De areia e de silício: as tramas do discurso no livro eletrônico

Lucília Maria Sousa Romão

Universidade de São Paulo (Brasil)


 

   
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RESUMO:
Esse trabalho discute o conceito de hipertexto e rede eletrônica a partir de um conto de Jorge Luis Borges, cujo título é “O livro de areia”. Com base no enredo e nas suas possibilidades de leitura, pretendo investigar a topologia do pergaminho eletrônico, marcando o movimento do sujeito no entre-links e no entre-meio dos nós que compõem a internet. Apoiada no referencial da Análise do Discurso de filiação francesa, mobilizo os conceitos de arquivo, memória e historicidade para analisar que a rede não é acessível a todos nem neutra nos temas e textos disponibilizados, mas trata-se de uma construção de campos de documentos selecionados e ideologicamente marcados.
PALAVRAS-CHAVE:
Borges, Internet, hipertexto, discurso, sujeito, sentido.

ABSTRACT:
That work discusses the hipertext concept and electronic net starting from a story of Jorge Luis Borges, whose title is "O livro de areia". With base in the plot and in their reading possibilities, I intend to investigate the topology of the electronic parchment, marking the subject's movement in the among-links and in the among-middle of the knots that compose the internet. Leaning in the referencial of the Analysis of the Speech of French filiation, I mobilize the file concepts, memory and historicity to analyze that the net is not accessible to all nor neutral in the themes and made available texts, but it is treated of a construction of fields of selected documents and marked ideologicament.
KEYWORDS: Borges, Internet, hipertext, speech, subject, sense.

 

Disse-me que seu livro se chamava Livro de Areia, porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim.” Borges

 

I - A narrativa de Borges: páginas de areia

Trata-se de um livro inquietante, que atormenta do início ao final, como a maioria dos contos de Jorge Luis Borges. A densidade com que personagens são modelados, o absurdo do enredo e o inusitado da situação que cresce cada vez mais intensamente trançam uma teia de possibilidades de leitura e um emaranhado de efeitos, dos quais o leitor não sai imune. No caso desse trabalho, pretendo apresentar alguns recortes do conto “O livro de areia” para, nas próximas sessões, costurá-los à noção de hipertexto e de discurso.

A narrativa começa com uma formulação que define algo, ainda não nomeado pelo autor e, portanto, desconhecido. Sabe-se apenas que o primeiro parágrafo instala um discurso com efeito científico e descritivo como se fosse necessário, primeiramente, observar as partes de um objeto para atribuir credibilidade ao relato, mesmo antes de iniciar as tramas do enredo. Assim, faz-se necessário marcar a verdade de tudo o que será contado, verdade assumida não como pretexto de toda ficção, mas reiterada como marca desse conto, desse caso, desse livro que curiosamente é feito do mesmo material movediço que a areia:

“A linha consta de um número infinito de pontos: o plano, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de planos; o hipervolume, de um número infinito de volumes... Não, decididamente não é este, more geométrico, o melhor modo de iniciar o meu relato. Afirmar que é verídico é, agora, uma convenção de todo fantástico; o meu, no entanto, é verídico.” Borges, 1975: 79)

Em seguida, o personagem narrador desfia o seu rosário de pequenas doses de descrição, compondo, aos poucos, um quadro auto-descritivo em que ele se apresenta como um homem só, sensível, solitário e apaixonado pelos livros. Como fiel colecionador de obras raras, ele se interessa por comprar um livro de um homem, que bate à porta de sua casa e se anuncia como vendedor de bíblias:

“Não vendo apenas bíblias. Posso mostrar-lhe um livro sagrado que talvez lhe interesse. Eu o adquiri nos confins de Bikanir. Adquiri-o em um povoado da planície, em troca de algumas rúpias e da Bíblia. Seu possuidor não sabia ler. Suspeito que no Livro dos Livros viu um amuleto. Era da casta mais baixa; as pessoas não podiam pisar sua sombra, sem contaminação. Disse-me que seu livro se chamava Livro de Areia, porque nem o livro nem a areia tem princípio ou fim. ” (op.cit: 80).

O rápido diálogo, econômico nas frases e seco nas respostas, é o suficiente para que cresça no narrador o desejo de explorar o livro, tocando-o e manuseando suas partes. Vai o narrador tateá-lo em um rápido exame da capa, de algumas páginas, ilustrações de âncora, o dorso, levantando algumas perguntas e hipóteses sobre aquela escrita e buscando, na rede da memória, formas de significar o que vê. Quando a ilustração é tateada pelo narrador, ocorre um fato curioso dado pela voz do desconhecido, como uma ameaça ou um alerta de algo inevitável: “Olhe-a bem, nunca mais a verá”. Daí por diante inicia-se um redemoinho de deslocamentos, apagamentos e mudanças:

“Havia uma ameaça na afirmação, mas não na voz. Fixei o lugar e fechei o volume. Imediatamente o abri. Em vão procurei a figura da âncora, folha por folha.” (op.cit.: 80)

O desconhecido pede, então que o narrador procure a primeira folha e o final da obra: “Tudo foi inútil: sempre se interpunham várias folhas entre a portada e a mão. Era como se brotassem do livro (...) também fracassei; mal consegui balbuciar com uma voz que não era a minha: Isso não pode ser.” (op.cit: 80/81).

O conflito absurdo é lançado logo na segunda página da narrativa: um livro com estranhas particularidades guarda em si uma estrutura sem início nem final, tem partes que aparecem e somem ao sabor de cada abertura, torna-se movediço a ponto de afogar todo o saber já sedimentado pelo narrador. A sentença dessa particularidade é dada pelo desconhecido com a maior tranqüilidade:

“Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última. Não sei por que estão numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número (...) Se o espaço é infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo é infinito, estamos em qualquer ponto do tempo.” (op.cit.: 81)

A negociação do valor da compra do “livro diabólico” durou pouco. Duas trocas de turnos foram o suficiente para que, por uma parte da aposentadoria e um exemplar da Bíblia de Wiclif, o acordo estivesse fechado. De posse do “livro impossível”, o narrador tenta buscar um lugar na estante para assentar essa obra tão diferente, esconde-o “atrás de alguns volumes desemparelhados de As mil e uma noites”. Interessante essa escolha, posto que, na obra árabe, seres mágicos, dramas fantásticos e histórias absurdas se enovelam em uma só trança. Nem mesmo tal esconderijo não garante que o narrador se aquiete, visto que ele se atormenta com os sentidos desconhecidos que tal livro abre dentro dele mesmo:

“Deitei-me e não dormi. Às três ou quatro horas da manhã, acendi a luz. Procurei o livro impossível e virei suas folhas. Em uma delas vi gravada uma máscara (...) Não mostrei a ninguém meu tesouro. À alegria de possuí-lo acrescentou-se o temor de que o roubassem e, depois, o receio de que não fosse verdadeiramente infinito.” (op.cit.: 82)

Diante dos efeitos de enigma, mistério, tormenta e alvoroço que o livro desperta no narrador, ele se transforma em “Prisioneiro do Livro”, escrito assim com letra maiúscula. Cativo de um objeto movediço, cuja particularidade é justamente romper com a estrutura de livro, escrita e autoria como o narrador estava acostumado a lidar:

“À noite, nos escassos intervalos que me concedia a insônia, sonhava com o livro”. (...) Compreendi que o livro era monstruoso. De nada serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com os olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade.” (op.cit.:82)

O Livro de Areia torna-se cada vez mais terrível, porque apresenta uma estrutura não apenas inédita, mas, principalmente, fora do controle que não cabe nas regras dos impressos até então conhecidos pelo narrador e, assim, não replica, na teia da memória, sentidos familiares. A metáfora de um objeto desobediente, indomável e perigoso é tecida, visto que ele é instalador de uma outra forma de se constituir como livro, montador de quadros sempre fugidios e nunca iguais e, por fim, arquiteto de inúmeros temas, figuras, imagens e assuntos sempre outros, mutantes e novos. Não há possibilidade de documentação ou registro que seja coincidente em duas aberturas da mesma página do livro: letras somem, deslocam-se e são mudadas a todo instante.

A conexão entre elas é tênue e dura o instante de abrir e fechar a página, algo que, na ficção, combina com o desespero de um personagem, que, mesmo sendo grande sabedor dos livros impressos, sente a angústia e o desespero de não dominar os capítulos, orelhas, páginas, lombada, folha de rosto e rodapés do corpo do referido objeto. Da ficção do conto à textualidade na rede eletrônica, as páginas do Livro de Areia e o pergaminho eletrônico parecem dialogar, marcadas pela genialidade de um autor que anuncia, com sua refinada sensibilidade, o desenho movediço de grãos de areia e silício e, desse modo, antecipa, na ficção, algumas das tormentas e fascínios trazidos pela rede eletrônica.

 

II - O hipertexto: páginas de silício

Da mesma forma que as páginas do Livro de Areia não obedecem à regularidade e linearidade da escrita dos impressos, também o hipertexto pode ser definido como uma organização multilinear de textos, documentos, livros, ícones e arquivos, que guardam dentro de si outros textos, documentos, livros, ícones e arquivos. Segundo Snyder (1998;126):

“Hipertexto é um médium de informação que existe apenas on-line num computador. É uma estrutura composta de blocos de texto conectados por links eletrônicos que oferecem diferentes caminhos para os usuários. O hipertexto providencia um meio de arranjar a informação numa maneira não-linear tendo o computador como o automatizador das ligações de uma peça de informação com outra.”

Assim, a inovação do hipertexto reside justamente no fato de ele se caracterizar como “(...) um processo de escritura/leitura eletrônica multilinearizado, multiseqüencial e indeterminado, realizado em um novo espaço.” (Marcuschi, 1999: 21/22). Dito de outra forma, trata-se de um documento que pode ser lido de qualquer ponto, acessado do início para o final e/ou do final para o início, vasculhado a partir de outro rastreamento que não aquele que levava em conta o início, meio e final com a leitura iniciada sempre pelo lado esquerdo e com o dedo deslizando em direção à direita e à linha debaixo.

Tampouco pode-se movimentar as páginas com um pouquinho de saliva colada no dedo no rodapé da página, visto que as páginas não podem ser viradas, mas organizam-se ao modo de um pergaminho, agora eletrônico, emendadas em uma topologia vertical de links ou pontos de conexão que suportam navegação em diferentes direções. E também abarcam a possibilidade da interferência do leitor no ato de montar/desmontar o texto, como Chartier (2002:25) afirma:

“O texto eletrônico (...) é móvel, maleável, aberto. O leitor pode intervir em seu próprio conteúdo e não somente nos espaços deixados em branco pela composição tipográfica. Pode deslocar, recortar, estender, recompor as unidades textuais das quais se apodera.”

Os nexos não se estabelecem mais com uma estrutura fixa dada pela página, prólogo, capítulo, sessão, prefácio, conclusão etc, mas são móveis e os elos conectores entre-páginas e entre-links se dão no entre-ícones e entre-palavras de modo tão volátil e fugidio que me leva a tomar emprestadas as palavras de Eco (2003: 4):

“(...) O produto da máquina não é mais linear: é uma explosão de fogos de artifício semióticos. Seu modelo é menos uma linha reta do que uma verdadeira galáxia, onde todos podem captar nexos inesperados entre estrelas diferentes para formar uma nova imagem celestial em qualquer novo ponto de navegação (...) um texto hipertextual é uma rede multidimensional ou um labirinto em que cada ponto ou nó pode ser potencialmente ligado a qualquer outro nó.”

Não sem razão essa nova topologia de conexões pode nos remeter à mesma reação do personagem de Borges: a rede pode ser tratada como um livro de areia, feito por inúmeros grãos de infinitas conexões com imprevisíveis deslocamentos de páginas e links, aparentemente sem início ou final definidos, apenas marcada pelo gesto do personagem de abrir e fechar o livro. Nesse caso, sem outro início ou fim que não o ato de conectar-se a ou desligar da www. Tal qual o personagem, a cada nova abertura de páginas, o que estava impresso se modifica, transforma, muda, desaparece ou é recriado de modo outro, engendrando, assim, uma con-fusão de vozes, imagens e dizeres. Algo incontrolável, que não conserva o poder de voltar à página de um livro e encontrar nela, de modo inalterável, o mesmo personagem no mesmo conto na mesma página, que ora foi marcada com uma folha seca. Na rede, tal poder desaparece: páginas simplesmente somem sem deixar outro vestígio que não a mensagem de “essa página não pode ser encontrada”. O vazio e o apagamento são curiosamente instantâneos.

Tal possibilidade é garantida pelo fato de que o hipertexto é organizado de modo fractal, constituído por links voláteis que encerram em si uma rede inteira e que podem estar on-line ou sair da rede em segundos:

“Tecnicamente um hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas, imagens gráficos ou partes de gráficos, seqüências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser hipertextos. Os itens de comunicação não são ligados linearmente, como em uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria, estende suas conexões em estrela, de modo reticular. Navegar em um hipertexto significa portanto desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão complicada quanto possível. Porque casa nó pode, por sua vez, conter uma rede inteira.” (Lévy, 1993:33)

Enfim, a constatação de ser uma rede toda, em apenas um nó, é inquietante e rompe com a linearização da escrita, fazendo retornar, uma vez mais, o conflito vivido pelo personagem de J.L.Borges, agudizado aqui pela conjuntura que “nos tem imposto um formato de texto sobre o qual os discursos doravante deverão se (hiper)textualizar” (Xavier, 2004:170). Na rede eletrônica, link por link é tecido o desenho mágico de vários livros de areia, que instalam discursos e inscrevem sujeitos, fazendo falar sentidos.

 

III. O discurso: páginas do sujeito

A tarefa de observar discursivamente a textualidade eletrônica tem, como partida teórica, textos de Pêcheux (1969) e, especialmente um deles (1997) em que o fundador da Análise do Discurso francesa discute a questão da constituição e a leitura dos arquivos, bancos de dados impressos ou eletrônicos, buscando enxergá-los a partir do viés político e da injunção ideológica do dizer, que possibilita a emergência e a circulação de certos documentos em detrimento de outros e , assim inscreve autorizações e interdições de sentido no plano imaginário.

“(...) há, entretanto, fortes razões para se pensar que os conflitos explícitos remetem em surdina a clivagens subterrâneas entre maneiras diferentes, ou mesmo contraditórias, de ler o arquivo hoje (entendido no sentido amplo de ‘campo de documentos pertinentes e disponíveis sobre uma questão’).” (op.cit.:57)

Considera o autor que “por tradição, os profissionais da leitura de arquivos são ‘literatos’ (historiadores, filósofos, pessoas das letras) que têm o hábito de contornar a própria questão da leitura regulando-a num ímpeto, porque praticam cada um deles sua própria leitura (singular e solitária) construindo o seu mundo de arquivos.” (op.cit:56). Assim está definido um jogo de poder em que alguns têm acesso ao gesto de leitura e interpretação, visto que dominam o arquivo, enquanto outros estão autorizados a repeti-los. No caso da internet, “o campo de documentos pertinentes e disponíveis sobre uma questão” é uma construção que dialoga com prática organizativa, memória autorizada a circular, representação de poder e seleção de informações possíveis e passíveis de serem conhecidas e reconhecidas. Sobre isso, Pêcheux (op.cit.: 57) afirma:

“A outra vertente da leitura do arquivo - sem a qual a primeira não existiria provavelmente como tal - tem aderências históricas completamente diferentes: trata-se deste enorme trabalho anônimo, fastidioso mas necessário, através do qual os aparelhos de poder de nossas sociedades gerem a memória coletiva. Desde a Idade Média a divisão começou no meio dos clérigos, entre alguns deles, autorizados a ler, a falar e escrever em seus nomes (logo, portadores de uma leitura e de uma obra própria) e o conjunto de todos os outros, cujos gestos incansavelmente repetidos (de cópia, transcrição, extração, classificação, indexação, codificação etc) constituem também uma leitura, mas uma leitura impondo ao sujeito-leitor seu apagamento atrás da instituição que o emprega (...)”

Essa divisão, entre aqueles que estão autorizados a ler e escrever em seu nome e os que não podem ocupar essa posição, aparece re-configurada no livro eletrônico. Há também, em relação à internet, esses lugares marcados imaginariamente em que alguns criam espaços para instalar sua voz, seus ditos e suas leituras, em blogs, listas de discussão, homepages, páginas eletrônicas etc, e outros apenas acessam-nas; em que alguns podem entrar em determinados arquivos eletronicamente organizados, porque são pagantes, e outros ficam do lado de fora, visto que não possuem cartão nem crédito; em que certos navegadores conseguem fazer valer a máxima de que a rede eletrônica permite o deslocamento pela aldeia planetária e a submersão em culturas outras, escrevendo e lendo em língua estrangeira, e outros não conhecem a língua materna e as mínimas noções de informática, ficando fora do circuito de conexões. Melhor dizendo: estar diante de arquivos eletrônicos, ler o livro de silício, ter acesso à escrita do livro de areia e compreender os sentidos instalados nos documentos eletrônicos não são tarefas acessíveis a todos os habitantes do século XXI, visto que os poderes e saberes não são distribuídos de maneira homogênea na sociedade atual e, assim, os sujeitos do discurso fazem falar posições marcadas pela desigualdade e afetadas por diferentes acessos ao poder, saber e dizer.

É relevante a atualidade das formulações de Pêcheux (1997: 57), pois ele marca que os arquivos reclamam permanentemente uma reflexão sobre a memória histórica e sobre a memória do dizer:

“marcar e reconhecer as evidências práticas que organizam estas leituras, mergulhando a ‘leitura literal’ (...) numa ‘leitura interpretativa’- que já é uma escritura. Assim começaria a se constituir um espaço polêmico das maneiras de ler, uma descrição do ‘trabalho do arquivo enquanto relação do arquivo com ele-mesmo, em uma série de conjunturas, trabalho com a memória histórica em perpétuo confronto com consigo mesma.”

Esse jogo de embate e confrontação da memória sobre si mesma ganha evidência na materialidade lingüística e se enriquece, se tomarmos o conceito de paráfrase, um dos modos de constituição da linguagem, definida como repetição do que está legitimado e cristalizado pelo arquivo constituído por/em alguma esfera de poder, fazendo parecer natural e evidente (efeito ideológico) que certos sentidos retornem, materializem-se ou circulem de certo modo e não de outro. Mais: o risco de que esses sentidos passem a ser vistos como os únicos possíveis, apagando outras possibilidades de leitura e outros efeitos de escrita, e, assim, tendam a retornar do mesmo modo como se fossem universais, objetivos e a pura expressão da realidade. O jogo polissêmico, por sua vez, promove a emergência do novo, do outro e do diferente, instalando sentidos que quebram a previsibilidade da ordem de sentidos dominantes e brocam o que já está cristalizado como verdade.

A topologia da rede eletrônica, com suas múltiplas entradas e portes se abrindo e fechando o tempo todo, somada à ausência de um centro controlador dos atos de linguagem dialoga com os sentidos plurais e imprevisíveis. É por isso mesmo estão em movimento páginas eletrônicas com temas e efeitos políticos de reivindicação e denúncia e, ao mesmo tempo, também circulam outras páginas em que os sentidos de extermínio e intolerância são materializados. Se por um lado, a diversidade é indiciada na rede com listas e endereços para todos os gostos e tendências, também vale registrar o perigo do apagamento das condições de produção do dizer.

“Nesta medida, o risco é simplesmente o de um policiamento dos enunciados, de uma normatização asséptica da leitura e dos pensamentos, e de um apagamento seletivo da memória histórica: ‘ quando se quer liquidar os povos’, escreve Milan Kundera, ‘se começa a lhes roubar a memória’ “. (op.cit:60)

Na rede eletrônica, as páginas do livro de silício podem ser vistas como arquivos demarcados ideologicamente, nos quais sujeitos inscrevem sentidos, representam-se imaginariamente, ocupam certas posições e fazem falar ditos, que não são naturais nem evidentes. No entre-meio dos links, a ordem da língua e a ordem da história reclamam o tempo todo que a linguagem seja significada a partir do que não está na tela, mas do que a memória histórica e a memória do dizer cavaram em outros locais, em outros atos de dizer e em outras inscrições sociais dos significantes. No con-curso dos sites, há alterações permanentes de ícones, imagens e textos, o que provoca o assombro do personagem da narrativa de Borges, fazendo emergir o que, para ele, assemelha-se a algo satânico, monstruoso e merecedor de clausura. Se se pode dizer que o personagem da ficção foi feliz em seu intento, enterrando o livro para sempre em um lugar insondável, “uma das úmidas prateleiras” do porão, o mesmo não ocorre em relação à rede eletrônica.

O livro de silício não pode ser trancado, pois não existem prateleiras nem porões e nem umidade reais que o detenham. Ele constitui-se como tessitura de vozes heterogêneas, como jogos discursivos de repetição e ruptura de sentidos, como trança da memória sobre os fios de si mesma e, por fim, como arquivo capaz de fazer falar ou calar o político na linguagem.

 

Referências bibliográficas:

Borges, Jorge Luis. 1975. O livro de Areia. In: Obras completas, Tomo III. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2000.

Chartier, Roger. 2002. Os desafios da escrita. São Paulo: Editora da UNESP.

Eco, Umberto. 2003. Muito além da internet. Caderno Mais, Folha de São Paulo, São Paulo, 14/12/2003.

Lévy, Pierre. 1993. As tecnologias da inteligência- o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34.

Marcuschi, Luiz Antônio. 1999. Linearização, cogniç ão e referência: o desafio do hipertexto. In: Línguas e Instrumentos Lingüísticos. 3. Campinas: Editora Pontes.

PÊCHEUX, Michel. (1969). Semântica e discurso- uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp.

PÊCHEUX, Michel. Ler o arquivo hoje. IN: Gestos de leitura, Orlandi, Eni. (org) Campinas: Editora da Unicamp, 1982.

Snyder, Ilana (ed.). 1998. Page to Screen- Taking LiteracyIinto the Electronic Era. London and New York: Routledge.

Xavier, Antônio Carlos. (2004) Leitura, texto e hipertexto (pp170- 180). In: Hipertexto e gêneros digitais. Org: Marcuschi, Luiz Antônio e Xavier, Antônio Carlos. Rio de Janeiro: Editora Lucerna.

 

Lucília Maria Sousa Romão. Professora Doutora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, pesquisadora do CNPQ.

 

© Lucília Maria Sousa Romão 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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