Entrevista a Luiz Alfredo Garcia-Roza

Doris Wieser

(Stuttgart, Alemania)


 

   
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Luiz Alfredo Garcia-Roza, nascido no Rio de Janeiro em 1936, foi professor de filosofia e teoria psicanalítica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a maior parte da sua vida. Em 1996 lançou seu primeiro romance policial, atualmente já tem seis publicados e todos “vendem bem”, como o próprio autor constata. Seu primeiro romance, O silêncio da chuva (1996), conquistou os premios Nestlé e Jabuti e tornou possível que o autor se dedicasse inteiramente à literatura. Depois seguiram Achados e perdidos (1998), Vento sudoeste (1999), Uma janela em Copacabana (2001), Perseguido (2003) e Berenice procura (2005), todos publicados pela Companhia das Letras.

Como muitos escritores do gênero policial ele criou um herói de série. O delegado Espinosa, que vive e trabalha em Copacabana, é uma pessoa honesta, ética e um tanto caótica na sua maneira de raciocinar. Gosta de imaginar soluções dos casos criminosos página após página para depois declarar que tudo aquilo foi pura fantasia. Ao final triunfa a racionalidade embora a casualidade também contribua em grande medida à solução do caso. Não obstante, o autor gosta de oferecer ao leitor uma solução provável e satisfazer até certo grau a curiosidade dele, mas ao mesmo tempo desfaz as certezas e abre um espaço ambíguo para a imaginação.

Todos os seus romances situam-se no Rio, embora os crimes neles tratados pudessem acontecer igualmente em outras megacidades do mundo. O interesse do autor não reside em retratar aquela delinquência do Rio sobre a qual os jornais escrevem diariamente, senão na alma do criminoso, nos motivos e no que o move para a delinquência.

Falei com o autor no dia 8 de março de 2006 no escritorio dele no centro do Rio.

 

Doris Wieser: O senhor deixou seu emprego na universidade para ser escritor. Acha a vida de romancista mais agradável e interessante do que a vida de professor?

L. A. Garcia-Roza: É curioso. Na verdade eu fiz um corte com a universidade. Durante os anos 1996/97 eu ainda tentei conciliar a universidade e o trabalho de ficcionista, mas eu vi que não dava. Ou eu simplesmente continuava a me dedicar integralmente à universidade ou eu fazia um corte radical com a universidade e me dedicava à literatura. Foi exatamente no momento em que o meu primeiro livro, O silêncio da chuva, ganhou dois prêmios. E eu disse: bom, então é possível. Porque até então era um aventura, eu não tinha idéia de qual seria a repercussão que o meu livro teria, eu não sabia se eu tinha competência para fazer ficção. Eu já tinha o tempo na universidade para me aposentar. Aí pedi minha aposentadoria, já era professor universitário há 35, 36 anos, e passei a me dedicar inteiramente à literatura.

Doris Wieser: Porque o senhor começou a escrever romances policias depois de tantos anos trabalhando como professor de psicologia? Era um sonho que tinha desde muito tempo?

L. A. Garcia-Roza: Os sonhos são todos antigos. Os sonhos só se atualizam. Eu acho que havia um sonho, um desejo de um dia fazer ficção. Porque veja, em 35 anos de trabalho universitário, um trabalho exclusivamente conceitual, eu lidava com psicologia e filosofia e particularmente com psicanálise. O trabalho conceitual é árduo, mas você tem um guia, um trilho, você tem os comentadores aos quais você pode recorrer, você não está inteiramente sozinho, perdido, pelo contrário, você está até muito acompanhado. Eu tinha uma vontade muito grande de experimentar um tipo de criação inteiramente livre que não estivesse preso a trilho nenhum, à espinha dorsal prévia nenhuma. E eu tinha sempre uma fascinação pelo romance policial desde a adolescência. Mas uma coisa é gostar do romance policial e outra coisa é escrever. Quando eu resolvi fazer ficção, eu falei: bom, fazer ficção não implica fazer romance policial. Que ficção eu vou fazer? Porque eu sempre gostei da literatura em geral. Eu achei que um bom ensaio, uma boa tentativa inicial seria através do romance policial. Eu acho o romance policial muito rico. Porque ele lida com questões muito fundamentais do ser humano.

Doris Wieser: Quais são estas questões fundamentais na sua opinião?

L. A. Garcia-Roza: Eu tenho uma concepção do romance policial talvez um pouco fantasista, um pouco exagerada. Mas eu acho que o romance policial moderno reedita aquilo que a tragédia grega fazia. A tragédia grega pegava as questões fundamentais do ser humano e levava aquilo para a praça pública, o romance policial também trabalha com as questões absolutamente fundamentais, é morte, é sexualidade. Incesto e paricídio são os temas fundamentais da psicanálise, são os temas fundamentais da tragédia e são em grande parte temas fundamentais do romance policial.

Então eu acho que o romance policial, na simplicidade aparente dele, trabalha questões muito fortes, muito íntimas do ser humano. Daí a atração que eu senti por ele e a sua escolha. Acho que é mais ainda, acho que aquilo que o romance em geral trata pelas portas, pelos cantos, o romance policial trata focalmente, isso me agrada.

Doris Wieser: Na tragédia grega o objetivo era lograr a catarse, assim também é no romance policial?

L. A. Garcia-Roza: De certa maneira sim, e em qualquer romance que mexa com os seus sentimentos, com os seus medos, as suas angústias. Permite através da história você reviver de forma atenuada aquilo que você não conseguiria viver com toda intensidade e acaba fazendo uma catarse também.

Doris Wieser: Qual é a sua relação pessoal com as obras “clássicas” do gênero?

L. A. Garcia-Roza: Gosto dos clássicos, Raymond Chandler, Dashiell Hammett etc. Li todos eles mais de uma vez. As vezes eu releio para reatualizar minha leitura para ver se eu ainda os leio da mesma maneira que lia dez, vinte anos atrás.

Doris Wieser: Quais são os seus autores preferidos do gênero dos contemporâneos latinoamericanos?

L. A. Garcia-Roza: Tenho vários, o atualíssimo do Denis Lehane, Mystic River, Lawrence Block que vem agora para Bienal do Livro. Da América Latina ela tem pouca literatura policial. Conheço o Padura Fuentes de Cuba, eu gosto muito dele.

Doris Wieser: A literatura dos seus colegas escritores Rubem Fonseca e Patrícia Melo é policial na sua opinião? Qual seria a sua definição mínima do gênero?

L. A. Garcia-Roza: Eu acho que a definição mínima do romance policial hoje em dia é difícil porque ele perdeu um pouco os limites. Mas eu acho que os elementos mínimos dele seriam, primeira coisa o enigma a ser decifrado, muito mais do que um problema a ser resolvido, em segundo lugar uma busca, uma recherche, uma decifração do enigma. Sim ou não, pode ter ou não ter, um investigador oficial, seja um detetive policial, seja um investigador privado.

No Brasil e na América Latina em geral você não tem a tradição do investigador privado, Paco Ignácio Taibo II é um dos poucos, mas não faz parte da tradição latinoamericana. A polícia na América Latina em geral sempre foi uma polícia muito mais repressora do que investigadora. A tradição da polícia brasileira é uma tradição violenta, de reprimir e não de investigar. Então essa idéia da investigação no sentido estrito do termo ela não existe aqui. Muito recentemente é que começa a aparecer a figura do investigador no sentido não apenas daquele que vai aventurescamente perseguir o bandido mas daquele que vai investigar.

Doris Wieser: No Brasil o gênero é relativamente novo. Qual é a relação do Brasil com o gênero policial hoje em dia? Os leitores brasileiros gostam mais dos romances policias anglo-saxões ou dos brasileiros?

L. A. Garcia-Roza: Eu tenho a impressão de que você já tem um público brasileiro voltado para o romance policial, não apenas de romances de autores estrangeiros, mas de autores nacionais. Eu tenho seis livros e eles vendem bem. Se não houvesse um público leitor para isso eu não teria passado do segundo ou do terceiro livro. Mas é uma situação com outros autores tambem.

Doris Wieser: Ainda existe um preconceito frente ao gênero? Os acadêmicos já estudaram seus livros?

L. A. Garcia-Roza: Não, ainda não há nada. Existe um certo preconceito. Imagino que um pesquisador universitário se ele vai se voltar para uma pesquisa mais longa e aprofundada, ele vai preferir pegar os clássicos da literatura, dá a ele mais estatus. E até hoje surge a pergunta se o romance policial é literatura, é subliteratura, é puro divertimento. Na minha opinião você tem boa literatura e má literatura e o gênero não importa.

Doris Wieser: Nos seus romances os crimes cometidos são principalmente de caráter individual com motivos mais bem clássicos e universais que não se ligam especialmente ao lugar, o Rio. Por quê não escrever sobre a delinqüência característica do Rio?

L. A. Garcia-Roza: Isso foi uma coisa que eu me coloquei inicialmente. O meu interesse é para a questão individual, o meu interesse é aquilo que move uma pessoa a matar outra pessoa. E mais: o que se passa na interioridade dela depois de que isso acontece. Estou interessado nas angústias e no sofrimento, nas excitações do criminoso, e não só do criminoso, mas das pessoas que cercam o criminoso. Ninguém mata um outro e pronto acabou. O ato de matar uma outra pessoa é um ato que é de uma complexidade muito grande. Isso me interessa. A delinqüência em geral, sobre tudo a delinqüência do Rio já é objeto do estudo do cotidiano. Ouvi algum tempo atrás que no Brasil acontecem 50 mil homicídios por ano, 50 mil, é uma guerra. Num país em que se mata desse jeito não há necessidade de nenhum ficcionista pegar isso, de trabalhar e elaborar. Porque isso é excessivo. Não há nenhuma necessidade de você chamar a atenção para isso. É tão óbvio, até os jornais se cansam disso, até os documentaristas se cansam disso.

A segunda coisa é que se você trabalha com a delinqüência no sentido amplo corre o risco de seu trabalho virar um documentário, de você deixar de fazer ficção e fazer documentário, e o que me encanta é a ficção.

Doris Wieser: Então o que interessa o senhor é a interioridade do criminoso…

L. A. Garcia-Roza: Exatamente, inclusive eu não me preocupo em descrever os detalhes de como alguém mata alguém. Não tenho um interesse mórbido pelo crime. O meu interesse é o que move a pessoa ao crime. Que se passa na cabeça dela. O crime pode ser um problema que a polícia resolve e entrega à justiça. Mas o crime envolve questões muito mais amplas, muito mais complexas do que isso. O crime para mim não é o problema, o crime para mim é o enigma. Eu acho que a natureza do enigma é exatamente a ambigüidade, o fato de não ter apenas uma solução. Ou melhor, o enigma não tem solução. O problema tem solução, o enigma não. O enigma tem uma decifração. E toda decifração é ambígua. Então é isso que me interessa.

Doris Wieser: Por exemplo em Perseguido não há uma solução definitiva. A solução do delegado Espinosa é só mais uma das numerosas hipóteses dele. Então não é possível saber a verdade sobre um caso?

L. A. Garcia-Roza: Exatamente e não acontece só neste romance, em Vento sudoeste também. Você fica sem saber se o personagem matou a mãe, e se o pai cometeu suicídio ou não. Eu faço questão de deixar isso em aberto, que o leitor conclua.

Doris Wieser: Que tipo de contato teve o senhor com a polícia? Por exemplo: Já acompanhou um policial no trabalho?

L. A. Garcia-Roza: Nunca. Eu nunca tinha tido nenhuma experiência com a polícia, felizmente. Nem de um lado nem do outro. O que eu fiz foi - quando já estava no meio do O silêncio da chuva - que eu pedi para um amigo meu que é advogado criminalista para visitarmos algumas delegacias policiais, visitar de dia, de noite, no fim de semana. Enfim visitamos diferentes delegacias em diferentes momentos do dia para ver como funcionam, qual é o clima. Isso foi a única coisa.

Doris Wieser: Agora vamos falar um pouco sobre o delegado Espinosa: Ele é honesto, resiste à corrupção, é responsável, modesto e até romântico. Em que medida acha que o Espinosa é um policial realista? Existe na cabeça das pessoas a possibilidade de encontrar na rua um policial honesto que ajuda ao cidadão?

L. A. Garcia-Roza: Você pode encontrar pessoas que fazem isso, mas também que fazem diferente. Eu acho que uma figura como o delegado Espinosa é uma figura quase que ainda ideal. Não corresponde exatamente à figura de um delegado. Embora de dois, três anos para cá, isso tem mudado muito. Os delegados agora estão muito mais cultos. Vários delegados que conheci - quando souberam que eu era professor de filosofia - perguntavam sobre filosofia, falavam sobre filosofia comigo. Eram pessoas que tinham um interesse cultural. A outra coisa é a enorme quantidade de delegadas, delegadas mulheres. Aquela figura grossera do policial de antigamente hoje em dia jamais diria que tivesse qualquer relação com a polícia.

Doris Wieser: Então a reputação da polícia está ficando melhor no Brasil?

L. A. Garcia-Roza: Claro, ela vai se modificando. Há poucos dias atrás eu estava almoçando num restaurante no centro da cidade e na mesa ao lado tinha uma mocinha conversando com um rapaz, mas mocinha, mocinha mesmo, bem arrumada, delicada. E a moça estava almoçando e tocava o telefone e ela atendia várias vezes, até que eu ouvi ela dizer num dos telefonemas: “Aqui quem está falando é a delegada fulana de tal.” Era uma delegada de polícia, uma moça bem vestida, suave, você jamais diria que era delegada. Isso muda. Você entra numa delegacia e encontra uma pessoa dessa e não um troglodita, cheio de ouro pendurado, anéis nos dedos... Não existe mais, felizmente.

Doris Wieser: Qual a relação do personagem com o filósofo Spinoza?

L. A. Garcia-Roza: Quando eu optei por fazer do meu personagem um delegado de polícia e não um investigador privado eu pensei: mas como que vou fazer com que o público leitor tenha alguma empatia com um delegado de polícia? Então eu imaginei que já encontrei alguns que realmente eram pessoas com as quais se podia ter uma relação simpática. Por quê não construir a imagem de um policial cuja característica básica seja a ética dele. É uma figura ética e não um corrompido ou corruptor. E o nome só podia ser Espinosa porque no meu juízo Espinosa foi o pensador mais ético que a história da filosofia ocidental produziu. Então dei o nome e nem pensei duas vezes. Minha única dúvida era a grafia. Se eu botava a grafia com s no começo e com z no final, Spinoza, ou se botava Espinosa bem aportuguesada. Mas como o Baruch de Spinoza é filho de portugeses então falei bom, é aportuguesado mesmo.

Doris Wieser: O método de Espinosa de resolver os casos não sempre tem a ver com lógica. Ele gosta de tecer na sua mente hipóteses totalmente imaginárias que ele próprio sabe que não são verdadeiras. No final das contas todas suas hipóteses ajudam pouco na solução dos casos. É a alma de filósofo do Espinosa que o faz tecer tantas idéias inuteis?

L. A. Garcia-Roza: Não, é caótico. Tem mais a ver com o método psicanalítico, por exemplo, de você ir por puras associações, puras aproximações, deixar que o imaginário aflore aos poucos. O que eu mais gosto dele é isso. O psicanalista age desta maneira. A matéria prima com a qual ele trabalha é o imaginário do outro. Através destas aproximações sucessivas você vai chegando ao nó da questão.

Doris Wieser: Espinosa é um amante da literatura. Ele tem um monte de livros empilhados na casa dele, mas raras vezes consegue se concentrar na leitura. Os casos policias mantém seus pensamentos cativados e ele segue pensando nos casos até depois do serviço. Que função literária tem este amor (um pouco excêntrico) pela literatura?

L. A. Garcia-Roza: Ele é uma figura paradoxal mesmo. Ele gosta de livro porque ele foi educado por uma avó que era tradutora e que por tanto habituou ele com livros, livros de aventuras. Então ele tem um apego ao livro. Ele cresceu no meio de livros. Apesar de ele não ter muito tempo para ler, ele não consegue não ler. São os sonhos dele de se aposentar e montar um sebo, vender livros usados.

Doris Wieser: Quando Espinosa se interessa por uma mulher, se sente estigmatizado por ser policial. Acha que namorar é mais difícil para um policial. A pesar disso as mulheres comfiam nele e no final das contas acabam gostando dele. Começa uma relação com Irene e depois Irene quase não aparece mais no seguintes romances. Porque?

L. A. Garcia-Roza: É mais interessante ele ser solteiro. Se você faz ele casado você já aprisiona mais as possibilidades de aventura, embora acho que é possível você ter um investigador casado. Mas isso torna ele muito mais próximo da figura do homem, chefe de família comum com emprego do que de alguém que você espera que vai mexer com as suas fantasias. Porque na verdade o quê é que faz você simpatizar com o Espinosa é exatamente esta coisa meio vaga dele. Ele nem é casado, mas também nem é um mulherengo. Ele é policial, mas ele é um excêntrico. Em suma, é uma figura meio lacunar. Ele é cheio de lacuna que você como leitor vai preencher. Então se eu faço ele casado eu já preencho uma lacuna importante. Gosto de deixar para o leitor propor.

Eu fiz uma palestra numa livraria há duas semanas. Estava eu, uma professora de literatura e os leitores. Foi uma palestra ótima, simpática, muito agradável. As perguntas foram muito boas. E as pessoas se empolgavam tanto que no fim já estavam propondo casar o Espinosa com a Berenice. São dois mundos diferentes, entende? Berenice não tem nada a ver com o Espinosa. Mas gostaram dela e gostaram dele, então porquê não casar os dois? Se eu faço ele já casado eu bloqueio esta possibilidade.

Doris Wieser: Tenho a impressão de que as tramas secundárias dos romances quase não intervêm na trama policial. P.ex. Alice e o cachorro em Vento sudoeste. Para que servem as tramas paralelas? Para aumentar o suspense ou para dar mais perfil ao Espinosa?

L. A. Garcia-Roza: As duas coisas. Mas sobre tudo para dar uma dimensão de história pessoal ao Espinosa. Senão ele fica sem nenhuma historicidade própria. Quem é o amigo dele? Quem que ele gosta? Ele tem vizinhos e nem fala com os vizinhos, então como é que é isso. Então, inventei a Alice para dar um pouco mais de perfil ao Espinoza.

Doris Wieser: Os criminosos e as vítimas são personagens de distintas classes sociais do Rio. Várias vezes as vítimas indiretas ou secundárias são os pobres. Max (O silêncio da chuva), o meninos de rua (Achados e perdidos, Berenice procura) e Jonas (Perseguido) entram em cena por pura casualidade. Os três pagam com a vida porque não podem contar com a proteção de ninguém. É o perigo maior que correm os pobres?

L. A. Garcia-Roza: A história deles é curtíssima e às vezes nem mesmo chega ser uma história. Pobre no terceiro mundo está condenado a viver pouco. A história toda de Berenice procura se passa dentro de pessoas sem-teto, são todos eles homeless. E de fato esses jovens dificilmente passam dos trinta anos de idade. Você não vê um delinqüente desses com mais de trinta anos. Com trinta anos eles já são considerados velhos.

Doris Wieser: Como é que o senhor investiga os detalhes sobre a vida dos pobres?

L. A. Garcia-Roza: Não faço investigação ou pesquisa propriamente dita, apenas leio e guardo as reportagens publicadas nos jornais e os artigos publicados sobre o assunto. Meus personagens e suas histórias são fictícios.

Doris Wieser: Em Berenice procura um sem-teto vive numa galeria subterránea de uma linha de metro que não foi terminada. Realmente existe a galeria? Como ficou sabendo dela?

Doris Wieser: Existe. Agora, depois de anos, as obras foram retomadas. Eu sabia que ela existia e pedi ao vigia para entrar. Percorri a galeria nos dois sentidos até o fim. Mas não se esqueça: a galeria existe, mas alguns aspectos da galeria de Berenice são fictícios.

Doris Wieser: O senhor disse que queria “começar” pela literatura policial. O que quis dizer com começar? Está pensando em escrever outra coisa?

L. A. Garcia-Roza: Não. Berenice procura foi uma pequena saída porque não é policial, embora tenha a estrutura de uma historia policial sem ser uma história policial. Não tem polícia, não tem investigação no sentido estrito do termo. Esse livro é um livro sobre a ambigüidade, sobre o enigma. Tudo aqui é enigmático, deste a primeira cena até a última. Você sente que tem um jogo ambíguo. Isso foi uma primeira tentativa de dar um pequeno desvio do romance policial estrito.

Doris Wieser: Pensa escrever mais romances com o personagem Espinosa?/P>

L. A. Garcia-Roza: Sim. Já estou escrevendo mas está no começo ainda mas acredito que até o final do ano ele esteja terminado. Gostaria de poder publicá-lo em dezembro 2006.

Doris Wieser: Como é o seu processo criativo? O que é que mais inspira o senhor?

L. A. Garcia-Roza: Meu processo criativo é anárquico. Não parto de nenhum plano pré-estabelecido. Geralmente tomo como ponto de partida um acontecimento simples do cotidiano.

Doris Wieser: Muito obridada!

                8 de março 2006, Rio de Janeiro

 

© Doris Wieser 2006

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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