A arte retórica de Padre Antonio Vieira

Karina de Freitas Silva Fernández

Doutoranda em Comunicação e Semiótica
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
karina_jrj@yahoo.es


 

   
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Resumo: Padre Antonio Vieira, no Sermão da Sexagésima, teoriza acerca da elaboração da retórica de um sermão que desejasse cumprir o objetivo de persuadir os seus ouvintes. Neste artigo, não apenas examinaremos os preceitos propostos por Vieira para a construção de um sermão, como também abordaremos a forma como o padre se apropria dessa estrutura retórico-argumentativa para fazer o seu próprio sermão.
Palvras-chave: persuasão - sermão - retórica - oratória

Resumen: Antonio Vieira, en el Sermón de la Sexagésima, teoriza sobre la elaboración de la retórica de un sermón que quisiese cumplir el objetivo de persuadir sus oyentes. En este artículo, no sólo examinaremos las reglas propuestas por Vieira para la construcción de un sermón, sino también trataremos la forma como el cura se apropia de esa estructura retórico-argumentativa para hacer su propio sermón.
Palabras clave: persuasión - sermón - retórica - oratoria

 

INTRODUÇÃO

A literatura barroca foi marcada por um momento de conflito, por uma tendência conciliatória de afirmação renascentista da capacidade individual (pensamento secular) e a exigência medieval de uma postura submissa diante de Deus e da Igreja ressuscitada pelo Concílio de Trento (pensamento cristão). Aliás, é entre os anos de 1545 e de 1563 que o Concílio de Trento buscou tomar uma série de decisões relacionadas com a forte permanência da presença religiosa na vida social da época. Nele se decidiu opor um conjunto de dogmas e reformas que disciplinares que possibilitassem a manutenção da unidade católica.

Somado ao Concílio, o século XVII ainda assistiu, de um lado, à estabilização dos Estados Nacionais, à consolidação da Reforma na Inglaterra, ao grande momento do capitalismo mercantil e, de outro lado, acompanhou a fundação da Companhia de Jesus (1540) e a Contra-Reforma (tentativa de conciliar a novidade renascentista com a tradição religiosa que vinha da Idade Média). Das angústias de um ser humano atormentado por grandes dúvidas existenciais determinadas por acontecimentos político-sociais tão conflitantes, a arte da época acabou por desenvolver intensamente obras de temas religiosos.

No período colonial brasileiro, conforme aponta Domingues (2001), a atuação da Igreja foi marcada por dois posicionamentos conflitantes o que determinava um posicionamento dual por parte de seus sacerdotes. Por uma parte, havia uma postura sacerdotal, pois levavam adiante a missão profética de catequização dos indivíduos. Para tal, os pregadores usavam um discurso doutrinário (pregação do evangelho) e soteriológico (salvação das almas). Nesse sentido, a Igreja, reveladora de Deus ao outro, assumia um papel de protetora dos oprimidos contra os poderosos. Assim, por exemplo, era comum a defesa dos índios pelo Padre Antonio Vieira. Por outra parte, havia a posição política que justificava o plano de dominação da Igreja sobre os povos ainda não inseridos em sua doutrina. Neste caso, figuravam o discurso universalista (aumento da religião cristã) e o guerreiro (redução dos índios).

O próprio Vieira afirmava, em um de seus Sermões, a co-existência de diversos discursos intencionais em suas pregações, contudo, todos convergiam para a moralidade. Aponta Domingues, então, a existência de um Vieira-cortesão, dedicado a apoiar o rei, e um Vieira-sacerdote, entregue à luta pela liberdade dos índios. Assim, fica evidente em sua obra, a pluralidade de vozes e de concepções co-existentes em um mesmo discurso.

A retórica do jesuíta tanto é percebida como uma pregação de natureza espiritual como de natureza política. Mais que uma forma de edificação moral e espiritual, o sermão de Vieira era também instrumento de ação política e social, pois articulava seu pensamento em defesa de grandes causas como a já mencionada libertação dos índios.

Nesse sentido, o púlpito cristão no período barroco se tornou um importante instrumento da retórica sagrada sempre intencionada a catequizar, a convencer e a doutrinar os ouvintes. Pe. Vieira, na galeria de oradores sacros, despontou como o grande pregador dessa época. Seu acervo literário privilegia o manuseio da expressão verbal, tornando o púlpito um veículo para imprecações públicas e ideológicas. Muitas vezes, apresentava tanto discursos fervorosos que transpareciam suas preocupações sociais como sua defesa pela missão apostólica e libertadora do homem.

Deixou importantes obras que refletiam a dualidade barroca. Escreveu profecias (História do Futuro, Esperanças de Portugal e Clavis Prohetarum), cartas (mais de quinhentas, nas quais comenta os sucessos políticos da época, especialmente no que diz respeito ao relacionamento entre Portugal e Holanda, a Inquisição, os Cristãos-Novos e a situação do Brasil) e, finalmente, sermões, pregados durante toda a vida, tanto em Portugal como no Brasil. Entre os sermões mais famosos destacam-se o Sermão de Santo Antônio (1654), o Sermão do Bom Ladrãi (1655), o Sermão da Sexagésima (1655) e o Sermão da Epifânia (1662).

O Sermão da Sexagésima (ou do Evangelho) de Padre Antonio Vieira abre o conjunto de sermões organizados por ele mesmo em cerca de doze volumes. O jesuíta apresenta nele um plano tradicional de sermão que deveria ser adotado por todos os pregadores que, de fato, intencionassem persuadir seus ouvintes. Pregado na Capela Real, em Lisboa em 1955, Vieira criticava veemente os sermonistas que praticavam o cultismo, transformando seus textos em motivo de exaltação literária, deixando em segundo plano seu caráter de reflexão existencial e religiosa. Pelo sermão pretende instruir os demais pregadores (interlocutores) acerca dos principais elementos constitutivos de um sermão.

É no segundo capítulo do Sermão que o padre jesuíta anuncia a matéria de seu discurso: “se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, por que não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta, tão grande e tão importante dúvida, será a matéria do sermão”. Vieira, fazendo uso de uma linguagem erudita e altamente persuasiva, sustentou a tese de que o pregador é o culpado por não conseguir converter em massa seus ouvintes ao catolicismo.

Para defendê-la segue os critérios por ele mesmo apresentados como estrutura ideal para um sermão eficiente. Não apenas o descreve sucintamente, como usa dos mesmos recursos para escrever seu próprio texto. Segundo Vieira,

Há-de tomar o pregador uma só matéria; há-de defini-la, para que se conheça; há-de dividi-la, para que se distinga; há-de prová-la com a Escritura; há-de declará-la com a razão; há-de confirmá-la com o exemplo; há-de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que hão-de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar; há-de responder às dúvidas, há-de satisfazer as dificuldades; há-de impugnar e refutar com toda a força da eloqüência os argumentos contrários; e depois disto há-de colher, há-de apertar, há-de concluir, há-de persuadir, há-de acabar. Isto é sermão, isto é pregar; e o que não é isto, é falar de mais alto (VIEIRA, 1955).

Esta descrição do “fazer-sermão” apontado por Vieira no sexto capítulo torna-se a chave para compreender sua retórica. Sua arte retórica segue a estrutura elaborada a partir de modelos gregos e de oradores evangélicos muito reconhecidos em sua cultura. Neste artigo, examinaremos o conceito e o conjunto de preceitos para construção de um sermão eficaz, como também analisaremos os recursos utilizados pelo padre na elaboração de seu Sermão. Chama-nos atenção o fato de que ele não apenas teve a intenção de persuadir os demais jesuítas ao instruir-lhes sobre o processo de elaboração de um sermão, como também adotou os preceitos em sua própria escrita.

 

ESTRUTURA DO SERMÃO DA SEXAGÉSIMA

A estrutura de um sermão deveria seguir aquela consagrada pela retórica. Devia orientar-se por modelos desse tipo de discurso, tais como os grandes filósofos gregos (Aristóteles, Túlio, Quintiliano) e os oradores evangélicos (São Crisóstomo, São Basílio Magno, São Bernardo, São Cipriano). É Vieira, no Sermão da Sexagésima, quem afirma serem esses os grandes mestres da arte de persuadir. Eles não só instruíam como também convenciam os ouvintes de suas verdades. Santo Antônio de Pádua e São Vicente Ferrer, para o jesuíta, foram exemplos de missionários que “fizeram frutos” no mundo.

Tudo o que tenho dito pudera demonstrar largamente, não só com os preceitos dos Aristóteles, dos Túlios, dos Quintilianos, mas com a prática observada do príncipe dos oradores evangélicos, S. João Crisóstomo, de S. Basílio Magno, S. Bernardo. S. Cipriano, e com as famosíssimas orações de S. Gregório Nazianzeno, mestre de ambas as Igrejas. E posto que nestes mesmos Padres, como em Santo Agostinho, S. Gregório e muitos outros, se acham os Evangelhos apostilados com nomes de sermão e homilias, uma coisa é expor, e outra pregar; uma ensinar e outra persuadir, desta última é que eu falo, com a qual tanto fruto fizeram no mundo Santo António de Pádua e S. Vicente Ferrer (VIEIRA, 1955).

Os sermões deviam ser construídos a partir de passos modelares rigorosamente adotados pelo pregador. Deviam compor-se de prólogo, argumentação e peroração. O prólogo, geralmente, era dividido em tema, intróito e invocação. O tema consiste na enunciação e justificativa da escolha da seqüência evangélica sobre a qual pretende fundamentar o sermão. O intróito se constitui da exposição de um plano para o sermão, ou seja, o pregador apresenta a idéia ou idéias fundamentais que deseja desenvolver. E a invocação é a parte do prólogo em que se pede auxílio e inspiração sobrenatural, quase sempre à Virgem Maria.

Na argumentação, corpo central do texto, o tema é esclarecido, confirmando-o com exemplos bíblicos, experiências pessoais, ensinamento dos doutores da Igreja, da vida dos santos ou dos filósofos e escritores pagãos, amplificando-o com causas, com efeitos e com circunstâncias. Deve-se ainda prever os argumentos contrários e refutá-los. Pelos argumentos, o pregador induz seus ouvintes a uma ação ou a uma decisão. Por fim, a pregação encaminha-se para o seu final, para a peroração, passagem em que o sermonista deve lançar suas conclusões, buscando persuadir os ouvintes.

No Sermão da Sexagésima essa estrutura é bem marcada. O seu discurso é, então, construído nas regras da paranética (prática da oratória sagrada). No prólogo, presente nos dois primeiros capítulos, Vieira aponta o tema de sua pregação que é propriamente a prática da oratória, buscando compreender porque a palavra de Deus não encontrava mais efeito entre os ouvintes. Para apresentar sua arte de persuadir, Vieira faz uma crítica aos dominicanos, adversários tradicionais dos jesuítas que vinham ganhando terreno na preferência do público devoto. Para Vieira, e deixará isso claro em seu Sermão, este deve ser pregado por quem é exemplo de vida apostólica, e não por aqueles que se dedicavam a emendar os erros, perseguindo os cristãos já existentes ao invés de converter novos fiéis.

No intróito, Vieira deixa clara a escolha do tema, definindo-o e buscando sustentação nos textos sagrados. Assim, parte do versículo bíblico “A semente é a palavra de Deus” (Semen est Verbum Dei). A partir de recursos de estilo, o padre jesuíta põe em suspenso uma dúvida: “Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus?” A partir desse questionamento procura deixar o público confuso, envolvendo-o em reflexões acerca do que propõe discutir. Já se sabe que apenas ao final se encontrará uma resposta clara para o que pretende o locutor.

Passada a fase introdutória, que no Sermão da Sexagésima encontra-se nos dois primeiros capítulos, segue-se o desenvolvimento ou argumentação. É nessa parte que o pregador esclarece a temática proposta. Para tal utiliza-se de uma série de recursos para persuadir o leitor. Do terceiro ao oitavo capítulos, o padre apresenta seus argumentos para responder a sua proposição inicial. No terceiro capítulo, ele aponta três princípios dos quais pode proceder ao pouco caso da palavra de Deus pelos ouvintes. Seriam eles o pregador, o ouvinte ou o próprio Deus.

Ao apontar os três possíveis fatores da não frutificação da palavra de Deus, Vieira apresenta um jogo de idéias que apontam para a possibilidade de outras combinações com outras significações. Seguindo a seqüência lógica de seu pensamento, a persuasão se dá quando é possível o homem entrar dentro de si e ver-se a si mesmo. Assim, nesse triângulo dialógico proposto pela retórica (pregador - ouvinte - Deus), o pregador concorre com a doutrina, persuadindo o ouvinte. Logo, para se ver a si o locutor concorre com o espelho, que é a própria doutrina. O ouvinte concorre com o entendimento. Pelos olhos, que representam o conhecimento, deve perceber o que está sendo anunciado pelo pregador. Por fim, Deus é a própria graça, que concorre com a luz.

Para uma alva se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento (VIEIRA, 1955).

Deus é o primeiro a ser desconsiderado. O padre aponta dois argumentos que fortalecem sua afirmação. Primeiro, trata-se de uma proposição de fé e, em segundo, a palavra de Deus segue sendo a mesma, ou seja, sua força se mantém. Sendo Deus não culpado, analisa os ouvintes, mas logo também retira-lhes a culpa. Usando de repetições e paralelismos, faz uma analogia com a parábola do trigo. Para ele há dois tipos de maus ouvintes que devem ser persuadidos com a palavra de Deus: aqueles de entendimentos agudos e os de entendimentos de vontades endurecidas. Estes seriam pedras, aqueles espinhos. Assim como o trigo conseguiu vingar entre pedras e espinhos, a palavra de Deus deveria produzir efeito entre os ouvintes agudos e os de vontades endurecidas.

Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo deste Mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce; não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes (VIEIRA, 1955).

Sobra-lhe o pregador. Como já apontado, o padre defende a tese de que no pregador encontra-se a falha pela não frutificação da palavra de Deus entre os ouvintes. Para ele, no bom pregador, devem concorrer cinco circunstâncias: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo e a voz.

O quarto capítulo trata da pessoa do pregador. Segundo Vieira, pregar é agir: “as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo” (VIEIRA, 1955). O pregador deve ater-se a pregar obras e não pensamentos. Já no quinto capítulo, o padre se dedica a analisar o estilo do pregador. É nesta parte que encontramos a crítica levantada por Vieira contra os padres dominicanos, cujo estilo pautado na concepção cultista, dificultava o entendimento do sermão. Para o jesuíta, “o estilo há-de ser muito fácil e muito natural” (VIEIRA, 1955).

A matéria é o tema do sexto capítulo. Segundo Pe. Vieira, variedade de assuntos não é sinônimo de bom sermão, já que “apostilar o Evangelho, em que tomam muitas matérias, levantam muitos assuntos e quem levanta muita caça e não segue nenhuma não é muito que se recorra com as mãos vazias” (VIEIRA, 1955). Há de se ler, no sermão, um só assunto e uma variedade de argumentos que podem se utilizar de diferentes recursos a fim de alcançar o intento: persuadir o ouvinte. É, pois neste capítulo, que Vieira conceitua o sermão (ver a citação na introdução deste artigo). O sétimo capítulo é dedicado à ciência cuja falta na figura do pregador pode prejudicar o processo de persuasão. Para Vieira, o pregar não é recitar, mas entendimento.

O pregador há-de pregar o seu, e não o alheio. (...)As razões não hão-de ser enxertadas, hão-de ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento. (...) O que sai só da boca pára nos ouvidos; o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento (VIEIRA, 1965).

Finalmente, no oitavo capítulo examina a voz do pregador que deve bradar e gritar no momento certo, posto que, para Vieira, a eficácia do sermão ocorria pelo medo de Deus e temor a Ele. Assim, “há-de ser a voz do pregador, um trovão do Céu, que assombre e faça tremer o mundo” (VIEIRA, 1965).

Por fim, na peroração, o padre jesuíta busca concluir sua tese, persuadindo a platéia. Para ele, a palavra de Deus obtinha poucos resultados porque os pregadores buscavam obter efeitos literários, o que esvaziava o caráter moralizante dos sermões. É nos dois últimos capítulos que Vieira conclui sua pregação. Nele o padre busca definir a pregação que frutifica.

A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena. Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme; quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte; quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atônito, sem saber parte de si, então é a preparação qual convém, então se pode esperar que faça fruto: Et fructum afferunt in patientia (VIEIRA, 1965).

Para verificar qual dos três elementos dialógicos do sermão é o fator da pouca adesão do povo ao cristianismo, Vieira utiliza-se de recursos retórico-argumentativos, tais como exemplificação, relações de causa e efeito, previsão de argumentos contrários, impugnando-os e refutando-os.

 

RECURSOS ARGUMENTATIVOS DO SERMÃO DA SEXAGÉSIMA

Aristóteles, em sua Arte Retórica, aponta a persuasão e o ensinamento moral como dois dos princípios da arte da argumentação. Segundo o filósofo, a eloqüência é o fio condutor das paixões provocadas no auditório pelo orador. Para que ela se dê é fundamental a arte das provas, ou seja, a arte de revelar, pelo verossímil, a verdade do discurso.

Para ele, a verdade retórica ocorre pelos processos de indução (exemplo), de silogismo e de silogismo aparente. Pela indução entende-se a capacidade persuasiva em função de sua aptidão de tornar clara aos sentidos do ouvinte a trajetória de suas provas. Em Vieira é comum a recorrência aos textos bíblicos como meio de favorecer o entendimento do ouvinte.

Tomai exemplo nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu; mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem (VIEIRA, 1655).

Já o silogismo seria o esforço de verossimilhança e de sinais propostos ao ouvinte. Isso facilita a técnica de explicitação do assunto tratado. É relevante pois permite refutar e impugnar os argumentos contraditórios. Nos sermões, notamos o esgotamento das reflexões, a ruminação do pensamento, a constante reiteração, a busca por fechar todas as possibilidades interpretativas. O objetivo como já se sabe era convencer o ouvinte por meio do temor a Deus.

A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? -- o conceito que de sua vida têm os ouvintes (VIEIRA, 1655).

E o silogismo aparente reforça a idéia geral do público, fortalecendo o senso comum e alcançando a eficácia retórica. Esse intento é obtido pela exposição de proposições verdadeiras conformes com a opinião, levando o ouvinte ao desprendimento das coisas materiais e à busca dos ideais de amor e caridade.

Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus: Qui habet sermonem meum, loquatur sermonem meum vere, disse Deus por Jeremias. As palavras de Deus, pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavras de Deus; mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavras do Demónio (VIEIRA, 1655).

Como afirma Silva (1992), é pela dúvida que Vieira “obriga seus interlocutores a duvidar, questionar circunstâncias históricas que permitem fazer florescer a onipotência”. Completa Araújo (1992) que é pela dúvida e pelo medo que Vieira confunde o auditório, desdobrando assim a ideologia barroca e tratando de anular qualquer possibilidade de herança renascentista. Logo, não persuade pelo esforço dialético, visto que levar à dúvida não implica fazer o ouvinte refletir profundamente o assunto pregado. Isso porque, para eliminar a reflexão puramente racional, o jesuíta circunda a temática, envolve o ouvinte em exemplos e, sobretudo, busca fechar todas as possibilidades de respostas às dúvidas.

Embora deixe o ouvinte confuso, já que a intenção é deixá-lo atento durante todo o período da pregação, Vieira elabora proposições de seu próprio pensamento, marcando a originalidade de seu discurso. A melhor forma que encontra para incitar a dúvida é pelo recurso das perguntas retóricas. Retóricas porque não ficarão sem respostas. A intenção é justamente perguntar para responder. Levar o ouvinte a refletir a pergunta, mas sem lhe dar tempo para divagar sobre o assunto. Já em seguida à pergunta, o jesuíta busca provar a sua verdade e assim persuadir o seu ouvinte. É comum, então, a ocorrência do verbo provar, uma forma de não deixar o leitor sem uma resposta. Novamente, o que se pretende é que o ouvinte se convença da verdade do discurso.

Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo. (VIEIRA, 1965)

É, nesse sentido, que Vieira impugna e refuta idéias contrárias, direcionando o ouvinte para a compreensão daquilo que intencionalmente deva ser entendido. Foi tanto pela metáfora como pelas analogias e mesmo pelas alegorias que Vieira construiu belas imagens em seu sermão, sobretudo quando narrava alguma passagem bíblica.

Não apenas as perguntas retóricas auxiliam na elaboração argumentativa como também a exemplificação. Para provar a sua verdade é preciso aclarar ao máximo seu pensamento para que o ouvinte tenha o entendimento. O exemplo permite uma aproximação com a vida do ouvinte porque é similar às vivências cotidianas mas também serve como uma forma de moralização dos atos humanos.

Os exemplos tornam a demonstração muito mais fácil de penetrar na alma e no raciocínio do ouvinte. Aristóteles afirmava serem os discursos baseados em exemplos mais persuasivos que os baseados em silogismos oratórios, embora estes últimos possam impressionar mais o interlocutor. Contudo, ainda que recorra aos textos sagrados, como aponta Araújo, Vieira prefere as demonstrações mais extravagantes ao mesmo tempo menos conhecidas e correntes. O padre consideraria que exemplos menos conhecidos ainda não tenham se estabelecido como senso comum, teriam maior efeito no intento de persuadir o ouvinte.

Geralmente, para exemplificar, o pregador recorria ao texto sagrado, citando-os em latim, traduzindo-os ou não. Nele, encontrava motivo e modelo suficientes para convencer e orientar o auditório. Em outras recorria à História ou à Filosofia, ilustrando assim seu raciocínio.

Um exemplo marcante do Sermão da Sexagésima é a analogia entre o sermão e a árvore. Vieira desenvolve uma série de associações entre esses dois objetos. O sermão deve ser como uma árvore: as raízes seria a fundamentação no Evangelho; os troncos, a matéria a ser tratada; os ramos, os vários discursos nascidos da matéria; as folhas, as palavras ornadas.

Assim há-de ser o sermão: há-de ter raízes fortes e sólidas, porque há-de ser fundado no Evangelho; há-de ter um tronco, porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão-de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos hão-de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras (VIEIRA, 1655).

O padre jesuíta faz uso de metáforas inteligentes que se constituíam em importante recurso estilístico. Visavam a esclarecer para o ouvinte passagens obscuras da doutrina católica, pois aproximavam as situações vividas pelas personagens bíblicas. Em seus sermões, as metáforas são construídas sem pendor cultista. Na verdade, Vieira condenava o cultismo dos dominicanos que seguiam o estilo gongórico. Contudo, muitas vezes, se utilizava do rebuscamento da linguagem:

O mistério reside nas idéias (no conceito) e o cultismo, quando aparece, a elas se agrega, só a elas serve, só a elas favorece. Por isso Vieira, sempre que pode, faz uso da linguagem erudita e letrada, barroquizante, por estilo e gozo estético, e pela prática sintética de conjurar o ouvinte, persuadi-lo ou dissuadi-lo, arrancá-lo do torpor ou da perversão e lançá-lo enfim na direção única do teocentrismo. (ARAÚJO, 2006)

De fato, embora haja preferência pelo conceptismo, esta corrente se harmoniza com o cultismo no sermão de Vieira. O padre apóia-se na exploração de uma idéia que se desdobra em metáforas. Ele busca o significado da palavra, tendendo ao raciocínio, às sutilezas do pensamento, com transições, buscas ou mesmo associações inesperadas.

A partir de uma tese bem definida, favorece a fantasia do ouvinte na busca de imagens e sensações que ultrapassam a própria realidade. O que não se pode perder de vista é essa dualidade barroca presente em seus sermões. Segundo Saraiva (1999), ora o discurso de Vieira se fazia por jogos de conceitos em que se apresentavam paradoxos contidos nas palavras (conceptismo), ora por objetos raros e luminosos (cultismo).

Mas é a forma de sua linguagem barroca o maior triunfo de sua arte. Embora acabe se valendo de recursos cultistas, não investe exaustivamente no rebuscamento lingüístico. Sua intenção é seduzir o ouvinte pela construção intelectual, pelo uso das analogias, valorização do conteúdo. Este último seria a essência da significação do sermão que deveria ser construído com agudeza e engenho.

Alem das metáforas, outro recurso é a alegoria, ou seja, um tipo de representação figurativa que visa a transmitir um significado outro que o expresso no literal. Trata-se de uma figura retórica que se sustenta por mais tempo e de maneira mais completa do que os detalhes apresentados em uma metáfora. As parábolas utilizadas por Vieira se constituem em uma espécie de uma alegoria curta com uma moral definida. No Sermão da Sexagésima é uma constatne o uso de parábolas para fotalecer o argumento em defesa pelo pregador.

Vieira combina a metáfora assemelhada com a criação original, em maior profundidade, mais afeita ao conteúdo, ao realismo dogmático e eclesiástico, ao estado de convencimento das verdades oriundas do púlpito. (ARAÚJO)

Outro recurso muito utilizado é a repetição constante de idéias. É repetindo que se retoma o significado inicial em outro nível. Outras vezes, a repetição não reforça a proposição inicial, mas transforma o significado, favorecendo a ambigüidade de sentido. As repetições costumavam ser recorrentes e exaustivas. Por elas o ouvinte fixaria seu temor a Deus e obediência aos preceitos da Igreja.

Essa é propriamente uma tendência barroca cuja pintura e arquitetura apresentavam um estilo marcado por formas redondas, recorrentes, curvilíneas e reiterativas. Na literatura, a clareza das verdades do discurso ficava oculta nas excessivas reiterações. A circularidade favorecia manter atento o ouvinte, já que somente no final da peça oratória lhe era revelada a conclusão moral. Vieira tinha o cuidado constante de fechar todos os círculos e saídas para que seu ouvinte não conseguisse escapar ao aprofundamento espiritual que o conduzisse ao temor e amor a Deus, à obediência cega, à salvação do fogo dos infernos pelo alcance dos contrários do pecado (ARAÚJO, 2006).

Além da repetição fazia uso do paralelismo, uma forma de construção simétrica. O paralelismo em Vieira é imprescindível para realçar o pensamento, causando grande efeito semântico. Esse recurso impressiona o auditório, levando-o a pensar sua condição de cristão. Na citação abaixo é notável a repetição e o paralelismo concorrendo juntos. No caso do paralelismo ocorre uma apresentação de contrários (maus/bons). A antítese reforça a intenção de que o ouvinte deva ter seu foco na conversão dos maus ouvintes.

Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas secou-se: Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et natum fecit fructum centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos (VIEIRA, 1655).

Os recursos empregados por Vieira são úteis para a interpretação dos textos sagrados, a fim de persuadir e converter os ouvintes. Eles auxiliam na revelação da maestria com que o padre utilizava a língua para cativar sua audiência. Todos eles conjugados produzem uma interessante escrita literária sobre a qual se debruçam inúmeros teóricos que se deleitam com sua forma de compor a pregação.

 

CONCLUSÃO

O Sermão da Sexagésima é uma lição retórica para arte literária. A insistência de Vieira em catequizar pessoas ainda não convertidas no catolicismo se fará presente nesse Sermão que acabou se tornando um tratado da retórica. Como já mencionado, o padre não apenas ensinou como também construiu seu sermão seguindo todas as etapas que considerava fundamentais para um bom discurso retórico (definir a matéria, dividi-la, prová-la pela razão, apresentar argumentos e refutar os que fossem contrários, concluir).

Todas as etapas foram elaboradas com única finalidade de persuadir os ouvintes. Ainda seguindo Aristóteles, persuadir é o fim último da pregação. Isso só é possível se com ele se conjugam as intenções de instruir e deleitar. No entanto, pelo Sermão, Vieira ensina aos demais sermonistas a arte de pregar, isto é, como elaborar um sermão. Para ele os pregadores sempre deviam utilizar de recursos argumentativos que levassem os ouvintes ao agradável, mantendo-os atentos durante toda a pregação. E, se esses elementos fossem bem articulados, o sermonista atingiria o objetivo de persuadir o seu ouvinte.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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FILHO, Nelson Rodrigues. Padre Antônio Vieira: dizer é agir. In: Revista Semear. Cátedra Padre Antônio Vieira de Estudos Portugueses. Vol. 2.
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MOISÉS, Massaud. A Literatura portuguesa. São Paulo, Cultrix, s/d.

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SARAIVA, A.J. & LOPES, Oscar. História da literatura portuguesa. Porto, Porto, s/d.

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SILVA, Janice Theodoro de. A retórica do cativo: Padre Antônio Vieira e a Inquisição <

VIEIRA, Antonio. Sermão da Sexagésima. 1955.

 

© Karina de Freitas Silva Fernández 2008

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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