Os efeitos de lucidez nos temas e figuras da obra de Saramago

Ludmila Ferrarezi1 - Soraya Maria Romano Pacífico2 - Lucília Maria Sousa Romão3

Universidade de São Paulo, Brasil


 

   
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Resumen: Nesse trabalho nos debruçamos sobre a obra literária “Ensaio sobre a lucidez” de José Saramago para interpretar como temas e figuras constroem uma trama de sentidos sobre a sociedade atual. Para interpretar o corpus formado por recortes da obra, mobilizamos a teoria semiótica de Greimás e a teoria do discurso de Pêcheux.
Palabras clave: Saramago, tema, figura, discurso, sentido.

Abstract: In that work we leaned over on the work literary “Rehearsal on the lucidity" to interpret as themes and illustrations build a plot of senses on the current society. To interpret the corpus formed by cuttings of the work, we mobilized the theory semiotics of Greimás and the theory of the discourse of Pêcheux.
Keywords: Saramago, theme, represents, discourse, sense.

 

1. Introdução

O objeto de estudo deste trabalho é a obra Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago, que será analisada segundo a perspectiva da teoria semiótica greimasiana, em diálogo com a teoria discursiva pecheuxtiana. A teoria semiótica refere-se à significação do texto que, segundo Barros (1990, p.7), pode ser “entendido como objeto de significação”, um todo de sentido.

A Semiótica é, conforme Barros (op.cit., p.8), “a teoria que procura explicar o ou os sentidos do texto pelo exame, em primeiro lugar, de seu plano de conteúdo”. Tal plano é concebido sob a forma de um percurso gerativo do sentido que “vai do mais simples ao mais complexo, do mais abstrato ao mais concreto”. (op.cit., p.9). Três etapas compõem este percurso dos sentidos, a saber, o nível fundamental, o narrativo e o discursivo (op.cit.). No nível fundamental “surge a significação como uma oposição semântica mínima” (op.cit., p.9). Como exemplo, temos: liberdade/exploração, vida/morte, calor/frio, dentre outros. As categorias fundamentais são positivas ou eufóricas e negativas ou disfóricas. O percurso dos sentidos pode ocorrer tanto da euforia para disforia quanto no sentido inverso. No nível narrativo, “os elementos das oposições semânticas fundamentais são assumidos como valores por um sujeito e circulam entre sujeitos, graças à ação também de sujeitos”. (op.cit., p.11). Por fim, no nível discursivo, a “narrativa é assumida pelo sujeito da enunciação” (op.cit, p.9). Ainda neste nível, “as oposições fundamentais, assumidas como valores narrativos, desenvolvem-se sob a forma de temas e, em muitos textos, concretizam-se por meio de figuras” (op.cit., p.11).

Pelo viés da Análise do Discurso, outros aspectos, complementando a análise dos temas e figuras, podem ser considerados. Por meio desta teoria, investigam-se os sentidos circulantes nos diversos discursos materializados na obra, sentidos múltiplos que são construídos sócio-histórico-ideologicamente e que são marcados por uma heterogeneidade que os atravessa e os constitui. Sendo assim, tendo como base os pressupostos da teoria semiótica e da discursiva, procurar-se-á analisar a constituição de sentidos e discursos no referido livro de Saramago, aproximando tais teorias no processo de (re)significação da obra.

 

2. O percurso gerativo do sentido na obra de Saramago

No nível das estruturas fundamentais pode-se apontar uma oposição semântica principal: cegueira versus visão. Estes dois signos apresentam significados diferentes, dependendo do contexto em que aparecem no texto, do sujeito que ocupa determinada posição e os enuncia. Para o sujeito que assume a posição de autoridade no discurso político, a cegueira é associada ao ato de votar em branco; já, para o sujeito que ocupa a posição antagônica, a de eleitor, o voto em branco significa ter lucidez, enxergar e questionar o sistema de governo vigente: “o voto em branco é uma manifestação de cegueira tão destrutiva como a outra, Ou de lucidez, disse o ministro da justiça...” (SARAMAGO, 2004, p.172). Sendo assim, os significantes cegueira e visão não evocam um sentido único, natural, opostos entre si, mas fazem parte de uma rede semântica mutável e dinâmica. Pode-se apontar ainda uma outra oposição semântica recorrente na obra: democracia versus ditadura, que perpassa todo o texto, relacionando-se e confirmando os sentidos tecidos sobre a oposição cegueira versus visão. Marca-se o seguinte percurso de sentido na obra:

cegueira —-> visão —> cegueira

Em tal percurso, considera-se que, após a epidemia de “cegueira” que atingiu praticamente toda a população, os sujeitos-cidadãos começaram a “ver”, manifestando-se contra o regime político e querendo romper com a ordem vigente. Após uma série de ações repressoras e silenciadoras do governo, volta-se à antiga cegueira, apagando-se os sentidos de luta, de mobilização social, retornando-se ao mesmo, ao estabilizado. No nível narrativo, temos um sujeito-cidadão que ora é cego, ora enxerga. O sistema político é o principal responsável pelas alterações desse sujeito, suscitando estado de letargia, “cegueira”, conformidade com a situação vigente, por meio da manipulação ideológica, ou, instigando ações de protesto, quando os sujeitos percebem, “enxergam” as ações anti-democráticas praticadas por esse governo. Diretamente, ou indiretamente, o governo é o responsável pelas transformações de estado do sujeito-cidadão.

As estruturas discursivas mostram a presença do discurso em terceira pessoa, enunciado por um narrador onisciente que sabe, inclusive, o que pensam e sentem os personagens, o que confere uma aparente objetividade e legitimidade ao relato. Constrói-se uma poderosa ilusão de realidade ao se incorporar ao texto, continuamente, as falas e, principalmente, os pensamentos dos sujeitos. Entremeiam-se, assim, neste discurso indireto-livre, diversas vozes que criam a sensação de um fluxo de consciência, o qual rompe a linearidade da narrativa.

Destacam-se algumas das leituras temáticas possíveis na obra estudada: o tema da democracia, da alienação política, da manipulação e repressão dos cidadãos por parte do governo, da mídia, uma relação desigual de poder, etc. Como figuras, temos inúmeros exemplos, como o voto, a cegueira, a cor branca, o cão, a bandeira, dentre outros, que serão analisados a seguir.

Cegueira: é um símbolo que pode, como foi dito, remeter à alienação do povo em relação ao sistema político. Tal alienação se manifesta na obra sob vários aspectos, marcados por diferentes discursos afetados pela exterioridade (condições de produção) e enunciados por sujeitos que ocupam diferentes posições sócio-discursivas. Dessa forma, “estar cego” possui diferentes significados ao longo da obra. Além disso, o uso deste signo possibilita ao leitor uma leitura intertextual com a obra do mesmo autor, Ensaio sobre a cegueira, na qual a cegueira, que era branca, como os votos o são, na obra agora analisada, também foi motivo de punição por parte daqueles que detinham o poder.

Cor branca: figurativiza tanto a ignorância em relação a um insatisfatório sistema democrático (cegueira branca relatada na obra Ensaio sobre a cegueira e retomada no Ensaio sobre a lucidez), quanto a luta contra essa situação (simbolizada pelo voto em branco).

Como sabemos, de acordo com os pressupostos teóricos da AD, as palavras não são neutras e o sentido sempre pode ser outro. Assim, a simbologia das cores é expressiva; usa-se o branco (tradicional símbolo da paz) para tentar atingir o Sistema, mas a resposta, em contrapartida, não é pacífica. As frases publicadas em jornais que denunciam os perigosos brancosos não são escritas em branco, mas sim, em vermelho e negro, cores que remetem à memória discursiva do comunismo, anarquismo, fascismo e outros vírus perigosos na/para a sociedade. As cores vermelha e negra, associadas à branca, também são utilizadas nos colantes usados pelos que votaram em branco, como forma de protesto, quando estes assumiram o ato publicamente: “Uma manhã as ruas da capital apareceram invadidas por gente que levava ao peito autocolantes com, vermelho sobre negro, as palavras, Eu votei em branco” (74). Assim, as cores branca, vermelha e negra constituem um mesmo campo semântico que remete aos sentidos de protesto e, também, subversão (aos olhos do governo).

Ao mesmo tempo em que a bandeira branca é tida como símbolo da paz, da trégua, ela significa também, no contexto das manifestações dos cidadãos, a insurreição. Vale lembrar que a cor do luto pelos mortos da explosão causada pelo governo é a branca, e não a negra, assim, mais uma vez, o branco assume os sentidos de manifestações, protestos, questionamento da ordem vigente, das injustiças, da desigualdade, criando uma interessante oposição semântica que subverte os tradicionais sentidos atribuídos a essas cores.

Voto em branco: como já foi dito, simboliza a crítica à forma como se dá o dito regime “democrático”. Ao mesmo tempo em que representa, em nossa sociedade, um instrumento para que se exerça a democracia, a cidadania, na obra de Saramago é concebido como um atentado à democracia, desencadeando uma série de ações, por parte do governo, que podem ser consideradas como anti-democráticas (prisões, censura, etc). Neste contexto, abre-se espaço pra a reflexão: o que é a democracia? O campo semântico construído para o ato de votar e para os que votaram em branco gira em torno dos sentidos de doença, praga, insurreição, ilegalidade. Como parte desse campo semântico, significando o voto em branco, temos:

peste branca”

infecta supuração política”

vírus atacou os habitantes da capital”

“ação criminosa dos elementos subversivos”

Por meio da montagem, pelo governo, de uma operação nos moldes bélicos, cria-se um imaginário negativo para a cidade e seus moradores que votaram em branco. Significados dessa forma, tais sujeitos deveriam ser combatidos e seus dizeres, desautorizados, censurados. Alguns sentidos atribuídos aos votantes em branco, conhecidos, pejorativamente, como brancosos, são recorrentes na obra:

“quadrilhas insurretas”

“inimigos mortais” da coesão nacional

“malditos sediciosos”

“vândalos”, “bárbaros e selvagens”, “inimigos”

“partidários da subversão”

Tais sujeitos possuiriam um “mortal parasita”, o “germe da perversão e da corrupção”. A cidade, na qual vive a maioria da população, também é satanizada, devendo ser isolada, posta em quarentena:

a cidade [...] tornou-se uma panela cheia de comida podre e de vermes numa ilha empurrada para um mar que não é o seu, um lugar onde rebentou um perigoso foco de infecção e que, à cautela, foi posto em regime de quarentena, à espera de que a peste perca a virulência, ou, por não ter mais a quem matar, acabe por se devorar a si mesma (SARAMAGO, 2004, p.115)

No desfecho da obra, a cidade, ao ser “liberta”, “curada da peste branca”, assume a posição de vítima, sendo absolvida de seus crimes, voltando a ser um lugar pacífico de habitantes cegos, palco das vontades dos seus governantes, como se observa na passagem abaixo que denuncia os ajustes arbitrários de cargos políticos: “... Mas o meu seu sucessor, O seu sucessor sou eu quem já é ministro da justiça também pode ser ministro do interior, fica tudo em casa, eu me encarregarei” (op.cit., p.321)

Ditadura: pretende-se silenciar os sentidos sobre o sistema ditatorial instaurado, ao enunciá-lo como um símbolo de proteção, para os habitantes, da terrível ameaça branca. Em contrapartida a essa imagem fabricada pelo governo, estão as que simbolizam a repressão característica de regimes ditatoriais: o detector de mentiras, interrogatórios, prisões arbitrárias, censura à imprensa e, até, a construção de um muro separando o lado democrático do que é infestado por perigosos conspiradores, assim como o Muro de Berlim que separava o lado ocidental dos perniciosos comunistas.

Pode-se considerar a morte da mulher do médico que enxergava em meio aos cegos, a do comissário que enxergava e não aceitou a manipulação exercida pelo sistema político e a interrupção do uivo do cão, como representação do silenciamento dos protestos, do pensamento crítico, do predomínio da cegueira, das ações repressoras do Estado.

Imprensa: ocupando uma posição de autoridade, de onisciência e onipresença, figurativiza a manipulação ideológica do povo, a instituição de sentidos que devem ser propagados.

Cão: figura que pode constituir uma representação do povo, convidado no início da obra a uivar contra o sistema aparentemente democrático. No final da narrativa, a cegueira acomete novamente os cidadãos e o uivo do cão é calado, silenciado.

Bandeiras/ hinos: símbolos recorrentes no texto. Figurativizam e legitimam a democracia, mesmo que esta não exista. Outras alusões ao patriotismo e à uma sociedade democrática são listadas abaixo:

“sistema democrático”, “integridade política, social e moral da nossa pátria”, “panteão dos mártires da pátria”, “cidadãos e cidadãs”, “pessoas de bem”.

Opõem-se a este campo semântico aquele que se refere aos “brancosos”, desordeiros infratores da lei e da democracia.

Chuva: a chuva que cai pesada na ocasião da eleição, assim como a descrição do local de votação, podem ser uma figurativização do caos prestes a se instalar no país e, também, da tentativa do povo de lavar, limpar a sociedade da injustiça, da corrupção, do abuso de poder impostos pelos governantes: “Além da humidade que tornava mais espessa a atmosfera, já de si pesada por ser interior a sala, apenas com duas janelas estreitas que davam para um pátio sombrio mesmo em dias de sol, o desassossego, empregando a comparação vernácula, cortava-se à faca” (SARAMAGO, 2004, p.9-10)

Abandono da cidade: Tanto a saída dos partidários do PDM e PDD, da cidade, quanto a sua volta, são significadas como um feito épico grego: “a retirada dos dez mil”, contada por Xenofonte. Assim, tais retirantes são narrados como guerreiros, de forma grandiosa, ao mesmo tempo em que são vitimizados, reforçando a sanção negativa conferida aos votantes em branco.

 

3. Os discursos materializados em Ensaio sobre a lucidez

O discurso, considerado por Pêcheux (1969) como “efeito de sentido entre interlocutores”, é sempre atravessado por vários outros que o precederam e que já estão postos em outros contextos sociais. Analisar os diversos discursos presentes nos textos implica perceber a retomada da memória e de arquivos estabilizados e, ao mesmo tempo, flagrar a ruptura de ambos A memória discursiva, também conhecida como interdiscurso, é, segundo Orlandi (2003, p.31), “o saber discursivo que torna possível todo o dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na base do dizível sustentando cada tomada da palavra”. Authier-Revuz associa esse atravessamento do discurso por outros discursos ao conceito de heterogeneidade. Tal conceito é explicado por Romão (2005):

há duas formas de heterogeneidade do dizer: a constitutiva e a mostrada. No primeiro caso, como condição para a existência da linguagem, ela é implícita, não revela o nome do outro e trabalha na superfície da memória e do interdiscurso. No segundo caso, se inscreve e se mostra inscrita a voz do outro no discurso do sujeito, indicando a zona fronteiriça entre os dizeres, zona esta que se manifesta por meio de paráfrase, alusão, citação, referência a provérbio, transcrição de máximas, entrevistas, depoimentos, entre outras marcas. Que o outro sempre atravessa o discurso do sujeito, isso é certo, o que autora propõe são diferenciações em relação à entrada, forma e amostragem dessa imbricação de vozes.

Com base nestes pressupostos, pretende-se fazer algumas considerações a respeito dos discursos circulantes na obra analisada e a heterogeneidade que os constitui.

3.1 Memória e heterogeneidade

No texto de Saramago, pode-se perceber a presença de diversos discursos já, há muito, repetidos e reformulados, que se entrelaçam e digladiam em uma nova rede de significações. Tal rede articula os temas e figuras em novas relações, constituídas na interação paráfrase-polissemia. Evoca-se toda uma memória sobre o que é uma eleição; ditadura; violência urbana; ataques a bombas; guerra civil; perda de liberdade; estado de sítio; espionagem; um governo que se põe contrário não a um inimigo externo, mas aos próprios cidadãos, alegando estar assim, protegendo-os, etc. Pode-se marcar também, a retomada dos sentidos presentes na literatura policial que confere um imaginário de conspiração e perigo à cidade. Diversos discursos atravessam o texto: o discurso autoritário - do governo, da imprensa, o discurso religioso-; o discurso polêmico, que faz ecoar uma luta de vozes, as quais questionam e denunciam uma situação que está fora de ordem.

Observa-se, também, a presença da heterogeneidade marcada que ocorre, por exemplo, na intertextualidade em relação ao livro de Saramago Ensaio sobre a cegueira, na presença de suas personagens em Ensaio sobre a lucidez, e na alusão à cegueira branca, signo que é retomado e ressignificado na obra aqui estudada:

“...a não pronunciar nunca uma só palavra sobre o fato de que durante algumas semanas estivemos todos cegos [...] e agora digo que provavelmente cegos continuamos” (SARAMAGO, 2004, p.170-171).

“... o voto em branco é uma manifestação de cegueira tão destrutiva como a outra...” (op.cit., p.172).

Observa-se que é somente tendo acesso ao interdiscurso que se percebe essa retomada, esse atravessamento de uma obra em outra. Diversos discursos presentes na obra podem contribuir para a constituição dos mesmos sentidos. Como exemplo, podemos citar as manifestações pacíficas, realizadas pelos sujeitos-eleitores, que foram discursivizadas como sendo ações terroristas, anarquistas, construindo-se, assim, um imaginário de perigo, crime e subversão. Tal instauração de sentidos deu-se com o apoio da mídia que, juntamente com o governo, constituem um simbólico de poder e autoridade, contando também, para tanto, com o discurso religioso, evocado diversas vezes na obra. Juntos, os discursos político, midiático e religioso assumem a posição de discursos da verdade, autoritários, que não permitem a existência de outros. Grigoletto (1999, p.67-68), afirma que o discurso da verdade “é aquele que ilusoriamente se estabelece como um lugar de completude de sentidos”, constituindo-se um “texto fechado” que aprisiona os sentidos, impedindo um gesto de interpretação que considere o processo sócio-histórico-ideológico de sua construção. Dentre esses três discursos mencionados, chama-nos a atenção o religioso, o qual se entremeia aos outros dois de tal forma que, por muitas vezes, suas fronteiras se confundem. Seguem alguns recortes que mostram essa heterogeneidade (constitutiva e mostrada), esse atravessamento estabelecido entre tais discursos.

“A urna estava vazia, pura, imaculada” (SARAMAGO, 2004, p.11)

“É agora, é agora que tudo pode acontecer, que a virgem santíssima nos proteja a todos, que os gloriosos manes da pátria, lá do empíreo aonde subiram, possam abrandar os corações coléricos dessa gente” (op.cit., p.136)

em verdade, em verdade vos digo...” (op.cit., p.182).

Haveis atraiçoado a memória dos vossos antepassados, eis a dura verdade que atormentaria para todo o sempre a vossa consciência, eles ergueram pedra a pedra, o altar da pátria, vós decidistes destrui-lo, que a vergonha caia por sobre vós [...] um amanhã que rezo aos céus não se faça esperar demasiado, o arrependimento penetrará docemente nos vossos corações e voltareis a congraçar-vos com a comunidade nacional, raiz de raízes, e com a legalidade, regressando como o filho pródigo, à casa paterna” (op.cit., p.95-96. grifos meus)

Voltareis a ver-me e a ouvir-me no dia em que tiverdes merecido o perdão que, apesar de tudo, estamos inclinados a conceder-vos, eu, vosso presidente, o governo que haveis elegido em melhores tempos, e a parte sã e pura do nosso povo, essa de que neste momento não sois dignos. Até esse dia, adeus, e que o senhor vos proteja (op.cit., p.97)

Por fim, uma outra marca explícita também relaciona o discurso religioso ao político: a alusão à Sodoma e Gomorra, duas cidades bíblicas que foram destruídas por Deus devido seus pecados:

Aqui está uma cidade que votou em branco contra o senhor e não houve um raio que lhe caísse em cima e a reduzisse a cinzas, como, por culpa de vícios muito menos exemplares, aconteceu a Sodoma e a Gomorra, e também a Adnia e a Seboyim, queimadas até os alicerces [...] não será possível contar com eles para reconduzir ao bom caminho, a pecadora cidade do voto em branco (op.cit., p.208)

Aproximam-se, assim, as cidades pecadoras da cidade do voto em branco que, sob essa perspectiva, mereceria ser castigada. As ações do governo estariam justificadas quando ele assumisse uma posição de enunciador do discurso religioso.

É importante dizer que a leitura e interpretação aqui realizadas são apenas algumas das muitas possíveis. A tentativa de articular as teorias semiótica e discursiva, num exercício de traçar um percurso gerativo de sentido, atribuir temas e figuras, observar os discursos materializados nos textos, não poderia jamais ser realizado sem se considerar a memória discursiva que faz circular o mesmo e o diferente, as condições de produção dos discursos e sentidos que são apreendidos por diferentes sujeitos possuidores de diferentes arquivos, construtores de diferentes interpretações.

 

4. Referências bibliográficas:

BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria Semiótica do texto. São Paulo: Ática, 1990.

GRIGOLETTO, Marisa. Leitura e funcionamento discursivo do livro didático. In: CORACINI, Maria José Rodrigues Faria (org). Interpretação, autoria e legitimação do livro didático: língua materna e língua estrangeira. Campinas: Pontes, 1999.

ORLANDI, Eni P. Análise de discurso: princípios & procedimentos. 5. ed. Campinas: Pontes, 2003.

PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp, 1969.

ROMÃO, Lucília Maria Sousa. Mais de perto, mil faces secretas sob a face neutra: considerações sobre a heterogeneidade no discurso jornalístico. Papiro, ano 7, n.25, out./nov., 2005. Disponível em: <

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a lucidez. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

 

Notas:

[1] Aluna da FFCLRP- Universidade de São Paulo, Brasil.

[2] Professora da FFCLRP- Universidade de São Paulo, Brasil.

[3] Professora da FFCLRP- Universidade de São Paulo, Brasil.

 

© Ludmila Ferrarezi, Soraya Maria Romano Pacífico y Lucília Maria Sousa Romão 2007

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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