Rui Nunes: a experiência da desconstrução da linguagem

Maria João Cantinho


 

   
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Sonoridade bela, benfazeja, que torna o lugar habitável. Porquê? Porque não os instrumentos horríveis de ouvir?
     
Henri Michaux

Porquê esta necessidade de “lugares habitáveis” na linguagem e na literatura? A familiaridade aquieta-nos, apazigua o entendimento e a imaginação. Cria uma relação de harmonia, bem próxima da sonoridade da música que se orienta pelo sentido da melodia. Mas essa construção, a de uma bela continuidade, sem fissuras e inquietação, será o que de mais autêntico nos traz a literatura? A questão que se coloca aqui, disputando a legitimidade da bela harmonia, é a da possibilidade de ouvir os “instrumentos horríveis” ou, ainda, a experiência da dissonância e do modo como ela se transporta para o trabalho da escrita e da construção da narrativa. Ou a da sua desconstrução, como urge pensar, quando se toma o caso paradigmático de Rui Nunes e dos seus romances.

Obreiro incansável, Rui Nunes construiu, ao longo de mais de 30 anos, uma obra notável e original e que foi decisivamente reconhecida com o seu romance O Grito, tendo recebido o Prémio da A.P.E., em 1998. Tal como Maria Gabriela Llansol, Rui Nunes apenas foi reconhecido tardiamente, pois, em ambos os casos, tratam-se de autores de leitura difícil e complexa, avessa aos cânones estabelecidos. Dois casos literários diferentes, mas que partilham a radicalidade da escrita e do trabalho narrativo. Se a escrita de Llansol contém uma raiz mística, e ao mesmo tempo, e uma luminosidade intensa e irradiante, no caso de Rui Nunes há um nilismo e um desespero kierkegaardiano que a atravessa de lés-a-lés, deixando-nos a braços com a solidão das suas personagens.

Na entrega do prémio, Rui Nunes afirmou: "Os livros que me fascinam - e os que sei escrever - são textos irremediáveis. Isto é, vivem a doença da nostalgia do olhar de Deus. Sabem-no inexistente. E acreditam que as palavras prolongam ainda mais a falta que pretendem apagar. Penso ser este o caso de Grito." E, a acompanhar o absurdo da existência humana face à ausência de Deus, surge a experiência do estilhaçamento da linguagem, da perda dessa “bela continuidade”, que poderia estar contida na narrativa, tomada na sua dupla dimensão, como unidade e continuidade, em simultâneo. A suspeita de Rui Nunes é visceral, tanto quanto a recusa dos ideais e das boas intenções. Por outro lado, a dor é a condição irremediável das suas personagens.

Se os romances de Rui Nunes partem desta ausência, também o seu romance A Boca na Cinza é um texto que se constrói neste mundo estilhaçado, onde os seres se revelam na sua condição de pobreza existencial, reduzidos à sua dimensão degradada. Relatando a história de dois irmãos anões que vivem juntos na mesma casa, Rui Nunes conduz-nos à intimidade de dois seres dilacerados pela solidão, pela doença e por uma melancolia acerada como aço e que contamina toda a esfera, desde a primeira frase: “ a dor é abrir os olhos para as paredes vazias do quarto”. Se o universo que aqui se representa é de uma crueza invulgar, onde a escrita se coloca imediatamente na antítese do lirismo, é por ela que se acede ao lugar íntimo da doença e do grotesco.

Rui Nunes recusa, igualmente, os clichés literários, o que contribui para um efeito de estranheza. Ela coloca-se a todos os níveis, no seu romance. Tanto na construção das suas personagens (que neste caso nada têm de atraentes, mas, ao invés, algo de repulsivo e grotesco), como na experimentalidade da linguagem e da estrutura narrativa. Por isso, podemos afirmar que essa inquietação e a estranheza, que é sentida perante o que não é domesticável ou no que resiste à catalogação, define o “novo”, constituindo-se assim como um espaço literário de ruptura e diferenciação.

Diria, para citar Blanchot, que existe na obra de Rui Nunes, naquilo que a demarca, esse ressassement éternel ou eterna agitação que a constitui na sua peculiaridade. Ela é, assim, da ordem do “acontecimento”, instaurando um território radical, que se revela no modo como se fragmenta o discurso narrativo, quebrando a unidade sem a quebrar verdadeiramente - a coerência e a unidade passam a conhecer outros contornos. Fundindo o monólogo com a narração, operando a cesura, ao nível da linguagem, entramos, com Rui Nunes, numa deambulação pelo espaço literário descentrado. Para Rui Nunes, é a escrita que verdadeiramente interessa. A escrita como experiência, busca e mergulho em si mesma e no seu universo não pode falar-se de unidade, ainda que a coerência do texto seja a sua linha decisiva. Recorde-se Blanchot, ao afirmar que “a essência da literatura é escapar a toda a determinação essencial, a toda a afirmação que a estabilize ou a realize: nunca já lá está”. Deste ponto de vista, o autor não se encontra preocupado com a literatura e tão pouco com o acto da escrita em si, despojado, teórico ou reflexivo, se ele não não se encontra indissociavelmente ligado aos seres e à sua condição essencial.

Por opção, a escrita de Rui Nunes não é capaz de fixar-se num ponto determinado ou na unidade narrativa, mas exerce-se pela via de da errância, desenhando-se caprichosamente como um pensamento nómada, que faz do entrosamento dos pensamentos, das acções dos seres, e da sua violenta solidão, o espaço da expressão da linguagem. Essa errância prende-se, igualmente, ao percurso nómada das suas personagens, que vivem entregues a uma deambulação cega no espaço do pensamento e da fala: “falo contra as palavras que se esvaem, paro no meio de uma frase e olho em volta, como se quisesse encontrar a palavra que me falta, como se as palavras fossem objectos”. Dir-se-ia um desvio da continuidade do pensamento e da fala, para alcançar a respiração autêntica do pensamento, auscultando-o como sintoma de um mal-estar essencial e que se revela nessa fragmentação, a ameaçar uma mudez inquietante: “são frases esquecidas, são letras que não se juntam, às vezes, os olhos dos outros param na minha boca, inquirem o meu silêncio e esperam que eu fale, e o silêncio aumenta, até todo o meu corpo ser a falta de uma palavra”. A mudez espelha o estilhaçamento da vivência e do corpo, a impossibilidade do amor, como olhar de reconhecimento do outro: “nunca houve um tempo em que um olhar me desejasse, sempre os olhos se afastaram de mim”. A estridência do grito que não se chega a ouvir é a ameaça que paira sobre as personagens, numa dilaceração que contamina todo o universo e é, precisamente, este desmembramento irremediável que se torna ínsito à estrutura narrativa do romance de Rui Nunes.

Abel e Sara, as duas personagens principais deste romance, não se têm senão um ao outro. São irmãos, mas o ódio que votam à sua própria condição instala entre eles uma tensão crescente e insustentável. O ódio, o confinamento ao isolamento e a impossibilidade de uma vida normal, a perda da esperança, confere-lhes essa carga trágica e niilista. Um outro nome que figura no horizonte de Rui Nunes é, sem dúvida, Artaud, devido à violência pulsional do texto, no caminho de um recuo até ao inarticulado do grito e da fala desarticulada, no desmembramento do discurso de que temos vindo aqui a falar. A escrita aparece aqui, como suspensão e espaço de reflexão, enquanto interrogação total, que supõe uma palavra plural e que é assumida pelo fragmentário. A desconstrução da narratividade, no autor, estabelece-se, com efeito, na instauração desse efeito de suspensão da língua e do pensamento, onde radica uma interpelação das forças pulsionais e não domesticadas. Assim, face à erupção dessas forças, face à ruptura e à suspensão, só uma linguagem interrompida permitiria colocar essa questão.

Na verdade, podemos questionar-nos se essa desconstrução da narratividade e da sua unidade é, de facto, levada a cabo. Poder-se-ia reconhecer o romance se essa desarticulação fosse radical? A que estranho ser acederíamos, então? A possibilidade de interpelação do desconhecido e dos elementos irracionais do pensamento e da vida constitui-se no entrosamento de dois planos da linguagem que obedecem, sem dúvida, a uma dupla exigência: uma exigência, por um lado, de continuidade e, por outro, de descontinuidade, que permanecem inconciliáveis na linguagem e no trabalho narrativo. Resulta dessa antinomia a tensão da escrita, entre o que é claro e o elemento irracional. Um movimento que nasce da própria textualidade e que inflecte sobre si própria, questionando a sua unidade e continuidade. O que aqui é posto em causa não é tanto a ideia de uma continuidade, mas antes a de um fechamento da estrutura narrativa. O que exige o estilhaçamento da narrativa é o transporte de um espaço a outro - o espaço do pensamento ao da fala, por exemplo - ou de um tempo a outro, implicando cortes de temporalidade, cesuras, e a interpenetração de momentos distintos (como a memória da mãe de Sara e um presente que está sempre como horizonte de fundo, por exemplo, não há o clássico movimento de suspensão do presente, mas essa interpenetração do passado e do presente). E é precisamente a reinvindicação de uma abertura, ao nível narrativo, que coloca a necessidade de destruir os limites clássicos, que são impostos à unidade da narrativa. É no contexto dessa abertura que se torna possível, ao romancista, trabalhar a dissonância e a polifonia das vozes. Trata-se, assim, de anular a voz do narrador, a voz única, para dar lugar ao modo como as vozes falam e se querem fazer ouvir, no espaço da ficção. O recurso ao corte com as formas estilísticas dominantes, a supressão e a subversão das regras clássicas da escrita, etc., são outros tantos modos de intervir na matéria da linguagem e nela inscrever múltiplos sentidos e experiências.

Na verdade, o modo como o autor não consegue anular-se no texto senão pela perda da voz, pelo esquecimento do fio narrativo, a experiência da sua solidão, num caminhar para a universalidade da textualidade, faz-se pela perda de si mesmo no texto, do seu desaparecimento no espaço da ficção, como uma reivindicação de despojamento que se deseja, na rasura da escrita. Isto é, a desconstrução da narrativa exige a passagem de um eu, a dessubjectivação, se assim se pode dizer, para o espaço literário, por excelência, o espaço da ficção, nesse diferencial abissal entre a vida e a escrita.

A “morte do eu” e a urgência de um espaço autónomo, onde tudo se entrelaça, é uma condição primordial do romance de Rui Nunes. Assim, a narratividade cede o lugar à polifonia e à vertigem das vozes, dos diálogos e das falas, dos monólogos, que se cruzam a todo o momento. Essa é a vida, a temporalidade e a espacialidade própria do seu romance. A verdade da dor e da solidão das suas personagens reclama a ausência do centro para se dizer, recusa, por isso, a continuidade da narrativa. Conhece-se, assim, o veredicto, que é uma condenação à morte do autor e da narrativa. Como morto parece ser tudo em que toca a escrita do autor, mortos os corpos, morto o amor, morta a esperança, sendo a escrita o gesto de adiamento do irremediável e, simultaneamente, a celebração alegórica:

“- quando olho as pessoas vejo-as sempre mortas,
(pausa)
- entram no teu olhar e ficam vagarosas a morrer?
- não. É já mortas que as vejo
- mesmo as que amaste?
- nunca amei ninguém
- não acredito
- só poderia amar quem eu não visse morto. E isso ainda não aconteceu.”

A visceralidade da escrita de Rui Nunes, essa violência pulsional que acompanha a dor e a solidão, exige um afundamento das regras convencionais da verosimilhança do texto. Há um escavar da linguagem e das suas forças não-domesticadas, um recurso à violência das palavras, uma recusa da empatia da leitura e da facilidade a que nos habituámos, que provoca um movimento de desidentificação do leitor e a sua distância face ao texto. Jogam-se nestes efeitos os diversos modos de assinatura do autor, cuja escrita é, sem sombra de dúvida, inconfundível. O escritor trata as palavras como seres vivos, moventes, como se elas tivessem uma força e uma potência próprias. Cabe-lhe explorar essa força e a carga semântica que resulta do jogo. Ressonâncias próprias, relações de familiaridade e de osmose entre elas ditam-lhe a força pulsional, quer a sua carga gere ou não empatia. Poderíamos, assim, falar de campos de forças, campos gravitacionais em torno dos quais se constroem os centros da textualidade, e não de um único centro - como o seria no caso da narrativa clássica, onde a lei é a da construção. No caso de Rui Nunes encontramos, no limite, esse gesto imponderável de narrar, mas na contramão das regras clássicas, fintando as convenções, dilatando os limites da linguagem, deixando-a à mercê do perigo do desregramento, para logo recuperar, através da contínua suspensão, o fulgor de uma nova forma narrativa. Existe, na sua escrita, essa inquietação que toma de assalto o escritor - o autêntico - e que é a “resistência à linguagem”, num movimento de infinitização da mesma, um movimento de resistência, também, ao literário, enveredando pela zona de perigo que é a criação de um idioma próprio.

Elias Canetti fala do aparecimento do escritor para acentuar a ideia de um corte com um discurso dos outros, dizendo que, na verdade, ele não é gerado a partir de nenhuma estratégia, mas como uma “pura surpresa”, ou seja, como a mais imprevisível das consequências de uma prática de escrita. Parece-me ser o caso de Rui Nunes, onde a aceitação do que escreve se faz numa tranquilidade silenciosa, sem afirmações bombásticas. Uma atitude discreta e serena acompanha a sua obra, de uma profunda originalidade, que se afirma por si mesma. Os seus romances são, certamente, irremediáveis e irreversíveis, no pleno sentido da palavra.

 

Notas

[1] V. p. 25.

[2] Ibidem.

[3] V. p. 30.

 

© Maria João Cantinho 2006

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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