A parole do telejornalismo brasileiro [1]

Luís Carlos Lopes

Universidade Federal Fluminense (Niterói, Rio de Janeiro)
lclopes@alternex.com.br


 

   
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Resumo
   No Brasil, os telejornais acompanham os três turnos básicos da programação de maior audiência, manhã, tarde e noite, variando em horário, tempo de duração e público-alvo. Há diferenças entre os telejornais, mas existem também muitas semelhanças nos seguintes itens: pautas escolhidas, no sentido do acompanhamento dos mesmos assuntos ou de temas similares; modos codificados de abordar problemas nacionais e internacionais; imagens exibidas, com elevado grau de equivalência; personas comentadas e entrevistadas; gestual de exibição dos ‘âncoras’; dentre outros.
   A pesquisa sobre este tema tem indicado que o telejornalismo é uma das facetas da parole (no sentido de substância básica da comunicação, atribuído por P. Breton) televisiva brasileira, contendo a maior parte dos elementos de conjunto da mesma. Portanto, ao ver os telejornais, o grande público não estaria somente recebendo informações. Os televidentes estariam interagindo com modos de ver a realidade circundante e com objetos mais distanciados de seu mundo imediato. Interessa compreender as características mais evidentes da parole televisiva brasileira. O estudo dos telejornais exibidos no país é bastante instigante e esclarecedor.
Palavras-chave: parole, televidentes, tele-audiência

Résumé
   Dans le Brésil, les téléjournaux accompagnent les trois parties de la programmation de grands auditoires, le matin, l’après-midi et le soir. Ils sont exhibés aux diverses horaires, temps de durée et publics cibles. Il y a différences parmi les téléjournaux, mais il y a aussi beaucoup des similitudes dans les suivants cas : les sujets choisis, dans le sens d’accompagnement des mêmes thèmes ou similaires ; les moyens codifiés d’abordage de problèmes nationaux et internationaux ; les images exhibées, avec remarquables degrés d’équivalence ; les personnes médiatiques commentés et objets d’interviews ; les gestes des responsables pour la locution ; et cetera...
   La recherche sur ce thème a indiqué qui le téléjournalisme est une des facettes de la parole (dans le sens de la substance basique de la communication, attribuée par P. Breton) télévisée brésilienne. Cette parole a la grande partie des éléments d’ensemble de la même. Donc, au remarquer les téléjournaux, les grands publics ne seraient pas en train de seule recevoir des informations. Les télévisions seraient en train d’interagir avec les façons de voir la réalité de proximité et les objets plus lointains de son monde. Il faut nécessaire comprendre les caractéristiques plus évidentes de la parole télévisée brésilienne et l’étude des téléjournaux du pays sont beaucoup importants dans ce sens.
Mots-clé: parole, téléspectateurs, télé-auditoire

 

1 - Introdução [2]

O telejornalismo percorreu a história da televisão brasileira nos últimos cinqüenta anos. Trata-se de um gênero de programa televisivo comum a todas as emissoras, seguindo regras de funcionamento similares quanto às faixas de horário, concomitantes e concorrentes; o público-alvo que se almeja alcançar; a seleção de temas a serem transformados em notícias e comentários; os formatos de locução, exibição e uso de imagens contemplando pequenas variações; à performance pessoal dos locutores, incluindo nesta classificação os ‘âncoras’ e os repórteres.

Sua história começa com a importação do modelo radiofônico, em que locutor falava rapidamente, com voz impostada, sobre os principais assuntos do dia, segundo os editores. Na fase que Umberto Eco chamou de paleotelevisão, que no Brasil corresponde à década de 1950 e ao início da de 1960, Heron Domingues e outros foram televisionados lendo as notícias, com a mesma velocidade e dramaticidade usadas nas transmissões radiofônicas.

Com o passar do tempo, este modelo foi sendo gradativamente substituído por uma performance mais lenta, pausada e circunstanciada. Cada vez mais as imagens foram valorizadas e o locutor, foco das atenções. Enquadrado pela câmera, parece simular, por meio de olhares que buscam a cumplicidade do televidente, como em uma conversa pessoal. Inúmeras mudanças tecnológicas contribuíram para que se criasse a moderna linguagem televisiva neste e nos demais campos de sua atuação e aplicação.

Nos telejornais, a existência do teleprompter, do uso das cores, das redes nacionais e internacionais, das imagens registradas em vídeo abriram novas possibilidades de comunicação. Os microfones foram diminuindo de tamanho e aumentando de potência. São, atualmente, quase imperceptíveis. Diversos aparelhos, hoje digitais, controlam sons e imagens, usando-se alta tecnologia. Os papéis de leitura, bem-arrumados na bancada posta à frente do locutor, passaram a servir de apoio e de socorro em caso de falha no equipamento. Ao mesmo tempo, passaram a representar a seriedade da palavra escrita, disponível e acessável a qualquer tempo. Esse gênero da programação televisiva foi ganhando um perfil próprio, em diálogo com os seus congêneres pelo mundo afora.

A partir do fim da década de 1960, os telejornais incorporaram algo semelhante à voz em off dos documentários, assim como também as imagens e entrevistas gravadas e ao vivo. Progressivamente, a distância entre as imagens captadas em estúdio e as chamadas ‘externas’ e as vindas de outros países, originadas de agências, outras emissoras ou por sucursais foi se tornando tênue. A audiência passou a ter dificuldades para perceber as diferenças, quando não anunciadas pela locução. Os telejornais passaram a editar o material colhido em suas fontes diversificadas e incorporá-los às suas linhas editoriais.

Estes programas de televisão construíram linguagens modelares, passíveis de serem copiadas. Nestas, é possível perceber originalidades e os sinais da importação de modelos vindos de outros países, sobretudo dos EUA. O telejornalismo transformou-se em um dos gêneros mais universais da transmissão pública das informações. Não fez desaparecer os jornais escritos, mas modificou bastante suas características, assim como também a das revistas e com as transmissões radiofônicas. O telejornalismo integrou-se em um sistema de transmissão de mensagens, composto por inúmeros vasos intercomunicantes.

A última fronteira do telejornalismo parece ser a de conseguir se firmar ou se fundir no mais novo meio técnico de comunicação: a internet. Este meio tem características que tornam possível a transmissão dos telejornais e para além disso o desenvolvimento de modelos próprios de difusão, construídos a partir da experiência dos telejornais e a dos periódicos tradicionais.

Os jornais e revistas escritos e publicados de modo convencional estão também disponíveis na rede. Os telejornais já citam a internet, incitando o grande público a consumi-la. Na internet, a citação da programação televisiva, inclusive dos telejornais, é bastante usual. Têm aparecido artefatos jornalísticos próprios, tais como os blogs que parecem apontar para o futuro.

Não se pode esquecer de que a internet brasileira, apesar de já ser um fenômeno de massa, ainda está longe de ter percentuais de acesso que permitam substituições. Além do mais, este meio tem características próprias que não permitem crer que consista na mesma experiência humana ver as imagens, textos e sons na ‘mãe de todas as redes’ e a de ler um jornal em papel ou ver um telejornal convencional.

Os telejornais consistem em um dos artefatos básicos da programação televisiva do Brasil contemporâneo. As empresas de televisão investem muito neste segmento, que tem público garantido. Estes programas funcionam, igualmente, como uma espécie de canal que veicula os pontos de vista da empresa e dos grupos a que estão ligados. Aos televidentes cabe interagir com eles, negociando contratualmente os seus gostos e preferências.

A bibliografia de acesso público sobre o tema é rala, sendo um pouco mais desenvolvida nos trabalhos acadêmicos, para obtenção de títulos, e nos apresentados em eventos científicos [3]. Talvez a força social deste tipo de comunicação seja o suficiente para inibir maiores estudos sobre o tema. A idéia que a imprensa acalenta de portadora das ‘verdades’, por meio da alegada neutralidade, do julgamento imparcial e do rigor objetivo, repete-se no telejornalismo. Acredita-se que, de alguma forma, este ideário paralisa as tentativas de se retirar os véus que cobrem as faces dos artefatos criados para noticiar e comentar o que ocorre aqui e pelo mundo afora.

Este tipo de programa vem invadindo os demais, em um fenômeno que podemos chamar de paratelejornalismo, presente nos programas de auditório e, mais moderadamente, na ficção televisiva. Nos primeiros, é bastante comum a apresentação de matérias telejornalísticas e de entrevistas sobre temas da atualidade.

A busca do aumento da audiência, não estabelece limites para a espetacularização, tanto da vida privada, como da vida coletiva. Por efeito disto, uma das mais novas modalidades da programação televisiva consiste no colunismo social, especializado na difusão da vida privada das personas midiáticas e nos comentários de fatos e eventos bastante midiatizados.

Os programas de entrevista (talk-shows), de grande difusão no Brasil e no mundo, somam-se à idéia de informar o público a partir de fontes diretas. Fazem uma espécie de telejornalismo complementar, atuando no colunismo social, na promoção de eventos e no marketing de pessoas consideradas importantes no universo midiático nacional e internacional.

Os canais de televisão se autopromovem, assim como acertam estratégias comuns de venda dos seus produtos culturais. As mídias falam sobre as mídias em um círculo vicioso, na maioria das vezes, acrítico e benevolente. Estes fatos confirmam a existência das indústrias culturais e de seus produtos. Existem interesses que agregam empresas diversas e meios técnicos de comunicação diferentes. O cinema, a indústria fonográfica e o teatro, em situações bem conhecidas, beneficiam-se da visibilidade midiática operada pela televisão para vender amplamente suas mercadorias.

Enquanto gênero, os telejornais recebem influências dos programas de outros tipos. As notícias podem ser, por exemplo, teledramatizadas. Já existem programas telejornalísticos, como Linha Direta, que combinam a locução com a reprodução teledramatizada de crimes considerados de grande impacto social. A versão dada pela tv é absoluta e indiscutível, levando até à prisão de criminosos e ao seu julgamento televisivo.

Imagens da miséria e da extensa criminalidade que assolam o país são fartamente exibidas nos telejornais mais populares e regionalizados, apesar de veiculados nacionalmente, tal como o denominado Cidade Alerta. Estes programas lembram a imprensa em papel, popular, sanguinolenta, desejosa de mostrar o espetáculo de um ‘mundo cão’. As câmeras vão às comunidades faveladas, entrevistam pobres, policiais e foras da lei, estes devidamente presos e algemados. Os locutores falam de modo indignado, clamando por justiça e demonizando o crime e os problemas sociais. A comoção pública provocada parece funcionar como uma catarse das misérias humanas retratadas.

Esta modalidade de telejornal, de grande apelo popular, dramatiza a miséria e o crime. Os fenômenos sociais que abordam são tratados de modo bastante superficial. De qualquer modo, nestes programas, as imagens têm uma força imensa de chamar a atenção para os problemas da realidade objetiva brasileira. Saem do diapasão clean dos telejornais mais tradicionais, voltados para as classes médias, que tendem a fugir de qualquer referência mais profunda ao abismo social do país. Quando a miséria aparece nesse tipo de telejornal, sendo impossível escondê-la, faz-se o discurso paternal e populista. Os que precisam de ajuda, estão em situação de abandono e necessitam de socorro público e privado são, momentaneamente, lembrados. Tudo funciona como se uma dimensão do Brasil visitasse a outra, nas suas representações midiáticas.

Na última década, o crescimento da audiência dos programas que tratam da violência criminal terminou por influenciar o conjunto dos telejornais. Eles buscam diferenciar-se, considerando seu público-alvo, sem deixar de ‘espremer sangue’, falando do mesmo problema, embora, sem maior conseqüência política ou social transformadora. Clama-se pelo socorro das autoridades e pela melhoria da segurança de estado, incluindo o uso das forças armadas. Não se fala em política de emprego e muito menos em distribuição de renda.

Os demais programas televisivos podem pautar as edições, quando alcançam fatias maiores de púbicos e vivem momentos decisivos. A tv aberta pretende-se como o meio de comunicação mais informativo e educativo do país: para isto, necessita ‘informar’ e ‘educar’ nos mais diferentes nichos e oportunidades. Logo, o problema do telejornalismo não se circunscreve apenas aos telejornais. Está relacionado ao autoreconhecimento social e político do país. Vincula-se às nossas identidades e às diferentes concepções de mundo que permeiam o tecido social e a ação política de envergadura nacional e local.

Os parâmetros do estudo específico desses veículos não devem perder de vista a relação dos telejornais com os demais programas, apesar da especificidade dos mesmos. O discurso oficial sobre a televisão - sensos comuns acreditados por executivos, profissionais de nível técnico e pelo grande público - a divide entre a informação e o entretenimento (diversão). A tv aberta seria uma máquina que informaria e divertiria, estaria dividida entre a necessidade social contemporânea de saber o que se passa e a possibilidade de acessar meios para se alcançar prazeres e humores positivos. Têm-se muitas dúvidas e críticas sobre este modo de pensar.

A tv teria uma dualidade, servindo à organização e ao funcionamento do estado e da sociedade e, ao mesmo tempo, sendo útil ao gosto pessoal, por proporcionar prazeres mundanos. O ‘sagrado’ seria o que o poder social e político diriam na tv por meio de suas ‘falas do trono’, ‘consensos’ nacionais e internacionais e opiniões de líderes e pessoas que ocupariam cargos influentes ou possuiriam ‘fama’ creditada midiaticamente. O discenso, pouco presente, a não ser em momentos de crítica e ação social, serviria como contraponto legitimador da exuberância e grandeza do mesmo poder. Esta situação apareceria de modo invertido e desorganizado em alguns momentos muito especiais dos contextos nacionais e internacionais.

A multidão que forma a tele-audiência influiria nos formatos da tv aberta por meio dos processos de rejeição e de aceitação que caracterizam a complexa relação contratual entre os programas e seus públicos. Os telejornais, dentre as demais emissões, adequariam seus discursos às características de seus públicos-alvos, buscando convencê-los. O poder dos tele-audientes não seria ilimitado. As condições de influência dos receptores teriam padrões definidos e arbitrados pelo jogo social e político.

A voz dos telejornais não é isolada das vozes do resto da imprensa, das que circulam no entorno social e nem mesmo da que escutamos dentro de nós mesmos. As imagens que veiculam são, quase sempre, icônicas. A maioria delas já se conhece ou se pode facilmente reconhecer com ajuda da narração dos locutores. O passado e o presente fundem-se em cada telejornal, exigindo que o tele-audiente faça as ligações e reconstrua a cada dia suas relações com o mundo próximo e longínquo.

A imprensa escrita está estabelecida no Brasil, de modo mais ou menos regular, desde o tempo do Império. No século XX, com o aumento do número dos seus leitores, ela alcançou o status político de construtora das opiniões hegemônicas legitimadoras do estado e da ordem social. Através dela, houve espaço para a contestação e algumas mudanças. No pós-Guerra, a imprensa escrita brasileira alcançou a situação de imprensa de massa através das centenas de jornais, revistas e outros periódicos publicados. Reinou soberana, nesta posição, até o fim da década de 1960. Conviveu com o rádio sem maiores problemas Permanece viva, tendo que, atualmente, também dividir espaço com a televisão e a internet.

O amadurecimento técnico e comunicacional da televisão, progressivamente, vem diminuindo a anterior importância cêntrica da imprensa escrita e do rádio, na transmissão da notícia. Os telejornais são hoje a principal referência de massa para o que se considera mais significativo como notícia do ponto de vista nacional e internacional. A grande massa urbana acessa ao mundo pela televisão, filtrando-o com os seus conhecimentos anteriores, obtidos pela conversação e pelas demais mídias.

Os jornais escritos continuam sendo importantes do ponto de vista do público mais letrado e dos segmentos populares à busca de notícias locais mais precisas, consumíveis na leitura de um texto e no exame das fotografias publicadas. As revistas imitam a televisão, misturando imagens a textos sintéticos, exibidos em série, invertendo-se o que ocorreu na origem da relação entre ambas.

Os jornais cumprem extensa pauta de uma verdadeira agência de serviços noticiando, a busca e a oferta de empregos; produtos e serviços à venda, por meio de pequenos anúncios feitos por pessoas físicas e jurídicas; extensa publicidade do comércio e dos governos; a exploração do espetáculo da criminalidade e das formas mais leves e comerciais de pornografia, com maior força na imprensa mais popular; o que se passa pelo mundo e pelo país, de modo mais detalhado na imprensa de elite e mais sumário e objetivo nos demais jornais. Os jornais noticiam fartamente o que irá passar ou passou na tv, fechando o círculo da notícia e do entretenimento. Os telejornais são comumente objetos dos comentários e de outras menções nesses veículos.

As emissões radiofônicas conservaram-se como vozes da indústria fonográfica e das religiões de massa. Permaneceu um pequeno núcleo de radiojornalismo e de pararadiojornalismo, principalmente com a edição de programas de entrevistas. O diálogo entre a televisão e o rádio permanece constante, como na origem. A propalada rapidez de acesso do veículo manifesta-se em momentos de catástrofes e, por exemplo, no caos diário do trânsito urbano de todo o dia de trabalho e de alguns dias de lazer.

A investigação destes problemas implica compreender os telejornais como peças do mosaico da comunicação televisiva e desta com o processo comunicacional como um todo. Não se pode deixar de considerar a relação entre as comunicações feitas com o uso de máquinas e as realizadas pelas mídias humanas. Pesquisar isto se relaciona, também, com a existência de modelos usados pelas emissoras que disputam a audiência e a liderança no mercado publicitário. No Brasil, as cartas estão dadas. O mercado está dividido e hegemonizado. Isto, todavia, não impede que existam disputas e tentativas concorrenciais de modificar o status quo.

Rejeita-se, neste artigo, a palavra telespectador, por se acreditar que ela está carregada pela visão de um público passivo, que não interagiria com a televisão. Prefere-se o termo televidente ou tele-audiente e suas variáveis, por se compreender o público como um dos sujeitos sociohistóricos das emissões televisivas. Procura-se precisar os efeitos do telejornalismo sobre o público e os problemas sobre as reações do mesmo a este tipo de comunicação. O foco principal de análise é o dos programas transmitidos pela tv aberta.

 

2 - Os telejornais e seus modelos

A Rede Globo de Televisão, tendo a maior audiência do país, sobretudo em seus telejornais, vem servindo de modelo para as demais empresas. Em todos os casos, os telejornais das demais empresas surgiram ou se modificaram, nas últimas duas décadas, depois da experiência bem-sucedida da Tv Globo. O sucesso desta empresa é mensurável pelo imenso público que vê seus telejornais, sobretudo o Jornal Nacional (JN), campeão de audiência. [4]

Acredita-se que cerca de oitenta milhões de pessoas veriam o JN diariamente. Imprensado entre duas telenovelas, quase sempre de grande audiência, este programa acompanha o jantar ou o lanche noturno de milhões. Suas pautas galvanizam ou tentam galvanizar o interesse do grande público sobre assuntos díspares, referentes ao Brasil e ao exterior. Não se tem notícia de nada similar no mundo ocidental.

O JN representa um dos pontos de intersecção do telejornalismo da empresa, bem como do telejornalismo nacional e internacional. Também é possível ver nele as marcas do jornalismo impresso e do jornalismo radiofônico. É verdade que na era da transmissão on line, via satélite, cabo, telefonia e internet, as pautas da imprensa são muitas vezes definidas por agências internacionais de notícias, pelas emissoras e jornais mais estruturados economicamente, capazes de serem vistos em toda a parte.

No que se refere aos assuntos brasileiros, o telejornalismo da Globo influencia bastante as pautas do resto da imprensa, propagada pelos mais diversos meios técnicos. Mas, por vezes, determinado assunto ou enfoque aparece primeiro em outras televisões, no rádio, na internet ou na imprensa escrita tradicional. É nas emissões da Rede Globo que o assunto ganha maior destaque no país, devido ao tamanho de sua audiência. Por essas razões, o estudo dos modelos dos telejornais parte, necessariamente, do estudo dos modelos desenvolvidos pela mesma empresa, em contraposição ao que é feito nas demais mídias.

Os telejornais da Globo e das demais emissoras acompanham a escala humana de vida ativa. Começam por volta das sete horas da manhã e terminam no início da madrugada do dia seguinte. Isto se repete durante todos os dias úteis, modificando-se, apenas, no sábado e domingo. Os telejornais chegam com a luz do sol: dormem, quando o cansaço faz sucumbir ao leito a maioria dos mortais. Recomeçam no dia seguinte, coincidindo com o despertar de parcelas expressivas das classes médias. Os mais pobres acordam mais cedo. Apenas uma emissora, o SBT, tem um telejornal às seis horas da manhã. Os horários coincidem com os públicos-alvos. Os produtores dirigem seus artefatos as fatias de público dominantes em cada faixa de horário.

As emissoras de sinal aberto disputam a audiência no chamado horário nobre, entre 19 e 21 horas. Certamente, é neste horário que os brasileiros mais vêem os telejornais. Curiosamente, o Jornal Nacional, que começa às 20:15 horas, tem a duração média de apenas trinta minutos. Quase todos os outros são mais longos, em torno de uma hora. Começam um pouco antes ou depois do JN sair do ar. Os telejornais da Bandeirantes e da Record concorrem na faixa de horário do telejornal de maior audiência. O primeiro está acabando, quando este está começando. O segundo começa antes e acaba depois. Portanto, somente o da Record tem o destemor de concorrer diretamente com o JN.

Os brasileiros contam com uma média de duas a três horas de telejornais diários transmitidos pelas emissoras de sinal aberto em rede nacional. Se considerarmos as emissões locais, os ‘plantões’ especiais eventuais e o paratelejornalismo, dependendo do dia, a tv pode emitir mais do que seis horas de notícias, comentários e entrevistas. Os programas desportivos, também uma forma de telejornalismo, ocupam espaços consideráveis, sobretudo nos fins de semana. Na média, um terço da programação, entre as 7 e 24 horas dos dias úteis, seria do telejornalismo e do paratelejornalismo.

Os modelos brasileiros repetem os atuais modelos internacionais. Obviamente, o público pode ver um produto final local na tela de suas televisões. Não se pode esquecer que as imagens telejornalísticas têm um enquadramento dirigido. A tv mostra o que quer mostrar. Esconde ou omite o que não acha necessário ou considera feio e impróprio. As imagens exibidas podem ser on line ou pré-gravadas. Isto não é necessariamente revelado ao público. A edição, por meio da chamada direção de tv, exibe as tomadas que considera corretas. Há uma escolha, um olhar permeado pelas crenças dos responsáveis. Como se trata de um trabalho feito por pessoas, pode haver falhas e a tv, ocasionalmente, mostra o que não era para ser exibido.

Para fazer um telejornal é preciso ter uma bancada onde repousam os textos e por vezes um notebook. Esta bancada faz parte de um cenário que pode permanecer estável por vários anos, que inclui: a presença de assentos confortáveis e luxuosos; o uso de cores e a decoração do ambiente feita de modo clean; a visualização da presença ou não de monitores ou de uma redação com máquinas e pessoas; a presença das vinhetas de abertura, pausa e fechamento; as músicas incidentais, dando maior dramaticidade etc.

Há tentativas de abolir a bancada, de torná-la mais alta, mais baixa etc. Os estúdios variam, bem como a escolha da movelaria e da decoração. Entretanto, há sempre um lugar de onde os principais locutores dos telejornais falam. As bancadas continuam a existir, de modo imaginário, mesmo quando o jornal é falado de pé e os locutores se movimentam no cenário. Ele substitui as bancadas, tornando inócua a tentativa de aboli-la. As bancadas reais ou imaginárias separam os locutores da tele-audiência. Elas funcionam como uma espécie de altar profano de onde a ‘verdade’ é proferida para o consumo público. A importância da bancada é tão grande que quando alguém que não é locutor senta-se diante dela é porque foi objeto de deferência especial. O fato costuma ser lembrado e comentado principalmente nos telejornais da Rede Globo.

Os locutores são, mais recentemente chamados de ‘âncoras’ porque, como no exemplo norte-americano seriam também os editores das notícias. Na verdade, isto não se aplica a todos. Mas mesmo nos casos de editores que são também locutores, os telejornais saem de uma redação, isto é, são produtos coletivos: cabe aos locutores ler nos teleprompters os textos finais.

Personalizar, na figura do locutor, a responsabilidade pelo telejornal é um modo de dar ao programa a credibilidade alcançada por uma pessoa. A empresa, os anunciantes e a produção desaparecem. O responsável é o ‘âncora’ para o bem e para o mal. Por isto, a sua imagem pública precisa ser construída e reconstruída cotidianamente. É necessário que a tele-audiência não tenha qualquer dúvida sobre as virtudes morais e capacidade profissional destas vozes.

Os locutores brasileiros são, em maioria, do sexo masculino, na faixa entre 30 e 60 anos de idade. Hoje, a maioria tem o registro oficial da profissão de jornalista. Apenas uma emissora tem um telejornal no horário nobre comandado exclusivamente por mulheres: o SBT. Nele, a apresentação das notícias e dos comentários é da responsabilidade de duas locutoras. Estas não escondem os seus atributos físicos, mostrados em decotes ousados e saias ou vestidos justos e curtos. Repetem o que faziam desde a época em que eram protagonistas de um telejogo da emissora, chamado A Casa dos Artistas. Nos telejornais brasileiros exibidos nos canais por assinatura, a presença feminina é mais destacada e em proporções aceitáveis.

Outras mulheres, portando vestes mais comportadas, compartilham um papel secundário nas bancadas. No caso conhecido do Jornal Nacional, marido e mulher o co-apresentam. O androcentrismo é evidente. Apenas algumas poucas jornalistas do sexo feminino conseguiram o papel de ‘âncoras’ permanentes em telejornais da Rede Globo. Isto vem ocorrendo há alguns anos no Jornal da Globo, que vai ao ar por volta da meia-noite. Outras conseguem aparecer no papel de substitutas eventuais. Em telejornais locais e nos nacionais de menor audiência, é possível ver mais mulheres neste papel. Nos telejornais de 23h à meia noite, há muitos homens locutores. Mas em outros horários, a presença feminina é forte.

A etnia branca é a dominante na locução dos telejornais. Trata-se de indivíduos magros, com boa dicção e sem nenhum defeito físico aparente. Um sobrenome estrangeiro (sobretudo, europeu e não ibérico) é de muita valia para a valorização dos locutores. No Brasil, alguém que descende de imigrantes demonstra os arquétipos de sua ‘pureza’ racial e a sua pretensa capacidade intelectual. Nos telejornais de maior audiência nacional, a presença de locutores negros só é usada em caráter eventual, mesmo existindo vários repórteres desta etnia trabalhando no país e na tv. O problema é gritante, lembrando-se que o grande público conhece bem os jornalistas afrodescendentes que militam na tv de sinal aberto. São exceções às regras étnicas em vigor. Os seus nomes são conhecidos e eles são facilmente reconhecidos pelos televidentes.

Existe, informalmente, uma espécie de uniforme dos locutores de telejornais. Os homens, quase invariavelmente, usam ternos escuros, bem cortados, camisas claras e gravatas combinando com a indumentária. Retiram o brilho dos rostos com o pó de arroz e podem, eventualmente, fazerem implantes de cabelo e se utilizarem de outras soluções da cirurgia plástica e da cosmetologia. As mulheres vestem tailleurs, como os das executivas, maquiagem moderada e cabelos bem cuidados. São, na maior parte dos casos, mais jovens do que os homens, e têm um visual trabalhado para que exista a identificação do público de que são pessoas jovens ou senhoras bonitas e integradas aos conceitos morais hegemônicos. Os telejornais, como qualquer programa de televisão, produzem cuidadosamente a imagem dos seus locutores, considerados como parte do cenário representacional onde atuam.

Ler e comentar notícias e imagens significa, no Brasil, virar uma espécie de ‘artista’, alguém que vive acima do bem e do mal, no Olimpo das mídias contemporâneas. Os locutores mais conhecidos transformam-se em personas midiáticas, algo construído na relação entre as mídias e o grande público. Estas personas têm, até certo limite, suas vidas pessoais devassadas. Elas dão entrevistas regularmente, aparecendo na própria tv e em outras mídias. Freqüentam ambientes do jet set e são assediados pelos fãs, como se fossem cantores ou atores da moda. Funcionam, como as demais personas, na posição de modelos de virtude, beleza e inteligência: o marido ou a mulher ideal, o genro perfeito, alguém que ‘venceu’ na vida, destacou-se e pode ser considerado como um padrão quase sobrenatural.

Os locutores mais conhecidos percebem altos salários, os mesmos pagos aos astros de maior relevância televisiva. Isto aumenta a cobiça por seus lugares, a inveja dos pares, bem como suas famas e reconhecimentos sociais. Entrar nas casas alheias, comandando um telejornal de sucesso, significa ganhar um alto salário e ser reconhecido nas ruas como alguém de elevado prestígio. As somas que ganham os colocam em uma posição mais próxima da direção das empresas para quem trabalham. São poucos os casos de conflitos com seus patrões. Eles ocorrem, principalmente, na disputa de mão-de-obra entre as emissoras. Mais raramente, um locutor bate de frente com os interesses da empresa ou do governo. Quando isto acontece, a solução é a substituição, o desemprego, a troca de emissora ou a receita do ‘congelamento’ temporário. Neste momento, eles descobrem - se já não sabiam - que, apesar das diferenças, são empregados como os demais.

A estrutura interna dos telejornais é semelhante a dos grandes jornais impressos. As divisões das seções destacam a vida nacional e as ‘notícias’ do exterior. A pauta de cada dia pode variar e muito. Dependendo do momento, o que vem de fora pode ser o centro daquela edição e vice-versa. Nos dias mais comuns, há um equilíbrio entre as partes. Destacam-se no noticiário nacional as decisões governamentais nas três esferas - federal, estadual e municipal - e nos três poderes - executivo, legislativo e judiciário.

As notícias de governo ocupam boa parte de cada edição. O noticiário internacional é o produzido pelos correspondentes no exterior e o comprado nas grandes agências de notícias internacionais. Os textos referentes a estes últimos são versões de cada programa, que muitas vezes usam das mesmas imagens em canais diferentes. Estas também são editadas e exibidas de acordo com o padrão de cada emissora. O noticiário de fatos sociais só ocupa um espaço maior quando articulado ao governamental, referindo-se as medidas que irão ser tomadas. Os atos de insubordinação, tais como as invasões de terra e as ocupações de prédios públicos, são noticiados com o mesmo diapasão. Não diferente é o que ocorre com a criminalidade e outros problemas sociais do país.

O noticiário econômico ocupa parte importante de cada telejornal. São explorados os dados objetivos e feitos comentários sobre possibilidades e prognósticos. Neste item, a construção do noticiário oscila entre os interesses empresariais e os governamentais. Há sempre alguma autoridade, um executivo, economista, banqueiro ou industrial pronto a comentar determinado fato ou determinada medida, considerada, quase sempre arbitrariamente, como fundamental para a nossa economia.

O esporte, o clima e as festas populares têm espaço garantido nos telejornais e também existem programas próprios para a difusão de suas mensagens. São reproduzidas imagens e fornecidos dados sobre cada um dos eventos e, a partir deles, são feitos inúmeros comentários. Na maioria dos telejornais, existem locutores especializados e repórteres enviados para cobrir matérias desta natureza. Normalmente, são as parcelas mais descontraídas dos telejornais normais e dos programas específicos, significando uma maior cumplicidade com o grande público.

As variações de horário entre os diversos telejornais indicam os públicos-alvos perseguidos. Os da manhã pretendem tomar o breakfast com quem não tem que chegar muito cedo ao trabalho. Costumam tentar produzir um clima informal - mantendo as formalidades habituais - de uma conversa pessoal e, ao mesmo tempo, familiar com o tele-audiente. Os do início da tarde parecem revistas de variedades, comentando alguns assuntos nacionais e internacionais pautados para o dia, mas centrando em comentários leves e no noticiário cultural e esportivo, visando o público jovem e as donas de casa. Os do horário nobre são os mais universais, vistos pela maioria, e têm o formato mais acabado dos telejornais que ajudam a construir os modos de ver o Brasil e o mundo. Veiculam o que é compartilhado pela maioria dos brasileiros ou o que se deseja que a população acredite. Os que passam próximo à meia-noite destinam-se a um público de elite que pode ficar acordado até tarde, devido à natureza de suas ocupações, e que está interessado em uma imprensa mais opinativa e em comentários de maior profundidade.

Parte-se do princípio de que os telejornais são artefatos modelares e reificantes. Existem normas formais e informais de como eles devem ser construídos. Elas são seguidas pelas emissoras que, por vezes, tentam algumas inovações. Acredita-se que os telejornais da Rede Globo, os de maior audiência, modelam os demais que, por efeito da concorrência, repetem fórmulas para se lançarem no mesmo mercado.

Esta modelagem pode ser quase integral ou divergente em alguns aspectos. Mas, mantêm-se, de modo reificante, no que os telejornais têm de mais essencial: as notícias e os comentários. Ambos são construídos de acordo com os recursos do cenário representacional, as performances dos locutores e os interesses de se atingir determinados públicos-alvos. Este invólucro das notícias e dos comentários termina fazendo parte dos mesmos. Por isto, os telejornais brasileiros, apesar das diferenças, são tão parecidos.

 

3 - Paroles: fatos, notícias e comentários

A teoria da parole, tal como é proposta por Philippe Breton, implica acreditar na existência de uma espécie de substância que conformaria a comunicação humana mediada ou não por máquinas. Esta substância seria divisível em três segmentos ou gêneros: o informativo, o argumentativo e o expressivo. Estes surgiriam de modo mais claramente delimitado, nos casos em que a razão guiasse a construção da parole diferenciada. A indiferenciada seria o fruto da unificação dos três gêneros em um único, construído em bases pouco ou não racionais.

Estas modalidades da parole humana evidenciariam características socioculturais que definiriam as possibilidades de diferenciação ou a tendência à indiferenciação. Não haveria superioridade ou inferioridade em ambas. Isto porque nelas os três elementos estariam sempre presentes mesmo se não claramente estabelecidos.

Como a parole é um artefato humano, sua compreensão deve passar pelas atividades desenvolvidas pela espécie. Acredita-se na existência de uma parole televisiva e, dentro dela, de uma parole específica dos telejornais. Como se o processo comunicacional fosse uma babuska, crê-se na vida de uma parole ainda mais específica: a dos telejornais brasileiros.

Certamente, vários pesquisadores acharão similaridades entre os telejornais do Brasil e os demais da América Latina. Outros encontrarão em nossos telejornais semelhanças com os dos EUA e de outros países. Todos estarão certos, sem que isto retire a possibilidade de se estudar um caso específico.

Parte-se da constatação de que a parole dos telejornais brasileiros filia-se de modo mais nítido à parole indiferenciada. Portanto, nela seria privilegiada a mistura dos três gêneros e a dificuldade em separá-los. Hipoteticamente, isto ocorreria pelo quadro de cultura em que estes telejornais são construídos. Não seria um problema somente das empresas, dos produtores, dos anunciantes, do poder concessionário e da tele-audiência. Refletiria, também, questões da sociedade brasileira, de suas crenças e modos de ver o mundo. A mesma parole indiferenciada estaria na imprensa escrita e na radiofônica. A telejornalística seria uma aplicação específica da parole jornalística hegemônica no país.

A parole telejornalística é, sem dúvida, a que mais veicula as idéias e o poder dos sujeitos hegemônicos das mídias brasileiras. Esta veiculação nem sempre se dá de modo claro e cristalino. No exame do turvamento das opiniões e posturas dos telejornais, é possível ver o poder das empresas de comunicação, dos anunciantes e do político concessionário. Ele consolida-se contratualmente, quando se vincula ao público que consome essa programação.

Os telejornais são feitos para convencer seus auditórios. São instrumentos usados na construção do processo de legitimação política e social. Ajudam a vender mercadorias por estarem no epicentro das campanhas publicitárias, que lhes perpassam e sustentam. Para alcançar os seus objetivos, a parole telejornalística precisa aproximar-se do seu público, comunicando-se de modo com que este aceite as mensagens, sem margens definidas para a possível contestação. Para tal, suas falas e gestos devem ter o poder de identificação com a tele-audiência.

O telejornalismo é parte de um sistema maior de coleta e distribuição de informações que se convencionou chamar de imprensa. Parte-se do pressuposto de que esta trabalha com representações simbólicas da realidade material, que podem se afastar bastante do que realmente ocorreu ou está acontecendo. Não é raro que ela construa arbitrariamente fatos ou os modifique no essencial, se isso for necessário. Tudo isto, para adequá-los às linhas editoriais e aos interesses empresariais e governamentais envolvidos.

De acordo com os sensos comuns veiculados pelos produtores televisivos e acreditados socialmente, os telejornais funcionariam como um canal por onde passariam as informações pertinentes e de interesse da sociedade brasileira. Não se esclarece com precisão de onde vêm estas informações e nem como elas são apresentadas, num processo similar ao que ocorre com a imprensa escrita e a radiofônica.

A naturalização da notícia e dos enfoques é uma necessidade da imprensa. Os fatos escolhidos seriam sempre os pertinentes. O ‘faro’ jornalístico seria infalível e capaz de saber o que deve ser noticiado e como isto deve ser realizado. A realidade simbólica construída pela imprensa costuma se autoconsiderar um espelho perfeito, ou quase idêntico, à realidade material. São raros os que suspeitam da validade destes conceitos apriorísticos.

Há muito tempo, foram denunciados como mitos, a neutralidade e a imparcialidade da imprensa. Há limites para as manipulações discursivas possíveis de serem operadas. Estes estão inscritos nas relações contratuais que a imprensa desenvolve com os seus sujeitos, que têm potências diversas e que incluem o público consumidor das notícias. Em contextos diferentes, o grau dessas potências pode variar.

No telejornalismo, a vigilância dos sujeitos de maior poder material e simbólico é muito grande, como se pode comprovar nos textos que contam sua história do ponto de vista oficial [5]. Em um país onde poucos lêem e quase todos vêem televisão, os telejornais são peças significativas no tabuleiro do jogo do poder.

A audiofonia é peça fundamental para a compreensão dos telejornais, vista do ponto de vista imagético. Originada na radiofonia, a voz dos locutores está no centro da parole telejornalística. Escuta-se para se formar imagens mentais, também influenciadas pelas movimentações dos falantes. Para ocupar o posto de locutor, é preciso saber falar de modo claro e convincente. É necessário ter a capacidade de fazer as entonações consideradas corretas para cada narração, combinadas com as expressões faciais correspondentes. Os telejornalistas desenvolvem bordões que ficam muito conhecidos do grande público, como: “Onde você está Fátima?”; “Isto é uma vergonha!”. Até as formas de dizer ‘bom dia’ ou ‘boa noite’ soam de modo peculiar e contribuem na formação da consciência dos receptores.

As vozes devem ser equilibradas e suas escolhas variam no tempo, assim como também o contexto envolve e as tendências editoriais de cada emissora. Havia uma relação da voz celestial, forte e profunda de Cid Moreira com a época da ditadura militar. Sua imagem pública, cuidadosamente trabalhada de um senhor sério e responsável, ajudava muito. Quando ele lia as notícias do período, era como se mais nada houvesse a declarar. Estava tudo dito e resolvido. O volume, a gradação e a impostação de sua voz lembravam algo que viria de outro mundo, além do físico, esclarecendo aos pobres mortais a verdade que desconheciam. Ele ainda pode ser visto no Fantástico e em gravações de textos bíblicos. Os tempos mudaram, mas algumas destas características foram mantidas nos telejornais atuais.

A santa irritação e o ardor de um Boris Casoy relacionam-se com a tendência retórica e moralista do jornalismo da Rede Record, empresa de propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus. A voz doce e pausada do William Bonner e da Fátima Bernardes, atuais locutores do Jornal Nacional da Rede Globo, visa entrar na casa das famílias e conversar, convencendo a todos da justeza irretorquível do que dizem. Os demais locutores dos telejornais copiam estes modelos, por vezes oscilando entre ambos.

Apesar do uso da retórica - parole impositiva que não exige comprovação do que se fala ou escreve - ser comum a todo o telejornalismo, de modo geral, a voz atual dos locutores procura ser amigável e se basear nos sensos comuns democráticos acreditados socialmente nos dias que correm. Sob o ponto de vista argumentativo, o que se fala e se mostra nos telejornais oscila entre a retórica e a opinião comum. Raramente, o argumento científico e/ou o religioso invadem esta parole, a não ser de modo indireto.

A composição desta mistura entre a retórica e a opinião comum estaria na essência da comunicação telejornalística. Para fazê-la, foi preciso entronizar tipos de imagens pessoais, vozes, entonações, frases de efeito e bordões. Essas vozes estão ligadas à gestualidade - movimentos dos membros, da face e especificamente das bocas -, às vestes e aos demais elementos do cenário representacional. O locutor é um ser que tem cabeça, tronco e braços. Raramente, ele aparece de pé. Os que assim procedem estão à busca da diferenciação do padrão dominante.

A expressão, isto é, o uso da emoção e dos gostos preferenciais, ocuparia um espaço muito grande nos telejornais. A ‘força’ do que se diz não estaria na essência argumentativa, e sim no modo que se fala. Emocionar-se, tanto no sentido da tristeza como no da alegria, serviria como potente meio de comunicar determinado conteúdo. A indignação ou a alegria do locutor seria uma espécie de exercício artístico-representacional valorizando a notícia e, sobretudo, o comentário. Portanto, não seria obrigatoriamente fruto de uma conexão emocional com os conteúdos anunciados. Segundo alguns depoimentos deles, teriam que conter suas emoções e representar tal como foi pensado no roteiro de trabalho.

Não raro, os telejornais carregam mais na expressão da emoção negativa, por efeito de problemas de nossa cultura. Tendem a pintar o Brasil e o mundo como espaços de muita dor ou de muita alegria, em um claro exercício ciclotímico. O exagero emocional faz parte da parole expressiva que usa e abusa do pathos, oscilando entre o patético e o socialmente patológico. A emoção socialmente justificável e a derivada da observação do belo ou da indignação com o feio e deplorável, raramente é usada sem manipulações espetacularizantes.

Esta modalidade de programa de televisão teria um estilo formalista, em que os conteúdos estariam tão subordinados aos modos com que são apresentados que se tornariam líquidos e sem maior consistência. Algo consumível rapidamente, tal como um copo de água, que mataria a sede de notícias, deixando muito pouco em termos de conhecimento e memória. Tudo isto, em um grande exercício de reificação, conformando e definindo o que seria o conteúdo da parole telejornalística.

É discutível se a função principal desta comunicação seria de fato a de informar, já que o se observa é a confirmação do que já era conhecido, de modo fragmentário e desorganizado. As informações chegariam muito mais pelas mídias humanas, isto é, por meio da conversação. Esta seria influenciada pela comunicação escrita e pelas instituições que a transformam em comunicação oral - escolas, igrejas, famílias e comunidades.

Ao ver o telejornal, o tele-audiente estaria pronto para assimilar pequenas novidades previsíveis em um quadro de cultura pré-estabelecido. Em um exemplo, todos sabiam que o papa ia morrer. Estava há muito tempo doente, tinha piorado e era idoso. Sua morte era esperada, para além do espetáculo midiático que se fez por meio de textos e de imagens da televisão internacional. Em uma situação similar, os brasileiros assistiram à morte midiática e real de Tancredo Neves.

Acredita-se que o formalismo do texto lido pelos locutores seria menos potente do que as imagens exibidas. Estas possibilitariam um diálogo silente e mais profundo dos televidentes. Elas seriam mais responsáveis do que as vozes pela formação das memórias, por darem espaço a algum nível de reflexão do público. Informariam sobre os problemas e o preparariam para as falas formais e descritivas. Em suma, a imagem, inclusive a do locutor no momento em que fala, teria um peso muito significativo neste processo comunicacional.

A imagem de um consumidor de telejornais e do paratelejornalismo como um ser passivo e deslocado de seu meio social não encontra ressonância em uma avaliação do problema do ponto de vista da teoria da parole. As vozes e imagens maquínicas não substituem as mídias humanas em qualquer espaço social. Acredita-se que as mentes do mundo de hoje são construídas pela fusão entre as mídias humanas e as maquínicas.

As opiniões, os modos de ver o mundo e os comportamentos seriam gerados por esta composição. Neste sentido, a televisão não seria, em si mesma, soberana e única na formação dos corações e mentes de nosso tempo. Ao transmitir as mídias humanas de modo ampliado, teria uma posição cêntrica, na sociedade brasileira, enquanto objeto social.

 

4 - Conclusões

O que se buscou demonstrar foi a prevalência das formas sobre os conteúdos na transmissão dos telejornais brasileiros. Eles seriam responsáveis por contribuir na construção dos sensos comuns sobre a sociedade, o estado brasileiro e o que se passa no exterior. Na verdade, eles dialogariam com as redes intersubjetivas do país, baseadas na conversação interpessoal e intrapsíquica.

A presença dos locutores foi considerada essencial na composição dos telejornais brasileiros. Isto poderia levar à compreensão da durabilidade da presença dos mesmos, em cada programa. Eles conformariam, como personas midiáticas - isto é, modelos de virtude e qualidades construídos na relação entre as mídias e o público - a validação do que as linhas editoriais comunicam como notícias e opinam como comentários.

Haveria um modo de se fazer um telejornal, modelos a serem seguidos, previamente estabelecidos. As emissoras seguiriam este roteiro formal e informal dividindo o mercado publicitário que as envolve e exercitando a concorrência pela audiência do grande público. Na essência destes modelos, o formalismo comandaria os conteúdos das notícias e dos comentários.

A retórica, presente em todos os telejornais e no paratelejornalismo, dividiria o seu espaço de convencimento com o manejo da opinião comum. A parole telejornalística seria uma composição entre ambas, visando à aproximação do grande público.

As imagens foram valorizadas como mais importantes do que as falas no processo da formação das memórias e na aproximação com o universo mental dos consumidores destes produtos televisivos. Vendo-as, os processos de significação - desenvolvidos mentalmente - seriam ativados com maior potência. A simples escuta da leitura dos textos seria insuficiente na alteração das consciências. Provém de dados destas imagens, a performance imagética dos locutores e as do cenário representacional onde atuam.

Por fim, conclui-se que haja um baixo poder informativo e argumentativo nos telejornais. As suas naturezas reificantes não permitiriam rupturas nas crenças dos que os assistem. Eles teriam mais uma função confirmativa do que informativa. As informações veiculadas com muita proficiência são as de natureza pontual, tais como as decisões governamentais, cotações e índices econômicos, resultados eleitorais, desastres humanos e naturais, ocorrências de fatos sociais e políticos de ampla repercussão nacional ou internacional etc. Qualquer informação que possa gerar, no diálogo silente com o público, argumentos mais complexos é rechaçada, em nome da objetividade e da imparcialidade.

Estes programas não seriam construídos para alimentar qualquer polêmica, ou colocar em dúvida qualquer certeza. Quando isto acontece, isto é sinônimo de mau telejornalismo, que é passível de punição dos seus responsáveis. Os programas reproduziriam a cultura profunda e os artefatos culturais efêmeros circulantes na sociedade brasileira. Somente em momentos especiais, este esquema sairia do controle, devido à pressão social externa. O livro da Rede Globo, que relata a história do Jornal Nacional, do ponto de vista da empresa, narra um fato em que isto ocorreu de modo emblemático: a Campanha pelas Diretas Já, no início da década de 1980. Obviamente, existem outros exemplos, anotados na mesma obra ou passíveis de serem levantados.

Junho de 2005

 

5 - Referências bibliográficas [6]

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BRETON, Philippe et Proulx, Serge. L’explosion de la communication à l’aube du XXI siècle. Paris : La Découverte, 2002. 385 pp.

BRETON, Philippe. Éloge de la parole. Paris : La Découverte, 2003. 187 pp.

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LINS, Aline Maria. A Alfabetização do olhar: uma experiência com os telejornais. Rio de Janeiro, 1993. Dissertação de mestrado da Fundação Getúlio Vargas.

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REDE GLOBO DE TELEVISÃO. Jornal Nacional: a notícia faz história. (Memória Globo). Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 2004. 407 pp., 420 il.

REZENDE, Guilherme Jorge de. Telejornalismo no Brasil: um perfil editorial. São Paulo : Summus, 2000. 289 pp.

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SZPACENKOPF, Maria Izabel Oliveira. O olhar do poder: a montagem branca e a violência no espetáculo telejornalístico. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 2003. 349 pp.

 

Notas

[1] Artigo feito para o 2º Colóquio Canadá-Brasil em Comunicações. ALCA: progresso social e diversidade cultural Université du Québec à Montreal 10 e 11 de outubro de 2005.

[2] Este artigo foi escrito a partir do dossiê de pesquisa do projeto intitulado ‘Artefatos de Memória’ e Representações nas Mídias. Aproveito para agradecer o empenho produtivo dos bolsistas de iniciação científica Fernanda Cupolillo Miana de Faria e de Heitor da Luz Silva que me ajudaram a chegar a estas reflexões.

[3] Ver as Referências Bibliográficas, ao fim deste artigo.

[4] A Rede Globo publicou, em 2004, um livro contando em detalhes a história do Jornal Nacional e do telejornalismo da empresa. O livro, ricamente ilustrado, argumenta de acordo com a perspectiva da empresa, deixando quase nenhum espaço para o exercício crítico e para o exame das ciências humanas deste importante fenômeno nacional. A obra nasceu como fonte indiscutível para se compreender como esta mídia pensa a si próprio. É também uma fonte bastante útil para esclarecer aspectos empírico-factuais do telejornalismo brasileiro e sua imbricação com as nossas histórias políticas e sociais.

[5] Ver livro citado sobre a história do Jornal Nacional.

[6] Esta lista de referências contém títulos de vários matizes. Alguns refletem o olhar teórico do autor. Outros, especialmente, os que se referem à televisão brasileira e, especificamente, ao telejornalismo contêm, em seus corpos, outras referências também significativas. Muito do que está escrito neste artigo baseou-se na literatura citada, mas foi a observação dos telejornais da televisão aberta, a principal fonte de inspiração utilizada. Não se acredita que a discussão deste tema esteja desenvolvida de modo exaustivo, ao contrário, ainda há muito a pesquisar.

 

Luís Carlos Lopes. Pós-Doutor em Comunicação pela Universidade Paris 1 (Sorbonne), sob a orientação de Philippe Breton (2004) - Doutor em Ciências (História) pela Universidade de São Paulo (1992). Professor da Universidade Federal Fluminense (Niterói, Rio de Janeiro), membro do corpo permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação dessa Universidade.

 

© Luís Carlos Lopes 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

El URL de este documento es http://www.ucm.es/info/especulo/numero31/telejorn.html