A espetacularização do sagrado
como meio de persuasão dos fiéis no mundo barroco.
Tipologia da semântica religiosa na festa do triunfo eucarístico

Jô Drumond [*]

jonund@terra.com.br


 

   
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Dentre as inúmeras definições de cultura, vamos nos basear na do semioticista russo Iuri Lotman, para quem cultura é “o conjunto de informações não-hereditárias, que as diversas coletividades da sociedade humana acumulam, conservam e transmitem.” (apud Schnaideman, 1979:31). O corpus desse trabalho consiste em buscar os diversos códigos culturais ligados à persuasão religiosa na cultura barroca, tendo como suporte teórico, o trabalho de Lotman sobre a tipologia da cultura, e como texto analisado, um opúsculo de 150 páginas, intitulado Triunfo Eucharistico (TE*), publicado em 1734, em Lisboa. Tal texto fotocopiado, foi reproduzido na íntegra, e reeditado no volume 1 da edição Resíduos Seiscentistas em Minas, publicado pelo Centro de estudos mineiros e UFMG, em 1965, acompanhado de um ensaio, glossário, notas e fortuna crítica, de autoria de Afonso Ávila.

Trata-se da primeira crônica sobre uma festividade no Brasil Colonial, escrita pelo português Simão Ferreira Machado, que teve o privilégio de estar presente no evento.

O “Triunfo Eucarístico” (1733), a mais rica e suntuosa festa de caráter religioso de que se tem notícia em nosso país, realizou-se no período áureo das minas de ouro, diamantes e pedras preciosas, em Vila Rica, na capitania de Minas “Geraes”.

Tentaremos aqui, fazer um levantamento semântico através dos signos mais relevantes da festa, tanto no eixo paradigmático quanto no sintagmático. O termo semântica origina-se etimologicamente do grego, semantikós: aquilo que indica, que faz conhecer, que é um indício (Houaiss, 2001:2540). Buscar-se-ão os signos hiperbolizantes utilizados como recurso expressivo, com o intuito de extasiar os sentidos do público, principalmente a visão, considerada como o mais nobre dos sentidos, e propiciar o desencadeamento da emoção religiosa a partir da apreensão estética.

A festa foi organizada para que se fizesse a solene transladação da Eucaristia, provisoriamente depositada na igreja Nossa Senhora do Rosário, para a luxuosíssima Matriz do Pilar, toda revestida em ouro, no ensejo de sua inauguração. Detalhes da grandiosa festa foram documentados por escrito, pelo português Simão Ferreira Machado, habitante das Minas Gerais, que publicou no ano seguinte, em Lisboa, o opúsculo Triunfo Eucarístico. Ele foi o autor dessa primeira crônica da sociedade mineira do século XVIII.

Segundo ele, o evento foi promovido por um devoto, que quis manter o anonimato. A magnificência e a ostentação desse culto religioso faziam jus ao gosto contra-reformista da suntuosidade, no intuito de demonstrar o prestígio da igreja e seu domínio religioso. A aliança entre Igreja e Estado demonstrou a todos, nessa festa, sua firmeza, integrando à procissão as tropas militares, com destaque para o delegado real, governador Conde de Galvêas. Segundo Affonso Ávila, essa festa teria sido mais de “regozijo dos sentidos do que propriamente de comprazimento espiritual” (Ávila, 1980:53).

Simão Ferreira Machado relata minuciosamente os detalhes dos trajes, alegorias, efeitos visuais e sonoros, danças, cenários festivos, coreografia (das irmandades, do clero, das autoridades,das tropas etc.) ricos adornos (em ouro, prata, diamantes, pedrarias, sedas e plumas) tanto nas indumentárias quanto nas montarias. Registrou também a pompa litúrgica, instrumentos musicais, estandartes, música etc. Mencionou em seu relato, espetáculos tais como comédias, cavalhadas, touradas, exibições pirotécnicas, solenidades, divertimentos profanos, jogos, leitura de poemas feitos especialmente para a solenidade. Em tom superlativo, Simão ressalta o caráter hiperbólico da festa. Segundo ele, para a concretização e brilhantismo de tal festividade buscou-se o aparato em todas as cidades de Minas, em outras mais remotas e até mesmo no Rio de janeiro. Houve uma mobilização geral, não apenas na província das Minas, mas em toda a colônia, em busca de artistas, artesãos, alfaiates, cômicos, músicos, poetas e aparatos necessários aos festejos.

Simão aborda também o fausto da Matriz do Pilar enquanto teatro da religião, a preciosidade dos retábulos, a magnificência e opulência da cerimônia religiosa.

Cerca de um mês antes, arautos mascarados começaram a anunciar o grande acontecimento, precedido de muitas festividades preparatórias, como colorida ornamentação das ruas, desfiles, músicas, serestas, danças, peças de teatro encenadas em tablados de rua, corridas de touro, cavalhadas etc. Seis noites sucessivas de luminárias, com lâmpadas de azeite e velas de cera iluminaram toda a cidade.

A solenidade teve, como ponto principal, a procissão de transladação do Santíssimo da igreja do Rosário para a Matriz do Pilar. Ávila resume muito bem a grandiosidade do evento:

“No longo cortejo para o qual se abriu uma nova rua ligando os dois templos, viam-se em ricos trajes de gala as inúmeras irmandades de Vila Rica e, em torno delas e seus estandartes e santos padroeiros, uma complexa trama coreográfica, em que se mesclavam grupos de dançarinos, conjuntos musicais, carros de triunfo. Personagens a cavalo, alegorias mitológicas, cartazes com poemas alusivos ao acontecimento, etc., buscando cada figurante realçar mais a sua original indumentária, feita de seda, veludo ou damasco e adornada de ouro e pedraria. As ruas encontravam-se ornamentadas de arcos, mastros e guirlandas, com as casas vistosamente alcatifadas de colchas e cortinas nas janelas, sendo que à noite o ambiente ganhava uma atmosfera feérica, seja pelas luminárias acesas por toda a Vila, seja pelos castelos de fogos e outros jogos pirotécnicos. Serenatas, cavalhadas e corridas de touros atrairiam ainda por vários dias aqueles milhares de mineradores vindos de diferentes partes da capitania e que interrompiam com euforia a sua dura faina, pondo à mostra a um só tempo o sentimento de gratidão religiosa pela prodigalidade da fortuna naqueles anos de fastígio do ouro e a inata vontade de festa própria de sua alma barroca.” (ÁVILA, 1994 :258)

Como um todo, a festa era um texto coeso, com objetivos específicos: Demonstrar o poder da Igreja e do Estado e ao mesmo tempo intentar a persuasão religiosa do público, pelo absoluto enlevo dos olhos e pelo embevecimento arrebatador e total dos sentidos. (Ávila, 1994: passim)

As relações pragmáticas, entre texto e leitor, abordadas por Lotman, aqui se apresentam nesse “texto de circunstância”, em que se aproveita de um dado motivo (a transladação da Eucaristia) para passar uma mensagem de fé, através de um processo de transformação na consciência do espectador, nesse caso, pela primazia do visual.

Esse texto se compõe de uma tessitura complexa de outros textos que se imbricam e se harmonizam. Trata-se da conjunção de textos diversamente estruturados em uma só formação textual; de um espaço semiótico onde há interação de diversas linguagens e geração de uma infinidade de sentidos. O ecletismo arquitetural, coreográfico, ornamental e musical da festa, com elementos pertencentes às tradições culturais, históricas e étnicas, funciona como gerador de sentido, proporcionando diálogos intratextuais, ou seja, um jogo interno de recursos semióticos.

Como todo texto artístico, a festa do Triunfo Eucarístico apresenta ao mesmo tempo, fatores de homogeneidade e heterogeneidade, assim como a tensão entre a tendência à integração (conversão do contexto em texto) e à desintegração (conversão do texto em contexto). As mensagens religiosas transmitidas através do grande evento podem se transformar e produzir novas mensagens, dependendo do contexto e do contato com o espectador. Em cada um, dependendo do sexo, da idade, da classe social, da religiosidade, das circunstâncias, enfim, da experiência colateral, a leitura diverge, posto não haver leitura exata e sim uma relação do leitor consigo mesmo, com o texto, e da relação do texto com o contexto etc.

A submersão do evento na semiosfera barroca da colônia justifica a grande carga simbólica e o apelo à iconicidade cristã nos desfiles alegóricos e procissões, carga essa ligada à memória, como corte sincrônico daquela cultura.

Segundo os semioticistas russos, ao lidar com textos de várias camadas, o pesquisador deve estratificá-lo, separando os elementos que contêm a informação desejada e construindo uma linguagem informacional para se extrair os elementos essenciais ao campo de estudo. É o que tentaremos fazer, considerando a festa do Triunfo Eucarístico como “texto”, onde se cruza uma enorme gama de linguagens. Verificaremos os elementos que visam a semântica persuasiva através da apreensão sensorial.

No Renascimento, a persuasão era feita através da razão. No Barroco, apelava-se para os sentidos, para o instinto e para a fantasia. O discernimento dá lugar ao fascínio. A majestosa arte Barroca foi utilizada pela Igreja Católica, após o Concílio de Trento, como instrumento de recuperação dos hereges e consolidação da fé dos crentes.

Nota-se no Barroco o gosto pelo teatral, pelo cenográfico e pelo faustoso. Durante o século XVII, as artes plásticas estiveram, de forma particular, a serviço da igreja, com métodos de grande impacto para a persuasão dos fiéis através dos sentidos. Surgiu uma nova iconografia sacra com codificação artística imposta pelo Santo Ofício, que velava pela adequação das imagens à norma imposta e fazia ao mesmo tempo papel de censor das artes Os materiais empregados por artistas e artesãos variavam de acordo com a região produtora e com as possibilidades de cada região. As artes aplicadas ou decorativas tiveram grande importância no período barroco. Na vida civil, os móveis, tapeçarias, utensílios, vestimentas, adereços etc., deviam estar em consonância com a categoria social e com o estilo da época. Na vida religiosa, a ourivesaria e os trabalhos de forja se prestavam como elementos de culto e/ou decoração.

No século XVII, a atuação efetiva da igreja católica na luta contra a reforma protestante, criou uma cultura religiosa com um alto grau de semioticidade. Tudo o que se referia à religião era significativo. Empenhava-se em interpretar qualquer texto como simbólico. Aquilo que era signo de poder, santidade, divindade, pureza, riqueza, sabedoria, etc, ocupava na estrutura do código social, um lugar de valor superior.

Como se sabe, no período barroco, a igreja dominava a vida social com seus eventos e, o que era mais importante, promovia a integração religiosa das diferentes camadas sociais. Pelo fato de ainda não haver conventos e missões, criaram-se entidades associativas leigas de apoio religioso: em Vila Rica, a Irmandade do Santíssimo (mais elitista, vinculada às igrejas matrizes); a Irmandade do Rosário (para negros e escravos); as Irmandades das Mercês, a de São José, a Arquiconfraria do Cordão de São Francisco (formada por homens pardos, mulatos e de ofícios) e as Ordens Terceiras (constituídas por homens brancos e estamentos superiores da sociedade).

O espírito religioso propiciava o congraçamento dessas entidades nas festas, nos ritos e nas grandes celebrações públicas, assim como a cooperação de classes para a construção de igrejas e capelas. Por um lado, as classes mais abastadas doavam terrenos e patrimônio; por outro lado, negros e mestiços executavam os projetos de edificação e ornamentação. As abissais relações entre os donos do capital (mineradores de ouro e diamante) e a população servil atenuavam-se portanto, aliando o capital à habilidade do negro e à inventividade do artista mestiço. A construção de igrejas e capelas favorecia o processo urbanístico. Em torno delas surgiam bairros, arruamentos, construções civis, pontes, chafarizes públicos etc.

A capitania de Minas, no final do século XVIII, era a área de maior assentamento urbano da colônia , com 500.000 habitantes. A cidade do Rio de Janeiro chamada, na época, de Porto de Minas, contava com apenas 30.000 habitantes enquanto que Vila Rica (atual Ouro Preto) contava com cerca de 100.000, sendo a grande maioria formada por negros e pardos.

O espírito religioso do colonizador português transplantou para a colônia, o estilo oficial da Contra-Reforma. No ciclo do ouro, artesãos e mestres-de-obras portugueses vieram para Minas Gerais, atraídos pela riqueza da região. Deram início à construção e ornamentação dos templos, e foram seguidos, mais tarde, por mão de obra e artesãos locais.

Duas manifestações artísticas tinham importância capital no mundo barroco: a arquitetura efêmera, de caráter comemorativo e simbólico, e a festa, de caráter lúdico e solene. A primeira integrava-se à escultura e à pintura para eventos diversos tais como funerais, entradas solenes em uma cidade, demonstrações de apreço etc., e festas religiosas tais como a aqui focalizada.

Dos últimos dias de abril de 1733, até o dia 3 de maio, saíram às ruas de Vila Rica, arautos mascarados e jocosamente fantasiados, anunciando a futura solenidade. No dia 3 de maio saíram às ruas, para a veneração pública, duas bandeiras contendo uma delas, numa face, a Nossa Senhora do Rosário, e na outra, a custódia do Sacramento. A outra bandeira continha numa face, a imagem da Senhora do Pilar, e na outra, a custódia do Sacramento. Ambas foram levadas festivamente por duas pessoas ricamente vestidas, e colocadas uma defronte a Igreja do Rosário, onde estava o Sacramento, e a outra, defronte a Matriz do Pilar, para onde ele seria trasladado. Nesse dia, benzeu-se a nova matriz, com todo o clero de ambas as paróquias e grande número de fiéis da vila e dos arredores. Neste dia houve também espetáculos para os olhos (danças, fantasias) e para os ouvidos (músicas harmoniosas). Espetáculos semelhantes se repetiram até o dia 23 de maio, data fixada para a transladação. Os seis dias que precederam o evento viram intensificados os festejos preparatórios. Seis dias sucessivos de luminárias, em que a cidade se via toda iluminada com lamparinas de azeite afugentando a escuridão. Simbolicamente, seriam as luzes dominando as trevas, o bem suplantando o mal. A iluminação de um proeminente morro chamado Paschoal da Silva mesclava as estrelas do céu e as luzes da terra, sugerindo simbolicamente a descida das estrelas, a mediação entre céu e terra, espírito e matéria, com o intuito de fortalecer o fervor religioso. A persuasão pelos sentidos, especialmente visão e audição, pode ser identificada claramente na passagem abaixo:

“Fica eminente à Villa hum altíssimo Morro, a que deu o nome de Paschoal da Silva o mais opulento morador dele, e da Minas: a esse Morro, pela inexhaurivel copia de ouro, chama o vulgo, fiador de Minas; nele estas noites nas casas dos moradores as luzes, que mostravaõ aos juízos o centro da opulência, por sua altura, como na região das nuvens, pareciaõ aos olhos luminárias do Ceo. A claridade dos ares, a serenidade do tempo, a estrondosa armonia dos sinos, a melodia artificiosa das musicas, o estrepito das danças, o adorno das figuras, a fermosura na variedade, a ordem da multidão, geralmente influiaõ nos coraçoens huns júbilos de tão suave alegria, que a experiência a julgava alheya da natureza, o juízo communicada do Ceo.” (TE:197)

A solenidade tinha sido programada inicialmente para a tarde de sábado, dia 23 de maio. Todos os preparativos tinham sido feitos, os fiéis estavam a postos, próximos à igreja do Rosário, aguardando o início da procissão, quando uma inesperada chuva frustrou os desejos da multidão e causou novos dispêndios e muito trabalho. A festa acabou sendo transferida para a manhã do dia seguinte. Segundo o relato de Simão, a chuva foi motivo de discurso, através do qual mostrou-se aos fiéis que a água que caía era a voz muda do céu (signo) e que a natureza naquele momento servia “à providência de superior mistério” (TE:199). Os fiéis foram persuadidos de que o impedimento tinha se dado graças à providência divina, visto ser mais plausível que a Festa do Santíssimo Sacramento se desse no dia do Senhor (domingo) e não no sábado.

As ruas por onde a procissão passaria, foram enfeitadas, com janelas ricamente ornadas em sedas, damascos e troféus em ouro e prata. Nessas ruas foram erguidos cinco elevados arcos eqüidistantes, magnificamente adornados. “Simão fala da magnificência de um desses arcos: “...contencioso triunfo de ouro e diamantes. Hum destes, fabricado de cera, na vulgar matéria, pelos empenhos da arte, fez nos juizos lugar á competencia, nos olhos teatro á Victoria dos esplendores do ouro, das luzes dos diamantes”(TE:201). Foi feito também, na rua, um altar para o descanso do Divino Sacramento onde seria venerado publicamente. As ruas estavam floridas e perfumadas; “apparecia nas ruas a verde amenidade dos campos; em variedade de flores a Primavera. Sentia-se nos ares, em fragancia de aromas, transplantada do Occidente a odorifera Arábia do Oriente” (TE:202). A polícia engalanada portava roupas, em ouro e prata, que brilhavam sob os raios do sol. Antes da saída da procissão, celebrou-se uma missa de gala: “huma missa officiada a dous coros de musica, em cujos ministros a riqueza dos paramentos dava gosto aos olhos, devoção aos coraçõens” (TE:202). Nota-se que o regozijo dos olhos está estreitamente ligado à devoção dos fiéis. Isso fica claro ao longo da narrativa do português Simão, fiel letrado que porventura teve a oportunidade de documentar o evento para a posteridade.

Terminando seu relato, Simão louva a fé e o zelo religioso dos habitantes de Vila Rica, expressados pela suntuosidade dos templos e pelas comemorações da transladação do Sacramento eucarístico.

“Nessas duas mencionadas circunstancias se fizeraõ taõ superiores a todas as noçoens do Mundo os moradores do Ouro Preto, que só com pasmos, e admiraçoens se podem dignamente applaudir; pois estes fidelissimos Catholicos vivendo tão apartados da communicação dos povos, e no mais recôndito do sertaõ, se empregaõ com tanto disvelo, e com inimitável generosidade em festejar a Divina Magestade Sacramentada para mayor exaltação da Fé, e veneraçaõ dos catholicos, a accaõ tão singular, que nem a antiguidade vio primeira, nem a posteridade verá segunda para a gloria desta nobilíssima Vila por sua segurissima crhistandade”(TE:.281)

À divindade, deve-se adoração de primeiro grau, e ao ícone, adoração de segundo grau, mas freqüentemente atribui-se santidade ao próprio ícone, como no caso da transubstanciação. Para o católico, no momento da eucaristia, a hóstia consagrada não é um signo, mas sim o próprio Deus. Para os heréticos, ela nada mais é do que farinha de trigo prensada em cortada em forma circular (semióticamente o círculo é considerado como forma perfeita, adequada para tal representação). A Hóstia, portanto, exposta na custódia ou ostensório, para o católico, deixa de ser um signo para se tornar a própria divindade. Em seu texto “Sobre o problema da tipologia da cultura” Lotman menciona a concepção de um escritor do início da Idade Média com relação a Deus e à hóstia consagrada, concepção essa ligada ao macrocosmo/ microcosmo de séculos atrás e aos fractais de hoje em dia. Para ele, o que se reflete num espelho inteiro se reflete também em todos os cacos do espelho. Assim sendo, Deus estaria por inteiro em cada hóstia ou em cada fragmento dela.

A relatividade, o caráter condicional e convencional dos signos culturais, faz com que, segundo Lotman, a cultura possa ser apresentada como uma série paradigmática. Destarte, qualquer texto cultural pode ser examinado como um todo (código único) ou como conjunto de textos (conjunto de códigos). É o caso do “Triunfo Eucarístico”, que pode ser visto como um todo gerador de sentido e ao mesmo tempo pode ser dividido em códigos, que podem ser subdivididos, que se integram e se correlacionam devido à mobilidade semântica.

No levantamento abaixo, nota-se a preponderância dos códigos visuais sobre os verbais e sonoros. Isso se deve ao fato de que a exaltação da fé religiosa e a veneração dos católicos se manifestavam através da opulência material. Segundo a tradição portuguesa, o Rei D. Affonso Henriques e seus descendentes (apenas eles) teriam recebido pela voz divina, a incumbência de catequizarem nações bárbaras em terras remotas e propagarem a fé. O descobrimento de novas terras, na época das grandes navegações, as descobertas das minas de ouro e diamantes, assim como todos os bens temporais eram considerados como dádivas divinas, reservadas apenas aos eleitos pelo Senhor. Quanto maiores as riquezas, maior seria o zelo do criador para com a criatura. Na festa do Triunfo Eucarístico, a opulência, a ostentação de luxo, a magnificência e o esplendor seriam a melhor maneira de demonstrar a gratidão dos fiéis ao Senhor pelas graças recebidas, e também uma ocasião para revigorar a fé católica.

1 - CÓDIGOS VISUAIS

1.1 - Decoração / ornamentação

1.1.1.Arquitetura efêmera: jardim suspenso, arcos triunfais, jatos d’água, tablados, camarotes, chafarizes, andores, altares.

1.1.2 Decoração

-das ruas: árvores decorativas, plantas em geral, flores, passarelas, mastros, guirlandas, estandartes, fitas, bandeirolas, estátuas, imagens , cartazes, andores, pálios, estandartes etc.

-das casas: pintura recente em todas as fachadas por onde passaria o cortejo. Alcatifas, colchas e cortinas coloridas pendentes nas janelas, utensílios em prata, ouro e outras demonstrações de riqueza, sobre o peitoril das janelas.

-da Matriz do Pilar: todo o interior com profusa ornamentação toda revestida em ouro e enfeitada com sedas douradas e prateadas. O dourado simbolizando a luz celestial e o prateado, a purificação da alma.

-dos cortejos:

- vestes civis (canotilhos, fraldões, fraldins, galões, justilhos, justilhos, opas, saiotes, toucado, turbantes e chapéus, todos eles decorados com galassés, passamanes, petrinas, matinetes, franjas, bordados em fios de ouro e prata, diamantes, pérolas e pedrarias variadas),

-vestes sacerdotais (capas de arperges, casulas, dalmatica, manípulos, opas, sobrepelizes, véu de ombros , cafûlas, estolas etc.)

- ornamentação eqüestre (arção, cabeçada, jaezes, rabicho, xairel, arreios, caudas, e crinas enfeitados com materiais nobres e com muitas franjas, fitas),

-carros alegóricos, andores e pálios, talhas decorados com borlas, debuchos, tarjes, brincados, passamanes, frocos, marroquins, flores coloridas.

-complementos decorativos para civis, militares e para o clero: aljavas, turíbulos, barretes, escudo, arcos, setas, foice, estandarte, caducéu, borzeguins, caraminholas, cocares, escopetas, mosquetes, estolas, martinetes, máscaras, toucados, petrinas, salvas, turíbulos, servilha, turbantes, capacetes, toucas mouriscas, broches, flores, florões, fitas, franjas, franjões e bordados com fios, cordões, canotilhos e argolinhas de ouro e prata)

1.1.3 Cromatismo e brilho

-cores vivas: Cores mais freqüentes: ouro, prata, nuances de vermelho (carmesim, encarnado, cor de fogo, cor de nácar, berne) branco e, azul.

Cores menos freqüentes: rosa, verde, castanho, cor de marroquim, cor russo, cor parda, amarelo.

-claro/escuro: interior das igrejas (jogo natural de luz), noites de luminárias (jogo artificial de luz) e espetáculos pirotécnicos (rodinhas, fogo de espadas, montantes e diversidade de foguetes).

-brilho (nos tecidos, nas pedrarias, nos metais, lâmpadas de azeite, fogos de artifício, velas).

1.1.4 Matériais mais usados:

-tecidos caros (veludo, seda, damasco, rendas, arminho, brocado, cambraias, cassas, chamalotes, linhagem, pelúcia, telas, cetim, renda, espiguilha).

-metais preciosos (ouro, prata).

-pedras preciosas (diamantes, cristais, esmeraldas, pérolas, aljofares e outras).

-outros materiais: plumas, penas, bandeirolas e areias coloridas.

1.2 - Coreografia

Solenidades: missas, procissões, cortejos e desfiles de civis, irmandades, clero, dragões, soldados, autoridades, escravos etc.

Divertimentos: comédias, desfiles, serenatas arlequinais, cavalhadas, corridas de touros, alegorias móveis, carros triunfais e danças típicas de romeiros, turcos, cristãos e músicos.

2 - CÓDIGOS VERBAIS

2.1 Escritos: emblemas, cartazes, sermões, textos dramáticos, poesias.

1.1 Orais: sermões, apresentações teatrais, declamações, arautos.

3 - CÓDIGOS SONOROS

3.1 Música: Conjuntos musicais, solistas, serestas, música sacra (solenidades religiosas) e profana (festividades públicas).

3.2 Canto: missas cantadas, cantos corais.

3.3 Sinos.

3.4 instrumentos: charamelas, trombetas, clarins, cornetas, tambores, pifano

3.4 ruidos: morteiros, fogos de artifício, mosquetarias, aplausos, clamores, vozes humanas. “...alternavaõ suas vozes com as vozes do clarim”(TE:215)

Como já foi dito, no mundo barroco, o exagero, o excesso, a exuberância, a interpolação, a profusão de elementos etc, estão presentes nas artes em geral. Como instrumento da Contra-Reforma, a arte barroca tem um caráter triunfal. A monumentalidade, a suntuosidade, enfim, esse caráter de grandiosidade objetivava impressionar fortemente os sentidos e convencer os fiéis do poder divino, das verdades eternas, dos dogmas católicos e do triunfo do Catolicismo sobre a Reforma protestante.

A arte tornou-se, portanto, instrumento de persuasão. Os sentimentos deveriam ser expressos de maneira hiperbólica para causar fortes emoções. Isso explica a presença marcante das figuras de retórica da literatura e de toda sorte de artifícios nas artes plásticas para exprimir o martírio, a dor, o êxtase, a morte etc.

Para a encenação barroca da vida e da morte, nada melhor do que transformar os templos, ricamente ornamentados em teatros, os oficiantes em atores e os fiéis em público extasiado diante da grandeza e do poder. Através da apreensão estética desencadear-se-ia a emoção religiosa. Daí a apreensão dos sentidos por meio de cores vivas, do brilho, do luxo (visão), de aromas orientais e pétalas espalhadas pelas ruas (olfato), músicas celestiais (audição) e banquetes suntuosos (paladar). O tato é aguçado através do olhar que, de alguma forma, toca os objetos e proporciona a apreensão de suas matérias e texturas.

“Importava criar obras persuasivas, que envolvessem o fiel, o súdito, que os convencessem das verdades da igreja, do direito divino dos reis. Que atendessem ao desejo da fuga da realidade; que volatizassem os limites entre a vida e o sonho; expressassem a transitoriedade, o descentramento, a perplexidade de homens abandonados à própria sorte, `a fortuna, que não tinha mais certezas abolutas e por isso desconfiavam dos próprios sentidos e, conseqüentemente, desejavam sofregamente serem enganados, iludidos.” (Siqueira, 1999:81).

A tendência ao exagero expressa-se também pela abundância de superlativos, no texto de Simão. “Seguia-se ultimamente, a opulentissima e esplendidissima Irmandade do Divino Sacramento, dilatada em numeroso séqüito de honrados, e cristianíssimos irmãos”(TE:261). “penetraram climas (...) no frio alperissimos, no calor ardentissimos”(TE:160). Está também presente nas figuras de retórica, como: “vozes de clarins”, “eccos de clamores”, “elogios de applauso”(TE:.275), “amansaraõ os mares, domesticaraõ os ventos”(TE:161) e na linguagem barrocamente hiperbólica que caracteriza o opúsculo.

O leitor contemporâneo do relato redigido naquela época, certamente decifra sua semântica utilizando códigos atuais. O alto grau de semioticidade, a valorização do signo como representação da divindade, a iconicidade das relações no mundo do “Triunfo Eucarístico” certamente não correspondem ao valor semiótico atual. Para Lotman,

“o valor das coisas é semiótico, uma vez que ele é determinado não pelo próprio valor destas, mas pela significação daquilo que ela representa. Esta ligação não é convencional. Por força da iconicidade das relações , sob o ponto de vista da moral ou da religião, um conteúdo valioso exige expressão valiosa ( a ornamentação dos ícones) A própria materialidade do signo torna-se objeto de adoração.”(Schnaiderman, 1979:.37)

Finalizando, retornamos à Semiótica da Cultura e ao conceito de Lotman, para quem o texto por si não pode gerar nada; deve entrar em relação com um público para que se realizem suas possibilidades gerativas de sentido. Deve estar submerso na semiosfera e estar em interação com outros textos e com o meio semiótico. Todo o aparato e toda a importância político-religiosa do cortejo de “Triunfo Eucarístico” assistido nos dias de hoje, por exemplo, no Rio de Janeiro, por um público predominantemente herético, se reduziria a um desfile alegórico-carnavalesco. O texto dinâmico, apesar de organizado, tem caráter não concluído, de modo que o dispositivo que o codifica, embora fechado em distintos níveis, tem, em sua totalidade, um caráter fundamentalmente aberto e propicia a geração de novos sentidos. A cultura em sua totalidade pode ser considerada semioticamente como um texto (organizado) que se decompõe numa hierarquia de “textos en los textos” e que forma complexas tessituras, sistemas entrelaçados de signos interpretáveis.

Observando os traços distintivos dos códigos no “Triunfo Eucarístico”, pode-se verificar a combinação das características das várias camadas, apesar de umas não derivarem das outras. Os sistemas de signos refletem-se uns nos outros e, tanto nos códigos visuais, quanto nos sonoros e verbais, eles convergem, de forma relevante, para a exuberância persuasiva tridentina do mundo barroco.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIAS

*TE = Triunfo Eucharistico, texto de autoria de Simam Ferreira Machado, opúsculo publicado em 1734, em Lisboa. Utilizamos a fotocópia extraída do original contido nas edições príncipes, da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, e publicada como encarte na obra Resíduos seiscentistas em minas (vol.I), de Affonso Ávila.

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[*] Josina Nunes Drumond (Jô Drumond). Mestrado: Estudos Literários (UFES); Defesa em junho de 2000. Título: Nas trilhas da derrisão Doutorado: Comunicação e Semiótica (PUC/SP). Área de concentração: Intersemiose na Literatura e nas Artes. Defesa em outubro de 2004. Título: As dobras do sertão: palavra e imagem
Cursos no exterior - Université de Sorbonne, Paris (1974) Université de Franche-Comté, Besançon, França (1989, 1993 e 1997)
Poeta, Artista Plástica, Professora, Tradutora Juramentada do Estado do Espírito Santo, membro da diretoria da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras, membro da diretoria da Federação Nacional dos professores de francês, Presidente da Associação dos Professores de Francês do Espírito Santo.

 

© Josina Nunes Drumond 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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