Uma leitura da cultura indígena na literatura infantil brasileira

Profª Drª Irene Zanette de Castañeda

Professora Doutora de Literatura da Universidade Federal de São Carlos
irene@power.ufscar.br


 

   
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Este trabalho visa apresentar a sínteses de algumas narrativas indígenas coletadas da oralidade por escritores e fazer uma interpretação dos aspectos principais da cultura e dos mitos aí inseridos.

Hoje no Brasil, tem-se dado uma certa importância às narrativas indígenas coletadas da oralidade por alguns antropólogos ou escritores que demonstram certo interesse nesse tipo de literatura. As narrativas indígenas , no Brasil têm sido classificadas como literatura Infanto-juvenil.. Para tratar disso, quero lembrar que entendo a obra literária como produto de uma cultura . E como tal a representa metaforicamente. Selecionei alguns livros, cujos autores, DO século final do século XX, recriaram as histórias da Literatura Oral que foram contadas pelos próprios indígenas e recolhidas por pesquisadores. São narrativas adaptadas para crianças e jovens. Retratam o pensamento e o modo de vida do nosso índio, sua posição sobre as questões da natureza, de seus mitos, de sua religiosidade e de seus costumes, de suas habitantes. Os temas são , aparentemente inocentes, mas possibilitam reflexões profundas sobres a identidade cultural destes seres humanos tão marginalizados na nossa sociedade contemporânea. São histórias tradicionais, intemporais, eternas: histórias das origens, crenças ou mitos.

Além da aculturação intertribais nas festas religiosas e profanas ( para troca de produtos, existe também a aculturação do branco.

São narrativas de povos ágrafos de várias regiões do Brasil, por isso, sua diversidade cultural. Algumas das narrativas são influenciadas por dados da cultura do Branco,são de tribos aculturadas, invadidas, pois há na vida das tribos, interferência de missionários , garimpeiros , posseiros e fazendeiros que se aproximam dos índios por interesse os mais variados, seja , por causa de riquezas minerais, seja por causa da madeira,seja por causa da religião que querem implantar ou para fazerem estudos da língua.Seja como for, essa interferência tem trazido, nas últimas décadas, um certo grau de aculturação.Porém, ao lermos as narrativas, podemos,até certo ponto, separar o que seja do indígena do que seja do branco.

Tentaremos buscar nas narrativas indígenas um pouco da fidelidade de sua cultura.Assim,vamos falar de livros como: O Curumim que virou gigante de Joel Rufino dos Santos; MiKAI KAKA de Hildebrando Pontes Neto; O Filho do Bandeirante de Odete de Barros Mott; A Lenda do guaraná de Ciça Fitipalde; Como Apareceu a Noite de Durvalina Santos; A Linguagem dos pássaros de Ciça Fitipaldi; A Incrível aventura do homem - árvore, de Danielle Kuss.

Notamos que seja no início, seja no final das narrativas, o narrador faz referência a outros narradores anônimos que transmitiram histórias a outros narradores indefinidamente. Queremos salientar que como se tratam de narrativas indígenas, elas não têm autores oficializados, porque pertencem à Literatura Oral, a não ser as histórias que vamos tratar. São histórias que foram recriadas, adaptadas a partir de um mito ou de uma narrativa inicial. reelaboradas artisticamente.

Para entender melhor o significado da narrativa-mito utilizada pelo nosso indígena vou tomar as palavras de Nicolau Sevcenko, ou mais propriamente do seu seminário sobre o texto : "No Princípio era o ritmo: as raízes xamânicas da narrativa.

" A narrativa do mito é sua atividade central, sendo dela que derivam tanto a música quanto a coreografia que a acompanha. ... Não existe narrativa que não seja metrificada, não existe recitação que não seja cantada, não existe canto que não seja dançado. A narrativa é uma performance integral, desencadeada e centrada pelo xamã, ela se torna comunitária; sendo coletiva, se torna irresistível. A narrativa não é uma exposição do assunto, é o modo supremo da experiência da vida. Através dela, o mito se torna rito e a cerimônia, uma suspensão do tempo, evasão do espaço e libertação dos frágeis limites do corpo mortal e carente. O fragmentário se torna uno, o efêmero, eterno e o contingencial, revelação.

O mito-canção-narrativa, assim, catalisa, articula e redireciona as energias coletivas, atuando como uma espécie de circuito nervoso social da comunidade, abastecido pelo largo. Acervo da herança cultural e orquestrado pela figura do xamã. ". (p.126).

Vamos começar pela narrativa O Curumim que virou gigante. O narrador nos conta que esta história lhe foi contada por outra pessoa. Trata de um índio chamado Tarumã. Ele queria ter uma irmãzinha, mas ela não nascia. Começou, então a imaginá-la. Convivia com ela como se de fato existisse. Quando pescava, era sempre para duas pessoas.. O mesmo fazia com a caça Imaginava a mãe cuidando da irmã. Imaginava brincando e comendo frutas como araçá Chega a mentir para os amigos que tinha nascido sua irmã. Esses dão-lhe presentes como: flor, frutos como caju, pitanga. Isto até o dia em que descobrem a mentira. A partir daí, Tarumã ficou com vergonha e saiu pelo mundo com a consciência pesada por ter mentido. Ao chegar à beira do mar, deita-se de costas, estica os pés, as mãos e o pescoço. De repente vira um gigante. Trata-se de uma compensação pela sua atitude. Segundo o autor, no Rio de Janeiro, há um gigante deitado. É o Corcovado, o Tarumã. Acima do rosto dele, há uma estrela que é sua irmã.

Como se nota, é uma narrativa simples oferecida às crianças, mas que contém um indicativo de valor preservado pelos índios que é a verdade. A mentira é um desvalor e rejeitada pelo grupo. Trata-se da eternização da exclusão da sociedade por Ter apanhado mais alimento que devia. A solidão é o castigo e a metamorfose , uma forma de compensação.

O desejo do índio de ter uma irmã, moldado pela imaginação, se torna uma realidade, do verbo, se tornou uma estrela.Enquanto ele é transformado em uma eternizada montanha, sua irmã, que era apenas imaginação, se cria como uma estrela.

MIKAI KAKA

Um outro livro Infantil nos chamou a atenção pelos sentimentos humanos que aí são tratados com sutileza e pela capacidade de imaginação. Trata-se de MIKAI KAKA de Hildebrando Pontes Neto. .

É uma adaptação de uma lenda do povo Maxacali, que vive em Bertópolis, Minas Gerais. Narra a história de um índio chamado MIKAI KAKA de cabelo liso e preto, cor de pele diferente da do branco. Vivia numa aldeia do povo Maxacalino no Vale do Mucuri, às margens do Rio UMBURANAS.

Num rancho sem paredes, os índios mais velhos ensinavam os meninos a rezar, a cantar, a fazer o arco e a flecha, a matar onça e a pintar o corpo com urucum.

Mikai Kaka era diferente. Gostava de nadar e mergulhar. Um dia, resolveu pegar peixes com as mãos, mas estava muito difícil. No tempo desses índios, segundo a lenda, eles falavam com os animais. Um dia, MIKAI encontrou um jacaré de barriga amarela. Conversaram muito e, no meio da conversa, o jacaré resolve ensinar o índio a tecer a rede e depois a pescar muitos peixes com ela. Pescavam juntos e o jacaré dava lhe uma grande ajuda com seu rabo. . Tudo o que era pescado repartiam entre si e com todos da aldeia de forma bastante justa. . Na aldeia, ninguém passava fome.

Como em quase todas as histórias, quando tudo está indo bem, acontece alguma coisa para atrapalhar. E de fato, um índio invejoso de nome MANHUMÃ pediu o jacaré emprestado para Mikai. Este, embora enciumado, emprestou. Manhumã foi ao rio e pegou um monte de peixes, só que escolheu os menores para o jacaré e ficou com os maiores. Foi uma partilha desigual. O jacaré descontente com a injustiça cometida pelo índio, fugiu. A partir daí, a tribo começou a ter problemas com a falta de alimentação. Mikai procurou o jacaré e nada. Às margens do rio apareceu o criador do seu povo Maxacali que lhe disse qual era a causa dos problemas da tribo e do desaparecimento do jacaré. Tinha sido o egoísmo, a inveja e a deslealdade de Manhumã. Por causa disso ia faltar peixe na aldeia. Mikai compreendeu, então, que o jacaré nunca mais voltaria.

Esta história Mikai contou para seu filho, que contou para o narrador deste livro que , por sua vez, contou para os seus e agora para nós seus leitores.

Como vimos, é outra narrativa literária, mas de fundo pedagógico. Os índios mais velhos passam para os mais novos os seus valores, os quais devem ser respeitados . Nota-se que são contrários ao egoísmo, à inveja e à deslealdade e o que é mais importante: que o erro de um indivíduo na tribo afeta todos os demais companheiros, por isso todos têm que ser leais e solidários uns com os outros. Nota-se também a liberdade de ser o que se quer como é o caso do índio pescador. A ideologia do índio é contrária da nossa. Para o cristão, a responsabilidade pelos crimes é individual, só um é culpado e castigado. Nas comunidades indígenas todos pagam pelo erro .

Quanto ao jacaré , que ensina o índio a pescar, simboliza, a força bruta, também o papel de sedutor.

A LENDA DO GUARANÁ é outra narrativa de CIÇA Fitipaldi que pode encantar as crianças e, ao mesmo tempo, trazer uma mensagem para ser refletida e ensinada nas escolas. Trata de um recriação do mito dos índios Sateré-Maué.

É a história de três irmãos: uma moça e dois rapazes...

ONHIANUAÇABÊ era bonita, também chamada de UNIAÚ . Era dona do Nhoçoquém, um lugar encantado. Aí ela conhecia todas as plantas: as de comer, as de fazer remédio, as de fazer cuia, as de tirar contas para fazer colar. Foi UNIAí que plantou uma castanheira que ficou muito alta no Noçoquém. A moça não tinha marido. Naquele tempo, os bichos eram gente também e todos queriam se casar com Uniaí. Os irmãos não queriam porque perderiam a sua companhia e aquela que lhes dava as plantas para os remédios e para alimentação..

Entre os bichos casadouros, estava a cobrinha. Foi a 1ª a expressar o seu desejo. Espalhou seu perfume e a encantou com seu olhar. Enfim, seduziu Uniaí.

Casaram e geraram um filho contra a vontade de seus irmãos porque, a partir daí, ela só ia cuidar de seu filho e não ia arranjar mais nada para eles. .Então, ela foi embora de Noçoquém. A castanheira cresceu e deu muita fruta. Uniaí foi morar longe. A criança cresceu forte e bonita banhada entre borboletas que gostavam d' água. Uniaí, sua mãe, era contadora de histórias. Contava sobretudo as histórias de Noçoquém, de seus ancestrais, das plantas , da castanheira que plantara, dos frutos que os tios gostavam de comer. O menino quis comer a fruta da planta que tanto os tios gostavam, mas era-lhe proibida. Os tios puseram a cotia ,o periquito a arara ,depois o macaquinho boca-roxa para tomar conta da castanheira e não deixar nenhum estranho pegar de suas frutas.

O menino foi escondido com sua mãe , no primeiro dia. Comeu e gostou. No segundo dia, foi sozinho. Desta vez, o macaco viu, armou uma flecha e atirou no menino que caiu com as castanhas. Uniaí deu pela falta do filho e foi atrás dele. O menino já estava sem vida. A mãe soprou,soprou, mas não adiantou, Chorou muito, depois plantou a criança na terra e dela nasceu uma planta mais poderosa que a castanheira.

Do olho esquerdo nasceu uma planta forte. Era o falso guaraná. Os índios a chamaram "uaraná-hop Do olho direito, nasceu o guaraná verdadeiro, que os índios chamam "uaraná-cecê". Por isso o fruto do guaraná é assim como olho de gente.

Dias depois, UNIaí viu a planta já grande. O guaraná estava cheio de frutos. Para sua surpresa, debaixo da planta, de dentro da terra, apareceu seu filho alegre, forte e lindo e agora ressuscitado.

Este menino que nasceu como planta, de dentro da terra, foi o primeiro índio MAUË. Ele é considerado a origem da tribo. Maué significa "papagaio inteligente e curioso."

Nesta narrativa, a compensação ocorre com o sacrifício do menino, que através de um ritual órfico acaba nascendo como guaraná. De acordo com a tradição Maué, os olhos são associados ao sol e à lua. Na mitologia indígena, morrem e ressuscitam, daí a fruta do guaraná ser semelhante aos olhos humanos. Quando se come é preciso devolver à terra, para a natureza alguma coisa. É uma forma de compensação ou repor o que se tirou. Na hora em que se morre, voltamos para a terra.Morremos e nascemos de novo. trata-se do mito da destruição e criação. ( No Alto do Rio Negro, há um mito que diz que o urubu reza a missa, o tatu ...e a águia levam a alma. )

 

Curiosidade sobre a tribo

Esses índios habitavam as regiões centrais da mata entre os rios Madeira e Tapajós, limitados, após trezentos anos de contato com os brancos. Os homens caçam e pescam, coletam a castanha, o breu, o coquinho, as formigas, os lagartos, os cipós e as palhas. As mulheres preparam a farinha de mandioca e fazem o beiju (pão-de-mandioca) e o tacacá (sopa) . São os primeiros a cultivar o guaraná e a mandioca. O guaraná é planta nativa da região e a transformam em bebida - o çapó. É bebida ritual dos Sateré- Maué. Dá força e vida e cura todas as doenças. Atribuem-lhe tanto valor que se dizem "filhos do guaraná", conforme narra o mito de origem. Por influência das referidas plantas, os índios se enfeitam de vermelho e verde.

COMO APRECEU A NOITE de Durvalina Santos Esta narrativa trata de índios que acreditavam que só existia o dia, a noite, porém vivia presa.

A filha da Cobra-Grande que era uma bonita índia chamada IARA, ficava à beira do rio admirando a beleza das águas claras, que corriam mansamente. Um dia, a moça se casou com um índio vermelho como camarão cozido que se chamava POTI. . Como sabia que sua mãe mantinha a noite presa, usou de uma artimanha para libertá-la. Um dia, Poti quis ficar sozinho com sua mulher. Mandou três índios, que viviam com eles: Peri, Intã e Arari passearem pela floresta. O casal ficou sozinho, muito feliz. IARA aproveitou o momento e propôs que o marido mandasse os três índios na casa de sua mãe buscar o coquinho que prendia a noite e se assim fizesse, o amaria para sempre.

Percebemos, aqui, uma semelhança com uma passagem do Gênese Bíblico; a proibição e a desobediência. Como na narrativa anterior, se há castigo pela infração de um elemento, todos sofrem as conseqüências. Embora, como vamos ver aqui, há mais motivos para alegria que para tristeza. Poti aceitou a proposta da mulher e os três índios foram buscar a encomenda. Era um coquinho de Tucumã . A Cobra- Grande recomendou que não o deixassem cair no chão para não abrir, pois tudo estaria perdido.. Os índios se afastaram - Os três saíram preocupados com as recomendações. Mas, ao ouvirem um barulhinho de dentro do coco, ficaram curiosos para saber o que era. Resolveram abrir o coquinho, pois o cri-cri, o piuí-piuí , o croac-croac eram tentadores. Não resistiram. O barulho era de grilos e sapinhos que cantavam só à noite e estavam presos ali. Fizeram uma fogueira para abrir o coco. O breu derreteu Os grilos e os sapos fugiram . Tudo escureceu. A noite que estava presa, fugiu. Quando escureceu, IARA disse para o marido que os três índios haviam soltado a noite.

Quando a noite fugiu do coco de tucumã, tudo se transformou em pássaros e outros animais. Os que estavam no rio viraram peixes, patos e garças. Para Iara tudo se modificou, deixando o mundo mais bonito, cheio de animais diferentes. De madrugada, ela viu a estrela d' Alva brilhar. Resolveu separar o dia da noite e encantar as coisas para melhorar a selva. Enrolou um fio e soltou. Apareceu um pássaro vermelho com cabeça branca. Chamou-o de cajubiu e ordenou que cantasse de madrugada, quando o sol raiasse para a passarada acordar. Fez, o mesmo com outro fio e ordenou que fosse Inhambu para cantar à noite

Os três índios chegaram desconfiados e IARA os transformou em macacos irrequietos com marca do breu e em forma de listras.

Não há dúvida que este mito assemelha-se também com a caixa de Pandora da mitologia grega. Acreditamos que tal fato pode ser explicado pela Psicologia de Jung, no que se refere ao o inconsciente coletivo. Para a mãe, a soltura da noite seria uma desgraça, porém para a filha, a nova geração, o mundo seria mais divertido, mais alegre, mais cheio de vida, como de fato ocorreu. A desobediência aqui não traz desgraça como no gênese Bíblico, ao contrário o mundo fica mais cheio de vida e mais bonito.

Na Amazônia, a curiosidade resulta numa desgraça. Quebrado o tabu, acaba a vida. Então, há uma mediação para que a noite não permaneça eternamente. Os pássaros cantam para chamar o sol. . Na nossa cultura, até o galo canta ao amanhecer, para separar o dia da noite. Podemos notar aqui também o mito da destruição e da criação de um mundo melhor.

A LINGUAGEM DOS PÁSSAROS de Ciça Fitipaldi é outra narrativa interessante para crianças. Trata -se de um tempo em que os pássaros não tinham língua própria, ou seja, não cantavam como hoje ouvimos, no entardecer, ou no amanhecer .Ao invés disso, falavam como gente.Todos tinham uma só linguagem.

Um índio, chamado AVATSIÚ , prendera a língua dos pássaros dentro de si. Além disso, ele e seus companheiros matavam passarinho à toa. Nesta sua aldeia, havia um índio que brigava muito com a mulher. Desgostoso, resolveu sair pelo mundo e virar outra coisa, uma árvore por exemplo A árvore desaconselhou porque tinha que ficar todo o tempo acordado. O índio continuou seu caminho. Encontrou alguns passarinhos com quem conversou. Estes convidaram para ir a sua aldeia. E assim foi feito. Lá, o chefe dos pássaros, o Uiraçu reclamou que Avatsiú estava sempre caçando seus companheiros como: a arara, o periquito, o tucano, o japu, o papagaio e o mutum.. Além disso, estava com a fala deles presa e não soltava de jeito nenhum., que precisavam dar um jeito naquela situação. Pediram, então, ajuda do índio hóspede para acabar com Avastsiú. Resolveram fazer do moço um voador como eles. Colaram-lhe penas e o ensinaram a voar. O índio emplumado e os pássaros foram até a aldeia de Avatsiú .Infelizmente o índio emplumado voava torto e Avatsiú , percebendo que estava sendo perseguido, capturou-o e matou-o. Os outros pássaros ficaram tristes e foram saber do seu filhinho que também estava naquela aldeia. O menino foi levado , também emplumado, bem orientado para caçar Avatsiú. E assim o fez. Com unhas de gavião e com ajuda dos outros pássaros levaram Avatsiu para o alto e de lá soltaram .Depois disso, todos os pássaros foram até lá para pegar suas falas que estavam dentro do índio malvado. Alguns trocaram a voz depois destrocaram , como foi o caso do beija-flor com a voz do anhuma. O menino voltou para sua casa com uma balaio cheio de penas. Era presente dos pássaros. Quando o dia clareou, a mata ficou mais divertida com a barulhada dos pássaros, E assim os dias e as noites se sucedem com os cantos diferentes de cada pássaro, agora mais felizes e mais livres, donos de sua própria linguagem.

Percebemos, nesta narrativa, entre outras coisas, que a linguagem dos pássaros metaforiza a situação lingüistica do povo .A língua dos pássaras era proibida e, no final é libertada. Isto pode estar representando, de forma metafórica, detalhes lingüisticos da aculturação. Um grupo impões sua cultura e seu idioma. No entanto, um dia, os índios desta história libertaram-se do autoritarismo do outro e passaram a usar cada um a sua própria linguagem. Sabemos que hoje, há um movimento a favor do ensino da língua indígena nas tribos brasileiras. É uma forma de resgatar a língua e a tradição desses povos que estão desaparecendo cada ano mais em contato com o branco que tem imposto sua cultura massificadora. Com se vê, aqui também encontramos o mito da destruição e da criação.

 

Curiosidade sobre a nação

Essa narrativa é da cultura Kamaiurá, nação indígena de língua Tupi. Faz parte da reserva conhecida como Parque Nacional do Xingu onde convivem 15 nações de línguas diferentes. O traço marcante da aldeia é a grande gaiola cônica onde vive a harpia, ave lendária cujas penas são muito apreciadas. . Neste historia, o Uiraçu é o chefe dos pássaros. A festa mais importante é o Kwarup, homenagem aos mortos ligadas ao mito de origem da humanidade.

A INCRÍVEL AVENTURA DO HOMEM - ÁRVORE, de Daniele Kuss e tradução de Ana Maria Machado, é uma narrativa que pode ser de interesse das crianças . Trata de uma história trágica para os índios, porém com suas próprias mãos demonstram que são capazes de reconstruir o que for destruído. É uma narrativa cheia de aventuras e desventuras, de magia , de poder, de egoísmo, de inconseqüência , enfim, uma narrativa de índios que estão tão integrados à natureza a ponto de se “casarem com uma árvore”, serem “protegidos por uma onça boa”, ou pela própria lua. Esta narrativa está contida no livro A AMAZÔNIA : Mitos e Lendas Traduzido por Ana Maria Machado.

É a história de um gênio do mal de nome SARURAMÁ que incendeia uma floresta por prazer. Tudo e todos morrem, com exceção de um índio porque ficara escondido num buraco respirando por um canudinho.

Não se conformava com a idéia de morrer de fome. Começou, então, a andar para oeste em direção à terra dos seus ancestrais. Aí encontrou o Gênio do mal arrependido por Ter destruído tudo só para se distrair. Este , então, dá um punhado de semente para replantar nas terras queimadas. . Algum tempo depois lá estava a floresta verdinha . Agora habitada por uma linda jovem que o conquistou. Casaram-se. Dessa união, nasceram muitos meninos e uma menina que era protegida pelos irmãos ciumentos.

A menina cresceu. Um dia, ela apaixonou-se pelo homem-árvore, o ULÊ. Contou para a mãe que orientou-a como fazer para casar-se com ele e foi aceita. Tiveram um menino muito bonito e forte. Um dia, Ulê foi atacado por onças e morreu. A mulher fez um ritual dançando e usando palavras mágicas até que ele ressuscitou. Quando na beira de um rio,ULÊ viu seu rosto desfigurado, pediu um tempo para a mulher que, sozinha com a criança, começou a andar triste com seu filhinho TIRI. Encontrou um buraco e entraram.

Passaram a noite dormindo na cova das onças enquanto elas caçavam.. A mãe das onças os protegera dos filhos que eram muito cruéis,mas estavam caçando.. Quando as onças voltaram sentiram cheiro de gente e a mãe teve de dizer a verdade. A moça foi rapidamente morta e comida. Quanto ao filhinho, as onças pediram para a Mãe-onça cozinhá-lo para elas. Só que em vez da criança ela trocou por um pedaço de carne. e salvou a por muito tempo, escondendo-a dos filhos. Um dia , já moço forte, estava a caçar um roedor que destruía a sua roça de abóboras. O roedor disse-lhe que perseguia o animal errado e protegia os assassinos de sua mãe. O Jovem rapaz , então, resolveu flechar as onças. Apenas uma se salvara porque subira numa árvore e pedira proteção da Lua. Dizem que é por isso que as onças preferem caçar à noite, ao luar. A partir daí, o jovem começou a cuidar de quem tinha cuidado dele a vida toda, a mãe das onças. Plantou mandioca e guaraná. Como tinha poderes sobrenaturais, tornou-se o senhor da floresta. Criou também um amigo que deu o nome de CARU, com quem passou a viver grandes aventuras . Um dia encontrou uma serpente dormindo na entrada de um buraco. Tiri pediu para o gavião Acauã matar a serpente. Então, do buraco, saiu uma multidão de índios de tribos diferentes que invadiram a terra. Tiri fez chover flechas e as distribuiu porque sabia que logo as tribos iriam se odiar. . Terminada sua missão, partiu para a terra dos pássaros de todas as cores.

Como vimos esta é uma narrativa de várias gerações de índios que vivem integrados com a natureza, ora casando-se com árvores, ora sendo protegidos por onças. Mostra o relacionamento, em termos de realismo, da onça como fera que mata seres humanos. Porém , em termos do imaginário indígena, há uma convivência pacífica, harmoniosa entre homens e animais em que uns ajudam os outros por fraternidade,generosidade sem qualquer tipo de interesse. Esta narrativa pode ser lida, em termos intertextuais, com a criação mítica de Roma. Fora uma loba que criara Rômulo e Remo. Aqui foi a mãe das onças que criara a criança órfã. Trata-se também do mito da destruição e da criação. Interessante que até os gênios do bem e do mal, ou deuses e espíritos da floresta causam danos, arrependem-se e recriam o mundo que fora destruído por eles mesmos.

Finalmente, um conto muito bonito de Odete de Barros Mott : O FILHO DO BANDEIRANTE

O livro trata das aventuras de Bentinho, o filho do Bandeirante Bento Ferraz.

Bentinho é um menino de dez anos que vive no tempo do Brasil colônia, na vila de Piratininga e que sonha em participar de uma Bandeira com o pai para caçar índio, onça ,trabalhar na lavoura ,encontrar ouro e pedras preciosas.

Depois de muita insistência, o pai o aceita na sua companhia , mas orientado por negro velho e escravo. O menino acostumado a pensar como Bandeirante achava que índio não era gente.

Um dia perdeu-se na mata. Fora encontrado e cuidado por alguns índios que o levaram para sua aldeia. Escondem da chuva, cuidam do espinho no pé, dão-lhe frutas, ovos de tartaruga. Para agradar, um índio traz-lhe aves, pequenos animais, lindas borboletas. Os índios fazem sinais amistosos para o menino. Na aldeia, é apresentado ao cacique, depois ao pajé que toca chocalho e dança para ele. Os índios mais velhos falavam que aquela tribo tinha uma lenda, ouvida dos seus avós que aqueles ouviram de seus ancestrais Era a seguinte:

Um dia apareceria na taba um menino de pele branca , de olhos cor-do-céu, sem medo filho do deus da guerra que iria guiar os guerreiros em suas lutas alcançando muitas vitórias. E ali estava o provável menino enviado para a felicidade da tribo. Esta era todos os anos atacada por uma tribo vizinha de guerreiros valorosos na época da colheita. O jovem cacique estava em constante sobressalto.

Numa cerimônia religiosa, tornaram Bentinho irmão de sangue do cacique. Foi considerado, a partir de então, o filho do deus da guerra. O demais índios sentiram-se fortalecidos.

Bentinho sente saudade do pai que já estava ficando velho, mas vai se acostumando com os índios .Fica na tribo durante cinco anos sem ver o pai.

CAIUMI, o cacique dá-lhe o nome de KUMI. , que em tupi significa - o prometido. Sua rede é amarrada na maloca do chefe. Este tinha uma filha chamada Vati. Tornam-se companheiros inseparáveis nos banhos e nas pescarias.

O menino aprende a subir nas árvores a disparar a flechas, a tecer brinquedos com a taquara e a esculpir figuras na madeira.

A vida dos índios era simples. Dividida entre caça, pesca, plantação de milho , dança e conversas ao pé do fogo. , onde os índios mais velhos contavam aos mais jovens os seus feitos gloriosos , grandes caçadas ou algo que acontecera no céu. O jovens ouviam, admiravam e respeitavam os mais velhos como sábios da tribo.

KUMI participa de todos os momentos da tribo. Aprendera os costumes e começa a entender a sua língua., a pontaria com arco e flecha.

Bentinho, o KUMI, se torna assim o filho das matas e gosta daquela vida livre, embora sinta saudade do pai.

Naquele ano, a colheita foi muito boa, atribuída à presença do menino. Kumi foi escolhido para oferecer a primeira espiga de milho ao deus da terra . Depois da festa, esperam pela invasão da tribo vizinha como era de hábito. Só que desta vez , preparados e confiantes em Kumi. Os vizinhos souberam de Kumi e não atacaram a tribo por muitos anos. Kumi , sempre que chegava das caçadas, trazia para Vati : borboletas, flor, pássaros ou pepita de ouro para enfeitá-la.

Dois guerreiros: KUMI começam a disputar em lutas Vati para casar-se com ela. O chefe Caiumi resolve promover um a competição entre ambos . Vati poderia escolher o mais forte . O pai de Vati, o pajé, disse que daria a filha para o guerreiro mais forte e este seria o cacique da tribo, quando ele morresse.

Acontece a prova. Vati fica preocupada porque amava Kumi e temia que ele perdesse.

O Plano de Caiumi: Há uma onça de difícil caçada, que cerca a tribo. Voltaria para receber VATI quem caçasse a onça.

KOLUANO, o guerreiro arrogante quis ser o primeiro, também chamado Uiti. Os jovens partem para a tarefa. A onça era esperta. Escondia-se. . Parecia o espírito da floresta. Acreditavam que à , noite o deus da floresta protege a caça. Kumi disse que se o companheiro trouxesse a onça ele saberia perder VATI. No entanto UITI volta desolado sem a onça.

Mais uma característica do herói que deveria vencer. É a vez de KUMi. Este prefere a noite para a caça. Volta arrastando a onça amarrada e viva. Vati se esconde e chora feliz. Todos ficam admirados menos os jovens invejosos que duvidam da bravura do herói e pedem para ele mostrar de novo como tirou a onça do buraco. Assim é feito. Finalmente VATI sorri para Kumi. Ficam noivos.

Muitos anos de paz são transcorridos. Até que um dia, a tribo vizinha resolve atacar a plantação de milho e mandioca.

Caiumi reúne o conselho da tribo , o pajé e os guerreiros. Confiam em Kumi ,o filho do deus da guerra. . Interessante é descrição da guerra. Até as mulheres participam a sua maneira, fazendo barulho na retaguarda para dar a impressão de mais gente armada. À noite, cantam seu canto de guerra. Kumi, fala a Caiumi que o deus da guerra está entre eles.

Isto , na certa, para dar mais coragem aos companheiros de luta.

Parte dos guerreiros ia na frente. Outra parte ficava mais atrás à espreita, e as mulheres faziam barulho , quando era atacado o primeiro pelotão. A invasão era inesperada, mas alguns índios perceberam um índio vizinho espreitando a plantação por isso, preveniram-se .. E foi por isso que descobriram que haveria guerra. Tornam-se vencedores.

Kumi anda triste com saudade do pai. Resolve rever o pai que deve estar muito velho, mas voltaria para casar com VATI. E assim o fez.

Pelo caminho sonha em combater a escravidão de negros e índios. Defenderia a liberdade . Faria com que compreendessem e respeitassem os costumes indígenas. Agora conhecia o amor e o respeito pelo outro, pelo diferente.

A cada atitude de KUmi, acrescentam-se as características do herói vencedor de todos os obstáculos.

KUMI segue seu caminho de volta para rever o pai. Encontra uma mina de ouro. Apanha um pouco, pois sabe que vai precisar comparar roupa para entrar na Vila de Piratininga . Encontra uma casa abandonada no meio do caminho e um bilhete do pai que pede sua volta.

À noite, acendem uma fogueira para espantar as cobras e outros animais.

Já perto de Itu, os três índios companheiros se separam-se. Estão perto de Piratininga. Kumi vai até um armazém compara roupas e paga com ouro. Enfim, vai ao encontro esperado. Neste momento, Bentinho se põe a pensar por que os bandeirantes iam tão longe para buscar ouro, em vez de labutar nas plantações. Pensa também que com o ouro que apanhou vai ajudar a tribo com sementes e enxadas. Que vivia diferente do pai, mas nem por isso era infeliz, nem tinha uma vida pior que a dele. Andam nus, desconhecem a pólvora, não possuem enxadas, facão, mas são felizes, livres, corajosos, e leais, além de solidários uns com os outros. Os índios não sentem necessidade do ouro. Nada têm para vender nem para comprar. (p.47). Eles amam, sentem a paz, são amados, cultivam a amizade, respeitam os outros. Só atacam para se defender. Não são individualistas. O que possuem é de todos.

Este é um momento para fazer os leitores refletirem sobre o lugar da felicidade.

Finalmente, Bento Ferraz , o pai, abraço o filho com muita emoção, tem vontade de aprisionar os índios que vieram com KUMI, mas desiste, depois de ouvir toda a história de Kumi. Bentinho conta tudo para o pai, para os primos, os tios, amigos de infância. Enfim, os índios são introduzidos na vila e a curiosidade toma conta sobretudo das crianças.

Depois de algum tempo, forma-se uma nova Bandeira à procura de ouro. Bentinho propõe que não mais caçariam índios. E confessa ao pai que se casará com Vati, a filha do pajé. Conta também ao pai que os índios o curaram de doenças, de picadas de abelha de espinhos nos pés com plantas medicinais. Confessa que ama os amigos da tribo e não quer que nenhum mal lhes aconteça.

KUMI volta à tribo com o pai . Este fica numa maloca não se acostumando muito. Ajuda as mulheres nas plantações, enquanto Bentinho e os outros homens da tribo partem para a caça.. O casamento de Kumi e VATI, enfim acontece. Para a festa, a tribo preparou cauim e caça.

Com relação à estrutura, podemos verificar, nesta narrativa, a inserção das invariantes estruturais da narrativa, segundo o método proposto por W. Propp (Morfologia do Conto) e por Greimas (Semântica Estrutural) . São invariantes que ambos registram como peculiares à efabulação dos contos maravilhosos de origem popular.

Selecionamos para a análise, cinco invariantes sintetizadas por Nelly Novaes Coelho , no seu livro Literatura Infantil.

Inicialmente, há o desígnio, em que Bentinho, o herói deseja fazer parte da Bandeira com o pai. A seguir, ocorrem vários desafios ou obstáculos à realização completa do herói. São guerras com vizinhos, lutas com animais ferozes, lutas para disputar uma mulher, lutas com animais ferozes, distância da casa do pai e a mediação. Simultaneamente, conquista o objetivo final; reencontra o pai e se casa com a heroína da história.

Assim, terminam algumas das histórias dos indígenas brasileiros, seus costumes, seus ideais de vida concreta e boa, sua maneira de ser feliz, sua forma de luta contra o inimigo predador, a caçada de animais selvagens, sua crença na proteção divina, sua maneira de conquistar uma mulher, o casamento o cultivo da amizade, a solidariedade . De tudo depreendemos que embora os índios tenham os mesmos defeitos e qualidade como de qualquer homem, entre eles prevalecem os valores também por nós considerados positivos como: o amor, a fraternidade, a solidariedade, a amizade, a simplicidade, o heroísmo, a coragem, a valentia contra o inimigo,a liberdade, a religiosidade , a união familiar, o amor dos pais pelos filhos, o respeito dos filhos para com os pais, o respeito aos mais velhos e à tradição, ajuda á coletividade, a felicidade, sem esquecer a integração , o respeito e a proteção à natureza, a compensação quando se faz alguma maldade ou se comete uma desobediência aos padrões culturais da tribo . Enfim, todos tratam de buscar a felicidade em contato com a natureza. Ao contrário , para a nossa sociedade, os valores estão corroídos pelo individualismo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FITIPALDI, Ciça. O Menino e a Flauta. São Paulo, Editora Melhoramentos, 1986.

_______________ A Linguagem dos Pássaros.São Paulo, Editora Melhoramentos, 1986

KUSS, Daniele. A Amazônia Mitos e Lendas.Editora Ática, 1997

MOTT, Odete de Barros. Marco e os Índios do Araguaia. Editora Atual. 1986

_______________ O Filho do Bandeirante. Ed. Atual. 1986.

_______________ Ipupiara. Editora Moderna, 1987.

NETO, Hildebrando Pontes. Mikai Kaka. São Paulo, Editora Ática, 1986.

SANTOS, Durvalina. Como Apareceu a Noite. EBAEL. S/D.

SANTOS, Joel Rufino dos .O Curumim que virou gigante. São Paulo. Editora Ática. 1989.

 

© Irene Zanette de Castañeda 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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