Duas senhoras-meninas transgressoras:
Nada de Carmen Laforet e Perto do Coração Selvagem de Clarice Lispector

Lélia Almeida*

Universidade Federal do Rio Grande do Sul


 

   
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Duas meninas consagradas na literatura de autoria feminina cumprem sessenta anos. Joana e Andrea, respectivas personagens dos romances Perto do coração selvagem de Clarice Lispector, de 1943 e Nada, de Carmen Laforet, Prêmio Nadal de 1944, cumprem, como heroínas singulares, o projeto de um romance de formação.

Massaud Moisés nos esclarece em seu Dicionário de termos literários, sobre o termo bildungsroman, como equivalente, em português ao termo romance de formação, “modalidade de romance tipicamente alemã, gira em torno das experiências que sofram as personagens durante os anos de formação ou de educação, rumo da maturidade” (MOISÉS 1978 : 63)

Para Mikhail Bakhtin em seu estudo sobre o romance de formação, na maioria dos casos,

[...] o romance (e as variantes romanescas) conhece apenas a imagem pré-estabelecida do herói. A dinâmica do romance, os acontecimentos e episódios nele representados, consiste em movimentar o herói no espaço, na hierarquia social: ele é mendigo, fica rico, é plebeu, torna-se pobre. O herói ora se aproxima, ora se afasta de seu objetivo - da noiva, da vitória, da riqueza, etc. Os acontecimentos modificam-lhe o destino, a situação na vida e na sociedade, ao passo que ele permanece inalterado, sempre igual a si mesmo. (BAKHTIN 2000 : 238)

Estas, dentre muitas outras definições apontam, desta maneira, para a caracterização do romance de formação protagonizado sempre por um personagem masculino, dono e senhor do relato e em busca do seu destino e suas realizações.

Ainda que algumas críticas neguem a existência de um bildungsroman feminino, vendo-o como especificamente masculino, a idéia da existência de um romance de formação feminino é aceita, principalmente levando-se em conta seu caráter de releitura de determinados temas recorrentes na literatura de autoria masculina e que vão ser reinterpretados de maneira inovadora, diferenciada, pelas autoras mulheres.

A definição do que seja o Bildungsroman feminino tem partido, de uma forma geral, do conceito de Bildungsroman tradicional e, se estabelecido a partir da oposição e da diferença entre os termos que identificam o lugar e o significado do herói ou da heroína na trama.

No bildungsroman tradicional, o universo romanesco tem seus motivos centrados no protagonista masculino que é representado como quem domina a esfera pública, o mundo e a existência. Esfera pública esta que se amplia para além dos limites das ruas e se estende para o domínio do Estado, da Pátria ou da Igreja e que, na contra-partida, delimita o espaço feminino ao recato e à clausura domésticos. Mantém-se, desta maneira, uma estrutura onde a mulher é o centro da célula familiar, mantenedora do lar e das agulhas, reproduzindo-se a idéia de que o mundo, o mundo da rua, é o espaço por excelência dos homens. A representação desta estrutura social e política nos tradicionais romances de formação, em que os homens deverão realizar um sem números de conquistas e processos de independência e autonomia têm determinado que, em função de sua posição secundária e subalterna, nos romances de formação femininos, as tentativas de realização das protagonistas femininas tenham sido, muitas vezes frustradas ou fracassadas.

Mesmo quando cumprem com todos os passos para a realização de um processo de independência ou autonomia em que, temas como a orfandade, a ida para um internato, ou a busca de cidades grandes são recorrentes - mesmo assim estas personagens, com freqüência, no final do relato, ou morrem, ou se suicidam ou enlouquecem.

Esta impossibilidade de integração social da mulher num meio totalmente adverso, que foi muitas vezes representada pela literatura de mulheres, principalmente do século XIX ou da primeira metade do século XXI, apresentava de forma recorrente um final trágico para estas personagens ou de irreparáveis frustrações, o que fez com que a crítica aproximasse a idéia do romance de formação feminino a um bildungsroman fracassado.

É esta a percepção de Edna Aizenberg em seu estudo El bildungsroman fracasado em latinoamérica: el caso de Ifigênia de Teresa de la Parra, quando cita Cynthia Steele:

[...] un modo de narración tipicamente femenino em Hispanoamérica es lo que ella llama el Bildungsroman fracasado (failed bisldungsroman). Este vendría a ser una versión de la tradicional novela de aprendizaje em la cual la heroína, em vez de lograr la autorrealización y la integración personal - o como es el caso masculino -, termina frustrada, sacrificada o muerta. (AIZENBERG 1985 : 539)

A busca da realização e integração da mulher define uma diferença básica entre o Bildungsroman tradicional - masculino - e o feminino. Para Cristina Ferreira Pinto, em seu ensaio O Bildungsroman feminino: quatro exemplos brasileiros, enquanto o herói busca uma filosofia de vida e uma vocação, a mulher procura uma identidade, a realização e afirmação do EU em seus próprios termos (PINTO 1990: 148). Para Pinto haveria características temáticas definidoras do que seria um Bildungsroman feminino e que seriam

[...] infância da personagem, conflito de gerações, provincianismo ou limitação do meio de origem, o mundo exterior [...], auto-educação, alienação, problemas amorosos, busca de uma vocação e de uma filosofia de trabalho que podem levar a personagem a abandonar seu ambiente de origem e tentar uma vida independente. (PINTO 1990: 14)

A esta nova personagem feminina nascida ao alvorecer do século XX, Carmen Martín Gaite, identificando-a justamente com Andréa de Nada de Carmen Laforet, chamou de la chica rara.

[...] En una palabra, Andrea es una chica "rara", infrecuente. [...] Este paradigma de mujer, que de una manera o de otra pone en cuestión la "normalidad" de la conducta amorosa y doméstica que la sociedad mandaba acatar, va a verse repetido con algunas variantes em otros textos de mujeres como Ana María, Dolores Medio y yo misma. Y por ser Andrea el precedente literario de la "chica rara", en abierta ruptura con el comportamiento femenino en otras novelas anteriores escritas por mujeres, es por lo que interesa analizar los componentes de su rareza, relacionándolos con la época en que este tipo de mujer empieza a tomar cuerpo (p.112)

Para Gaite o surgimento deste tipo de protagonista, la chica rara, representam

[...] de ahora en adelante, las nuevas protagonistas de la novela femenina, capitaneadas por el ejemplo de Andrea, se atreverán a desafinar, a instalarse en la marginación y a pensar desde ella; van a ser conscientes de su excepcionalidad, viviéndola con una mezcla de impotencia y de orgullo. Em general son chicas que tienen pocas amigas, que prefieren la amistad de los hombres (p.112)

Em muitos textos de autoria feminina da Espanha da época, do pós-guerra, estas meninas estranhas, inadequadas, inconformadas, não suportam a clausura doméstica e, o mundo da rua e suas ilimitadas possibilidades, são uma promessa de realização e aventura (p.113) A rua e o espaço urbano são o novo cenário, em oposição ao cenário doméstico, familiar, o novo espaço em que a vida destas heroínas vai-se desenrolar

[...] En esta vida aparte, incógnita, ansían estas nuevas heroínas de cuño urbano disolver la suya, como en una ofrenda de la propia identidad, amenazada y en crisis. Sueñan con perderse en una calle donde nadie las conozca, donde, convertidas en seres anónimos, puedan dejar de sentir la servidumbre de unos lazos agobiantes y caducos. La disolución liberadora que permite la calle, de acuerdo con los sueños de estas chicas, es la transposición de los anhelos románticos de fusión con la naturaleza que llevaban a Rosalía de Castro a hacer un alto en su habitual paseo vespertino y sentarse a invocar a la luna, de regreso de Bastabales, antes de volver a encerrarse en su casa para seguir desempeñando los papeles de madre y esposa, con el entreacto - eso sí - de alguna mirada furtiva a la ventana (p.114)

Trata-se, geralmente, de moças solteiras, que buscam além do amor outras perspectivas de vida e de identidade, longe das projeções familiares. Para a chica rara a possibilidade da experiência de uma vida "normal" é remota e, ela sabe, a partir de suas escassas mas significativas experiências que uma vida "normal" para ela, é remota e que [...] “ en la vida no existen finales felices” (p.120)

[...] Assim como suas protagonistas, as próprias autoras que passam a escrever a partir de 1944, são meninas estranhas, inadequadas e que propõem uma [...] “Relación nueva, dolorosa y dinámica de la mujer con el medio en que se desarrolla su formación como individuo. Para la mayoría de estas autoras [...] la dialéctica entre libertad y sumisión es un núcleo perenne de conflicto. (p.121)

Portanto, seria correto dizer que, assim como as protagonistas femininas que aparecem neste período, outros grupos de mulheres estranhas se fariam ver, e agora, para sempre. Mulheres que não acreditam mais no amor romântico dos romances sentimentais e nem num casamento perfeito. Nestes novos grupos de mulheres estranhas, diferentes, consideradas inadequadas, protagonistas marginais que questionam a validade da etiqueta e do decoro feminino, talvez se encontrem as próprias escritoras e suas leitoras. Respondendo às críticas que, direta e indiretamente, as recém publicadas autoras sofriam na época e que sugeriam que era sua condição de mulheres mal amadas que as fazia vir a público com seu trabalho, que faz com que Carmen Barbera, citada por Gaite, em 1956, declare em La estafeta Literaria:

[...] du Plessis describe como feminista [...] cualquier práctica cultural femenina que haga Del mismo “significado Del proceso de producción “ “el lugar de lucha” [...] Estos/as autores/as son “feministas” porque construyen una variedad de estratégias de oposición a la representación de las instituciones de género en la narrativa. Un/a escritor/a expresa su desacuerdo con una formación ideológica atacando los elementos narrativos que repiten, apoyan o encarnan los valores y las actitudes en cuestión. (MEDINA & ZECCHI 2002 : 249)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AIZENBERG, Edna. El Bildungsroman fracasado en Latinoamerica: el caso de Ifigênia de Teresa de la Parra. Revista Iberoamericana, 132-133 (juldez, 1985):539-546.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

GAITE, Carmen Martín. “La chica rara” In: Desde la ventana. Madrid: Espasa Calpe, 2003.

LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.

LAFORET, Carmen. Nada. Barcelona: Destino, 2003.

MEDINA, Raquel & ZECCHI, Bárbara (Eds.) Sexualidad y escritura (1850-2000). Barcelona: Anthropos Editorial, 2002.

PINTO, Cristina Ferreira. O Bildungsroman feminino: quatro exemplos brasileiros. São Paulo: Perspectiva, 1990.

 

[*] Lélia Almeida é escritora e doutoranda do Programa de Doutorado de Literatura Comparada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 

© Lélia Almeida 2006

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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