O Romanceiro de Teófilo Braga,
o Cancioneiro de Pérez Ballesteros
e o Romanceiro de Carré Alvarellos.
Notas para um Estudo Comparativo [1]

Natália Albino Pires

Escola Superior de Educação de Coimbra (Portugal)
npires@esec.pt


 

   
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1 - Considerações Preliminares

Os que queiran aprofundar na sicoloxía das xentes do agro terán de pór man a unha laboura de escolleita das cantigas que deliñan costumes, pareceres e comportamentos.
Ramón Cabanillas, Cancioneiro Popular Galego

 

O nosso trabalho parte, principalmente, da comparação das edições fac-similadas de duas obras sensivelmente contemporâneas, o Cancionero Popular Gallego de José Pérez Ballesteros e o Romanceiro Geral Português de Teófilo Braga, com o objectivo primordial de encontrar os pontos de convergência e divergência na sua elaboração.

Por outro lado, no estudo apresentado, ter-se-á em conta O Romanceiro Popular Galego de Tradizón Oral de Carré Alvarellos que foi publicado em Portugal em 1959, procurando demonstrar que esta obra, apesar de publicada no final da década de cinquenta do século XX, tem pontos de contacto com as suas antecessoras.

Convém salientar, antes de mais, que, dado o carácter específico das composições líricas que são dadas à estampa através das obras aqui em análise, não será possível apresentar neste estudo a sua comparação temática, ficando, por isso, o trabalho obrigatoriamente remetido para questões formais que se prendem com a selecção de textos por parte dos autores, a sua proveniência e a elaboração das obras em questão, únicos elementos comparáveis em breves linhas.

Numa primeira análise superficial, imediatamente a partir dos títulos escolhidos por Teófilo Braga e Pérez Ballesteros para as suas obras, surge a dúvida sobre o motivo que terá levado dois homens contemporâneos entre si a optar por trabalhos diferentes, conhecendo ambos o trabalho um do outro. Ainda de modo superficial, surge também a dúvida quanto aos motivos que terão levado Carré Alvarellos a optar pelo título de Romanceiro Popular numa época em que as teorizações pidalianas estavam já consolidadas entre os estudiosos do Romanceiro.

 

2.1 - Cancionero Popular Gallego vs Romanceiro Geral Português

Imediatamente a partir do título de cada uma das obras, Cancionero Popular Gallego, de Pérez Ballesteros, e Romanceiro Geral Português, de Teófilo Braga, se depreende que cada um dos autores optou por um campo de estudo/investigação divergente: o primeiro opta pelo campo do Cancioneiro e o segundo pelo do Romanceiro.

Em termos organizativos, Teófilo Braga apresenta uma classificação temática dos Romances, agrupando-os por temas e indicando a sua proveniência e, no final do terceiro volume, apresenta, ainda, um índice remissivo dos Romances existentes em cada uma das regiões portuguesas e de língua portuguesa e da sua localização nos volumes da sua obra, dando, deste modo, uma panorâmica bastante geral dos temas que compõem a tradição portuguesa. Neste sentido, os três volumes, em que a obra se estende, parecem ser o fruto final de um trabalho de recolha e de reflexão crítica sobre os textos.

No Cancionero surge uma organização bastante diferente. Cada volume tem um índice próprio, existindo capítulos/apartados que se repetem nos três volumes e outros que se encontram apenas num deles. Na Advertencia com que termina o volume I, Pérez Ballesteros explica ao leitor que a sua obra compilatória será feita em várias fases e publicada à medida que se colijam conjuntos de textos, para “evitar la monotonía propia de las secciones demasiado largas” (Pérez Ballesteros, 1979: 210). Pertinente é, no entanto, o facto de no volume III os romances surgirem claramente catalogados como tal (1979: 255-269) e de no volume I surgir um romance de tema religioso que o autor cataloga sob a denominação de Romances Religiosos (1979: 250).

No caso português, os três volumes são dedicados a um único género literário, ao passo que no caso galego, ao longo dos três volumes, nos são dados a conhecer todos os géneros literários populares e tradicionais recolhidos junto do povo, muito embora seja de salientar que não se encontram géneros menores ou semi-literários em palavras de Blanco Pérez (1996: 248-249), facto que parece denunciar as preocupações literárias de Pérez Ballesteros.

Ainda que não seja pioneiro, o trabalho de Teófilo Braga apresenta-se-nos com o rigor de um especialista da época, dando os primeiros passos “científicos” no acervo cultural do seu povo. No seu trabalho, surgem dois tipos de notas: por um lado, as notas referentes às variantes textuais, quer sejam as verificadas de província para província e de informante para informante que ocorrem, segundo o autor, no momento da recitação dos textos, quer sejam as verificadas nas diferentes fontes literárias onde recolhe os textos. Por outro lado, no terceiro volume, surge outro tipo de notas: mais gerais e relacionadas com os temas, nas quais o autor apresenta, tema a tema, a sua explicação no quadro da tradição europeia e, sempre que lhe é possível, a comparação dos temas da tradição portuguesa com a restante tradição ibérica. Desta forma, as suas notas conduzem futuros investigadores nos seus estudos, pelo que, ainda que na base do seu trabalho estejam os ideais nacionalistas românticos, parece ser um trabalho de um especialista dirigido a futuros especialistas.

Em contrapartida, o trabalho de Pérez Ballesteros, também ele com o rigor de um especialista da época a dar primeiros passos no estudo do acervo popular, apresenta notas bastante distintas. Ao longo dos três tomos, este autor fornece, umas vezes entre parêntesis ao lado do texto, outras vezes em rodapé, não só a tradução de alguns vocábulos de galego para castelhano, como também informações sobre a fonética das palavras no momento da recitação das composições. As suas notas, ao serem maioritariamente de carácter linguístico, fornecem informações preciosas sobre o estado da língua galega na sua época e sobre o estatuto que possuía e pretendia possuir, para além de informações culturais e geográficas precisas. Esta atitude indica, sem dúvida, o contexto diglóssico em que se encontra a língua galega e, por outro lado, talvez permita inferir, partindo do contexto histórico do seu país no momento da produção desta obra, quem era o público-alvo de uma obra com estas características: o espanhol, numa provável urgência de que este reconhecesse a sua cultura como uma entidade autónoma e, consequentemente, não só a sua identidade nacional, mas também a sua autonomia.

No terceiro volume do Romanceiro Geral Português, encontra-se uma recensão, datada de 1907 e assinada por Philéas Lebesgue, que não só avalia positivamente o trabalho publicado nos dois primeiros volumes editados anteriormente por Teófilo, bem como refere a semelhança que existe entre os textos aí incluídos e as baladas europeias. Esta recensão, ao ser introduzida no último volume, parece ter como função tornar mais credível todo o trabalho desenvolvido e publicado.

Por seu lado, o volume I do Cancionero Popular Gallego termina com um apêndice redigido por Antonio Machado y Álvarez no qual faz uma comparação temática entre as composições coligidas no volume e a restante tradição hispânica, nomeadamente entre a andaluza, a castelhana e a catalã, explicitando que o seu objectivo é “rendir un ligero tributo de consideración y de afecto á mis queridos amigos el laborioso folk-lorista el Sr. D. José Pérez Ballesteros, y el distinguido mitógrafo portugués Sr. D. Teófilo Braga” (Pérez Ballesteros, 1979, I: 213), ou seja, desta forma dá-se crédito a ambos os trabalhos, ao de Pérez Ballesteros e ao de Teófilo Braga, no seio da tradição hispânica.

Finalmente, é de salientar o facto de os prefácios de ambas as obras serem do mesmo autor: Teófilo Braga. Contudo, o prefácio que introduz à sua própria edição é bastante pequeno e nele explica a metodologia que utilizou na elaboração do seu Romanceiro, recordando que a sua obra “fundamenta a affirmativa dos criticos estrangeiros sobre a maior antiguidade e riqueza das nossas Tradições poeticas. Não será isto documento da vitalidade da raça, da energia da nacionalidade? Só quem confunde Portugal com o boçalismo dos seus governantes, é que ousa chamar-lhe nação moribunda”. (Braga, 1982: VI).

O prefácio da edição de Pérez Ballesteros é sobejamente maior e, nele, Teófilo reitera, ipsis verbis, as teorias linguísticas de afirmação nacional, presentes na sua História da Literatura Portuguesa, bem como a sua teoria, por sinal romântica, de que o estudo das tradições “se apresenta como a fórma de reconstituição de um povo envolvido na longa decadencia catholico-feudal” (em Pérez Ballesteros, 1979, I: IX).

Na sequência da sua explanação, exalta, para o caso galego, não só todo o trabalho que tinha vindo a ser desenvolvido ao longo do séc. XIX de recolha e publicação da literatura tradicional, defendendo que “sob este ponto de vista as tradições populares da Galiza são do mais alto interesse" (em Pérez Ballesteros, 1979, I: IX) e que "é da Galiza que se devem esperar as mais importantes descobertas tradicionaes” (em Pérez Ballesteros, 1979, I: XLIV), mas exalta, também, toda a literatura galega da época medieval e o seu momento de ressurgimentos, justificando o seu período de obscurantismo com uma larga referência ao domínio espanhol, pouco dignificante.

As obras de Pérez Ballesteros e de Teófilo Braga têm em comum o facto de serem obras do século XIX, século por excelência do movimento romântico em toda a Península Ibérica, e o facto de pretenderem dar conta do maior número possível de textos: de romances, no caso de Teófilo Braga, e de quaisquer textos populares tradicionais, no caso de Pérez Ballesteros.

 

2.2 - Cinquenta anos depois, o Romanceiro Popular Galego de Tradizón Oral

A diferença mais imediata da comparação do Romanceiro Popular Galego com as duas obras anteriormente referidas é o facto de esta se nos apresentar em apenas um volume, ao passo que cada uma das suas antecessoras se compõe de três volumes.

No que se refere à organização do volume, verificamos que, ao contrário dos dois autores acima citados, Carré Alvarellos revela uma maior preocupação científica, pois antecede a sua antologia de textos tradicionais de um largo estudo onde aborda questões relacionadas com a especificidade do género Romance, nomeadamente a questão da origem, questões formais, questões temáticas e questões de catalogação (Carré Alvarellos, 1959: 11-51). No entanto, aparentemente, a partir da análise do índice não se subentende qualquer organização temática da antologia devido ao facto de o autor ter optado claramente por manter os diferentes nomes por que são conhecidos os romances, alegando que “hai algúns autores que adoitan o lle emprestar con sobexo, unha atenzón que realmente non merés ao pubricar longas ringleiras con nomes de romances; e, non fallan logo outros que non se guiando senón pol-os nomes, dan como versións de un mesmo romance, pezas que non teñen outra somellanza antre sí, que ese nome (Carré Alvarellos, 1959: 45).

Não obstante, ainda que os critérios de edição e ordenação dos romances não sejam claros nem especificados, nomeadamente no que se refere à sua proveniência e à sua temática, da análise dos textos, verifica-se uma preocupação do autor em agrupar todas as versões de um mesmo romance, dando conta de todas as versões que, se subentende, conhece desse romance. Assim, por exemplo, no que se refere ao romance “Falso Cego”, constatamos que os textos “O Duque cego”, “A leonesa”, “O cego andante” e “O Duque” são versões de um mesmo romance, não só porque conhecemos os textos, mas porque o autor, através de numeração romana, indica cada um dos romances.

Comparativamente, o Romanceiro Geral Português de Teófilo Braga, cinquenta anos anterior, apresenta uma maior preocupação na catalogação e ordenação temática dos textos do que o Romanceiro Popular Galego de Carré Alvarellos, quase permitindo-nos a afirmação de que é uma obra mais “científica” do que a do autor galego, não fosse ser do conhecimento geral que não poucos dos romances por Teófilo editados são factícios.

No Romanceiro Popular Galego, é de salientar o facto de todos os romances editados e respectivas versões se encontrarem totalmente em galego, facto que contrasta com a realidade do romanceiro galego, conhecido por ser exactamente uma “poesía entre dos lenguas”, de acordo com as palavras do estudioso galego José Luís Forneiro (2000). Contudo, Carré Alvarellos mostra-se consciente da existência de versões mais castelhanizadas, que rejeita “pol-o considerar improcedente, dada a arnaxe do presente traballo” (Carré Alvarellos, 1959: 7). Isto é, o seu objectivo, explicitado no capítulo teórico sobre o romanceiro, é dar a conhecer apenas os textos em galego por serem os mais “enxebres” e por serem mais reveladores da tradição galega.

Com o Romanceiro de Teófilo, o Romanceiro de Carré Alvarellos partilha o facto de editar bastantes versões de romances que, embora tenham sido recolhidos na tradição, foram retocados pelos seus recolectores ou primeiros editores. Nesta situação estão muitos dos romances que haviam sido editados por Manuel Murguía e que o autor galego agora reedita no seu Romanceiro. Semelhante é, também, o facto de ambos os autores, Teófilo Braga e Carré Alvarellos, terem recolhido romances em diferentes publicações e de editarem romances que lhes foram enviados por amigos que dizem tê-los recolhido directamente junto do povo.

Por seu turno, com o Cancionero de Pérez Ballesteros, o Romanceiro Popular Galego tem em comum o facto de procurar dar conta, tal como o seu autor afirma, do maior número possível de romances por forma a atribuir ao romanceiro galego o mérito que merece (Carré Alvarellos, 1959: 6). Ou seja, o objectivo de ambas as obras é, de acordo com as palavras dos seus autores, dar a conhecer a tradição oral galega e dar-lhe o relevo merecido face às restantes tradições orais peninsulares.

Aspecto a salientar no Romanceiro Popular Galego é o facto de nele serem editados não apenas romances tradicionais, mas também um número significativo de canções narrativas.

Finalmente, parece pertinente referir que esta obra é prefaciada por Fernando de Castro Pires de Lima, também ele autor de um Romanceiro publicado em 1959, ano da publicação da obra de Carré Alvarellos. Pires de Lima afirma ser esta obra “um modelo de probidade científica” (em Carré Alvarellos, 1959: 3), importante porque através do seu estudo se prova que há similitude entre o romanceiro galego e o romanceiro português.

 

2.3 - Determinações Contextuais para a elaboração das obras

Do levantamento das diferenças e semelhanças entre as obras, feito no capítulo anterior, depreende-se que têm, de facto, uma finalidade diferente, ainda que na sua essência sejam semelhantes.

Aceitando a ideia de que o ideário romântico é a força motriz da produção literária finissecular em toda a Europa, Teófilo Braga encontra-se numa posição privilegiada, pois a literatura portuguesa tinha, no seu tempo, um fio condutor e uma tradição claramente definidos, embora tivesse vivido um período mais pobre, em termos de quantidade e, para alguns críticos, também em termos de qualidade, que vinha sendo superado desde os trabalhos de Almeida Garrett. Assim, o facto de existir uma tradição literária secular em Portugal permite que qualquer estudioso opte por um campo de trabalho ou por todos, tal como o fez Teófilo Braga, podendo dedicar-se a incursões especializadas no estudo da literatura, ainda que, no caso do autor em questão, o objectivo seja sempre o de exaltar a produção nacional com o propósito de explicitar a essência nacional portuguesa.

Pérez Ballesteros, por seu lado, encontra-se mergulhado num contexto político-cultural bastante mais delicado. A tradição literária galega que, num primeiro momento, foi das mais importantes da Europa, havia submergido num largo período de quase ausência de produção literária em galego devido à situação de domínio castelhano, que não se manifestou apenas politicamente, mas também ao nível da definição de cânones literários. A emergência do ideário romântico possibilita a “descoberta” de uma tradição literária que, ao contrário do que se pensava, não havia morrido. Afinal, a literatura galega parecia ter vivido num estado de “coma profundo” do qual despertava “finalmente”, exigindo o seu lugar de destaque ao lado das restantes tradições literárias ibéricas e europeias. A descoberta da tradição literária oral, que se mantivera viva ao longo de séculos, define claramente a existência de uma cultura autóctone, ainda que essa tradição tenha o seu paralelo em toda a Península Ibérica, mas acima de tudo, esta descoberta denota a capacidade que o vulgo possui de perpetrar as suas tradições próprias, mesmo subjugado por cânones literários ou mesmo subjugado politicamente.

Deste modo, em palavras de Blanco Pérez (1992: 103) “o Cancionero popular gallego y en particular de la provincia de La Coruña, obra de José Pérez Ballesteros, é o froito máis logrado da actividade e esforzos desta Sociedade. Trátase da recolleita máis ampla con moito das levadas a cabo ata entón [...] en Galicia e a que sen dúbida acadou maior difusión no interior e no exterior, ata o punto de que foi ata hoxe a principal (senón a única) colección de cantigas galegas empregada e mencionada polos estudiosos posteriores”.

Por isso, no caso galego, não bastava encontrar e coligir a tradição literária oral e dá-la a conhecer ao mundo “culto” para obter o reconhecimento da sua cultura como própria e autónoma, visto essa tradição encontrar paralelo em toda a Ibéria. Tornava-se urgente ir mais além das simples compilações. A par da exaltação da literatura tradicional urgia exaltar a língua como elemento de autonomia nacional, tal como nos confirmam as palavras de Tarrío Varela (1988: 52) acerca da literatura finissecular galega: “otra cosa cabría decir si nos parásemos a analizar algunos fenómenos que entonces se dieron y que, sin pretensiones estéticas, sirvieron, no obstante, para ir creando una cierta consideración del idioma propio como posible vehículo de cultura o, cuando menos, instrumento suasorio para afrontar determinados temas.”

Neste sentido, da análise das notas que introduz ao longo da sua obra, Pérez Ballesteros, muito mais que dar a conhecer o acervo do seu povo, parece pretender cumprir o objectivo de exaltação linguística a partir da literatura, que o povo mantém viva e à qual recorre no seu quotidiano, cumprindo, simultaneamente, a assunção de uma autonomia em relação a Castela.

Tendo por base todos os pressupostos ideológicos do período romântico do séc. XIX e as análises sócio-culturais feitas pelos críticos, não resta dúvida de que, quer o trabalho desenvolvido por Teófilo, quer o desenvolvido por Pérez Ballesteros, cumprem o pressuposto herderiano de revalorização do saber do wolksgeist, podendo concluir-se que os ideais românticos foram a força motriz que possibilitou o surgimento de tais obras. No entanto, enquanto Teófilo Braga pretende apenas tornar inegável a essência e a tradicionalidade da sua cultura, Pérez Ballesteros, além de possuir esse objectivo, patenteia, sobretudo, a diferença linguística, assumindo-a como o valor definitório da autonomia nacional. Assim, o único ponto de contacto entre os trabalhos dos dois autores serão os ideais românticos que subjazem à sua elaboração.

Por seu turno, a obra de Carré Alvarellos aporta-nos diversos problemas. De forma sintética, um dos problemas refere-se ao título escolhido pelo autor: Romanceiro Popular. Quando em 1959 a obra é dada à estampa, quase todos os estudiosos do romanceiro, não apenas na Península Ibérica, mas por toda a Europa e Américas, se referiam ao género Romance como literatura tradicional, seguindo as teorias pidalianas (Menéndez Pidal, 1953) que vinham já sendo publicadas em diversos periódicos espanhóis e não só desde o início do século XX. Muito embora a denominação de literatura popular ou tradicional não seja, ainda hoje, passível de consenso entre os investigadores, tendo em conta a importância dos trabalhos de Menéndez Pidal, seria de esperar que o autor galego optasse pela designação de tradicional em vez de popular.

Outro dos problemas que se nos coloca na obra é o facto de o autor ter optado por uma classificação dos romances pouco clara e explícita, mantendo os nomes por que é conhecida cada uma das versões e assinalando com numeração romana cada novo romance, quando a nomenclatura classificatória proposta por Menéndez Pidal fazia escola há algumas décadas e o próprio Carré Alvarellos dá conta dessas teorias no seu capítulo introdutório.

Ainda outro problema, que também já foi referido, é o facto de todos os textos editados se encontrarem em galego com pouquíssimas ou nulas interferências do castelhano, tendo o autor justificado esta sua opção logo na introdução.

Muitas são, obviamente, as hipóteses para tais factos, contudo, se tivermos em conta que a obra foi publicada durante a ditadura espanhola e que durante o período ditatorial o galego, tal como as outras línguas autóctones, voltou a ser proibido e menosprezado - obrigando a que a Galiza, que havia sentido as primeiras lufadas de “ressurgimento” no final do século XIX, revivesse momentos pouco dignifcantes -, poder-se-ia afirmar que a obra, embora distanciado o período romântico, (re)cumpre os ideais do romantismo na Galiza: revalorizar as tradições para fundamentar a cultura, sempre através da língua.

Por isso, apesar dos setenta anos que as separam, as obras de Carré Alvarellos e de Pérez Ballesteros possuem exactamente o mesmo objectivo: a revalorização linguística a partir da literatura, que o povo mantém viva e à qual recorre no seu quotidiano, como forma de autonomia em relação ao poder central.

 

3 - Considerações Finais

A literatura ainda hoje é tida como um dos meios por excelência para a transmissão de saber e, acima de tudo, de ideais; e várias vezes tem funcionado como difusora dos valores ideológicos de um grupo.

Assim, para terminar, cabe aqui recordar as palavras de Lukács (1966: 69) que nos diz que “el factor determinante externo de la Literatura es el efecto tanto más general, amplio y profundo, cuanto más social es la causa”, esperando que, após a proposta de análise das obras apresentada, se atribua uma nova significação aos trabalhos de Teófilo Braga, de Pérez Ballesteros e de Carré Alvarellos, nova significação esta que, na realidade, se aproximará dos pressupostos românticos que defendiam que o povo era sinónimo de cultura, pois se assim não fosse não se continuaria a estudar o acervo da Literatura Tradicional como fonte de conhecimento, quer ao nível literário, quer ao nível sociológico ou etnológico.

BIBLIOGRAFIA

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CABANILLAS, Ramón (1976): Cancioneiro Popular Galego, Vigo, Galaxia.

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TARRÍO VARELA, Anxo (1988): Literatura Gallega, Madrid, Taurus.

 

Notas:

[1] Artigo apresentado no V Congresso da Associação Portuguesa de Literatura Comparada - “Fora do Centro: Espaços Comparatistas”, realizado entre os dias 1 e 4 de Junho de 2004, em Coimbra.

 

© Natália Albino Pires 2006

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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