães cumpridoras, ou viúvas decentes e solteironas virtuosas.

O presente trabalho pretende ser uma leitura inicial da figura das vivandeiras, personagem presente num sem número de narrativas da literatura do sul - e, portanto, presente no imaginário pampiano, ainda que completamente ausente da historiografia oficial.

Na terra de figuras históricas como Joana Galvão, a guardiã de Sacramento (1680), de Anita Garibaldi, a heroína farroupilha, de Chica Papagaia (1835-45), de Apolinária de Souza (1893), Olmira Leal de Oliveira (a Cabo Toco da Revolução de 1923) e Zeferina Dias, a Bolachinha, que combateu na coluna Prestes (1925) [17] , e das personagens literárias marcantes e inesquecíveis que veremos a seguir, toda a tentativa de classificação será, sem dúvidas, reducionista e insuficiente.

 

2 ALGUMAS TIPOLOGIAS NA LITERATURA GAÚCHA

Dois importantes estudos sobre o Regionalismo no Rio Grande do Sul propõem classificações sobre tipos humanos correspondentes aos personagens dos contos dos autores gaúchos analisados e que se situam no final do século XIX e início do século XX, entre eles, os que nos interessam mais de perto, Alcides Maya e Simões Lopes Neto.

Ainda que Lígia Chiappini Moraes Leite [18] , ao longo de sua exposição, faça uma análise mais aprofundada de importantes personagens femininas - de Maya, de Simões Lopes Neto e outros - ao classificar as características da prosa regionalista, em relação aos personagens, afirma que

(...) Conforme já dissemos, tal como acontece com os assuntos, é limitado o número de tipos humanos que aparecem nestes textos. Poderíamos propor, por exemplo, os seguintes itens que recobririam a maior parte dos personagens nos livros estudados: o fazendeiro, o peão, o agregado, o capataz, o carreteiro, o guerreiro, o contrabandista, o comerciante, o intelectual da cidade (a figura do médico, por exemplo), o gringo, o castelhano, a polícia, o negro (escravo ou liberto), os pequenos gauchinhos (filhos de agregados ou peões, gaúchos em miniaturas) e os velhos andaregos. (p.38)

Maria Eunice Moreira [19] em Regionalismo e literatura no Rio Grande do Sul propõe características tipológicas correspondentes aos tipos humanos do peão, do capataz, o militar, o contrabandista, o carneador, o fazendeiro, o intelectual, o estrangeiro, o negro, as mulheres, o gaúcho jovem, o carreteiro, os andaregos. (Moreira: 1982, p. 103). E adverte que, em relação ao herói e outras personagens, haveria um terceiro grupo composto de mulheres, negros e crianças e, em relação às mulheres, afirma que não chegam a assumir um papel de heroína nos textos. A elas cabe mais a função de mãe e companheira, colocando-se numa situação de submissão, mais pacientes que agentes.(p.110)

Protagonistas ou não, agentes ou pacientes, e em discordância com as colocações das duas autoras citadas acima, percebemos um número diversificado de personagens femininas, recorrentes na literatura do sul, que cruzam o pampa demarcando mapas e fronteiras com seus destinos peculiares. Diferentes das protegidas e bem cuidadas raparigas de família, devotadas esposas, virtuosas mães, virgens, solteironas e outras moças bem comportadas, outros tipos de mulheres perpassam o cenário da campanha na fronteira.

No presente trabalho foi o próprio texto literário que descortinou as personagens escolhidas. A recorrência de determinados tipos parece querer fixar um perfil e um significado para estas figuras marginalizadas. Um sem número de mulheres perdidas e sem paradeiro desfila ao longo do território da fronteira, esta verdadeira terra de ninguém, lugar de trocas inusitadas e onde, muitas vezes, na amplidão da paisagem, as mulheres têm seu espaço negado.

As escolhidas para a realização deste trabalho, portanto, personagens andarilhas dos confins fronteiriços e, na maior parte das vezes, motivo de perdição dos bravos homens do sul, são outras. Entre as pobres, as renegadas, as desamparadas, corajosas e furiosas mulheres da fronteira - as chinas, as negras, as índias, as curandeiras, as cativas e as prostitutas - são as bravas vivandeiras que pedem passagem e visibilidade.

 

3 REGIÃO E FRONTEIRA

Em seu trabalho sobre o conceito de região na teoria literária, Ricardo Kaliman [20] afirma que há duas relações entre literatura e espaço que ainda circulam no discurso crítico. Uma propõe que há um lugar onde se escreve, o espaço da enunciação literária e, outra que diz que há um lugar como tema sobre o qual se escreve, o espaço como referência do texto (p.5). A partir destas duas relações, para ele tradicionais e ainda vigentes, propõe a incorporação de uma terceira perspectiva, a do lugar em que circula a literatura, seja a comunidade para a qual o texto foi produzido, seja a comunidade que o acolhe (p.7).

Uma outra relação seria a do espaço como tema da literatura e que é de importância notável quando pensamos a literatura latino-americana de um modo geral, e o regionalismo, em particular (p.7)

Tendo em vista algumas das considerações de Kaliman sobre regiões e literatura, e se considerarmos a região do pampa e, em especial, a da fronteira, como o espaço onde articulamos importantes construções identitárias, como a da nacionalidade, por exemplo, para citar uma das mais importantes, devemos examinar o seu conceito de comunidade discursiva:

(...) concepto (...) según el razonamiento de que la relevancia social de los procesamientos textuales está determinada por un conjunto de expectativas y operaciones que comparten un conjunto de individuos, una comunidad. Todo productor de un texto tiene en mente una comunidad de este tipo, en el sentido de que espera que el texto que produce será procesado de tal o cual manera, y cualquier receptor de un texto, a su vez, lo vivirá como una función de las expectativas y operaciones propias de la comunidad en la que se inscribe. (Kaliman, 1994, p.94)

Na literatura do Cone sul, a escolha de um espaço, de uma região que nos represente e da qual falamos, pode ser vista, como quer Kaliman, como uma concepção de região não como o espaço em si, mas como uma função sobre o espaço (Kaliman, 1994 p.13).

A escolha deste espaço, nesta literatura, é o da fronteira, que, ora é margem, franja, borda, ora é vastidão infinita, ora é território sangrento e palco de guerras intermináveis, mas, sobretudo, é espaço de trocas, contatos, o lugar em que vamos construindo uma representação do como nos vemos ao sul do continente.

Na vastidão do pampa e da fronteira, figuras humanas peculiares da nossa literatura vão contando a história dessas representações identitárias.

Um espaço amplo em sua extensão geográfica e sua riqueza simbólica surge como o cenário incontestável para o aparecimento de personagens diversificados, representando as mais diversas práticas sociais e trocas culturais.

O pampa, cenário por excelência da literatura gauchesca e da fronteira como margem e limite, e também como possibilidade de travessia, são os espaços por onde transitam e erram as nossas personagens.

Para uns a fronteira é um lugar perigoso, território de hostilidades, como podemos perceber através de um dos personagens de Javier de Viana [21] em “Como y porque hizo Diós la R.O.”:

(…) En la frontera, existe siempre latente, si no un sentimiento de hostilidad, una rivalidad de razas, que el paisanaje de ambos pueblos exterioriza en pullas más o menos hirientes, pero que, entre ellos, nunca construyen motivos de enojos. (p.180)

Para outros, é um cenário de trocas, intercâmbios, em que as identidades ficam pouco claras, misturadas, como revela a fala do personagem de Julián Murguía [22] em “O campo”:

(...) Zona fronteiriça, rica também de homens e coragem. Cheguei a conhecer velhos gaúchos de chiripá e pé no chão, gente guapa na esquiva da lei e da miséria. Contrabandistas que passavam à noite, sigilosos como sorros. Gente que falava uma mistura de espanhol e português, um portunhol que, ao invés de fazê-los binacionais, tornava-os estrangeiros nas duas pátrias. O campo estava longe e muito só. Cheio de paz e solidão. Mas naqueles campos a solidão estava crivada de olhos e palpitações. (p.15)

Embora o presente trabalho seja uma reflexão sobre a fronteira pampiana, há diferentes tipos de fronteiras que se constituem ao longo do processo da expansão espanhola no nosso continente. Alistair Hennessy [23] distingue oito tipos de fronteiras: fronteras indígenas, misioneras, cimarronas, mineras, ganaderas, agrícolas, del corcho y políticas. (p.13)

Um sem número de fronteiras na América hispânica também determina uma diversidade de múltiplas e peculiares experiências. Fernando Operé, que estuda o cativeiro como uma das experiências da fronteira, esclarece que a fronteira não é uma mera linha divisória que simplesmente separa povos, pessoas e culturas. O autor concebe a fronteira como um espaço carregado de potência e vitalidade, concebe-as como corpos vivos e, comparando a fronteira norte-americana com a hispano-americana, propõe uma correspondência dos tipos humanos que aí circulam:

(...) Las fronteras son cuerpos vivos que, como tal, tienen una estructura mutable a medida que reciben el flujo de desplazamiento de los sujetos y elementos que la componen. Aspectos fundamentales del imaginario nacional están constituidos por personajes, costumbres, idiosincrasias y folklore procedentes de la elusiva complejidad de la vida fronteriza. Por ejemplo, en torno al cowboy y sus correspondientes hispanoamericanos, el gaucho, huaso, charro, llanero y vaquero, se han construido tipologías nacionales cuya reputación se ha modificado con el transcurrir del tiempo. (p. 16)

Lembrando a concepção sarmentiana do pampa marcado sob o signo maléfico de um espaço sem bordas, Jacques Leenhardt [24] une de forma indissociável a figura do pampa a do gaúcho, o que explicaria, numa certa medida, a vocação libertária e aventureira deste personagem:

(...) Por paradoxal que isto possa parecer, eu diria que o espaço dos confins é, exemplarmente, esta terra dos gaúchos, terra por definição e para sua infelicidade, inexoravelmente sem limites. O pampa é a extensão mesma, a “llanura sem limites”, marcada depois de Sarmiento sob o signo maléfico do espaço sem bordas. Essa paisagem ilimitada constitui um dos topos mais recorrentes da história da literatura, na argentina, no Uruguai e no Rio Grande do Sul brasileiro. Ele foi tema recorrente da prosa regionalista. A figura do “gaúcho” está ligada a esse ilimitado. O território, mais profundamente ainda, a alma do “gaúcho” é uma paisagem, na qual só a silhueta do homem a cavalo estabelece um ponto assinalado na imensidade. (p.30)

Também para Sandra Pesavento [25] as fronteiras, antes de se constituírem como marcos físicos, são marcos simbólicos. Espaços privilegiados da construção de identidades e alteridades onde se articulam relações especulares que nos permitem indagar sobre quem somos e quem são os outros, aquém e além dos limites da fronteira. Também para ela o espaço, a condição da fronteira é ser ex-cêntrico, ou seja, é dada pela situação de borda, margem ou franja. Não estar no centro é, pois, tanto estar distante quanto ser diferente. (p.37)

O caráter dinâmico e vivo deste espaço, também para Helen Osório [26] é imperativo, numa visão das fronteiras como linhas plenamente demarcadas ou mesmo como zonas e que se justificam em sua vitalidade quando só adquirem significados quando referenciadas às sociedades que as produziram (p.111)

Osório chama a atenção para a formação e constituição da fronteira platina como conseqüência da disputa e do processo de apropriação da terra pelos europeus e que implicou na diminuição e mesmo no desaparecimento dos territórios indígenas. (p.111) Este esclarecimento nos permite utilizar o conceito de “zona de contato” de Pratt [27] que se constituiria, basicamente, entre as fronteiras dos países colonizadores e dos colonizados, e que exploraremos mais adiante.

Assim como a fronteira é um dos motivos e temas recorrentes da literatura do sul, território a ser demarcado com o sangue derramado por inúmeras guerras, espaço de múltiplos trânsitos migratórios, outros temas como a representação do gaúcho, uma dada concepção de pátria e, no nosso entender, uma representação de tipos de mulheres, surgiriam de maneira concomitante no que alguns críticos chamaram de “comunidades inter-literárias”, “comunidades discursivas”, “zonas de contato” ou “zonas de confluência”.

Carvalhal [28] , retomando os pressupostos teóricos dos estudiosos de Bratislava, liderados por Dionyz Durisin, vê as “comunidades inter-literárias” como

(...) “formações vivas e variáveis”, na qual interagem várias literaturas nacionais, esses estudiosos comprovam não haver um fator único responsável pela formação de conjuntos que são identificados por proximidade ou parentesco ou, ainda, por analogia de meios e de procedimentos artísticos e ideológicos (p.98)

Na América Latina, a apropriação, migração de representações que se repetem - como as já citadas, da identidade do gaúcho e de pátria - junto ao trabalho de tradução que os autores fronteiriços realizam (Faraco e Schlee traduzindo Arregui e Sarmiento, por exemplo), se caracterizariam como elementos destas comunidades inter-literárias.

Esta concepção de contatos é referenciada por Lea Masina [29] numa idéia da criação de elos e do que ela chama, na mesma linha de significados proposta pelos teóricos anteriores, como “zonas de confluência”, múltiplas e de trocas permanentes. Para ela a fronteira é uma zona geográfica que corresponde a limites políticos, fortemente impregnada por elementos extraliterários, como a história (p.)

O conceito de Mary Louise Pratt [30] sobre as “zonas de contato” está em sintonia com as demais acepções apresentadas até aqui. Tomando o termo “contato” da lingüística onde a expressão “linguagem de contato” se refere a linguagens improvisadas que se desenvolvem entre locutores de diferentes línguas nativas que precisam se comunicar entre si de modo consistente, um com o outro, usualmente no âmbito comercial (p.32), chama de “zonas de contato”,

(...) os espaços sociais onde culturas díspares se encontram, se chocam, se entrelaçam uma com a outra, freqüentemente em relações extremamente assimétricas de dominação e subordinação - como o colonialismo, o escravagismo, ou seus sucedâneos ora praticados em todo o mundo (p.27)

Para ela o conceito de transculturação tomado por Rama de Ortiz, é central na sua reflexão sobre as “zonas de contato” advogando, desta maneira o que ela concebe como uma “perspectiva de contato” em que o que é relevante é a questão de como

(...) os sujeitos são constituídos nas e pelas suas relações uns com os outros. Trata as entre colonizadores e colonizados, ou viajantes e “visitados”, não em termos da separação ou segregação, mas em termos da presença comum, interação, entendimentos e práticas interligadas, freqüentemente dentro de relações radicalmente assimétricas de poder. (p.32)

É com o olhar neste “outro” e numa “perspectiva de contato”, onde os encontros e os olhares são curiosos e transformadores que procedermos à leitura dos autores e suas personagens femininas.

 

4 O que eles pensam sobre elas: personagens femininas e autoria masculina

Sobre as personagens femininas estudadas, antes da realização de uma leitura mais acurada, vale a pena ouvir algumas concepções - através do próprio texto literário de autoria masculina - deles, a partir do texto de alguns autores, sobre elas.

A distinção entre diferentes grupos de mulheres, as de boa família e as moças e mulheres perdidas é descrita num conto de Javier de Viana [31], numa clara divisão de classes sociais, o que quase sempre determina as condutas e destinos femininos: (…) amistad igualitaria en la chismografía del fogón de la cocina, pero que no podía transponer las puertas de la sala, dentro la cual era forzoso poner ambiente entre las dos distanciadas categorías: la “niña” y “la piona” (1921:146).

Para Antonio Hohlfeldt [32], o desamparo das mulheres, desprovidas da proteção masculina, seja do pai ou de um marido, é recorrente e explica a condição de marginalidade de algumas destas personagens:

(...) O tema ressurgirá em Alcides Maya, e não uma vez, mas várias: a figura da chinoca que, ao perder o pai, ou toda a família, quase sempre por motivo das guerras ou das revoluções, torna-se cria da fazenda e caba sempre sendo violada por algum peão ou mesmo membro da casa do fazendeiro. Ou então, simplesmente a chinoca já nasce marcada: “filha das touceiras”, como dirão os outros, não sabem quem é o pai, por vezes nem mesmo a mãe. Ao contrário da jovem de família, a chinoca é valente, acompanha o homem em seus divertimentos e atividades campeiras e até mesmo guerreiras. (p. 37)

Em Sin rumbo de Eugenio Cambaceres [33], o desamparo e abandono de Donata, e que justifica sua conduta de china e amante de Andrés, deve-se a sua orfandade que a relega a uma situação de ignorância sobre os fatos da vida e do valor de seu corpo e sexualidade:

(…) Donata, por su parte, como esas flores agrestes que dan todo su aroma, sin oponer siquiera a la mano que las arranca la resistencia de espinas que no tienen, en cuerpo y alma se había entregado a su querido. Huérfana de madre, criada sola al lado de su padre, sin la desenvoltura precoz, sin la ciencia prematura que el roce con las otras lleva en los grandes centros al corazón de la mujer, ignorante de las cosas de la vida, conociendo sólo del amor lo que, en las revelaciones oscuras del instinto, el espectáculo de la naturaleza le enseñaba, confundía la brama de la bestia con el amor del hombre. (p. 66)

O caminho das filhas e mulheres abandonadas à própria sorte é explicado desta maneira no conto “Chinoca” de Alcides Maya [34], justificando o destino inevitável da protagonista: (...) Filha de pobre, se perde o pai e tem um corpito destes - pensava -, é como ovo guacho, deixado no campo pra a ninhada dos outros... (2003:86)

Para Deonísio da Silvab[35] a paternidade ou a bem nascença é também fator definidor para o destino das mulheres: (...) Mulher é um bicho que sofre muito na vida, Argemiro. Mulher sofre a bem dizer tanto como uma criança ou um negro. Ou até mais: dependendo de quem é filha, sofre até que nem fosse mesmo, de verdade, um bicho. (2005: 69)

Justificadas em seus desafortunados destinos, estas mulheres abandonadas à própria sorte têm uma conduta que difere em muito da etiqueta das moças de boas famílias. São furiosas, instáveis, temperamentais, parecem-se com homens ou com bichos, como pode-se constatar num número diversificado de opiniões.

O olhar dos personagens masculinos sobre as mulheres, o qual nos permite ler a própria ideologia machista e patriarcal desta literatura sobre as mulheres, é impiedoso e aparece de maneira inequívoca nos textos de todos os autores estudados.

Verdadeiras pérolas definem as mulheres como situadas no mesmo patamar que os animais, em geral vacas, éguas, cavalos ou cadelas e outros sentidos, sempre as percebendo como deformação da natureza [36]. Os exemplos são gráficos e esclarecedores.

Nos contos de Alcides Maya [37] em Alma Bárbara as comparações são inúmeras:

(...) - Escolher a china que se quer e correr o laço à vontade, pra não errar. E não se erra, verdade? Levada à força ou voluntária, à garupa, braços atados ao peito do cavaleiro que a levantou, a mulher, quando mesmo se arrenegue, vai de rastos, que nem uma vaquilhona tirada do sinuelo pra se sangrar... (p. 58)

(...) Sou gaúcho de bom gosto,
Morro quando deus quiser;
Só dois prazeres conheço:
Cavalo gordo e mulher. (p. 59)

(...) Ao demais, a chinoca (terneirita linda!) ficou mesmo pelos beiços e nos arreglamos. (p.95)

(...) O gado é ansim feito: cada ponta tem um touro, e chinas, pelo mesmo conseguinte. (p.97)

(...) Agressiva e espinhenta, agora, a rapariga repelia como urumbeva entre pedras, de tal modo que ficava sendo mais apetitosa a polpa úmida e túmida, acre e cor de sol daquele fruto das restingas... Eram outras as comparações a que a submetiam... A potranca, então, estremecia! A vaquilhona como que andava no ar, sonhando! Recusava a trepadeira sem-vergonha os galhos e os troncos ao seu alcance! (...) Engole a baba, cadela! (p.144)

Em Sin rumbo de Eugenio Cambaceres [38], Andrés já cansado de seus namoricos com a china Donata, a vê como apenas un detalle en la existencia de Andrés. Una cosa, carne, ni alguien siquiera. Menos aún que Bernardo, el gato, el animal mimado de su amante (p.66)

Também a Amorini, no mesmo texto, sedutora e oferecida, mostra-se com os atributos dos piores animais: Desnuda, se adivinaba en ella la garra de una leona y el cuerpo de una culebra (p. 83)

A marcante Sinforosa de Eduardo Acevedo Díaz [39], em Ismael, é puma hembra (p.201).

Clota, em ”La domadora” de Javier de Viana [40], tem justificados seus defeitos morais por sua anatomia,

(...) El busto era amplio, el seno opulento, las caderas recias, los muslos gruesos y firmes; un tipo - frecuente, por otra parte, - anatómicamente anormal; y, por lógica correlación, moralmente anormal también. (…) incitante más que bella, flor humana que al aliciente de su forma, graciosamente asimétrica, - como una orquídea, - unía el atractivo de su perfume caprichoso al de las coloraciones barrocas. (p.37-38)

Também em Deonísio da Silva [41] a anatomia feminina justifica os defeitos e inferioridades femininas:

(...) “Para mim”, disse o visconde, “a mulher é um ser que vaza por tudo, mas não pelos furos a que vocês aludem. Já viram alguma mulher guardar segredo? Nenhuma delas guarda nada. Elas são furadinhas, furadinhas de um tudo. A gente fala uma coisa no ouvido delas, é como se derramasse algo num funil que fosse cair exatamente no ouvido de outra pessoa.” (p.104)

Em Javier de Viana [42], as mulheres são sucias como un peso papel y falsas como botas de pulpería (p.57), e as fêmeas são Hembra…pasto ‘e bañao que no alimenta, sol de otoño que no da calor... (p.60).

Também em Viana [43], um amigo consola o outro dizendo não valer a pena andar apaixonado, discorre sobre a falsidade feminina e sobre as mulheres como éguas e os homens como cavalos,

(…) Vamos a ver muchacho, ¿no es lástima que un hombre juerte ande arrastrándose como perro castigao al derredor de unas naguas?... (…) Las promesas de las mujeres no son escritura pública, ché, y hoy nadie aliega propiedá de hacienda que no lleva su marca. Mascá el freno, y dispués, cuando se te haiga pasao el sarpullido, si tuavía te sentís con ganas de caballo’e galpón, despreciando el campo abierto, an se corre y se relicha a gusto, no te ha’e faltar yegua pa enlazar. ¡La manada es grande! (p.73-74).

A comparação das mulheres com animais, plantas, flores, comidas, é evidente. Para Ligia Chiappini Moraes Leite [44] a comparação da mulher com a égua ou a vaca é um dos chavões do gauchismo (p.61).

Chaves [45], analisando a maneira como Blau Nunes descreve Tudinha em “O Negro Bonifácio” e a incompreensão do vaqueano frente àquela mulher rabiosa esclarece que,

(...) Diante da realidade observada, ele a intui como um animal selvagem e por isto se apropria dos termos zoológicos quem compõem um determinado nível da fala ‘regionalista’, fazendo a transferência dos significados na tentativa de expressar o enigma. Transita assim daquilo que lhe é familiar e sabido para a percepção de uma zona obscura do real. O vocabulário ‘regionalista’ utilizado na complexa relação mulher/animal instaura pois a multiplicidade de conotações e não é mais do que a camada apenas visível da revelação metafórica.

(...) Apresentando uma dimensão muito mais profunda do que a da caracterização psicológica pura e simples, o processo de animalização da personagem leva a uma oposição intrínseca entre o masculino e o feminino. De fato, a mulher rabiosa, que não pode ser “amanonsiada”, escapa á esfera da ação e, por isto, é pior que homem. Ora, o mundo do vaqueano é justamente o da ação, nele se compreende aquilo que pode ser domado, toureado, dominado e possuído. O ato da castração, praticado pela mulher, torna-se aqui o requinte da violência devastadora, mas adquire também o sentido simbólico da ruptura, da mutilação definitiva, da separação intransponível, eliminando toda a hipótese de união dos contrários. (p.109-110).

Já Marcela Lagarde [46], de um ponto de vista mais crítico e comprometido, refere-se à ideologização da relação mulher-natureza como um dos fundamentos dos cativeiros femininos das mulheres e se caracteriza pelas seguintes concepções:

(...) La mujer es parte de la naturaleza. La mujer-naturaleza tiene atributos de la naturaleza, y comparte sus cualidades con los otros seres y hechos de la naturaleza. La mujer no modifica la naturaleza, actúa y existe al cumplir las leyes de la naturaleza, las cuales proceden de un mandato extraordinario e inapelable. Comparados hombre y mujer frente a la naturaleza, el hombre tiene poder sobre la naturaleza; la fuente de su poder se debe a su posibilidad de transformarla con su creación y a que al hacerlo, se separa de ella, se convierte a sí mismo en algo diferente de ella. Entre las relaciones mujer-naturaleza y hombre-naturaleza, sucede lo mismo que entre las relaciones mujer-divinidad, hombre-divinidad: a pesar de la supuesta unidad del género humano, las relaciones de hombres y mujeres con los principios rectores fundamentales, Dios y la naturaleza, son patriarcalmente diferentes por género. (p.169)

As máximas sobre a relação mulheres e animais são inúmeras, os bons leitores da gauchesca estamos familiarizados com a misogina destes textos, mesmo que, felizmente, em muitos deles, tenhamos figuras femininas primorosas, como são algumas da vivandeiras que vamos analisar.

 

5 As vivandeiras

A contar com os dicionários especializados no universo da gauchesca, as chinas existem e as vivandeiras não existem.

Somente no Houaiss [47] e no Aurélio [48] temos a definição de vivandeira. Mas se tomarmos os dicionários que pretendem dar conta em seus verbetes das nossas especificidades, como o Dicionário Gaúcho de Juvenal Alberto Oliveira, o Dicionário de regionalismos do Rio Grande do Sul, de Zeno e Rui Cardoso Nunes [49], O Popularium sul-rio-grandense de Apolinário Porto Alegre [50], o Dicionário gaúcho-brasileiro de Batista Bossle [51] ou o Dicionário temático de Luís Augusto Fischer, só para citar alguns, aquelas personagens dramáticas, que fazem parte de muitas de nossas narrativas, não têm sequer como serem nomeadas. E penso isto é sintomático.

Para Houaiss, elas são (...) mulher que acompanha uma tropa, vendendo ou levando mantimentos e bebidas ou membro da classe política civil que provoca desentendimentos entre os militares (p.2875). E para Aurélio elas são (...) Mulher que vende mantimentos, ou que os leva, acompanhando tropas em marcha.

Mas é o texto literário quem, de maneira mais completa e eficaz vai dar conta das definições destas personagens.

Alcides Maya [52] vai descrevê-las no conto “Guri”, em Tapera. Cenários gaúchos da seguinte maneira:

(...) Interessante, deveras, aquela vida nas carretas. O entono militar pegara às próprias mulheres; cada china era um virago [53]; de algumas narrava-se lenda de façanhas, e todas mostravam o orgulho das vivandeiras de raça. Muitas pensavam que raiara um dia novo, que dali por diante viveriam sempre assim, entre a morte e o “carcheio” [54], bailado após as batalhas e parindo entre dois fogos de acampamento.

Esperavam vagamente outras, chinocas fantasiosas, que a vitória da revolução, mercê dos amantes, lhe asseguraria vantagens materiais, dinheiro, presentes e folganças. Tais recordavam antigas afrontas, gravavam na memória perfis, lugares odiados, planejando vinganças. E pertenciam a quem nas queria, conheciam todos arreios, passavam fome, sofriam, como todos os soldados, chuva e frio, embriagavam-se, engalfinhavam-se bêbadas, mordendo-se, ferindo-se, desertavam para outras colunas e, até por vezes, eram raptadas em audazes acometidas. (p. 71)

A palavra carcheio, de carchear, do espanhol, carchear, e que quer dizer roubar, despojar os vencidos ou os mortos, aqui, como em outras narrativas, estará sempre associada à prática e existência das vivandeiras, ainda que suas rotinas incluam muito mais do que isto.

Em Ismael [55] de Acevedo Díaz a explicação é detalhada:

(…) Carchar, o sea, despojar a los vencidos, muertos en leal pelea, o en mitad de su fuga por la caballería de reserva, era el complemento necesario del triunfo. Los criollos eran pobres, combatían casi desnudos y se apoderaban luego de las prendas de sus adversarios, con razón más justificada que los ejércitos de línea, siempre mejor provistos y atendidos. En aquella edad del hierro y del heroísmo no había recompensas halagadoras, fuera del ascenso y del carcheo. Los brazos no se ocupaban en otra faena que en esgrimir las armas, o en afilarlas, y eso fue obra de más dedos lustros. La vida marcial desterró por diez años - lapso precisamente del ostracismo griego - el arado y el pico. Sangre y no sudor, regaba la tierra. (p.194)

Ritoca, em Ruínas Vivas, de Maya [56] , explicando a Miguelito porque está sem o dinheiro que ele lhe havia dado, explica o roubo da velha Brígida desta maneira:

(...) - Chi! Você nem sabe! A “velha” botou-se logo para a venda, trouxe de um tudo, com fartura; mas com ela vieram umas conhecidas e foi um festo, e depois esteve o pardo Anselmo e carregou com o resto do dinheiro. (...) - Paramos sem nada, carcheaditas. (p.170)

Em “O anjo da vitória” de Simões Lopes Neto [57], há também uma referência a estas personagens, soltas campo afora e ávidas depois da batalhas:

(...) Lá longe, os castelhanos, enganados, tocaram a retirada. O nosso quartel-general também tocou a retirada. Pegou a debandada; dispersava-se a gente por todos os lados, aos punhados, botando fora as pederneiras, as patronas; muitos sotretas fugiram de cambulhada com o chinerio... Metades de batalhões arrinconavam-se, outras encordoavam marcha. (p.138)

Outra descrição de uma decidida vivandeira, tratada de igual para igual na batalha sangrenta com os homens, aparece nas andanças Luis María y Cuaró em Nativa, de Acevedo Díaz [58]:

(…) Contó él apenas setenta hombres, incluidas dos o tres mujerachas diestrísimas en el caballo, armadas con lanzas de clavo. (p. 186)

(…) -¡Rece el credo, no más! Exclamó el liberto con una explosión de risa que se asemejó a un relincho, a punto que su caballo rezongó tascando el freno. - Ahí viene una china “carchadora”, más brava que una chinche…con un cuchillo mangorrero.

No pudo el herido menos de estremecerse. La broma era sangrienta. En realidad una mujer color de cobre, desgreñada, obesa, con chiripá en vez de vestido y un sombrero de pajilla sucio y agujerado con barboquejo echado a la nuca, se aproximaba sigilosa, husmeando la presa desde lejos, con el instinto peculiar de la raza felina.

Al observar de más cerca el traje del herido, sin preocuparse de la presencia de Esteban, abalanzase a saltos con los ojos de coatí febriles y lucientes.

El negro que muy pronto reconoció en ella a una de las que arreaban las tropillas, al mismo tiempo que una de las que lo habían agraviado de palabra al incorporarse a la gente, - echóse la tercerola a la cara, si bien no tenía carga alguna, y gritó simulando una furiosa ronquera:

- ¡Alto ahí!...!Si es carpincho-hembra hago fuego, y si es comadreja con barriga, también la afusilo! La china se volvió por un flanco, con una mueca feroz, y huyó, llamando a otras compañeras que por los contornos vagaban. (p. 191)

Erico Verissimo [59], em “O cavalo e o obelisco”, na última parte de O Tempo e o vento, em O arquipélago III, Rodrigo Cambará no auge de seus amores e escapadas aos aposentos de Roberta Ladário, diz:

(...) A professora mostrou-se mais ardente ainda do que na primeira noite e por longo tempo ficaram ambos enlaçados na estreita cama, na penumbra daquele quarto que recendia ao perfume de Roberta, mistura com óleo de linhaça do verniz dos móveis. Acima da cabeceira do leito negrejava um crucifixo com um Cristo de prata. Que profanação! - pensava vagamente Rodrigo. E encostando lábios na orelha da amante murmurou-lhe que dentro de dois dias a revolução “estaria na rua”. Contou também que comandaria pessoalmente o ataque ao Regimento de artilharia. E depois? - quis ela saber. Ora - respondeu ele - depois de dominada a situação em Santa Fé marchariam para o Norte, contra o Rio de Janeiro...

- Você me leva, meu bem? - brincou ela.

- Levo. Serás a minha vivandeira. (p.665)

Não é, no entanto, a primeira vez que Verissimo faz referência às vivandeiras, voltaremos ao texto para ouvir de Toríbio a histórias das vivandeiras que ele conhece e com quem ele convive ao logo da marcha de Prestes.

Antes de voltar ao texto de Erico, no entanto, gostaria de mencionar o caminho que percorri para entender como, no caso deste trabalho, um tipo humano que corresponde a uma personagem característica, específica da literatura do sul, estabelece-se como elo, recorrência, elemento que estabelece contatos, temas confluentes, inter-literários, intertextuais entre diferentes autores.

Quando o escritor uruguaio Javier de Viana escreve Gaucha [60], em 1899, contando a terrível história de Joana, e seu trágico destino, e, ao descrever a história da origem de Lúcio, filho de Valle com uma das irmãs que o acolhe, descreve Martina e Jacinta, duas chinas destemidas que viviam sozinhas na vastidão do pampa, da seguinte maneira:

(…) Las dos mujeres, bravas y familiarizadas con el peligro, nunca habían sentido miedo, jamás habían pensado que podían despertar los apetitos de algún desalmado. Y aun cuando así fuese, ¿no pertenecían ellas a aquella raza indomable en que las hembras acompañaban a los hombres en la guerra y se batían a su lado y con igual ardor? Las Sinforas, las Catas y las Jacintas abundaban en aquella tierra de los Ismaeles y Cuarós (…) Ellas conocían todos los secretos de la selva, y por más baqueanos que fuesen los matreros, pronto sabrían descubrirlos. (p.33)

As personagens citadas acima Sinfora, que na verdade é Sinforosa, Cata e Jacinta, fazem parte dos romances históricos de Eduardo Acevedo Díaz, fundadores da literatura uruguaia, e que aparecem de forma única nos romances Ismael (1888), no conto “El combate de la tapera" (1892) e Nativa (1890). E que são, no meu entender, as vivandeiras paradigmáticas da literatura do sul.

A referência que Viana faz a Acevedo Díaz, no que se refere a estas personagens femininas, cria uma linhagem, um modo de ser destas mulheres, estabelece uma genealogia feminina.

Walnice Nogueira Galvão [61] em “A propósito da donzela guerreira”, sem citar a figura das vivandeiras, faz uma aproximação das figuras guerreiras, no caso do seu trabalho, em especial a recuperação das donzelas-guerreiras, como se, juntamente com as cangaceiras, mandonas, bandidas, aventureiras, soldados nas guerras da Independência ou do Paraguai (p.143). Cita ainda a existência de personagens da poesia popular e do romance de cordel desde Dona Damiana a Escopeteira, em Lourenço, de Franklin Távora, até a caricatura que Alencar fez de Dona Severa, em Guerra dos mascates. (p.143)

A semelhança destas figuras femininas guerreiras, no entanto, não terminam por abarcar a riqueza e complexidade das nossas vivandeiras, já que um dos atributos básicos da donzela-guerreira e que faz parte do significado do arquétipo é a virgindade e o destino fatal de oferecer sua vida em sacrifico no campo de batalha.

Tal não é o perfil das vivandeiras. Elas são mulheres guerreiras, amantes, mães de muitos filhos, todos nascidos ao longo das intermináveis marchas, e que cresciam, filhos de muitos homens, durante o tempo que duravam as guerras e que tinham, como elas, seus destinos ligados, de forma inexorável, à realidade das batalhas e massacres.

São alegres e debochadas, furiosas, amantes despudoradas, valentes guerreiras, fizeram parte das Guerras Platinas, da Revolução Farroupilha, e de forma expressiva na Campanha do Paraguai.

É o que conta Toríbio [62], no “Um certo major Toríbio”, em O Arquipélago II, sobre as mulheres que se incorporaram à Coluna Prestes, para Liroca, Rodrigo e Tio Bicho, que o escutam emocionados. Narra a história de mulheres casadas e amasiadas com soldados, e sua admiração por uma mulher chamada Santa Rosa que tem um filho ao longo da marcha, a criança cresce durante a marcha, andava ensanchada nas cadeiras da mãe e às vezes pendurada no pescoço dum que outro soldado (p.542).

Tio Bicho comenta sobre a ignorância das pessoas sobre a existência destas mulheres, autênticas heroínas e lamenta ser uma pena que mulheres como essas jamais passem para a História (p.542).

Conta também da existência de outras figuras inesquecíveis, horrorosas, feias, furiosas, verdadeiras megeras que enfrentavam os homens de igual para igual como a Cara de Macaca. E havia a Tia Maria, que tinha o hábito de festejar as vitórias da coluna com tremendas bebedeiras, e também a gordíssima Chininha ou a enfermeira Hermínia costumava ir buscar os feridos na linha de fogo. (p.543)

Em Ismael, de Acevedo Díaz estas mulheres são descritas da seguinte maneira:

(…) hembras de un valor nada común (p.192), eran sencillamente rudos dragones, hábiles en el manejo del caballo y de la lanza o del sable, vestidas de hombre, y capaces de ejecutar en las horas de prueba los mismos actos de un esforzado varón (p.192) tenían ellas el capricho de darse a los que más habían sobresalido en el combate, sin distinción de clases, porque poseían la pasión del valor. Eran como la zanga, la cascarela, el cinquillo y el renegado de un cuatrillo heroico (p.192)

As descrições de Sinforosa estão longe de corresponder ao ideal feminino das moças brancas e de boa família que também aparecem ao longo da história. Estas descrições, como vamos perceber, são semelhantes em todas as personagens mulheres que, longe dos atributos de feminilidade, aproximam-se das figuras masculinas, são meio homens à vezes, quase bichos outras vezes.

Sinforosa ou Sinfrosa é uma cruda amazona (p.192) con su boca de labios finos y dentadura de loba, su nariz chata y sus ojillos de coatí, podía ser confundida con un cacique de raza, de esos que tenían tres pelillos por bigotes y algún perigallo en el cuello (p.192) furiosa amazona en el campo de la acción, con un sable a la cintura y una lanza de moharra curva en la diestra (p.195) Despreciaba las armas de fuego, porque el pedernal fallaba a cada instante (p.195) vigor físico, valor y presencia de ánimo para imponerse a la aventura y al peligro (p.195), (era) joven y robusta, no la rendía la fadiga valor y (tinha) presencia de ánimo para imponerse a la aventura y al peligro (p.195) (e era uma) china hombruda (p.220) e ella como la imagen de la casta intermedia; ¡el tipo del elemento crudo que ungía con el sacrificio heroico la existencia nueva que se abría a mejores destinos! (p.222).

Grávida do amante, Casimiro Alcoba (…) un zambo de indio morrudo (p.197), (que quer) poner a prueba la fecundidad de la amazona terrible, para que no se extinguiese “la casta” (porque) tenía que dar buenos dragones ((p.198).

Sinforosa protagoniza uma das mais belas páginas sobre as vivandeiras. Tendo descoberto sua gravidez, cobre-se de panos e roupas que disfarcem seu ventre para não ser impedida de pelear. E na hora em que começa a sentir as dores do parto, afasta-se sozinha, forte como uma fiera amazona (…) indígena bravía (p.199) (...) puma hembra (p.201), vai parir sozinha na beira do rio, numa das cenas mais espetaculares do livro e que em tudo contradize algumas lendas sobre a fragilidade das mulheres na hora dos partos. Dorme exausta, depois lava a si e ao filho na beira do rio e, ao ouvir os tambores que chamavam para a formação da tropa volta para o acampamento decidida a partir, deixando a criança com uma mulher amorosa que acabava de perder o próprio filho.

Morre no campo de batalha, (…) un proyectil le había entrado por el seno derecho rompiéndole una vértebra dorsal a su salida; y en el extremo de su mamaria inflada y fecunda asomaban algunas gotas de jugo lechoso casi mezcladas con el cuajarón sanguinolento (p.222)

Acevedo Díaz [63] no antológico conto “El combate de la tapera”, que narra uma batalha das guerras fronteiriças, e que é considerado como obra-mestra da literatura uruguaia, as figuras de Ciriaca e Catalina, a Cata, são, sem dúvidas, figuras paradigmáticas das rudes vivandeiras. São mulheres guerreiras, apaixonadas e furiosas.

A descrição inicial é a do destacamento que compõe-se de quinze homens e duas mulheres (...) hombres fornidos, cabelludos, taciturnos y bravíos; mujeres-dragones de vincha, sable corvo y pie desnudo. (p.79-80) e mais adiante, referindo-se a uma delas como dragón-hembra (p.89) resollante, hoscosa, fiera (p.89)

A participação das mulheres no acampamento é da mesma natureza das dos homens, cuidar da munição, de fazer o que eles fazem, o que cria uma relação de camaradagem entre eles. Ciriaca distribui bebida entre os homens, que a acariciam e de quem ela se defende, ainda assim num clima de galhofa.

Catalina, companheira do Sargento Sanabria

(...) la segunda de las criollas (…) Era Cata - como la llamaban - una mujer fornida y hermosa, color de cobre, ojos muy negros velados por espesas pestañas, labios hinchados y rojos, abundosa cabellera, cuerpo de un vigor extraordinario, entraña dura y acción sobria y rápida. Vestía blusa y chiripá y llevaba el sable a la bandolera. (p.84)

As duas, numa batalha feroz contra os portugueses, brigam e defendem-se como seus companheiros, Cata acerta o Capitán Heitor, o que termina por decidir a batalha, mas é atingida por um un proyectil en medio del pecho (p. 88).

A morte do Capitán Heitor pelas mãos de Cata é também uma das cenas mais expressivas destas figuras femininas inusitadas,

(…) Catalina, que había apurado su avance, llegó junto a Heitor, callada, jadeante, con la melena suelta como un marco sombrío a su faz bronceada: reincorporóse sobre sus rodillas, dando un ronco resuello, y buscó con los dedos de su izquierda el cuello del oficial portugués, apartando e1 liquido coagulado de los labios de la herida. Si hubiese visto aquellos ojos negros y fijos; aquella cabeza crinuda inclinada hacia él, aquella mano armada de cuchillo, y sentido aquella respiración entrecortada en cuyos hálitos silbaba el instinto como un reptil quemado a hierro, el brioso soldado hubiérase estremecido de pavura. Al sentir la presión de aquellos dedos duros como garras, el capitán se sacudió, arrojando una especie de bramido que hubo de ser grito de cólera; pero ella, muda e implacable, introdujo allí el cuchillo, lo revolvió- con un gesto de espantosa saña, y luego cortó con todas sus fuerzas, sujetando bajo sus rodillas la mano de la víctima, que tentó alzarse convulsa. (p.89)

Assim como é antológica a cena em que Cata que morre abraçada ao corpo do amante depois de beijá-lo, ao lado da companheira Ciriaca:

(…) Y arrastrándose siempre llegóse a él, se acostó a su lado, tomó alientos, volvióse a incorporar con un quejido, lo besó ruidosamente, apartóle las manos del pecho, cubrióle con las dos suyas le herida y quedóse contemplándole con fijeza, cual si observara como se le escapaba a él la vida y a ella también.
    Nublábansele las pupilas al sargento, y Cata sentía que dentro de ella aumentaba el estrago en las entrañas.
    Giró en derredor la vista quebrada ya, casi exangüe, y pudo distinguir a pocos pasos una cabeza desgreñada que tenía los sesos volcados sobre los párpados a manera de horrible cabellera. El cuerpo estaba hundido entre las breñas.
    -¡Ah!... ¡Ciriaca! -exclamó con un hipo violento.
    Enseguida extendió los brazos, y cayó a plomo sobre Sanabria.
    El cuerpo de éste se estremeció; y apagase de súbito el pálido brillo de sus tilos.
    Quedaron formando cruz, acostados sobre la misma charca, que Canelón olfateaba de vez en cuando entre hondos lamentos. (p.90, 91)

Em A prole do corvo de, Luiz Antonio de Assis Brasil [64], que narra o caos dos últimos momentos da Guerra dos Farrapos, aparecem também, numa grande coluna de soldados e carretas (...) atrás, fechando a tropa, as carroças de munições e mantimentos, além da que leva as mulheres, cozinheiras, lavadeiras. (p.65)

China-gorda (...) uma gorda (...) os peitos erguidos (p.66), a cozinheira-chefe, é quem comanda o chinaredo. Além de administrar a pouca comida que resta e os abusos dos soldados bêbados e desrespeitosos, cumpre com os rituais de morte de suas ajudantes, das mulheres que marcham e que são ignoradas e esquecidas pelo caminho.

China-gorda, junto com Maria-chica

(...) assoando o nariz com um pano encardido, desfia o rosário; é respondido por mais duas mulheres da cozinha. (...) termina os mistérios gloriosos, os dedos gordos lustram as contas sovadas, e toda ela possui uma atitude respeitosa na frente da morte. Cruza os braços grossos sobre a barriga e inclina a cabeça, fazendo saltar uma camada de banha por baixo de queixo, onde despontam, espessos, uns fios de barba. As duas ajudantes, mais novas, estão assustadas, seguidamente olham a fieira de contas que pende da mão da mestra, na esperança de que já estejam no fim. China-gorda pára um instante, coça a perna, retoma a reza, com um grande arroto de fartura. Engrola as aves-marias, saltando as contas de duas a duas. (p.95)

Em Avante, soldados: para trás, de Deonísio da Silva [65], as personagens que acompanham as marchas na arrasadora Campanha do Paraguai, não são menos interessantes. As paraguaias, sobre as quais há alguma bibliografia histórica, diferentemente das demais vivandeiras do sul do continente, são apresentadas por Deonísio da Silva de forma idealizada, por olhos masculinos encantados como se não estivessem no meio de um massacre:

(...) O espetáculo era realmente belo. Ao longe, as paraguaias seguiam a galope, sacudindo os seios, mostrando as coxas bem-torneadas, com lanças em posição acertada para a cavalaria. Como que faceiros de levar quem levavam no lombo, os cavalos deslizavam leves como plumas e mal tocavam o chão com as patas, todos eles pégasos. As paraguaias e os cavalos formavam centauras cheias de graça, harmoniosas, velozes, unindo força e beleza, duo raro numa guerra. Traziam nos cabelos ramos de flores essas misteriosas mitacunhãs. (p.19)

A figura das vivandeiras como amazonas, guerreiras centauras, repete-se ao logo do texto, em desacordo com a realidade da guerra em que são narrados estupros e degolas contra as mulheres. Além destas práticas é narrada também toda sorte de abusos e perversidades da parte da soldadesca com vacas, cabras, porcas e até bodes (p.30)

Aqui, o nome destas personagens, como vamos perceber em outros estudos teóricos, aparece como as residentas, que seriam as vivandeiras paraguaias.

A figura central da história é a paraguaia Mercedes, que vai recrutada para as forças de Solano López, com o claro intuito de deixar a casa paterna em rumo de sua própria liberdade. Sai da pequena Encarnación e vai para os duríssimos treinamentos em Humaitá. A liberdade da nova vida corresponde à liberdade de sua conduta sexual quando passa a escolher companhias masculinas e femininas, nos carinhos de Yolanda.

Ia para a frente de batalha com quem ia para um piquenique: feliz. (p.160)

Em Homens e Mulheres na Guerra do Paraguai, de Joseph e Mauricio Pernidji [66] as figuras das vivandeiras são destacadas. Misturando ficção e história, os autores tentam recompor o cotidiano da guerra, num entendimento de que muitas informações se perderam nas páginas do tempo, e outras, como a da presença marcante das mulheres nesta guerra, são praticamente desconhecidas:

(...) O exército imperial que lutou a guerra do Paraguai era o único, na época que permitia a ida de mulheres para a frente de batalha, as vivandeiras (mulheres que seguiam a tropa, trabalhando no comércio ambulante, nos acampamentos: mulheres de soldados, lavadeiras, cozinheiras, prostitutas da tropa) e as de ranchas (As mulheres de soldados, isto é, as que compartilhavam o rancho e a barraca), e até algumas mulheres de oficiais, sem contar as escravas e amásias dos sul-rio-grandenses. (p.14)

Embora a figura feminina central seja Elisa Lynch, a Madama, a anglo-irlandesa que sonhou em ser a Imperatriz do Prata, ao lado do mariscal Francisco Solano López, durante a Guerra da Tríplice Aliança, um sem número de mulheres anônimas e populares vão aparecendo e desfilando suas vidas ao longo do relato..

Chinas, vivandeiras, negras, índias, estrangeiras, viúvas, prostitutas e traidoras. É o cotidiano da vida destas personagens que nos é relatado. As venturas e desventuras de Maria Busca-pé, que depois de fazer uma cirurgia improvisada num soldado, juntando-lhe e costurando-lhe as tripas, passa a chamar-se enfermeira Maria Segura-Tripa. As aventuras de Dolores, Pilar e das demais que, como nos autores anteriores, possuem nomes extraordinários: Solda China, Maria Metralha, Francesa, Cuiabana, Índia Gaúcha, Maria Lata d’Água, Maria Zig-Zag.

Falam também das residentas, que para os autores seria a versão paraguaia da vivandeiras que acompanhavam o exército brasileiro:

(...) As tropas e mesmo os oficiais paraguaios raramente recebiam soldo. Mas nunca reclamavam de nada, contentavam-se com o que lhes era distribuído no rancho e chegavam a lutar maltrapilhos e mal alimentados. Não tinham, como os brasileiros, nem comércio a seu alcance, nem as carretas dos mascates estrangeiros, confortos e quinquilharias. Absolutamente nada. As mulheres residentas (O equivalente, no Paraguai, às vivandeiras que acompanhavam o exército brasileiro) que acompanhavam a tropa se contentavam com os restos da soldadesca. (p.84)

E além das residentas o autor conta a história das destinadas:

(...) mulheres condenadas por serem traidoras da pátria no Paraguai, sendo que bastava ter um marido ou companheiro condenado para ser considerada “destinada”. Destituída de todos os bens, condenadas aos desertos do Paraguai para cultivar roças para a tropa, eram lanceadas a qualquer pretexto, e ao final das últimas marchas, condenadas a morrer de inanição. (p.167)

Barbara Potthast [67] em seu ensaio “Residentas, destinadas y otras heroínas: El nacionalismo paraguayo y el rol de las mujeres en la Guerra de la Triple Alianza” aproxima a figura da residenta paraguaya à da soldadera mexicana, aquela que acompanhava incansável as tropas revolucionárias México afora por caminhos e trajetórias e marchas infindáveis.

Na literatura de autoria feminina, autoras como Elena Poniatowska e Ángeles Mastreta dão seu testemunho destas personagens em textos contemporâneos como Hasta no verte Jesús Mío, na figura de Jesusa Palancares e das figuras que contracenam com Emilia Sauri em sua marcha infindável em Mal de Amores.

Segundo Potthast a importância das mulheres na história do Paraguai destoa dos outros países latino-americanos, apresentando peculiaridades interessantes. Num dado momento, o Paraguai foi chamado o país das mulheres. Ressalta que as mulheres paraguaias sempre tiveram uma importância capital no comércio miúdo e na economia de subsistência, funções que só aumentavam de importância com o transcurso da guerra. (p82). E se, num primeiro momento limitaram-se às tarefas tipicamente femininas como os cuidados com a costura ou com os doentes, sua atuação deixa de ser secundária e passa a ser quase que imprescindível.

O dado histórico e sua representação literária parecem aqui, dialogar, muito embora a bibliografia história, no Brasil, sobre as vivandeiras, seja praticamente inexistente e o estudo sobre estas personagens na história da crítica literária também não exista.

Estas mulheres da fronteira, quase sempre de classes populares, que não atendem a etiqueta de uma feminilidade que as mantém cativas, como propõe Lagarde, são masculinizadas, na maior parte das vezes, sua força e capacidade de luta para a sobrevivência num mundo onde não há lugar para elas, faz com que elas sejam vistas como viris, animalizadas, furiosas. Mas elas são isto e muito mais, como bem nos demonstra o texto literário. São também divertidas e arruaceiras, desafiadoras, debochadas e engraçadas, são pobres, miseráveis, e não perdem o sentido de humor jamais.

Dar visibilidade a estas personagens, imersas numa multidão de outras mulheres pobres e marginais, guerreiras e furiosas, chinas, índias, negras, cativas e curandeiras, habitantes soberanas da fronteira e da nossa paisagem é começar a contar a nossa história de outra maneira.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todos os autores estudados e além deles, outros que poderíamos acrescentar, têm textos específicos que apresentam temas comuns aos aqui trabalhados. Também em Javier de Viana, Acevedo Díaz, Eugenio Cambaceres, Mario Arregui e Alcides Maya encontramos curandeiras exemplares, não há como falar nas mulheres cativas sem a leitura dos textos de Esteban Etchebarría, Miguel Hernández, César Aira ou Jorge Luis Borges. E, praticamente todos eles apresentam uma infinidade de chinas e prostitutas, as índias estão igualmente presentes nos contos de Viana e nos romances de Acevedo Díaz, e as negras também transitam em vários deles.

Enfim, um universo de personagens femininas se descortina num território adverso e inóspito para elas, seja o da literatura de autoria masculina, o da historiografia oficial ou da própria crítica literária que as ignora como cidadãs e as exclui sistematicamente, deixando assim de iluminar seus espaços escondidos, indignos e muitas vezes miseráveis. Ainda assim, como personagens grandiosas e inesquecíveis elas se impõem.

Particularmente gosto de pensar na existência de uma linhagem de mulheres da fronteira, sabidamente com fogo nas ventas, que não levam desaforo pra casa, familiarizadas com todo tipo de perigos, e, ao mesmo tempo, fogosas e divertidas, desaforadas e despudoradas, que acompanham seus homens na guerra, em todas elas, e que não se entregam. Muito particularmente, muito além de todos os estereótipos reducionistas, gosto de pensar que fazemos parte da estirpe das Catas e Jacintas, das Sinforosas e das Ciriacas, capazes de brigar até morrer e também de morrer por amor.

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Notas:

[1] Escritora, aluna do Programa de Doutorado de Pós-Graduação de Literatura Comparada da UFRGS e professora do Departamento de Letras da UNISC.

[2] De Autor Anônimo In: PERNIDJI, Joseph e PERNIDJI, Mauricio. Homens e mulheres na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: 2003.

[3] Mary Nasch, “Desde la invisibilidad a la presencia de la mujer en la Historia: corrientes historiográficas y marcos conceptuales de la Nueva Historia de la mujer”, in Nuevas perspectivas sobre la mujer, Actas de las primeras jornadas de investigación interdisciplinaria, vol. I, Madrid, Seminario de Estudios de la Mujer de la Universidad Autónoma de Madrid, 1982, p. 19.

[4] SCHMIDT, R. T. Da Ginolatría A Genologia: Sobre a Função Teórica e a Prática Feminista. In: Susana B. Funck. (Org.). Trocando Idéias Sobre A Mulher E A Literatura. Florianópolis, 1994, p. 23-32.

[5] LOPES, Maria Antónia. Mulheres, espaço e sociabilidade. A transformação dos papéis femininos à luz de fontes literárias (segunda metade do século XVIII). Lisboa: Livros Horizonte, 1989.

[6] HEINICH, Nathalie. Estados da Mulher. A identidade feminina na ficção ocidental. Tradução de Ana da Silva. Lisboa: editorial Estampa, 1988.

[7] BERNARDES, Maria Thereza Caiuby Crescenti. Mulheres de ontem? Rio de Janeiro. Século XIX. São Paulo: T.A. Queiroz Editora, 1988.

[8] DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. Prefácio de Ecléa Bosi. 2. ed. rev. São Paulo: Brasiliense, 1995.

[9] LAGARDE, Marcela. Los cautiverios de las mujeres: De madreesposas, monjas, presas, putas y locas. México: UNAM, 1997.

[10] (...) Cautiverio es la categoría antropológica que sintetiza el hecho cultural que define el estado de las mujeres en el mundo patriarcal: se concreta políticamente en la relación específica de las mujeres con el poder y se caracteriza por la privación de la libertad. (Lagarde, p. 151)

[11] DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo: condição feminina, maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. Rio de Janeiro: José Olympio, Brasília, DF: Edunb, 1993.

[12] ALGRANTI, Leila Mezan. Honradas e devotas: Mulheres da colônia. Condição feminina nos conventos e recolhimentos do sudeste do Brasil, 1750-1822. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília: Edunb, 1993).

[13] BERTUSSI, Lisana. Literatura gauchesca: do cancioneiro popular à modernidade. Caxias do Sul: EDUCS, 1997.

[14] PELLICIOLLI, Delci Lopes da Silva.” A Mulher Gaúcha. Na Revolução Farroupilha. Na conquista de um espaço”. Revista Enfoque. Ano 14. Nº62 - Setembro 1986. Bento Gonçalves, RS.

[15] SCHWANTES, Cíntia. “As mulheres de um mundo sem mulheres”. LETRAS DE HOJE. Porto Alegre: V. 37. nº 2, p.109-115, junho 2001.

[16] ALMEIDA, Lélia. A sombra e a chama: as mulheres de "O tempo e o vento". Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 1996.

[17] (Nota: Em setembro de 1977 o jornalista Nilson Mariano, na semana de 15 a 21 de setembro, em comemoração da Semana Farroupilha, no Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, apresentou, diariamente, a biografia das personagens históricas citadas acima, apresentando mulheres que participaram como enfermeiras, guerreiras ou ajudantes de retaguarda, numa seção denominada Mulheres valentes.)

[18] LEITE, Ligia Chiappini Morais Leite. Regionalismo e Modernismo. São Paulo: Ática, 1978.

[19] MOREIRA, Maria Eunice . Regionalismo e literatura no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1982.
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[20] KALIMAN, Ricardo J. “La palabra que produce regiones. El concepto de región desde la teoría literaria” In: Programa “Tucumán en el contexto de Los Andes Centromeridionales”. Documento de trabajo nº 3. Universidad Nacional de Tucumán. Facultad de filosofía y letras. Instituto de Historia y Pensamiento Argentinos. Julio 1994.

[21] VIANA, Javier de. ” Cómo y porqué hizo Diós la R.O. “In: ___. Macachines. Buenos Aires: Vicente Matera, 1920.

[22] MURGUÍA, Julián. “O campo” In: ___. Contos do país dos gaúchos. Tradução de Sérgio Faraco. Porto Alegre: Mercado Aberto/IEL, 1995.

[23] Apud OPERÉ, Fernando. Historias de la frontera: el cautiverio en la América Hispánica. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica de Argentina, 2001.

[24] LEENHARDT, Jacques. “Fronteiras, Fronteiras Culturais e Globalização” In: MARTINS, Maria Helena (org.) Fronteiras culturais. Brasil. Uruguai. Argentina. São Paulo: Ateliê editorial; Porto Alegre: Celpcyro, 2002.

[25] PESAVENTO, Sandra Jatahy. “Além das fronteiras” In: MARTINS, Maria Helena (org.) Fronteiras culturais. Brasil. Uruguai. Argentina. São Paulo: Ateliê editorial; Porto Alegre: Celpcyro, 2002.

[26] OSÓRIO, Helen. “O espaço platino: fronteira colonial no século XVIII” In: CASTELLO, Regina Iara e outros (orgs.) Práticas de integração nas fronteiras. Temas para o Mercosul. Porto Alegre: UFRGS; Instituto Goethe/ICBA, 1995.

[27] PRATT, Mary Louise. Os olhos do império. Relatos de viagem e transculturação. Tradução de Jézio Hernani Bonfim Gutierre; revisão técnica Maria helena Machado, Carlos Valero. Bauru, SP: EDUSC, 1999.

[28] CARVALHAL, Tânia Franco. “Comunidades Inter-literárias e Relações entre Literaturas de Fronteira” In: ANTELO, Raúl (org.) Identidade e representação. Florianópolis: UFSC, 1994.

[29] MASINA, Lea. “Fronteiras do Cone Sul” In: 3º Congresso Abralic (3.:1992.:Niterói, Rio de janeiro. Limites: Anais - São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Niterói, Rio de Janeiro: Abralic, 1995.

[30] PRATT, Mary Louise. Os olhos do império. Relatos de viagem e transculturação. Tradução de Jézio Hernani Bonfim Gutierre; revisão técnica Maria helena Machado, Carlos Valero. Bauru, SP: EDUSC, 1999.

[31] VIANA, Javier de.”Tiro de bolas perdido” In: ___. Del campo y de la ciudad. Cuentos. Montevideo: Claudio García Editor, 1921.

[32] HOHLFELDT, Antonio. O gaúcho. Ficção e realidade. Rio de Janeiro: Edições Antares; Brasília: INL, 1982.

[33] CAMBACERES, Eugenio. Sin rumbo. Estúdio preliminar y edición crítica de Rita Gnutzmann. Bilbao: Universidad del País Vasco/Euskal Erico Unibertsitatea, Servicio Editorial, 1993.

[34] MAYA, ALCIDES “Chinoca” In: ___. Tapera. Cenários gaúchos. Porto Alegre: Movimento; Santa Maria, RS: Ed. UFSM, 2003.

[35] SILVA, Deonísio da. Avante, soldados: para trás. 9ª edição. São Paulo: A Girafa Editora, 2005.

[36] Contos como “Hormiguita” de Javier de Viana ou “Caturrita” de Alcides Maya, entre outros, comprovariam esta tendência.

[37] MAYA, Alcides. Alma Bárbara. Contos. Porto Alegre: Movimento/ Universitário, 1991.

38] CAMBACERES, Eugenio. Sin rumbo. Estúdio preliminar y edición crítica de Rita Gnutzmann. Bilbao: Universidad del País Vasco/Euskal Erico Unibertsitatea, Servicio Editorial, 1993.

[39] ACEVEDO DÍAZ, Eduardo. Ismael.
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[40] VIANA, Javier de.”La domadora” In: ___. Del campo y de la ciudad. Cuentos. Montevideo: Claudio García Editor, 1921.

[41] SILVA, Deonísio da. Avante, soldados: para trás. 9ª edição. São Paulo: A Girafa Editora, 2005.

[42] VIANA, Javier de.”La carta de la suicida” In: ___. Macachines. Buenos Aires: Vicente Matera, 1920.

[43] VIANA, Javier de. ”Filosofando” In: ___. Macachines. Buenos Aires: Vicente Matera, 1920.

[44] LEITE, Lígia Chiappini Moraes. Regionalismo e modernismo: (o "caso" gaúcho) São Paulo: Ática, 1978.

[45] CHAVES, Flávio Loureiro. Simões Lopes Neto: regionalismo & literatura. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1982.

[46] LAGARDE, Marcela. Los cautiverios de las mujeres: De madresposas, monjas, presas, putas y locas. México: UNAM, 1997.

[47] HOUAISS, Antônio, VILLAR, Mauro de Salles e FRANCO, Francisco Manoel de Mello. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

[48] Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa: [CD-ROM]: versão 5.0.

[49] NUNES, Zeno Cardoso e NUNES Rui Cardoso. Dicionário de regionalismos do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1982
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[50] PORTO ALEGRE, Apolinário. Popularium sul-rio-grandense: estudo de filologia e folclore. Lothar Hessel (Reorganizador). Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 2004.
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[51] BOSSLE, Batista. Dicionário gaúcho-brasileiro. 7ª ed. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2004.

[52] MAYA, ALCIDES “Guri” In: ___. Tapera. Cenários gaúchos. Porto Alegre: Movimento; Santa Maria, RS: Ed. UFSM, 2003.

[53] 1.V. machão (1): “As mulheres eram, na maioria, repugnantes. Fisionomias ríspidas, de viragos, de olhos zanagas e maus.” (Euclides da Cunha, Os Sertões, p. 523.). 2.Matrona (2).

[54] Carchear;1.Roubar,despojar(os vencidos ou os mortos). 2.Apropriar-se indebitamente de (animais ou coisas), a pretexto de necessidade de guerra.

[55] ACEVEDO DÍAZ, Eduardo. Ismael.
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[56] MAYA, Alcides. Ruínas Vivas. Romance gaúcho. Prefácio de Cyro Martins. 2.ed. Porto Alegre: Movimento; Santa Maria: UFSM, 2002.

[57] LOPES NETO, Simões. “O anjo da vitória” In: ___. Contos Gauchescos. Edição de Luis Augusto Fischer. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000.

[58] ACEVEDO DÍAZ, Eduardo. Nativa.
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[59] VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento - O arquipélago III. 22ª edição. São Paulo: Globo, 2000.

[60] VIANA, Javier de. Gaucha. Montevideo: Ediciones Tauro, s/f.

[61] Walnice Nogueira Galvão em “A propósito da donzela guerreira” In: SÜSSEHIND, Flora; DIAS, Tânia; AZEVEDO, Carlito (orgs.) Vozes femininas: gêneros, mediações e práticas da escrita. Rio de Janeiro: 7letras: Fundação Casa rui Barbosa, 2003.

[62] VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento - O arquipélago II. 22ª edição. São Paulo: Globo, 2001.

[63] ACEVEDO DÍAZ, Eduardo “El Combate de la Tapera” In: ___. Soledad. El Combate de la Tapera. Buenos Aires: Editorial Universitaria, 1965.

[64] ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de. A prole do corvo. Porto Alegre: Movimento, Instituto Estadual do Livro, 1978.

[65] SILVA, Deonísio da. Avante, soldados: para trás. 9ª edição. São Paulo: A Girafa Editora, 2005.

[66] PERNIDJI, Joseph e PERNIDJI, Mauricio. Homens e mulheres na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: 2003.

[67] POTTHAST, Bárbara “Residentas, destinadas y otras heroínas: El nacionalismo paraguayo y el rol de las mujeres en la Guerra de la Triple Alianza” In: POTTHAST, Bárbara e SCARZANELLA, Eugenia (eds.). Mujeres y naciones en América Latina. Problemas de inclusión y exclusión. Madrid: Iberoamericana; Frankfurt am Main: Vervuert, 2001.

 

© Lélia Almeida 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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