A Poesia e o Fantástico Mundo do Espelho

Sueli Aparecida da Costa [1] y Antonio Donizeti da Cruz [2]

Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE)


 

   
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RESUMO: O objetivo deste artigo é tecer algumas considerações acerca da recorrência das imagens especulares na lírica de poetas brasileiros, demonstrando que, no universo simbólico, a magia do espelho proporciona, além de uma visão do mundo, a reflexão sobre a própria condição existencial diante do mundo.
PALAVRAS-CHAVE: Poesia, Espelho, Revelação, Magia

RESUMEN: El objetivo de este artículo es hacer algunas consideraciones acerca del uso de las imágenes especulares en la lírica de poetas brasileños, demostrando que, en el universo de la poesía, la magia del espejo posibilita, además de una visión del mundo, la reflexión sobre la propia condición existencial delante del mundo.
PALABRAS-CLAVE: Poesía, Espejo, Revelación, Magia

 

Para o escritor Umberto Eco, o espelho é um “fenômeno-limiar” que demarca as fronteiras entre o imaginário e o simbólico. A experiência especular surge do imaginário, o que faz com que o domínio do próprio corpo, permitido pela experiência do espelho, seja “prematuro em relação ao domínio do real”, uma vez que o “desenvolvimento só acontece à medida que o sujeito se integra ao sistema simbólico, ali se exercita, ali se afirma através de uma palavra verdadeira” (ECO, 1989, p. 12).

Sob esta perspectiva semiótica, Umberto Eco afirma que o espelho não permite sequer o pequeno artifício de ajudar a percepção ou o juízo humano, pois ele não “traduz”. Ao contrário, o espelho “Registra aquilo que o atinge da forma como o atinge. Ele diz a verdade de modo desumano”, como se o cérebro interpretasse os dados fornecidos pela retina, mas o espelho não interpretasse os objetos (ECO, 1989, p. 17).

No entanto, o lado “mágico” dos espelhos reside no fato de que sua “extensividade-intrusividade” não somente permite olhar melhor o mundo, como também ver a si mesmo na ótica dos outros. Umberto Eco trata esta magia especular como uma experiência singular, da qual a espécie humana não conhece outras semelhantes.

Assim, a imagem especular não é uma duplicata do objeto, ela é uma “duplicata do campo estimulante do qual se poderia ter acesso caso se olhasse o objeto ao invés da sua imagem refletida” (ECO, 1989, p. 20). Esta virtual duplicação dos estímulos, este roubo da imagem e esta tentação contínua de considerar-se outro, coloca a experiência especular no limiar entre a percepção e a significação, além de que os espelhos tem inspirado muito a literatura, dada sua simbologia de revelação e de conhecimento da própria imagem.

Para Gilbert Durand, o espelho não é apenas “processo de desdobramento das imagens do eu, e assim símbolo do duplicado tenebroso da consciência, como também se liga à coqueteria, e a água constitui, parece, o espelho originário” (2002, p. 100). Durand salienta, ainda, que o reflexo da água também se associa ao complexo de Ofélia, uma vez que mirar-se é, de algum modo, “ofelizar-se” e participar da vida das sombras, neste campo de lágrimas que se assemelha ao rio da morte e do afogamento.

Segundo Durand, o tema do espelho remete para dois mitos da antiguidade clássica, revelando a força das imagens míticas engendradas pela convergência dos esquemas e arquétipos. O primeiro desses mitos é o de Narciso, “o irmão das Náiades, perseguido por Eco, companheira de Diana, e a quem estas divindades femininas fazem sofrer a metamorfose mortal do espelho” (DURAND, 2002, p. 101). O segundo é o do Acteão [3] , em que se cristalizam todos os esquemas e símbolos dispersos da feminilidade noturna e terrível, pois, neste mito, a teriomorfia é apresentada em sua forma mais perversa e devorante - água profunda que flui e que, pela profundidade e negrume, nos escapa. Mas também, faz referência ao reflexo que duplica a imagem, tal como a sombra que faz redobrar o corpo.

No dizer do filósofo Gaston Bachelard, o espelho aprisiona em si um segundo mundo que lhe escapa, no qual o homem se vê sem poder se tocar, encontrando-se separado dele por uma falsa distância, que pode diminuir mas não transpor. Esta ilusão proporcionada pelo espelho não acontece com a “fonte”, pois esta é para o homem um “caminho aberto”. O espelho da fonte é um motivo para a “imaginação aberta”: o “reflexo um tanto vago, um tanto pálido, sugere uma idealização.

Diante da água que reflete a imagem, Narciso sente que sua beleza continua, que ela não está concluída, que é preciso conclui-la” (BACHELARD, 1989, p. 24. Grifo do autor). É, pois, diante da fonte especular que Narciso tem a revelação de sua identidade e de sua dualidade, fazendo das águas, este espelho aberto às profundidades do eu .

Ainda para Bachelard, é perto da fonte que nasce um “narcisismo idealizante”. Esta “idealização” pode exercer um papel positivo na obra literária, uma vez que o narcisismo nem sempre é neurotizante, como sugere a psicanálise clássica. O narcisismo generalizado transforma “todos os seres em flores e dá a todas as flores a consciência de sua beleza. Todas as flores se narcisam e a água é sempre para elas um instrumento maravilhoso do narcisismo” (BACHELARD, 1989, p. 24. Grifo do autor).

Na perspectiva de Chevalier & Gheerbrant, o espelho reflete a verdade, a sinceridade, o conteúdo do coração e da consciência. Na doutrina budista, o espelho é “símbolo da sabedoria e do conhecimento, sendo o espelho coberto de pó aquele do espírito obscurecido pela ignorância” (2002, p. 394. Grifos do autor). Neste sentido, o espelho reflete, mais que uma imagem, a inteligência criativa e o conteúdo anímico do poeta, pois ele tanto busca o reflexo das palavras quanto o meio através da qual elas podem refletir e expandir as vozes perdidas no sonho; focalizando e refratando a fugacidade do instante poético.

A magia da contemplação do espelho, enquanto fonte de revelação do ser, faz parte do imaginário poético de poetas brasileiros como Cecília Meireles, Lila Ripoll, Helena Kolody, Ferreira Gullar, Glauco Brito e João Manuel Simões, rendendo, para a Literatura Brasileira, uma lavra de poemas, cuja essência, é uma profunda reflexão acerca da condição existencial.

Muitas vezes, o mirar-se no espelho revela a imagem de um ser estranho ao ente que mira, como acontece no poema “Retrato”, de Cecília Meireles, em que o eu lírico declara:

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
(MEIRELES, 1995, p. 63-64)

Nota-se, nestes versos, que a passagem temporal ocorre de forma quase imperceptível, tanto que o sujeito poético nem se dá conta que os anos vieram e modificaram tão rapidamente seu rosto, seus olhos, suas forças e também seu coração. O espelho é o instrumento através do qual o eu lírico toma conhecimento da mudança física e psicológica que lhe ocorreu. Seu reflexo no espelho é como um retrato que revela a verdadeira essência do ser e, neste reflexo, não há como fingir ser outra pessoa, pois a constatação pelo próprio sujeito da enunciação não permite nenhum simulacro da realidade.

Esta mesma repentina constatação do imperceptível envelhecimento encontra-se presente no poema “Retrato antigo”, de Helena Kolody, em que o sujeito poético questiona sobre a existência de uma outra face refletida no espelho, como se esta não fosse a sua face:

Quem é essa
que me olha
de tão longe,
com olhos que foram meus?
(KOLODY, 1999, p. 36)

No texto, há a percepção, por parte do eu lírico, de que a mudança não ocorre apenas no plano físico, uma vez que tanto no poema de Meireles quanto no de Kolody, nesta outra pessoa refletida no espelho, as mudanças transcendem para o plano existencial, de tal forma que o sujeito lírico não se reconhece no outro rosto que contempla. A magia do espelho reside neste poder quase “sobrenatural” de refletir, para além da imagem, a essência e a verdade do Ser que fita o espelho.

O mirar-se no espelho e contemplar-se é, também, o tema do poema “Retrato”, da poeta Lila Ripoll, em que o eu lírico vê no espelho não um falso amigo que oculta sua face antiga, revelando-lhe uma face estranha, mas sim, um amigo que “retrata” a verdade e que não mente nunca:

Chego junto do espelho, olho meu rosto.
Retrato de uma moça sem beleza.
Dois grandes olhos tristes de agosto,
olhando para tudo com tristeza.

Pequeno rosto oval. Lábios fechados
Pra não revelar o meu segredo...
Os cabelos mostrando, sem cuidados,
Uns fios brancos que chegaram cedo.
[...]
Meu retrato. Eis aí: Bem igualzinho.
O espelho é meu amigo. Nunca mente.
No meu quarto, ele é o móvel mais velhinho.

E sabe desde quando estou descrente!...
(RIPOLL, 1998, p. 40)

Este “espelho amigo”, de que fala o eu lírico, não só revela o verdadeiro rosto da voz lírica, mostrando-lhe o processo de envelhecimento, como também conhece e participa deste longo processo, vivenciando as dores e estados emocionais pelos quais o sujeito poético passou, tendo conhecimento, inclusive, do sentimento de descrença que invade a alma desse ser poético. A existência do espelho verdadeiro ajuda a não criar ilusões nem decepções a respeito de sua face-real, a partir do momento que só reflete aquilo que é capaz de refletir - um estado de espírito de profundo desencanto.

Nos três poemas, analisados anteriormente, o espelho aparece como um “espelho mágico” que desvenda a verdade oculta ou já conhecida, pois, enquanto nos poemas de Cecília Meireles e Helena Kolody, o retrato da alteração física e psicológica é revelada a partir da contemplação do espelho, causando um certo espanto diante da revelação, no poema de Lila Ripoll este estranhamento não ocorre, haja vista que o espelho acompanha todo o processo de envelhecimento e desilusão do eu lírico, funcionando apenas como uma fonte de “confirmação” do estado emocional do sujeito poético.

Na obra poética de Helena Kolody, a recorrência ao tema do “espelhismo” se estende para outras dimensões que apenas a constatação da passagem temporal e das alterações psicológicas do ser do poema. A imagem especular surge como uma forma de explicação para a decifração do próprio Ser.

No poema “Espelho Ausente”, esta busca pode ser identificada como um processo angustiante de tentar encontrar-se e não ter mais onde buscar-se, uma vez que o espelho ausentou-se no espaço vazio:

Existia no espelho.

Súbito,
buscando sua imagem,
não mais se encontrou
no espaço vazio.
(KOLODY, 1999, p. 86)

O espelho aparece como uma possibilidade de visualização do eu, mas quando este não existe mais, é como se também o sujeito deixasse de existir. O verbo “existia”, no pretérito, deixa entrever que o espelho era a fonte na qual o sujeito tinha existência. Na falta do espelho, este sujeito busca-se mas não se encontra. O reflexo especular é uma forma de o sujeito sentir-se enquanto ser no mundo, é uma forma de “concretizar” sua existência, o que aponta para o aspecto mágico da simbologia especular e para o jogo dialético do ser e do não-ser, da presença e da ausência.

Glauco Brito, no poema “O Espelho”, apresenta um eu lírico masculino que parece dialogar com os poemas “Retrato”, de Cecília Meireles e “Retrato Antigo”, de Helena Kolody:

Chego ao espelho e um jovem
está me olhando de frente
Surpreso olho ao redor
Não há ninguém a meu lado
e o rosto insiste no espelho
curioso, do meu espanto?

Com cautela olho seus olhos
e ele me corresponde sereno
fitando-me também nos olhos
como um enamorado sempre
Quem és tu que desconheço
- me pergunto para o espelho

O rapaz olha-me agora
com um leve ar de surpresa
(penso: eu já vi esta face,
em que lugar em que tempo?)
Seus olhos são sem maldade
é quase olhar de criança

Fico então a analisar
os seus cabelos castanhos,
seus lábios quase vermelhos,
e seu olhar me olha inocente-
>mente. Ai, espelho! que é feito
do meu rosto que ocultaste?

Tiveste pena de mim
destes meus olhos cansados
- um dia quase perdidos -
desta boca já sem beijos?
E o jovem então me contempla
com a tristeza que eu tenho

A que difícil brinquedo
me submetes, espelho! Não
é que eu tenha receio
do jovem de que me emprestas
o rosto, fantasma não é
sei agora, e o reconheço

Ai, espelho, espelho! espelho
dos meus segredos, de mil
faces que em ti deixei gravadas
por que estranhas ironias
me devolves a imagem do tempo
aquele em que eu fui amado?
(BRITO, 1997, p. 92-93)

No texto, a voz do eu lírico questiona quem é a face que o espelho lhe mostra e, no fim, descobre ser ele mesmo este estranho rapaz que ele viu refletido no espelho, sentindo-se triste por não saber o que é feito da face que este outro ocultou. A maior angústia do eu lírico é a solidão que o tempo lhe proporcionou, ou seja, da não-piedade da passagem temporal. Na ânsia de entender o motivo desta mudança, o sujeito lírico dialoga com sua imagem perguntando-lhe a razão de sua impiedade.

A imagem no espelho promove o desdobramento da imagem do eu. Os dois “eus” se vêem diante do espelho: um e outro (o mesmo), com a diferença que o ser que mira, representando o presente, recorda com saudades a outra imagem que lembra o passado e o tempo em que fora jovem e amado.

Na lírica do poeta Ferreira Gullar, a simbologia especular tem rendido belos poemas, dando margem à aproximação da poesia ao universo imaginário do espelhamento. Buscar um espelho nem sempre é um exercício confortável e vantajoso, pois ele não devolve as imagens que não reteve em si, imagens estas que, muitas vezes, constituem a essência do ser. Os versos da terceira parte do poema “O Espelho do Guarda-Roupa” (de)mostram um espelho que reflete a vida e as coisas mais singelas da existência humana.

III

Carregar um espelho
é mais desconforto que vantagem:
a gente se fere nele
e ele
não nos devolve mais do que a paisagem
Não nos devolve o que ele não reteve:
o vento nas copas
o ladrar dos cães
a conversa na sala
barulhos
sem os quais
não haveria tardes nem manhãs
(GULLAR, 1999, p. 321-322)

O espelho da vida reflete uma realidade diferente, uma vez que nele estão contidas imagens reveladoras da essência humana, dos prazeres e desprazeres da vida. Ele é uma espécie de amigo invisível e imaginário através do qual o homem vê a si mesmo e o mundo em sua totalidade. Este espelho do guarda-roupa representa “o velho” espelho que acompanha o desvelar da existência, as coisas mais simples e, ao mesmo tempo, mais importantes da vida. A imagem que ele desvenda aos olhos do espectador atônito não é sua imagem envelhecida, mas uma imagem transcendental que espelha, por trás de seu rosto, o dia, a tarde, a noite, a paisagem magistral que brota do jardim cotidiano.

A idéia de se carregar um espelho causa desconforto pelo fato de que, como afirma Umberto Eco, “Essas imagens de imagens especulares não funcionam como imagens especulares”. Ao contrário, “Do espelho não surge registro ou ícone que não seja um outro espelho. O espelho, no mundo dos signos, transforma-se no fantasma de si mesmo, caricatura, escárnio, lembrança” (1989, p. 37). E, sendo assim, o ser que mira o espelho se fere porque o que resta desta imagem não é a imagem que o espectador quer ver, pois o espelho não devolve aquilo que ele não reteve, apenas reflete o que está diante de si. Se estas imagens não estão no corpo do ser que mira, conseqüentemente, não haverá refração das mesmas. Por isso, não ver no velho espelho o vento nas copas, o ladrar dos cães, a conversa na sala, ou seja, estas pequenas coisas que constituem e fundamentam a vida, é uma difícil missão para o homem com um espelho.

Também na lírica de João Manuel Simões há referência ao tema do espelho, como ocorre no soneto “Meditação ao espelho”, em que o eu lírico se vê envolto em uma meditação existencial em busca da matéria e energia de que é feita a sua imagem:

Para me construir a que se ateve
a mão que me criou? Qual a mensagem
que incógnito me trouxe, como a aragem
que chega impressentida, em vôo leve?

Qual será a energia que concebe
no cristal da existência a minha imagem?
Quem me pinta nos olhos da paisagem
e do rosto os contornos circunscreve?

Vendo-me retratado, assim, descreio
na matéria desnuda que me aperta,
como a um vulto fantástico, no seio.

Busco-me em vão no espelho. Não descubro
minha íntima fórmula desperta,
lançada num abismo fundo e rubro.
(SIMÕES, 1983, p. 32)

Nota-se que o eu lírico se vê envolto em uma reflexão ontológica, na ânsia de encontrar a matéria e energia de que é feita sua imagem. Nos dois últimos tercetos, a voz deste ente poético revela desconhecer sua matéria, pois tenta, em vão, ver-se no espelho, já que este não lhe diz nada a respeito de quem seja e de qual seja sua condição existencial. Embora a busca no espelho seja vã, percebe-se que o espelho é o instigador desta reflexão, ainda que ele não seja um espelho totalmente “mágico” que traga as respostas prontas.

A meditação ao espelho revela um retrato ou uma imagem que até então o sujeito lírico não conhecia, o que demonstra que houve um certo grau de “descobrimento” de si mesmo ou, pelo menos, um interesse por descobrir-se, já que a busca ao espelho não lhe trouxe todos as respostas que desejava saber sobre sua imagem, mas apenas uma incógnita “aragem impressentida”. A imagem refletida parece não coincidir com a imagem que o eu lírico tem de si mesmo, uma vez que ele declara que, ao ver-se retratado, descrê “na matéria desnuda” que lhe aperta como a um “vulto fantástico”.

O espelho, entre outras coisas, representa um espaço mágico, um instrumento que “retrata” a alma. No poema “22”, de João Manuel Simões, o eu lírico fala do espelho como sendo este instrumento no qual habita seu Ser:

Estilhacei o espelho
a pontapés
pensando destruir
a própria imagem.
(E era eu que habitava
além do espelho.)

Por isso em cada caco
habita agora
um pedaço de mim,
esquartejado.
(SIMÕES, 1992, p. 23).

Nos versos, o eu lírico e a imagem são um só - duplicados. O espelho é possibilidade de desdobramento, sobrevivência e perpetuação do Eu, pois, ainda que a imagem seja destruída, ela se multiplicara nos fragmentos do espelho quebrado, porque o ser humano é essencialmente duplo: Eu e outro. Os homens se olham em espelho de imagens; ele é especular e faz refletir o outro.

Na amplidão do espelho, a poesia reflete as vicissitudes do ser humano diante do tempo ou da própria imagem. O reflexo do Eu no espelho revela um Outro que possui características diferentes do Ser refletido. Neste processo de desdobramento, o espelho é um canal pelo qual o ser humano transpõe os limites da presença-ausência, chegando ao centro das motivações humanas - seu verdadeiro ser. Estas considerações reforçam o poder simbólico do espelho como provedor da sabedoria e conhecimento, espaço mágico da reciprocidade das consciências e instigador das reflexões sobre o enigma existencial.

 

BIBLIOGRAFÍA

BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da material. Trad. Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

BRITO, Glauco F. de Sá. Poesia reunida. Curitiba: Secretaria de Estado de Cultura, 1997.

ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios. Trad. Beatriz Borges. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

GULLAR, Ferreira. Toda Poesia (1950 - 1999). 11.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2001.

KOLODY, Helena. Viagem no espelho. Curitiba: Editora UFPR, 2001.

LILA Ripoll: obra completa. Alice Campos Moreira (Org). Porto Alegre: IEL: Movimento, 1998.

MEIRELES, Cecília. Flor de poema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.

SIMÕES, João Manuel. Flauta mágica. Curitiba: Lítero-técnica, 1993.

SIMÕES, João Manuel. Armorial do verbo. Curitiba, 2002.

 

NOTAS:

[1] Aluna do Programa de Pós-Graduação em Letras - Área de Concentração em Linguagem e Sociedade - da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) - Brasil. Bolsista do Programa de Demanda Social da CAPES. suelicost@hotmail.com ou csuelicosta@yahoo.com.br

[2] Professor Doutor e Orientador do Programa de Pós-Graduação em Letras - Área de Concentração em Linguagem e Sociedade - da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) - Brasil. adcruz@brturbo.com.br

[3] Segundo Durand, Acteão surpreende a toilette da deusa, que, com os cabelos soltos, se banha e se mira nas águas profundas de uma gruta. "Assustada pelos clamores das Ninfas, Ártemis, a deusa lunar, metamorfoseia Acteão em animal, em veado, e senhora dos cães lança a matilha para a carniça". Acteão é, portanto, despedaçado, lacerado e, seus restos dispersos sem sepultura fazem nascer lastimosas sombras que andam pelas sarças (DURAND, 2002, p. 101).

 

© Sueli Aparecida da Costa y Antonio Donizeti da Cruz 2006

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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