Sobre a crítica de Guimarães Rosa

Prof. Dr. João Roberto Maia

Universidade Federal do Rio de Janeiro
jrmcruz@uol.com.br


 

   
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Resumo: Este artigo expõe e comenta posições críticas acerca da obra de Guimarães Rosa, priorizando o debate sobre Grande sertão:veredas. Entre as vertentes interpretativas consideradas, o artigo encarece aquela que elucida a força que tem a obra rosiana para problematizar a experiência histórica brasileira.
Palavras-chave: Guimarães Rosa; Crítica; Grande sertão: veredas

 

A obra de um escritor de estatura de Guimarães Rosa suscita inescapavelmente pontos de vista muito divergentes entre os que encaram o desafio de estudá-la. Diante do cipoal de interpretações - trata-se de um dos autores brasileiros com maior bibliografia crítica - uma primeira dificuldade para os novos críticos é o de buscar um norte, uma posição para lidar com uma obra multifacetada, de múltiplas dimensões. É preciso, por exemplo, pensar o problema das relações entre regionalismo e universalismo, ou o problema, que deriva daquele, do modo como se equacionam o arcaico e o moderno nas narrativas rosianas. Estas são questões nucleares para as quais as respostas podem variar muito. As perspectivas mais destacadas na fortuna crítica do autor são, com freqüência, bem divergentes. Para que o debate possa ser esclarecido a contento, acho importante distinguir, entre as várias linhas de interpretação, as duas vertentes que mais têm polarizado. Caracterizarei sucintamente ambas e, como se verá, minha exposição seguirá decididamente a trilha de uma delas.

Inicialmente lembremos que a obra de Guimarães Rosa corresponde, segundo Antonio Candido ao que o crítico denominou como super-regionalismo (nome que advém de surrealismo ou super-realismo). Algumas de suas mais fortes características a singularizam na comparação com o realismo social das décadas de 30 e 40: elementos não-realistas, técnicas narrativas antinaturalistas, afastamento da concepção naturalista que se baseia na referência a uma visão empírica do mundo. Portanto, a relação com os elementos regionais e geográficos é diversificada: em Sagarana a transfiguração do local é de tal monta que é difícil identificar a região de Minas em que as histórias se passam; no Grande sertão: veredas é preciso cautela com a geografia, que pode estar submetida à representação mimética ou dela se afastar, isto é, a maioria das referências topográficas pode ser localizada na geografia real, mas há os topônimos fictícios. Sabemos que no romance o sertão tem fundamento geográfico e é também dimensão interior e simbólica: “Sertão é dentro da gente”, diz o protagonista. Por isso, podemos apreender uma pluralidade semântica da palavra “sertão” no livro (como realidade social, geográfica, política, como dimensão psicológica, ontológica etc.), conforme apontou Franklin de Oliveira. Em Rosa avultam os temas e significados universais a ponto de tornar viável a fórmula famosa de Candido: “o Sertão é o Mundo”. Esta fórmula foi muitas vezes mal entendida, porque nem sempre se deu a atenção necessária à argumentação integral do crítico em vários de seus textos. Numa passagem ele sublinha que nosso autor alcançou o universal “através da exploração exaustiva quase implacável de um particular”. Em outro passo, ao caracterizar o “princípio da reversibilidade” que rege a estrutura de Grande sertão, afirma que a geografia desliza para o simbólico e o mistério em razão daquele princípio, reconhecendo todavia a rigorosa precisão geográfica. Outro exemplo pode ser tirado da caracterização da condição do jagunço rosiano segundo Candido: um tipo desbastado de seus elementos contingentes, com envergadura universal, uma verdadeira “ontologia peculiar do jagunço”, que no entanto está firmada em fatores sociológicos muito vivos. Ou seja, sem prejuízo do alcance universal, a matéria de Rosa é o mundo rústico do sertão, não há como desvincular sua obra de certa matriz regional.

Um choque de posições críticas na recepção da obra de Guimarães Rosa, centrada principalmente no Grande sertão: veredas, é o que se manifesta entre as interpretações que privilegiam o misticismo e aquelas cujo foco está nos modos como o romance desvenda e problematiza a experiência histórica brasileira.

Recentemente, nos anos 90, as leituras esotérico-metafísicas ganharam força com os estudos de Kathrin Rosenfield (Descaminhos do demo), Francis Utéza (João Guimarães Rosa: metafísica do Grande sertão) e Heloísa Vilhena de Araújo (O roteiro de Deus. Dois estudos sobre Guimarães Rosa), que não formam um bloco unitário de interpretação mas têm como ponto comum a visão que descura da ou mesmo encobre a História. Diga-se que o próprio Rosa avalizou, em algumas declarações, a corrente de interpretação religiosa, espiritualista ou esotérica, a qual enfatiza verdades intemporais, “harmonias universais”, “viagens iniciáticas”, “fontes primordiais”, tomando o universo arcaico do sertão como lugar favorável à emergência do sagrado. Nessa perspectiva os sertanejos, ao portarem certos traços do homem primitivo, são alçados a arquétipos, encarnam a condição humana universal. Tudo isso tem afinidade com certo olhar que nosso autor lançou sobre a própria obra. Lembremos, por exemplo, que na conhecida entrevista ao seu crítico alemão Günter Lorenz ele afirma que, do ângulo metafísico, o sertão “é o terreno da eternidade”.

Nós que estudamos literatura sabemos que a intenção do autor pode ser levada em consideração sempre que possível, mas a atenção às mediações exigida pelo trabalho exegético recomenda que não façamos da perspectiva autoral a última instância analítica. Além disso, há muita ambigüidade e paradoxo nas declarações do grande escritor de Cordisburgo; a própria entrevista citada está eivada de opiniões que estão em conflito umas com as outras. Por outro lado, não me parece temerário imaginar que mesmo Rosa torceria o nariz para certas leituras que acomodam seu universo ficcional à idéia de uma harmonização progressiva, que estaria fundada na vitória final do Bem, entendido de acordo com a inspiração cristã. Nem é preciso demonstrar que esse unidirecionamento simplifica indevidamente. Lembro apenas, entre tantos outros exemplos possíveis, que em “A hora e a vez de Augusto Matraga” o principal meio utilizado pelo protagonista para fazer o bem e alcançar a salvação é o uso da violência - ele esfaqueia, mata - em flagrante insubordinação a valores judaico-cristãos. Aliás, a conversão de Matraga já foi lida como visão paródica das histórias de santos cristãos por Walnice Nogueira Galvão, num artigo que está no livro Mitológica rosiana. Assim, a noção de Bem é mais complexa do que pretendem aquelas leituras.

Por outro lado, parte da crítica de esquerda desmerece a obra rosiana. O ponto delicado para esta parcela da crítica está nos riscos da regressão mítica em Rosa, em função da qual o atraso não é compreendido contraditoriamente em relação ao moderno; em vez disso é elemento que tem acento positivo como remanescente arcaico. Tal diagnóstico, que se sustenta no amplo terreno encontrado pelas interpretações que excluem a História, é no entanto insuficiente. É preciso colocar no debate outros argumentos que contrariem as leituras esotéricas e não lhes deixem o campo livre, num âmbito de discussão fundamental em Guimarães Rosa, o das relações entre o arcaico e o moderno. É o que têm feito outros estudiosos interessados em pensar os modos pelos quais Grande sertão: veredas situa a experiência histórica do país. Anote-se que, em termos de tradição crítica, tais estudos trilham, sem prejuízo de suas diferenças, o caminho aberto por Antonio Candido e principalmente por Walnice Nogueira Galvão no seu importante livro As formas do falso. Nesta trilha, entre os trabalhos mais recentes a serem destacados estão os ensaios de Davi Arrigucci Jr., “O mundo misturado” e de José Antonio Pasta Jr., “O romance de Rosa”.

Para Arrigucci o sertão mineiro de Grande sertão, como parte que é da configuração histórica de nossa modernização periférica, está representado nas cifras do arcaico e do moderno, que se misturam. No esforço de decifrar a trajetória de Riobaldo, o crítico aproxima esta, com seu sentido de reconstrução e esclarecimento da experiência, da que é própria dos personagens do romance de formação, o Bildungsroman - forma literária erudita, prestigiosa, que no livro está mesclada a formas de narrativa tributárias da tradição oral, popular. E esta mescla tem afinidade com o processo histórico-social.

Não obstante a convergência quanto à visada que não descura da História e do debate histórico, a compreensão de Pasta Jr. tem diferenças centrais com a de Davi Arrigucci. Ao contrário da busca da inteligibilidade necessária à viabilização de um processo de esclarecimento, como quer Arrigucci a respeito de Riobaldo, Pasta Jr. ressalta no personagem-narrador o regime da contradição que não se resolve, “espécie de dialética negativa”, o que torna o livro frontalmente contrário ao romance de formação clássico. Como não pode conciliar as contradições de base que o constituem (indivíduo isolado e homem de fratria ou clã; livre e dependente; moderno e arcaico etc.), restam-lhe as contínuas metamorfoses, as reversibilidades recorrentes que o caracterizam e não excluem o retorno do mesmo, num movimento que o crítico denomina formação como supressão - Riobaldo se forma suprimindo-se. O outro passo do ensaio é o de articular este movimento contraditório que está na base de constituição do personagem às contradições do Brasil, país que proporciona trajetória de longo curso a formas de relações interpessoais e sociais que afirmam a autonomia do indivíduo e a negam pela imposição de um padrão de dependência pessoal direta.

Bem recentemente mais dois livros importantes sobre a ficção rosiana foram publicados, grandesertão.br de Willi Bolle e O Brasil de Rosa, cuja autoria é de Luiz Roncari. A afinidade dos dois estudos está no fato de que dão continuidade, a exemplo dos ensaios a que acabei de me referir, à trilha crítica aberta por Candido e Nogueira Galvão. O esforço de ambos é o de pensar o Grande sertão (no caso de Bolle) e os primeiros livros de Guimarães Rosa, de Sagarana até aquele romance (no caso de Roncari) como retrato do Brasil, sem reduções forçadas, dando conta do caráter multifacetado de narrativas que mobilizam oralidade popular, tradições regionais mineiras, modos de ver do capiau, mitologia grega, referências a Bíblia ou a Platão etc. Entretanto, os caminhos das análises são diversos, assim como as conclusões.

Seja como for, a boa compreensão dessa vertente interpretativa pode orientar outros trabalhos que ultrapassem ou problematizem certos modos de ver o mundo rosiano que não são exclusividade das abordagens espiritualistas. Nutridas da historicidade que dá suporte a tal vertente, novas leituras podem pôr em causa, entre outras coisas, o modo de encarar a atemporalidade do mito nas narrativas de Rosa ou a tendência para a afirmação última do estado harmônico, que seria visível, em alguns de seus contos, na transição de experiências extremas de destituição e abandono para outros momentos de consolação, sob o signo de forças compensatórias da imaginação e do sentimento. Não se trata de negar sempre o ponto de vista que encarece a atemporalidade mítica e a tendência à harmonia no universo ficcional de nosso autor, mas de confrontá-lo com outras visadas, nas quais o interesse se prende ao esforço de perscrutar, fora da ordem do mítico e do transcendente, elementos do processo histórico brasileiro. Ou, ainda, tomar em veia histórica signos, passagens e episódios tidos como sumamente míticos, ou seja, tratar de fazer com que tais elementos e cenas funcionem na ambiência da História, sem desconhecer o espaço da mitologia que lhes é próprio. Como se vê, segundo este último ponto de vista, estamos além da polarização entre abordagens míticas e históricas pela afirmação de um tipo de hermenêutica adotado por Willi Bolle e inspirado em Walter Benjamin, mas que tem uma diferença significativa com relação ao modelo: em vez de “dissolver”, como quer Benjamin, busca “analisar” “a ‘mitologia’ no espaço da História”.

Retomo, aprofundando observações anteriores, uma questão já referida como central em Guimarães Rosa. Tanto em interpretações do conjunto da obra quanto de suas partes, são recorrentes as referências a pares como modernidade - arcaísmo, ou soluções formais modernas - pensamento arcaico-popular. Para início de conversa, trata-se da combinação de registros tributários da oralidade popular e padrões próprios do repertório erudito, o que não é exclusividade de Rosa na literatura brasileira, mas ele é nessa matéria o nome principal entre nós. Um estudo sistemático poderia levantar a quantidade, certamente imensa, de referências a textos e autores clássicos em sua prosa de ficção, camufladas pela ou vertidas para a fala estilizada da arraia miúda sertaneja, iletrada ou semiletrada. Na mesma linha sua tremenda renovação da linguagem deve ao construtivismo da literatura moderna e àquela mesma fala. Tais procedimentos remetem à articulação problemática de localismo e cosmopolitismo, tão importante para entender o Brasil, bem como está em consonância com uma vertente temática que põe na pauta um problema substantivo de nossa estrutura social. Refiro-me a uma tensão muito presente na obra rosiana entre o arcaico e o moderno, o rural e o urbano, a cultura letrada e os modos de vida de capiaus, boiadeiros e outros.

Neste sentido, Sandra Guardini Vasconcelos, no artigo “Os mundos de Rosa”, lembra dos personagens Miguel e dona Lalinha, no conto “Buriti”, que levam para o sertão um modo de ver e pensar próprio do ambiente urbano, e de Manuelzão, de “Uma estória de amor”, cujo desejo pela “civilização” dá-se num contexto de mudanças que vão gradualmente transformando o mundo tradicional do sertão. No seu já citado livro, Willi Bolle assinala que na situação narrativa de Grande sertão o sertanejo Riobaldo é aquele que detém inteiramente a palavra, enquanto ao doutor da cidade cabe o papel de mero ouvinte. E acrescenta que com esse estratagema (que é exatamente o oposto da situação narrativa de Os sertões) Rosa lança luz sobre o desequilíbrio de falas entre as forças sociais. Lembremos ainda o personagem Zé Bebelo, que no discurso e na auto-imagem pretende ser um representante da modernidade, no contexto da República Velha em que a narrativa se insere. Ele quer ser um agente da ordem e do progresso no sertão e acaba tragado por este: põe jagunços a seu serviço para destruir a jagunçagem, assume a chefia do bando de jagunços que combatera e, alijado do comando, cabe-lhe contentar-se com a condição de negociante.

A ressaltar que em Guimarães Rosa a relação entre o arcaico e o moderno pode ser vista em vários momentos como contraditória, o que recompõe a articulação de valores, processos e modos de ser além da perspectiva dualista. Ou seja, na obra o atraso não é sempre remanescente arcaico positivado, à feição das leituras esotérico-metafísicas, mas pode ser compreendido dialeticamente, em sua efetividade no presente, como parte e corolário de nosso processo de modernização. Isso pode ser concretamente verificado, além do referido exemplo de Zé Bebelo, em contribuições substantivas de parte da crítica interessada em desvendar no romance de Rosa modos de problematizar aspectos da formação social e política brasileira. Entre tais contribuições, destaco as seguintes: o ponto de vista de que a jagunçagem não é apenas fenômeno regional, mas revela muito das estruturas do país inteiro, mantendo-se ao longo de seu processo de modernização, como demonstram vários historiadores e o mundo do romance sugere; o conflito de poderes entre a cidade e o sertão é relativizado e mesmo, em certo aspecto, desmistificado pelo romance, na medida em que vai revelando as articulações entre os mandões dos ermos e os centros de poder republicanos (num contraponto ao maniqueísmo euclidiano que opunha a rua do Ouvidor às caatingas); no sistema jagunço Lei e Crime dialogam e se embaralham (também em contraponto com a separação entre crime e “ação severa das leis” n’ Os Sertões), o que remete, em função das articulações referidas, à esfera das estruturas políticas no país.

Centrarei o foco, a partir de agora, em alguns aspectos de Grande sertão: veredas que considero centrais. Além dos de Antonio Candido e Walnice Nogueira Galvão, pontos de vista de Willi Bolle serão privilegiados, pois considero seu estudo o que mais avançou até agora na exploração das veredas rosianas. Na sua perspectiva, o livro recupera o sentido original do romance de formação concebido por Goethe: romance de formação enquanto romance social. Dentro dessa ótica, Grande sertão:veredas seria o romance de formação do Brasil, hipótese que me parece bem mais fecunda e pertinente que a de Arrigucci, que concebe aquela forma literária apenas no plano do indivíduo, como vimos. Trata-se de articular as divisões do ser de Riobaldo às divisões do ser da nação, o que permite identificar na trajetória do personagem fragmentos da história criptografada do Brasil, a ser organizada pela leitura. Além disso, este estudo considera o Grande sertão como uma reescrita crítica d’Os sertões, e toma-o como livro-síntese dos retratos do país, ao propor um diálogo entre o romance de Rosa e os maiores ensaios de formação do Brasil - o do próprio Euclides, de Sérgio Buarque, de Antonio Candido, de Raymundo Faoro, entre outros. Na base do amplo conjunto de reflexões, informações e correlações entre textos diversos que o livro de Bolle mobiliza está sua tese central, que aponta para um dos problemas brasileiros de maior monta: o enorme distanciamento entre a classe dominante e os pobres, isto é, a atitude descomprometida de nossas elites em relação ao projeto de construir efetivamente uma nação.

No texto “Grande sertão e Dr. Faustus”, Roberto Schwarz apontou com argúcia que, a exemplo do Doutor Fausto de Thomas Mann e sem prejuízo das diferenças, o mito do pacto com o demônio no Grande sertão é tratado de modo a proporcionar um entendimento racional dos acontecimentos. Por outro lado, em perspectiva diversa a que tem sido privilegiada aqui e baseada numa leitura unilateral da fórmula “O sertão é o mundo” de Antonio Candido, afirma que no livro de Rosa “a História quase não tem lugar”. Por tudo o que já foi exposto, parece-me bem mais fecunda a compreensão de Walnice Galvão, segundo a qual o escritor mineiro dissimula habilmente a História para melhor desvendá-la. Se não há datas explícitas na narrativa, há discretos subsídios que permitem situar os episódios narrados no contexto da República Velha. E já vimos algumas das implicações, no romance, de questões sociais e políticas fundadas naquele período. Na síntese final veremos como o finca-pé no solo da interpretação histórica é importante para o ajuizamento da relação de Riobaldo com os outros jagunços, da transformação do protagonista após o pacto e do próprio pacto.

A tradição crítica fixou elementos característicos da figura do jagunço de Grande sertão que são hoje incontornáveis. A começar por sua situação à parte em relação ao criminoso comum. Ele não é assassino qualquer ou simples salteador, mas sim homem de guerra, com lealdades a manter e honras a defender. Sua condição, que é do sertanejo pobre, é marcada também pela ambigüidade, caracterizando-se pela liberdade e sujeição. Aliás, a ambigüidade já foi ressaltada como verdadeiro princípio organizador do romance. É verdade que existe, na condição de chefe e proprietário rico, aquele que assume inteiramente a condição de jagunço, é jagunço-jagunço, sem ambigüidade e transcendência, o Hermógenes. Mas ele é exceção, e representa, acima de todos, a prática do mal. O próprio protagonista foi visto como fundamentalmente ambíguo: originário da plebe rural e filho de fazendeiro, livre e dependente como outros sertanejos, iletrado ou quase iletrado diante do interlocutor da cidade e, por outro lado, portador das luzes do saber no meio da jagunçada. Derivadas de sua identidade dúplice (a de menino e homem guerreiro, ao longo de quase toda a narrativa, e a de mulher no final), bem como dos pólos entre os quais oscila a construção do personagem (vigor viril e feminilidade) em Diadorim as ambigüidades sobrelevam-se. Diga-se de passagem, que se trata de personagem difícil, identificada por alguns estudiosos, entre muitas outras perspectivas, como a encarnação do tópos literário da donzela guerreira.

A meu ver o problema dessa postura que encarece a ambigüidade, tornando-a princípio que organiza o livro, está no confinamento à esfera do ambíguo. A passagem dessa esfera à da contradição é descartada, porquanto haveria apenas oscilação entre dimensões diversas e não tensões (ponto de vista de Walnice Galvão). O estudo cuidadoso do protagonista-narrador e de Diadorim, porém, pode revelar, sim, contradições importantes, que têm permitido inclusive relacioná-las às do próprio país, como já ficou registrado a respeito de Riobaldo.

Outro ponto destacado é o de certa identificação do mundo jagunço no romance com o imaginário da Cavalaria, principalmente em termos de apreço por uma norma fundamental da conduta do cavaleiro: a lealdade. Trata-se de um elemento de idealização no livro, um contraponto à brutalidade extrema que se revela.

Por fim, bem fincada no imenso desamparo do sertão, a duríssima situação de despossuído do jagunço, sublinhada por alguns estudos e por vários momentos da narrativa: o jagunço “homem muito provisório”, “sem pertencências”. Há no Grande sertão um enfoque da plebe rural em registro alto e único em nossa literatura. E a situação de pobreza é o que mais interessa nesse leque de caracterizações relativo ao homem de guerra sertanejo.

O episódio do pacto com o Diabo está fundamentalmente vinculado à mudança do protagonista e sua libertação do círculo miserável da vida jagunça, isto é, ao propósito e à realização da ascensão social. Estamos aqui no ponto central da tese de Willi Bolle, segundo a qual o romance situa muito criticamente a iniqüidade de classe brasileira. Para encerrar, farei sumariamente a exposição dessa tese.

A tomada de consciência de Riobaldo quanto à sua verdadeira posição social e a de seus companheiros de armas dá-se após a experiência do bando no lugarejo assolado pela epidemia da bexiga negra e, principalmente, em razão do olhar de cobiça do fazendeiro daquelas bandas, o “seô” Habão, nos jagunços, com o propósito de torná-los mão-de-obra miserável. Riobaldo percebe bem que, a continuar nessa condição, seu futuro seria o de agregado nas terras de um rico, na melhor das hipóteses, e nunca teria o “range-rede” da aposentadoria confortável. Após tais cogitações, decide selar o pacto. É o meio mágico do entendimento com o Tinhoso que o enche de força e auto-confiança para assumir a chefia do bando, vencer a guerra, ganhar respeitabilidade e legitimidade, ao realizar o que sempre fora o sonho de Selorico Mendes, e assim entrar na posse da herança deste (seu padrinho e, na verdade, pai). O protagonista torna-se latifundiário, fazendo de muitos de seus ex-companheiros de armas agregados.

Valendo-se da teoria política de Rousseau acerca da propriedade como fundamento da sociedade civil - que dá origem à assimetria social entre os homens - e da instauração do primeiro contrato social que constitui a base legal da desigualdade de bens, Bolle sintetiza sua interpretação da cena do trato com o Diabo, em termos histórico-político-sociais, como uma alegoria da lei fundadora da sociedade, ou, em outros termos, como alegoria do falso contrato social. Baseando-se nas atitudes, conquistas de Riobaldo já tonificado pelo Capeta, na sua ulterior condição de proprietário cioso de suas propriedades (nas quais se incluem as gentes), e sublinhando uma fala do personagem que alude ao trato de iguais com iguais (entre os jagunços), mas no qual quem dá as ordens é ele, Riobaldo, o crítico define o episódio do pacto, em última instância, como a alegoria da formação política e social brasileira, com todo o peso histórico de suas relações senhoriais.

Digo que tenho algumas dúvidas e que essa tese talvez mereça alguns reparos pontuais. Entretanto, se o crítico estiver certo nos aspectos fundamentais de sua exegese (e, a meu ver, está) o ganho elucidativo na comparação com todo o restante da fortuna crítica de Rosa é notável (reconhecendo, como o próprio Bolle assinala reiteradamente, a dívida que tem com os estudos de Antonio Candido e Walnice Galvão, sobretudo). A interpretação empalidece as abordagens esotéricas ou afins que privilegiam no pacto um vago “renascimento do herói”. E complementa a leitura do rito iniciático e da mudança do ser operada no protagonista, lançando luz sobre seu caráter alegórico, bem fincado em chão histórico.

Encerro de uma maneira que talvez agradasse Rosa, contando um “causo” que não se passou nos cafundós, mas em esferas altas da cultura erudita. No livro Cifras do tempo, o crítico português Óscar Lopes contou que, na sessão plenária de um prêmio literário internacional na França, no ano de 1965, ele e o também português Mário Dionísio defenderam a candidatura do Grande sertão e foram prontamente contestados pelo porta-voz do grupo francês, sob a alegação de que um romance inspirado numa sociedade arcaica, condigna das epopéias bárbaras, nada poderia acrescentar a uma sociedade moderna ocidental e estaria aquém, como produto cultural da América Latina, da densidade estética de um bom texto europeu. A cegueira em questão dispensa comentários. Para nossa sorte, tantos estudos inteligentes sobre esse livro e sobre toda a obra rosiana tornam a opinião do francês apenas um pitoresco e anedótico exemplo de eurocentrismo.

 

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Notas:

[1] CANDIDO (1989, pp. 161-162).

[2] Idem (2000, p. 122).

[3] Idem (1995, p. 162).

[4] Ibidem (p. 174)

[5] LORENZ (1983, p. 86).

[6] BOLLE (2004, p. 26).

[7] SCHWARZ (1981, p. 50).

 

© João Roberto Maia 2007

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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