A historiografia literária brasileira: História e Perspectivas [1]

Prof. Flávio Leal

Doutorado em Letras - Literatura Comparada da Universidade Federal Fluminense - RJ/Brasil
literaturaleal@yahoo.com.br


 

   
Localice en este documento

 

Ao Davi, meu filho, minha eternidade.

 

Os escritos de ficção, objeto por excelência de uma história da literatura, são individuações descontínuas do processo cultural. Enquanto individuações, podem exprimir tanto reflexos (espelhamentos) como variações, diferenças, distanciamentos, problematizações, rupturas e, no limite, negações das convenções dominantes no seu tempo.
       Alfredo Bosi (Por um historicismo renovado: Reflexo e reflexão em história literária In: Literatura e Resistência)

 

Entre diversos embates e entraves da Historiografia Literária, no decorrer do seu desenvolvimento disciplinar, uma das maiores dificuldades que se encontra, desde o período do romantismo e seu projeto nacionalista, no século XIX, no qual se começou a formular a identidade literária dos povos e nações, no caso o Brasil, é especificamente delimitar o seu objeto específico de estudo. Tal corpus deve ser compreendido como todos os escritos que representem determinada cultura? Ou, mais focalizado, os escritos ficcionais tomados como literatura strictu senso, conceito contemporâneo e constantemente revisto e debatido por correntes contemporâneas.

Além disso, após a delimitação do seu corpus, como abordar metodologicamente tais produções? Apenas como reflexo literário dos movimentos político-sócio-culturais do tempo vulgar ou, ainda, como reflexão dos movimentos ideológicos?, ou como respeitar as individualidades literárias dos focos representativos inseridos no processo cultural da Literatura Nacional? Alguns conceitos estão sendo tão debatidos, na virada do século XX, que devem também ser inseridos no campo da historiografia literária, por exemplo: Nação/Nacional, identidade, representação e sociedade. Conceitos sempre conflituosos tornaram-se alicerces de correntes críticas atuais.

As incessantes perguntas sobre o método crítico da historiografia literária, nunca findadas, transformaram-na num “guaiamum coxo” (caranguejo brasileiro), metáfora tão cara aos românticos: sempre andando de lado, com suas diversas pernas (teóricas), não consegue olhar seu caminho. Retire-se o exagero da metáfora, resta-se uma observação preciosa e algoz, pois a avaliação deve ser refeita em relação ao trabalho e repercussão da historiografia literária para que o guaiamum se movimente para frente, vislumbrando seu caminho. Ainda, como e em qual direção?

Mesmo estando coxo, o guaiamum movimentou-se no decorrer do século XX, pois os embates sobre o método crítico não impediram que outras Histórias da Literaturas fossem compostas. Tomam-se exemplos: A Literatura no Brasil (1955 - 1959) de Afrânio Coutinho, Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos (1959), História Concisa da Literatura Brasileira (1970) de Alfredo Bosi, A Literatura Brasileira: Origens e Unidade (1999) de José Aderaldo Castello et coetera.

A fim de responder tais questionamentos críticos, torna-se necessária a revisão de alguns paradigmas e de alguns conceitos que poderão modificar o escopo da disciplina. É consenso nos estudos literários que tais publicações/marcos assinaladas são imprescindíveis para o entendimento da disciplina e do seu desenvolmento [1]. Para Benedito Nunes, crítico renomado, por exemplo, durante a década de 50, a historiografia literária brasileira iniciava uma nova fase no seu desenvolvimento crítico, rompendo os paradigmas do século XIX, impostos pelos modelos: sociológico positivista representado pela História da literatura brasileira de Sílvio Romero e o histórico-estético representado pela História da literatura brasileira de José Veríssimo. [3]

Diferentes movimentos e acontecimentos históricos e literários contribuíram para que tais revoluções críticas fossem efetuadas. Sem dúvida, houve um impulso motriz com o Movimento Modernista de 22 e de sua repercutida efervescência intelectual. Surgem nas décadas de 40 e 50, no círculo chamado Uspiano, pois a Universidade de São Paulo recém-inaugurada promove uma reflexão que se torna seu pilar; obras que são todas tentativas de repensar o Brasil e seus meandros. A década de 50 é aberta por Lucia Miguel Pereira, Mestra de Candido, com sua História da literatura brasileira (prosa e ficção: 1870 - 1920), logo após Otto Maria Carpeaux publica, em 1947, publica a História a Literatura Ocidental, e sua Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira, em 1951. Um ano após, Wilson Martins aparece com sua obra: A crítica literária no Brasil. Em, 1954, Antônio Soares Amora publica sua História da literatura brasileira (os séculos XVI-XX). Mas também, em 1956, Alceu Amoroso Lima lança sua Introdução à literatura brasileira. A década se encerra com as duas maiores publicações deste meio século para a historiografia e crítica literárias: a primeira, em 1955 - 1959, do impositor metodológico Afrânio Coutinho, fundador da Universidade do Rio de Janeiro, com sua A literatura no Brasil, com seus 6 volumes, e, finalmente, em 1959, Antonio Candido com os dois tomos da Formação da literatura brasileira: momentos decisivos.

A fim de iniciarmos uma (re)visão da Historiografia da Literatura: História e Perspectivas, far-se-á a análise de alguns ícones, que representam o desenvolvimento da disciplina no Brasil: Afrânio Coutinho, Antonio Candido, Otto Maria Carpeaux e Alfredo Bosi.

Na obra organizada e plenejada por Afrânio Coutinho, há a preconização de uma “Nova Crítica” anti-romeriana, que “deveria destacar e valorizar a qualidade estética da obra, deixando em segundo plano os fatores históricos e biográficos tidos por exteriores à criação literária” [4]. Percebem-se os apoios metodológicos da Teoria da intuição-expressão de Croce e do New Criticism, “embora ainda sem o espírito de sistema”, corrente em moda na epóca com o seu close-reeding e, ainda, do formalismo russo, lido por René wellek, e o conceito de literariedade [5]. O Crítico Wilson Martins aponta ferozmente a contradição no arcabouço estético-literário de Coutinho em sua história da literatura:

(...) doutrinando sem cessar sobre o que a crítica deve ser, Afrânio Coutinho jamais demonstrou, pela prática dos seus princípios, o que ela pode ser. Em teoria, tratava-se de substituir a abordagem historiográfica (ou “historicista”, como ele prefere dizer em terminologia depreciativa) pela análise técnica do texto, mas é coisa que nem ele, nem os seus discípulos realmente fizeram. A obra máxima em que a doutrina deveria ter encontrado comprovação foi... uma história literária, na qual a abordagem “historicista” é inevitável e natural, embora dissimulada, no caso, pelo vocabulário supostamente estético ou “estilístico” (outra palavra prestigiosa, empregada, aliás, a contra-senso e, ao que parece, posteriormente abandonada). [6]

Wilson Martins aponta para direções inevitáveis da área da disciplina e para os pressuspostso de Afrânio Coutinho que, realmente, ficaram aquém de sua postulação teórico-metodológica, ratificando a “abordagem historicista” camuflada de “estilílistica” ou “estética”. Objetivando uma “História literária da literatura” [7] que seria mais literária do que histórica, A Literatura no Brasil pressupunha uma abordagem em que a manifestação estética tivesse certa autonomia e relevância ante o movimento histórico. Desta forma, de acordo também com o método de Antonio Candido, evitar-se-ia um método sociologizante para adotar uma abordagem na qual o evento literário fosse adotado como o cerne da historiografia.

De outro lado, Antonio Candido iniciou seus estudos, em seu trabalho intelectual, pelas Ciências Sociais (c.f. Parceiros do Rio Bonito), por isso, talvez, o aspecto social em suas análises é tão evidente (p.ex. Literatura e Sociedade; Dialética da malandragem etc). Iniciando, nos Estudos Literários, com sua tese: Introdução ao Método Crítico de Silvio Romero, que demonstra o cuidado, respeito e a acuidade pela tradição para dar um passo além. Analisando a “estratégia crítica” empregada na Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos (1959), João Alexandre Barbosa aponta no trabalho de Antonio Candido a união “de dois tipos de influências importantes: os estudos antropológicos de traço funcionalista, principalmente ingleses e norte-americanos, articulados pela leitura sociológica de herança marxista, e uma teoria da obra literária como estrutura estética, absorvida no trato com o New Criticism” [8].

Candido elabora conceitos que norteiam suas concepções e trabalho de pesquisa sobre a Formação, rompendo com a “versão etnológica da história, desarticulando também - pela primeira vez cabal - o chamado método utilitário-funcional de Sílvio Romero” [9]. O conceito-núcleo é o de Sistema Orgânico Literário.

A ‘única grande querela’, criada após a publicação da Formação, foi realizada por Haroldo de Campos [10]: O seqüestro do barroco na formação da literatura brasileira: o caso Gregório de Matos. Infelizmente, o único debate gerado foi um pequeno fiapo do arcabouço teórico de Candido. É inconcebível como uma obra da amplitude e significância de Formação tenha se resumido no ensino de literatura ao mero e simplista debate entre estas duas grandes figuras: Haroldo de Campos, em defesa do Barroco (retirado da Formação da Literatura, por não compor o sistema), e Candido com sua Formação sistêmica.

A Formação, com seu arcabouço teórico, realiza uma distinção entre as manifestações literárias, termo caro e já fixado por José Aderaldo Castelo em sua Presença, e o próprio conceito de Literatura, que será entendido por Candido como um sistema com sua organicidade, ou seja, a Literariedade dos textos estará não mais no aspecto imanentista de cada obra, mas sim em sua relação de existência na sociedade e seus aspectos de produção, recepção e tradição que farão a obra como objeto existente em um sistema articulado por uma tríade dinâmica e histórica (autor-obra-público).

Este conceito de sistema literário norteia todo o pensamento de Formação, dando-lhe um caráter de avanço conceitual e teórico nos Estudos Literários, na Historiogrfia Literária do Brasil. Conceito-núcleo, Candido diferencia, sem menosprezo, as:

[...] manifestações literárias de literatura propriamente dita, considerada aqui como um sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas dominantes duma fase. Estes dominantes são além das características internas (língua, temas, imagens), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes de seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns a outros. ( Formação - I, p. 25)

Desta forma, o processo formativo dinâmico da Literatura brasileira, concebida como sistema literário com sua organicidade, possuindo uma constituição progressiva de um sistema articulado e coeso em uma tríade com interação constante e dinâmica, denomina a concepção de Literatura. O Barroco por não se articular em uma tradição é seqüestrado pela concepção de Sistema, coerentemente.

Para ratificar o conceito de Sistema, já debatido por Costa Lima que delineia algumas fontes teóricas do processo crítico-metodológico de Candido, como por exemplo o funcionalismo antropológico inglês [11], e por Marisa Lajolo [12] em seu esplêndido ensaio, Candido nos diz que a literatura concebida por esse viés é um conjunto, “sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores”. É um sistema que apenas permanece vivo se houver a recepção não-passiva do leitor, interagindo com a produção literária e modificando-a. A este processo se junta o autor, “termo inicial” do processo literário, criando assim uma configuração orgânica da “realidade literária” com uma tradição histórica e literária composta por uma tríade coesa, componentes de um processo formativo da Literatura, na obra: Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos.

Os conceitos formulados pelas abordagens de Candido começaram a ser debatidos nos últimos decênios do século XX, ao meu ver, discussões tardas. Uma obra da amplitude e discussão como a Formação deveria ser repensada e não somente comemorada. A tradição deve ser perpetuada como reprodução ou reflexão?

Desta forma, aqui uso as próprias palavras de Candido sobre a literatura do século XIX, para criarmos uma possível reflexão, objeto de incansável pesquisa candidiana, em seu ensaio: Dialética da Malandragem sobre as Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida:

O sentido das Memórias está ligado ao fato delas não se enquadrarem em nenhuma das racionalizações ideológicas reinantes na literatura brasileira de então: indianismo, nacionalismo, grandeza do sofrimento, redenção pela dor, pompa de estilo, etc. Na sua estrutura mais íntima e na sua visão latente das coisas, elas exprimem a vasta acomodação geral que dissolve os extremos, tira o significado da lei e da ordem, manifesta a penetração recíproca dos grupos, das idéias, das atitudes mais díspares, criando uma espécie de terra-de-ninguém moral, onde a transgressão é a apenas um matiz na gama que vem da norma e vai ao crime. “Manuel Antônio de Almeida é talvez o único em nossa literatura do século 19 que não exprime uma visão de classe dominante. [13]

A Dialética da Malandragem, crítica dialética realizada por Candido, demonstra sua concepção sobre a Literatura e suas possíveis abordagens. Como sempre respeitando a tradição, Antonio candido se refere no seu ensaio às críticas anteriores, desarticulando-as para criar a sua abordagem dialética das classes sociais, entre a ‘ordem e a desordem, na obra Memórias ...’. Vale também a pena ler a crítica feita por Roberto [14] sobre os pressupostos de uma Crítica Dialética Marxista; Dialética da Malandragem como ponto-chave na crítica literária brasileira. Entretanto, esta por ora não é nossa abordagem. Refiro-me a citação acima para pensarmos a construção do sistema literária na Formação da literatura brasileira. Candido se refere às “racionalizações ideológicas reinantes na literatura brasileira” do século XIX: “indianismo, nacionalismo, grandeza do sofrimento, redenção pela dor, pompa de estilo, etc”. Partes integrantes que compuseram um sistema literário nacional, coeso, tradicional e histórico. Afirmando posteriormente que “Manuel Antônio de Almeida [leia-se Memórias . . .] é talvez o único em nossa literatura do século 19 que não exprime uma visão de classe dominante”. A crítica dialética cultural tensiona os pólos dos pensamento hegemônico e o da obra literária. Nossa literatura, na Formação exprime nosso caráter nacional, de um povo vasto e pluri-étnico? A resposta é afirmativa e dialética, [perdoe-me o par antitético]. As etnias tornam-se presentes pela ausência, como por exemplo o indianismo, que expressa uma realidade transmudada, que não corresponde à representação de uma parcela significativa de uma nação. Assim como no próprio Memórias, onde o negro aparece como pano-de-fundo para as aventuras de Leonardo Pataca. Presente pela ausência, de acordo com os mecanismos de poder social, econômico e ideológico de uma nação que necessita de representação literária, que é reproduzida ainda com seus pressupostos, salvo engano, excludentes.

A relação entre ficção e realidade empírica, entre texto e contexto, suas fronteiras e feituras, suas inter-relações e processos de constituição; estes são aspectos que a Teoria da Literatura e a Crítica Literária trazem à tona às suas discussões constantemente.

De acordo com Candido, em sua concepção crítica de feitura ficcional, a interpretação estética assimila:

a dimensão social como fator de arte. Quando isto se dá, ocorre o paradoxo assinalado inicialmente: o externo se torna interno e a crítica deixa de ser sociológica, para ser apenas crítica. O elemento social se torna um dos muitos que interferem na economia do livro, ao lado dos psicológicos, religiosos, lingüísticos e outros” [15].

O externo [Contexto - Realidade empírica] se torna interno [Texto - Obra estética] e o elemento social se torna um dentre vários elementos que compõem o texto ficcional, em um movimento dialético entre ficção e realidade. Evidentemente, há o reconhecimento da transgressão ficcional dos fatores sociais e da autonomia da ficção em face da realidade e as relações de reciprocidade existentes entre ambas as esferas. Assim, “vendo os problemas sob esta dupla perspectiva, percebe-se o movimento dialético [grifo meu] que engloba a arte e a sociedade num vasto sistema solidário de influências recíprocas” [16].

Um texto recente do crítico uspiano Alfredo Bosi, autor reconhecido de História concisa da literatura brasileira e Dialética da colonização, “Por um historicismo renovado: reflexo e reflexão em história literária” [17] debate especificamente sobre a História das Histórias Literárias do Brasil. Nesta discussão, Bosi ressalta que está em “busca de um historicismo aberto, largo e profundo, que saiba fundar conceitualmente uma história da literatura como história das obras literárias.” [18] A superação de um historicismo representativo nacionalista romântico e de um historicismo sociologizante positivista, evolucionista e naturalista é a renovação apontada por Alfredo Bosi. Desta forma, o cerne da História da Literatura se encontraria na história das obras literárias, na individuações dos textos, tomados enquanto “individuações descontínuas do processo cultural” que “podem exprimir tanto reflexos (espelhamentos) como variações, diferenças, distanciamentos, problematizações, rupturas e, no limite, negações das convenções dominantes no seu tempo.” [19]

Para propor tal Resistência, termo tão caro ao texto, Bosi cria uma revisão dos principais historiadores e críticos da Literatura Brasileira: Sílvio Romero, José Veríssimo, Araripe Jr., Mário de Andrade, Ronald de Carvalho, Augusto Meyer, Álvaro Lins, Afrânio Coutinho e Nélson Werneck Sodré et coetera. De acordo com o texto, exemplificando saídas resistentes, encontram-se a História da literatura ocidental, de Otto Maria Carpeaux, e Formação da literatura brasileira: Momentos Decisivos, de Antonio Candido, que demonstram a relação da obra e o contexto, propiciando um entendimento “da literatura como história das obras literárias” e suas singularidades literárias. Tomando a relação entre texto e contexto como reciprocidade de influências, superando a simplória representação, as Historiografias de Carpeaux e Candido adotam uma “perspectiva ampliada, respeitosa dos direitos da memória, da imaginação e da reflexão crítica, (...) recebem nova luz as relações entre literatura e sociedade, literatura e nação.” [20]

A lição de Otto Maria Carpeaux, demonstrada e ressaltada por Bosi, na História da Literatura Ocidental, “ensinava, entre tantas outras coisas fundamentais, a meia verdade do determinismo sociológico”. De acordo com Alfredo Bosi,

o cerne da dialética de Carpeaux na elaboração da História da Literatura Ocidental encontra-se precisamente na sua capacidade de identificar nos grandes textos literários não só a mimesis da cultura hegemônica, mas também o seu contraponto que assinala o momento da viragem, o gesto resistente da diferença e da contradição. Este olhar arguto, que reconhece tanto a ortodoxia como as suas necessárias heresias, discerne até mesmo na escrita dos antigos, tão cristalizados pela tradição escolar, as formas múltiplas do dissenso. [21]

A historiografia elaborada por Carpeaux é um verdadeiro “diálogo entre passado e presente”. a relação entre literatura e sociedade, a partir de Otto Maria Carpeaux, toma singular renovação, pois há o “conceito de tensão entre os pólos do determinismo e da liberdade criadora, um difícil equilíbrio entre as categorias sócio-históricas e a individuação autoral, um renovado e difícil equilíbrio entre as ideologias dominantes e as contraideologias articuladas ao longo da criação artística”.[22]

Às vezes, como afirma Bosi: “não é a memória de um paraíso terreno mítico, mas a utopia do Reino, da sociedade igualitária ou do comunismo universal que leva o escritor a afrontar os seus contemporâneos e, com os olhos postos no dia que há de vir, desmascarar as trampas da ideologia corrente” [23], realizando o diálogo cultural entre esferas temporais e tensionadas.

A relação entre Crítica e Historiografia Literárias, por essa visada dialética, torna-se ainda mais produtiva, indispensável e inevitável, já que a crítica se ocupa da obra e de suas renovadas leituras incessantes. Assim, a História da Literatura deve se alimentar da crítica, a fim de realizar sua empreitada de historiografia crítica cultural. [24]

Perante a corrente de estudos contemporânea, Bosi diz que a relação entre Literatura e Sociedade não deve ser tomada como pacífica, após a lição demonstrada por Otto Maria Carpeaux. “No final do séc. XX, quando a prática dos Estudos Culturais (Cultural Studies) se arrisca de novo a simplificar as relações entre literatura e sociedade, vale a pena retomar os nós conceituais da questão.” [25] Diz Bosi que Antonio Candido possui “candente atualidade hoje quando a prática dos Estudos Culturais (Cultural Studies) voltou a tratar o texto literário como variante da indústria cultural ou mero instrumento de lobbies.” [26]

Se a crítica literária brasileira alcançou a sua “acabada maioridade” [27], por que então importações teóricas passivas continuam em vigência no âmbito da disciplina dos estudos literários. Deve-se, desta forma, democrática ou antropofagicamente, receber e deglutinar tais abordagens teóricas importadas, ou melhor, assim como a Poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade: criar uma poesia (Crítica e História Literárias) de exportação.

Tendo em vista a redimensão dos conceitos sócio-culturais da América Latina e do mundo, as fronteiras da conceituação de literatura vêm sendo permanentemente (re)vistas, (re)discutidas e (re)visadas. Como exemplo de questinamentos das divisas e conceitos, Antônio Risério, em seu livro: Textos e tribos: poéticas extraocidentais nos trópicos brasileiros, reclama a atenção da crítica e da historiografia literárias para as “textualidades extra-ocidentais nos trópicos brasileiros”: cantos tribais dos autóctones e os orikis da cultura nagô-iorubá [28]. Tais propostas são recebidas pelo próprio criador do modelo historiográfico da Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos, num texto chamado Direito à Literatura:

Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações. Vista deste modo a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povoe não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contacto com alguma espécie de fabulação. [29]

Torna-se necessário “abrir eventualmente um espaço” para eventos culturais nomenclaturados como folclore, tais como: poesia, cantos, danças de índigenas e afro-brasileiros. Antônio reclama que seja incorporado o

(...) critério bastante interessante (...) de acolher no corpo da literatura não só aquilo que se considera como tal hoje em dia, mas também outras modalidades, ou seja, aquilo que num determinado momento era considerado literatura (por exemplo, um discurso político ou jurídico do tempo da Independência). E também, talvez, aquilo que nunca foi considerado como tal. [30]

Pois a literatura é “verdadeiramente enciclopédica, a literatura faz girar os saberes, não fixa, não fetichiza nenhum deles; ela lhe dá um lugar indireto, e esse indireto é precioso”. [31]

Após as contribuições das correntes do final do século XX: Nova História,, Descontrucionismo, Estudos Culturais e Pós-coloniais, as contribuições e revisões da Historiografia tornam-se reclamadas nos estudos literários. Os objetos canônicos, a linearidade temporal tradicional, o sentido de evolucionismo literário sofrem questionamentos e transformações. A noção de linearidade por exemplo é substituída pela “verdadeira dialética entre passado e presente”, ou seja, um “diálogo entre o passado e presente” [32]. A noção tradicional de Nação é rompida, construção do século XVIII, pois “qualquer tipo de fronteira rígida entre povos, como a idéia de nação, hoje vista como uma construção discursiva frágil, somente sustentável por interesses hegemônicos” [33]. No seu lugar, o conceito mais flexível de “regiões culturais” surge como reflexo e reflexão da expressão artística. Ainda, até a própria conceituação de Literariedade, base da Historiografia tradicional, “vem sendo também constantemente repensada, a ponto de incluir categorias do discurso até então excluídas do considerado ‘literário’, como os designados ´registro popular´ ou ´literatura oral´ e a produção de grupos étnicos marginalizados” [34]. Nesta onda de revisões, o conceito de América Latina torna-se largo para abarcar a “pluralidade” e a “heterogeneidade”, que “reconheça as diferenças de ordem geográfica, linguística, etnográfica, cultural, econômica etc. do continente e busque dar conta dessa diversidade de maneira desierarquizada”. [35]

Estas transformações propostas possuem um avanço que seria uma perspectiva comparativista transcultural das obras literárias,

como elementos históricos num contexto cultural dinâmico de transmissão e recepção, e neste contexto, o “diálogo” constitui talvez o fator central, pois é algo que ocorre, como afirma Wolfang Iser, em diversos níveis: “entre passado e presente, entre vozes que expressam preocupações comuns, entre conceituações teóricas, entre padrões de valor”. [36]

Tais modificações, segundo Eduardo Coutinho, poderiam promover o diálogo cultural e temporal, na construção de uma historiografia literária, “no atual contexto histórico, de dar conta da mutiplicidade de visões de um universo como a América Latina”.

Há ainda alguns perspectivas para uma renovação da historiografia que poderão ser estudadas. Para que isto ocorra, seria imprescindível a reflexão sobre:

— A Relação entre Literatura e Sociedade na Historiografia Literária Brasileira;

— A individuação de cada obra literária e sua relação com a Historiografia;

— A conceituação de Literatura para a Historiografia, perante a pluralidade sócio-cultural do Brasil e da América Latina;

— A existência de possíveis sistemas literários e suas inter-relações que formam um macro-sistema literário da Literatura Brasileira;

— A relação do Macro-sistema literário brasileiro com outros sistemas literários: (latino-americanos, europeus, africanos, asiáticos e norte-americanos);

— Literatura empenhada / Expressão de uma literatura pluri-étnica brasileira;

— A vinculação da literatura à formação histórica do Estado e seus mecanismos de Poder na Literatura Brasileira;

— A manifestações das minorias na Literatura Brasileira;

— A Historiografia da Recepção e Produção de textos, eventos do passado e experiências do presente.

— Como afirma Benedito Nunes, “conjunto simbólico e valorativo de alcance ideológico e político chamado Cultura Brasileira, com o qual confina a Historiografia literária, mas que a própria Historiografia literária contribui para formar (…), também compete à Historiografia levar em conta o transnacional.” [37]

Estes são alguns aspectos que poderiam enriquecer os estudos literários da Literatura Brasileira e seu desenvolvimento disciplinar, no século XXI. Desta forma, poder-se-ia partir das conquistas obtidas pela Historiografia Literária, respeitando seu alcance e proporcionando novas reflexões acerca da Literatura e de suas fronteiras.

Estas renovadas dimensões começam a se delinear no horizonte da Historiografia Literária, pois a literatura é por natureza humanizadora e como tal não pode ser subserviente ao Poder. Ela deve sim fornecer tanto a fruição (à Barthes) como promover a inquietude do espírito. Esta “necessidade de conhecer os sentimentos e a sociedade”, combater as opressões e se empenhar numa literatura e numa sociedade, estas atitudes políticas promovem ao conhecimento e ao prazer estético o exercício da reflexão que é o “nervo da vida”: a contradição na aventura do espírito. Esta Humanização, que é própria literatura, é entendida como:

o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, a afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. [38]

 

Notas:

[1] Este artigo é parte da pesquisa de Doutorado em Letras - Literatura Comparada, debatida inicialmente pelo Prof. Dr. Marcelo Paiva, em seu esplêndido curso no Mestrado em Letras (UFES) sobre a Historiografia Literária, orientada pelo Prof. Dr. Fernando Muniz na Universidade Federal Fluminense - UFF - Brasil.

[2] Já em 1961, no II Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, em Assis SP, João Alexandre Barbosa enfatiza o mérito de A literatura no Brasil e Formação da Literatura Brasileira por conseguirem fixar “uma correlação maior entre os estudos histórico-literários brasileiros e as perspectivas da crítica moderna” (cf. “Ensaio de historiografia literária brasileira” in Opus 60: ensaios de crítica. São Paulo: Duas Cidades, 1980, p.49).

[3] Nunes, Benedito. “Historiografia Literária do Brasil” in Crivo de papel. São Paulo: Ática, 1998, p. 239 et passim.

[4] Bosi, Alfredo. “Por um historicismo renovado: reflexo e reflexão em história literária” in Literatura e resistência. São Paulo: Cia das Letras, 2002. p .27

[5] Afrânio Coutinho como um mero “vulgarizador de doutrinas alheias”: Martins, Wilson. A crítica literária no Brasil, vol. II; 3ª edição atualizada. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2002, p. 55-62.

[6] Martins, Wilson. Ob. cit., p.62.

[7] Coutinho, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. 17ª edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. p.15

[8] Barbosa, João Alexandre. “Paixão crítica” in A leitura do intervalo. São Paulo: Iluminuras, 1990, p.60.

[9] PRADO, Antonio Arnoni. “Dimensão Crítica da Formação”. In: De la Serna, Jorge. Antonio Candido: Homenagem. São Paulo. Ed. UNICAMP, 2003. p. 419

[10] CAMPOS, Haroldo de. O seqüestro do barroco na formação da literatura brasileira: o caso Gregório de Mattos, seg. ed. Salvador: FCJA, 1989

[11] LIMA, Luiz Costa. “O conceito de história literária na Formação” In: Pensando nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

[12] LAJOLO, Marisa. “A leitura na Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido”. In: De la Serna, Jorge. Antonio Candido: Homenagem. São Paulo. Ed. UNICAMP, 2003.

[13] C. f. CANDIDO, Antonio. “Dialética da Malandragem”. In: ALMEIDA, Manuel Antonio de. Memórias de um Sargento de Milícias - Ed. Crítica - Cecília de Lara (Org.) - Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978. p. 340-1.

[14] SCHWARZ, Roberto. “Pressupostos, salvo engano, de ‘Dialética da Malandragem’”. In: LAFER, Celso (Org) Esboço de figura: homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1978. p. 133 - 156

[15] CANDIDO, Antonio. “Crítica e Sociologia”. In: Literatura e Sociedade. 7a. ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1985. p.07

[16] Idem. p. 24.

[17] Bosi, Alfredo. “Por um historicismo renovado: reflexo e reflexão em história literária” in Literatura e resistência. São Paulo: Cia das Letras, 2002.

[18] Ibidem, p.9

[19] Ibidem, p.10.

[20] Ibidem, p.53.

[21] BOSI, Alfredo. Caminhos entre a literatura e a história. Estud. av., São Paulo, v. 19, n. 55, 2005. P.325

[22] BOSI, Alfredo. Caminhos entre a literatura e a história. Estud. av., São Paulo, v. 19, n. 55, 2005. P.325.

[23] Ibidem. P.326.

[24] Davi Arrigucci Jr. sobre Céu, inferno e Literatura e resistência?: “Bosi é o autor da História concisa, manual indispensável ao estudo de nossas letras. Agora volta mudado; mais detido, penetrando fundo em figuras centrais de nossa literatura - Machado, Raul Pompéia, Graciliano, Guimarães Rosa, Drummond... O ensaísta amadureceu e intensificou sua visada analítica, refletindo sobre a própria arte da interpretação, sem no entanto abandonar a perspectiva histórica como um ponto de vista fundamental nos estudos literários. Não descuida, por isso, da análise formal nem se afasta do presente. Ao contrário, se esforça por integrar todo detalhe significativo no movimento geral da sociedade e no curso das idéias, sem perder de vista seu próprio tempo.” InCéu, inferno, de Alfredo Bosi”. Outros achados e perdidos. São Paulo: Cia das Letras, 1999, p.329-330.

[25] Bosi, Alfredo. “Por um historicismo renovado”, p.11.

[26] Ibidem, p.43.

[27] Mota, Leda Tenório da. Sobre a crítica literária brasileira no último meio século. Rio de Janeiro: Imago, 2002. p.201

[28] Risério, Antonio. Textos e tribos: poéticas extraocidentais nos trópicos brasileiros. Rio de Janeiro: Imago, 1993.

[29] CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. 3a. ed. (Revista e Ampliada). São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1995. p.242.

[30] Ibidem, p.109.

[31] BARTHES, Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 1979. p. 18.

[32] BRAUDEL, Fernand, em Civilization and Capitalism 15-18 Century, V. I, Structures of Everyday Life: the limits of the posible. Trad. Sian Reynoldsd. London: Collins, 1981, p. 25.

[33] COUTINHO, Eduardo. Reescrevendo a América Latina: em busca de uma nova Historiografia Literária no continente. In: Literatura Comparada na América Latina: Ensaios. RJ: EdUERJ, 2003. P.82.

[34] Ibidem. P. 82.

[35] Ibidem. P. 86.

[36] Ibidem. P. 88.

[37] Nunes, Benedito. “Historiografia Literária do Brasil” in Crivo de papel. São Paulo: Ática, 1998, P. 246.

[38] CANDIDO, Antonio. Direito à Literatura. In: Vários Escritos. 3a. ed. (Revista e Ampliada). São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1995. p.249

 

© Flávio Leal 2007

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

El URL de este documento es http://www.ucm.es/info/especulo/numero34/hisliter.html