Angola-Brasil e as concubinas Nga Muturi e Xica da Silva

Juliano Paines*               Pr. Ms.Carlos Garcia Rizzon**

Acadêmico do Curso de Letras da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC·*
Professor de Língua e Literatura da Universidade Federal da Bahia - UFBA**


 

   
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Resumo: Este artigo tem como objetivo traçar aspectos entre duas personagens negras pertencentes à Literatura Africana e Brasileira, sendo elas: Nga Muturi de, Alfredo Troni e Xica da Silva de, João Felicio dos Santos. Os dois textos aproximam Angola e Brasil enquanto colônias submissas da coroa portuguesa. Além da língua e de um sentimento pátrio, Nga Muturi e Xica da Silva vivem ascensões sociais muito parecidas que, não, as incluem definitivamente no mundo dos brancos. Apenas, confirmam mudanças do status, de escravas à concubinas de senhores nobres.
Palavras-chaves: Literatura africana, Literatura brasileira, Cultura, Sociedade e Língua.

Resumen: Ese artículo tiene cómo objetivo comparar aspectos de dos personajes negras pertenecentes de la Literatura Africana y Brasileña, siendo ellas: Nga Muturi de, Alfredo Troni y Xica da Silva de, João Felicio dos Santos. Los dos textos aproximan Angola y Brasil mientras colonias submisas de la corona portuguesa. Además de la lengua y de un sentimiento nacional, Nga Muturi e Xica da Silva víven acensiones sociales muy parecidas, que no, las incluyen definitivamente en el mundo de los blancos. Sólo, confirman mudanzas del status, de esclavas a las concubinas de los señores nobles.
Palabras clave: Literatura africana, Literatura brasileña, Cultura, Sociedad y lengua.

 

SUMÁRIO:

1. INTRODUÇÃO
2. UM POUCO DE HISTÓRIA SOBRE AS ESTÓRIAS
     2.1 Nacionalidades distintas
3. O CONCUBINATO: ENTRELAÇAMENTOS DE XICA E MUTURI
4. CONCLUSÃO
5. REFERÊNCIAS

 

1. INTRODUÇÃO

A construção do presente artigo iniciou-se à partir de uma resenha escrita para à disciplina de Literatura Africana de Expressão Portuguesa da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC. A produção textual tem como objetivo comparar aspectos da literatura de um país africano, de idioma oficial português à literatura brasileira.

Após muitas leituras cheguei a um senso: dois países (Angola e Brasil) e duas personagens negras, Nga Muturi e Xica da Silva. Entre elas ocorrem uma ascensão social parecidas, de escravas à concubinas de senhores nobres. As comparações das obras de Alfredo Troni e João Felicio dos Santos, mostram, Angola e Brasil como colônias de Portugal, idiomas comum e com literaturas que mitificam o homem branco e sua cultura. Submetendo à margem da civilização o homem negro e sua africanidade.

O comparativismo entre os dois textos se resume em uma reflexão à posição de concubinato das personagens escravas. Uma por opção e a outra por destino.

 

2. UM POUCO DE HISTÓRIA SOBRE AS ESTÓRIAS

“Foi ali que por voz suave e santa ouvi e cri em Deos! É minha pátria”
             (José da Silva Maria Ferreira, poeta angolano, autor de Espontaneidade da minha alma, 1849)

A situação histórica de maior ênfase no século XVI foram as navegações portuguesas. Campedelli (2002) fortifica que “desde o século anterior os lusitanos vinham descobrindo novas rotas marítimas entre a Europa e o Oriente. O Brasil foi, sem dúvida o maior achado dos portugueses” (p. 73). A carta ao rei Dom Manuel de, Pero Vaz de Caminha, escrita em 1.500 (descoberta em 1972) e publicada em 1817 pelo historiador Manuel Aires do Casal em sua famosa obra, Corografia brasílica, inaugura nossa literatura. Para Backes (1999):

A carta é o relatório dos primeiros acontecimentos ocorridos na terra descoberta, assim como os detalhes anteriores da viagem marítima da esquadra. Revela, e de maneira nítida, a ideologia mercantilista dos chegaram, refletida na análise cobiçosa das riquezas que aquelas terras apresentavam ter e selada pela diligência missionária de uma cristandade marcada atrasadamente medieval. Escrita com talento narrativo e valor ficcional, revela também, e pela primeira vez, o imaginário europeu - com todos os seus preconceitos e louvores - sobre as terras do Brasil, a fertilidade e a beleza do seu solo e do seu povo (p. 6-9).

Não muito longe desta descoberta do outro lado do Atlântico, e por volta de 1575, os portugueses colonizadores fundaram a primeira povoação portuguesa em solo africano, São Paulo de Assunção de Luanda, hoje capital de Angola. A colônia Angola, assim como o Brasil, produziu seu primeiro achado literário, “os relatórios dos padres jesuítas”. Vejamos bem, isso não é uma obra literária e nem foi publicado como A carta ao Rei Dom Manuel de Pero Vaz de Caminha, mas, serviu exatamente igual ao conteúdo da carta, ou seja, uma forma de divulgar os relatos dos padres jesuítas sobre o povo submisso, a terra e as possibilidades de expansão territorial.

Outro fato relevante entre as duas colônias portuguesas são às obras que se diferenciam de literaturas coloniais portuguesas de literaturas brasileiras e literaturas africanas. No Brasil o Barroco e o Arcadismo são períodos que refletem a influência de uma arte e literatura alheia a nacionalidade brasileira. O povo aqui descoberto, os índios, e o povo que veio à pertencer essa terra, os negros, ainda não são representados nas obras até então publicadas. Podemos dizer que só no Romantismo é que à figura do índio, de forma a substituir o cavaleiro medieval das publicações européias, terá um real prestigio.

Os negros de nenhuma forma são enaltecidos em obras literárias, seja como representação de uma personagem ou como leitores . Santilli (1985) diz que:

Se já não existia uma escrita entre esses africanos, o colonizador português também não fez por dar-lhes logo o código grafado de sua língua que lhes levava de empréstimo. A história da colonização portuguesa do século XVI ao século XIX uma fração insignificante da população negra chegara ler e a escrever (p. 9).

Nesta estatística de analfabetismo, mencionados nas entre linhas da citação, reflete que o homem branco leitor e personagem das obras publicadas no período colonial português do Brasil e de Angola são pertencentes a uma literatura colonial. Visto que não se preocuparam passar o seu código escrito para índios e nem para os negros. Pois, Brasil e Angola só ganharam uma literatura nacional (feita por homens brancos) exaltando à terra, sua natureza e seu povo no século XIX. O Brasil mostra-se com uma literatura brasileira exatamente com os ideais de independência que se concretiza em 1822. A poesia de Gonçalves Dias e seus Primeiros cantos faz nascer um eco lírico totalmente brasileiro. Em Angola, neste período, a situação da sua literatura não se dá por ideais independentes, mas sim, pela fundação de treze associações recreativas culturais nas colônias portuguesas que primaram uma literatura exclusivamente africana de expressão portuguesa no ano de 1853.

A produção literária em Angola ganha força com a imprensa e os primeiros periódicos como: A aurora (1856), A civilização da África (1866), O Eco de Angola (1881), O Futuro de Angola (1882), O farol do Povo (1883), O Serão (1886), A Civilização da África Portuguesa (1886), O Arauto Africano (1889), Ensaios Literários (1881) e Luz e Crença (1902-1903). Esse surto jornalístico ajudará o jornalista angolano Alfredo Troni à publicar sua novela Nga Muturi (1882) em folhetins na Gazeta de Portugal em Lisboa. A personagem Nga Muturi da novela de Troni será posteriormente mencionada em um capítulo especial deste texto. Pois a narrativa de sua vida revela ao leitor um processo de aculturação do homem branco que cruza seu destino, forçando o concubinato, e mostra a sociedade angolana através de um texto literário próprio de sua terra.

O caminho ao qual iremos traçar esse texto para chegar ao propósito comparativista entre as personagens Xica da Silva e Nga Muturi obedece um traço lógico e cronológico. O presente capítulo “Um pouco de história sobre as estórias” buscou conhecer o meio entre a literatura colonial portuguesa e a formação de uma literatura brasileira e africana. Mas até o presente momento fica registrado que a separação entre essa duas linhas acontece mais na literatura angolana. Sendo que na brasileira, os ideais de independência que inaugura o Romantismo, serve como ilustração ao comparativismo anunciado neste artigo entre “Brasil e Angola e suas concubinas Nga Muturi e Xica da Silva”.

2.1 NACIONALIDADES DISTINTAS

A literatura africana de expressão portuguesa exibe os mesmos ideais nacionais dos textos produzidos após a independência do Brasil, a exaltação da terra, da sua sociedade, do seu povo mestiço e aculturado, de sua geografia territorial. Por isso, chegamos no momento de conhecer a diferença entre a literatura colonial portuguesa e a literatura africana de expressão portuguesa, para assim, irmos ao encontro do foco da presente pesquisa. Para o pesquisador Manuel Ferreira, autor do livro Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (1987) existe duas grandes linhas que separam a literatura colonial com a literatura africana de expressão portuguesa. Assim citamos Ferreira (1987):

São, na verdade, duas literaturas distintas. A primeira, a literatura colonial, pelo fato de vincular ao enunciado do universo narrativo ou poético essencialmente o homem europeu, numa perspectiva eurocêntrica. No texto da literatura colonial, por décadas exaltada, o homem negro aparece como que por acidente, já é um avanço, porque a norma é, a sua marginalização ou coisificação. [...] As literaturas africanas são o inverso da literatura colonial. O universo africano perspectivo de dentro, conseqüentemente saneado da visão folclorista e exótica. No espaço material e lingüístico do texto o negro é privilegiado e revestido de um solidário tratamento literário - embora não sejam excluídas as personagens européias (de sinal negativo ou positivo). É o africano que normalmente preenche os apelos da enunciação e é ele quase exclusivamente, enquanto personagem ficcional ou poética, o sujeito do enunciado. Os cuidados e os esmeros do sujeito enunciador são os de organicamente moldar o enunciado com os ingrediente significativos e representativos da especificidade africana. Se colocados, lado a lado, os dois textos, um de literatura colonial e outro de africana, é como se precedêssemos a uma justaposição de brusco contraste. O texto colonial representa e prolonga a realidade colonial; a texto africano nega a legitimidade do colonialismo e faz, da revelação e da ao universo africano, a raiz primordial (p. 13-14).

No ângulo das diferenças é que se percebe o caráter literário proposto por cada linha mencionado por Manuel Ferreira. Assim, os aspectos de negação ao colonialismo e a mitificação do homem branco fortificarão as raízes da literatura africana.

 

3. O CONCUBINATO: ENTRELAÇAMENTO DE XICA E MUTURI

A Literatura Africana de Expressão Portuguesa nos permite irmos além do Atlântico ou das fronteiras do tempo. Nos permite tentar recriar a sociedade colonial entre Angola e Brasil através de duas concubinas pertencentes a literatura dos dois países. O fator do concubinato se explica através do dicionário Aurélio da Língua Portuguesa onde se refere ao termo concubina como “mulher que vive amasiada com um homem; amante, amásia” (p. 118). Xica da Silva e Nga Muturi são bons exemplos que representam esse termo. Pois o concubinato das escravas acabou se tornando um caminho para suas ascensões sociais.

Em uma sociedade totalmente dominada por homens, de cor branca, o exotismo da beleza negra feminina das duas personagens (Nga Muturi e Xica da Silva) conseguem impor sua raça em troca de favores sexuais. Essa atitude de usar o corpo para ascender socialmente é, uma das únicas opções entre as duas personagens de mudar suas vidas, segundo os seus criadores. Na obra de João Felício dos Santos, Xica da Silva, tem uma simbologia mítica para nossa cultura mestiça. A escrava Xica da Silva, tem sua vida explorada por uma narrativa bastante forte do ponto de vista de linguagem, que não se preocupa com os fatos históricos, apenas os mostra como eles deveriam ser ditos. Para convencer, a novela registra a forma com que Xica, passo a passo, fez para que o Contratador João Fernandes, homem casado, enviado pela coroa portuguesa para fiscalizar à extração de diamantes em Serro Frio, que ao vislumbrá-la, caiu a seus pés. Como veremos nesta passagem da obra:

Primeiro com a habilidade e galanteria de um profissional cortesão, João Fernandes vestiu as pernas de Xica com meias caríssimas. A proporção que ascendia com as meias no desenrolar da seda, semeava beijos ardentes de amor por todo o caminho , entre pés, tornozelos, joelhos e coxas. No alto das pernas, prendeu as meias com ligas cor-de-rosa, guarnecidas com quatro pequenos querubins de louça que se beijam na boca, de dois em dois, num puro requinte de graça gentil. E como já não havia mais pernas nem coxas pra João Fernandes beijar, ele beijou as duas ligas, vagarosamente, colocadas em seus lugares. Por fim, com amor e ternura, beijou justo na interseção (cap. 59, p. 77).

Ao percebermos que o ato de amor fora consumado, Xica da Silva se torna Dona Francisca, concubina do contratador João Fernandes.

A novela Nga Muturi do jornalista e escritor angolano Alfredo Troni escrita em folhetins na Gazeta de Lisboa em 1882 não se iguala em formas narrativas ao romance Xica da Silva. Por opção Troni elabora uma narrativa de memória, em que o narrador é a própria personagem que conta como se tornou concubina. Nesta obra veremos que o fator de concubinato veio por destino e, não por opção como no caso da escrava Xica. Quando criança, a buxila [1] Nga Muturi fora vendida pelo tio por força do quituxi [2]. Aos anos que se passam a menina vira mulher do branco que a comprou e depois fica “Nga Muturi” que significa no dialeto angolano, Senhora viúva. Ao enviuvar-se Nga Muturi fica herdeira única do seu dono e num tom poético sai da condição de escrava e se transplanta para o posto de senhora viúva de um homem branco. No parágrafo que inicia a novela de Alfredo Troni (Nga Muturi) o narrador apresenta a distinta senhora de Luanda, que um dia fora escrava:

Nga Ndreza (nome que tem na sociedade de Luanda, uma sociedade onde só avultam os panos, sim mas que guarda um certo número de convivências) afirma que é livre, que foi criada em Novo Redondo, e pertenceu à família F...; e, quando muito, calasse quando lhe perguntam se é buxila (p.31).

O amadurecimento da personagem e sua condição social é percebida pela troca do nome mencionado pelo narrador. Nga Muturi é agora conhecida na sociedade de Luanda como Nga Ndreza. Nesta passagem fica muito evidente que há uma tentativa do narrador de mostrar que a união forçada trouxe uma nova realidade social para a personagem Nga Muturi. Igualmente o que acontecera com a personagem mencionada anteriormente, Xica da Silva.

 

4. CONCLUSÃO

O compromisso comparativista poderia se estender uma vez que poderíamos apontar outros aspectos de igualdades e diferenças entre as duas personagens e suas narrativas. Por exemplo, o fato de que a personagem Nga Ndreza antes, Nga Muturi flagra à sua criada Chica praticando brincadeiras na sala de sua casa com o caixeiro. Chica no dialeto angolano significa “uma rapariga amante”. Será que esse elemento justifica ainda mais nossas comparações? Mas, de certo procuramos primar pela síntese de enfoque do tema comprometido: de apenas informar à ascensão social das personagens Nga Muturi e Xica da Silva.

A aventura de percorrer um estudo de comparações literárias pode ser muito mais infinito que se imagina. Há muitas outras essências escondidas dentro dos textos que escolhemos, de certo modo, Carvalhal (2003) diz:

[...] o estudo comparado de literatura deixa de resumir-se em paralelismos binários movidos somente por “um ar de parecença” entre os elementos, mas compara com a finalidade de interpretar questões mais gerais das quais as obras ou procedimentos literários são manifestações concretas. Daí a necessidade de articular a investigação comparativista com o social, o político e o cultural, em suma, com a História num sentido abrangente (p. 86).

Em síntese, o entrelaçamento comparativista abrange as estórias das escravas - buxilas. O concubinato de Nga Muturi e Xica da Silva serviu para que através dos textos mostrassem o fator de mestiçagem e africanidade herdados por Angola e Brasil no período colonial português. Hoje, como formação de uma sociedade com identidade própria, concubina de sua raça.

 

4. REFERÊNCIAS

BACKES, Marcelo. Prefácio da Carta ao rei Dom Manuel de, Pero Vaz de Caminha. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1999.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1982.

BRUNEL. Pierre, PICHOIS CL e ROUSSEAU A. M. Que é literatura comparada. São Paulo: Perspectiva, 1995.

CAMPEDELLI, Samira Yousseff. Português, literatura, produção de textos e gramática. São Paulo: Saraiva, 2002.

CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura Comparada. São Paulo: Ática, 2003.

FERREIRA, Aurélio B. de Holanda. Minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

FERREIRA, Manuel. Literaturas africanas de expressão portuguesa. São Paulo: Ática, 1987.

FURTADO, Júnia F. Chica da Silva e o contratador de diamantes: o outro lado do mito. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

RIZZON, Carlos G. Memória de um tempo circular no território de Carlos Fuentes. Porto Alegre: UFRGS, 2005.

SANTILLI, Maria A. Estórias africanas: história e antologia. São Paulo: Ática, 1985.

SANTOS, João F. Xica da Silva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.

TRONI. Alfredo. Nga Muturi. Lisboa: Gazeta de Lisboa, 1882.

 

Notas:

[1] Escrava.

[2] Instituição jurídica africana. Ver: FERREIRA, Manuel. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (p. 21).

 

© Juliano Paines y Carlos Garcia Rizzon 2007

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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