Mário, polígrafo e epistolômano [1]

Prof. Dr. Wilberth Claython Ferreira Salgueiro [2]

Universidade Federal do Espírito Santo (Brasil)
wilberth@uol.com.br


 

   
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O presente ensaio, com ligeiras e providenciais modificações, reapresenta os capítulos inicial e final de minha dissertação, intitulada “Mário de Andrade: no passo da centopéia”, defendida em 11/06/1991, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como se vai perceber, os capítulos destinavam-se, e penso ainda se prestarem a esse papel, a traçar um panorama da multiplicidade da escrita de Mário de Andrade, apontando aspectos relevantes nos diversos gêneros em que se expressou - poesia, romance, conto, crônica, ensaio, crítica literária, diário e correspondência - e aspectos do pensamento de Mário acerca da função das cartas para o escritor e o intelectual. Espero que as palavras vindouras sirvam como uma espécie de guia, deixando esboçado um perfil do autor de Macunaíma, sobretudo para leitores menos antenados com esse polígrafo de nossa gente.

 

MÁRIO, O POLÍGRAFO

Só que não sei se ninguém entenderá, sem notas à margem, ah, ninguém me entende, sou um incompreendido, sou... o que sou eu? Não sou, somos, meu caro Mário Raul de Moraes Andrade, múltipla caricatura, espécie grátis de centopéia dos sentimentos e dos pensamentos. (Mário de Andrade, carta de 6-X-38 a Paulo Duarte)

A poesia

Do primeiro livro de Mário de Andrade, Há uma gota de sangue em cada poema (1917), de cunho pacifista, até o póstumo Lira Paulistana (1945), temos praticamente trinta anos ininterruptos de produção de poesia. Entre um e outro, foram publicados Paulicéia Desvairada (22), Losango Cáqui (26), Clã do Jabuti (27), Remate de Males (30) e Poesias (41).

No conjunto, destacam-se os temas sociais voltados sobretudo para os problemas pertinentes ao Brasil e seus agentes culturais (“Improviso do mal da América”), os temas eróticos onde a sugestão prevalece sobre a ação (“Poemas da Amiga”) e poemas que tematizam o próprio “eu atormentado do artista” (“A meditação sobre o Tietê”), no dizer de Gilda de Mello e Souza. Em outro prisma, avulta a obsessão com a palavra precisa, a busca de uma linguagem que, mesmo sendo local, fale de ordens e dilemas do Homem.

Sobre todos esses aspectos, pontilhando uma estrada cheia de ciladas, desenha-se a figura do arlequim, cuja veste demonstra a variedade de tons, a alegria e as curvas que as cores fazem. Já é antológico o verso “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta”, primo do hiperbólico - “o plural é que eu venero”.

João Luiz Lafetá vai buscar em Antonio Candido uma didática e sugestiva divisão na poesia de Mário de Andrade, auxiliando a compreensão e decodificação do emaranhado de signos que compõem sua obra:

Quanto aos vários aspectos, Antonio Candido assinala os seguintes: o poeta folclórico, no Clã do Jabuti; o poeta do cotidiano, na Paulicéia Desvairada, no Losango Cáqui e em parte do Remate de Males; o poeta de si mesmo, ao lado do qual, e sempre agarrado a ele, está o poeta eu mais o mundo, no Remate de Males, n'A Costela do Grão Cão e no Livro Azul; e, por fim, o criador de poética. Entre as várias maneiras, o crítico nota sobretudo três: a maneira de guerra do período inicial do Modernismo; a fase de encantamento rítmico, cheia de virtuosismos saborosos; a maneira despojada que baixa o tom, esquece o brilho e busca o essencial. Quanto aos temas, a sua variedade escaparia a qualquer enquadramento, e ele limita-se a chamar a atenção para três ou quatro: o tema do Brasil, o tema do conhecimento amoroso (e do amor falhado), o tema do autoconhecimento e da conduta em face do mundo.

Ainda hoje, olhando o conjunto das Poesias Completas, só nos seria possível acrescentar mais um aspecto, uma maneira e um tema, que àquela altura não se poderia mesmo conhecer porque ainda não eram públicos: o poeta político, a maneira de combate engajada e o tema do choque social, presentes em O Carro da Miséria, Lira Paulistana e Café. [3]

Trabalhando sob o signo do excesso - "sinto que o meu copo é grande demais pra mim, e inda bebo no copo dos outros" -, a leitura da obra poética de Mário de Andrade antecipa o ser plural, centopéico, arlequinal, macunaímico (isto é, sem nenhum caráter específico) que vai exercer ao longo de sua vida.

A prosa ficcional: romance, conto e crônica

Dentre os romances, temos o idílio Amar, verbo intransitivo (1927), a rapsódia Macunaíma o herói sem nenhum caráter (28) e o inacabado e denso Quatro pessoas, póstumo. Quanto aos contos, há os imaturos de Primeiro Andar (26), os de triste fim d'Os contos de Belazarte (28) e os também póstumos e belos Contos Novos. Vivo ainda, Mário reuniu algumas crônicas em Os filhos da Candinha (43) e, após sua morte, publicou-se outro conjunto, bem mais volumoso, sob o título Táxi e Crônicas no Diário Nacional.

O primeiro romance de Mário de Andrade enquadra-se já naquele grupo de textos que querem experimentar novas linguagens narrativas. Prenunciador em muitos aspectos do Macunaíma, o idílio Amar, verbo intransitivo expõe, através dos personagens Fräulein Elza e Carlos, a complexa relação amorosa que surge entre uma governanta alemã e um adolescente brasileiro, "burguês chatíssimo do século passado", cujas idades e formações culturais diversas recheiam e movimentam o ambíguo jogo de sedução e poder que os envolve.

Macunaíma o herói sem nenhum caráter instalou-se definitivamente como um marco na história da literatura brasileira. Polissêmico, o enfoque narrativo aqui flutua... de dono. Balançada a questão da propriedade narrativa, entra em jogo a questão da originalidade autoral [4]. Mário se apossa de lendas, discursos, textos e, feito uma embolada, desfia sua rapsódia, repleta de plágios "conscientes e honestos", como diz em carta de 9-II-39, a Oneyda Alvarenga. E põe o nome na capa. O herói "Imperador... da preguiça é o melhor exemplo do ócio criador" [5]. A riqueza desse texto vem provocando seguidos estudos sobre aspectos mui diversos ou, às vezes, de um mesmo aspecto mas de um ângulo distinto (língua, culinária, astronomia, medicina, geografia etc.). Sintetizando, nas palavras de Alfredo Bosi, "compreender Macunaíma é sondar ambas as motivações: a de narrar, que é lúdica e estética; a de interpretar, que é histórica e ideológica". [6]

Em Quatro pessoas, os críticos consideramos que a proposta romanesca ficou aquém da realização. "Deliberadamente inacabado", o texto se pretende mistura de "crítica, teoria, psicologia e até romance: sou eu " - escreveu o autor em carta de 10 out. 1924 a Manuel Bandeira. Vale, contudo, por ressaltar a tendência ou, melhor, a constância de Mário de Andrade em estabelecer narrativas que traduzem o interior e o inconsciente dos personagens.

Os três livros de contos de Mário mostram, por um lado, a versatilidade estilística e temática do autor e, por outro, uma inevitável irregularidade qualitativa - em que pese a extrema relatividade dessa afirmação de gosto. Se, como ele próprio chamou, há os contos de base (Primeiro Andar) onde o pitoresco das histórias sobrepuja o manejo do gênero ("Caso Pansudo"), há verdadeiras obras-primas nos volumes seguintes, como "Nízia Figueira, sua criada", (Os contos de Belazarte) e praticamente todo o Contos Novos. Alternando temas políticos (como a clara exposição da luta de classes em "Primeiro de Maio" e "O poço"), temas eróticos ("O besouro e a rosa", "Atrás da catedral de Ruão" e “Frederico Paciência") ou os ditos de inspiração autobiográfica ("Vestida de preto", "O peru de Natal", "Tempo de camisolinha"), o conto de Mário transborda em... economia e clareza. Plenas de significados móveis, que apenas se entremostram, suas histórias cativam, no entanto, pela (aparente) simplicidade do enredo apoiadas num vocabulário igualmente reconhecível por um leitor comum.

Na vida de Mário, as crônicas (como, de resto, a produção ensaística) sempre estiveram ligadas às suas atividades de jornalista e crítico. "Aventura intelectual", como diz na “Advertência” de Os filhos da Candinha, a crônica, para ele, não teve "maior interesse que o momento breve em que, com ela, brincava de escrever". Não obstante, apesar do caráter intrínseco da crônica - apreender e libertar, ao mesmo tempo, fatos cotidianos que a vida inventa de nos mostrar, com sabor suave -, as duas coletâneas de Mário trazem uma infinita variedade temática. Em Táxi e Crônicas no Diário Nacional, por exemplo, aparecem constantemente artigos falando do momento político de então - sobretudo a década de 30 -, quando Mário simpatizava com o extinto Partido Democrático. Outras há que abordam o Zeppelin, o trânsito, a pesca, o vizinho, a estátua, um artista, uma cidade, uma fábula, um edifício, um botão de camisa. Como bom cronista, porém - e apesar da rapidez com que devia redigir o texto -, Mário ia deixando, insinuando no tratamento do tema algumas lições e sentenças que visavam a contribuir para o aprimoramento do homem, incitando os leitores à participação nos problemas sociais. Por exemplo, esta crônica de 1929, "Mesquinhez", em que cita Martin Fierro: "Yo he conocido cantores / Que era um gusto escuchar, / Mas no quieren opinar / Y se divierten cantando; / Pero yo canto opinando / Que es mi modo de cantar ."

A prosa de estudo: ensaios e crítica literária

Intelectual de primeira ordem, Mário passeou, na área ensaística, por diversos ramos de conhecimento, sendo, não raras vezes, pioneiro em certos estudos. Os livros sobre música, publicados basicamente por necessidade financeira de Mário, receberam boa acolhida no mercado dadas a insuficiência editorial no assunto e as características do texto (simples, didático, abrangente). Por muito tempo professor no Conservatório e de aulas particulares de música, Mário de Andrade produziu tais livros que, somados aos outros sobre folclore, medicina popular, dança, artes plásticas, pintura, arquitetura e textos sobre desenho e história da arte, além da evidente produção teórica sobre literatura, comprovam o incansável e múltiplo pesquisador, colecionador e intelectual que ele, num Brasil carente de fontes e registros, representa como poucos.

Dos textos específicos sobre literatura, apenas dois vieram à tona enquanto Mário vivia (excluindo os artigos saídos em jornal, posteriormente reunidos n'O empalhador de passarinhos): A Escrava que não é Isaura (Discurso sobre algumas tendências da poesia modernista), em 1925, e Aspectos da literatura brasileira, em 1943. O primeiro revela a ousadia e o vanguardismo de um escritor que, mal saído das turbulentas inovações dos modernistas de 22, busca, desde cedo, aliar à criação a reflexão sobre literatura. Significativa é a epígrafe, dita de Platão: "Vida que não seja consagrada a procurar não vale a pena de ser vivida". Usando o recurso do fragmento e da paródia, Mário, no entanto, viria a reavaliar as considerações ali contidas, úteis quando escritas mas falhas se analisadas com um maior rigor. Aliás, não era mesmo vontade de Mário virar estátua, mas servir aos homens de seu tempo.

Já o ensaísmo contundente de Aspectos da literatura brasileira expõe um Mário ciente de suas funções de crítico literário. Mais longos, os artigos que compõem esse livro abarcam a melhor poesia de 1930 (Bandeira, Drummond, Murilo Mendes), discutem o proselitismo religioso de Tristão de Athayde e a importância de Castro Alves, recuperam a obra do esquecido Luís Aranha, além de se deterem igualmente sobre Manuel Antônio de Almeida, Alphonsus Guimarães, Raul Pompéia, Álvares de Azevedo e Machado de Assis. Sobre esse último, para justificar a genialidade de sua obra, usa um argumento que serviria para ele próprio: "Forte prova disso, dentro de uma obra tão conceptivamente nítida e de poucos princípios, está na multiplicidade de interpretação a que ela se sujeita". Mas é a conferência "O movimento modernista" o grande momento do livro. Escrito para ser um balanço das conquistas dos participantes e aliados da Semana de 22, o artigo se marca, sobretudo, pelo tom emocionado, feroz, autocrítico de Mário, que assume a voz coletiva e diz o mea culpa, diz a alienação e o abstencionismo político que caracterizaram, segundo ele, os modernistas, afastados da vida e preocupados somente em "quebrar vidros de janelas, discutir modas de passeio, ou cutucar os valores eternos, ou saciar nossa curiosidade na cultura". Mário finaliza apregoando uma participação maior dos artistas, através de atos e obras, nas lutas sociais: "Mas não fiquem apenas nisto, espiões da vida, camuflados em técnicos de vida, espiando a multidão passar. Marchem com as multidões". Sem dúvida bastante exagerado em sua análise, Mário escreveu, no entanto, um capítulo indispensável para quem se interessa pelo Modernismo e pela relação entre arte e vida.

O empalhador de passarinho reúne artigos de 1938 a 1944, mostrando outra face da crítica literária de Mário de Andrade. Feitos quase sempre às pressas para atender à demanda do jornal, os comentários abrangem as obras de Adalgisa Néry, Álvaro Lins, Cecília Meireles, Cornélio Pena, Emil Farhat, Érico Veríssimo, Fernando Mendes de Almeida, Henriqueta Lisboa, José Lins do Rego, Luís da Câmara Cascudo, Luís Jardim, Marcelo de Sena, Marques Rebelo, Menotti del Picchia, Murilo Mendes, Oneyda Alvarenga, Otávio de Faria, Otávio de Freitas Jr., Raquel de Queiroz, Ribeiro Couto, Roger Bastide, Rossine Camargo Guarnieri, Sérgio Milliet, Telmo Vergara e Vinícius de Moraes. Alguns desses eram, à época, correspondentes de Mário, o que altera o tom de certas colocações. Álvaro Lins, em "A crítica de Mário de Andrade", de 1946, diz que n'O Empalhador Mário

procurava estudar simultaneamente a personalidade do artista, o conteúdo humano ou social da obra e a técnica formal da construção (...) Condenou conscientemente a incultura, o primarismo, a leviandade, o mau gosto, sempre denunciando nos seus artigos os erros ou as deficiências de técnica, de forma, de estilo. [7]

Neste mesmo ensaio de Álvaro Lins, lemos ainda:

Na sua última fase, quando se pronunciou contra o julgamento em crítica, Mário de Andrade disse uma vez: "Estou imaginando uma pequena vingança: contar as ocasiões que você emprega 'talvez', 'ao meu ver', 'positivamente', como se estivesse tímido ou hesitante em face de alguns dos seus julgamentos"; ao que lhe respondi: "É muito fácil elaborar uma vingança semelhante, contando as vezes em que na sua crítica apareçam 'este livro magnífico', 'obra notável', e até o 'genial', como se o seu aparente diletantismo fosse apenas uma roupagem elegante para o seu gosto de avaliar e julgar. (p. 26)

Para ilustrar a precisão dos comentários de Álvaro Lins quanto ao exercício da crítica literária de Mário de Andrade, superponho dois exemplos: em 25-I-42, escreve sem piedade (e no entanto sem desestimular) a Fernando Sabino:

(...) pelo que seu livro indica como tendências pessoais, o seu caminho na arte é pesado, muito árduo e sem brilho. (...) Seu destino artístico é miúdo, feminino, de nhem-nhem-nhem. O caso da "água mole em pedra dura"... Você irá escrevendo, escrevendo, se aperfeiçoando, progredindo aos poucos: um belo dia (se você agüentar o tranco) os outros percebem que existe um grande escritor. [8]

O outro exemplo diz respeito à crítica que Mário fez do romance Saga, de Érico Veríssimo. Transcrevo exatamente o primeiro e o último parágrafos do artigo, intitulado igualmente "Saga", de 1-IX-40, publicado em O empalhador de passarinho:

Érico Veríssimo acaba de publicar, senão o melhor, pelo menos o seu mais virtuosístico romance. Nele nós encontramos elevadas ao mais alto grau de firmeza e desenvoltura as tendências, as qualidades e a técnica do seu autor.

Parágrafos e páginas após, Mário arremata, na salutar divergência de si mesmo:

Que conclusão tirar destas observações que a enfermidade me faz jogar um bocado a esmo no papel? Em primeiro lugar, fica sensível que o que eu disse no princípio desdigo agora, e que "Saga", em vez de ser o melhor, é o pior dos livros de Érico Veríssimo. (..) Eu creio que já é tempo de Érico Veríssimo buscar saber a quantas montam as riquezas literárias que amealhou e conseguir delas maior rendimento. [9]

Daí, reitero, a precisão de Álvaro Lins ao configurar uma espécie de perfil para o método crítico de Mário de Andrade: "Ele [Mário] podia dizer objetivamente de um autor secundário que se tratava "de um grande escritor" ou de um livro medíocre que estávamos diante de "uma obra notável", mas no tratamento que lhes dava, na situação em que os colocava, nos juízos que ia lançando no decorrer do artigo, deixava uma larga margem para que se percebesse, por baixo dos adjetivos amáveis e afinal inócuos, a mediocridade daquela obra ou a pequenez daquele autor." (p. 27)

Dos outros ensaios, destacamos o ecletismo e o pioneirismo de Mário. Há que se ressaltar, ainda, o último estudo de fôlego do escritor, Padre Jesuíno do Monte Carmelo, realizado a pedidos e a expensas do SPHAN: aqui, Mário de Andrade alia à profunda pesquisa de campo um estilo de escrita que visa a dar ao texto um gosto literário, transformando a vida do padre, escultor, músico, pintor e arquiteto em um “conto biográfico”, no dizer de Mário - como Jesuíno, “de vário engenho”.

A prosa intimista: diário e correspondência

O turista aprendiz é um diário etnográfico-ficcional, em que Mário de Andrade registra duas viagens que fizera ao Nordeste e ao Norte, chegando a Iquitos, no Peru. Marcado pelo hibridismo na sua composição, n'O turista Mário mistura "referencialidade à poeticidade, transformando a experiência vivida (o sentido, o pensado, o biográfico - o real, enfim), em um texto com finalidade artística que é burilado em termos de distanciamentos no arte-fazer", conforme diz Telê Porto Ancona Lopez na introdução ao livro. [10]

Desde 1958, com as Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, até os dias de hoje, vem-se avolumando paulatinamente a publicação da correspondência ativa e passiva de Mário de Andrade, além de estudos específicos acerca desse epistolário. "Infatigável escrevedor de cartas", epistolômano assumido, com cerca de 3500 missivas distribuídas a mais de uma centena de amigos e conhecidos, Mário se desenha e se revela (quase) por inteiro no conjunto dessas cartas, muitas ainda guardadas em baús.

Devido mesmo à diversidade dos interlocutores, à época da escrita e aos interesses imediatos, há um mundo imenso de temas e estilos nas cartas de Mário de Andrade. Em artigo de 1939, incluído em O empalhador de passarinho, o escritor fala da importância que a carta adquire a partir da sua geração:

Eu sempre afirmo que a literatura brasileira só principiou escrevendo realmente cartas, com o movimento modernista. Antes, com alguma rara exceção, os escritores brasileiros só faziam "estilo epistolar", oh primores de estilo! Mas cartas com assunto, falando mal dos outros, xingando, contando coisas, dizendo palavrões, discutindo problemas estéticos e sociais, cartas de pijama, onde as vidas se vivem, sem mandar respeitos à excelentíssima esposa do próximo nem descrever escrúpulos, sem dançar minuetos sobre eleições acadêmicas e doenças do fígado: só mesmo com o modernismo se tornaram uma forma espiritual de vida em nossa literatura. [11]

 

MÁRIO, O EPISTOLÔMANO

Contra uma coisa eu protesto. As tuas cartas vêm quase abertas de tão mal colados os envelopes. Um esforcinho e pronto: o primeiro curioso as abre. Fecha melhor isso. (Mário de Andrade, carta de 1925 a Manuel Bandeira)

O reconhecimento inconteste da importância do epistolário de Mário de Andrade cresce ininterruptamente, assim, como, sem parar, novas cartas suas vêm a público. Reclama-se, de há muito, a reunião dessa correspondência, o que facilitaria, sobremaneira, a fruição e a pesquisa de um não pequeno número de leitores interessados.

Em bem trançadas linhas, revestidas de um caráter quase sempre professoral, das cartas de Mário jorram saberes e fofocas, conselhos e confissões, feito chuva fertilizando o chão. Os mecanismos que movem o amor e a amizade, o transitório e o sacrifício, gostar da e gastar a vida, a solidão, a dor e a felicidade, por um lado; do outro, o modernismo e suas dobraduras, a brasilidade e o nacional, o projeto de uma língua mais adequada às nossas peculiaridades, o processo de criação próprio e o alheio: embaralhadas, as cartas de Mário servem a paladares distintos. O coringa transita, de jogo em jogo.

Há, contudo, no meio de tantos temas espetaculares e nobres que alimentam e engordam a correspondência marioandradina, um tema fixo, constante, que dá forma à economia do corpo epistolar. Ora Mário de Andrade nega à posteridade o conhecimento de suas cartas, no infrutífero (e 'insincero', desde já) desejo do segredo e do anonimato; ora disserta sobre a função das (suas) cartas como documento e memória; ora discute a distância - e, por tabela, a semelhança - entre carta e literatura; ora, ainda, e com freqüência exagerada, pontua os aspectos suficientes e/ou necessários para a "manutenção da troca" de cartas, moto-contínuo do prazer. Cartas extraviadas, cartas censuradas, cartas rasgadas: ausências, também. Fala-se de cartas - nas cartas. Vejamos, pois, as etapas desse carteado.

Mário de Andrade morre em 25/02/45. Em 22/03/44 escreve:

Minhas cartas. Toda a minha correspondência, sem exceção, eu deixo para a Academia Paulista de Letras. Deve ser fechada e lacrada pela família para só poder ser aberta e examinada 50 (cinqüenta) anos depois da minha morte. [12]

Texto-chave para uma reflexão sobre a "herança" epistolar legada por Mário, esse "testamento" aponta, com a clareza costumeira, o espaço percebido e efetivamente ocupado pela correspondência do escritor. Redigido um ano antes de sua morte, delega à prestimosa família a organização e a uma instituição intelectual local e literária a guarda do acervo; este, futura matéria de pesquisa a ser "examinada", poderá ser aberto e divulgado no tempo indicado, propício. Lígia Fernandes especula: "não seria possível doar e recomendar que se fechasse e lacrasse um acervo fora de alcance e arbítrio, em mãos de destinatários ou de terceiros". Logo, a correspondência própria, ativa, entra em cena (como se verifica) e, após reinar solitariamente durante meio século, vê retornar do sono dos justos o seu par original - diálogo epistolar interrompido, mas já realizado... a dois.

Em 1925, escreve a Manuel Bandeira:

As cartas que mando pra você são suas. Se eu morrer amanhã não quero que você as publique. Nem depois da morte de nós dois, quero um volume como o epistolário de Wagner-Liszt. Essas coisas podem ser importantes, não duvido, quando se trata dum Wagner ou dum Liszt que fizeram arte também pra se eternizarem. Eu amo a morte que acaba tudo. O que não acaba é a alma e essa que vá viver contemplando Deus. [13]

Se, na época acima, faz o tipo que vive e escreve (para) o presente, vinte anos depois, escritor e intelectual consagrado e participante, o correspondente contumaz diz, guru, a outro amigo, Guilherme Figueiredo:

Guardar as cartas consigo, / Nunca mostrar a ninguém, / Não as publicar também: / De indiferente ou de amigo, / Guardar ou rasgar o Sol, / Carta é farol. / Ajunte isto / brotado hoje. [14]

Carta é farol, sabe. Farol... Ao mesmo tempo, luz e mistério:

Meu Deus! O que mais me horroriza são as minhas cartas, egoísmo agindo. Devia ser proibida a mostra pública de cartas particulares, por lei governamental. Como se um escritor, um artista, pelo fato de ter uma vida pública, não pudesse ter uma vida particular! Francamente: é infame. Rasguei todas as cópias que fiz, perdi o dia, e isso de cartas a mim mandadas, nenhuma será publicada enquanto eu viver. Você não pensa que não imaginei destruir agora todas elas. Imaginei sim, mas não posso, não tenho força moral para tanto. Sei que estou numa contradição interna medonha. Assim como uma vontade de deixar isso, como vou mesmo deixar, pra uma instituição pública mas com a ressalva de só poder ser aproveitado num sentido que não seja pejorativo. [15]

Mário se desarma, metralhadora: "devia ser proibida a mostra pública de cartas particulares", mas não é; "rasguei todas as cópias que fiz": com que intenção se copia uma carta, se ela é de outro, para o outro, se pede um interlocutor e, jamais, o mesmo - pois "o mesmo" não a legitima?; "cartas a mim mandadas, nenhuma será publicada enquanto eu viver": e as enviadas por Mário? E após o 'viver'?; a doação à instituição pública, de fato, acontece, testamentada, talvez um pouco súbito demais...; as cartas podem ser aproveitadas, mas "num sentido que não seja pejorativo": isto é, como - rua de mão única?

Tais questões, aqui largadas ao léu, evidentemente articulam-se no conjunto maior da correspondência de Mário de Andrade. Interessa-nos, como já salientado, ressaltar o aparecimento delas, de modo constante e crítico. A reflexão sobre o ato de escrever cartas e os desdobramentos daí decorridos "preocupam" Mário. Aparentemente normal, o prestígio adquirido por sua correspondência transforma seu conflito numa "contradição interna medonha". Proibir, rasgar, publicar, destruir, deixar, aproveitar: cada verbo tem uma contraface.

Na seqüência da carta supracitada, após espinafrar a psicologia ("a mais larvar e a mais canalha de todas... as artes"), finaliza: “(...) declaro solenemente, em estado de razão perfeita, que quem algum dia publicar as cartas que possuo ou as cartas escritas por mim, seja em que intenção for, é filho da puta, infame, canalha e covarde. Não tem noção da própria e alheia dignidade.”

De nada adiantou todo o alarido de Mário. Manuel Bandeira deu a partida: em 1958, faz vir a público as cartas de Mário a ele dirigidas. Desde então, com meticulosa regularidade, os seus correspondentes vêm expondo o grau de relacionamento que mantinham com o escritor.

Bandeira, mesmo desencadeando essa avalanche, cercou-se de algumas reservas. Ele próprio censurou certas passagens, alegando que elas diriam somente aos dois, da ordem da intimidade e do segredo. Embora tenham se correspondido até 1945, temos 'apenas' as cartas que vão até 1935.

Vivo ainda, Mário recebia insistentes pedidos de amigos querendo publicar trechos de suas cartas. Resistente, percebeu que suas missivas passaram a funcionar como um carimbo legitimador de influência e, portanto, poder. Em carta de 1-X-44, a Murilo Miranda, acede, a legível contragosto:

Vá lá, publique as minhas cartas à Cecília, se quiser. Não sou antipático nessas coisas, me'irmãozinho, mas é orgânico: sinto um pudor incontestável de ver devassadas as coisas íntimas que me dizem por cartas, por dedicatórias, por conversas. Sou assim, e isso é até simpático. Não sou norte-americano, não uso vida pra anúncio, não sou homem de apartamento - cortiço pra granfino, como diz um operário meu amigo - gosto do meu silêncio. [16]

Outras vezes, numerosas, o próprio texto de Mário se 'trai': o registro epistolar torna-se o único capaz de dirimir e desvendar fatos e feitos cotidianos, na calada da escrita, como confessa a Moacir Werneck de Castro:

É difícil a gente falar certas coisas mesmo confidencialmente, mas talvez um dia, se desvendarem o meu espaventoso epistolário, se verá quanta gente eu animei. E até nem sempre gente do primeiro time... E há também um lado bem bonito da minha vida, que é bater palmas (às vezes exageradamente) aos que principiam. [17]

Após a iniciativa do Manú, a publicação das suas cartas vem aumentando - baú de fundo falso... O pudor original veio desmilingüindo e, certos que prestavam, antes de tudo, um serviço “público”, amigos livreiros editores & afins tentam remontar, pelas cartas, a vida de Mário: “(...) toda a sua vida, inteirinha, se estabelecerá, com exatidão, através de suas cartas, cujo conjunto, quando publicadas, pelo menos a maior parte, dirá da sua verdadeira existência, tintim por tintim”, afirma Antonio Candido. [18]

A epistolografia, no entanto, continua na ordem do fragmento, do jogo, da máscara - ficção que se compõe de princípios estruturantes diversos dos que habitualmente fazem funcionar a obra literária estabelecida como tal. De maneira geral, a carta é um meio de comunicar com o semelhante. Compartilhado por todos os homens, quer sejam ou não escritores, corresponde a uma necessidade profunda do ser humano. Communicare não implica apenas uma intenção noticiosa: significa ainda "pôr em comum", "comungar". Escreve-se, pois, ou para não estar só, ou para não deixar só.

Em texto sobre a "escrita de si", Foucault afirma que "la lettre qu'on envoie agit, par le geste même de l'écriture, sur celui qui l'adresse, comme elle agit par la lecture et la relecture sur celui qui la reçoit" [19]. Escrever seria, então, se "mostrar", se fazer ver, fazer aparecer seu próprio rosto ao outro. A carta se constituiria, ao mesmo tempo, num olhar sobre o destinatário e numa maneira de se dar a seu olhar pelo que se diz de si mesmo.

Analisados contrastivamente, o texto da ficção e o texto da memória tensionam os limites entre vida e obra. Diários, cartas, memórias, entrevistas, somam-se aos poemas, romances, ensaios, crônicas etc. Num resultado plural: e indivisível. Susan Sontag, em texto sobre Walter Benjamin, nos diz que "não se pode interpretar a obra a partir da vida. Mas pode-se, a partir da obra, interpretar a vida". [20]

No artigo citado, Foucault afirma que "la réciprocité que la correspondance établit n'est pas simplement celle du conseil et de l'aide, elle est celle du regard et de l'examen" (“a reciprocidade que a correspondência estabelece não se restringe ao simples conselho ou ajuda; é ela a do olhar e do exame”, em tradução referida, p. 151). Mas essa reciprocidade perfaz um duplo movimento de aproximação e distanciamento. "Nas cartas, Mário me parece mostrar-se mais expansivo que diante das pessoas", diz Oneyda Alvarenga. O ato da escritura sobrepuja o contato pessoal. A correspondência é a forma utópica da conversa pois anula o presente e faz do futuro o único lugar possível do diálogo. Ou, mais uma vez, com Piglia: "Una de las ilusiones de mi vida es escribir alguna vez una novela hecha de cartas". [21]

"On s'écrit lettres pour être montrées (Saint-Beuve)": assim, com tal epígrafe liberadora, Guilherme Figueiredo ''justifica” o seu livro de cartas... do Mário. Já Drummond apresenta uma convincente e complexa série de fatores que não só explicitam os motivos para a publicação como afirmam a sua imperiosa necessidade - pedra de qualquer caminho:

Não só os praticantes da literatura perderiam com a falta de divulgação de cartas que esclarecem ou suscitam questões relevantes de critica, estética literária e psicologia da composição. Os interessados em assuntos relativos à caracterização da fisionomia social do Brasil também se veriam lesados pela ignorância de valiosas reflexões da antropologia cultural. [22]

Se a ética pede o silêncio e o segredo, o dever exige a mostra, a exposição. "Aliás, todos os que conviveram com Mário sabem que ele escrevia cartas para serem publicadas", diz no referido prefácio o crítico, e amigo, Antonio Candido.

O epistolário marioandradino assumiu, com todas as letras, o espaço convencionalmente ocupado pelas memórias, autobiografias e diários. Lá, Mário derrama-se, entrega-se à volúpia da exibição, por escrito. Conta histórias, conversa, traz o amigo pra perto de si. Registra-se.

Em sua tese de doutoramento, Wander Melo Miranda trabalha a categoria da autobiografia, ressaltando três condições que efetivam o chamado ato autobiográfico:

a) autor, narrador e personagem devem ser idênticos; b) a informação e os eventos relativos à autobiografia são tidos por serem, terem sido ou deverem ser verdadeiros, sendo passíveis de verificação pública; c) espera-se que o autobiógrafo tenha certeza a respeito das suas informações, podendo serem ou não reformuladas. [23]

Nada impede, portanto, a inclusão do relato epistolar na tipologia acima. Mário de Andrade atribuía às (suas) cartas um precioso valor documental, abrangendo desde questões de relevo teórico, político ou existencial a questões de ordem prática, como o pedido ou a venda de livros, a reserva de hotéis ou passagens, a troca de informações sobre estudos em andamento etc. Daí ter explicitado, em carta de 27-IV-40, a Oneyda Alvarenga, a vontade de ver concluída uma obra de difícil consecução:

Aliás falava outro dia ao Sáia sobre deixar meus fichários musicais a você, para você continuá-los e fazer um dia o Dicionário Brasileiro de Música. Se não deixar outro escrito, esta carta serve de testamento (e que testamento!) para você obter dos meus o "material". [24]

Como já dissera ao amigo Manú, em 7-IV-28: "Carta de deveras carta é documento maior." A palavra dá corpo e juízo ao desejo.

Todos os que se aventuram a penetrar a hospitaleira selva que é a obra de Mário, embora avisados já no portão de entrada, espantam-se com o "algo mais" que continuamente aparece por trás das folhas. A avidez do escritor encontra correspondência na branca sedução da página.

Logo que empossado num cargo de chefia de uma divisão do Departamento de Cultura paulista, "contando que lidaria com grandes personalidades da cultura, da arte e da política" [25], Mário resolve "escrever um diário de diretor, relatando os fatos e a minha impressão dos indivíduos", memórias de um intelectual no poder. Com "dois cadernos de 200 páginas" (os quais, fala, não destruiu: se existiram, onde estarão?) preenchidos, desiste da empreitada: "o que contava ali, os casos, as palavras alheias, a ambição, a maldade, a intriga, a estupidez, a safadeza davam àquelas memórias um ar absurdo de mentira".

Apesar de atender às condições legitimadoras do ato autobiográfico (identidade entre autor, narrador e personagem, e veracidade - verificável - dos fatos e informações narrados), para si, resta a dúvida: "Eu é que saía dali um boca-do-inferno, danado, deformador, invejoso e... mentiroso! Era impossível que aqueles fatos tivessem se passado e aquelas frases se dito."

A partir desta experiência, Mário de Andrade reflete sobre o caráter especial que as cartas adquirem como instrumento memorialístico, visto que elas participam de um circuito em espiral, cujo coração (móvel) é a própria narrativa que avança e recua, procura o debate, diálogo que se renova - pela diferença:

Não tenho jeito pra memórias. Mas as cartas são sempre uma espécie de memórias desque tenham alguma coisa mais nuclear e objetiva que arroubos sentimentais sobre o espírito do tempo. E as memórias em carta têm um valor de veracidade maior que o das memórias guardadas em segredo pra revelação secular futura. É que o amigo que recebe a carta pode controlar os casos e almas contados. (p. 333)

O amigo, "adversário que as [cartas] recebe", transforma-se no avalista da escritura. Nesse jogo de idas e vindas, palmas e vaias, a cena é ocupada sub-repticiamente, pela marca da sinceridade. O missivista deve despojar-se do intuito de "fazer literatura" e largar-se no derramamento da cumplicidade.

Em resenha sobre um livro de cartas de Álvares de Azevedo, Ana Cristina Cesar diz:

Diante do papel fino da carta, seríamos nós mesmos, com toda a possível sinceridade verbal: o eu da carta corresponderia, por princípio, ao eu "verdadeiro", à espera de correspondente réplica. No entanto, quem se debruçar com mais atenção sobre essa prática perceberá suas tortuosidades. A limpidez da sinceridade nos engana, como engana a superfície tranqüila do eu. [26]

Mário de Andrade, em toda a sua solitária carreira de "infatigável escrevedor de cartas", sempre esteve atento a esse lance. Obsessivamente, pregava o exercício da sinceridade como elemento indispensável e mantenedor da amizade - siameses, relíquia e ruína. Exemplar, nesse sentido, é a carta que envia para Tarsila do Amaral, de 16 de junho de 1923, onde procura justificar um incidente (qual deles?) que tivera com Oswald, reclamando para si a "culpa da sinceridade':

Mas a culpa é toda minha e de minha sinceridade. Que queres? É a nobreza com que dignifico os meus amigos, ser sincero para com eles. Num salão, depois de ouvir versos horríveis ou excelentes é de boa educação aplaudir. Mas aqueles que desejarem minha amizade (e é por isso que a ninguém procuro e vivo tão só) hão de aceitar a minha sinceridade também. [27]

Para o escritor, o "estilo epistolar, oh primores de estilo" atrapalha, deturpa, falsifica o jogo da correspondência. Blefe que o incomoda até as vésperas da morte, como declara a Drummond, em carta de 16-III-44.:

(...) a mim também, como a todo sujeito que escreve cartas que não são apenas recados, me perturba sempre e me empobrece o problema infamante do "estilo epistolar". Aquela pergunta desgraçada "não estarei fazendo literatura?", "não estarei posando?", me martiriza também a cada imagem que brota, a cada frase que ficou mais bem-feitinha, e o que é pior, a cada idéia ou sentimento mais nobre e mais intenso. [28]

Por um lado, nas cartas, Mário insistia sobre a especificidade da sua obra, isto é, uma arte de ação, pragmática, fadada à transitoriedade e pagando o sacrifício (espontâneo) da qualidade estética; por outro, nas mesmas cartas, "escrever com os olhos postos na posteridade torna-se quase inevitável. O que as cartas perdem então em frescura ganham em perfeição formal e em sentido. E avizinham-se, portanto, da literatura propriamente dita", como especulou Maria Isabel Barreno em artigo sobre o gênero epistolar. [29]

No avesso do avesso, Mário decide, uma época, avacalhar a própria carta, desviá-la de seu destino futuro (previsível?), inscrevê-la em superfície porosa, torná-la feia, impublicável:

Estou me lembrando que um tempo, até tomei ingenuamente o partido de encher minhas cartas de palavrões porque principiaram me falando na importância das minhas cartas e estupidamente me enlambuzei de "filhos-da-puta" e de "merdas" pra que minhas cartas não pudessem nunca ser publicadas! Como se isso bastasse. [30]

Plagiando sua conferência “O movimento modernista”, diria que a posteridade não é um prêmio. É uma sanção. Que já chegou.

Em excesso: Mário de Andrade escrevia em excesso. Para ele, demorar-se dias redigindo uma carta de 60 (sessenta!) páginas [31], ou confessar, súbito, a falta de assunto provocada por um cansaço físico acumulado [32], ou ainda puxar uma "conversinha" pra lá de quatro páginas mostrando o seu "desejo de deserto e monotonia" [33] são variações de um mesmo exercício.

Nada mais natural, portanto, que a sabida aflição de Mário, durante os quinze anos de ditadura getulista, quanto aos intermináveis períodos de acirramento da censura - inclusive postal. Sobretudo quando dirigidas ao exterior (ou de lá vindas), as correspondências eram vasculhadas, recortadas, adulteradas. [34]

Já em 1928, remete a Anita Malfatti:

(...) só vendo o dilúvio de cartas que recebo e escrevo. O círculo vai aumentando, sou incapaz de trocar amigos velhos por novos é lógico, porém não tenho o direito também de não querer novos. Por que, se o coração é de borracha, estica, estica e vai cabendo tudo dentro dele? [35]

Embora envolvido em "muitíssimo trabalho e também uma correspondência enorme", propõe-se a novos pactos, desde que o outro tenha noção das regras. Sobre esse assunto, escreve a Fernando Sabino em carta de 25-I-42:

Não hesito um só segundo em lhe garantir que, apesar de tudo isto, não me pesará em nada escrever muito, auxiliar você no que eu possa. Apenas preliminarmente, eu desejo que você se examine bem, num verdadeiro exame de consciência, antes de se decidir a exigir esta correspondência. [36]

A carta é crítica: ato de charitas. Amor que, sem correspondência, provoca o remorso. "Complacente muitas vezes sou, mas em cartas sem arroubo nenhum”, diz a Guilherme Figueiredo, em 16-II-45, nove dias antes de falecer.

Solitário, ali, na escrivaninha, junto à Manuela (apelido - em homenagem ao amigo - de sua máquina de escrever), Mário de Andrade se divide. Só o esquecimento é que condensa, como disse num verso. Feito uma carta não escrita, ou extraviada - pelo moleque Mercúrio. Ou como uma carta... descartável, cujo vigor é a própria capacidade de reproduzir-se e alimentar trocas:

Deve haver aí muita carta minha que não passa de... poema de circunstância, eu sei. Mas também serão as que não têm interesse maior do que os duzentos réis do cafezinho de passagem. [37]

Mário de Andrade, portanto, desde sempre teve a consciência, como intelectual e artista, da dimensão que o gênero, o hábito, o jogo das cartas cria e estabelece, ora ocupando um espaço explicitamente documental, alimentando (a partir da insofismável perspectiva da primeira pessoa) a memória da cultura e da literatura brasileira, ora fazendo lembrar que o intelectual e o artista lidos nas epístolas compõem apenas algumas das máscaras do Homem - o professor, o amigo, o confidente, o cidadão etc.

Diante de um ambiente universitário muitas vezes avesso, senão incapaz, de produzir discursos com sentidos - não simplórios - que sejam decodificáveis para além de suas fronteiras, o conjunto da correspondência, ativa e passiva, de Mário, adquire um indubitável status de oásis, refrescando a sede que nos excita a vontade de compreensão. A compreensão, porém, assim como as palavras de uma carta, podem ser - e de que forma ter certeza? - uma mera miragem a invadir nossos olhos e ouvidos.

 

BIBLIOGRAFIA:

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Notas:

[1] Publicado no livro Modernidades & pós-modernidades: literatura em dois tempos (Vitória: PPGL, 2002, p. 391-410), organizado por Alexandre Moraes.

[2] Professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo, da Ufes, desde 1993. Doutor em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1996. Autor de Forças & formas: aspectos da poesia brasileira contemporânea (dos anos 70 aos 90) [Vitória: Edufes, 2002] e de Personecontos [Vitória: Flor&cultura, 2004].

[3] LAFETÁ, João Luiz. Figuração da intimidade - Imagens na poesia de Mário de Andrade. São Paulo: Martins Fontes, 1986, p. 7.

[4] Para essa discussão, consultar o fundamental A pedra mágica do discurso: jogo e linguagem em Macunaíma, de Eneida Maria de Souza (Belo Horizonte: UFMG, 1988).

[5] LOPES, Telê Porto Ancona. "Rapsódia e resistência". In: Macunaíma o herói sem nenhum caráter. Ed. Crítica / Telê Porto Ancona Lopez, coordenadora. - Paris: Association Archives de la Littérature latino-américaine, de Caraïbes et africaine du Xxe. Siècle; Brasília, DF: CNPq, 1988, p. 274. (Coleção Arquivos; v.6)

[6] BOSI, Alfredo. "Situação de Macunaíma". In: Macunaíma o herói sem nenhum caráter. Ed. Crítica / Telê Porto Ancona Lopez, coordenadora. - Paris: Association Archives de la Littérature latino-américaine, de Caraïbes et africaine du Xxe. Siècle; Brasília, DF: CNPq, 1988, p. 171. (Coleção Arquivos; v.6)

[7] ANDRADE, Mário de. Cartas de Mário de Andrade a Álvaro Lins. Estudos de Álvaro Lins; apresentação de Ivan Cavalcanti Proença, comentários de José César Borba e Marco Morel. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983, p. 27

[8] ANDRADE, Mário de. Cartas a um jovem escritor. Rio de Janeiro: Record, 1981, p. 8.

[9] ANDRADE, Mário de. “Saga”. In: O empalhador de passarinho. 3 ed. São Paulo: Martins, s/d. XVI, p. 172-4.

[10] ANDRADE, Mário de. O turista aprendiz. Estabelecimento de texto, introdução e notas de Telê Porto Ancona Lopez. São Paulo: Duas Cidades, 1983, p. 14.

[11] ANDRADE, Mário de. “Amadeu Amaral”. In: O empalhador de passarinho. 3 ed. São Paulo: Martins, s/d. XVI, p. 182.

[12] ANDRADE, Mário de. Mário de Andrade escreve cartas a Alceu, Meyer e outros. Organização e notas por Lígia Fernandes. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1968, p. 7.

[13] ANDRADE, Mário de. Cartas a Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Ediouro, 1967, p. 68.

[14] ANDRADE, Mário de. A lição do guru. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989. Carta de 17-II-45.

[15] ANDRADE, Mário de. Cartas a Murilo Miranda. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, p. 157. Carta de 19-VIII-43.

[16] ANDRADE, Mário de. Cartas a Murilo Miranda. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981., p. 173.

[17] CASTRO, Moacir Werneck de. Mário de Andrade - Exílio no Rio. São Paulo: Edart, 1971, p. 174. Carta de 28-VIII-41.

[18] In: DUARTE, Paulo. Mário de Andrade por ele mesmo. São Paulo: Edart, 1971, p. 8. Prefácio de Antonio Candido. Grifos meus.

[19] FOUCAULT, Michel. “L’écriture de soi”. In: Corps écrits, nº 5. Paris: PUF, 1983, p. 16. (“A carta enviada actua, em virtude do próprio gesto da escrita, sobre aquele que a envia, assim como actua, pela leitura e a releitura, sobre aquele que a recebe.” In: FOUCAULT, Michel. O que é um autor? 2 ed. Tradução: José A. Bragança de Miranda e António Fernando Cascais. Lisboa: Veja, 1992, p. 145.)

[20] SONTAG, Susan. Sob o signo de Saturno. Porto Alegre: L&PM, 1986, p. 87.

[21] PIGLIA, Ricardo. Respiración artificial. Argentina: Pomaire, 1980, p. 40.

[22] ANDRADE, Mário de. A lição do amigo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982, p. ix.

[23] MIRANDA, Wander Melo. “Contra a corrente (a questão autobiográfica em Graciliano Ramos e Silviano Santiago)”. Tese de Doutoramento. São Paulo, USP, 1987, p. 30.

[24] ANDRADE, Mário de & ALVARENGA, Oneyda. Mário de Andrade - Oneyda Alvarenga: Cartas. São Paulo: Duas Cidades, 1983, p. 225.

[25] In: DUARTE, Paulo. Mário de Andrade por ele mesmo. São Paulo: Edart, 1971, p. 332. Carta de 20-VI-40, a Sérgio Milliet.

[26] CESAR, Ana Cristina. "O poeta é um fingidor". Jornal do Brasil, 30.4.77.

[27] AMARAL, Aracy. Tarsila, sua obra e seu tempo. São Paulo: Perspectiva-Edusp, 1975, p. 367. (Estudos)

[28] ANDRADE, Mário de. A lição do amigo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982, p. 215.

[29] BARRENO, Maria Isabel et alii. Novas cartas portuguesas. Lisboa: Futura, 1974, p. 20.

[30] ANDRADE, Mário de. A lição do amigo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982, p. 215. Carta de 16-III-44.

[31] "Começada em 14-IX-40, tem sessenta páginas manuscritas (a maior carta que já escreveu na vida, afirmou ele), quase inteiramente tomadas pela discussão de um problema intelectual meu." (Mário de Andrade - Oneyda Alvarenga: Cartas. São Paulo: Duas Cidades, 1983, p. 11.)

[32] "Pronto assunto acabou! Principiei imaginando que tinha muita coisa pra falar e não tenho mais nada. Também imagine que esta é a creio que oitava ou nona carta que escrevo desde quinze horas." (ANDRADE, Mário de. Cartas a Prudente de Moraes, Neto. Organizado por Georgina Koifman. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 266. Carta de 1928)

[33] "Ontem, domingo, foi espantoso, não fiz nada de nada por dezoito horas a fio! É engraçado: nos momentos de dores profundas, fico de uma calma enorme e gosto de me banhar me vestir bem. Levei mais de duas horas no banho, fiz uma barba de bundinha de criança, uma lisura irreprochável. Depois me perfumei com unção e botei um pijaminha de seda listrada, o mais lindo da minha vida. E sentei no estúdio. Olhava pras coisas boas, de repente levantava e mudava uma terracota do Brecheret dois centímetros mais pro lado direito. Trocava dois quadros, pregava outro na parede, e depois sentava quatro vezes dos quatro lados do estúdio, pra ver o efeito das mudanças." (ANDRADE, Mário de. Cartas de Trabalho: Correspondência com Rodrigo de Mello Franco de Andrade. Brasília: SPHAN/Pró-Memória, 1981, p. 131. Carta de 23-V-28)

[34] Ver, por exemplo, carta de 5-VIII-44, a Paulo Duarte: "Aliás, não sei se o mundo avança, mas certas cartas de agora, em que a gente não pode mais se abrir inteiramente nem nas vistas pra o mundo nem nas confissões interiores, com vergonha de ser lido pelos outros, faz com que as cartas estejam se tornando cada vez mais insatisfatórias. Sobretudo pra um sujeito como eu que gosta de se derramar." (DUARTE, Paulo. Mário de Andrade por ele mesmo. São Paulo: Edart, 1971, p. 277.)

[35] ANDRADE, Mário de. Cartas a Anita Malfatti. Organização de Marta Rosseti Batista. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989, p. 137.

[36] ANDRADE, Mário de. Cartas a um jovem escritor. Rio de Janeiro: Record, 1981, p. 19.

[37] ANDRADE, Mário de. A lição do amigo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982, p. 216. Carta de 16-III-44.

 

© Wilberth Claython Ferreira Salgueiro 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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