Mito e Poesia em António Ramos Rosa:
uma leitura fenomenológica

Antonio Donizeti da Cruz

Universidade Estadual do Oeste do Paraná


 

   
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RESUMO: O presente artigo tem por objetivo tratar do tema social e mítico na lírica de António Ramos Rosa, com fundamentação teórica de Roman Ingarden, que investiga a literatura partindo da teoria husserliana. Buscar-se-á também uma abordagem na Crítica e na teoria do imaginário. Uma das temáticas recorrentes na obra roseana é a preocupação com a palavra e sua precariedade tendo em vista a questão do fazer poético e a comunicabilidade lírica.
PALAVRAS-CHAVE: Lírica, Sociedade, mito, António Ramos Rosa.

Poeta e crítico literário, António Ramos Rosa nasceu a 17 de outubro de 1924, em Faro, Portugal. Ele tem se destacado com uma obra relevante no panorama da literatura portuguesa. A antologia A palavra e o lugar, publicada em 1977, condensa cerca de vinte anos de produção poética do autor. Co-dirigiu as revistas literárias Árvore (1952-1954), Cassiopeia (1956) e Cadernos do meio-dia, onde colaborou como ensaísta e poeta e exerceu a crítica de poesia, atividade esta que prosseguiu no decurso de alguns anos na Seara Nova e que manteve na revista Colóquio/Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian. Também tem colaborado em diversos suplementos literários: O diário de Lisboa, Diário popular, Capital, e outros. O poeta tem participado de inúmeras antologias e recebido várias premiações. Os poemas roseanos foram traduzidos em várias línguas. A tradução das obras de Paul Éluard resultou no “Prêmio de Tradução”, pela Fundação Hautvilliers (França).

Escreveu várias obras: O grito claro, 1958; Viagem através de uma nebulosa, 1960; Voz inicial, 1961; Poesia, liberdade livre (ensaio - 1962); Terrear, 1964; Estou vivo e escrevo sol, 1966; A construção do corpo, 1969; A pedra nua, 1973 (Prêmio da Casa da Imprensa); Ciclo do cavalo, 1975; Animal olhar (1975); Boca incompleta (1977); A imagem (1977); Círculo aberto (1979); O não e o sim (1990); A intacta ferida (1991), entre outras.

Ao elogiar e referir-se à obra de António Ramos Rosa, o filósofo e teórico do imaginário, Gilbert Durand, declara:

[...] ao ler o poeta A. Ramos Rosa, posso em primeiro lugar fazer uma leitura epitética, à flor da sensibilidade bachelardiana: Sabor primeiro do terrestre, do abrigado, do visceral. Posso, em seguida, fazer uma leitura verbal, uma leitura antes das substantificações: O mundo é novo, abrir, partir, viajar... Por último, e mais profundamente, posso mergulhar no imaginário do autor, esse Deus nu(lo) que sobe das profundezas imemoriais do Algarve... (DURAND, 2003, p. 252. Grifos do autor)

Consoante ao pensamento de Durand, buscar-se-á uma abordagem na teoria do imaginário e na fenomenologia em poemas de Ramos Rosa, tendo em vista o tema social e mítico na obra roseana.

O universo imaginário na poesia de Ramos Rosa é espaço aberto no qual o poeta concretiza sua visão da vida e imagem do mundo. Já a linguagem poética é uma forma de (re)invenção e articulação do eu com o mundo. Segundo Alfredo Bosi, a linguagem poética é capaz de “combinar arranjos verbais próprios com processos de significação pelos quais sentimento e imagem se fundem em um tempo denso, subjetivo e histórico” (2000, p. 9).

A obra de Ramos Rosa, inserida na modernidade, apresenta novas formas, perspectivas e possibilidades de significação, sem abdicar do passado. Através do ato de nomear, de operacionalizar o discurso, o poeta projeta espaços de conscientização e cumplicidade com o leitor. Nesse sentido, seu fazer poético é invenção, redescoberta da presença e construção de espaços possíveis operacionalizados pela linguagem.

 

MITO, POESIA E SOCIEDADE

António Ramos Rosa, ao discorrer sobre a poesia moderna, afirma que ela, enquanto procura sempre incerta do sentido, é uma aventura que se processa num espaço interdito, o espaço do não-sentido. Dessa forma,

Através das sucessivas rupturas, desde Baudelaire, com a sua busca do novo e do desconhecido, de Rimbaud, com a fulguração do seu gênio e o seu silêncio, e de Mallarmé perante a vertigem da folha em branco - essoutro silêncio ou a original interdição, - a poesia moderna tem manifestado, de múltiplas formas, a busca de um inacessível sentido que é o do próprio inacessível. (ROSA, 1982, p. 35)

A constante interrogação que caracteriza a literatura moderna gira em torno desse lugar que o próprio branco da página sugere, para restituir à palavra a dinâmica do desejo, o qual suscita, pela contínua transmutação dos significantes, novos sentidos e possibilidades de ser (ROSA, 1980, p. 7).

Segundo Rosa, o poeta moderno não escreve para dizer algo que conhece, mas para dizer o que ignora, para encontrar o verdadeiro desconhecido, o novo, o inicial. A distância que a linguagem institui em relação ao real, conduz necessariamente ao estabelecimento de uma nova relação com o mundo. (1980, p. 5-6).

A poesia é força capaz de transfigurar a realidade do homem. Palavra essencial, a lírica tem o poder de operacionalizar o discurso verbal, de dar sentido à vida e elevar o pensamento do homem.

Conforme Octavio Paz, a poesia é “tempo revelado”, ou seja, “enigmática transparência” (1991, p. 98). Já o poema é um “ser social”. O autor observa que toda sociedade tem sua “imagem do mundo”, que se insere na “estrutura inconsciente da sociedade”, por estar sustentada por uma concepção particular de tempo. Por meio da imaginação, a sociedade produz imagens e acredita nelas, uma vez que “todos os grandes projetos da história humana são obras da imaginação, encarnada nos atos dos homens” (PAZ, 1991, p. 119), ou seja, suas palavras e ações são tempo.

O artista antigo, no dizer de Paz, desejava ser parecido com seus maiores, ser digno deles através da imitação. O artista moderno almeja alcançar a eternidade e, ao mesmo tempo, quer ser diferente. Ele realiza sua homenagem à tradição fora do Ocidente, na arte dos primitivos ou na de outras civilizações.

Em relação à poesia da modernidade, Paz observa que ela remete à crítica da sociedade burguesa. Simultaneamente, ela nega e afirma essa sociedade. Ao fazer sua própria crítica instaura o espírito moderno. Os poetas, a partir da modernidade, se deparam frente ao vazio. O espaço em branco faz do poeta moderno um ente solitário, cuja busca e solidão são iguais a todos os homens.

A sociedade, no dizer de Paz, elabora imagens do futuro ou do outro mundo; depois, os homens as imitam. A imaginação social é o principal agente das transformações históricas. Assim, “a sociedade é continuamente outra, se faz outra, diferente: ao se imaginar, se inventa” (PAZ, 1991, p. 118). O autor afirma ainda que a imagem poética possui a sua própria lógica.

Ken Dowden, em Os usos da mitologia grega, salienta que as inúmeras funções da mitologia não são atributos, mas elos permanentes à própria natureza do mito na sociedade grega, abordando temas que vai desde a pré-história, incluindo a Guerra de Tróia, a rejeição do matriarcado, a questão da identidade étnica, a sexualidade, a importância dos locais de culto, a linguagem e as práticas iniciáticas, até mesmo o significado dos heróis, dos deuses, reis lendários, entre outros. Para o autor, o mito define povos, lugares e coisas. Também identifica-os e lhes atribui conceitos, quer por associações ou contrastes. Os mitos são narrativas que têm motivos recorrentes e que podem ser encontrados nas mais diversas formas em relatos tradicionais. Assim, fica difícil afirmar que este ou aquele mito seja distinto ou semelhante a outros para derivá-lo de um ancestral comum (DOWDEN, 1994, p. 83).

O conjunto da mitologia grega, de fato, pode ser considerado como um texto imenso em diálogo com um outro texto: o mundo em que vivemos. Mesmo assim, sua exclusiva função, no dizer de Dowden, é “a de direcionar, por suas formas oblíquas e sugestivas, a tarefa de existir no mundo real” (1994, p. 103). Para o autor, o mito não passa de um disfarce da filosofia ou teologia ocultando os enigmas e segredos profundos àqueles que não entendem suas alegorias. Esta concepção marcou profundamente e revigorou entre os pensadores clássicos que defendiam Homero (1994, p. 40).

Por sua vez, Bruno Snell, em A descoberta do espírito, afirma que os mitos fornecem o material da poesia, e as experiências o material da ciência nascente. A época arcaica, que descobre o espírito humano ativo, tem uma fome insaciável de experiência. Os gregos desenvolveram o método sólido do pensamento; criaram de forma singular os “germes lingüísticos” com objetivos determinados e lançaram sólidas bases não só da própria ciência, mas também da “moderna ciência natural” (SNELL, 1992, p. 283).

Foi por meio da poesia homérica que o pensamento mítico manifestou-se na literatura, dando ao mito a dimensão grandiosa de uma verdade posta pela palavra. O mito é a história narrada. Ele conta uma história sagrada. Para Mircea Eliade, o mito é tido como uma narrativa verdadeira e uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas e complementares, uma vez que o mito relata um acontecimento que tem lugar no tempo primordial, o tempo fabuloso das “origens”.

Em sua obra O sagrado e o profano, Eliade, ao tratar das “realidades sagradas”, salienta que o sagrado é o real por excelência. A função essencial do mito é a de fixar os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas. Nenhum deus, nenhum herói civilizador há revelado um ato profano. Tudo o que os deuses ou os antepassados tem feito, ou seja, tudo o que os mitos referem de sua atividade criadora pertence à esfera do sagrado, portanto, é uma atividade ilusória e irreal (ELIADE, s.d., p. 96-97).

As articulações da linguagem no intuito de apresentar o tema do mito e poesia se concretizam na poesia de António Ramos Rosa. Nessa perspectiva, os poemas roseanos registram as sutilezas de um fazer poético embasado na força da linguagem e na concretização de um dizer que aponta para imagens visuais, momentos de observação atenta de um eu em sintonia com o mundo circundante, como revela o eu lírico, na passagem de “O boi da paciência”: “Teoricamente livre para navegar entre estrelas / [...] / Marulhei-me de amor / e o amor desabrigou-me / Escrevi cartas a minha mãe desesperadas / colori mitos e distribuí-me em segredo / e ao fim e ao cabo/ recomeçar” (ROSA, 1977, p. 29. Grifos nossos).

 

A POESIA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA: VISÃO DE VIDA E IMAGEM DO MUNDO

A fenomenologia de Edmund Husserl é, fundamentalmente, uma postura filosófica e um método de investigação radical, cuja ciência rigorosa começa com a descrição do vivido. Propõe-se descrever os atos intencionais da consciência e dos “objetos” por ela visados, Reconhece que esses atos são de um “eu” que pensa o mundo, pois para essa corrente filosófica, tudo o que existe se reduz à consciência, e só através dela é que se conhece o mundo.

Em A obra de arte literária, publicado em 1930, Roman Ingarden inaugura a fenomenologia literária, desenvolvendo as teses husserlianas sobre a intencionalidade, a constituição e a linguagem, e conclui que a obra literária, enquanto ser, é uma produção da consciência, formada por estratos de fenômenos heterogêneos.

A obra literária não constitui um feixe de elementos justapostos, mas uma construção orgânica, cuja uniformidade se baseia exatamente na peculiaridade dos estratos singulares. Os estratos são heterogêneos, combinam-se entre si, têm características particulares, garantindo a unidade do todo. Dessa unidade resulta o efeito polifônico (INGARDEN, 1979, p. 25).

Para o teórico Ingarden, o primeiro estrato é o fônico-lingüístico que ao atingir a consciência descreve a sonoridade palavras, uma vez que o autor, com seu “poder criador”, ordena e seleciona os fonemas já existentes na língua viva. O segundo estrato é o das unidades de significação, etapa que detém-se no estudo das significações das palavras e das frases, através de relações morfológicas e sintáticas, possibilitando a compreensão dos sentidos. O terceiro estrato é o das objetividades apresentadas. Para Bordini, a objetividade apresentada “será tudo o que é projetado na consciência pelas significações, explícita ou implicitamente: coisas, pessoas, acontecimentos, estados, todos os modos possíveis de doação do ser” (1990, p.102). O quarto estrato, o dos aspectos esquematizados, possibilita uma apreensão sensorial (ligado à visão, audição, olfato, gosto e tato) em potência no texto e atualizada pelo leitor.

Ao descrever a obra literária como uma seqüência de frases, Ingarden afirma que cada uma das fases de uma obra literária (exceto a primeira) apresenta em si momentos que têm sua fundamentação fora dela mesma, em momentos de outra fase anterior (1979, p. 340). Já a polifonia “constitui um todo intimamente relacionado com todos os estratos da obra” e é precisamente com este todo que o leitor se depara na “contemplação e fruição estéticas. Este todo é, portanto, o objeto estético: a obra de arte literária” (idem, p. 407).

Os poemas de António Ramos Rosa, apresentados neste texto, fazem parte da antologia poética intitulada A palavra e o lugar (1977), e tratam da temática da palavra e do fazer poético que apontam para uma abordagem do social e do mítico na poesia Roseana. A palavra ganha força e poder de comunicação em um tempo “difícil”, que só o grito claro, o amor às palavras é que poderiam romper com o silêncio, tal como nos versos: “Escrever é abrir na sombra uma sombra / e respirar na sombra / um corpo de sombra. // Ninguém nos vê nem nos verá jamais. // Respirar a sombra viva” (ROSA, 1977, p. 154).

As palavras e essencialmente suas formas significati­vas sofrem uma evolução histórica intimamente relacionada com a história da coletividade humana. O poeta faz parte desta coletividade, está inserido no mundo e ao lidar com as palavras, faz uma fusão entre o plano da vida vivida e o plano da vida criada. A criação poética está intimamente relacionada com o campo da existência.

No poema “A palavra”, o eu lírico realça o poder da linguagem e da palavra:

A que se mais prolonga
termina e continua
A que abre um espaço e dança
a que quebra e é uma
e só lisa espada

Ó palavra que duras
no teu ar e nas pedras
brilhas só quando passas
respiras continuas
ó palavra sem mais (1977, p. 63).

São versos que apresentam uma linguagem altamente elaborada e metafórica. O ritmo segue a métrica tradicional com versos polimétricos, e a falta de pontuação intensifica a turbulência do movimento do poema. O texto é proposto como intenção significativa relativamente à nossa consciência. O estudo do estrato fônico lingüístico considera o fato de ser a matéria da obra literária de natureza rítmica. A sonoridade é marcada pela assonância das vogais, pela aliteração sibilante do /s/. O poema é constituído de uma alternância constante de vogal oral e vogal nasal. Todos esses elementos fônicos recriam, no plano da expressão, o movimento do poema.

Nas unidades de significação, em que se detém no estudo das significações das palavras e das frases, temos o substantivo “pala­vra” que remete a elementos que vão definindo “a palavra”, com adjetivos que vão dando textura ao corpo de significação da mesma. Já as objetividades apresentadas revelam o prolongamento da palavra, sua continuidade, seu término. São as imagens da palavra, os objetos tais como espada, pedras, e os modos possíveis de ser da palavra. Dessa forma, as objetividades projetam os aspectos esquematizados de movimentos e a idéia de tecido, ou seja, textura da palavra, lisa, “palavra que duras / no teu ar e nas pedras”. Essa mesma impressão de textura gráfica se dá na leitura do poema, quando o poeta vai escolhendo as palavras e esquematizando as frases numa seqüência natural.

No texto “Grito claro”, o eu lírico afirma salienta:

De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
de um grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro
(1977, p. 17. Itálicos do autor)

Nos versos do poema, as palavras se impõem pela sonoridade e pelas combinações de que o poeta constrói o tecido verbal. O grito claro, título que remete a una sensação de liberdade onde o poeta, artífice da palavra, em que o corpo do poema ganha um efeito sonoro muito relevante.

O ritmo simples e repetitivo, nos versos, facilita o jogo de a1ternâncias entre sílabas fortes e fracas, dando um efeito sonoro e cadenciado muito bem construído. Não há pontuação no poema, dando uma livre movimentação nos versos polimétricos, os quais obedecem às regras clássicas da métrica, em que as imagens no poema são valorizadas pelo ritmo.

Pelas unidades de significação, percebe-se a presença marcante dos substantivos, adjetivos e verbos. Já a construção do poema é como que um grito, onde a palavra ganha força, a cadência dos versos, o ritmo, a metrificação, a sonoridade se sobressaem com as imagens sendo apresentadas (desta forma as objetividades apresentadas vão ganhando projeção na composição ficcional do poeta). Esse estrato explica a sensação de realidade que o leitor tem ao ler a obra, em que vai associando o grito com fechaduras, chaves, roucos, escadas, notas, matéria, ou seja, do caos da escura matéria nasce o grito, que pode significar o próprio poema.

Os objetos, no poema, são determinados por símbolos lingüísticos, que dão a sensação de intencionalidade do poeta. Há dois segmentos no poema. O primeiro, com imagens de escadas, fechaduras, chaves, subterrâneos, onde a esperança enlouqueceu, e o segundo, com as imagens da matéria escura, de que nasce o grito claro.

Os aspectos esquematizados proporcionam impressões de cor ao grito, e sensação de escuridão, num claro/escuro, na construção do poema, onde autor e mundo se confrontam, e o poeta se depara com a realidade.

Mais do que recolher experiências, reconstruir paisagens, narrar enredos, os poemas roseanos acontecem enquanto experiência de um pensamento centrado em um estado de linguagem capaz de (re)inventar a vida, tal como nas passagens de “Poema animal”, em que o eu lírico afirma: “Meus olhos não fabricam / a realidade ou tu: / limpos barcos, / novidade acesa como a terra viva, / movimento de braços, amálgama / exacta duna. // Meus olhos não fabricam mas encontram” (1977, p. 108).

O texto “O que escrevo ou não escrevo” apresenta a condição de um eu caminhante, portador da luz e da esperança:

Caminho com a pequena lâmpada vazia
flutuando entre as árvores, lentas ancas.

Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.

A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.

Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.

Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.
[...]
O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,

solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo (1977, p. 155).

O poema inicia com um dístico, seguido de oito versos independentes. O ponto final marca o fim dos versos, só nos dois últimos a vírgula caracteriza pausa, criando complemento frasal ao verso. Os versos são livres, com ritmo cadenciado. A primeira imagem das objetividades apresentada é a do sujeito da enunciação que caminha com uma pequena lâmpada vazia. O eu lírico descreve imagens de uma escrita metafórica. Ele também caminha com o sol e, ao mesmo tempo, “acende-o entre as árvores e telhado”. Nos versos, a imagem da lâmpada tem o poder de transmitir energia e é comparada à palavra, no momento do fazer poético.

No poema “Nós somos”, o eu-lírico salienta sua condição de caminhante que através da noite leva sua lâmpada acessa, portadora da esperança frente à “miséria dos dias”:

Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, neste país,
na vereda da noite, sob as pálpebras do tempo.

Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra que existe na terra.
[...]
Uma pequena ponte, uma lâmpada em punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem (1977, p. 75).

São versos que revelam a luta do sujeito lírico com as palavras que subsistem contra toda forma de opressão. A comunicabilidade lírica Roseana surpreende o leitor quer por sua intensidade de conscientização do poder das palavras, quer pelo jogo de imagens, palavras, metáforas e versos portadores de um mundo de sentido em que o poeta dessacraliza as circunstâncias, as coisas.

O poeta português Ramos Rosa escreveu este poema (e a maioria dos textos apresentados) na década de 60, caracterizada pela noção de absurdo, expansões de massificação, contestações de grupos como os hippies, os beatniks, os poetas da beat generation (a geração derrotada), entre outros. Os anos sessenta são marcados pela constante guerra fria entre russos e americanos. Em Portugal, segundo E. M. de Melo e Castro, os anos sessenta destacam-se pela “exacerbação de sentimentos nacionalistas, que antecedeu a derrocada do Estado Novo” (1984, p. 53). Na poesia ocorre uma ruptura antidiscursiva e anti-sentimental (a chamada ruptura de 60), ocorrendo uma desconstrução dos discursos do poder instituído, político e moral. Na década de sessenta desenvolveu-se uma prática poética cuja literalidade se efetuará sobre a materialidade de língua, na busca de novas formas de experiências de comunicação, enquanto simultaneamente “desconstruía, desmontava os obsoletos discursos do poder” (MELO E CASTRO, 1984, p. 93).

A poesia de Ramos Rosa - em meio a toda essa agitação - é por essência revolucionária, pois parece surgir como espécie de tradução da instabilidade interior provocada pelo desequilíbrio do mundo exterior. O poeta realiza uma escrita em permanente processo, quer pela forma das palavras repletas de sentido de modernidade, quer pelo seu poder de revelação.

As imagens, nos poemas de Ramos Rosa, direcionam, muitas vezes, para o sentido telúrico e às coisas que só uma mente atenta à contemplação com a natureza e o mundo circundante é capaz de observar. A contemplação da natureza, a observação atenta das pequenas coisas da vida, às quais podem passar despercebidas para muitos, mas não ao poeta. Dessa maneira, os poemas roseanos direcionam para o sentido da “poesia-milagre”, ou seja, daquilo que Roman Ingarden, declara a respeito da obra de arte, a qual tem o poder de trazer à luz “determinadas qualidades metafísicas” e, ao mesmo tempo, revelá-las. É por essa razão que ele a vê como um milagre, ou seja, ela “existe e atua sobre nós e enriquece extraordinariamente a nossa vida, oferece-nos momentos de deleite e de descida às profundezas abissais do ser” (INGARDEN, 1979, p. 409).

A obra de Ramos Rosa revela a visão particular de mundo do poeta e sua atitude frente à problemática que envolve o ser humano. Seus poemas são construídos a partir das coisas simples e cotidianas, que remetem às reflexões sobre o sentido da existência humana. Sua poesia, essencialmente lírica e comunicativa, tem o poder de sensibilizar o leitor, mostrando que ela pode ser vida, revelação e poder.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MELO E CASTRO, Ernesto Manuel de Melo e. Literatura portuguesa de invenção. São Paulo: Difel, 1984.

BARTHES, Roland. “Mudar o próprio objeto”. In:_. LUCCIONI, Gennie. Atualidade do mito. São Paulo: Duas Cidades, 1977.

BORDINI, Maria da Glória. Fenomenologia e teoria literária. São Paulo: USP,1990.

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.

DOWDEN, Ken. Os usos da mitologia grega. Campinas/São Paulo: 1994.

DURAND, Gilbert. Campos do imaginário. Lisboa: Instituto Piaget, 2003.

ELIADE, Mircea. “O prestígio do mito cosmogônico”. In: DIÓGENES, Brasília, Editora da Universidade de Brasília, n. 7, 1984, p. 5-6.

ELIADE, Mircea.O sagrado e o profano. Lisboa: Livros do Brasil, s.d.

INGARDEN, Roman. A obra de arte literária. Lisboa. Fundação Caloustre Gulbenkia Gulbenkian, 1979.

PAZ, Octavio. Convergências: ensaios sobre arte e literatura. Trad. Moacir Werneck de Castro. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

ROSA, António Ramos. A palavra e o lugar. Lisboa. Dom Quixote, 1977.

ROSA, António Ramos. O conceito de criação na poesia moderna. COLÓQUIO/LETRAS, Lisboa, n. 56, julho, 1980. p. 7.

ROSA, António Ramos. Os poetas do deserto. In: Cadernos de Literatura. Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Coimbra, n. 11, 1982. p. 35.

SNELL, Bruno. A descoberta do espírito. Lisboa/Rio de Janeiro, Edições 70, 1992.

 

Antonio Donizeti da Cruz nasceu em Lobato, Paraná, Brasil. É professor da UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Leciona Lírica e Sociedade no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Letras. Na graduação ministra aulas de Teoria da Literatura. Licenciado em Letras; com especialização em Literatura brasileira e Lingüística pela Universidade Federal do Paraná; Mestrado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 

© Antonio Donizeti da Cruz 2006

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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