O grito do silêncio

Dra. Lucília Maria Sousa Romão       Dra. Soraya Maria Romano Pacífico

FFCLRP- Universidade de São Paulo, Brasil


 

   
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RESUMO: Consideramos um reducionismo pactuar com uma leitura ingênua ou literal das palavras, escamoteando os processos sócio-históricos de produção dos sentidos, ou seja, lendo o poema ou texto apenas como um exercício para se buscar rimas ou marcas de um movimento literário. Sabendo que o sujeito constrói seu olhar de leitor a partir de várias vozes inscritas em diversos contextos, buscamos interpretar alguns dos vários sentidos do poema “José” de Carlos Drummond de Andrade, da canção “José” de Caetano Veloso e da mesma personagem apresentada no texto bíblico e no conto de Jorge Luis Borges, além dos sentidos inscritos no texto pictórico de Munch. Marcamos uma interpretação em que o modo de compreender um texto reclama a compreensão dos discursos já falados e silenciados, todos eles amarram-se na trama dos vários sentidos que sustentam um dizer, seja com a linguagem verbal ou não-verbal.
PALAVRAS-CHAVE: discurso, silêncio, José, interpretação, leitura.

ABSTRACT: We considered a misunderstanding to make a pact with a reading naive or literal of the words, pilfering the partner-historical processes of production of the senses, in other words, reading the poem or text just as an exercise to look for rhymes or marks of a literary movement. Knowing that the subject builds his/her reader glance starting from several voices enrolled in several contexts, we looked for to interpret some of the several senses of the poem "José" of Carlos Drummond of Andrade, of the song "José" of Caetano Veloso and of the same character presented in the biblical text and in Jorge Luis Borges story, besides the senses enrolled in the pictorial text of Munch. We marked an interpretation in that the way of understanding a text claims the understanding of the speeches spoken already and silenced, all of them attach in the plot of the several senses that you/they sustain a saying, be with the language verbal or no-verbal.
KEYWORDS: discourse, silence, José, interpretation, reading.

 

“Não sou eu que me navega
Quem me navega é o mar.”
Paulinho da Viola

Parafraseando o poeta, é possível abrir essa reflexão joseana assim: ‘'Não sou eu que falo é o silêncio que dá sentido ao que eu calo. Ele é que diz por mim, como um mar imenso a me navegar.” Por certo, aos ingênuos, é incompreensível estar no sentido sem falar, sem berrar e sem gesticular de modo efervescente. Que o digam os políticos a adotarem performances cada vez mais verborrágicas regadas a bom marketing. E as propagandas então? Verbalizaram o dito e o redito de modo insistente, sempre a mesmice. Ressalva feita para um caso raro: o criativo publicitário italiano, Olivero Toscani, com suas campanhas feitas para a Benetton, em que a imagem é parceira do silêncio fundante de significação. Exceções à parte, o fato é que na grande aldeia global o telão montado com letras garrafais e coloridas dá uma ordem: falar sempre, verbalizar rápido mesmo que os enunciados sejam artificiais, vazio e sem sujeito. Nesse contexto, o imaginário social preza e valoriza formas tecnológicas para facilitar o dito: fax, celular, tv a cabo, internet, telex. Toda essa parafernália insiste em apregoar o dizer como exigência do momento. Falar ainda que o interlocutor seja desconhecido. Ainda que, quem responda seja uma máquina. Ainda que nem resposta ou interlocução exista... Ainda que o verbo não represente, inspire ou transpire coisa alguma. O silêncio é um defunto no grande funeral da atualidade. Sem direito a velas nem flores murchas...

Sendo assim, esse trabalho quer discutir questões ligadas às formas do silêncio e toda a representação e sentido que elas possam abrigar, navegando na contramão do cotidiano. Fique claro que não se pretende falar aqui dos oráculos, dos místicos que na trilha do silêncio percorrem a busca de Deus. Nem o poder mágico, a meditação, as seitas e a contemplação nos interessam nesse momento. Também não cabe registrar aqui, o silêncio, ausência de sons, que pode representar emoção, sentimento, desagrado ou introspecção.

O que se pretende, então, é investigar o conceito de silêncio tal como propõe Orlandi (1997), para quem (1997:13):

“O silêncio é assim a “respiração” (o fôlego) da significação; um lugar de recuo necessário para que se possa significar, para que o sentido faça sentido. Reduto do possível, do múltiplo, o silêncio abre espaço para o que não é “um”, para o que permite o movimento do sujeito.”

Concordamos com a autora e, por isso, buscamos analisar os sentidos silenciados, mas possíveis de serem interpretados nos textos selecionados para esta análise, constituídos de materialidades diferentes, que são: E agora, José?, de Carlos Drummond de Andrade; José, de Caetano Veloso e O grito, de Edward Munch. O trabalho tem como fundamentação teórica os pressupostos da Análise do Discurso (AD) de origem francesa, que apresenta sólidas veredas para a recuperar o que está silenciado.

 

TECELAGEM DO SILÊNCIO

Trata-se de um território novo com uma abordagem nascente: ao falar do silêncio e sistematizá-lo é tocar a obra da pesquisadora citada acima. Inaugurando o tema, foi ela quem estruturou uma tipologia do silêncio, porém, marcando que os limites desta abordagem são ainda embrionários. O movimento dos sentidos carrega o silêncio fundador ou fundante como “uma totalidade significativa”. Ele sempre existe junto do verbal, ocupando lugar de expressão próprio. Recobre, trespassa, inunda o mesmo espaço das palavras, atribuindo quantos sentidos forem aos silêncios. Num movimento contínuo que percorre o texto ou o enunciado de alto a baixo, ele já está lá. Como a caixa de Pandora pronta para se abrir cheia de surpresas, como um caleidoscópio invisível em que o não-dito retumba e ressoa. Tamanha é a sua dimensão... Sob o signo vicioso da análise de conteúdo, ferramentas tão cotidianas no ensino das letras, é comum o olhar fincado na tradução do sentido, na paráfrase, no o-que-o-autor-está-querendo-dizer.

Muda a perspectiva, muda a pergunta e muda o modo de olhar para o silêncio. O que o autor silenciou ao dizer o que disse? Eis a nova questão que se apresenta para aqueles que duvidam da transparência da linguagem, que sabem não haver relação direta entre linguagem-palavra-mundo, que buscam, no modo do funcionamento discursivo, pistas para a interpretação, considerando sempre que, segundo a AD, o sentido não está pronto, predeterminado, pois sujeito e sentido constroem-se junto com o texto. Nas palavras de Orlandi, (1996: 64), "interpretar é compreender, ou seja, explicitar o modo como um objeto simbólico produz sentidos, o que resulta em saber que o sentido sempre pode ser outro."

Num segundo momento, pretendemos falar da política do silêncio, ou seja, o silêncio produzido num determinado momento histórico, em que dizer é abrir confronto direto com o poder instituído. O sujeito encontra-se numa posição discursiva, em que recorta os sentidos de circulação permitida ou proibida: instala-se uma política pública censora, que determina o que pode ser dito e o que deve ser calado.

Como conseqüência direta, tem-se a interdição do sujeito e a mutilação do seu dizer. Essa situação limite é permanentemente burlada, com manobras e artimanhas de autores com certo repertório cultural. O enunciado apresenta um silêncio representativo que explode os limites do significar: a retórica da resistência vitamina a produção literária destes períodos negros de repressão e falta de liberdade. Os efeitos de sentidos gerados adotam a metáfora como arma de criação, dando espaço para que o ideológico se manifeste por vezes, às avessas. Deslocamento e migração de sentido, ironia, recuperação do intertexto, adoção de alguns elementos simbólicos têm sido companheiros da metáfora nessa tentativa de calar e silenciar. De acordo com Orlandi (1997:81):

“No autoritarismo, não há reversibilidade possível no discurso, isto é, o sujeito não pode ocupar diferentes posições: ele só pode ocupar o “lugar” que lhe é destinado, para produzir os sentidos que não lhe são proibidos. A censura afeta, de imediato, a identidade do sujeito.”

Em todo esse percurso teórico, vale ressaltar que a ideologia é o mecanismo que possibilita o dizer ou faz calar o que não deve (não pode) circular: as articulações do sujeito com o poder, com o momento político e social em que vive e com a sua posição nesse contexto constituem esse tecido de tensão permanente. O sujeito usa do verbo ou do silêncio para produzir sentidos. Sobretudo para ser ouvido, ainda que por poucos, mesmo que, para isso, ele precise migrar de uma posição discursiva para outra, para “falar diferente”, segundo o que é permitido, em dado momento histórico, como bem o fizeram os compositores da MPB, na época da ditadura militar, no Brasil. Diante disso, podemos recorrer ao que Orlandi (1997) chama de política do silêncio, ou silenciamento. Para a autora (1997:31):

“Em face dessa dimensão política, o silêncio pode ser considerado tanto como parte da retórica da dominação ( a da opressão) como de sua contrapartida, a retórica do oprimido ( a da resistência).”

E é justamente a retórica da resistência que nos interessa observar, neste trabalho. Vamos ao corpus.

 

O PRIMEIRO JOSÉ: DRUMMOND SILENCIA...

“Canto somente o que não pode mais se calar.”
     Caetano Veloso

“Que tempos são esses, quando falar sobre árvores
é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tantas injustiça.”
        Bertold Brecht

A análise do trabalho parte do poema escrito por Carlos Drummond de Andrade, em 1942 como referência inicial. Recheado por uma visão nauseante, José percorre os corredores do seu tempo. O objetivo é identificar quais são os espaços proibidos pelos/nos quais o sujeito inscreve sentidos, tendo o cuidado de relacioná-los com as formas do silêncio. E o silêncio grita como nunca, nos versos abaixo:

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

(...) Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José! (...)

Que festa acabou? Na verdade, ao escrever o poema, o sujeito enunciador silencia a derrocada de um modelo diplomático e pacífico no plano internacional e nacional. Isso fica marcado pela historicidade do contexto mundial: Hitler exterminava judeus com a naturalidade de quem bebe um copo d’água. A realidade dos campos de concentração galopava, aromatizando de preconceito, crueldade e selvageria toda a Europa. Como se não bastasse isso, a Segunda guerra abria um rastro de destruição por toda parte: países inteiros expunham suas feridas abertas. Prédios detonados, pilhas de mortos, uniformes militares em ação. A agressão era a conduta da época, num atentado explícito à vida.

Não somente a Europa fervia em sangue. No Brasil, Getúlio Vargas desfilava o Estado Novo com a censura, a caça aos comunistas e o fechamento da liberdade de imprensa. No plano político, calava-se então a festa da liberdade, da solidariedade e do valor ao ser humano. A vida como acidente banal, desprovida de valor ou significado poético... Como contraponto, ampliava-se economicamente a industrialização, tendo como meta o setor pesado ligado à usina do aço, hidrelétricas, fabricação de aviões. A bandeira nacionalista foi a estufa necessária para que o Estado Vargas se apresentasse como “nacional”, aparecendo acima dos interesses de classes. Se a cidade andava nos trilhos do desenvolvimento econômico, o campo permanecia estagnado, com a mesma aparência oligárquica de sempre e com uma população de enxada e pobreza na mão. Na encubadeira dessa contradição histórica, o silêncio se instala como revolta.

Ao dizer que José sofre com a perda da voz, dos amigos e do amor; o sujeito silencia a violência que todos sofriam de forma direta ou indireta. Cala-se o tempo anterior à guerra e à ditadura, em que o sujeito podia acreditar no galope da esperança, na atividade revolucionária e moderna de compor, na chegada do novo, no germinar do sonho e até mesmo nas recordações da infância e imagens do passado. Pulsa, então, a valorização de um tempo em que não havia mofo nem mortalha. Montado num cavalo preto de descrença, o enunciador faz falar no presente o seu monstro humano - José - incapaz de agir pela reflexão e tomada de atitude. Ao mostrar tal postura inerte nessa exposição cruel, ele silencia uma crítica à convivência e à submissão. Silencia, sobretudo, a possibilidade de o homem ser agente de transformação social. “Diz” silenciando o que não podia circular nos enunciados: a repressão imposta é brasa a ferir a mobilização e a manifestação coletiva. Vê-se aqui a política do silêncio ou silêncio local. Conforme Orlandi (1997: 76), “como parte da política do silêncio nós temos, ao lado do silêncio constitutivo, o silêncio local, que é a manifestação mais visível desta política: a da interdição do dizer.”

Como se isso não bastasse, ao esboçar o hall de elementos vividos por José, tais como: a riqueza, a cultura, a fome de expressão e afeto, o exagero e a carestia; fica esculturada no silenciamento a perda da intensidade do viver. A dificuldade do personagem morrer (ser duro, José!) vai delineando a morte de tantos outros em fronts de guerra, em campos de concentração e em sessões de censura e de repressão. O estilete dos governos autoritários retalha vidas e vozes.

Sensível ao contexto social, o sujeito descreve o abismo interior do personagem, silenciando quase um apelo à vida. Ao verbalizar a pergunta sem resposta, silencia o rosto de tanto Josés e Marias - anônimos - com a face desfigurada pela barbárie e esganiçada de dor. Não é de se estranhar o uso da marca lingüística José, um nome próprio tão comum, capaz de por si só nomear a condição de desprezo, de abandono, de não-identidade, condição única de vida que é permitida a tantos sujeitos, num determinado contexto. Dessa forma, as marcas lingüísticas presentes no texto silenciam, enfim, o farrapo humano que quer gritar, muito embora já sem voz, caminhe com identidade perdida.

 

O GRITO DE MUNCH

“Certa noite, eu caminhava por uma via, a cidade de um lado e o fiorde embaixo. Sentia-me cansado, doente... O sol se punha e as nuvens tornavam-se vermelho-sangue. Senti um grito passar pela natureza; pareceu-me ter ouvido o grito. Pintei esse quadro, pintei as nuvens como sangue real. A cor uivava.”
           Edvard Munch

Como a cor, o silêncio também uiva. Nessa forma emaranhada de traços sinuosos, a tônica é o horror e a agonia diante do que se vê. A paisagem aterrorizante pode ser o observador do quadro: ironicamente disposto a entender porque é causa de tanto pânico... E, com certeza, a resposta aí será muito subjetiva... Como segunda alternativa para entender o grito que se ouve no olhar e na expressão do rosto, há que se voltar para o contexto social. Como decorrência direta de um medo avassalador, está silenciando o desconforto diante da mecanização do trabalho humano e de uma etapa mais avançada do processo industrial. O trabalho humano perde o seu valor artesanal, refletindo toda a insegurança diante do final do século.

Anterior ao poema de Carlos Drummond de Andrade, Munch aborda a incerteza diante do mundo externo ligando-a à tormenta da vida anterior, da natureza psicológica, que por vezes chega à loucura e ao frenesi. O conflito expresso nasce da dificuldade em manusear as relações com o poder da moral e do preconceito. O que interessa, aqui, não é discutir com profundidade o Expressionismo Moderno, suas implicações estéticas e suas condições de produção. Tampouco anotar dados biográficos e ideológicos do pintor em questão. Nesse momento, o intuito é recolher um fio de ligação: o José brasileiro cujo silenciamento se mistura aos ecos da cor no alto desta ponte. O grito imaginado e sentido no silêncio do verbal e do pictórico.

 

40 ANOS DEPOIS: OS ECOS DAQUELE GRITO...

“Se os gestos e as palavras que sonhei
Nunca os usei
Nem usarei
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu não meu mova
Que eu não fale!”
        José Régio

Numa ponte com o passado, Caetano Veloso recupera a memória do dizer, dialogando diretamente com o José do Egito, figura bíblica e histórica e, ao mesmo tempo, retomando a condição do José drummontanhoso. Cabe, assim, verificar essa teia de ligações bem como recuperar o que está silenciado em relação ao momento histórico em que tal letra de música foi produzida.

José- Caetano Veloso

Estou no fundo do poço
Meu grito
Lixa o céu seco
O tempo espicha mas ouço
O eco
Qual será o EGITO que responde
E se esconde no futuro
O poço é escuro
Mas o EGITO resplandece
No meu umbigo
E o sinal que vejo é esse
De fado certo
Enquanto espero
Só comigo e mal comigo
No umbigo do deserto

Para iniciar a investigação do silêncio, é preciso rever o contexto do José no Egito. Jorge Luis Borges em seu “Livro dos sonhos” recorta um trecho importante para entender tal percurso:

“Ora, Israel amava José mais que todos os seus outros filhos, porque o gerara na velhice; fez-lhe uma túnica talar. Vendo, pois, seus irmãos, odiaram-no, e não lhe podiam falar com bom modo. Sucedeu também que ele referiu a seus irmãos um sonho que tivera; o que foi causa de maior ódio. Disse-lhes: Ouvi o sonho que tive: Parecia-me que atávamos no campo os feixes, e que inclinavam diante do meu, adorando-o. Responderam seus irmãos: Porventura será nosso rei? Ou seremos sujeitos ao teu domínio? Estes sonhos, pois, e estas conversas acenderam mais a inveja e o ódio.” Gêneses, 37, 3-10.

Revendo a trajetória pessoal de José, temos que, por ser filho amado e querido, ele sofre o peso de vários “fados”: a exclusão do seio familiar, a violência física, a prisão, a calúnia e a difamação. O quadro de privações vai além do ódio nutrido pelos irmãos, estendendo-se na relação com a mulher de seu senhor no Egito. Movida por um ímpeto de vingança, ela sinaliza uma traição que nunca existiu, convertendo as perspectivas de futuro do personagem, que se torna escravo e, em seguida, preso. Falando de uma realidade distante (José do Egito), há um silêncio fundador que remete ao José do Brasil na Nova República. Segundo Orlandi (1997:75):

“A diferença entre o silêncio fundador e a política do silêncio é que a política do silêncio produz um recorte entre o que se diz e o que não se diz, enquanto o silêncio fundador não estabelece nenhuma divisão: ele significa em (por) si mesmo.”

Tecendo uma ponte entre o novo e o velho, temos, então, o Egito do “já-lá” e, também, do aqui. E o Haiti, então, nem se fale... Essa interpretação só é possível se o leitor tiver acesso ao interdiscurso que sustenta a construção dos sentidos, visto que há um processo discursivo sócio-histórico de produção do dizer e, sendo assim, o sujeito-leitor não pode deixar de considerar a exterioridade constitutiva dos discursos. Por isso, a secura daquele contexto histórico, a falta da água-vida e o “umbigo do deserto” de hoje estão em sintonia fina. O descrédito diante de um sociedade “democrática” é a metáfora do deserto das oportunidades para todos.

No plano político 1987 (ano em que Caetano escreveu sua nova roupagem para José) o país contava com José Sarney na presidência. “Tudo pelo social” era um slogan de papel, posto que os investimentos nas áreas sociais eram tímidos. A liberdade, dita inédita, com as asas abertas pelo voto direto não era suficiente para impedir que os brasileiro fugissem do país num grande êxodo. Profissionais qualificados e jovens descrentes foram protagonistas de um grande filme real. “Terra estrangeira em carne e osso” personificou esse período com maestria. A única saída para a realidade brasileira parecia ser o aeroporto. Passaporte pronto: Estado Unidos e Portugal eram destinos certos. “Boa Viagem!”.

Economicamente a recessão e o desemprego ameaçavam levas de trabalhadores. Pacotes cruzados não conseguiam conter os maiores índices de inflação que o país já teve, chegando a marca de 30% ao mês. Com o fracasso dos planos Cruzado, Bresser e Verão o gatilho do prejuízo foi sendo apontado para a cabeça do cidadão comum, ensaiando aos poucos uma performance de horror e violência social. A descrença: principal tempero do preto social. Assim sendo, Caetano celebra no silêncio a geração que se vê perdida sem a fé no discurso religioso, sem a paixão do discurso revolucionário, sem as possibilidades de um horizonte mais ameno. O sentido do silêncio aqui não se estabelece via censura imposta, mas como cerco e limitação ditada pelas condições sociais e políticas de uma “década perdida”. Nenhuma “promessa de vida no meu coração”.

Verificando o intertexto, ou seja, o diálogo subjacente à produção dos textos analisados, observamos o elo entre todos os Josés, que recupera o mesmo aprisionamento diante da realidade circundante. Ouve-se o eco de um grito enlouquecido de razão: o homem tem como umbigo a dor e o Beco. Sem direito à redenção.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Os limites da minha linguagem
são os limites do meu mundo.”
       Wittgenstein

Partindo do diálogo intertextual dos poemas, do texto religioso e do texto pictórico, constatamos que é possível (re)construir sentidos que ficaram à margem de um território discursivo permitido de circular, todavia, eles podem ser recuperados pelo leitor a partir da historicidade e exterioridade. Como bem vimos, a exterioridade é constitutiva do discurso, por isso, concordamos com Orlandi (1996), o texto caracteriza-se pela textualidade, isto é, pela relação que ele mantém consigo mesmo e com a exterioridade.

Consideramos um reducionismo pactuar com uma leitura ingênua ou literal das palavras, escamoteando os processos sócio-históricos de produção dos sentidos, ou seja, lendo o poema ou texto apenas como um exercício para se buscar rimas ou marcas de um movimento literário. Assim, construímos o nosso olhar de leitor a partir de várias vozes inscritas em diversos contextos aos quais podemos ou não ter acesso, mas que certamente amarram-se na trama dos vários sentidos que sustentam um dizer, seja com a linguagem verbal ou não-verbal.

 

BIBLIOGRAFIA

ANDRADE, C.D. (1989) Fotobiografia de Carlos Drummond de Andrade, Edições Alumbamento

BORGES, J.L. (1982) Livro dos sonhos, São Paulo, SP. Difusão Editorial S/A

GUIMARÃES, E (org). “Silencio e Implícito” in História e Sentido na linguagem, Editora Pontes

MUNCH, E. (1992). Os grandes pintores modernos, Nova Cultura

ORLANDI, E.P. (1992). As formas do silêncio, Campinas, Sp. Editora da Unicamp

ORLANDI, E.P. (1996). Interpretação, Petrópolis, RJ, Vozes

ORLANDI, E.P. (s/d). resumo do texto Silence, subject, historie

PECHEUX, M. (1988) “Os processos discursivo na ciência e na prática política” in Semântica e Discurso. Campinas, SP, Editora da Unicamp

PECHEUX, M. (1993). “A propósito da análise do discurso” in F. GAdet & T. Hak (orgs). Por uma análise automática do discurso. Campinas, SP. Editora da Unicamp

PECHEUX, M. (1993). “Análise automática do discurso” in F. GAdet & T. Hak (op. cit.)

 

© Lucília Maria Sousa Romão y Soraya Maria Romano Pacífico 2006

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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