Um tapete, uma viagem e um enigma:
Aproximações a La nave de los locos de Cristina Peri Rossi

Lélia Almeida

lelialme@yahoo.com.br
Universidade de Santa Cruz do Sul (Brasil)


 

   
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RESUMO
Grande parte da literatura de Cristina Peri Rossi é uma acurada reflexão sobre o exílio, tema este recorrente na literatura latino-americana contemporânea. É este o tema principal de um dos seus trabalhos mais polêmicos, La nave de los locos. Este romance, no entanto, traz também uma outra reflexão importante: sobre a identidade e representação da masculinidade na literatura escrita por mulheres.
Palavras-chaves: literatura de autoria feminina; literatura uruguaia; literatura de autoria feminina na América Latina; homens escritos por mulheres; gênero.

RESUMEN
Gran parte de la literatura de Cristina Peri Rossi es una acurada reflexión sobre el exilio, tema recurrente en la literatura latinoamericana contemporánea. Este es el tema principal de uno de sus trabajos más polémicos, La nave de los locos. Esta novela, sin embargo, presenta una otra reflexión importante: sobre la identidad y representación de la masculinidad en la literatura de autoría femenina.
Palabras-clave: literatura de autoría femenina; literatura uruguaya; literatura de autoría femenina en Latinoamérica; hombres escritos por mujeres; género.

 

(…) Extranjero. Ex. Extrañamiento. Fuera de las entrañas de la tierra. Desentrañado: vuelto a parir. No angustiarás al extranjero. Pues. Vosotros. Vosotros. Vosotros Los que no lo sois. Sabéis. Vosotros sabéis. Nosotros empezamos a saber. Cómo se halla. Cómo. El alma del extranjero. Del extraño. Del introducido. Del intruso. Del huido. Del vagabundo. Del errante. ¿Alguien lo sabía? Alguien, acaso, sabía cómo se encontraba el alma del extranjero? ¿El alma del extranjero estaba dolorida? ¿Estaba resentida? ¿Tenía alma el extranjero? Ya que extranjeros fuisteis en la tierra de Egipto. (p.10)

 

Um tapete, uma viagem e um enigma. Podemos considerar estes como alguns dos elementos chaves para a leitura da instigante narrativa da uruguaia Cristina Peri Rossi La nave de los locos, considerada um de seus textos mais difíceis e polêmicos.

Peri Rossi, nascida no Uruguai em 1941, de mãe italiana e pai basco, que começou a escrever nos anos 60 e transformou-se imediatamente numa jovem escritora talentosa e premiada, foi uma figura emblemática para toda uma geração de jovens que enfrentaria a ditadura no Uruguai e que teria de viver a dura experiência do exílio. Foi a primeira escritora que, ainda vivendo no Uruguai, a falar em seus romances, do Movimento Tupamaro, da luta armada, dos horrores da ditadura e sobre sexualidade ou homossexualidade. Toda esta ousadia custou-lhe a cassação de seus livros que foram proibidos de serem lidos e vendidos no Uruguai, o que lhe custou também o exílio rumo à Espanha, a Barcelona, cidade onde Peri Rossi construiu sua vida e uma obra singular de êxito e sucesso.

La nave de los locos [1], de 1984, narra a peregrinação de Equis, um estrangeiro exilado pelas ruas de grandes e pequenas cidades e seus encontros com os personagens mais insólitos e inusitados.

Equis em espanhol, é justamente o nome da letra X, o que nos diz de saída do caráter anônimo, desconhecido deste personagem que é um entre muitos perdidos nas grandes ou pequenas cidades do mundo, como vamos sabendo ao longo da narrativa.

Algumas descrições de como ele vive nos dão a medida de seus sentimentos relativos a esta vida errante, a esta condição de ser estrangeiro,

(…) A poco de llegar a una ciudad, Equis consigue trabajo - es muy hábil y puede ganarse la vida dictando clases acerca del romanticismo alemán o barriendo los andenes del metro, como taquígrafo en una empresa naviera o sirviendo platos en un restaurante -, alquila habitación, compra algunos libros (Equis se ha resignado a comprar los mismos libros en diversas ciudades), algunos discos (…) e instala dos o tres objetos familiares, carentes, en general, de cualquier valor que no sea el afectivo. No son siempre los mismos, porque Equis ha comprendido que en definitiva, su existencia, como la de casi todo el mundo, es una dialéctica entre la pérdida y la conquista, donde muchas veces extraviamos - por azar, desgracia u olvido - cosas que amamos y ganamos cosas que nunca quisimos obtener - por error, suerte o indiferencia-. (27-28)

(…) Es falso decir que Equis ha encontrado trabajo rápidamente en todas las ciudades en las que ha vivido durante esta larga e inconclusa peregrinación. Son tiempos difíciles y la extranjeridad es una condición sospechosa. El hombre sedentario- el campesino o el hombre de la ciudad que viaja sólo ocasionalmente, durante sus vacaciones o por asuntos de familia - ignora que la extranjeridad es una condición precaria, transitiva, pero también intercambiable; por el contrario, tiende a pensar que algunos hombres son extranjeros y otros no. Cree que se nace extranjero, no que se llega a serlo. (p.28)

(…) La mejor manera que tiene un extranjero de conocer una ciudad es enamorándose de una de sus mujeres, muy dadas a la ternura que inspira un hombre sin patria, es decir, sin madre, y también a las diferencias de pigmentación de la piel de un continente a otro. Ella construirá una ruta que no figura en los mapas y nos hablará en una lengua que nunca olvidaremos. Nos mostrará los puentes y los lugares secretos, nos adoptará como a niños de pecho, nos enseñará a balbucear las primeras palabras de un idioma nuevo, a dar los primeros pasos y a reconocer los árboles y los pájaros. En cuanto a esto último, no esté usted muy seguro. En las grandes ciudades donde solemos vivir ya nadie conoce los nombres de las plantas y de los pájaros. Por otra parte la mayoría de los árboles son de plástico, como los manteles. (p.38)

Uma viagem, a viagem de navio que inicia na primeira parte e que perpassa todos os capítulos de diferentes maneiras, fazendo referências literárias, reais, imaginárias a outras viagens e lugares. Viagens lidas, viagens narradas e viagens sonhadas. Todos os personagens viajam, de ônibus, de navio, de avião, um deles viajou até a lua. A viagem é o movimento do exilado.

Um tapete. O tapete da criação. Se trata do Tapete da Criação, da Catedral de Gerona, em alguma de suas viagens, Equis viu este tapete e se comoveu. Portanto, o que vai ser narrado nos capítulos que se seguem são as viagens de Equis, que correspondem a desenhos de partes do tapete, e que contam suas andanças por diferentes lugares reais e imaginários e seus encontros com diferentes pessoas, todas elas, vamos percebendo, de alguma maneira, exiladas, ou se não exiladas, marginalizadas, de tal maneira que podemos ir construído uma rede de significados em que marginalizados e exilados se misturam, em associação.

O encontro de Equis com a velha senhora, com o preso político, deste com a menina pequena, do homem que pisou na lua, os amores e afetos entre estas pessoas, as redes que começam a se estabelecer e os pares pouco comuns, díspares, os afetos dos velhos e das crianças, dos presos e dos loucos, das prostitutas e dos impotentes, uma verdadeira nave dos loucos, dos loucos soltos à deriva sem nunca ancorar, indo de cidade em cidade, estrangeiros, exilados.

Mesmo se analisássemos somente estes dois elementos iniciais dentro do texto, o tapete e a viagem, já poderíamos considerar a narrativa de Peri Rossi, completamente inovadora e original no que se refere à narrativa de autoria feminina dos anos 80 e 90 na América Latina, ou mesmo na de âmbito internacional.

A criação de um protagonista masculino é absolutamente atípica neste tipo de narrativa, comecemos por aí. Em sua grande maioria, tais narrativas contam com personagens femininas que vão ser as porta-vozes dos desejos e vontades das mulheres, os personagens masculinos são quase sempre secundários e muitas vezes nem aparecem. Peri Rossi escolhe um personagem masculino. E, pelo menos, na primeira parte da narrativa, as mulheres são escassas embora, da parte de Equis, haja uma simpatia e uma generosidade em relação a elas. Há uma suavidade no tratamento de Equis em relação a elas, podemos dizer que ele é amistoso, amoroso. Mas não podemos dizer que elas tenham alguma centralidade na narrativa. O deambular de Equis, o movimento do estrangeiro, sua errância é o próprio movimento do relato até aqui. É este movimento que é central na narrativa.

Outro elemento que chama a atenção é o tapete. Elemento tradicional da narrativa de autoria feminina que faz referência às tramas e ao trabalho de tecer e de se reconhecer no que se tece, referido num sem número de narrativas de autoria feminina e que remete também a inúmeras reinterpretações do mito de Penélope, aqui o tapete é escolhido por um homem, é de preferência masculina, ninguém o tece, Equis o escolhe, o admira, se mira nele por entender que todo, en el tapiz, responde a la intención de que el hombre que mira - espejo del hombre representado con hilos de colores - participe de la creación (p.20-21).

Partes intercaladas, tapete e viagens de Equis, a narrativa encaminha-se para o final onde aparece uma parte que divide o texto em ritmo e significado, precipitando-o para um final absolutamente surpreendente quando é proposto ao leitor um enigma que só será decifrado na última página do livro.

A parte que divide o livro em duas metades chama-se justamente Eva. E aqui começam narrativas de histórias de mulheres, dramáticas, muito bem articuladas, narradas por Equis, como a história de Lucía e o ônibus que leva a moças que vão abortar em Londres, a da viagem de Graciela que vai pesquisar sobre as africanas que são infibuladas, e a da prostituta espancada com quem Equis apenas dorme, sem manter nenhum tipo de contato sexual.

Estes episódios vão preparando para a cena final em que Equis apresenta o enigma, um enigma que aparece em sonhos recorrentes e que ele deverá responder.

É quando ele vê anunciado um espetáculo pornô no cartaz que diz Sensacionales travestis/ Hombres o mujeres?/ Véalos y decida Usted Mismo e assiste um espetáculo em que Lucía, a moça que foi fazer o aborto em Londres e com quem ele ficou muito envolvido, fazia uma dupla imitando Marlene Dietrich e alguém

(…) (un hombre disfrazado de mujer, o una mujer, un travesti, uno que había cambiado sus señas de identidad para asumir la de sus fantasías, alguien que se había decidido a ser quien quería ser y no quien estaba determinado a ser) era Dolores del Río, Dolores del Río hace muchos años, con su aspecto de brava mexicana o de chicana, con su figura de matrona acostumbrada a los toros y a los tiros y no a las sonrisas de una noche de verano, despertando los impulsos posesivos de los varones en un ruedo lleno de polvo y arena donde le hubiera gustado escribir a Hemingway, eyacular a Henry Millar o viceversa, y las dos (o ella y él, como se prefiriera) aparecían en escena entre los chiflidos del público exigiendo que Marlene desflorara a Dolores o que Dolores poseyera a Marlene. (p.192)

A cena de duas mulheres, uma que pode ser ou não uma mulher, uma possuindo a outra num palco em meio a um público alucinado é altamente erótica e trabalhada magnificamente por Peri Rossi.

Equis vê a cena num verdadeiro êxtase e tem um momento de revelação. A experiência de ver as duas mulheres juntas, mesmo sem saber, num primeiro momento, se as duas eram mulheres, ou dois travestis, um homem ou uma mulher, foi reveladora para que ele descobrisse a resposta para o enigma:

(…) -¿Sabes? -le dijo, casi borracho por la comprobación, o místico, o enternecido -. Tengo un enigma en los sueños. Hay un sueño que se repite, opresivo, recurrente. En el sueño, un viejo rey, enamorado de su hija (y su hija eres tú, apareces en el sueño como la hija deseada por el rey que no se atreve a llamarla por su nombre, pero equivoca el de sus esposas y concubinas) propone una adivinanza a los pretendientes. Yo tengo que resolver el acertijo si quiero ser digno de la hija del rey. El enigma dice: ¿Cuál es el tributo mayor, el homenaje que un hombre puede hacer a la mujer que ama? ¡Qué proposición tan difícil! En el sueño, no consigo saber la respuesta. Estoy confundido, vacilo, atolondrado y torpe. Sólo me queda una oportunidad y no alcanzo a acertar la solución. He pensado varias contestaciones. Se me ha ocurrido que quizá el enigma encerrara un equívoco, tendiera una trampa, y la respuesta fuera: No hacer nada. Pero estaba equivocado y ahora lo sé. Ahora he encontrado la respuesta. Viéndote he sabido: tú has sido la comprobación que esperaba. Esta noche podré tener el sueño, y en él inscribir la solución. Es curioso: la respuesta estaba en mí desde hace tiempo, pero en el sueño no me animaba a pronunciarla. Porque seguramente es la princesa a quien debo dársela primero, puesto que ella ha inspirado el enigma. De modo que si tú recibes la contestación adecuada, yo me habré liberado de la opresión y podré pronunciarla en el sueño. La respuesta es: su virilidad.

Viejos reyes, enamorados de sus hijas. Inventan enigmas de difícil solución. Pretendientes enamorados. Sin saber la respuesta. Mueren degollados. Viejos reyes. Enamorados de sus hijas. En noches de delirio. Confunden el nombre de la reina o de la esclava. “?Cuál es el tributo mayor, el homenaje que un hombre puede hacer a la mujer que ama?”, preguntaba el rey, severamente. En el sueño es de noche y están en un campo abierto, sin estrellas y sin luna, sin árboles ni agua, sin pájaros ni peces. Sólo un toldo para el rey, en el campamento lejano. En el sueño, Equis intenta mirar a través de las tinieblas, descubrir entre las sobras a la deseada hija del rey. Ser digno de ella es conocer la solución. Entonces Equis se yergue, en el sueño sus ojos brillan triunfadores, se aproxima, sigiloso, al viejo rey y le grita a la cara, le anuncia, lentamente: “El tributo mayor, el homenaje que un hombre puede hacer a la mujer que ama, es su virilidad”.

Se oyen truenos, relámpagos alados cruzan el cielo, una pesada piedra cae y abre el suelo, animales extraños huyen por los cerros, “!Su virilidad!”, grita Equis, y el Rey, súbitamente disminuido, el rey, como un caballito de juguete, el rey como un muñequito de pasta, el reyecito de chocolate cae de bruces, vencido, el reyecito se hunde en el barro, reyecito, derrotado, desaparece. Gime antes de morir. (p. 195-197)

O enigma proposto pelo Rey criado por Peri Rossi lembra a várias lendas e histórias populares de pais que sacrificam filhas e princesas. Mas lembra também a história contada pela Mulher de Bath de Chaucer [2], do rei e da rainha que só pouparão a vida do jovem pajem estuprador se ele responder à pergunta que ninguém consegue responder: o que querem as mulheres?, uma anciã revela o segredo a um jovem pajem: as mulheres querem mandar nos maridos, essa era a resposta certa.

Há também uma pergunta atribuída originalmente a Freud, mas que não lhe pertence de forma única e exclusiva. Foi ele quem perguntou a Maria Bonaparte: [...] "A grande pergunta [...] para a qual não encontro resposta apesar dos meus trinta anos de estudo da alma feminina é a seguinte: o que quer uma mulher?" (p.24) [3]

Quem vai responder a esta pergunta? E por outra, é esta a pergunta que queremos fazer? Equis inverte o enigma. Não quer especular sobre o que querem as mulheres, quer saber como pode homenageá-las, não repete a ladainha histórica, a pergunta recorrente e que sugere uma resposta também recorrente como queriam Chaucer e outros.

Equis não se relaciona sexualmente com a prostituta espancada, faz amor com uma mulher surpreendentemente velha e fora dos padrões de um corpo jovem ou belo, apaixona-se por criaturas meio andróginas como Graciela ou Lucía.

Peri Rossi inverteu todas as normas do jogo. O estrangeiro migra de significado e questiona aqui os velhos papéis sexuais. As velhas funções do gênero, do que nos foi ensinado do como ser homem, do como ser mulher. Ressimbolizações, tudo fora do lugar. Exílio. Estrangeirismos. Outras maneiras de experienciar e expressar a sexualidade.

Historicamente a Crítica Literária Feminista investiga a literatura de autoria feminina e se pergunta como escrevem as mulheres, investiga-se também sobre como as personagens femininas são representadas nas literaturas de autoria feminina e masculina, sabemos à farta como somos representadas na literatura de autoria masculina e conhecemos das projeções masculinas sobre o feminino. Sabemos que dividiram o corpo feminino ao meio, ou somos putas ou somos santas, ou somos boas ou somos más, ou bem Virgens Marias ou bem Liliths, assim são as projeções masculinas, históricas e sabidas sobre o feminino, poderosas Anas Kareninas, Emas Bovarys, Capitus, trangressoras e castigadas, ousadas e punidas, o corpo feminino sempre dividido.

Quando um texto como o de Peri Rossi, de autoria feminina, dá voz a um personagem masculino é preciso prestar atenção, quando este personagem masculino propõe um enigma sobre sexualidade feminina, é preciso ouvir atentamente e, mesmo antes de saber a resposta, preparem-se, alguma coisa muito nova está acontecendo, as mulheres estão começando a contar o que nunca se ouviu antes.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHAUCER, Geoffrey. Os Contos da Cantuária. São Paulo: T.A. Queiróz, 1988.

PERI ROSSI. Cristina. La nave de los locos. Barcelona: Editorial Seix Barral, 1984.

ZALCBERG, Malvine. A relação mãe e filha. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2003.

 

Notas:

[1] PERI ROSSI. Cristina. La nave de los locos. Barcelona: Editorial Seix Barral, 1984.

[2] CHAUCER, Geoffrey. Os Contos da Cantuária. São Paulo: T.A. Queiróz, 1988.

[3] ZALCBERG, Malvine. A relação mãe e filha. Rio de Janeiro: Editora Campus,2003.

 

Lélia Almeida é professora do departamento de Letras da UNISC e doutoranda no Programa de Literatura Comparada da UFRGS.

 

© Lélia Almeida 2005

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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