O conflito étnico/cultural e interlingüístico
de descendentes de poloneses

Clarice Nadir von Borstel

Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Brasil


 

   
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RESUMEN:
Este artículo trata de estudios sobre los descendientes de inmigrantes poloneses, de Vila Margarida, Marechal Cândido Rondon, Paraná, Brasil. Se presentan las narrativas identitarias sobre este grupo étnico en el tiempo y en el espacio, como identidad personal y social de formación bilingüe situacional polonés y portugués. Se parte en busca de una base, en la identidad étnica/cultura y en las interpretaciones de las enunciaciones de estos descendientes, en el contexto familiar y social.

 

A CULTURA E AS NARRATIVAS IDENTITÁRIAS

As narrativas orais têm relevância em termos da recomposição dos significados, originam- se de histórias pessoais, e há várias dimensões do conceito das mesmas. Uma das seguramente mais discutidas desde a antigüidade até os tempos atuais, diz respeito à noção de literatura em prosa e poética. É a partir desta tradição de conceito de narrativa que surge a proposta de Bakhtin (1988, 1998), sobre a concepção de identidade narrativa, apresentando a multiplicidade, abertura e indeterminação dos processos identitários no tempo e no espaço. É assim, também, que Certeau (1995, 2000, 2001), trata sobre situações de narrativas de práticas do cotidiano.

Sobre identidade e narrativa Sarup (1996: 14), diz que a “identidade tem uma história” e, também, reforça em suas colocações que a “identidade é um processo em construção no tempo e no espaço” (p. 15). Nos tempos atuais, as pessoas, em suas arenas grupais, vêem as possibilidades de justificarem as suas identidades e seus processos de identificação, mesmo ocorrendo os conflitos interétnicos/interlingüísticos e as múltiplas pertenças estruturais das pessoas em uma sociedade. Nas considerações de Goffman (1988), as identidades são múltiplas, flutuantes e situacionais. Para Hall (2003), assim como para Goffman, a identidade é um conceito crucial, porque funciona como articulador entre os discursos e as práticas sociais. Por um lado, colocam-se como pessoas sociais de discursos individuais, e, por outro, constroem-se como pessoas que podem falar/atuar e ser falados.

É pelos atos narrativos que um grupo se identifica, oferecendo pistas lingüísticas que permitem ao usuário, através de sua língua materna vernácula [1], ser identificado pela sua etnia e cultura.

Neste sentido, busca-se compreender em que medida o significado contido nas narrativas individuais, se aproxima de concepções explicativas que oferecem uma série de referências e inferências, sobre a interseção da narrativa verbal, com subjetividade do falar cotidiano de identidades culturais étnicas que pressupõem uma certa intencionalidade narrativa e são informadas por histórias particulares e de hibridizações, nesta região do oeste do Paraná, onde coexistem várias etnias cuja língua majoritária é diferente de grupos de imigrantes e seus descendentes.

As antigas fontes de ancoragem da identidade (a família, o trabalho, a igreja, entre outras) estão em evidente crise. Novos grupos culturais se tornam visíveis na cena social, buscando afirmar suas identidades na sociedade, e, ao mesmo tempo, questionando a posição privilegiada das identidades até então hegemônicas. Porém, nesta região, as antigas fontes de ancoragem identitárias, ou seja, as gerações mais velhas tentam dar continuidade, e, ou procuram resgatar as raízes de suas origens étnicas e culturais, para repassar às gerações mais novas, caracterizando conflitos interlingüísticos e interculturais entre as gerações. É neste contexto que se insere o presente estudo do grupo étnico sócio-cultural polonês de Vila Margarida.

As concepções e reflexões, sobre o termo “cultura”, são bastante ambíguas. Referencia-se, pois, a que está ligada à identidade de um grupo étnico minoritário. Pautando-se na argumentação de Certeau (2001: 9), vê-se que

... para que haja verdadeiramente cultura, não basta ser autor de práticas sociais, é preciso que essas práticas sociais tenham significado para aquele que as realiza, pois a cultura não consiste em receber, mas em realizar o ato pelo qual cada um marca aquilo que outros lhe dão para viver e pensar.

A linguagem contida na narrativa identitária é uma espécie de atualização da origem étnica e, portanto, possui uma vinculação com o futuro utópico no passado, estando presente nas práticas sociais cotidianas e nas marcas culturais deste grupo minoritário, ocorrendo uma transformação e uma representação simbólica muito forte, resultando em tradições históricas e culturais que nada mais são do que traduções (Bhabha, 1998) do passado.

Os contextos que determinam, orientam e canalizam a identidade cultural e lingüística de um grupo societal, segundo a colocação de Sarup,

... a identidade é contraditória e fragmentada. A identidade no pensamento pós-moderno não é uma coisa; o eu é necessariamente incompleto, inacabado - é o ‘sujeito em processo’. (...) a identidade é construída na e através da linguagem. (...) Devemos lembrar que só se pode conceber a identidade na e através da diferença (1996: 47).

Normalmente, esses fatores, causam valores conflitantes quando há uma forte tradição e, ou tradução cultural/lingüística em comunidades de minorias de imigrantes de base rural-societal, que se diferenciam da sociedade nacional.

Pautando-se, nestas colocações, Hall (2003a: 69), diz que “as diferenças regionais e étnicas foram gradualmente sendo colocadas, de forma subordinada”, pela identidade da nação. Mas, mesmo assim, há vários grupos étnicos, estabelecidos desde o final do século XIX e do início do século XX, em regiões do sul do país, de segunda e, ou terceira geração, que ainda resistem à identidade nacional brasileira. O autor argumenta que o sujeito fala, sempre, a partir de uma posição histórica e cultural específica. Ainda, segundo Hall (2003b), há duas formas diferentes de se pensar a identidade cultural. A primeira quando um determinado grupo étnico busca recuperar a “verdade” sobre seu passado na “unicidade” de uma história e de uma cultura partilhada que poderiam, então, ser representadas, pela literatura e, ou por programas televisivos: reportagens culturais, novelas ou filmes, para reforçar e reafirmar a identidade cultural. A segunda é aquela em que a identidade cultural é vista como “uma questão tanto de ‘tornar-se’ quanto de ‘ser’ na comunidade”. Para o autor, não significa negar que a identidade tenha um passado, mas reconhecer que, ao reivindicá-la, o sujeito a reconstrói e, que, além disso, esse passado sofre uma constante hibridização lingüística/étnica e cultural.

A partir dessas considerações de Hall (1996, apud Hall, 2003b), sobre os processos de migração forçada (ou “livre”), estes têm se tornado um fenômeno global e, são chamados de mundo pós-colonial. Isso se dá pelas práticas das narrativas individuais enunciativas de grupos étnicos que procuram reafirmar as suas identidades fragmentadas e multifacetadas de uma origem e um passado distante (em termos de suas tradições e, ou traduções no tempo e espaço).

Pode-se, pois, dizer, admitindo a posição do autor, que em um mesmo espaço geográfico há várias e diferentes identidades (cada uma faz apelos a diferentes partes culturais e de cada parte de si próprio), contribuindo neste emaranhado contexto regional de hibridização lingüística e cultural que se tem nesta região do oeste do Paraná, com descendentes de imigrantes de vários países e regiões da Europa, assim como, principalmente, os migrantes de várias descendências vindos do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Os poloneses de Vila Margarida vivem um processo de descentramento (Hall, 2003a), este influenciado pela fragmentação da identidade e da cultura étnica, originando-se por diversas categorizações identitárias modernas, como classe social: urbana x rural, as várias raças na região, nacionalidade, e, principalmente nesta investigação, a hibridização da língua nacional de base rurbana [2] (o português regional estigmatizado) e a mescla lingüística da língua materna vernácula (o falar polonês no Brasil).

As narrativas, enquanto histórias, não surgem in vácuo, mas são narradas pelos usuários em situações específicas nos quais constroem uma representação simbólica de sua identidade de um contexto sociolingüístico e pragmático-social de seu cotidiano. O usuário, ao narrar a sua história, se empenha em transformar um ato social, em um ato de narração, um ato de afirmar ou mesmo de se engajar no processo identitário atual, por um ato de enunciação. A situação de enunciação (Dijk, 1999), implica em fatos de certa relação entre o momento e o lugar, a partir dos quais, o usuário ao narrar os acontecimentos culturais, políticos, econômicos e sociais, utiliza, também, o hibridismo lingüístico e regional em sua enunciação.

 

AS CENAS DO ESTIGMA DE SER POLACO NO BRASIL

As memórias [3] simbólicas, na atualidade essas já não são tão coerentes, como trata Pollak (1992), o que pode ser observado nas investigações deste grupo étnico, que essas constituem e reproduzem-se em redes familiares, culturas híbridas e sociais situacionais, pelas emoções e seus sentimentos de pertencimento, em parte, no imaginário do contraditório de ‘ser polonês’ construído na fantasia das raízes do que foi bom no país de origem, mas conflituoso, quando da discriminação desses, quando são denominados de “polacos”. Essa denominação é dada normalmente, como um termo pejorativo e estigmatizado pelos outros no Brasil. A discriminação deste grupo étnico, aqui enraizado, já existe desde que vieram da Europa, para o Rio Grande do Sul, em 1891. Na pesquisa de Lazarotto (1977), em um documento do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, na Delegacia de Terra de Colonização, documento sob o código 137-1- 1891, n.26, p.41, encontra-se o seguinte:

...temos recebido 18.000 indivíduos e entre eles 10.900 polacos, que, como sempre afirmei a V. Exª, é uma imigração imprestável, pois não têm hábitos de trabalho, são indolentes por natureza e nada entendem do serviço de agricultura e com muita dificuldade a ela se habituarem.

Fundamentado nestas colocações, Lazzarotto (1977), procura explicar a discriminação aos poloneses desde a sua chegada no país, pelas dificuldades de adaptação que esses encontravam, pois não tinham nenhum preparo para o trabalho agrícola, em terras totalmente cobertas pela mata nativa. O mesmo autor, referenciando o documento do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, na Delegacia de Terra de Colonização, sob o código 138-2- 1891, n.156, p.25, escreve:

...na verdade as razões apontadas aos poloneses eram reais. Os que emigravam não eram camponeses, sujeitos a uma servidão feudal, mas os marginalizados das cidades que a revolução industrial estava criando também na Polônia (...) E mesmo se fossem camponeses, havia grande diferença entre uma agricultura feita em planície milenarmente cultivada, da feita numa floresta para devassar.

Ainda segundo o historiador, Wachowicz (1981), os imigrantes e seus descendentes poloneses foram discriminados no Paraná. Portanto, “os estereótipos como polaco sem bandeira, ...levou alguns descendentes de poloneses a adquirirem complexo de inferioridade”. Também foi pautado por Iarochinski (2000: 78), que “o termo polaco, durante algum tempo, foi usado na região sul do Brasil para agredir e ofender os imigrantes e seus descendentes”. A discriminação e a estigmatização aos descendentes de poloneses, ainda está muito presente, também na comunidade de Vila Margarida. Quando da pesquisa descritiva dos jovens descendentes de imigrantes poloneses, no Colégio Estadual de Vila Margarida - Ensino Fundamental e Médio, pôde-se observar na pesquisa etnográfica escolar, em sala de aula, nas enunciações comunicativas entre os adolescentes: “Fernando, você não vai dizer que é polaco...você, não é alemão!?... e você!? (mostrando com o dedo para uma colega) polaca!” Para um aluno com traços fortes de polonês a investigadora perguntou: “Você não tem sobrenome polonês?”, o aluno respondeu imperativamente: “Eu não!?, Eu sou alemão.”, apontando para o colega disse: “Ele que é polaco, professora”. Também nas colocações de um professor “aqui a ‘polacaiada’ se concentra atualmente na Linha Campo Sales”.

Nas interlocuções enunciativas das entrevistas com três famílias de agricultores descendente de imigrantes poloneses, pioneiros na comunidade, que vieram em 1955 e 1956, em suas narrativas [4] iniciais, quando lhes foram perguntados se havia discriminação sobre a sua origem étnica, disseram que não. Porém, ao narrarem a vinda deles para o oeste do Paraná, foram ver as terras nos municípios de Maripá, depois em Nova Santa Rosa. Neste último município (a colonização se deu principalmente com imigrantes e descendentes de alemães), foram discriminados pelos descendentes de alemães quando quiseram comprar terras. Estas três famílias, em momentos diferentes da entrevista, disseram que segundo a fala de um alemão, de Nova Santa Rosa, “polaco, aqui, não”. Assim também em enunciações posteriores, um pioneiro de Linha Palmital de Vila Margarida, afirmou que em uma determinada situação de compra de rama de mandioca, teve que se identificar como descendente de alemães para poder efetuar a mesma. Disse ainda que a discriminação ao polonês vem de rixas antigas, de origem européia, ocorrendo ainda hoje na Vila. Em suas falas, diz que na Linha Palmital, no início da colonização, tinha 100% de descendentes de imigrantes de poloneses ali residindo, trabalhando na lavoura para comercializar e, naquela época, criavam animais (gado, suínos, aves) para consumo próprio, hoje, além da lavoura, são também comercializados os animais e seus derivados.

O etnocentrismo está muito presente e pode ser sentido, ainda, nas interlocuções enunciativas dos adolescentes de descendentes de imigrantes de alemães, quando da investigação em sala de aula, caracterizando os fatos historicamente ocorridos na Europa. Até hoje, a história dos poloneses sem pátria prevalece em muitos círculos familiares nesta região colonizada por descendentes de imigrantes europeus (alemães e italianos).

Ao longo da história desses descendentes de imigrantes no país, o que aconteceu, não foi somente a discriminação racial, mas também a imitação da hibridização do falar polonês com o português. Apresentam-se, neste texto, alguns fatos preliminares e como isso se deu com o grupo étnico polonês que veio para esta região do oeste do Paraná, a partir da década de cinqüenta, de Guarani das Missões e da região de Santa Rosa, Rio Grande do Sul, migrando para Vila Margarida.

Para Iarochinski (2000: 95), entre 1891 a 1894, houve um bom número da imigração polonesa procedente da região ocupada pelos russos na Polônia, bem como, várias famílias de agricultores oriundos de Varsóvia, Plock e Kalisz. Estas foram assentadas em várias colônias em Guarani das Missões e na região de Santa Rosa, RS. Ainda, segundo o autor, em Guarani das Missões, em 1930, havia em torno de vinte escolas primárias e uma secundária que eram mantidas pelas famílias polonesas. Porém, em função da segunda guerra mundial e da proibição do Governo Vargas, as escolas e, principalmente, a secundária que era considerada um modelo de educação e ensino polonês, foram fechadas em 1943.

Nas considerações de Bhabha (1998: 166), ver o cultural não como fonte de conflito, culturas diferentes, mas como o efeito de práticas discriminatórias, ou seja, segundo ele, a produção de diferenciação cultural como signos de autoridade, pode mudar seu valor e suas regras de reconhecimento, quando o hibridismo intervém no exercício da autoridade não meramente para indicar a impossibilidade de sua presença, mas quando há o relacionamento cultural entre um “nós” e um “outro”, na concepção de sua identidade e de alteridade.

 

AS SITUAÇÕES INTERLINGÜÍSTICAS DO PORTUGUÊS/POLONÊS

No ato das práticas de comunicação social, a língua de descendentes de imigrantes é compreendida, portanto, como um modo de interlocução enunciativa na/pela linguagem, numa dada conjuntura sociocultural e histórica, o que ocorre numa dada dinâmica multifacetada e complexa no contexto lingüístico em que estão inseridos.

Os imigrantes, quando vieram para o Brasil, trouxeram a sua língua, a sua cultura, a sua religião, os seus hábitos e costumes de suas regiões de origem e seus conhecimentos profissionais. Esses descendentes de imigrantes do Rio Grande do Sul que chegaram nesta comunidade agrícola de Vila Margarida, Marechal Cândido Rondon, Paraná, Brasil, organizaram na maioria dos casos, núcleos coloniais puramente étnicos, dando, assim, origem a pequenos grupos lingüísticos/étnicos/culturais, isso é, de fala do polonês mesclado com o falar português de base rural. Argumenta-se, aqui, que a hibridização cultural e a mescla lingüística do falar polonês se deram pela proximidade de vizinhança, na área rural, assim como, ocorreram vários casamentos interétnicos (poloneses, italianos, alemães e luso-brasileiros) na comunidade.

A relação espaço e tempo estão relacionados a estas etnias e culturas no interior de dois ou mais códigos lingüísticos de diferentes sistemas de línguas, representando certos fenômenos de línguas em contato (Weinreich, 1953), ou seja, os usos lingüísticos (empréstimos, alternâncias: fônicas, gramaticais, lexicais e o code switching) nos quais, estes têm efeitos profundos sobre como estas identidades são representadas aqui na região do oeste paranaense.

Nas considerações de Hall, citando Said (1990), “todas as identidades estão localizadas no espaço e no tempo simbólico”. Said chama o espaço de “geografias imaginárias” seu senso de heimat e a sua localização de tempo “nas tradições inventadas, ligando o passado e o presente, em mitos de origem, projetando o presente de volta ao passado” (Hall, 2003a: 72).

Desta forma, pautado nas reflexões de Hall, “as identidades nacionais permanecem fortes, especialmente com respeito aos direitos legais e de cidadania, mas as identidades regionais e comunitárias têm se tornado cada vez mais importantes” (2003a: 73), cita, também que a “formação de ‘enclaves’ étnicos minoritários no interior dos estados de uma nação levam a uma pluralização de culturas nacionais e de identidades nacionais” (p. 83).

Para que um grupo étnico possa sobreviver com a fragmentação do presente, algumas comunidades buscam retornar a um passado perdido, através de narrativas de suas histórias identitárias de um passado, distante e ao mesmo tempo presente, com um hibridismo étnico e cultural fragmentado de suas origens, procurando resgatar a sua identidade, principalmente, através dos fatores sócio-culturais e identitários.

Isso se referencia neste estudo, pois estes descendentes de imigrantes poloneses iniciaram, timidamente, a resgatar os seus valores culturais e a demonstrar que ainda perpetuavam a língua de seus antepassados. Este grupo étnico está residindo na Vila Margarida desde 1955, mas só recentemente, ou seja, há oito anos estão divulgando e resgatando a cultura étnica em outras comunidades de polonês no Paraná e a sua gastronomia (os jantares típicos da comida polonesa), para a sociedade. E, somente, há quatro anos, está acontecendo a festa típica dos poloneses na Vila. Na festa típica deste ano (maio/2005), ofereceram aos membros da Igreja Católica uma missa na língua materna vernácula (o polonês).

Nas narrativas dos entrevistados, quanto aos referenciais culturais mais comentados pelos participantes da pesquisa foi o apego à família, nas reuniões festivas aos domingos e nos aniversários dos membros das mesmas. Outro item cultural de relevância é a comida típica, que é o assunto que vem a mente em primeiro lugar, quando se fala em cultura polonesa, o que pode ser observado na fala de uma senhora,

... quando a minha família se reúne aos domingos para um almoço festivo, eu faço vários pratos, a Czarnina (sopa de sangue de pato) e ou a Barcht (sopa de repolho ou Kapusniaki: sopa de chucrute) com Pierogi (pastéis de requeijão doce ou salgado, pode ser também com carne, o pastel é cozido na água, ou pode ser assado ou frito), o Zraze (Zrazy: bolinho de carne), ovos cozidos com a beterraba e Salatkas (saladas).

No imaginário destes descendentes de poloneses, a comida está sempre muito presente, quando falam de suas origens polonesas. Após tratar de comida, um outro dado cultural para os entrevistados, segundo suas narrativas, eram as festividades folclóricas (casamento) cujos preparativos e a festa duravam três dias (iniciava na sexta-feira ao entardecer na casa da noiva, serviam uma sopa de macarrão com carne de gado aos convidados, no sábado o ritual do casamento e no domingo era servido o café da manhã com cuca, pão e lingüiça e no almoço era servido a comida requentada da festa do dia anterior). Segundo as narrativas de duas famílias, na época, já havia a mistura de comidas típicas de outras etnias, como no caso o macarrão feito em casa. Hoje as festividades de um casamento duram dois dias ou somente um (iniciando ao amanhecer) com as comidas típicas, churrasco e as danças e canções folclóricas. Porém, na fala de uma outra entrevistada, as festividades dos casamentos são iguais às outras etnias, porque houve vários casamentos interétnicos.

Apesar do forte sentimento de identificação étnica e cultural, estes descendentes de poloneses, também apresentaram, uma forte diferença e diversidade lingüística nas situações enunciativas interétnicas na comunidade. Por vezes, remetiam aos fatores sócio-culturais, latentes e conflitantes de suas origens “de ser polaco”, assim como com a língua e a cultura brasileira, quando do hibridismo, tanto no lingüístico, como na culinária e nos costumes com as outras etnias (alemãs e italianas) na Vila.

Em suas situações enunciativas, referiram-se constantemente à importância de sua etnia e da cultura na comunidade. Porém, a língua vinha em terceiro lugar, só interagiam em suas interlocuções lingüísticas polonesas no convívio familiar ou com amigos íntimos quando se encontravam, sem a participação de outras etnias.

Uma senhora, descendente de terceira geração, no Brasil, com quatro anos de escolaridade, que veio em 1969 para Vila Margarida, nascida em Santo Cristo, cujos pais são de Guarani das Missões, RS e os avós vieram da Polônia, afirma que em suas interlocuções comunicativas com a família na hora das refeições, as interações são no falar polonês mesclado com o brasileiro, o que foi confirmado pelas noras que participaram da entrevista. Na fala desta entrevistada, quando dos encontros da Associação de Senhoras de Campo Sales,

...as mulheres de outras origens, as ‘alemoas’ quando estão juntas falam o alemão, não querem nem sabê se nós entendemo ou não, nós ‘as polacas’ não falamo a nossa língua quando tem no grupo ‘alemoas’ e ‘italianas’, respeitamo as outras mulheres, só falamo quando só nós ‘polacas’ estamo tomando chimarão.

De acordo com a sua enunciação, verificou-se que não usa a língua materna vernácula em interações comunicativas na sociedade e, sim em grupos restritos (a família e amigos). Na fala desta entrevistada, pode ser observada a variável de base rural (entendemo, falamo, respeitamo, estamo), isto é, quando da omissão da variável de concordância verbal no português brasileiro de natureza fonológica, assim como, a alternância fônica da variável dos imigrantes e seus descendentes europeus (Borstel, 2003). Quanto ao uso da troca das vibrantes, em palavras que deveria ser usada a vibrante alveolar /r/ e, ou a fricativa glotal /h/, na fala da entrevistada em suas situações enunciativas, faz uso do Tepe //, ou seja a vibrante simples no elemento lexical chimarrão. Ou quando omitem a vibrante em final de palavras, como em saber. Sobre esta última variação lingüística do português brasileiro, já citado por vários estudiosos e pesquisadores do português escrito e falado no Brasil, no que se refere ao sintagma fonológico quando tende a ser suprimido a vibrante em final de palavra foi tratado por Borstel (1998: 30), quando cita os estudos de Amaral (1920), Silva Neto (1963), Head (1967), Istre (1971), Votre (1978), Callou (1979), Mattos Lima (1989). Também Bortoni-Ricardo (2004: 85), em seus estudos sobre o português brasileiro, referencia que a variação /r/ pós-vocálica quanto ao modo e ao ponto de articulação do uso da vibrante, denominada de variável regional. Ou seja, em todas as regiões do Brasil, o /r/ pós-vocálico, independentemente da forma como é pronunciado tende a ser suprimido, especialmente nos infinitivos verbais.

Das seis famílias entrevistadas (o casal) de primeira e segunda geração de poloneses no Brasil, pioneiros, na Vila, em suas interlocuções com os entrevistadores, todas fizeram uso das variáveis lingüísticas acima citadas.

Uma variação desprestigiada, entretanto, não pode ser considerada inferior à norma culta institucionalizada, tampouco ser definida como um “falar errado” diante de um dialeto “certo”. A única restrição, encontrada nessa relação conflitante estabelecida entre variantes e língua normativa reside na valoração maior que a sociedade condiciona à enunciação moldada de acordo com seus padrões de língua culta prestigiada.

A função primordial da língua é a de possibilitar aos falantes que a utilizam o atributo de comunicarem-se entre si, compreendendo-se mutuamente. No entanto, Faraco (1998), aponta um dos possíveis modos pelo qual essa mesma língua é exteriorizada, atribuindo-se a este um conceito de ideal em relação aos demais. Assim, também Bakhtin (1988), considera que é justamente esse conceito de ideal, ou seja, essa marca de prestígio, atrelada a algumas formas de realização fonêmica da língua, é responsável pela mudança lingüística de um dialeto, passando a contemplar características que lhes são alheias, devido ao fato de estas serem socialmente mais prestigiadas.

Ainda, nas entrevistas com os participantes de descendentes, tanto a primeira como a segunda geração de poloneses na comunidade, ainda mantém em suas enunciações de comunicação o falar polonês/português (o code switching) na família, como pode ser observado nesta situação de fala de uma entrevistada “Hoje, no almoço, fiz Czarnina i pirógi pra mój syn i marido” (Hoje, no almoço, eu fiz czarnina e pastéis pra meu filho e marido). A interação comunicativa na língua polonesa, também se dá entre amigos e vizinhos da mesma descendência. O uso do fenômeno de alternância de código no contexto familiar mostra que a escolha da língua depende, principalmente, das relações existentes entre os interlocutores e dos conhecimentos comuns partilhados pelos usuários da interação comunicativa. É uma situação consciente de marcar a sua enunciação, à exigência interior de expressar idéias e pensamentos de maneira mais significativa e relevante.

Para estabelecer condições que propiciassem este estudo de reconstrução e de resgate da identitária étnica e cultural do grupo de poloneses na comunidade, foi necessário buscar, nas narrativas individuais, como se deu a migração interna aqui no Brasil e como estes participantes interagem lingüisticamente com a língua materna vernácula e o português brasileiro, uma vez que estas questões estão interligadas e não podem se entendidas separadamente quando se trata do multiculturalismo e dos conhecimentos lingüísticos no contexto familiar e social que caracterizam a poliglossia (Borstel, 2004) na comunidade.

Do ponto de vista subjetivo, quando da investigação no contexto familiar com estas seis famílias, observou-se o silenciamento sobre o uso da língua materna vernácula, neste grupo minoritário de poloneses, na comunidade do município de Marechal Cândido Rondon, assim como, uma tradição cultural/étnica/rural com os quais estes se acham fortemente identificados. Isso significa, em primeiro lugar ser polonês, ser da área rural, preservando e resgatando timidamente as suas origens étnicas, na qual predominam os valores de identificação essenciais, que giram, principalmente, em torno de práticas sociais e, ou de solidariedade de grupo, como ocorreu, recentemente, com a organização da festa típica anual na Vila Margarida.

Considerando-se este estudo, deste grupo de descendentes de poloneses, percebe-se que o presente espelhado no passado aponta ainda conflitos identitários da formação sociocultural e do uso lingüístico dessa etnia, recalcada sobre os fantasmas da imigração quando vieram para o Brasil manifestada nas atitudes e nos comportamentos sociais deste grupo.

 

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Notas:

[1] Sobre os estudos sociolingüísticos de Labov (1974: 66), o estágio da língua materna vernácula ocorre quando as características do dialeto do grupo tornam-se reações automaticamente estabelecidas no padrão da fala cotidiana.

[2] Nas colocações de Bortoni-Ricardo (1984: 10), a “variedade rurbana conserva traços dos dialetos rurais, principalmente no que concerne à simplificação do sistema flexional da língua portuguesa”.

[3] Segundo Pollak (1992: 204), “a memória é um elemento constituinte do sentimento, tanto individual como coletivo, na medida que, ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si”.

[4] Estes dados foram coletados (em duas fitas de vídeo, uma em fevereiro/1996 e outra em março/1996), a primeira entrevista foi coordenada por Lia Dorotéia Güths e a outra por Marli Terezinha Szumilo Schlosser e um grupo de bolsistas do curso de História, que gentilmente foi emprestado para esta pesquisa. Professoras do Curso de Geografia, do Centro de Ciências Humanas, Educação e Letras da Unioeste campus de Marechal Cândido Rondon.

 

CLARICE NADIR VON BORSTEL, nasceu em Piratuba, Santa Catarina, Brasil. É Professora da Unioeste - Universidade Estadual do Oeste do Paraná - campus de Marechal Cândido Rondon, Paraná, Brasil. Leciona Heterogeneidade Lingüística e Teorias da Linguagem no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Letras. Na Graduação ministra aulas de Fonética e Fonologia e Lingüística IV (Sociolingüística). Com Mestrado em Letras, área de concentração em Lingüística pela Universidade Federal de Santa Catarina; Doutorado em Lingüística, área de concentração em Sociolingüística e Dialetologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Pós-Doutorado em Lingüística, área de concentração Lingüística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas, Brasil.

 

© Clarice Nadir von Borstel 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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