Educação, TV e Hegemonia

Renata Maldonado da Silva


 

   
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Resumo: Este artigo pretende indicar algumas propostas para compreensão da influência dos meios de comunicação neste novo estágio do capitalismo. Aborda-se, aqui, o predomínio dos conteúdos veiculados pela televisão e suas múltiplas leituras sociais. Utilizam-se as indicações teóricas de Theodor Adorno, Antônio Gramsci, Pierre Bourdieu e Jesus Martín-Barbero. Busca-se compreender as relações existentes entre a comunicação, educação, e sociedade, a partir de uma perspectiva crítica, que analise as dimensões educativas dos diferentes espaços sociais.
Palavras-chave: meios de comunicação, educação, audiências

Resume:
This article discusses some propositions to understand the mass medias influence in the new capitalism stage. It talks about the messages spreads for television and his multiples social lectures. We utilize the theories propositions of Theodor Adorno, Antônio Gramsci, Pierre Bourdieu e Jesus Martín-Barbero. We search to understand the relations between communication, education and society, towards a critical perspective, that considerer the educative dimensions of the different social places.
Passwords: mass medias, education, reception

 

Introdução

A influência dos meios de comunicação é uma questão de fundamental importância nas sociedades atuais. Afinal, uma das mídias mais importantes deste novo estágio do capitalismo, a televisão, está presente em aproximadamente 98% dos lares brasileiros. Estes dados se tornam mais indicativos quando são comparados com outros, também de grande relevância para a compreensão desta mesma realidade, em que 11% da população com mais de 15 anos de idade declara não saber ler ou escrever. Dos demais, 25% da população na mesma faixa etária são caracterizados como analfabetos funcionais. Trata-se de indivíduos que, não cursaram mais do que quatro anos de escolarização básica e dominam, precariamente, os mecanismos de escrita e leitura.

A taxa média de escolarização da população brasileira acima de 15 anos é de sete anos, nas áreas urbanas. No entanto, quando se refere à população adulta, de acordo com a Síntese dos Indicadores Sociais, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, do ano de 2005, 30 % são considerados analfabetos funcionais. Mais de 40% dos adultos brasileiros não concluíram o ensino fundamental e, apenas 8% possuem o ensino superior.

Os dados são mais alarmantes quando se referem aos jovens entre 15 e 17 anos. Atualmente, o índice de adolescentes freqüentadores do ensino médio está estimado em torno de 44,4% nas áreas urbanas, em relação à população total. No Rio de Janeiro, por exemplo, que é oficialmente um dos estados mais desenvolvidos economicamente do país, o número de matrículas totais no ensino médio, no ano de 2004, foi de 9.160.357 indivíduos [1]. Neste mesmo ano, 1.845.130 conseguiram concluir o curso. Cerca de 48,2% dos estudantes totais do ensino médio, no estado, estão matriculados no curso noturno, isto é, são jovens trabalhadores.

Quando comparamos estes dados com o número de horas que os brasileiros assistem a TV por dia [2], que é de aproximadamente, cinco, pode-se comprovar a influência que os meios de comunicação exercem sobre a realidade material e simbólica da grande maioria da população. Além disso, a televisão, e em algumas áreas do país, o rádio, são as principais e, em muitos casos, as únicas, fontes de informação destas pessoas.

A importância na elaboração de uma análise crítica sobre os meios de comunicação é estabelecida em função da dimensão educativa eles desempenham para maior parte da população nas sociedades contemporâneas. De acordo com Rummert:

“Dimensionar a importância de tais informações e, mais do que isso, de seu significado político e econômico é tarefa que não pode deixar de ser assumida pelos educadores. Trata-se, portanto, de compreender a complexidade dos espaços, nos quais, efetivamente, o povo brasileiro se educa, em sentido amplo, dimensionando, nesse contexto, o papel, a importância, os limites e as possibilidades do espaço-tempo escolar” (2002, p.2) .

O processo educativo é visto aqui como um fenômeno bastante complexo, que perpassa exclusivamente a dimensão escolar. Embora esta seja predominante e a principal responsável pela ação formadora do homem, em sua integralidade, não se pode descartar a existência de outros espaços educativos. Ao longo do século XX, com o aperfeiçoamento e o aparecimento dos velhos e novos meios de comunicação de massa, estes se tornaram centrais nas vidas da grande maioria das pessoas [3].

No Brasil, a disseminação de algumas mídias é ainda muito pequena, em função das imensas diferenças sociais existentes. No entanto, o mercado também cria ajustes sociais para incluir todos os ‘cidadãos’, que, possam, mesmo com imensos sacrifícios, consumir seus produtos. Um exemplo disso ocorreu, recentemente, com a imensa expansão da telefonia celular. Adquirir um aparelho é extremamente fácil, para inclusive, pessoas das classes sociais mais baixas. No entanto, os custos dos serviços prestados pelas empresas são altíssimos para a nossa realidade, mesmo que o valor dos aparelhos seja relativamente barato. Há, porém, meios de comunicação que, ainda, estão restritos a uma pequena parcela da população Em junho de 2006, cerca de 4,2 milhões de pessoas tinham acesso à TV por assinatura, isto é, aproximadamente 20% do total da população. A Internet de alta velocidade foi consumida, no mesmo período, por 800.000 mil pessoas. .

 

Televisão e hegemonia

Ao relacionar a quantidade de horas que a maior parte da população passa em frente à televisão, com outras dimensões das suas vidas, como a escola, organização em associações, vinculações a partidos políticos ou sindicatos, por exemplo, percebe-se a predominância das mensagens veiculadas pelas mídias para grande parte da população. O significado sóciopolítico destas é outro fator tão importante quanto o primeiro, na medida em que, grande parte do conteúdo divulgado por estes meios é naturalizador da ordem sócio-econômica atual.

Antônio Gramsci (1978) chamou a atenção para o caráter pedagógico desempenhado pelos meios de comunicação no capitalismo e suas relações com os mecanismos de conquista e manutenção da hegemonia.. Segundo ele, esta é efetuada a partir da ação de um determinando grupo em impor a direção cultural aos demais componentes do tecido social. Exercem, ainda, uma função primordialmente educativa, garantindo a manutenção da ordem simbólica já estabelecida. (Rummert, p.26). Sobre esta perspectiva, o autor italiano afirmou:

“essa relação existe em toda a sociedade no seu conjunto e em todo indivíduo com relação aos outros indivíduos, bem como entre camadas intelectuais e não intelectuais, entre governantes e governados, entre elite e seguidores, entre dirigentes e dirigidos, entre vanguardas e corpos do exército. Toda relação de “ hegemonia” é necessariamente uma relação pedagógica, que se verifica não apenas no interior de uma nação, entre diversas forças que a compõem, mas em todo o campo internacional e mundial, entre conjuntos de civilizações nacionais e continentais” (1978, p.37).

Com objetivo de efetuar a conquista e ação da hegemonia, é imprescindível a atuação dos chamados aparelhos de hegemonia. Trata-se de um conjunto constituído por dimensões nas quais as ideologias são elaboradas ou difundidas incluindo neste os meios de comunicação. Seriam mecanismos utilizados pela classe dominante para que, consensualmente, determinadas crenças, visões de mundo e representações sejam aceitas por todo o conjunto social, garantindo a manutenção da hegemonia.

Na medida em que grande parte da população não tem acesso a outras fontes de informação, as mensagens veiculadas pelas mídias são vistas por estes como verdades inquestionáveis. Bourdieu (1997) chamou a atenção para o monopólio que os aparelhos televisivos exercem no processo de formação das consciências. Um exemplo disto ocorreu no início do ano de 2006, quando um famoso ator da maior emissora de televisão brasileira, foi acusado de violência doméstica pela mulher. O caso foi explorado exaustivamente por alguns veículos de comunicação (com menor destaque para o local onde o agressor trabalhava) e a vida privada do casal foi revelada, com o claro objetivo de chocar a opinião pública.

A agredida realizou exame de corpo delito, possivelmente dando origem a um processo criminal. Em virtude da exposição midiática, o acusado perdeu vários contratos publicitários e foi ‘afastado’ temporariamente do seu local de trabalho. Foi julgado e condenado a prestar serviços comunitários, oito horas por dia durante um ano, de acordo com a lei 10.886/2004. [4]

O juiz ainda determinou que o acusado pedisse desculpas publicamente à esposa, através de alguma emissora televisiva, dentro de um prazo máximo de quatro meses [5]. Isto, inclusive, diminuiria parte dos trabalhos prestados em instituições sociais. Sofreu algumas condenações sociais e, principalmente, espanto por parte dos telespectadores, já que sua ‘imagem’ midiática não correspondia à que foi revelada como decorrência da exploração midiática dos fatos. Ele já retornou posteriormente ao trabalho e ainda ensaia uma possível reconciliação televisiva com a agredida, já que esta, salvo engano, não entrou com o pedido de separação judicial.

O caso acima citado é ilustrativo para que se possa compreender a ação dos conteúdos veiculados pelos meios de comunicação, enquanto perpetuadores dos mecanismos de dominação social. Na medida em que o fato midiático é ‘espetacularizado’, este é divulgado como um problema isolado, desconsiderando a sua importância na realidade sócio-econômica do país. Bourdieu, em sua análise sobre o fenômeno, menciona os efeitos da sensação de deslocamento que as mídias provocam nos seus espectadores. Segundo ele:

“Insisti no mais visível. Desejaria dirigir-me para coisas ligeiramente menos visíveis mostrando como a televisão pode, paradoxalmente, ocultar mostrando, mostrando uma coisa diferente do que seria preciso mostrar caso se fizesse o que supostamente se faz, isto é, informar; ou ainda, mostrando o que é preciso mostrar, mas de tal maneira que não é mostrado ou se torna insignificante, ou construindo-o de tal maneira que adquire um sentido que não corresponde absolutamente à realidade (1997, p.27)”.

O sociólogo francês chama a atenção da capacidade das mídias em produzir manifestações, cujo principal objetivo é o desviar a atenção do público para aspectos secundários do problema. Este teria, claramente o objetivo de impedir que grande parte dos telespectadores tenha acesso a informações através das quais possam exercer os seus direitos democráticos. Ao publicizar aspectos privados da vida dos envolvidos, no caso citado, dando menor ênfase a um problema sociopolítico grave, como é o caso da violência doméstica, que atinge parcelas expressivas da população, a televisão garante a manutenção do status quo.

No Brasil, a violência doméstica ainda é considerada por muitos como um problema de foro íntimo, que deve ser resolvido entre as partes envolvidas. Apesar do Estado ter avançado em alguns aspectos, com a criação da lei 11.340/2006 [6] e das delegacias de atendimento à mulher, os progressos são ainda pequenos. A violência doméstica, no Brasil, é um problema político de natureza pública, que se relaciona com os mecanismos sociais de dominação patriarcal.

A violência doméstica relaciona-se, também, com a posição subalterna ocupada pelas mulheres das classes sociais mais pobres, que sofrem com o desemprego ou com trabalhos que não garantem integralmente o seu sustento e de sua família. Existem, ainda, os elementos de opressão simbólica presente nas relações entre os sexos, já que este problema também está presente nas classes médias e entre os mais ricos. Atinge cerca de 63% das mulheres brasileiras, segundo dados do Ministério da Justiça, de 1998. Destas, somente 1/3 denunciam comumente os seus parceiros. [7]

Na América Latina, segundo Jesus Martín-Barbero (2001), a televisão é o veículo que capta as porcentagens mais importantes dos investimentos publicitários, principalmente nos horários das telenovelas de grande audiência e nos noticiários, além das subvenções estatais. A consolidação do modelo televisivo privado nesta região é determinante para que os anunciantes, os seus proprietários e o Estado, através de subvenções, determinem o que os telespectadores podem e devem saber, e o formato das informações que chegam até eles.

O autor espanhol, radicado na Colômbia, chama a atenção para o fato de que, mais importante ainda que a quantidade de tempo dedicado à televisão, o seu peso político e cultural não pode ser determinado somente através deste elemento. Segundo ele, o aumento do poder televisivo em sociedades, entre as quais se inclui a brasileira, também é explicável em função da pequena existência de espaços negociadores dos conflitos políticos. Além disso, as representações veiculadas pelas culturas hegemônicas não contemplam a diversidade e complexidade da realidade cultural das sociedades latino-americanas.

A televisão, ainda, dita desejos de consumo para telespectadores de classes sociais distintas, se adequando às imposições dos mercados e às possibilidades econômicas ‘ reais’ da audiência. Trata-se de um dos espaços de legitimação do mercado. No Brasil, a publicidade está presente, ainda, durante a veiculação dos principais gêneros televisivos, no qual a imagem dos famosos é utilizada para dar confiabilidade a determinados produtos. A crítica elaborada por Adorno em seu célebre texto sobre a cultura de massa ainda está presente, já que o autor relacionou-a “com o superado processo de circulação do capital, que é o comércio, no qual tem origem” (1986, p.2).

 

As minorias nas mídias

É importante assinalar que as representações veiculadas pelos meios de comunicação sobre aspectos da sociedade brasileira reforçam, em sua maioria, as manifestações culturais determinadas pelas classes dominantes. Atualmente, não se pode esquecer que existem brechas dentro sistema, mas que são fortemente influenciadas pela posição socioeconômica de alguns grupos sociais. Nos gêneros televisivos de maior audiência, como as telenovelas, a realidade social predominante é a do eixo Rio-São Paulo, como se estas contemplassem o restante do país. Quando as demais regiões geográficas são representadas, o são de modo caricatural e preconceituoso.

Joel Zito de Araújo, em seu livro A Negação do Brasil: O Negro na Telenovela Brasleira, analisou a presença e os estereótipos construídos sobre os afro-descendentes a partir da década de 1980 e o final dos anos 90. Embora a presença dos negros neste gênero televisivo tenha aumentado nos últimos anos, com a incorporação de uma nova geração de atores, os papéis desempenhados por estes são quase sempre secundários. Em muitos casos, ainda, a televisão reforça o papel social subalterno que vem sendo desempenhado pelo negro em nossa sociedade. As mulheres negras, em geral, são representadas como empregadas domésticas ou babás. As relações de trabalho inter-raciais não comportam as tensões existentes. Geralmente, a lógica do “bom escravo” é reproduzida nas mídias.

O autor acima citado analisou os reflexos das representações sobre os afro-descendentes nas mídias no processo de construção das suas identidades. Segundo ele, este gênero televisivo, desde as suas origens, na década de 1960, é dominado pelo que o autor chamou de “estética sueca”, reproduzindo a ideologia do branqueamento racial. Em poucos momentos, um dos quais o carnaval se inclui, percebe-se, em maior grau, a participação dos negros na sociedade brasileira. No decorrer da constituição da identidade brasileira, o Estado buscou eliminar quaisquer diferenças de cunho étnico ou racial.

A baixa representação dos negros nas mídias também está presente quando se analisa o discurso publicitário. Embora tenha havido um crescimento nos últimos anos, com a criação de produtos específicos para o mercado consumidor negro, a representatividade deste segmento social é muito pequena. Em um país em que, aproximadamente, 50% da população se declaram afrodescendentes (pardos e negros), a presença deste grupo na televisão é quase inexistente.

Zito aponta o desinteresse das elites brasileiras na formação de um mercado consumidor distinto do tradicional grupo racial branco. No entanto, este fator está relacionado com a posição sociopolítica que os afrodescendentes ocupam na sociedade brasileira. Segundo dados do IBGE, de 1998, em São Paulo, a cidade mais importante economicamente do país, a taxa de analfabetos empregados é duas vezes maior quando se compara com os considerados não-negros. Em relação às crianças negras, na faixa etária de 10 a 14 anos, 20,56% trabalham precocemente, índice superior em 50% quando se compara com as crianças brancas da mesma idade.

Ao se analisar os dados referentes à entrada dos afrodescendentes no ensino superior, a disparidade é maior. Em Salvador, uma das capitais na qual a presença negra é majoritária, de acordo com a mesma fonte acima citada, menos de um décimo dos economicamente ocupados possuem curso universitário, em relação a um terço dos não-negros.

Segundo Jacob Gorender, estes alunos encontram inúmeras dificuldades para ter acesso às universidades. Quando conseguem, geralmente, ingressam em cursos em que a relação candidato/vaga é baixa, devido ao seu nível inferior de preparo e menor exigência em relação ao nível de dedicação (um fator importante a ser considerado é se o curso é dedicação integral ou parcial, já que, na maior parte dos casos, os jovens negros são também trabalhadores).

Os índices de discriminação são também indicativos quando se analisa a questão feminina, apesar do número de mulheres economicamente ativas vir crescendo gradativamente. Atualmente, muitas, inclusive, dependem exclusivamente dos seus salários para sustentar a si e aos seus familiares. No entanto, quando se compara homens e mulheres exercendo os mesmos postos de trabalho, o valor salarial feminino é bastante inferior. Segundo Gorender, em pesquisa do Diecese/Sedae, do ano de 1998, referente à região metropolitana de São Paulo, o rendimento real médio dos ocupados no trabalho principal, em horas, para os homens, estava calculado em 5,10 reais. Para as trabalhadoras, o valor era de 3,79 reais.

A diferença entre homens e mulheres em relação à escolarização formal vêm contribuindo para diminuir a discriminação social. Quando se analisa os dois sexos na faixa etária entre 16 e 65 anos, constata-se que a média de anos de estudo das mulheres, em 1998, era de 6,4 anos, em relação a de 6,1 para os homens. No entanto, a posição feminina ainda é de desvantagem quando se trata dos níveis de rendimentos e do grau de desemprego.

Paradoxalmente, os índices de discriminação entre os sexos aumentam com a elevação do grau de instrução. De acordo com dados da pesquisa acima citada pelo mesmo autor, o rendimento real por hora de trabalho dos homens com ensino superior era de 16,11 reais. Quando se trata de mão-de-obra feminina, o valor é reduzido para 10,87. Conclui-se, portanto, que o aumento da escolaridade ainda não é um fator que contribua para diminuir os mecanismos de discriminação impostos pela sociedade.

O quadro da discriminação de gênero se acentua a partir da combinação desta categoria com a de raça. Quando se analisa os dados relacionados ao rendimento real médio, por hora de trabalho, segundo o historiador, citado nas linhas anteriores, verifica-se que o valor para os homens brancos é de 6,23 reais. Para as mulheres brancas, é de 4,40 reais e, para as negras, 2,18. Na hierarquização social, portanto, as mulheres negras estariam em uma das posições mais desvantajosas, ocupando funções de baixíssima remuneração, dentre as quais se destaca o trabalho doméstico.

De acordo com Martín-Barbero, o fator cultural teria uma grande importância na compreensão da hegemonia televisiva na América Latina. Nestas sociedades, a predominância da cultura oral, mesmo com os avanços tecnológicos do capitalismo, é um elemento que não pode ser descartado. Isto explicaria, em parte, a grande influência do audiovisual nestas formações sociais. No entanto, este processo também deve ser visto como um projeto político das classes dominantes para manter a ordem social existente.

Na medida em que alguns dos governos latino-americanos mantêm uma taxa oficial de analfabetismo em torno de 10%, como é o caso do Brasil, estes impedem que a grande maioria da população tenha acesso a outras formas de conhecimento, que são importantes para que estas pessoas possam buscar melhores condições de sobrevivência.

Não se pretende, aqui, descartar as características peculiares das culturas latino-americanas, das quais a oralidade é um de seus fatores centrais. No entanto, é importante assinalar que estes elementos podem contribuir para a manutenção de uma ordem social extremamente desigual, em que as elites exploram a força de trabalho da grande maioria da população. Estas, em contrapartida, por não dominarem os requisitos escolares formais, como saber ler e escrever corretamente, são ‘condenados’ a manter sua posição nesta ordem. São impedidos de ocupar postos de trabalho mais valorizados e mais bem pagos. As elites, que podem ter acesso a melhores escolas e, conseqüentemente, a cultura letrada em geral, ocupam os melhores trabalhos e salários.

 

Considerações finais

Os objetivos dos meios de comunicação de massa, enquanto reprodutores das ideologias das classes dominantes, possuem um papel central no capitalismo. Somam-se empresas, anunciantes e interesses governamentais. Trata-se de meios que buscam reproduzir a ordem sociopolítica ditada pelo mercado, garantindo, assim, a manutenção da ordem vigente.

Não, se trata, aqui de reproduzir uma visão fatalista de que o papel desempenhado pelos meios de comunicação é inevitável e que as audiências não possuem nenhuma participação neste processo. No entanto, é importante ressaltar que no sistema simbólico atual, os espectadores têm mecanismos de atuação bastante restritos. A ruptura com esta mesma ordem deveria considerar a organização coletiva, contrariando o discurso hegemônico ditado pelas mídias, em que as saídas individuais são valorizadas.

As possibilidades contra-hegemônicas de reformulação das ações dos meios de comunicação de massa no processo de construção da ordem democrática é uma questão que não pode ser esquecida. É fundamental, no entanto, que as classes subalternas tenham subsídios para criticar e analisar os mecanismos de dominação simbólica a que estão submetidos. Neste processo, a possibilidade de que estas mesmas classes tivessem condições de acesso à escola e a condições de existência mais dignas, seria fundamental.

Setembro de 2006

 

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Notas:

[1] Retirados da base de dados do INEP.

[2] Dados retirados do Painel Nacional de Televisão do IBOPE, em 2005.

[3] Fonte consultada:

[4] Trata-se da lei federal, promulgada em 17/06/2004, que acrescenta parágrafos ao art.129 do Código Penal, criando o tipo especial denominado violência doméstica.

[5] Segundo o periódico eletrônico Consultor Jurídico, no site http://www.conjur.com.br

[6] Trata-se da lei federal recentemente promulgada, que dispõe sobre a “criação de mecanismos para coibir a violência doméstica”.Também conhecida como lei Maria da Penha.

[7] Dados retirados do site http://www.cfemea.org.br

 

© Renata Maldonado da Silva 2007

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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