Sergio Faraco, um escritor brasileiro na confluência do Prata

Andrea Cristiane Kahmann [1]

Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
andreakahmann@hotmail.com


 

   
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Considerações preliminares

Norteando as discussões teóricas deste trabalho, tem-se em conta que a Literatura Comparada explora “as relações não apenas entre textos e autores ou culturas, mas se ocupa com questões que decorrem do confronto entre o literário e o não-literário, entre o fragmento e a totalidade, entre o similar e o diferente, entre o próprio e o alheio” [2]. Em outros termos, nossa tarefa é a das travessias, das subversões de fronteiras entre línguas, culturas e áreas do saber, pretendendo ver mais longe, olhar além. Assim, a Literatura Comparada aproxima-se do que Morin denomina “ciência com consciência”, ao pretender dar conta das “articulações despedaçadas pelos cortes entre disciplinas, entre categorias cognitivas e entre tipos de conhecimento”[3].

Invocam-se, desse modo, dois delineamentos epistemológicos presentes nas obras de Morin: os princípios da complexidade e da incerteza. O primeiro, a determinar que a realidade não pode ser simplificada, pois ela está inserida num amplo sistema de relações que, no mesmo espaço e a um só tempo, são de cunho político, social, cultural, jurídico e literário: “O simples não passa dum momento arbitrário de abstracção, dum meio de manipulação arrancado às complexidades”[4]. A limitação a uma abordagem sob a ótica estritamente literária neste trabalho macularia, portanto, a gênese em si da prática comparatista e impediria uma visão mais abrangente das interconexões e das transversalidades entre os temas relacionados. Complementar é a perspectiva da incerteza, visto que todo conhecimento apresenta, em alguma medida, certo grau de precariedade e de provisoriedade. Neste trabalho serão levantadas análises de forma relacional a visar ao ganho de complexidade, ao progresso do conhecimento, mas que, de forma alguma, esperam estar operando com verdades absolutas. Afinal, “conhecer é uma aventura incerta, frágil, difícil, trágica”[5]. Menos que conceitos referenciais fechados ou que uma metodologia discricionária,[6] as noções de Morin, aqui, são mais para alertar que, nesta senda a ser trilhada, buscar-se-á bagagem em contribuições teóricas de diversas áreas do conhecimento, visando a adequar a mirada literária proposta, sem pretender apresentar conhecimentos definitivos.

 

1. “Los hermanos sean unidos”: o plano cultural pampiano e idas e vindas entre gaúchos e castelhanos

O Pampa, enquanto território, é caracterizado, no plano cultural, pela unidade simbólica do “gaúcho”. Palavra de origem controvertida, “gaúcho” designava “caçador de gado selvagem, contrabandista, teatino, andejo, coureador, desregrado, gaudério, changador; remascentes de tribos guerreiras amestiçados com portugueses e espanhóis” [7]. De um lado e de outro da fronteira física, o gaúcho não se encaixava nem na sociedade do europeu, nem da do índio. Estava, portanto, no entre-lugar. Sobrevivia “da caça e da venda de gado alheio ou selvagem, além de exercer o contrabando”[8]. Foi somente na segunda metade do século XIX, em meio às guerras pela independência, e quando estava à beira da extinção, que o gaúcho foi revalorizado em função de seu aproveitamento nas frentes de batalha [9]. A palavra revestiu-se, então, de “conteúdo nitidamente elogioso, de homem digno, bravo e destemido” [10]. Do “gaúcho” restaram conhecidas “sua coragem e valentia; o amor à liberdade e o apego à terra; o espírito cavalheiresco, nobre e hospitaleiro; a gentileza para com as mulheres; o amor arraigado e constante às tradições” [11].

É possível depreender que, à margem dos fatores históricos que concorrem para a depreciação e posterior mitificação do “gaúcho”, há um cunho ideológico latente a nortear a re-significação do vocábulo em tela. O gaúcho, a designar o homem que habitava a campanha em tempos de fronteira aberta, campo aberto e gado solto, sobrevivia, como é sabido, de trabalhos “especiais”, quase sempre ilícitos [12]. É evidente que a lide mais corriqueira era desempenhada pelo negro, como escravo das grandes propriedades. Meyer, a respeito, observa que o fazendeiro comprava “os quinze ou vinte anos que podia dar-lhe o trabalho de um negro escravo por quantia correspondente à quadragésima parte do total empenhado em pagamento de um peão, no mesmo período” [13]. A leitura sociológica do gaúcho/gaudério remete, pois, à depreciação decorrente das fraquezas políticas do entorno pampiano. Para os fazendeiros, o gaúcho era o ladrão ou o contrabandista a molestar-lhe ou a prestar-lhe serviços. Para as autoridades, ele serviu de lanceiro, miliciano, isca para o inimigo, conveniente, mas pouco confiável, em face do eminente perigo da deserção.

Esses homens sem lei nem rei, que “moravam na sua camisa, debaixo do seu chapéu” [...] foram aproveitados muita vez nas arreadas e na guerra como campeiros ou bombeiros, mas o seu entendimento com as tropas regulares de espanhóis ou portugueses era um ajuste condicionado às obrigações momentâneas de serviço, combinadas entre as partes, e representava uma espécie de parêntese na sua vida habitual de gaudérios. [14]

De qualquer sorte, os trabalhos do gaúcho teatino [15] por esses campos garantiu, também, vantajosos rendimentos para ambas as nações ibéricas, visto que o entorno pampiano foi marcado tanto pela disputa armada de território quanto pelo contrabando. A propósito, Masina chega a declarar: “Não existem fronteiras sem contrabando” [16].

É pacífico o entendimento de que o contrabando, prática tão arraigada na cultura platina, a tal ponto de ter constituído um dos pilares da economia local já desde antes da formação do Vice Reinado do Rio da Prata, em 1776, foi elemento propulsor do desenvolvimento regional, favoreceu a independência política das colônias e desempenhou relevante papel em meio às lutas pela demarcação de território.

Masina observa que, no imaginário da população fronteiriça, o contrabando não constituía uma prática social indesejada [17], o que, portanto, eximia-o da condição de “crime”. A respeito, está-se com César:

Crime? Mas o contrabando, ali, não se enquadrava sequer na categoria de contravenção, que é um crime liliputiano. Passava-se até com os espanhóis, e seus descendentes platinos, que contrabandeavam também, escancaradamente, naquela zona, um fato curioso: seus rivais e vizinhos daquela praça de guerra muitas vezes os auxiliavam a enviar para outros “clientes”, fora do Prata, suas mercadorias maculadas pela transgressão da lei. Isso ocorria, quase sempre, quando as relações entre a Colônia e Buenos Aires se turbavam, por motivo de guerra ou de intransigência ocasional dos agentes do fisco.[18]

Nesses termos, depreende-se que o contrabando, não raras vezes, era instrumento de integração entre os habitantes do Pampa, unindo-os, uns aos outros, em prol de burlar as regras impostas por um rei, português ou espanhol, a visar o lucro. O habitante desse campo aberto não poderia considerar crime o ato de transportar, daqui para ali, as coisas que adquiria ou apresava. Porém, ainda na trilha de César, cabe lembrar que, lado a lado com o contrabando pessoal e o oficioso, convivia o contrabando de guerra [19], a institucionalizar a subtração e a tomadia. Também Reverbel tece seu comentário sobre a questão em baila:

Era o roubo, praticamente, institucionalizado nas duas bandas, inclusive fazendo parte das guerras em que ambas se engajavam. Roubando-lhes os gados, bovinos e cavalares, os portugueses enfraqueciam seus inimigos da outra banda, econômica e militarmente. Da mesma forma procediam os espanhóis. [...] Acobertados por conveniências de Estado, esses aproveitadores ostentavam certa dignidade cívica, considerando-se merecedores do reconhecimento da pátria.[20]

Não obstante o convívio com a ilicitude institucionalizada, o gaúcho acabou por sofrer um processo de “desmarginalização”, citado na re-significação da palavra dicionarizada e na conformação do personagem idealizado a surgir nas expressões literárias posteriores. O objetivo desse enlevo era atender às demandas de invenções das tradições no entorno platino, em tempos de consolidação dos atores nacionais. Apesar de a pilhagem e o contrabando conformarem práticas arraigadas tanto de um quanto de outro lado da fronteira geopolítica, foi o “outro” que passou a ser responsabilizado pela degradação dos bons costumes e das práticas sociais. Em processo inverso ao que teve lugar ante o termo “gaúcho” (a conformar um “nós”, desmarginalizado), o vocábulo “castelhano” foi acometido de uma anemia significativa para atender à ideologia nacionalizante que reclamava a caricaturização e depreciação do “outro”. Assim, o Rio Grande do Sul apropriou-se do termo “gaúcho” para designar seu gentílico, olvidando-se que o “castelhano” era, tão-somente, o gaúcho “do lado de lá”. Ao “castelhano”, porém, vocábulo que originalmente designava a língua e a pessoa originária da região de Castela, em Espanha, restou o desígnio, de forma jocosa ou mesmo ofensiva, do desregrado, do invasor de terras, do responsável pelo roubo, pela pilhagem, pelo desrespeito às tradições e às mulheres.

A evidente acepção ideológica a nortear as invenções das tradições do “gaúcho” sul-rio-grandense em face do outro “castelhano” tem na noção de fronteira a sua causa e sua conseqüência. Ao apresentar-se una e indivisível, livre de obstáculos naturais, a fronteira do Rio Grande do Sul com os Estados do Prata, especialmente com o Uruguai, era um convite ao diálogo e ao intercâmbio. A propósito, Reverbel observa:

A fronteira do Rio Grande com os países do Prata estende-se por 1.727 quilômetros, dos quais 724 com a Argentina e 1003 com o Uruguai. A fronteira com o Uruguai, desde a barra do Chuí até a foz do Quaraí, é quase toda seca. Já a divisa com a Argentina, desde a foz do Peperi-Guaçu até a confluência do rio Quaraí, corre ao longo do rio Uruguai. Nada, entretanto, impede o livre trânsito entre o Rio Grande e os países platinos.[21]

Objeto de zelo e receio pelo poder central brasileiro, o Rio Grande do Sul foi, não somente pela identificação cultural com o platino, mas também pelas suas mostras de rebeldia e ânsia separatista, o plano de todo um aparato ideológico a primar pelo controle e vinculação ao “caráter nacional”. Assim, a construção da “brasilidade” requereu a definição de fronteiras simbólicas e o fortalecimento dessas pela modulação de um conjunto de significantes emblemáticos.

De certa forma homogêneo no plano cultural, o “gaúcho”, politicamente falando, foi a conseqüência de uma zona de conflitos entre três soberanias. Sempre três. Ensina Leenhardt: “houve três quando Espanha e Portugal se uniram contra as reduções jesuíticas, houve três depois que o Uruguai se tornou um Estado do mesmo modo que houve três quando foi o Paraguai que se tornou em objeto de cobiça” [22]. A história de lutas entre os atores do Prata se esfacela, porém, ante a constatação de como “modos de vida e culturas se constroem ou sobrevivem apesar dos recortes que os atravessam, e constituem, à sua maneira, um espaço diferente daquele que tentam definir os Estados, um Estado de cultura mais do que de dispositivos estatais de proteção” [23]. Martins observa que, no contexto pampiano, “fronteiras culturais e linguagem resistem às delimitações geopolíticas bem mais do que o estabelecido em tratados. Mesclam-se em suas trilhas ambivalências e ambigüidades de ordem social, lingüística, existencial” [24]. Contudo, frente ao anseio de negar a identificação com o outro, especialmente o da banda oriental, a literatura seguiu a orientações do poder central e instaurou o modelo do gaúcho inventado, como se abordará no ponto a seguir.

 

2. “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”: a literatura sul-rio-grandense e invenção do gaúcho

A produção literária escrita no Rio Grande do Sul desenvolveu-se sob o signo da fronteira e das aproximações e rechaços entre sul-rio-grandenses e platinos. Em seus primórdios, o personagem ficcional mais recorrente foi o gaúcho tal como o concebia as vertentes literárias argentina ou uruguaia. A sucessão de guerras, porém, e a necessidade de se “abrasileirar” o Rio Grande do Sul foram, paulatinamente, inserindo-se no plano das letras e forjando uma narrativa mais afeita aos novos escopos ideológicos. Não que os primeiros protagonistas das obras literárias tenham sido fiéis representações daquele gaúcho sociológico, a habitar os campos de fronteira aberta, campo aberto e gado solto. Contudo, o próprio modelo de “gaúcho”, tal como apresetando na literatura, na música e nas artes em geral, foi sofrendo modificações e diferentes abordagens.

É mister destacar que não está em discussão o debate que, desde Platão, delineia as considerações dos teóricos da literatura sobre a medida que aproxima / afasta o personagem de ficção daquele homem que existiu concretamente. Expulso, já, da República [25], o gaúcho literário, na abordagem deste trabalho, não tem a pretensão de provir do mundo real. Não obstante, algumas considerações são necessárias em face do objetivo de se proceder a uma análise sobre o construto das tradições no plano de ascensão dos ideais nacionalistas.

Com efeito, a crítica tem demonstrado que a invenção do “gaúcho literário” deu-se pela geração dos filhos do levante farroupilha [26]. A reivindicação de um direito à particularidade e à diferença e o fortalecimento da auto-estima das elites incipientes estiveram na pauta dos grupos que se foram formando com a intenção de organizar (e inventar) a cultura no Rio Grande do Sul. A Sociedade Partenon Literário, que deu consistência à prática regular da literatura no Rio Grande do Sul, divulgou a imagem do “centauro dos pampas”, do “monarca das coxilhas”, nas instâncias de 1860. Chamou a atenção que, em meio às tendências do Romantismo e de seus ideais anticlássicos, haja-se instaurado por esses pagos uma instituição denominada “Partenon” a re-inventar um gaúcho com ares gregos por meio da alcunha do “centauro”. O gaúcho mitologizado exerceu, pois, no plano regional, o papel que ao indígena se reservou no âmbito do Romantismo nacional:

A rejeição do indianismo decorre, entre outros fatores, da intenção de separatismo no Rio Grande do Sul, quando da queda da Revolução Farroupilha (1835-1845), já que a construção do tipo nacional era uma imagem que emanava da própria Corte, onde atuavam muitos escritores coniventes com as medidas enérgicas de controle às rebeliões regionais que dilaceravam o país.[27]

De qualquer sorte, através da identificação com a figura mítica do gaúcho, universalizou-se a auto-imagem da classe dominante e se a projetou por todas as demais classes sociais ansiosas de compartilhar glórias. Frente a um contexto histórico em que os espoliados não têm outro “luxo” que as histórias de valentia, reiteraram-se os esquemas narrativos como “modelos de resistência”, enquanto se teciam os subterfúgios para ocultar o pária do pampa, expulso da terra em função do cercamento dos campos [28]. Há que se ressaltar que o Partenon era uma instituição engajada politicamente, tendo orientado o pensamento de muitos líderes da época, especialmente os promotores das idéias positivistas. As questões literárias, nesse contexto, andaram “lado a lado com a política” [29].

O comprometimento ideológico da produção literária escrita no Rio Grande do Sul, desde o Partenon, abarcando a geração de escritores da República Velha, terminou por formar o gaúcho literário, dotado de atributos da mais diversa ordem. O gaúcho brasileiro, porém, distanciou-se do gaucho platino. Esse afastamento não foi fortuito: é possível considerar, com César, que “a idade de ouro da gauchesca, na prosa, ocupou os três primeiros decênios do século XX” [30], coincidindo com os roupantes nacionalistas a acompanhar a I Guerra Mundial e seus desfechos.

Ainda com César, observa-se que já em 1898, tinha sido fundado, no Rio Grande, o Grêmio Gaúcho, iniciativa de Cezimbra Jacques, oficial reformado do Exército, com a finalidade de “resgatar” as tradições desses pagos. Há que se observar, porém, que:

[...] o simpático Major não admitia (e sirva o fato para documentar seu nacionalismo) qualquer aproximação do gaúcho rio-grandense - a personagem de ficção ou o tipo real - com o gaúcho platino, isto é, conforme ele mesmo diz, com “o borracho que vive a retoçar [sic] as polícias locais e a provocar desordens em a polpería e cometer crimes como se o vê pintado em Martín Fierro e Juan Moreira [31]”. [32]

Esse paradoxo só veio a ser reforçado com o advento da Revolução de 30, e as mudanças ocorridas nos rumos políticos brasileiros, e com a abertura de espaços para as temáticas engajadas com as novas tendências estéticas e com a consciência autonômica cultural promovida pelo Movimento Modernista. Por uma dessas ironias da história, foi Getúlio Vargas (o primeiro presidente gaúcho) quem acabou por “abrasileirar” o Rio Grande. Com o golpe do Estado Novo, em 1937, criaram-se e adaptaram-se órgãos e associações destinados à divulgação-imposição dos sentimentos de “amor à pátria”, entre eles: a Liga de Defesa Nacional, a Juventude Brasileira, o Departamento de Imprensa e Propaganda, a Hora do Brasil e a Rádio Nacional. Em nome de uma pretensa unidade, foram proibidos o hino e a bandeira sul-rio-grandense, bem como as demais manifestações de conotação regionalista. Ao mesmo tempo, a representação do gaúcho no imaginário e na literatura nacional reforçou a figura mítica, do valoroso e forte guerreiro, confluindo para a legitimação de um modelo não-democrático. Masina, a respeito, menciona:

A polissemia do mito do gaúcho é flagrante: de um lado, criava-se, no Brasil, um modelo regional idealizado, fruto de uma terra de homens fortes, leais e íntegros, capazes de conduzir os destinos da pátria. O gaúcho seria, pois, o oposto do Jeca Tatu, celebrizado por Monteiro Lobato nos alvores do século. Por outro lado, a divulgação da imagem do “centauro dos pampas” contribuía para fortificar a auto-estima de um Estado espoliado pelo governo federal, cuja classe média, representada pela força militar, assegurara a vitória populista de Vargas.[33]

Nas décadas subseqüentes, a literatura do Rio Grande do Sul entrou em sincronia com a do país, vindo a contemplar, também, a zona urbana. Era a vez de Érico Veríssimo, Cyro Martins e Dyonélio Machado. Os ares provincianos foram, rapidamente, sendo reordenados pela modernidade. E os anos 50, que trouxeram a euforia desenvolvimentista, a indústria automobilística e a televisão, acentuaram os ares nacionalistas com a vitória da Copa de 58, depois de uma derrota para o Uruguai em pleno Maracanã, em 1950. O cinema novo, o teatro popular, a MPB e toda agitação subseqüente foi o cenário para que Elis Regina, já chiando na fala, e os cunhados Leonel Brizola e João Goulart se projetassem no plano nacional, antes do Golpe de 64. Nesse interregno, disseminavam-se os CTGs (Centros de Tradições Gaúchas), inaugurava-se a estátua do Laçador na entrada de Porto Alegre e Teixeirinha marcava presença no meio musical.

Contudo, após o golpe de 1964, ao derrubar o presidente João Goulart, os militares, bem orientados pelos promotores do Plano Cóndor e da Escola das Américas, reforçaram as manifestações nacionalistas, especialmente as comprometidas com os setores conservadores da Igreja Católica e com a manutenção da propriedade. No entre-lugar da cultura, região fronteiriça que tanto zelo e receio despertava em face do poder central, o Rio Grande do Sul arcou com o ônus de ver suas principais cidades ficarem impedidas de eleger até mesmo o Prefeito [34], ao passo que em outros Estados da Federação só à capital era imposta essa reserva. E há que se notar que três dos cinco generais-presidentes desse período ditatorial eram gaúchos [35].

Em face à ânsia de se identificar com valores de liberdade, de luta por causas nobres, de autonomia política e por todos os apanágios que comumente se atribuíam aos farrapos e aos valorosos gaúchos de outros tempos, promoveu-se a nostalgia em massa. Golin observa que o gaúcho foi re-inventado e difundido pelos meios de comunicação em massa, como uma “gauchada fulgorosa e pavoneante de roupagem colorida” [36] amparada pelo êxtase tradicionalista e sem qualquer identificação com o gaúcho não-proprietário. Nem mesmo com o gaúcho sociológico, originário, anterior às entreveiradas da Guerra do Paraguai, como afirma Fagundes:

Na esteira mercantilista da Guerra do Paraguai veio [...] a gaita, que destronou a viola no reino dos bailes. E ao som das “duas conversas” as velhas danças do ciclo dos fandangos, sapateadas e completas (cada um com canto, música e coreografia) foram substituídas por “maneiras de dançar” impostas pelos novos ritmos trazidos no bojo dos foles: valsa, mazurca, polca, havaneira, chotes... E veio também a bombacha, de origem turca, que os comerciantes ingleses despejavam aos fardos no porto de Montevidéu, como sobra de guerra - restos do fardamento de seus exércitos colonialistas e imperialistas e mercantilistas.[37]

A re-invenção do gaúcho que teve espaço entre as décadas de 60 e 80 correspondeu, pois, ao desejo político de armazenar valores ante o recalque do sentir e o descentramento do sujeito. Golin lamenta a introjeção do modelo inventado ante os meios campeiros:

Assim, o campeiro, que era o último resquício do homem tradicional criado pelo latifúndio pastoril, deixou de ser o fio condutor da história para uma compreensão aproximada do passado real da gauchada, que se diferenciava como “grupo social” não-proprietário em relação à classe latifundiária. A população rural da campanha (e, agora, também da roça), sempre constrangida pela sua marginalidade camponesa, triste e ironicamente, foi encontrar a sua identidade na adoção do gaúcho inventado nos centros urbanos. A forma mais evidente dessa integração se confirmou no abandono das roupas tradicionais, relativamente simples e discretas, pelas indumentárias tradicionalistas. Esses figurinos foram produzidos por mentes impulsionadas por pretensa pesquisa histórica. Não raro, parecem manequins de museu, adornados pela quantidade de peças capazes de suportar.[38]

Masina, sem tanta preocupação com a questão das aproximações entre o gaúcho real e o mito, e enfatizando a questão da emergência da memória e da ascensão de uma consciência integradora (e agregadora), considera que as práticas gauchescas podem ser entendidas como “formas de resistência e diálogo com as tendências homogeneizadoras bombardeadas pela televisão e pela mídia” [39]. E reitera que, apesar de a forte identidade regional do Rio Grande do Sul ter sido sempre “um empecilho para o reconhecimento e valorização da cultura gaúcha nos centros hegemônicos do país” [40], há uma tendência a apontar para uma mudança de paradigma e uma conseqüente legitimação das práticas artísticas sul-rio-grandenses.

 

3. “Quem quiser saber quem sou”: a literatura e a revisão das identidades

Superada a ditadura, com o advento da Carta Cidadã de 1988, os ares provindos da abertura política foram dando novos contornos à cultura de um modo geral. O estudo da Literatura foi-se liberando dos caracteres formalistas e uma visão mais crítica de produção de cultura propôs-se a rever conceitos atrelados à identidade, em suas diversas facetas. Perspectivas de gênero, clamores de minorias éticas e religiosas e aspectos relacionados à auto-afirmação de setores regionais foram se fortalecendo.

No seio da euforia democrática, as tendências autoritárias e normativas no interior das narrativas eram questionadas e re-articuladas. O interesse nacional, as prerrogativas étnicas e o papel da mulher, assinalando novas possibilidades de sentido e novas estratégias de significação em face do mesmo amparo da Lei Máxima, abriram a trilha para a uma re-configuração de povo, nação e cultura. Nesse contexto, a Literatura tratou de pôr na pauta o questionamento do cânone, ao passo em que se abria para as considerações provenientes das demais áreas do saber. A cultura, como promotora que é do diálogo entre as diferenças e da “luta contra a uniformidade” [41] passou a ser objeto de interessantes políticas públicas orientadas pelos tomadores de decisão de uma democracia incipiente, ainda receosa do papel do Estado [42]. Contudo, o brasileiro de forma geral, e o gaúcho, por extensão, seguiam de costas para os vizinhos de América Latina [43], ao arrepio do parágrafo único do art. 4º da Constituição, a estabelecer: “A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”.

Alguns passos foram dados para a implementação de um Mercado Comum do Sul, alternativa condizente em face dos blocos que se formavam em todo o globo. Porém, ao contrário de outros modelos, com perspectivas nitidamente integracionistas e que desde logo previram moeda comum e união jurídico-política, entre nós se pleiteava tão-somente o livre trânsito de mercadorias. E até mesmo isso comprovou ser demasiado. De qualquer sorte, a inclusão do Mercosul na pauta do dia reavivou as velhas e polêmicas questões sobre as aproximações e os rechaços entre os brasileiros e seus vizinhos hispânicos. E entre os gaúchos sul-rio-grandenses e seus correlatos platinos, de forma mais específica. Nessa égide, houve alguns intentos no tocante à implementação do ensino de língua espanhola nas escolas e recuperou-se o emblema das cidades fronteiriças para simbolizar a integração, em detrimento da antiga imagem de ameaça à segurança nacional. Ilustrando essa utopia, o parque internacional, entre Santana do Livramento e Rivera, voltou a centrar atenções e as fronteiras, se não abertas, pelo menos permeáveis, ocupou um lugar privilegiado em meio às especulações acadêmico-científicas.

Afinal, pôr a fronteira em pauta é tarefa que vai para além dos limiares do Estado, constituindo-se um tema de relevante conotação no sistema simbólico de cultura referencial, dos indicadores identitários, das marcas de pertencimento, da linguagem que separa e une e das narrativas que conformam os mosaicos da complexidade do mundo contemporâneo. A proposição de um debate sobre fronteiras implica, pois, a releitura do estar-se “fora do lugar”, mote comum dos estudos pós-coloniais e revigorado neste contexto de globalização. A fronteira em perspectiva vem, antes de tudo, desequilibrar o centro, romper com as tradições inventadas para silenciar as fraturas sob o manto homegeneizante do construto de nação e, por isso mesmo, recombinar as relações sociais “desencaixadas” num plano globalizante.

Tendo em vista a conformação do que restou definido por Habermas como pós-nacionalismo, a análise do ser intersticial conduz a certos questionamentos, incentivados pelos contornos da globalização. Antes de tudo, a partir de Giddens [44], pergunta-se: é possível a abordagem com base no sentimento de “estranhamento”, em plena era do “descentramento do sujeito” [45]? O que significaria, então, “estar afinado” com uma visão de mundo se o “desencaixe” passou a ser entendido como característica inerente às identidades da pós-modernidade? Além disso, o que corresponderia ao “sentir-se em casa” em tempos de diáspora, de Internet, de empresas transnacionais? E onde seria “o centro” num plano em que a margem pode, a qualquer momento, subverter a ordem estabelecida [46]? “Estar do lado de fora” não seria, pois, simplesmente uma questão de ângulo?

Esses questionamentos têm ocupado espaço privilegiado na esfera de produção científica hodierna e explicam a retomada do interesse pelas fronteiras. A partir da crítica pós-moderna, o “centro” tomou consciência da sua própria “crise da centralidade” e a promoção do “culto das margens” veio a consagrar os entre-lugares:

Uma emergência que, ao ocorrer em paridade com a de uma amálgama de fenômenos híbridos e virtualmente nómadas, parece dotar a fronteira de uma particular sensibilidade para pensar a relação entre as margens e os centros, vocacionando-os para questionar de modo fecundo, isto é, em termos de transgressão necessária, os limites sugeridos pela modernidade. A novidade, a haver alguma, não radicará tanto na possibilidade da transgressão quanto, sobretudo, no culto dessa transgressão, na promoção da fronteira enquanto local promíscuo, e, por isso mesmo, espaço natural de uma “subjetividade emergente”.[47]

A Sociologia e Literatura Comparada vêm, há tempos, operando como elemento de subversão da ordem estabelecida pelas culturas nacionais. De certa forma, poder-se-ia afirmar que os estudos comparatistas se anteciparam à derrocada dos nacionalismos, definindo, já com Goethe, uma perspectiva pós-nacionalista e multiculturalista da produção literária com a cunhagem do conceito de Weltliterature. Também a tradução, como paradoxo que é de, a um só tempo, suprimir as diferenças entre uma língua e outra e revelá-las mais plenamente, recriando noções literárias e enriquecendo os sistemas que interagem entre si, tem desempenhado relevante função na queda de barreiras.

O papel político da Literatura tem sido destacado há tempos. Segundo Culler, “a literatura sempre se preocupou com questões de identidade e as obras literárias esboçam respostas, implícita ou explicitamente, para essas questões” [48], porque, para ele, “a literatura não apenas fez da identidade um tema; ela desempenhou um papel significativo na construção da identidade dos leitores” [49]. E não seria agora, em que se debatem os impactos da perspectiva pós-tanta-coisa, que a Literatura se furtaria desse papel que sempre assumiu como seu. A propósito, Chiappini comenta: “Não é ocasional se o debate multicultural tem lugar nos departamentos de literatura e estudos étnicos e não nos de sociologia ou filosofia nos Estados Unidos. Porque a literatura sempre deixou dialogar a contradição e tematizou os estereótipos” [50].

Também Szegedy-Maszak faz questão de recordar que a percepção do deslocamento da visão do mundo atrelado à perspectiva globalizante pôde, em muitos casos, ser compreendida por meio de narrativas que abordavam a experiência da “nova migração” ou do exílio, citando o exemplo de Imre Kertész, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2002: “Kertész has a double identity: history forced him to see himself as belonging both to ‘us’ and to the ‘other’, and his language reflect this” [51].

Contudo, para os brasileiros, não é preciso ir tão longe para se considerar um escritor que, a um só tempo, pertence a um “nós” e a um “outro”. Sergio Faraco, escritor gaúcho, alegretense, enfim: um brasileiro na confluência do Prata, é também um precioso exemplo de subversão das fronteiras nacionais da literatura e de comemoração do diálogo e do multiculturalismo. Um escritor fronteiriço, fora do centro, ocupando o entre-lugar nesse contexto que coloca gaúchos sul-rio-grandenses às margens da própria margem (se considerado que o Rio Grande do Sul é marginalizado mesmo frente à marginalizada economia brasileira), Sergio Faraco e sua literatura é o tema a ser abordado nas próximas linhas que seguem.

 

4. “Cria enjeitada”: a literatura sul-rio-grandense entre o cenário literário brasileiro e a escrita platina

A literatura sul-rio-grandense, a pesar de orientada por princípios ideológicos de rechaço ao Prata, recebeu dele várias influências, estabelecendo um interessante diálogo com esse outro. Na afirmação da gauchidade brasileira, a perturbadora influência platina fez-se sentir mesmo quando o objetivo primordial era negá-la. Está-se com Aguiar:

Quando os românticos da região quiseram criar o romance local, seus modelos iniciais foram Macedo, Alencar, e outros escritores sediados na Corte, e não escritores do Prata. Mas tematicamente, e em termos de paisagem cultural, as marcas de região eram mais próximas das platinas do que da Baía da Guanabara. Isto fez que o Rio Grande do Sul, seguindo a terminologia proposta pelo crítico uruguaio Ángel Rama, integrasse o sistema brasileiro, mas fizesse parte (até hoje) de uma “comarca pampeana”, que se desdobra em duas línguas (espanhol e português) e três países, Uruguai, Argentina e o sul do Brasil. Essa proximidade ao Prata foi deixando marcas indeléveis na cultura gaúcha. Já na época da República, um escritor como Simões Lopes Neto, autor de Contos Gauchescos, de Lendas do Sul e também do hilariante Causos do Romualdo, revela traços mais nítidos de contato com um escritor argentino como José Hernández, autor do poema Martín Fierro, que consolida a literatura argentina.[52]

Com efeito, o influxo platino, visto com maus olhos pela crítica tradicional, conferiu peculiaridade aos textos da literatura fronteiriça, “possibilitando uma visão múltipla das culturas latino-americanas meridionais em diálogo” [53]. Masina [54] testemunhou a influência de escritores platinos não apenas sobre Simões Lopes Neto, mas também sobre uma vasta gama de escritores gaúchos como Alcides Maya, Aureliano Figueiredo Pinto, Aparício Silva Rillo, Darcy Azambuja e Luis Carlos Barbosa Lessa. A trajetória e os conselhos de Martín Fierro, por exemplo, fazem parte, também, do imaginário do povo do Rio Grande do Sul. A propósito, Cyro Martins admitiu ter influências de José Hernández e mencionou que ouviu Martín Fierro sendo declamado na campanha, nunca tendo esquecido da exclamação emocionada de um chiru velho na ocasião: "Decerto esse foi o gaúcho mais valente que existiu!" [55].

Muitos escritores do Rio Grande do Sul, rompendo com a construção mítica do gaúcho e deitando o olhar sobre o homem simples da campanha, assumiram papel quase de denúncia social, especialmente na abordagem que se dava ao outro castelhano. Entretanto, a representação do imaginário das fronteiras deu-se com maior nitidez na narrativa de escritores como Aldyr Schlee e Sergio Faraco. Especialmente este último desempenhou papel exponencial na subversão da perspectiva nacionalista do Pampa, deixando dialogar as semelhanças e as diferenças entre gaúchos e gauchos, não como uma questão de bandeira, mas de tipos humanos.

Escapando ao mito e à caricatura, Faraco retomou a figura do gaúcho como homem, ou hombre, sem desprezar a posição privilegiada que lhe conferiu o estar no “entre-lugar”: nem aqui, nem lá; nem de uma, nem de outra nação; nem da cidade, nem do campo; nem civilização, nem barbárie - e, ao mesmo tempo, tudo junto. Enfim, a obra de Faraco retrata o trânsito entre culturas, o que justifica o interesse de diversos países por sua publicação, entre os quais se destacam: Alemanha, Argentina, Bulgária, Chile, Colômbia, Cuba, Estados Unidos, Paraguai, Uruguai e Venezuela.

Ao consagrar a fronteira como sinônimo de integração, e não de ameaça, e privilegiar os tipos humanos numa perspectiva pós-nacionalista, Faraco foi reconhecido pela crítica brasileira e mereceu, dentre outros, o Prêmio Nacional de Ficção, atribuído pela Academia Brasileira de Letras, pela coletânea Dançar tango em Porto Alegre, considerada a melhor obra de ficção publicada no Brasil em 1998. Mas a influência platina na sua escrita não pode ser justificada tão-somente pelo viver a fronteira - o Alegrete, para ser mais específico. Há que se considerar os quase trinta livros que Faraco traduziu: quase todos do espanhol; muitos de escritores platinos.

Dentre os vários autores traduzidos por Faraco (pode-se elencar: Mempo Giardinelli, Juan José Morosoli, Horacio Quiroga, Eduardo Galeano, Roberto Arlt e Miguel de Unamuno), um é especialmente mencionado pelo registro de uma amizade iniciada pelas vias dos trâmites autorais: Mario Arregui, cujas obras Cavalos do amanhecer e A cidade silenciosa conformam um trabalho tradutório laborioso consignado na correspondência trocada durante quase quatro anos entre ambos. No interregno em que Faraco e Arregui se corresponderam, o uruguaio preparou Ramos generales, de publicação póstuma, e Faraco escrevia Noite de matar um homem, Doce paraíso e A dama do Bar Nevada.

As aproximações entre ambos, além do evidente vínculo literário, foram observadas por Alvaro Barros-Lémez, na Introdução de Correspondencia:

Estos hombres, latinoamericanos, escritores [...] ambos residentes de ciudades no principales de sus países, de lenguas emparentadas pero no idénticas [...] se “amigan” a través de papeles escritos y enviados, que encuentran puntos en común y también en desacuerdo, que discuten de “lo divino y de lo humano”.[56]

A identificação entre eles foi expressa, desde o início, por Faraco, quando afirmou a Arregui: “Conozco tu trabajo desde hace más de cinco años. Periódicamente voy a la frontera - donde poseo algunas tierras - y a veces visito Rivera y Bella Unión, como paseo o para hacer algunas compras. En un pequeño almacén de Bella Unión, hace varios años, compré dos libros: El narrador y Tres libros de cuentos[57]. A seguir, mencionou: “me gustaron mucho tus relatos, la mayoría relacionados al campo y, alguno de ellos, creando un cierto perfil del gaucho” [58].

Embora se tenha a consciência de que dados biográficos não embasam, por si só, uma análise literária de credibilidade, a amizade (e identificação) entre ambos escritores interessa na medida em que um exerce influência sobre a obra do outro. A identificação estabelecida em função da paisagem, dos tipos humanos e da forma que reitera e reinventa a “nacionalidade” gaúcha levou Faraco a investir nesse labor tradutório com “la intención de destacar la errónea masificación de nuestro rostro cultural (Uruguay y Rio Grande con sus semejanzas)” [59]. Os influxos que nortearam a relação entre ambos conformaram um duplo sentido: não só Arregui inspirou e incrementou a obra de Faraco, mas também o brasileiro exerceu importante papel sobre o trabalho do uruguaio. Senão vejamos: os livros de Arregui publicados no Brasil ostentam títulos propostos por Faraco: “Cavalos do amanhecer”, conto que dá nome ao primeiro livro, originalmente se chamava “Un cuento con pozo”. Também “Lua de outubro”, que recebeu bastante destaque no cenário sul-rio-grandense ao receber versão cinematográfica, originalmente chamava-se “Un cuento con insectos” e, aceitando sua dificuldade com títulos, Arregui decidiu trocá-lo por sugestão de Faraco. Numa carta de 24 de março de 1983, inclusive, Arregui enviou um conto, sem título, justificando-o da seguinte forma:

Sobre el cuento adjunto: Allá por los primeros días de diciembre, a poco de volver del Brasil, le dije a Dorita: “Tengo ganas de escribir un cuento para Faraco y los brasileños”. Después de una semana o más de búsquedas, encontré el tema. [...] Te lo mando sin título y dejo el bautismo a tu elección. Tanto Dorita como Alejandro - que aprobaron con entusiasmo los dos títulos que cambiaste en la traducción - me dijeron lo mismo: “Dejá que sea Faraco el que ponga el título”.[60]

Já a segunda publicação de Arregui no Brasil, teve o título decidido por meio da carta enviada por Faraco, em 02 de maio de 1984:

El tema del título general, con tu acuerdo, podría estar resuelto: A cidade silenciosa (cambiando el título de Mis amigos muertos). Llegué a pensar también en Cabeças cortadas (cambiando el título de El canto de las sirenas), que también suena bien en portugués, pero A cidade silenciosa me parece más ajustado, más de acuerdo con el contenido.[61]

Nessa esteira, evocando, com Carvalhal, a etimologia (traducere, do latim, que significa “levar além”) para elaborar a imagem do tradutor como o “barqueiro” [62], percebe-se que Faraco, ao deslocar a gauchidade de um determinado contexto histórico-cultural, fez emergir novas significações. Afinal, o horizonte de experiência histórica que o tradutor, enquanto leitor, traz para a sua interpretação do original faz com que ele produza novos significados [63]. Eis que Faraco reconheceu na literatura de Arregui muitos elementos que integram sua experiência e preencheu o texto do outro com as projeções guiadas pela sua imaginação, inserindo-se num espaço polifônico de construção de sentidos. Na orientação que lhe confere Campos, dir-se-ia que o trabalho tradutório de Faraco delineou-se como uma verdadeira “recriação” [64].

Embora as cartas trocadas por Faraco e Arregui sejam, por si só, um material mais do que adequado para digressões no âmbito dos Estudos de Tradução, não é esse o ponto a conduzir a discussão em tela. Não obstante, é inegável que o trabalho de tradução pôs Sergio Faraco em consonância com a escrita do Prata, influenciando em sua senda como contista, de forma que, em certo momento, chegou a confessar a Arregui:

[...] mi trabajo como traductor es pagado por la editorial, calculado sobre el número de páginas. Para serte franco, so sé cuánto es y por ahora no se me ocurrió ni preguntar. La idea de traducir tu libro fue una corazonada. Me gustó tanto el trabajo y aprendí tanto, que a esta altura hasta me considero deudor.[65]

Nessa trilha [66], Faraco - tradutor de Arregui e Faraco - traduzido por Sandra, a nora de Arregui - além de todas as outras traduções que permitiu para o castelhano e de todos os outros castelhanos que traduziu - o escritor em pauta soube concentrar, em seus contos, a medida exata do espaço transfronteiriço, com seu hibridismo, sua permeabilidade, seu incessante acolhimento de influxos culturais diversos em que se tornam visíveis as questões atinentes à representação da identidade - alteridade e os sintomas de resistência aos processos de homogeneização cultural. Assim, literatura gaúcha, cria enjeitada do sistema literário brasileiro, adquiriu peculiaridade e pôde, através das influências do Prata, conformar-se como a comemoração literária da margem, da diferença, da alteridade. E os contos de Faraco são a melhor expressão dessa capacidade de retratar o entre-lugar da cultura fronteiriça sul-rio-grandense.

 

5. Fronteira, violência e alteridade em “Dois guaxos” e “Travessia”

A condição de ser fronteiriço permeou a cultura rio-grandense. E essa referência evoca tanto a cultura em seu sentido amplo, como em termos de cultura artística e letrada. O homem da campanha, o homem simples, honrado ou desregrado, posicionado nesse entre-lugar de autoridades, leis e ordens, a conviver com a violência, com as regras próprias da luta pela sobrevivência, tem sido um relevante tema em face da expressão artística. É certo que a prerrogativa de conviver com a violência institucionalizada não é um privilégio do gaúcho; menos ainda do fronteiriço [67]. Não obstante, é inegável que, talvez como em nenhum outro repertório artístico, a violência, aqui, é alardeada com ufania, reafirmando o descrédito pela autoridade e a promoção de meios privados de persecução criminal (o popular “fazer justiça com as próprias mãos”). Vide letras de música (“mas se alguém me pisar no pala / o meu revólver fala / e o buchincho está feito”) e inúmeras menções da literatura.

Segundo Masina, “a expressão da crueldade nas literaturas de fronteira decorreu da necessidade de exorcizá-la, nomeando-a e explicitando-a para superar o assombro e o horror que sempre causa” [68]. E, se as épocas de guerra, com a degola, com a violência sexual, com a castração, com a tomadia institucionalizada, fazem parte do passado dessas terras, o mesmo não pode ser dito com relação a outras facetas da crueldade. A violência ainda está inserida no cotidiano do homem fronteiriço de várias formas: seja por meio da violência física e de cunho sexual; seja por meio da violência simbólica, a negar-lhe a identificação com o que, de fato, é: um gaúcho / gaucho, um homem rústico, um espoliado, um pai de família em busca da sobrevivência, ou através da negação da infância, do desenvolvimento em condições dignas, a negação do afeto, da paz de espírito.

A obra de Faraco está repleta desse telurismo a realçar “a questão da fronteira como uma espécie de provação, com seus ritos de passagem, ou condenação a um sofrimento sem fim” [69]. Em seus contos, o personagem, muitas vezes, é um menino ou um jovem, ou um forasteiro ou gente da cidade, mas, via de regra, a trama envolve alguém que está aprendendo a viver na fronteira, com seu olhar de estranhamento ou de ingenuidade em frente às práticas do chibo (contrabando de pequeno porte), dos costumes e dos dramas campeiros. O sentimento de estar no “entre-lugar”, com um pé do lado de lá e outro do lado de cá, é acentuado pelo retrato da fronteira, tão permeável quanto a própria linguagem.

Tome-se como exemplo “Dois guaxos”, conto que retrata com crueza o sofrimento do homem frente a um destino sem escolha. A narrativa é em terceira pessoa, sob a ótica de Maninho, um guri de quem não se consegue definir a idade. O quadro de violência é notado desde logo, pela menção do maltrato e do descaso paterno. O único relato de afeto é a mais contundente prova da rudeza primitiva dos personagens: uma troca de carícias incestuosas numa noite em que a natureza decidira terminar de compor o quadro de dor. Sobre os recuerdos de Maninho com relação à irmã:

Viva na sua lembrança estava a noite em que o temporal arrebentara o zinco, destapando metade do ranchinho. Molhada, louca de frio, ela viera se deitar no catre dele. As chicotadas do aguaceiro na parede e [...] no meio da noite, do vento, da chuva que vinha molhar o xergão com que cobriam os pés, ela quisera que lhe chupasse o seio pequenino. A mornura e o cheiro do corpo dela, e seu próprio coração num galope estreito, uma emoção assim - pensava - não era coisa de se esquecer jamais. Que noite! [70]

Imiscuindo-se em seu carinho por Aninha, vinha o índio Cacho, a quem a mana se entregara. Maninho sofria sua perda, embora soubesse que:

[...] não sendo o bugre, ia ser outro qualquer, algum bombachudo que apeasse por ali e depois se fosse, deixando-a tristonha, solita... solita como se queda uma novilha prenha. E depois, ah, isso já se sabia, depois ia virar puta de rancho, puta de bolicho e no fim uma daquelas reiúnas que vira algumas vezes na carreteira, abanando em desespero para caminhão de gado.[71]

O destino da irmã não era bem uma surpresa, mas o ocorrido foi, para Maninho, como “um mangaço ao pé do ouvido”, razão pela qual decidira-se partir:

Um tirão até Itaqui, e depois... quem saberia?

Depois ia cruzar o Rio Uruguai, ou não cruzar, ou ia para Uruguaiana, Alegrete, ou para a Barra, Bella Unión, lugares dos quais ouvira um dia alguém falar.[72]

Sobre o texto em baila, uma das primeiras coisas a se fazer notar é a força da oralidade que supera, de certa forma, a distância entre o dito e o escrito. Está-se com Masina: “A competência para a recriação performática talvez seja um dos traços mais característicos da literatura fronteiriça do Brasil e que a aproxima de suas origens ibéricas e, sobretudo, rio-platenses” [73]. Em “Dois guaxos”, como em geral o é toda a obra regionalista de Sergio Faraco, a aproximação da narrativa ao caso tem lugar não somente pela escolha do gênero (o conto), como também pela linguagem a recriar o registro campeiro, com sua peculiar sintaxe, com silêncios e interjeições próprios. A condição de “entre-lugar” permeia não só a reprodução das falas de gente simples por meio do registro letrado e se expressa, ainda, no vocabulário imiscuído de castelhanismos e regionalismos próprios da campanha: charlas, recuerdo, solita, emborrachava, más allá... Na mesma trilha, o signo do “entre” é ponto a toda hora configurado: nem adultos, nem crianças; nem abandonados, nem criados com zelo; nem proprietários, nem sem-nada; nem analfabetos, nem educados; em algum lugar entre a civilização e a barbárie, os irmãos desse conto estão de tal forma esmaecidos que, da última vez que Maninho vê o pai, a chama do candeeiro “ia mermando, cedendo espaço às sombras” [74], e, ao despedir-se de Aninha, a tênue claridade “fazia do corpo dela um vulto acinzentado” [75], nem invisível, nem nítido.

A abordagem do incesto, da mesma forma, compõe, na narrativa, a esteira do entre: nem tabu, nem perspectivas moralizantes; nem abuso sexual no sentido estrito, nem carícias aceitáveis na ótica da “normalidade”. Não tendo mãe nem ninguém que zelasse por ela, em meio à chuva que violentamente lhe destelhara a casa e lhe molhava o catre, Aninha submetia-se à única forma de carinho que podia conhecer. Da mesma forma, para Maninho, o estímulo sexual requerido pela irmã não lhe pareceria proibitivo, assumindo, antes, uma conotação de amor, visto que Aninha parecia ser a única pessoa a se preocupar com ele. A atenção pós-sexual foi experimentada não como transgressão a acarretar remorso, mas como um modo de ser “especial”, desencadeando uma ansiedade que confundiu o guri com relação a seu papel frente ao objeto do desejo incestuoso [76]. Essa interpretação é reforçada não só pela linguagem saudosista da narrativa, como também pelos ciúmes que Maninho sentia de Cacho e a raiva que tinha do pai por este não se importar com a filha. Violência, para o irmão, seria antes o coito (consentido) com o bugre que “desde o primeiro dia, vendo Aninha, não disfarçara suas miradas de cobiça, sua tenção de abuso grosso, e o descaro era tamanho que até se apalpava em presença dela” [77].

Não se animando a matar o índio, Maninho decide, por fim, partir da chacrinha. A sina da irmã era previsível e, talvez por isso, não sentia raiva. A estréia com o bugre era quase um ritual de passagem para a vida de “puta” que o destino assegurara a Aninha. As regras do jogo determinadas pelo costume e pela ética campeira são vividas com o determinismo de uma tragédia grega. A única salvação possível era a fuga para um outro mundo, “más allá das canchas de osso e dos bolichos da Vila do Bororé” [78], que podia incluir, ou não, o cruzamento da fronteira. Como Édipo desterrado, Maninho parte rumo ao seu próprio destino de adversidades, angústias e incertezas, carregando a dor da mãe morta e as lembranças da irmã - e esse destino independe da travessia do rio: tanto do lado de lá como no daqui, as agruras seriam as mesmas.

Se a imagem da travessia induz o leitor ocidental a lembrar de Caronte, o barqueiro das almas, a cruzar o rio que separa a vida da morte, as chalanas de Faraco sugerem um ritual menos apocalíptico, embora não menos desgraçado. Ir daqui para lá ou de lá para cá dá igual para quem sabe, de antemão, que independentemente de pátria, governo ou autoridade, seguirá à margem. E é por isso que, também para os chibeiros do conto “Travessia”, a definição do “Outro” não se dá por critérios de nacionalidade. Entre Alvear e Itaqui há mais do que um rio: nota-se uma “zona de confluência” a irmanar os homens sujeitos a esses fluxos de deslocamento para ganhar a vida. E o “inimigo” é, como sempre foi, o representante da autoridade de um Estado conformado em especulações longínquas e indiferentes ao homem fronteiriço, um Estado do qual pressente não fazer parte, com o qual não compartilha benesses e por isso, rechaça o seu monitoramento reflexivo. Para além da crise que assola o elemento jurídico-político do Estado como um todo, o indivíduo submetido ao entre-lugar da jurisdição sofre, ainda, com a negação de seu rosto e de seu sustento nesses confins empobrecidos pelo descaso dos tomadores de decisão. Excluídos da atividade estatal no tocante ao cumprimento com os deveres da nação, esses homens são re-inseridos no sistema como devedores, invasores, criminosos.

A identificação desse personagem que sobrevive à fronteira (e da fronteira) está conformada a partir de um vínculo com o lugar, muito mais do que com o espaço, constituindo um auto-reconhecimento precário e desvinculado das noções de pátria ou nacionalidade. Tomando vinho, no rancho de André Vicente, em Alvear, Tio Joca “como sempre, contou velhas e belas histórias de lutas de chibeiros contra os fuzileiros do Brasil” [79]. Irmanados pelo ofício ou por algum outro vínculo que não se consegue identificar, os personagens de “Travessia” são um só grupo social, tanto faz se numa ou noutra margem do Rio Uruguai. Não é possível sequer lhes definir a nacionalidade. André e Zaira são nomes próprios que podem provir tanto do português quanto do espanhol e o diminutivo Carlito tampouco causa estranhamento num contexto em que aparecem construções frasais como: “A mulher de André Vicente gostava de me dar confiança porque no tenía hijos[80]. Se eles são argentinos ou brasileiros a morar em Alvear pouco importa, visto que até mesmo os fuzileiros, os representantes da autoridade da Nação brasileira, têm sua linguagem influenciada pelos castelhanismos locais. Ao fim do conto, diz o tenente: “Bueno, venham daí, eu puxo essa chalana rio acima” [81]. E, em seguida, passando a mão na cabeça do menino: “Tão chico e já praticando, hein? Essa é a vida” [82]. Os exemplos da interferência entre os idiomas (grifadas, aqui, num itálico inexistente no texto original), a ter lugar inclusive entre os representantes do Estado, são relevantes ante a observação que César já tece a propósito desses pagos em que a marca da cidadania era feita pelo idioma, pois, no anonimato do entre-lugar pampiano, “a fala materna fazia as vezes de certidão” [83].

É de notar, ainda, que a narrativa transcorre ao arrepio de juízos de valores. Gente simples, em busca de seu sustento, nada mais, os chibeiros têm seus vínculos e suas crenças, uma religiosidade própria: apegam-se a seus santos e ,“nos arreglos mais piçudos” [84], quando estes já não resolvem, tratam “direto com o patrão” [85]. São fortes e se dispõem a enfrentar a correnteza e os redemoinhos do rio, “daqueles que podem engolir uma chalana com seu remador” [86], porque estão precisados: “fim de ano, véspera de Natal, uma boa travessia, naquela altura, ia garantir o sustento até janeiro” [87]. Ao serem abordados pelos fuzileiros, não reagem: jogam a “encomenda” na água e disfarçam a razão de estar à deriva. O desfecho é duro e com certa dose de comoção, quando o guri observa a reação de Tio Joca:

Teso, imóvel, ele olhava para o rio, para a sombra densa do rio, os olhos dele brilhavam na meia-luz da popa e a gente chegava a desconfiar de que ele estava era chorando. Mas não, Tio Joca era um forte. Decerto apenas vigiava, na esteira de borbulhas, o trajeto da chalana vazia.[88]

Os contos de Sergio Faraco detêm-se nas agruras dos chibeiros, na impossibilidade de se escapar aos infortúnios da vida na fronteira, fazendo uso de uma narrativa bastante realista e, por vezes, crua. Por outro lado, sua narrativa foge de forma inegável à imagem do gaúcho “macho” para introduzir valores em contraste com todo um repertório literário anterior conivente com a figura do “monarca das coxilhas”. Atormentado pelas suas angústias, o personagem Tio Joca seguiu o seu caminho sem enfrentar a polícia. Ao inserir na sua narrativa o homem-homem, com suas quedas, suas recaídas e até com suas traições, o texto de Faraco aproxima-se da escrita platina, especialmente de Mario Arregui, ao se retomar, por exemplo, o conto “Os contrabandistas”. Pois o uruguaio também tomou para si a tarefa de escrever sobre contrabandistas às margens do Jaguarão. Tome-se, ainda, por exemplo o personagem Rulfo Alves, “homem tempestuoso e temido que mais de um crime de sangue devia a cada lado da fronteira” [89], e as descrições das interferências entre os dois idiomas nas fronteiras pampianas, como nesse diálogo entre os irmãos Pedro e Juan Correa, personagens de Arregui:

- A vontade que eu tenho é de degolar essa mula - dissera ele, com acento fortemente abrasileirado.

- Se degolas a mula - acabava de dizer Juan, com acento igual -, Rulfo te degola.[90]

Com efeito, a identificação entre ambos escritores, Faraco e Arregui, não é casual. Certamente, não foi o trabalho de tradução que os aproximou, mas antes o contrário: a identificação latente entre ambos fez com que Faraco se lançasse a traduzir o uruguaio. Conforme Pesavento, não é de estranhar a semelhança entre ambos:

Ora, existe sempre como que um mercado de idéias e imagens, que viajam no tempo e no espaço, sendo a escrita sempre um palimpsesto, em que é possível ler, em um autor, a presença das idéias do outro, ainda mais quando são vivenciados, historicamente, problemas comuns.[91]

Finalizando, cabe destacar que os dois contos de Faraco analisados pertencem ao livro Noite de matar um homem, escrito no período em que o escritor brasileiro trocou correspondência com Arregui. Embora muito ainda houvesse a ser dito, encerra-se, aqui, este trabalho, com a certeza de que, ainda que não se tenha atingido verdades absolutas (como desde o início se refere não ser o escopo), a questão dos influxos platinos na literatura brasileira, especialmente a sul-rio-grandense, tema tão controvertido e visto com tão maus olhos pela crítica tradicional, pode vir a conferir um importante apanágio em face da necessidade de se pensar o regional em relação dialética com os fenômenos pós-modernos.

 

Considerações finais

De que servem os roupantes nacionalistas, a negar as diferenças do sistema literário brasileiro num contexto de esvaziamento do Estado nacional? Estado, sociedade e economia não são mais os mesmos após a permeabilização das fronteiras nacionais. Nem a cultura. E, diante dessa perspectiva em que se pergunta o que restaria para os localismos, os regionalismos, os nacionalismos, ou o termo que se queira empregar para identidades particularistas, ante os sobressaltos do Umwelt, retoma-se Hall, [92] que postulou três possíveis conseqüências, a saber: (a) as identidades “locais” estariam se desintegrando como resultado da homogeneização cultural; (b) elas estariam sendo reforçadas pela resistência à globalização; (c) elas estariam em declínio, em detrimento de novas identidades (híbridas) que tomariam seu lugar.

No tocante à literatura sul-rio-grandense, a partir do escritor analisado, Sergio Faraco, podemos arriscar que todos os três itens são verdadeiros. Senão vejamos: a literatura sul-rio-grandense se “desintegrou” como resultado das forças pós-nacionais. Mas isto apenas se considerada no seu sentido tradicional, de literatura comprometida com a invenção de tradições, no sentido que lhe dá Hobsbawm [93], de literatura comprometida com a manutenção da centralidade do poder e da autoridade no Brasil, a negar as fraturas sob o teto homogeneizante do Estado-nação. Por outro lado, a escrita sulina tem sido reforçada como resistência à globalização. O crescente interesse pela literatura dos gaúchos pode ser observado no aumento de tiragem, de vendas, de reconhecimento pela crítica e até mesmo de bilheteria, quando consideradas obras adaptadas ao cinema. Não esqueçamos o exemplo de “O quatrilho”, baseado na obra homônima de José Clemente Pozento, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 1996, consagrando a produção cinematográfica brasileira, após longo período de ostracismo, e a literatura e os temas sul-rio-grandenses. Finalmente, é impossível negar que uma nova identidade vem se conformando entre os pampianos. O gaúcho não mais se considera mais um sul-brasileiro tão-somente. Veja-se o grito das torcidas de futebol quando em partida contra times do centro do país: “Ah! Eu sou gaúcho!”. Ou a declaração do judoca João Derly, quando conquistou o primeiro ouro do Brasil em mundiais: “É chato ser gaúcho. A melhor modelo do mundo é gaúcha, o melhor jogador de futebol do mundo é gaúcho e, agora, o melhor judoca do mundo é gaúcho”, disse referindo-se à boa companhia de Gisele Bündchen e Ronaldinho Gaúcho entre “os melhores”. Percebe-se que o habitante do Rio Grande do Sul já não se considera um soterrado pela cultura do centro, pois assume e enfatiza suas diferenças, seus contornos próprios. E isso se reflete na literatura. Com maior autonomia, o gaúcho pôde voltar-se mais aos seus vizinhos platinos. Embora as rivalidades do futebol não tenham permitido contato maior, houve uma considerável aproximação. Talvez, não seja o caso de afirmar que uma identidade híbrida tenha tomado o lugar da auto-imagem do gaúcho, mas, isto sim, que a crise de centralidade tenha deixado transparecer um hibridismo há muito existente. Mas as influências culturais platinas continuam a operar e quem sabe o quanto ainda podem transformar as identidades fronteiriças. Enfim, o importante é que gaúcho, e sua posição no entre-lugar da cultura, ocupando um espaço brasileiro privilegiado na confluência do Prata, pode, finalmente, assumir e cantar com ufania suas peculiaridades.

REFERÊNCIAS:

[1] KAHMANN, Andrea Cristiane. Mestranda em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Orientadora: Profa. Dra. Léa Masina.

[2] CARVALHAL, Tania Franco. O próprio e o alheio: ensaios de literatura comparada. São Leopoldo: Editora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2003. p. 11.

[3] MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Tradução de Maria D. Alexandre e Maria Alice Sampaio Dória. 5. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. pp. 176-177.

[4] MORIN, Edgar. O método. Tradução de Maria Gabriela Bragança. 2. ed., Lisboa: Europa-América, 1991, v. 1, p. 143.

[5] MORIN, Edgar. O método. Tradução de Maria Gabriela Bragança. 2. ed., Lisboa: Europa-América, 1991, v. 4, p. 163.

[6] Conforme Morin: “A complexidade não tem metodologia, mas pode ter seu método. O que chamamos de método é um memento, um “lembrete”. In: MORIN, 2001, p. 192.

[7] BOSSLE, João Batista Alves. Dicionário gaúcho brasileiro. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2003. p. 265.

[8] BEIRED, José Luis Bendicho. Breve história da Argentina. São Paulo: Ática, 1996, p. 18.

[9] BOSSLE, op. cit., p. 265.

[10] BOSSLE, op. cit., p. 265.

[11] BOSSLE, op. cit., p. 265.

[12] A propósito, Augusto Meyer pondera que, antecedendo o vocábulo “gaúcho”, aparecia nos documentos de uma e outra banda a palavra “gaudério”, aplicada a “aventureiros paulistas que desertavam das tropas regulares, identificando-se com a vida rude dos coureadores e ladrões de gado”. Nesses termos, o gaudério teria ficado conhecido como aquele que tem por costume vender o que não é seu. (MEYER, Augusto. Prosa dos pagos. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1960. p. 19).

[13] MEYER, Augusto. Prosa dos pagos. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1960. p. 25.

[14] Id. Ib., p. 25.

[15] Emprega-se o termo em sua acepção regional de “cavalo ou boi e, por extensão, a coisa que, não se sabe a quem pertence; forasteiro, de outra terra”. (cf. Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira. Pequeno dicionário da língua portuguesa. 4º. vol. 11. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1972. p. 1161)

[16] MASINA, Léa. O contrabando na confluência de culturas. In: CASTELLO, J. R. et al. (Org.) Práticas de integração nas fronteiras: Temas para o Mercosul. Porto Alegre: Edufrgs / Goethe / ICBA, 1995. p. 165.

[17] Id. Ib., p. 167.

[18] CÉSAR, Guilhermino. O contrabando no sul do Brasil. Caxias do Sul: Universidade de Caxias do Sul / Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1978, p. 43.

[19] Id. Ib., p. 43.

[20] REVERBEL, Carlos. O gaúcho: aspectos de sua formação no Rio Grande do Sul e no Rio da Prata. Porto Alegre: L&PM, 1998, p. 80.

[21] Id. Ib., p. 89.

[22] LEENHARDT, Jacques. Fronteiras, fronteiras culturais e globalização. In: MARTINS, Maria Helena (Org.). Fronteiras culturais: Brasil - Uruguai - Argentina. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002. p. 27.

[23] Id. Ib., p., 29.

[24] MARTINS. Pagos, passagens e incertezas. Disponível em:
http://www.celpcyro.org.br/documentos/Pagos_passagens_incertezas.pdf Acesso em: 10 fev. 2004.

[25] Menção à obra “A República”, em que Platão advoga por banir a poesia (e toda criação artística, por extensão) da República, por se tratar de uma imitação em terceiro grau. Para o filósofo, a natureza tem origem divina, e tudo o que se cria a partir dela é uma imitação em segundo grau. O artista situar-se-ia numa terceira instância, visto que imita a aparência, ou seja, busca inspiração no que existe concretamente, razão pela qual ele se afastaria da Verdade e do mundo das idéias. O poeta criaria, pois, ilusão.

[26] A perda da Cisplatina representou a perda do gado uruguaio e acentuou os conflitos já existentes entre os chefes da oligarquia rural gaúcha com o centro. Em 1835, eclodiu, então, a Revolução Farroupilha, proclamando a República Rio-Grandense em 1838. Até 1839, o movimento assumiu uma relevante trajetória, conquistando Pelotas e Rio Pardo, além de invadir Santa Catarina. Cabe ressaltar, porém, que a barra do Rio Grande permaneceu legalista. Assim, conforme Pesavento, “foi só através das ligações com o Prata, das exportações por Montevidéu e dos contínuos reforços em munições e cavalos, que chegavam da Banda Oriental, que os farrapos puderam sustentar 10 anos de luta contra o Império”. (Cf. PESAVENTO, Sandra Jatahy. História do Rio Grande do Sul. 9. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2002., p. 38.)

[27] AREND, João Cláudio. O mito do gaúcho-herói e o imaginário social em “Contos gauchescos e lendas do sul”. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em História - Mestrado) - Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 1995. f. 44.

[28] PESAVENTO, Sandra Jatahy. Gaúcho: mito e história. Letras de hoje, Porto Alegre, n. 77, p. 55-63, set. 1989. p. 57.

[29] AREND, op. cit., f. 48.

[30] CÉSAR, Guilhermino. Notícia do Rio Grande: literatura. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro / Editora da Universidade, 1994., p. 39.

[31] César, aqui, cita JACQUES, Cezimbra. Assuntos do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Of. Gráficas da Escola de Engenharia, 1912. p. 52.

[32] CÉSAR, 1994, p. 42.

[33] MASINA, Léa. A gauchesca brasileira: revisão crítica do regionalismo. In: MARTINS, Maria Helena (Org.). Fronteiras culturais: Brasil - Uruguai - Argentina. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002. p. 94.

[34] Conforme dados fornecidos pela FAMURS (Federação da Associação de Municípios do Rio Grande do Sul), não havia eleições diretas nas consideradas “áreas de segurança nacional”, a incluir capitais, municípios de fronteira, estâncias hidrominerais e pólos de petróleo. Em função da localização privilegiada do Rio Grande do Sul e por vários de seus municípios estarem elencados nas prerrogativas supra, a restrição a eleições diretas para o Executivo Municipal atingiu várias cidades gaúchas. A título de exemplo, além de Porto Alegre, Canoas, Tramandaí, Torres, Osório, Quaraí, Uruguaiana, Iraí, Rio Grande, Porto Xavier, Santana do Livramento, São Borja, Itaquí, Horizontina, Tenente Portela, Jaguarão, Bagé, Dom Pedrito, Santa Vitória do Palmar e São José do Norte, entre outras não mencionadas aqui.

[35] Sucedendo a Castello Branco, o marechal Arthur da Costa e Silva, natural de Taquari, assumiu o poder em 15 de março de 1967 e governou até 31 de agosto de 1969, quando foi afastado do poder por motivo de saúde. Em 30 de outubro de 1969, tomou posse Emílio Garrastazu Médici, procedente de Bagé. Seu governo ficou conhecido como "os anos negros da ditadura" em função de o movimento estudantil, sindical e as oposições terem sido duramente silenciados pela repressão policial. Gaúcho de Bento Gonçalves, o general Ernesto Geisel assumiu a Presidência em 15 de março de 1974 e governou até 15 de março de 1979. Em seu governo, a dívida externa contraída para financiar as obras faraônicas atingiu US$ 9,5 bilhões e, devido ao expressivo crescimento das oposições nas eleições parlamentares de 1974, promulgou-se a Lei Falcão, que impedia o debate político nos meios de comunicação. O ciclo militar fechou-se com Figueiredo.

[36] GOLIN, Tau. Reflexos entre o gaúcho real e o inventado. In: GONZAGA, S.; FISCHER, L. A. (Coord.) Nós, os gaúchos. Porto Alegre: Editora da Universidade, 1992. p. 92.

[37] FAGUNDES, Antônio Augusto. E o gaúcho, morreu? In: GONZAGA, S.; FISCHER, L. A. (Coord.), op. cit., p. 95.

[38] GOLIN, 1992, p. 92.

[39] MASINA, 2002, p. 97.

[40] MASINA, 2002, p. 97.

[41] SANTOS, Boaventura de Souza. Linha de horizonte. In: SANTOS, Boaventura de Souza. (Org.) A globalização e as ciências sociais. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2002. p. 47.

[42] Há que se recordar o desgaste que foi para o governo Sarney a criação do Ministério da Cultura, depois extinto pela gestão de Collor. Visto mais como uma forma de escoar as verbas públicas, o financiamento da cultura só pôde se estruturar mediante a adoção de um padrão “misto”, associando recursos públicos aos de origem empresarial. Nesses termos, concebeu-se a Lei Rouanet (Lei n.º 8313/91), regulamentada pelo Decreto n.º 1494/95. Em âmbito estadual, tem-se a Lei de Incentivo à Cultura (Lei n.º 10.846/96).

[43] Lamentavelmente, não há programas para ajudar o artista brasileiro a devotar mais atenção aos países vizinhos, antes de migrar, temporária ou definitivamente, para algum centro de Primeiro Mundo. (A propósito, ver: DURAND, José Carlos. A cultura como objeto de política pública. Disponível em:
http://www.scielo.br/pdf/spp/v15n2/8579.pdf Acesso em: 10 dez. 2005).

[44] GIDDENS, Anthony. Modernidade e identidade. Tradução Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002. p. 221.

[45] Em tempo, a formulação de “descentramento do sujeito”, como aqui se a emprega, vincula-se a uma noção historicista, referindo-se ao deslocamento da psique, antes centrada, existente na época do capitalismo clássico, com seu Estado coagulante e identidades forjadas em face das tradições sociais e da família nuclear.

[46] Com freqüência, ouve-se dizer que, se uma borboleta bater as asas em Tóquio, poderá acarretar uma tempestade em Londres. A afirmação é, com efeito, uma ilustração da força, da multiplicidade e da complexidade das interdependências no plano hodierno. Nesse contexto imbricado, não há mais que se definir margem e centro, pois um é interdependente do outro. Um exemplo disso é a crise do México de 1995, que se alastrou pelo sistema financeiro internacional restando conhecida como “efeito tequila”, provocando efeitos devastadores mesmo nas economias supostamente dominantes.

[47] MARTINS, Rui Cunha. Portugal e Brasil: modernidade e fronteiras. In: KERN, Arno Alvarez (Org.). Sociedades ibero-americanas. Reflexões e pesquisas recentes. Porto Alegre: Edipucrs, 2000. pp. 138-139.

[48] CULLER, Jonathan. Teoria Literária: uma introdução. Tradução de Sandra Vasconcelos. São Paulo: Beca Produções culturais, 1999. p. 108.

[49] Id. Ib., pp. 110 - 111.

[50] CHIAPPINI, Lígia. Multiculturalismo e identidade nacional. In: MARTINS, Maria Helena (Org.). Fronteiras culturais: Brasil - Uruguai - Argentina. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002. p. 49.

[51] SZEGEDY-MASZAK, Mihaly. National literatures in the age of globalisation. In: COUTINHO, E.F.; BEHAR, L. B.; RODRIGUES, S. V. (Orgs.), Elogio da lucidez: a comparação literária em âmbito universal; textos em homenagem a Tania Franco Carvalhal. Porto Alegre: Evangraf, 2004., p. 220.

[52] AGUIAR, Flávio. A épica riograndense. Disponível em:
http://www.celpcyro.org.br/epica_riograndense.php Acesso em: 01 nov. 2003.

[53] MASINA, Léa. Martín Fierro na literatura brasileira: os rastros de um percurso. Disponível em: http://www.ceud.ufms.br/litcomp/forum/forum14.htm Acesso em: 06 nov. 2003.

[54] Id. Ib.

[55] MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Disponível em:
http://www.celpcyro.org.br/paraInicioConversa.php Acesso em: 01 nov. 2003.

[56] ARREGUI, Mario; FARACO, Sérgio. Correspondencia: 1981 - 1985. Montevideo: Monte Sexto, 1990.

[57] Id. Ib., p. 02.

[58] Id. Ib. p. 02.

[59] Id. Ib., pp. 44-43.

[60] Id. Ib., pp. 101-102.

[61] Id. Ib., p. 142.

[62] CARVALHAL, Tania Franco. Tradução e recepção da prática comparatista. In: CARVALHAL, T. F. O próprio e o alheio: ensaios de literatura comparada. São Leopoldo: Editora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2003. p. 219.

[63] Cf. VIEIRA, Else Ribeiro Pires. História e leitor: a potencialidade da estética da recepção para a contextualização da tradução. In: VIEIRA, E. R. P. (Org.). Teorizando e contextualizando a tradução.Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG e Curso de Pós-Graduação em Estudo Lingüísticos, 1996. p. 110.

[64] CAMPOS, Haroldo de. Da tradução com criação e como crítica. In: CAMPOS, H. Metalinguagem & outras metas: ensaios de teoria e crítica literária. São Paulo: Editora Perspectiva, 4. ed., 1992. p. 35.

[65] ARREGUI; FARACO. op. cit., p. 65.

[66] Paulo Betancourt entrevistou Faraco e fez a seguinte pergunta: “Você tem traduzido bastante. Tem algum autor que você até pagaria para traduzir? Quem e por quê”. Faraco respondeu: “Em regra, nenhum autor, mas, por exceção, eu pagaria para publicar uma tradução de Mario Arregui. Sobre ser ótimo contista, era um homem de um desprendimento e de uma modéstia quase inconcebíveis neste amargo tempo de egoísmo, de descarado arrivismo, e um amigo de uma lealdade extraordinária. Uma das maiores emoções da minha vida foi descobrir que ele tinha uma fotografia minha em sua mesa de cabeceira”. In:
http://pessoal.portoweb.com.br/sergiofaraco/entrevista.htm Acesso em 02 dez. 2005.

[67] Não há estimativa confiável sobre a “taxa de atrito” (que indica a diferença entre crimes cometidos e condenações judiciais conseqüentes) no Brasil, porém alguns índices apontam para a violência disseminada e institucionalizada. Uma edição da Anistia Internacional sobre a nossa dura realidade de desrespeito aos Direitos Humanos foi acertadamente intitulada: Brasil - “Aqui ninguém dorme sossegado”. E é notório que a promoção da violência conta com o apoio e a participação da polícia, do Judiciário e outras instituições amparadas pelo Estado. Para ilustrar: dados sobre o segundo trimestre de 1999 no estado de São Paulo apontam para um total de crimes estimados por pesquisa de vitimização de 1.330.434. No mesmo período, o índice oficial de criminalidade foi de 33% desse total (443.478 crimes). Em resposta a eles, foram instalados 86.203 inquéritos policiais (6,4% do total) e foram efetuadas 29.807 prisões, o que perfaz 2,2% do total de crimes estimado para o período. Eis o descrédito das autoridades e os meios propícios para a instalação da justiça retributiva privada. Cf. ROLIM, Marcos. Justiça Restaurativa: para além da punição. In: ROLIM, M. et. al. Justiça restaurativa: um caminho para os direitos humanos? Porto Alegre: Instituto de Acesso à Justiça, 2004. p. 08.

[68] MASINA, Léa. Tradição, transformação e renovação na literatura sul-rio-grandense de fronteiras. Organon, Porto Alegre, v. 17, p. 45 - 51, dez. 2003. p. 47.

[69] Id. Ib., p. 49.

[70] FARACO, Sergio. Contos completos. 2. ed. Porto Alegre: L&PM, 2004. p. 22.

[71] Id. Ib., p. 23.

[72] Id. Ib., p. 25.

[73] MASINA, 2003, p. 45.

[74] FARACO, op. cit., p. 24.

[75] FARACO, op. cit., p. 24.

[76] Cf. MILLER, Dusty. Incesto: o centro da escuridão. In: IMBER-BLACK, Evan (Org.). Os segredos na família e na terapia familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

[77]FARACO, op. cit., p. 23.

[78] FARACO, op. cit., p. 25.

[79] FARACO, op. cit., p. 33.

[80] FARACO, op. cit., p. 33.

[81] FARACO, op. cit., p. 37.

[82] FARACO, op. cit., p. 37.

[83] CÉSAR, Guilhermino. O contrabando no sul do Brasil. Caxias do Sul: Universidade de Caxias do Sul / Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1978. p. 44.

[84] FARACO, op. cit., p. 34.

[85] FARACO, op. cit., p. 34.

[86] FARACO, op. cit., p. 34.

[87] FARACO, op. cit., p. 35.

[88] FARACO, op. cit., p. 37

[89] ARREGUI, op. cit., p. 40.

[90] ARREGUI, op. cit., p. 32.

[91] PESAVENTO, Sandra Jatahy. Fronteiras e intertextualidade em O continente, de Érico Veríssimo. In: CHIAPPINI, L; MARTINS, M. H.; PESAVENTO, S. J. (Orgs.) Pampa e cultura: de Fierro a Netto. Porto Alegre: Editora da UFRGS / Instituto Estadual do Livro, 2004. p. 111.

[92] HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomás Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 7. ed. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2003. p. 69.

[93] HOBSBAWM, Eric. Nações e nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade. Tradução de Maria Célia Paoli e Anna Maria Quirino. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. p. 32.

 

© Andrea Cristiane Kahmann 2006

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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