Uma poética neoliberal

Prof. Dr. Luís Eustáquio Soares

Universidade Federal do Espírito Santo - Brasil.
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Resumo
   Este ensaio procura pensar um segmento da poesia contemporânea brasileira, como envolta de um forte traço neoliberal, e mesmo parnasiano, uma vez que se insere, como fazer poético, no contexto mais geral de uma espécie de economia dos mecanismos ideológicos do poder global, já que, a partir de sua expressão fluida, tecnológica, cibernética, faz-se representação de si mesma, sem apresentar, no plano expressivo, o outro; sem fazer-se parte de uma mesma comunidade destino, a dos agônicos que acredita representar, os sem internet , sem micro, sem imagem eletrônica.
   Tendo em vista uma antologia de poetas da década de 90, elaborada por Heloísa Buarque de Hollanda, tento mostrar que as poesias escolhidas não apresentam uma diversidade cultural, de fato, porque, embora bem sucedidas esteticamente, estão assentadas numa concepção poética asséptica, purista , sem vida, sem risco, sem erro, sem poesia.

 

Uma poética neoliberal

No século passado, no nosso Romantismo tardio, em sua primeira geração, de repente o índio torna-se assunto de poesia, de romance, inscrevendo-se no plano estético de nossa pós-gregoriana barroca textualidade gráfico-fabulista. Era época de genocídio indígena, talvez só comparável às primeiras décadas da épica colonizadora pós-cabralina. Peri estuprava a adolescente Ceci, salvando-a da febre terçã de seus dilúvios tropicais. A fálica escrita romântica inscrevia-se no suporte mítico indígena, purgando-o, aos olhos do colonizador genocida, dos infernos de seu massacre em massa. “ Matamos vocês, e vocês, como bons rousseauneanos selvagens, salvam nossa filha da tribo má, do mau espírito que não compreende nossa missão civilizatória. Em troca, a partir de nossa ficção, ofertamos, como uma hóstia, o corpo primaveril de nossa telúrica juventude”.

Paradoxo da doxa, ficção da ficção, a dimensão estética não está alheia ao mundo, não constitui uma ilha-mundo, mas pode fazer-se cenografia catártica da cena bestial de seus cultores. A escrita , diversamente do mito socrático, não insurge contra o pai, mas desvela-se como estesia gráfico-discursiva da estrutura significante do poder paterno. A escrita já é, ela mesma, como tecné, gesto estético-ideológico do Ocidente imperial, sopro sonoro-icônico de uma hagiografia eurocêntrica; criptografia cardíaca do saber do pai.

As fábulas narracionais indígenas, do século passado, desempenharam o papel, delegado, de, esteticamente, como estética de adereços, realizar uma espécie de economia psíquica da culpa pelo extermínio do índio. Os assassinos, para se protegerem de si mesmos, nomeavam, no plano inconsciente das partilhas das funções, as artes como o locus , por excelência, do teatro hipócrita da assunção de toda e qualquer responsabilidade. A literatura pode, entre outras coisas, também prestar-se a ser espaço gráfico-alfabético-estético da mentira, da ficção, da invenção eufêmica de um outro apenas imaginariamente existente. O romantismo criou o índio virtual para que ninguém notasse o índio real.

Lendo Régis Debray (1993), aprendo que representação, em língua litúrgica, designa um caixão vazio sobre o qual se estende uma mortalha fúnebre e também que séma, arcaicamente, significa pedra tumular. Não é inverossímil supor que a dimensão estética serviu e tem servido para ser a pauta , a partir de seu corpo-fúnebre-sonoro, da inscrição tumular do seguinte epitáfio: “O caixão vazio é um signo, um ícone, e sua semântica ritualiza, em verdade, a ressurreição fantasmático-estética de todo e qualquer genocídio” Trata-se de uma operação mágica, o morto não é um morto (basta puxar a mortalha. Quede a morte?), mas um vivo: festejemos a vida alheia, vamos, através de uma fala-escrita zumbítica, escrever-falar de zumbis.

Como eterno retorno, em diferença, do mesmo, percebo que a atual “polêmica” entre a suposta moribunda crítica literária e uma emergente “vigorosa” crítica pós-literária, tem muito de cena, e pouco de práxis. Passamos, nas Faculdades de Letras, a década de 90, quase que toda, ouvindo a mesma ladainha didático-discursiva: o que importa é a cadeia significante, a materialidade sonora, a iconicidade, o ponto de estofa, a concisão, a mortalha gráfico-publicitária concretista, o caixão vazio. Eliminemos o significado antes que ele nos signifique!

A questão culturalista não se resolve, como dizem alguns seminaristas da Teoria Literária, com uma gestual postura metodológica: tenhamos mais rigor epistêmito. O mundo atual é esse: 2/3 da humanidade, incluindo velhos, crianças, mulheres, índios, latinos, asiáticos, africanos, homossexuais, negros, negras, brancos, brancas, homens, europeus, americanos, estão sendo dizimados. Situar esses outros (nós mesmos?) no plano das representações me parece ( finalmente? ) indispensável. Salve os Estudos Culturais!

Entretanto, concordo com Edward Said (1995), nada está separado de nada, tudo está implicado. A cena de um bombardeio não se inscreve apenas nela mesma, mas é compartilhada, diariamente, por uma infinidade de práticas simbólicas, e não simbólicas, cotidianas. O estuprador apenas encarna um gesto, diariamente representado, no ethos de nossas relações familiares, escolares, religiosas, trabalhistas. Dizer que estamos, através de ensaios, palestras, seminários, livros, poemas, narrativas, representando minorias, não basta. Paradoxalmente, tal prática pode conter uma forte postura conservadora, neoconservadora, posconservadora. Vez por outra, é possível que estejamos apresentando um caixão vazio, representando um outro inexistente, inventado literariamente. Possivelmente é provável que falemos de, para passar a impressão de que o referente desse “de” esteja, através de uma catarse auto-ilusionista, sendo contemplado. Enquanto isso, para aquém da tecné virtual, meu deus.

Há muito de pré-literatura na pós-literatura. Exemplo disso é a recente e “polêmica” antologia de poetas contemporâneos (Esses Poetas: uma antologia dos anos 90. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 1998) realizada pela professora e crítica literária Heloisa Buarque de Hollanda. São vinte dois os poetas escolhidos: homens (Alberto Martins, Aníbal Cristobo, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes, Augusto Massi, Carlito Azevedo, Eucanaã Ferraz, Felipe Nepomuceno, Guilherme Zarvos, Hector Ferraz, Ítalo Moriconi, Marco Antônio Saraiva, Moacir Amâncio, Nelson Ascher, Paulo Lins, Ricardo Aleixo, Rodrigo Garcia Lopes, Valdo Motta ) mulheres (Cláudia Roquette-Pinto, Josely Vianna Baptista, Lu Menezes e Vivien Kogut), gays (Antônio Cícero, Moriconi, Lu Menezes -?-) , negro (Ricardo Aleixo) hebraico (Moacir Amâncio, Valdo Motta) , pós-pop-rock (Arnaldo Antunes). Eis aí nossa oficialidade poética, marcada pelo signo da diversidade, segundo a antologista.

No entanto, seguindo Ranciére, “a escrita sempre escreve ao mesmo tempo uma relação da ordem dos corpos e da ordem das palavras, ela define uma posição do corpo que é uma posição de sua “alma”, qualquer que ela seja”. Pois bem, a relação entre a ordem dos corpos e a ordem das palavras, no conjunto de poesias selecionadas pela antologista, a meu ver, diz muito pouco de um provável lugar minoritário de enunciação e mais, muito mais, sobre um contexto laico-literário, bem informado, aristográfico, letrado.

Mais do que uma espécie de resistência pós-moderna ao paradigma iconoclástico modernista, segundo nos aponta a antologista, o retorno do soneto, nos anos 90, inscreve-se no interior de uma concepção perfomática, teórico-literária, parnasiana mesma, da prática poética. Heloisa Buarque de Hollanda parece confundir diversidade de dicção, de percepção, de postura poética, fundada a partir de lugares éticos e políticos diferentes, com simples variedade formal. É verdade que os poemas da antologia apresentam influências e desenhos dircusivo-gráficos variados. No entanto, as diferenças não alcançam a heteronímia. Não surpreenderia a ninguém, se o autor de todos os poemas escolhidos fossem de uma mesma pessoa. Aliás, em meio a tantos espetáculos mágico-pirotécnico-virtuais, estou francamente desconfiado, será que todos esses nomes não passam de pseudônimos? Qual deles será o verdadeiro autor de tão maravilhosos poemas?

Entre originais e cópias e simulacros e reciclagens, quem, em sã inconsciência, diria que esses lapidados versos, colhidos ao acaso, sejam de personas culturais, culturalistas, heterogêneas: “Auto-enlaces dos quais algo ágrafo nasce” (Algo ágrafe), “Na riqueza no esmero da sobra de prata” (Juras de Amor), “Só eu nu com meu umbigo” (sem título), “cabeças um símio/ banal se abana/ inverossímil/ entre bananas” (Tropical), “Só um coração tem voz para dizer que está farto”.

Não há embalagem tecnológica - CD, Internet - ou diálogo intersemiótico - música, teatro, recital, artes plásticas, vídeo- que possam redimir esses poemas antológicos, deslocando-os para vozes singulares, presas/soltas em suas próprias/impróprias existências. São poemas que não insistem, em precariedade, nas vozes de suas angústias, de suas alétheias, no que diz respeito à possibilidade de se fazerem devires de verdades poéticas contingenciais, timbres do ser-no-mundo através de suas “ocultas clareiras”, como diria Heidegger.

Não há transcendência no ser-literário, elaborado por uma poética da fórmula, nesses poemas deslibidizados. Raça sem o ser-aí de suas etnias, gêneros sem sexo-do/no-mundo-mundano, trata-se de poemas muito bem escritos , mas assexuados, pouco dizendo de seus lugares de enunciação. Talvez digam de uma enunciação do enunciado, que é um outro nome para o academicus, para a competência operacional de uma certa poética pós-utópica.

Curiosamente, numa época em que a classe média chega ao poder, a década de 90, ao menos simbolicamente, na figura de um FHC, numa época que gosta de poses, de pós-literatura, de pós-modernidade, de pós-pensamento, de pós-ética, de pós-escolha, de pós-utopia, de pós-emprego, pós-produção, pós-nação, pós-totalidade, pós-sublime, pos-fome, pós-miséria, enfim, numa época sofisticada, como a nossa, que elege a internet como ilha-democrática do presente cibernético, talvez seja o caso de começarmos a dizer que a década de 90, no Brasil, produziu uma crítica, uma ensaística, uma poesia, enfim, um enunciado discursivo global, parnasiano, neoliberal.

Sinto uma certa inserção globalitário-mercadológica , prenunciada pelos concretistas paulistas, a partir da década de 50 do século passado, na produção antológica do Brasil desbrasilisado, porque na ação querem que não haja mais solução. Será essa poemática, como dizem da série econômico-cassínica, também irrerversível? Só nos restará adaptarmos? Poesia darwinista, off-canônica em sua anomia , anemia, pautada nas pautas negociadas e articuladas das negociações / articulações dos versos brancos da burocracia de rimas transnacionais, sem lastro na desritmia analfabética da babel que não freqüenta a ponte aérea Caetano Veloso/ Gilberto Gil/Padre Marcelo Rossi / Gugu Liberato / departamentos periodísticos das academias de ginásticas de quem se esforça para confeccionar um excelente curriculum vitae , para a próxima antologia, elaborada por antologistas escolhidos pelos círculos/périplos de outros virtuais antologistas da ontologia vitoriosa da atualidade inatual.

Imagino que ler Esses poetas, com olhos pós-pós-literários, ou pós-pós-utópicos, ou pós-pós-modernistas, seja uma bela oportunidade para pensarmos sobre o horizonte sagaz do pré-moderno, do pré-literário, época muito distante, que ainda tinha coragem de dar Bandeira, de, enfim, dar nomes aos sapos: cururus, parnasianos aguados, antomáximos, cibernéticos, homoheterográficos, bem comportados.

 

Bibliografia

DEBRAY, Regis. Vida e Morte da Imagem. Trad.: Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis: Vozes, 1993.

HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Esses poetas: uma antologia dos 90. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 1998.

SAID, Edward W. Cultura e Imperialismo. Trad.: Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

 

Luís Eustáquio Soares. Doutor em Literatura Comparada. Professor de Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa do Departamento de Letras e do Mestrado em Estudos Literários da Universidade Federal do Espírito Santo - Brasil.

 

© Luís Eustáquio Soares 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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