Kaze ni naritai - "Quero ser como o vento":
o encontro do samba brasileiro com a língua japonesa

Prof. Me. Michele Eduarda Brasil de Sá

Prof. Assistente de Língua e Literatura Latina
Faculdade de Letras - Universidade Federal do Rio de Janeiro
michele_eduarda@ufrj.br


 

   
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INTRODUÇÃO

Foi num intervalo de aulas que a novidade chegou até nós. Um amigo mostrava um tanto animado a sua mais recente aquisição: um CD de um grupo japonês que tinha gravado um “sambinha muito legal”, para citar as mesmas palavras que ele usou ao definir o objeto único de sua atenção naquele momento. Nós todos rimos - um samba? Em japonês? Não houve quem pudesse aceitar com naturalidade aquela mistura. E, como ele quisesse nos convencer de que era “maneiro pacas”, emprestou-nos os fones de ouvido de seu aparelhinho remendado com fita adesiva, uma afronta notória à tecnologia japonesa.

Um a um fomos experimentando aquele som nunca antes escutado. A primeira reação era sempre a mesma: uma sonora risada, depois um meio sorriso, depois um franzir de testa na tentativa de entender as palavras - sim, porque éramos todos alunos do curso de Língua Japonesa da Faculdade de Letras. A visão talhada pelo preconceito cultural, pelo estranhamento do diferente, de fazer Montaigne chorar, foi substituída pela mesma agitação que contagiara nosso colega.

Como descrever a sensação? Não sei. Mas, movida pela curiosidade, fui inteirar-me daquilo. A música se chama Kaze ni naritai (“Quero ser como o vento”) e pertence ao CD Kyokutoo samba (“Samba do extremo oriente”), do grupo japonês The Boom. Pelo título do álbum, muita coisa já pode ser deduzida, mas ele não é todo de samba. Tem uma bossa, “Poeta”, ao melhor do estilo voz-e-violão, com dissonâncias que não deixam nada a desejar. Com um detalhe: o título é em português, mas a letra é toda em japonês. Isto acontece também com a canção “Carnaval”. E o que dizer da canção “It’s glorious”, um samba de título em inglês e letra em japonês? Na verdade, todas as músicas são misturas de ritmos. The Boom gosta de trabalhar com esta riqueza, com esta diferença: tem reggae, tem ritmo tribal africano (com forte apelo aos tambores), tem ritmo indiano - o que, aliás, ocorre não só neste álbum, mas em todos os outros. E o grupo fecha com chave de ouro, com a canção “Haja coração” - esta, sim, com título e letra em português.

Neste trabalho, nos ateremos à canção Kaze ni naritai, o samba que, naquele intervalo de aulas, encheu meu dia de música e construiu uma ponte no meu coração. Contudo, não faremos um estudo baseado em uma experiência pessoal, e sim na questão do samba, produto brasileiro, como fruto de um encontro, de acordo com Hermano Vianna em seu livro “O mistério do samba”. Este fruto de um encontro - o samba - tem ganhado o mundo desde o seu surgimento, e com isso tem promovido outros encontros. Nosso objeto de estudo é o encontro entre o samba brasileiro e a cultura japonesa, através de uma inusitada canção.

 

O SAMBA E A IDENTIDADE BRASILEIRA

Costuma-se relacionar o samba a uma posição de “retrato do Brasil”. De fato, o samba nasceu aqui, mas é fruto de uma mistura, não de uma identidade. O que é único, uniforme, no Brasil? Apenas a língua. Religiões, etnias, costumes e tantos outros apresentam grande multiplicidade. A identidade, para ser percebida, precisa da homogeneidade, e o Brasil é heterogêneo. Hermano Vianna, em seu “O mistério do samba”, apresenta o samba como representação do mestiço - e não só do negro - da mistura que permeia o nacional. O marco desta mistura é, de acordo com ele, o encontro de figuras importantes e diferentes: o historiador Sérgio Buarque de Holanda, o jornalista Pedro Dantas Prudente de Moraes Neto e os compositores Heitor Villa-Lobos, Luciano Gallet, Patrício Teixeira, Donga e Pixinguinha. Do encontro das diferenças fez-se o samba.

“O encontro juntava, portanto, dois grupos bastante distintos da sociedade brasileira da época. De um lado, representantes da intelectualidade e da arte erudita, todos provenientes de ‘boas famílias brancas’ (...). Do outro lado, músicos negros ou mestiços, saídos das camadas mais pobres do Rio de Janeiro.”[1]

A mestiçagem, que era vista anteriormente como uma espécie de defeito, de impureza, apontada às vezes como a razão das deficiências, passou a ser o carimbo da originalidade cultural brasileira. A música, mais que a literatura ou as outras artes, tem papel importantíssimo nisto porque é ela a mais popular: uma pessoa pode não saber ler, mas pode ouvir uma canção e aprendê-la. O samba, que antes era perseguido por ser “música de malandro”, um “ritmo maldito”, caiu no gosto do povo, em todas as camadas. Seja o samba-canção, o samba-choro, o samba de roda, o samba de carnaval, ele - o samba - está presente em todo o Brasil, em todas as classes.

Hermano Vianna propõe que a transformação do samba em música nacional foi, na verdade, uma sucessão de contatos, ou encontros, entre “grupos sociais na tentativa de inventar a identidade e a cultura popular brasileiras” [2]. A chamada identidade brasileira deve ser entendida a partir do signo da liberdade, ou seja, da possibilidade de encontros, e não do signo do poder, da hierarquia social.

 

“THE BOOM”, O JAPÃO E O SAMBA

O grupo musical japonês “The Boom” começou sua carreira com o CD “A Peacetime Boom” em 1989. Os integrantes do grupo são Miyazawa Kazufumi(vocal, percussão, violão), Kobayashi Takashi (guitarra, vocal, cavaquinho, percussão), Yamakawa Hiromasa(baixo, violão, percussão, vocal) e Tochigui Takao(bateria, percussão, vocal). É lógico que eles contam com outros músicos, apesar de os integrantes serem todos hábeis em mais de um instrumento musical. Todos eles são percussionistas, o que é de extrema valia para um grupo que pretende explorar os diferentes ritmos e sons de outras partes do mundo.

O CD Kyokutoo samba (“Samba do extremo oriente”), que contém a canção Kaze ni naritai, foi gravado em 1993 e lançado no Brasil em 1996. Kaze ni naritai é um samba de escola, um samba de carnaval. Nesta faixa, “The Boom” conta com a participação especial da União dos Amadores, uma vez que para se ter um samba deste tipo é preciso mais que meia dúzia de percussionistas: é preciso uma bateria de escola de samba! O cavaquinho de Kagami Jun, outra participação especial, faz a introdução da música, pois geralmente é o cavaquinho que “puxa” o samba no Carnaval.

Em entrevista recente, concedida à revista “Made in Japan”, o vocalista Miyazawa Kazufumi contou que faz canções baseadas em suas raízes orientais, mas que continua fascinado pelo Brasil. Ao ser perguntado a respeito de sua relação com o país, o público e a cultura brasileira, ele respondeu o seguinte:

“O que me atrai no Brasil é que o Brasil é um país impossível de ser definido em uma palavra. Muitas culturas de pessoas que vieram de diferentes lugares estão misturadas, e é por isso que eu sinto que há, para mim, uma possibilidade não aparente de desejar confrontar isso tudo com minha cultura, a música japonesa. Outra coisa é que a importância da música em suas vidas cotidianas é muito grande. Isso é muito atraente.[3]

O fato de Kazufumi reconhecer esta diversidade brasileira e querer interagir com ela nos mostra duas coisas: 1) o Brasil é tão diverso, ou diversificado, que sempre há espaço para mais alguma novidade, alguma diferença; 2) a cultura japonesa, baseada nas tradições e nos costumes milenares, é algo bem homogêneo que, apesar disso, pode casar bem com a heterogeneidade do Brasil.

O Japão, aliás, esteve durante muito tempo fechado ao contato com o ocidente, situação que só seria modificada radicalmente a partir da era Meiji. A ocidentalização forçada pelo Imperador Meiji vem de uma desvalorização do que é próprio e do enaltecimento do que é do outro - o que é igualmente nocivo a renegar o outro e admitir o seu paradigma como o único possível. Renegar as tradições e o passado histórico, ainda mais tratando-se de um país tão rico nestes dois aspectos como o Japão, foi um grande erro, apesar da indiscutível importância da Restauração Meiji. Ainda hoje os japoneses são seduzidos pela heterogeneidade: em Tóquio, podemos ver com freqüência jovens com seus cabelos pintados de amarelo, azul-turquesa, roxo, vermelho, ou tranças rastafári. Os menos radicais usam tons de castanho e loiro em vez de preto, usam lentes de contato coloridas, fazem permanente para frisar os cabelos lisos por natureza. A variedade atrai. Na música não poderia ser diferente.

A busca do diferente hoje não interfere, contudo, na busca das tradições, que de uma certa maneira foram postas de lado durante o período Meiji, em que ser ocidental - ou ocidentalizado - era estar entre os primeiros, era acompanhar o progresso. A terceira maior potência mundial - logo após Estados Unidos e Alemanha - sobreviveu às bombas atômicas e, apesar do território dividido em ilhas e dos terremotos, desenvolveu-se mais que outros países que não possuem os mesmos tipos de dificuldades. O sentimento patriótico surgiu novamente. A homogeneidade japonesa convive com a heterogeneidade. No dizer de Hermano Vianna, “as relações com o Outro não são necessariamente antagônicas” [4]. De fato, a homogeneidade é questionável à medida que não há um povo completamente original.

 

“QUERO SER COMO O VENTO”

A letra da canção Kaze ni naritai é simples, com algumas repetições, o que facilita a sua memorização - para quem conhece a língua japonesa, obviamente. Seu vocabulário não é rebuscado e a sonoridade da língua, cheia de vogais, acrescenta à sonoridade da canção.

Vejamos a seguir a letra e sua tradução.

KAZE NI NARITAI

Ooki na ho wo tatete anata no te wo hiite
Are kuruu nami ni momare ima sugu kaze ni naritai
Tengoku janakutemo rakuen janakutemo
Anata ni aeta shiawase kanjite kaze ni naritai
Nani hitotsu ii koto nakatta kono machi ni
Shizumi yuku taiyoo oiokoshitemitai
Umaretekita koto wo shiawase ni kanjiru
Kakko warukutatte ii anata to kaze ni naritai
Nani hitotsu ii koto nakatta kono machi ni
Namida furasu kumo wo tsukinukete mitai
Tengoku janakutemo rakuen janakutemo
Anata no te no nukumori wo kanjite kaze ni naritai
Tengoku janakutemo rakuen janakutemo
Anata ni aeta shiawase kanjite kaze ni naritai

Tradução: Quero ser como o vento

“Abro a grande vela do barco, puxo a tua mão,
Somos impelidos pelas ondas agitadas:
Imediatamente, quero ser como o vento.
Não é o céu, não é o paraíso,
Mas, quando sinto a felicidade de ter encontrado você,
Quero ser como o vento.
Não havia ainda uma coisa boa nesta cidade,
Parece que o sol, que vai afundando, está correndo mais;
Eu me sinto feliz por ter nascido!
Tudo bem se eu sou desajeitado;
Com você, quero ser como o vento.
Não havia ainda uma coisa boa nesta cidade
Parece que uma nuvem, derramando lágrimas, abre caminho
Não é o céu, não é o paraíso,
Quando sinto o calor da tua mão, quero ser como o vento
Não é o céu, não é o paraíso,
Mas, quando sinto a felicidade de ter encontrado você,
Quero ser como o vento.”

A simplicidade da vida, expressa através da simples gratidão por ter nascido e do prazer no simples fato de estar em companhia da pessoa amada, é tema adequado ao samba. A liberdade contida no desejo de ser como o vento é superior aos problemas que possam aparecer. É uma canção alegre (“quando sinto a felicidade de ter encontrado você”/ “Eu me sinto feliz por ter nascido”), de celebração, de contemplação (“Parece que o sol, que vai afundando, está correndo mais”/ “Parece que uma nuvem derramando lágrimas abre caminho”).

O vento, o sol e o mar são elementos que se encaixam tanto no cenário insular do Japão quanto no litoral do Rio de Janeiro. Eles são, sem dúvida, traços identificadores, pontes entre dois universos distantes e distintos. O mar em calmaria, agitado apenas por vento propício, opõe-se à figura do mar em tempestade, representativa dos conflitos e problemas. Só o que importa é a felicidade - comparada aqui à idéia de paraíso.

Os sambas-enredo, geralmente, possuem esta peculiaridade: dificilmente se nota uma conotação de protesto ou uma mensagem mais elaborada, a não ser quando se trata de um samba-enredo com um tema de cunho histórico, e mesmo assim a narração do fato histórico vem acompanhada de um tom de celebração característico. Este tom é potencialmente atrativo para qualquer homem ou mulher, de qualquer cultura, porque reside na homogeneidade (o que identifica os seres humanos) da heterogeneidade.

 

CONCLUSÃO

Por ter sido o samba inventado como música nacional através de um processo que envolveu grupos sociais diferentes, está, segundo Hermano Vianna, sob o paradigma da mestiçagem. Está marcado pela mistura. Por isso, em sua riqueza, alguma coisa há que possa ser integrada mesmo a uma cultura considerada muito diferente.

A canção Kaze ni naritai é o encontro do samba brasileiro com a língua japonesa. Encontro inusitado? De fato. Mas é um encontro. E a própria natureza e origem do samba, um encontro de diferenças, permite este contato, mesmo que ele parecesse antes improvável. “Quero ser como o vento” - um vento que sopra em toda a face da terra, que traz coisas de um extremo a outro, que proporciona a liberdade de encontrar-se e reencontrar-se.

 

Notas:

[1] VIANNA, 1995: 21.

[2] VIANNA, 1995: 34.

[3] http://www.madeinjapan.com.br/site_made_novo/japao_no_brasil3286.shtml

[4] VIANNA, 1995: 167.

 

Bibliografia:

VIANNA, Hermano. O mistério do samba. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora/ Editora UFRJ, 1995.

Sites:

http://www.five-d.co.jp/boom/es

http://www.madeinjapan.com.br/site_made_novo/japao_no_brasil3286.shtml

 

© Michele Eduarda Brasil de Sá 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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