A espiral da opinião comum:
a televisão aberta do Brasil, argumentos e culturas [1]

Luís Carlos Lopes [2]

Universidade Federal Fluminense
lclopes@alternex.com.br


 

   
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Resumo: Este artigo resultou da observação crítica genérica da programação da televisão aberta brasileira, confrontada com algumas teorias disponíveis sobre a questão da opinião. O seu principal objetivo teórico foi o de discutir o problema à luz da denominada “nova retórica”, que se acredita como sucessora das teorias da comunicação mais tradicionais. As pesquisas realizadas detectaram que a opinião pública só existiria enquanto mercadoria e seu respectivo fetiche. O autor concluiu, igualmente, que a opinião comum seria um tipo de argumento bastante usado pela tv aberta, bem como pelas demais mídias. Para chegar a estas conclusões, o autor percorreu a história do conceito de opinião em contextos diversos e buscou compreender as suas bases teóricas diferenciadas.
Palavras-chave: retórica, parole, opinião comum.

Résumé: Cet article a résulté de l’observation critique générique des programmes de la télévision ouverte du Brésil, devant quelques théories disponibles sur la question de l’opinion. Le principal but théorique a été le de faire la discussion du problème à lumière de la «nouvelle rhétorique», quel se croyait comme successeure des théories de la communication plus traditionnels. Les recherches ont démontré qui l’opinion publique seulement existe comme marchandise et ses respectifs fétiches. L’auteur a pensé, aussi, qui l’opinion commune serait un type d’argument assez usé pour la télévision, telle comme par les autres médias. Pour arriver à ces conclusions, il a estudié l’historie du concept d’opinion aux plusieurs contextes et il a cherché racines théoriques différenciées.
Mots-clés: rhétorique, parole, opinion commune.

 

Janeiro de 2006.

Introdução [3]

A programação da televisão aberta brasileira é veiculadora de um sem número de opiniões sobre a vida humana e suas relações com a natureza. Certamente, o mesmo cenário se repete em inúmeros países. Os nossos elevados índices de audiência televisiva fazem supor que grande parte das opiniões que aqui circulam são usadas na textualidade, na oralidade e na imagética da programação. Os vários gêneros desta se referem ao que em nossa sociedade, vários e diversificados segmentos regionais, classes e grupos socioculturais consideram como normal e comum. Obviamente, prevalecem, repetidamente, interesses que dizem respeito a alguns segmentos e não a sociedade como um todo.

As opiniões repetidas ad nausea em formatos e estilos diferentes alcançam o grande público e conseguem sobreviver na cotidianidade televisiva, sedimentando a permanência e o sucesso comercial. Imagina-se que o insucesso de alguns programas e emissoras prende-se à falta desta sintonia ou ao seu baixo alcance social. A receita de se estar bem na tv é a da reificação, isto é, de se dizer o que já se espera ou se convencionou como justo e correto. Esta circularidade não exclui mecanismos de dominação, previamente existentes e, por vezes, com uma longa história bem anterior à existência e ao uso massivo deste meio técnico de comunicação.

As opiniões hegemônicas e as minoritárias que circulam na sociedade brasileira não foram e não poderiam ser criadas pelas redes de televisão em todas suas fases históricas. Corrigindo uma distorção muito usual, é bom lembrar que as empresas e os programas de televisão utilizam-se deste meio técnico específico para fazer circular idéias que são produzidas no tecido social, em toda a sua complexidade. A simbiose da relação entre tv e sociedade confirma a idéia de sua compreensão como objeto social, isto é, como ferramenta usada nos seus processos de organização e de ordenamento, de acordo com os interesses dominantes e visando, quase sempre, manter o status quo.

A produção das opiniões e sua circulação primária estão diretamente vinculadas aos meios humanos de comunicação. Existem há milênios e se referem à capacidade humana de produzir e transmitir signos e significados. As opiniões são tributárias da experiência de se criar representações da vida da espécie e da natureza circundante por meio da conversação, da escrita, da produção de imagens e de objetos que comunicam como se compreendem, se deveriam ou se quer compreender os significados das questões mais simples as mais complexas.

A palavra opinião tem uso corrente, podendo significar muita coisa ou quase nada. Nos sensos comuns socialmente compartilhados, ter opinião formada costuma ser compreendido como acreditar que determinada visão de um problema é a moralmente certa, errada ou ambígua. Significa, ainda, reforçar a crença de que as opiniões são frutos da reflexão pessoal e que nada ou pouco têm a ver com o entorno social. Mesmo os que acreditam que elas nascem do entorno social esbarram na dificuldade de categorizá-las. Afinal, o que são as opiniões?

Opiniões, não raro, são confundidas ou conhecidas como verdades, julgamentos, certezas, idéias, argumentos, discursos e, por fim, crenças professadas individualmente e/ou coletivamente. Elas abrangem todos os domínios da vida onde existam instrumentos da comunicação humana. Nas construções orais e escritas, as opiniões fluem e cimentam as relações interpessoais. O olhar sobre as imagens e objetos produzidos pela humanidade galvaniza o que se sente sobre o que é exterior à mente. De modo silencioso, fazem o mesmo com o mundo intrapsíquico.

Nas imagens da gestualidade e nos objetos construídos pela humanidade, as opiniões seriam aparentes, poderiam ser depreendidas ou estariam gravadas à espera de decodificação. Neste sentido, as opiniões seriam o resultado de interpretações comuns ou de uma hermenêutica mais sofisticada. Ver um gesto que serve como código de comunicação ou admirar uma obra de arte resultaria na formulação de opiniões que se ligariam às outras, previamente existentes nos intérpretes. A fusão desta experiência social retro-alimentaria o mundo abstrato das múltiplas opiniões acumuladas por pessoas, que as fariam circular com os meios que dispõem.

Se as pessoas acumulam opiniões como parte de suas memórias, o mesmo ocorreria nos objetos que registram o que se pensava ou se pensa em determinada época. As opiniões, talvez seriam mais bem categorizadas como representações de variados tipos, feitas para fazer circular ou registrar idéias sobre o mundo exterior e interior da mente humana.

Nos sensos comuns contemporâneos, as mídias tendem a diferenciar, em especial na prática jornalística, informações de opiniões. As primeiras seriam os dados objetivos, frios e imparciais. As segundas significariam a interpretação destes dados e a tomada de posição frente aos mesmos. Se em um telejornal faz-se a leitura dos índices do Produto Interno Bruto brasileiro ter-se-ia feito circular informações. Se houver algum comentário, segundo o mesmo modo de pensar sobre os significados destes dados, chegar-se-iam às opiniões.

A tendência ocidental tem sido a de privilegiar a informação e de controlar ou demonizar a opinião. A primeira seria, de acordo com esta crença, capaz de deixar para o público a capacidade de opinar. A segunda seria ideologizante, parcial e tendenciosa. Obviamente, quando a opinião é favorável ao que está estabelecido, esta crítica desaparece como que por encanto. A opinião do ‘âncora’ bem pago e fiel aos pontos de vista da empresa de televisão é vendida como uma decantação da verdade. O mito positivista da neutralidade possível ainda possui força considerável, mesmo entre os que se preocupam em informar de modo cristalino e de não torcer os dados, escondendo a opinião subjacente.

Mesmo pondo em dúvida o conceito tradicional de opinião, ainda é mais problemático que o de informação, porque a comunicação humana só pode ser feita por pessoas reais. Estas têm idéias, paixões, interesses, sentimentos e tudo mais que caracteriza o devir humano. Opinando ou informando sempre se estará representando o mundo, mesmo quando há inegáveis diferenças técnicas no modo de expor o que se deseja comunicar. Não existe informação neutra. Nela, por mais simples, fragmentária e singela que seja, está contido o germe das conseqüências interpretativas possíveis. Por isto, é difícil separar, a não ser metafisicamente, informação de opinião.

A televisão consegue, melhor do que qualquer outro meio técnico de comunicação conhecido, representar o conjunto dos meios humanos de comunicar. Sua imagética, sonoridade e textualidade de base aproximam-se, ainda mais do que o cinema, da vida concreta, pelo menos dos seus aspectos formais. No cinema mais usual e de massa, conta-se uma história de cada vez, arrolando-se um certo número de opiniões referentes aos temas, sujeitos e contextos representados.

Na tv, que funciona dia e noite, as possibilidades e variações narrativas são quase infinitas, intercaladas e complementares. Fala-se de quase tudo que interessa às pessoas comuns, remetendo-se ao passado, ao futuro e, sobretudo, ao presente. Sintetizam-se os meios humanos e técnicos de comunicação anteriores ao seu surgimento. A tv de hoje busca se reciclar e se aproximar do mais novo e poderoso meio de comunicação técnico da modernidade: a internet. Esta não pode ignorá-la e deixar de incorporá-la em sua potencialidade. Em todos os casos, o objetivo maior é o de fazer circular opiniões, mesmo quando se disfarçam de simples informações.

Nenhum dos meios de comunicação técnicos conhecidos substituiu os meios humanos de comunicar. Por mais que se aproximem, seus processos, produtos e resultados consistem em representações formais, que por sua vez, são representações operadas por seres reais que existem para além das máquinas que operam ou através das quais suas imagens, sons e contextos cênicos são captados. As ilusões sobre a virtualidade das construções mentais, transmitidas ou não por artefatos maquínicos, lembram a baixa extração teórica dos que acreditam na prestidigitação como realidade concreta possível. Denuncia, em alguns casos, o anti-humanismo dos que prefeririam as máquinas no lugar dos homens.

 

Abandonando o conceito tradicional

Na Grécia clássica, as opiniões eram conhecidas como doxas, sufixo ainda usado em palavras como ortodoxo, heterodoxo, paradoxo etc. Não tinham a reputação do conhecimento obtido pela observação e fruto da reflexão. As opiniões eram vistas por Platão como verdades a priori, para as quais não era necessário maior esforço. Bastava repetir o que todos já sabiam. Seria o que hoje se chamam de lugares ou sensos comuns. Estar-se-ia nos limites do que é de conhecimento público, obtido pela educação social.

A opinião comum seria o consenso majoritário sobre qualquer assunto. Portanto, nela estaria os elementos constituintes da vida prática de qualquer sociedade e em qualquer época. Os ensinamentos que passam de geração para geração sobre a moral, os costumes, as técnicas práticas de trabalho e de lazer etc - em síntese, a tradição - seriam reguladas comunitariamente. Elas identificariam povos e dentro deles as subdivisões socioculturais. O pertencimento seria mensurável pela capacidade de amealhar e usar estes conhecimentos na cotidianidade. Grande parte destes conhecimentos seria repetida automaticamente em cada situação, onde houvesse a demanda de o fazê-lo. Esta repetição garantiria a preservação, atualização e manutenção do consenso, que pode ser lido, em muitos casos, como dominação.

A opinião especializada em ciência, religião etc contraditaria os sensos comuns ou ajudaria a organizá-los ou reorganizá-los em caso de necessidade. A tensão evidente entre as opiniões comuns e as especializadas viria a ser equacionada na modernidade pela educação formal e informal. Se esta não funcionasse e se fosse necessário, usar-se-ia da repressão policial ou militar. Grande parte dos meios técnicos de comunicação contemporâneos são portadores desta dupla missão: manter as opiniões comuns e oxigená-las com novas posturas, se mudanças histórico-tecnológico-sociais e políticas assim o demandarem.

A força contemporânea da opinião comum tem a ver com a laicização ocidental, isto é, as religiões tradicionais já não são as principais organizadoras do mundo simbólico. As novas igrejas precisam, em suas liturgias, considerar as exigências práticas do mundo concreto, sem quase nenhuma busca de transcendência. Relaciona-se também com a emergência da urbe das multidões informadas pelas tecnologias e métodos atuais. Diferentemente do passado, o que se sabe passou na televisão, foi ouvido no rádio, visto na internet, lido nos jornais etc. Milhões de pessoas sabem ao mesmo tempo e das mesmas coisas. A opinião comum reina soberana como principal fonte e forma do conhecimento das massas.

A opinião é um artigo vendido no mercado. Existem empresas especializadas em mensurá-la e em aproveitar o momento da pesquisa, para influenciá-la. As sondagens de opinião pública estão interessadas em estabelecer tendências de consumo, intenções de voto, as atitudes frente aos poderes constituídos etc. Faz parte da estratégia de venda de um produto industrial, perguntar a uma amostra de eventuais consumidores, o que achariam de x ou de y. As pesquisas eleitorais derrubam ou elevam candidatos bem antes da eleição propriamente dita. Saber se um governo vai bem ou mal aos olhos do povo serve para orientar as políticas a serem adotadas e, até mesmo, para orientar as reformas necessárias à continuidade e à legitimação.

Consiste em caminho fácil demonizar as pesquisas de opinião e acusá-las de participar da publicidade ou propaganda de seus objetos. Fácil, porque é verdade que elas servem, indubitavelmente, a estes fins. Elas usam a técnica polêmica do survey, questionários fechados, lógico-formais, com perguntas diretivas que induzem as respostas do público. Suas metodologias não resistem a qualquer crítica mais séria. Entretanto, elas terminam, quando tem alguma ética, por tocar no que as pessoas realmente pensam.

Não é raro que acertem ou se aproximem do que está ou irá acontecer, traduzindo o sentimento popular em determinadas situações. O mais provável é que os entrevistados se apropriem destas pesquisas para dizerem a um público maior o que conversam entre si e revelarem suas verdadeiras opções. Outra hipótese é a de que a diretividade presente estabeleça o resultado antecipadamente, como se não houvesse necessidade de fazer a pesquisa, bastando conversar nas ruas. Portanto, tratar-se-ia de um grande exercício de reificação. Simula-se que se está descobrindo o que já se sabe.

Será possível estabelecer uma representação matemática perfeita das opiniões? Será que se está realmente tratando do se convencionou chamar de opinião comum, pública, majoritária etc? Existiria de fato a opinião pública e a opinião pessoal? Muitas dúvidas, ainda sem respostas conclusivas, entretanto, fundamentais para o avanço dos estudos comunicacionais.

Pensadores como Gabriel Tarde e Walter Lippman escreveram sobre o assunto há, aproximadamente, cem anos. Em suas épocas, eles estavam convencidos da existência da opinião pública e de sua importância histórica. Ambos refletiram a partir da movimentação política das grandes massas urbanas, que sedimentaram a história européia e norte-americana. Os grandes movimentos sociais e políticos da época desaguaram na catastrófica Primeira Guerra Mundial (1914-1918), na Revolução Russa de 1917 e suas imensas implicações nos problemas da modernidade, na ascensão dos fascistas (1922) e dos nazistas (1933), marcando o devir a história mundial ulterior.

Em todos estes casos, os papéis da movimentação popular urbana e do uso dos meios técnicos de comunicação foram notáveis. Destes, devido aos seus impactos sociais, destacam-se: a imprensa escrita para milhares e depois para milhões; o rádio percorrendo distâncias continentais e a indústria fonográfica permitindo que fossem ouvidas melodias e canções populares e eruditas por toda a parte; o cinema e, mais recentemente, a televisão transmitindo imagens e sons para bilhões de seres, cruzando fronteiras, línguas e culturas diversas. O mundo, a partir do século XX, passou a ser galvanizado por grandes aparatos midiáticos, por meio dos quais as sociedades se reorganizaram, sobretudo, nas suas estruturas simbólicas.

Tarde (1898) percebeu que algo havia mudado [4] e que haveria desdobramentos ulteriores. Escreveu a partir da França e dos reflexos das revoluções e do jogo político-representacional do século XIX, baseado no crescimento da importância do voto e da vida parlamentar. Situou o seu objeto de pesquisa em torno da imprensa escrita e do anonimato proporcionado pelas cidades. Sua teoria da opinião discute a conversação como sua fonte básica e entende a imprensa escrita moderna, como responsável pela diminuição do conteúdo racional da mesma. Em outras palavras, para o autor, a midiatização implicou no desenvolvimento de uma comunicação interpessoal em bases menos racionais.

Para o autor francês, a imprensa massiva teria criado as condições de formulação da opinião compartilhada pelas multidões das urbes. Estas, insufladas pela imprensa, nem sempre reagiriam de acordo com os padrões da racionalidade burguesa. Tarde, como muitos outros, temia as massas. Discute ainda, as imbricações entre as esferas públicas e privadas da vida social, a partir do desenvolvimento da conversação e da imprensa. Relaciona o aumento do comércio de mercadorias e de serviços à necessidade de que as multidões possuam opiniões que as levem a comprar.

Lippman (1922) estabeleceu uma teoria da opinião pública que seria baseada na idéia da existência de estereótipos construídos na forma de imagens na cabeça de cada um. Na média, haveria uma estandardização, um pensamento comum sobre vários problemas. Este, segundo ele, raramente estaria em acordo com a realidade circundante. Estes estereótipos seriam construídos mais pela emoção do que pela razão. Teriam origem nas visões divulgadas e aceitas de modo consensual por comunidades humanas, não havendo qualquer necessidade de veracidade absoluta. Seriam algo próximo ao verossímil, isto é, o que fizesse sentido, de acordo com os interesses dos que acordavam as suas aceitações. Incluiriam, portanto, os preconceitos e os sensos comuns dominantes.

As massas geravam medo e ofendiam o que ainda havia de aristocrático no capitalismo contemporâneo. Este medo esteve presente na revolução francesa de 1789, percorrendo o século XIX europeu e suas revoluções liberais e proto-socialistas, chegando ao século XX em toda sua complexidade política. Por outro lado, estes fatos despertaram o interesse da manipulação e do uso do clamor popular na conquista de objetivos, por vezes, nada populares.

Em vários autores, tal como em Ortega y Gasset (1926), encontram-se reflexões semelhantes. O fato de que a história podia ser movimentada pela massa ensandecida, portando um núcleo de idéias comuns, povoou a imaginação de vários intelectuais em sentidos por vezes opostos. O autor espanhol acreditava que a opinião pública fosse a lei de gravitação dos sistemas políticos de toda a história da humanidade. Governar seria, segundo ele, atender ou se opor às opiniões socialmente acordadas e majoritárias.

Não casualmente, o interesse e a naturalização da idéia de opinião pública ganharam grande relevância ao longo do século XX. Inúmeros estudos partem do princípio de que a opinião pública e a pessoal são fatos indiscutíveis e de que os meios técnicos de comunicação são capazes de moldá-las, comprando consciências e vendendo produtos por meio da publicidade massiva.

A discussão sobre o que é a opinião foi, pouco a pouco, relativizada e substituída pela a de como ela foi alterada ou é alterável. Têm esta natureza, as hipóteses do “agenda-setting[5] e da “espiral do silêncio” [6] que são bem explicadas pelo brasileiro Antonio Hohlfeldt (2001), a partir dos trabalhos de Elizabeth Noelle-Neuman, reproduzidos também por Mauro Wolf [7]. Martin-Barbero (1997), dentre outros autores contemporâneos, situou o problema nos limites da literatura filosófica sobre o tema, que remonta ao século XVIII. O que interessa, de nosso ponto de vista, é pensar como as mídias podem ou são usadas para organizar, criar e manter a opinião pública.

A idéia de que a opinião pública é fabricada ou fabricável encontra enorme ressonância em fontes opostas do front político atual. No modelo proposto por Noam Chomsky e Edward S. Herman (1988; 2003), o que a moldaria seria a propaganda feita de modo massivo pelas mídias. Estas a ‘fabricariam’ a partir dos seguintes “filtros”: o poder e a riqueza dos proprietários das empresas de comunicação; a importância da publicidade como fonte de renda das empresas de comunicação; a dependência das fontes de informação usadas pelas empresas que viriam do governo, do mundo dos negócios e de seus especialistas; as ações pensadas para controlar e disciplinar as mídias vindas do governo, do poder econômico e de fontes correlatas; o anti-comunismo entendido como religião do Estado nacional e mecanismo básico de controle da sociedade.

As proposições destes autores norte-americanos dão uma idéia de como nos EUA prevaleceram as visões da existência inquestionável da opinião pública, que já foi chamada também de pensamento das ‘maiorias silenciosas’ [8]. Não se vive mais a Guerra Fria. O inimigo não é mais o comunismo e, sim, o que se convencionou denominar de “Choque de Civilizações”, na expressão infeliz, extemporânea e racista de Samuel P. Huntington [9]. O que se manteve, incólume, foi a idéia de que a existência da opinião pública é inquestionável. A diferença entre extremos é de como ela se legitima ou se é possível criticar as tentativas de controlá-la. Ambos os lados acreditam que há algo moldável pela força real ou simbólica, ou, ainda, pelo consenso espontâneo.

O conceito de opinião pública tem origem no liberalismo econômico e no princípio representacional das democracias ocidentais. Refere-se à formação do mercado, tal como explicou Habermas (1984), orientado pela publicidade. A construção e a legitimação da esfera pública contemporânea precisava de se alicerçar na idéia da capacidade natural das pessoas em estabelecer e aceitar os critérios da democracia representativa, por meio do atendimento governamental e empresarial ao que as maiorias sentiriam e desejariam. Ter uma sociedade baseada na sua própria opinião era a garantia de poder vender os bens materiais e simbólicos de sustentação do sistema.

De outro mirante e criticando as sondagens de opinião, Bourdieu (1973) chegou à conclusão de que a opinião pública não existiria. Obviamente, o sociólogo se referia ao conceito de opinião usado como base destas pesquisas. Segundo ele, a crença de que todos poderiam construir suas próprias opiniões não levaria em conta as distinções existentes dentro de uma sociedade, baseadas em classes, grupos de interesse, culturas, possibilidades efetivas de interferência etc.

 

Tratando o problema de outro modo

Abandonar o conceito liberal e funcional clássico de opinião pública não significa negar a existência da opinião em si mesma. Fazer esta operação resulta em entender o problema da opinião para além dos pressupostos administrativos do funcionalismo sociológico que implica no reforço de hipóteses como a da existência de um “quarto poder”, e a da sintonia entre a opinião majoritária e as formas de representação política indireta conhecidas no mundo contemporâneo. Não implica também em desconhecer o imenso peso das opiniões acreditadas pelo tecido social, no processo de organização e fundamentação do Estado e da vida coletiva. Mas, que tipo de opiniões dominam o cenário social na atual fase da modernidade?

A opinião ou senso comum prevalece como natureza tipológica dominante da articulação da consciência nas sociedades contemporâneas. A grande maioria das mídias trabalha basicamente com as idéias consensuais e hegemônicas. Na televisão aberta, vêem-se e ouvem-se, respectivamente suas imagens e seus sons. Este tipo de opinião não se assume como de origem religiosa. Ao contrário, seus referenciais atuais são laicos e profundamente ligados ao que se pode chamar de materialismo pragmático. Ela consegue sobreviver, sem maiores problemas, ao lado de argumentos religiosos ortodoxos e heterodoxos. A tradição não a intimida. Ela é capaz de degluti-la, sem maiores danos.

O grau de ligação entre a opinião e a tradição informa sobre o seu potencial conservador ou oxigenado. A opinião comum, antes da modernidade, era escrava de preconceitos profundos. A oxigenação veio da mudança contextual. Diminuiu o espaço para o controle exercido, por exemplo, pelas tradições sociomorais. A opinião majoritária teve que florescer com relativa independência. Em teoria funciona assim, na prática, sabe-se que os paradoxos da opinião comum são fortemente presentes na modernidade e, neles, é fácil perceber os efeitos das tradições profundas.

Acredita-se naquilo que os demais acreditam, não havendo muito espaço para a opinião pessoal efetiva. Quando esta última surge, só consegue se sustentar como oposição ao consenso, correndo o risco de se tentar seu emudecimento. Não se vive mais em uma época de livres-pensadores, que lutam contra a tradição, a superficialidade e o automatismo das reflexões sem qualquer esforço de observação ou de comprovação.

Os sensos comuns, no mundo atual, invadiram espaços insuspeitos. São a base do modo de pensar hegemônico e ‘natural’ dos grupos socioculturais, inclusive, dos mais letrados. Estes tendem a desenvolvê-los dentro de suas especificidades. Tornou-se mais difícil do que em outras épocas, articular o pensamento para fora das amarras dos sensos comuns. Quem se arisca nesta direção, costuma sofrer forte oposição. A luta contra este estado de coisas é uma das emergências hodiernas.

A opinião pública só existiria, enquanto bem simbólico, isto é, mercadoria de natureza especial. Teria sido criada como um desdobramento dos efeitos das mídias sobre o grande público. O mercado e seus sujeitos a descobriram, ainda no final do século XIX, como as mais notáveis possibilidades da publicidade e da propaganda política. A imprensa massiva - nela, destacando-se os jornais cotidianos - possibilitou que a publicidade atingisse, ao mesmo tempo, a cada vez mais pessoas, criando hábitos de consumo e emulando padrões de comportamento. No plano político, a propaganda de algumas idéias centrais passou a orientar a movimentação das massas à direita e à esquerda ou, simplesmente, paralisá-las.

A construção da notícia e a da opinião são coisas de difícil separação. Elas transformaram os jornais em panfletos facilmente usáveis para definição do voto, do comício e de todo e qualquer tipo de manifestação política de massa. A revolução industrial atingiu os meios de comunicação, possibilitando tiragens imensas de um dia para o outro. No século XX, viriam o cinema, o rádio, os sistemas de alto-falantes, a televisão e a internet. Os meios de comunicação produziriam a opinião pública, enquanto mercadoria, acessível dentro das regras do capitalismo. O negócio da opinião pública transformou-se, pouco a pouco, em uma das variáveis mercadológicas da modernidade. Formar consciências é a garantia de vender produtos, incluindo-se a própria consciência do mundo, em inúmeros campos e variações.

O fetichismo desta mercadoria de natureza especial deve explicar o porquê de seu entendimento como algo estrutural. A opinião pública, frente à totalidade social, sobrevive como um fetiche, portanto não existe em si mesma. Como se trata de algo abstrato, o que pode ver é a sua ação, isto é, o seu simbolismo funciona porque é invocado como explicação do mundo. A aceitação ou a rejeição de produtos e de atitudes é compreendida midiaticamente como um problema da opinião pública, porque os sujeitos mais poderosos das mídias - as empresas de comunicação, os anunciantes e os governos -, assim o desejam. Para estes sujeitos, o conceito de opinião pública é fundamental. Por aí, é possível entender o grande esforço para mantê-lo. Não se pode deixar de sublinhar sua aceitação contemporânea, apesar de inúmeras críticas de dentro e de fora da academia.

Do ponto de vista do grande público, a opinião pública só existiria no momento que ele é convencido de seu fetiche. Isto ocorreria, quando as pessoas são convencidas pelos argumentos midiáticos políticos e comerciais. Estes falam em nome de um grande público imaginário que seria portador de propriedades opiniáticas comuns. Faz parte do enquadramento argumentativo, dizer às pessoas o que todos pensam, sempre pensaram ou passarão a pensar deste ou daquele modo.

Os sujeitos interessados freqüentemente falam em nome deste grande público. Se este puder se comunicar livremente, jamais falará em nome de uma opinião geral e conclusiva. Não é isto que as maiorias sentem. Se observarmos a fala de pessoas comuns, elas tendem a dizer o que elas pensam individualmente, raramente fazendo alusões a uma opinião geral. Quando as fazem, estão se referindo ao que viram nas mídias, em especial, na televisão.

 

Olhando a televisão como campo de observação dos usos da opinião

A televisão aberta brasileira é um excelente campo de observação da construção da opinião e do diálogo entre o público e os meios de comunicação. As razões desta excelência são múltiplas, destacando-se os fatos: de quase a totalidade dos brasileiros (97%) terem a televisão como o seu principal meio técnico de informação e de comunicação; a maior parte da população brasileira de hoje (+ de 80%) é urbana; as redes de televisão do país são nacionais, isto é, os brasileiros vêem os mesmos telejornais, telenovelas, programas de auditório, telejogos etc; as emissões locais são, em regra geral, menos expressivas e têm menor audiência do que os programas nacionais; a televisão aberta não silenciou a comunicação por rádio, mas a modificou bastante e relativizou sua significação; a grande maioria da população é pouco letrada, não consumindo habitualmente livros, jornais ou revistas; o maior consumo de imagens registradas pelas mentes contemporâneas do país são originadas no que passa nos canais de televisão. [10]

Na medida que a televisão brasileira, com o seu desenvolvimento, passou a falar, ao mesmo tempo, para milhões, atingindo a grande maioria da população do país, ela se transformou no principal veículo da opinião comum. O diálogo que ela conduz com a sociedade brasileira é perpassado pelas crenças que esta sociedade compartilha. Não poderia ser diferente. A programação que alcança maior sucesso é aquela que consegue melhor sintonia com os desejos, gostos e emoções da grande maioria.

A parole [11] televisiva do Brasil é construída a partir das relações de poder estabelecidas entre os seus sujeitos dominantes e os tele-audientes, que são sujeitos subalternos deste processo. Anunciantes, governos e empresas de tv examinam o que o público pode, do ponto vista simbólico e material, comprar, lutando para negociar ou impor seus produtos. A batalha diária é a do convencimento. Cotidianamente, programas dos mais variados gêneros pelejam pela aceitação e naturalização de suas verdades. Para persuadir, é necessário aproximar-se dos tele-audientes e tentar conduzir o modo deles compreender seus entornos.

Trata-se da batalha da opinião comum que é algo muito distinto da opinião pública. As principais distinções são as seguintes: a opinião comum pode sofrer a influência das mídias, mas não é estritamente midiática; ela viceja no tecido social, podendo sequer ser conhecida no universo das mídias; tem um caráter múltiplo e bastante volátil, em outras palavras, é paradoxal e efêmera; não se confunde com as tradições, apesar de se alimentar das mesmas; não pode ser transformada em mercadoria porque não consegue se adaptar às exigências de normalização e padronização do mundo das mercadorias; vivem, no geral, em constante instabilidade, apesar de existir um núcleo básico de idéias comuns que conseguem perdurar em um contexto definido; é formada por um conjunto de representações da vida e da natureza de caráter individual e coletivo de difícil apreensão, isto porque portam a vontade pessoal, a moral e a cultura do extrato social a que se pertence.

Rejeita-se o midiocentrismo, não se acreditando que o espaço midiático seja uma evolução da cultura humana que neutralizaria os espaços sociais de base. A opinião comum ou os sensos comuns usam das mídias técnicas para se ampliarem, alcançando novos públicos. Entretanto, nascem da vida social, onde as mídias também ancoram suas existências. As mídias só conseguem produzir opinião, quando seus sujeitos de poder exercem seus papéis de forçá-las a tomar partido nesta ou naquela direção.

Uma empresa de televisão pode apoiar um candidato [12], ajudar a derrubar um governo, fazer cair um ministro, conseguir que o parlamento aprove uma medida de seu interesse etc. Nada disso será possível sem que se obtenha a aprovação dos sujeitos subalternos, isto é, sem que o convencimento atinja os tele-audientes. Existe um grande espaço de mediação entre os desejos das empresas de tv, dos anunciantes e dos poderes concessionários e as possibilidades reais de convencimento. Os exemplos conhecidos demonstram que não bastam o interesse e o desejo da empresa de televisão, por mais poderosa que seja, bem como não são suficientes o que os governos e os anunciantes gostariam que fosse possível.

Defendem-se os pressupostos das teorias da argumentação, tal como as propostas por Breton (1999), com todos os desdobramentos que se façam necessários. Argumentar com base na opinião comum significa desenvolver uma parole (2003) capaz de seduzir o público-alvo por conter as crenças pré-compartilhadas por este. Os sucessos dos sujeitos sócio-históricos de maior poder nas mídias sempre significaram o fato de terem conseguido aproximações dos sensos comuns hegemônicos na sociedade brasileira. Os fracassos, respectivamente, indicam o contrário.

Estas aproximações não querem dizer se tenha dito a verdade ou que não existam manipulações. Ao contrário, isto é possível. O que é impossível é vencer o público, indo-se contra ao que ele previamente pensa. Plantar a intriga e a discórdia por meio das mídias, sobretudo através da televisão, é algo recorrente por toda parte. Basta usar o verossímil, como se viu no caso do Iraque. A técnica da verossimilhança é também a da intriga, isto é, a de convencer, dizendo-se aos outros o que poderia ser, a partir do que previamente já se sabia. Muito mais do que uma “espiral do silêncio”, o poder das mídias baseia-se, em inúmeros casos antigos e presentes, em uma ‘espiral da intriga’.

As relações entre a tv e os tele-audientes são de rara complexidade. Não se acredita que sejam muito diferentes nas demais mídias. Parte-se do princípio que as relações com as mídias consistem de fato nas relações entre meios técnicos e meios humanos, do diálogo possível entre modos indiretos e diretos de se efetuar a comunicação. Já depositamos em outro lugar (2004) a idéia de que estas se baseariam em contratos sociais de comunicação e em uma forte religiosidade de tipo especial, similar às religiões pessoais da antiguidade clássica. As mídias técnicas seriam cultuadas, paradoxalmente, em uma época onde predomina um forte materialismo pragmático urbano.

Do ponto de vista simbólico, estas relações seriam especulares e translúcidas. As pessoas atravessariam o espelho das mídias, usado como caminho de acesso aos mais importantes objetos sociais da modernidade. O trânsito especular da opinião comum tem elevado peso no processo destas relações. No mundo em que se vive, as mídias técnicas funcionariam como oráculos, realizando práticas divinatórias e dizendo às pessoas como elas devem se comportar na vida concreta, incluindo sobre o que devem sonhar.

A construção da opinião comum, na sua versão televisiva, apesar de se basear nos sensos comuns dos tele-audientes, ganha especificidade e contornos que permitam o diálogo com o grande público. Na televisão aberta, usada como campo de observação empírica, é possível ver este tipo de opinião como um tipo de argumentação presente em todos os gêneros da programação. Tal como na conversação ordinária, os argumentos da opinião comum, usados na televisão, fazem a ponte entre a tradições morais e socioculturais profundas do país e a modernidade.

No rol dos argumentos que reforçam antigos preconceitos e os revitalizam, constata-se a presença de atos de fala, exibição de corpos, gestos e de motricidades, contextos cênicos e opções de estilo relacionadas ao sexismo, racismo e a homofobia. Nestes três casos, são reproduzidas as idéias que dizem que a mulher, os não-brancos e os homossexuais são seres inferiores. Estes são atacados, ridicularizados em uma escala que vai do chiste radical até as menções preconceituosas angelicais. Esta gradação depende da emissora, do horário e do gênero do programa.

As variações de público-alvo e das diferenças entre as produções não impedem que os mesmo preconceitos sejam repetidos com maior ou menor intensidade ou, apenas, com pequenas diferenças de enfoque. Na tv, a reificação e a mimetização são regras de conduta essenciais. A contra-prova disto é que isto se altera, em alguns episódios, por efeito: de alguma decisão judicial questionadora destes preconceitos; da ação individual de alguma persona, pessoa comum ou jurídica; de eventos especiais que levem o grande público repensar suas certezas e a pressionar a mídia televisiva com os escassos meios que dispõe, notadamente, os índices de audiência.

As mesmas tradições profundas explicam o mal-estar televisivo quanto às possibilidades do Brasil e de sua história. Não raro, surgem representações depreciativas e naturalizantes, muito visíveis no telejornalismo, que imaginam os brasileiros como inferiores e incapazes de resolverem os seus problemas. Reificam-se antigas idéias de nossa inferioridade frente aos mais brancos da Europa e da América Norte. Nada disto é explicitado com clareza, mas faz parte, por exemplo, do subtexto do noticiário sobre questões sociais, econômicas e políticas.

Os problemas reais do país são tratados como se fossem de um Brasil ficcional sem classes e interesses contrapostos. Eles seriam fruto de nossa inferioridade. Isto conduz diretamente à origem étnica majoritária dos brasileiros. O antigo mal-estar racista das elites da República Velha, defrontando-se com a tarefa de se inventar o povo brasileiro, está longe de se ter dissipado. Ao contrário, sobrevive fortemente na versão televisiva da cultura de massas brasileira.

As imagens étnicas passadas na tv são, sobretudo, européias. São os mais brancos, os mais bonitos e o objeto do culto às suas formas e características. A grande maioria das pessoas que aparecem na programação tem esta origem ou se aproximam da mesma, na escala do que no Brasil se considera racialmente aceitável. Alguns poucos afros-descendentes que têm suas imagens exibidas servem para compor o cenário e confirmar a preferência estético-racial do país. Há mais apresentadores e locutores negros na tv francesa do que na brasileira. Os atores afros-descendentes que atuam na teledramaturgia brasileira são muito conhecidos, porque são poucos e, na maioria dos casos, representam os papéis esperados. [13]

Os descendentes dos índios são, praticamente, invisíveis nas telas da televisão. Jamais são reconhecidos deste modo, tanto pela produção, como pela maioria do grande público. É recorrente o uso de mestiços de origem afro-brasileira e de brancos para representarem ‘índios’ em nossa teledramaturgia. As imagens dos autóctones são exploradas, ainda, como a de povos exóticos que vivem na floresta.

A imensa presença indígena na cultura, costumes e nos traços fisionômicos do Brasil e dos brasileiros sequer é mencionada. O esquecimento funciona como uma estratégia de negação do passado e das origens do país. Nos sensos comuns dominantes, o racismo é compreendido como a aversão e a discriminação dos de origem africana. Ainda é raro, o entendimento que também é racista a visão preconceituosa dos ameríndios e de toda e qualquer outra etnia.

Inúmeros elementos positivos das culturas brasileiras têm imensa dificuldade de serem representados na programação televisiva. A humanidade do Brasil explode nas telas da tv de modo fragmentário, sem qualquer preocupação de valorização e de manutenção de uma possível unidade representacional do país. O Brasil não conhece o Brasil!

Há razões para se imaginar que a lógica da intriga e da conspiração funcione no vazio deixado por tantos fracassos e desacertos políticos. As melhores qualidades do país, dentre elas a irrelevância histórica da xenofobia - tão comum pelo mundo afora - têm pouco destaque. O ‘bom’ do Brasil, de acordo com a lógica citada, é a exuberância da natureza, a grandeza do território, o exotismo de algumas populações etc. O ufanismo de Policarpo, criticado por Lima Barreto, continua vivo na programação televisiva.

A opinião comum televisiva pouco mostra da imensa capacidade dos brasileiros de superar suas dificuldades incomensuráveis, revelando que estes são aptos a exercerem papéis decisivos na modernidade. Por razões óbvias, este meio de comunicação não sublinha, a não ser de modo episódico, as várias tentativas passadas e presentes de se mudar o status quo. O Brasil retratado é o país dos que venceram e impõem suas lógicas de poder.

A televisão não representa integralmente o complexo conjunto dos argumentos de opinião comum existentes na sociedade brasileira. Deles, seleciona aqueles mais vinculados à tradição, desprezando os que se desprenderam ou estão em processo de libertação da carga pesada de preconceitos religiosos e étnicos, derivados das origens ibéricas e do escravismo colonial brasileiro. Em síntese, o espelho televisivo é conservador e cego quanto a qualquer questão que coloque em discussão o ponto de vista tradicionalista.

A ponte televisiva entre a tradição profunda e a opinião comum versa sobre inúmeros temas. Nestes, recria-se o caminho da humanidade sobre a Terra com todas suas venturas e desventuras. Para cada problema, desenvolvem-se argumentos, tal como ocorre na conversação interpessoal. Neste sentido, a parole televisiva reverte-se de especial importância para a vida moderna. Neste meio, a grande maioria dos brasileiros obtêm o que precisam para organizar o básico e essencial de suas vidas.

Vendo-se tv, é possível alimentar o espírito dos sentidos derivados da emoção e, secundariamente, da razão. A tv trabalha, principalmente, com a lógica das sensações, com o páthos aristotélico. É possível sentir o mundo e se preparar para tomar decisões, a partir destes sentimentos. Estes incluem as emoções e os gostos de toda e qualquer natureza.

Não se pode dizer que uma pessoa seja capaz de tomar a uma decisão, apenas porque foi influenciada pelo que viu na televisão. Acredita-se que há uma mediação. Dir-se-ia que a decisão a ser tomada considerará o que foi visto na tv, o que se acredita que é o real e o correto, e o que o entorno referencia como acerto ou enquadramento sociomoral. Esta equação tripartite explicaria a influência da tv e seus desdobramentos no plano do comportamento individual. No se refere ao das coletividades, pensa-se que a mediação é feita de modo direto, com as crenças compartilhas por classes e grupos socioculturais. Estes modos de ver a vida, atravessados pelo espelho televisivo, orientariam parcialmente o comportamento coletivo.

Outra mediação significativa da opinião comum refere-se às demais formas e conteúdos argumentativos possíveis. Devido ao seu caráter abrangente, a opinião comum introduziria os tipos de argumentos conhecidos. Em um primeiro momento, qualquer coisa pode ser tratada na conversação ordinária ou nos programas televisivos, por meio da mesma. Ela pode tanto se esgotar em si própria, como servir de ante-sala para outros argumentos.

Um diálogo sobre questões afetivas, desenvolvido em uma telenovela, seria baseado em um argumento da opinião comum, quando não passasse de uma introdução sumária e superficial. No caso de alcançar um patamar mais elevado, constata-se que o mesmo chegou ao status de um argumento afetivo-sexual. Isto se aplica a inúmeras possibilidades argumentativas. Dentre elas, verifica-se que é recorrente o reconhecimento da existência de argumentos especializados, proferidos de modo desorganizado e fragmentário, isto é, bem próximos às práticas corriqueiras do ato de argumentar com base na opinião comum. Na tv aberta, em poucas situações chegam-se aos argumentos mais complexos, tal como os de natureza científica ou filosófica mais profunda.

 

Conclusões

Nas teorias da comunicação mais recentes, partidárias do uso da chamada “nova retórica”, o conceito de opinião foi superado pelo o de argumento. A opinião comum seria uma das conformações argumentativas possíveis no esforço da comunicação humana. Os demais argumentos - religiosos, afetivo-sexuais, científicos, retóricos [14] - seriam aplicações opiniáticas especializadas em assuntos determinados. Não é de espantar que na tv e na conversação ordinária prevaleçam os argumentos da opinião ou senso comum. Aliás, eles são muito diferentes dentro e fora das formações sociais atuais. Foram diversos no passado e serão ainda mais desiguais no futuro.

A opinião comum organiza a sociedade nas suas dimensões reais e simbólicas. Seus discursos definem identidades, preferências etc. Seu poder é imenso, por resumir o conteúdo geral do conhecimento humano. É verdade que faz isso de modo simplificador, ao arrepio do que se desejaria. Mas é assim que funciona na conversação e na televisão. Esta modalidade argumentativa alimenta-se da tradição, como também dos demais tipos de argumentos, inclusive dos científicos. Na tv, esta operação é visível na programação, onde a opinião comum aparece mesclada, amalgamada ou como vetor explicador das práticas humanas.

É no universo da argumentação da opinião comum que são travados os debates que alteram ou poderiam alterar as histórias dos povos. As batalhas pelo convencimento ganham e perdem eleições, fazem vencer ou fracassar revoluções e estilos artísticos, mantêm ou transformam comportamentos de base sociomoral. Portanto, é nesta arena que é jogado o futuro das nações, das artes, das culturas e da vida em suas várias dimensões.

A luta pela democracia, com base em uma real justiça social, implica postular espaços de discussão no seio deste espaço das mídias. Não se pode aceitar passivamente que existam ‘donos’ da cultura e da opinião comum. Nos meios de comunicação da atual fase da modernidade, em especial, na televisão, seria necessário que existissem mecanismos que garantissem a liberdade de expressão política, filosófica e artística. Isto tornaria mais difícil a ocorrência de situações, onde a opinião comum se sedimentou nas tradições mais conservadoras.

 

Referências bibliográficas

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ORTEGA Y GASSET, José. A rebelião das massas. (1926) Ver tradução ao português em www.jahr.org

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WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. 4 ed. Lisboa : Presença, 1995.

 

Notas:

[1] Artigo escrito a partir de pesquisa apoiada por recursos do CNPq, recebidos em 2005 (Edital Universal).

[2] Pós-Doutor em Comunicação pela Universidade Paris 1 (Sorbonne), sob a orientação de Philippe Breton (2004) - Doutor em Ciências (História) pela Universidade de São Paulo (1992). Professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (Niterói, Rio de Janeiro), membro do corpo permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação dessa Universidade. E.mail: lclopes@alternex.com.br.

[3] Aproveito para agradecer a bolsista de iniciação científica (CNPq) Luar Grinberg, pela paciência em descrever e analisar programas de tv, de acordo com orientação dada, pautada na teoria da argumentação de Breton. Os seus levantamentos ajudaram-me a formular as questões aqui arroladas.

[4] Na verdade, começava a mudar ...

[5] Grosso modo, estas hipóteses falam da capacidade das mídias de agendar o interesse público por meio da escolha unilateral do que deve ser divulgado. O público seria pautado pelos desejos e objetivos dos meios. Esta teoria, talvez, seja o ponto mais alto das de origens emissionistas.

[6] De autoria de Noelle-Neuman.

[7] Autor italiano de manual contemporâneo de estudos de comunicação muito difundido internacionalmente.

[8] Ver: BAUDRILLARD, Jean. À Sombra das Maiorias Silenciosas: o fim do social e o surgimento das massas. São Paulo: Brasiliense, 1993. O original em francês é de 1978.

[9] As idéias do autor estão expostas no livro publicado, em 1996, por Simon and Schuster intitulado The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order, também publicado no Brasil, em 2001, pela Objetiva, com o título Choque de Civilizações.

[10] Nem sempre foi assim, o cinema brasileiro já foi mais popular e absolutamente independente da televisão.

[11] De acordo com Breton (2003), substância básica da comunicação humana, conformada em gestos, falas, imagens e objetos capazes de disseminar idéias de modo direto, ou por meio do uso de máquinas.

[12] No Brasil, existem exemplos recorrentes de situações similares.

[13] Ver: ARAÚJO, Joel Zito. A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira. São Paulo: Senac, 2000.

[14] O argumento retórico seria, na verdade, um não-argumento, porque negaria a capacidade de negociação dos demais argumentos, substituindo-a pela a imposição direta de idéias. Como se sabe, este tipo de argumento é muito comum na política e na imprensa. Está presente, com muita força, na televisão.

 

© Luís Carlos Lopes 2006

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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