Representações do colonizador no sistema literário brasileiro*

Alice Áurea Penteado Martha**

Universidade Estadual de Maringá


 

   
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Resumen: Este trabalho pretende observar os modos de representação do colonizador português na produção literária brasileira. Embora as razões da recorrência de imagens de Portugal sejam óbvias na cultura de um país por ele colonizado, é importante considerarmos, em diferentes momentos da produção literária, não só o processo de construção de personagens e a presença de valores portugueses em romances, novelas, contos e poemas, mas, ainda, o teor metafórico e simbólico de tais representações.
Palabras clave: literatura brasilena, representaciones, colonización

 

Este trabalho pretende observar os modos de representação do colonizador português na produção literária brasileira. Embora as razões da recorrência de imagens de Portugal sejam óbvias na cultura de um país por ele colonizado, é importante considerarmos, em diferentes momentos da produção literária, não só o processo de construção de personagens e a presença de valores portugueses em romances, novelas, contos e poemas, mas, ainda, o teor metafórico e simbólico de tais representações. O exame da tessitura das imagens é feito em obras representativas do sistema literário brasileiro, denominação cunhada por Antonio Candido (Candido, 1959, p.18) para nomear o sistema articulado (autor, público e tradição), que se estruturou, segundo o crítico, a partir de meados do século XVIII, em seus momentos de formação e consolidação, etapas que são antecedidas por manifestações literárias. Essa organização, apenas anunciada em sua Formação da Literatura Brasileira, vai se consolidando em textos posteriores, até mostrar-se, clara e didaticamente, em Iniciação à Literatura Brasileira. (Resumo para principiantes), publicada em 1997:

De que maneira ocorreu este processo, que não é necessariamente um progresso do ponto de vista estético, mas o é certamente do ponto de vista histórico? Poderíamos talvez esquematiza-lo, distinguindo na literatura brasileira três etapas: (1) a era das manifestações literárias, que vai do século XVI ao meio do século XVIII; (2) a era de configuração do sistema literário, do meio do século XVIII à segunda metade do século XIX; a era do sistema literário consolidado, da segunda metade do século XIX aos nossos dias. (CANDIDO, 1997, p.12-13. Grifos do autor)

Entretanto, o estudo dos textos de Candido permite que, às fases por ele nomeadas, acrescentemos uma terceira, a de culminância do sistema literário, como podemos ler no final do texto anteriormente citado:

Com Guimarães Rosa o processo que estamos analisando na literatura brasileira chega a um ponto culminante, porque o assunto perde a soberania e parece produto da escrita, tornando caducas as discussões sobre os critérios nacionalistas tradicionais. Com efeito, ele parece dizer que a presença mimética da terra e do homem deve ser dissolvida na autonomia relativa do discurso para chegar à categoria da universalidade. (IDEM, idem, p.96)

Como a sedimentação da vida cultural e espiritual brasileira tem por base o que Candido chama (1976, p.109) de dialética do localismo e do cosmopolitismo, ora há, no curso das criações literárias do país, a excessiva preocupação nacionalista e as imagens são predominantemente valorizadoras dos elementos autóctones, ora há o desejo de afirmação da origem européia como valor determinante. Um dos traços dessa dialética, segundo ainda o crítico, é o diálogo com Portugal, aspecto que nos direciona neste trabalho:

Na lenta maturação da nossa personalidade nacional, a princípio não nos destacávamos espiritualmente de nossos pais portugueses. Mas, à medida que fomos tomando consciência da nossa diversidade, a eles nos opusemos, num esforço de auto-afirmação, enquanto, do seu lado, eles nos opunham certos excessos de autoridade ou desprezo, como quem sofre ressentimento ao ver afirmar-se com autonomia um fruto seu. (CANDIDO, 1976, p.110)

Para compreender a importância e os modos de manifestação desse diálogo na formação do sistema literário brasileiro, é importante que façamos distinção entre manifestação literária e literatura propriamente dita, entendida como sistema de obras, ligadas por certos fatores comuns que permitem reconhecer os traços dominantes em cada fase, ou seja, as características internas (língua, temas, imagens), alguns elementos de natureza social e psíquica que, ao se organizarem literariamente, manifestam-se historicamente e transformam a literatura, concedendo-lhe aspecto orgânico. Os elementos configuradores do sistema literário, apontados como o conjunto “autor, obra e público”, dão lugar a um tipo de comunicação, a literatura, que surge como sistema simbólico. Quando a atividade dos escritores de um determinado período se integra ao sistema, ocorre outro fator decisivo: a formação da continuidade literária, da tradição, ou seja, a transmissão de algo entre os homens, formando padrões que se impõem ao pensamento ou ao comportamento. Sem a tradição não há literatura como fenômeno da civilização.

Essa organização que culmina com a tradição não é encontrada em fases iniciais de uma dada cultura, em razão da imaturidade do meio, que dificulta a formação de grupos, a elaboração de uma linguagem própria e o interesse pelas obras. Entretanto, tais fatos não impedem o surgimento de obras de valor - seja por inspiração individual, seja pela influência de outras literaturas. Não representam, porém, um sistema, coerente e organizado, em que autor, obra e público, integrados, buscam a tradição literária.

Cronologicamente, as manifestações literárias ocorrem no Brasil, entre 1500 e 1750, no chamado período formativo inicial, que vai das origens, no século XVI, com os autos e cantos de Anchieta, às Academias do século XVIII, passando pela produção barroca. Congregavam, principalmente, escritores de diretriz conceptista ou cultista, presentes na Bahia, revelando, inclusive, que os homens que aqui escreviam eram ou formados em Portugal ou formados à portuguesa, uma vez que eram iniciados em recursos expressivos conforme os usos da metrópole. A produção, nessa etapa, se mostrou pequena, resultando da atividade quase marginal de escritores esparsos. Como não possuíam papel social definido, podendo ser também sacerdotes, juristas ou administradores, a difusão de suas obras efetuava-se de modo precário, com intenções imediatistas. As produções confundiam-se com a atividade prática dos autores: sermões, relatórios, polêmicas.

No que se refere ao consumo, ou à circulação das obras, a precariedade do processo pode ser explicada pelo fato de que apenas os pequenos grupos letrados, presentes aos serviços religiosos, aos saraus literários ou às sessões jurídicas, poderiam ter acesso a essa produção. Mesmo as obras exclusivamente escritas não se afastavam das intenções pragmáticas, pois se caracterizavam como crônicas de viagem, literatura de informação ou divulgação. Concorre também para limitar a difusão das obras o fato de que elas eram editadas em Portugal, o que dificultava sobremaneira sua circulação entre leitores pouco privilegiados que formavam o público na Colônia.

Candido enfatiza, ainda, que tais manifestações literárias se realizavam sob o signo da religião e da transfiguração. No caso da religião, grande diretriz ideológica que justificava a conquista, a catequese e a defesa do território nacional, os principais divulgadores foram José de Anchieta, com seus autos e cantos, e Vieira, com a oratória sacra. Gregório de Matos, por sua vez, o profano que falava da religião pelo pecado, pelo sarcasmo, buscava guia e lenitivo nela. Suas poesias religiosas (sacras) são as de expressão mais valiosa. No que se refere à transfiguração, resultado do espanto do produtor frente às novidades da terra, o recurso para expressar semelhante sentimento é a hipérbole. Assim, por quase dois séculos, segundo Candido, estendeu-se sobre o Brasil um manto que transfigurou a realidade, ampliando-a, suprimindo elementos, torcendo-a e requintando-a. É a chamada visão transfiguradora que se fixa na apoteose da realidade e no destino do europeu. Sob essa visão, o homem que se dispusesse a enfrentar os perigos e grandiosidades da nova terra seria visto como o pecador resgatado pela conquista e premiado com os bens terrenos ou redimido por uma morte justa.

Interessante ressaltarmos, nesse momento, o discurso dissonante de Gregório de Matos Guerra, produzindo com sua poesia satírica uma representação crítica do elemento luso e de sua política de colonização, apesar de sua formação eminentemente portuguesa, uma vez que viveu 33 anos de sua existência na metrópole. Em um longo poema, possivelmente denominado Romance, o poeta aponta o caráter aventureiro da colonização portuguesa:

Sai um pobrete de Cristo
De Portugal, ou do Algarve
Cheio de drogas alheias
Para daí tirar gages:
O tal foi sota-tendeiro
De um cristão-novo em tal parte,
Que por aqueles serviços
O despachou a embarcar-se.
[...]
Salta em terra, toma casas,
Arma a botica dos trastes,
Em casa come Baleia,
Na rua entoja manjares.
Vendendo gato por lebre,
Antes que quatro anos passem,
já tem mil cruzados,
segundo afirmam Pasguates
.

Mas o Boca de brasas não devasta apenas a imagem do cidadão português que chega à Colônia em busca da fortuna apregoada pelos documentos da época; constrói imagens terríveis também da administração, que via a Colônia como um simples celeiro, em sintonia com a mentalidade mercantilista predominante, como podemos nos versos em décimas:

Se dizem que o Marinheiro
Nos precede a toda a Lei,
Porque é serviço d’El-Rei,
Concedo, que está primeiro:
Mas tenho por mais inteiro
O conselho, que reparte
Com igual mão, igual arte
Por todos, jantar, e ceia:
Mas frota com tripa cheia,
E povo com pança oca!
Ponto em boca.

As imagens negativas do elemento luso confirmam, entretanto, a noção de que não havia ainda um sistema literário no Brasil que permitisse a circulação das obras. Caso houvesse, certamente, Gregório de Matos Guerra teria sofrido sérias sanções. Na verdade, seus escritos permaneceram inéditos por todo o século XVIII, vez que apenas em 1831 alguns de seus poemas foram publicados, no Parnaso Brasileiro, de Januário da Cunha Barbosa (Ver O boca de brasa, p.54). É importante observarmos, ainda, que a visão ferina do poeta não atingia apenas o reinol, mas, igualmente o brasileiro, o negro e o mestiço.

 

Sistema literário: formação, consolidação e culminância

Cronologicamente, segundo as concepções de Candido, a formação do sistema literário brasileiro, entendida como definição e continuidade ininterrupta de obras e autores, com um público que passa de precário a cativo, ocorre a partir de meados do século XVIII, adquirindo plena nitidez na primeira metade do século XIX. Embora reconhecendo a importância e o valor dos escritores do período anterior, é com as produções dos árcades mineiros, das últimas Academias, dos Seletos e dos Renascidos, que se formam os conjuntos orgânicos, manifestadores da vontade de fazer literatura brasileira. Marcadamente local, o espaço por onde circula essa literatura é mineiro, carioca ou paulista, com visão marcadamente interna em busca da fidelidade ao real. Nesse momento, o Marquês de Pombal é a grande figura lusa representada na literatura brasileira. Sua imagem é veiculada, principalmente, no poema Uraguai (1769), de José Basílio da Gama e no poema herói-cômico, O desertor (1774), de Manuel Inácio da Silva Alvarenga. Basílio da Gama ataca claramente as obras dos jesuítas, posicionando-se favoravelmente às idéias do Marquês de Pombal, que o havia livrado de problemas com a justiça, graças ao poema feito para o casamento da filha da autoridade portuguesa. A celebração do herói Gomes Freire de Andrada, que venceu a luta no Uruguai, não passa, entretanto, de um pretexto para o poeta denegrir o trabalho jesuíta, favorecendo e exaltando a ideologia pombalina. Na abertura do poema, em versos decassílabos brancos, Basílio da Gama invoca a musa em prol do herói e dedica o poema ao irmão do Marquês, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, ex-governador do Maranhão:

MUSA, honremos o Herói que o povo rude
Subjugou do Uraguai, e no seu sangue
Dos decretos reais lavou a afronta.
Ai tanto custas, ambição do império!
E vós, por quem o Maranhão pendura
Rotas cadeias e grilhões pesados,
Herói e irmão de heróis, saudosa e triste
Se ao longe a vossa América vos lembra,
Protegei os meus versos.
[...]

Além da referência aos heróis e do elogio explícito às idéias de Pombal, o homem luso, mostrado nas cenas coletivas do poema, é marcado pelo tom grandioso, o que pode ser visto como forma de demonstração de confiança na obra civilizadora da metrópole:

Com grandes passos, firme a testa e os olhos,
Vão marchando os mitrados Granadeiros.
[...]
Toda essa guerreira Infantaria,
A flor da mocidade e da nobreza,
Como ele, azul e branco e ouro vestem.
[...]
                        [...]. Este o primeiro
Ensinou entre nós por que caminhos
Se eleva aos céus a curva e grave bomba
Prenhe de fogo
.

Por outro lado, o poema de Santa Rita Durão, Caramuru, cuja ação é o descobrimento da Bahia, por Diogo Álvares Correia, em meados do século XVI, revela uma estrutura nitidamente camoniana, com forte predomínio do pensamento jesuítico e conseqüente oposição à ideologia pombalina. Interessado em louvar a empresa religiosa da colonização, o poeta privilegia tanto a catequese quanto o processo colonizador, transformando o herói em uma síntese de missionário e de colono português. A preocupação em exaltar os feitos lusos, propiciando a formação de imagens majestosas da atuação de Diogo Álvares Correia, é inversa quando se trata de construir a imagem do índio, visto como objeto do colonizador e que, qual pêndulo, oscila numa atuação grotesca, ora caracterizado como fera brutal e antropófaga, ora como exemplo edificante de aceitação dos valores pregados pelos jesuítas.

Ainda no período considerado como de formação do sistema literário brasileiro, situa-se o movimento romântico, caracterizado, sobretudo, pela coincidência dos ideais de liberdade, tanto no que se refere à estética quanto no que diz respeito aos desejos de consolidação da libertação política, ocorrida em 1922, com a Proclamação da Independência e a conseqüente busca de definição da nacionalidade. Entretanto, não podemos pensar o período sem refletir sobre a chamada dialética do cosmopolitismo e do localismo que, no que se refere ao Romantismo, caracterizou-se pelo equilíbrio entre as duas tendências, que se materializou, por um lado, pela valorização dos elementos locais, entendidos como substância da arte e, por outro, pela manutenção de códigos oriundos da tradição européia, ou pela forma de expressão. Por essa razão, não podemos simplesmente afirmar que o Romantismo foi, no Brasil, um período de repúdio às influências européias e, naturalmente, portuguesas.

Embora o período represente a fase culminante da afirmação da independência política e do nacionalismo literário, as imagens de Portugal, presentes nas principais obras românticas brasileiras, parecem indicar que a rebeldia não se manifestava tão profundamente, ou, ainda, que transparecia apenas nos programas do movimento, nos manifestos, especialmente porque a nação deixara de pertencer, politicamente, a Portugal, mas seu Imperador e a nobreza do reino guardavam íntimas relações com a antiga metrópole. E o brasileiro, orgulhoso pela posse da terra, desejava uma ascendência reconhecida universalmente. Como a árvore genealógica da nação brasileira possuía troncos frondosos na tradicional casa lusitana, a definição da nacionalidade não podia descartar o reconhecimento e a valorização de sua origem portuguesa. Se forem observadas algumas das mais representativas obras do período, apesar do elogio ao índio como elemento representativo da brasilidade, a imagem do português é sempre grandiosa, nobre, benemérita e responsável pelas grandes conquistas da Colônia. É o caso, por exemplo, de D. Antônio de Mariz, em O guarani (1857), de José de Alencar, que se revela figura de prestígio e poder, embora não tenha o estatuto de personagem principal na trama narrativa. Na longa apresentação da personagem, sua participação nos acontecimentos históricos da colonização é enfatizada:

A habitação que descrevemos pertencia a D. Antônio de Mariz, fidalgo português de cota d’armas e um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro.

Era dos cavaleiros que mais se haviam distinguido nas guerras da conquista contra a invasão dos franceses e os ataques dos selvagens.

Em 1567 acompanhou Mem de Sá ao Rio de Janeiro e, depois da vitória alcançada pelos portugueses, auxiliou o governador nos trabalhos da fundação da cidade e consolidação do domínio de Portugal nessa capitania.

Fez parte em 1578 da célebre expedição do Dr. Antônio de Salema contra os franceses, que haviam estabelecido uma feitoria em Cabo Frio para fazerem o contrabando de pau-brasil.

[...]

Homem de valor, experimentado na guerra, ativo, afeito a combater os índios, prestou grandes serviços nas descobertas e explorações do interior de Minas e Espírito Santo. Em recompensa do seu merecimento, o governador Mem de Sá lhe havia dado uma sesmaria de uma légua com fundo sobre o sertão, a qual depois de haver explorado deixou por muito tempo devoluta.

A derrota de Alcacerquibir e o domínio espanhol que se lhe seguiu, vieram modificar a vida de D. Antônio de Mariz.

Português de antiga têmpera, fidalgo leal, entendia que estava preso ao rei de Portugal pelo juramento da nobreza, e que só a ele devia preito e menagem. Quando, pois, em 1582, foi aclamado no Brasil D. Felipe II como o sucessor da monarquia portuguesa, o velho fidalgo embainhou a espada e retirou-se do serviço. (Alencar, 1962, p.15)

A voz narrativa, com a prerrogativa de quem possui o direito ao comentário esclarecedor, elabora de modo positivo o retrato do velho fidalgo. Aos olhos do narrador, o português, representado pela figura de D. Antônio de Mariz, cumpriu uma nobre função na Colônia, foi ativo no processo de formação da nacionalidade brasileira e, por isso, merece todo o seu respeito. Ao narrar a visão que Peri, símbolo da gênese da brasilidade, formula sobre D. Antônio de Mariz, o narrador também enfatiza a admiração e o respeito, sentimentos condizentes com a grandiosidade da figura do fidalgo: viu a bela cabeça e nobre cabeça do velho fidalgo rolar mutilada com os alvos cabelos tintos de sangue (Alencar, 1962, p. 269).

Embora anterior às obras mencionadas de José de Alencar, Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, publicado em folhetins no suplemento literário, A pacotilha, em 1853, apresenta uma visão picaresca das personagens de origem portuguesa, que transitam pelo Rio de Janeiro à época da transferência da corte de D. João VI para o Brasil. Na verdade, essa visão quase caricatural das situações narrativas, incluindo a participação do elemento luso, antecipa a crítica sociológica tão a gosto do Realismo. O episódio bastante conhecido da gênese do herói, nascido de uma pisadela e de um beliscão, indica um modo diferenciado de ver o português e, sobretudo, a presença de um elemento novo na literatura, o representante do povo. Até então, apenas nobres e heróis haviam sido imortalizados nas letras brasileiras. Com Manuel Antônio de Almeida, o elemento oriundo das baixas camadas sociais, o pobre, começa a ser representado, ainda que de modo grotesco:

Sua história [de Leonardo Pataca] tem pouca cousa de notável. Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o que, uma certa Maria-da-Hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitona. [...] Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra; levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos. (Almeida, 1976, p.10)

A segunda etapa do sistema, denominada consolidação, é delimitada pelas datas 1880 e 1945. Essa fase, segundo Candido, estende-se por um período rico e diversificado, o primeiro na literatura brasileira a apresentar um panorama completo da vida literária com todos os gêneros modernos; corresponde à maturação da nacionalidade e o espaço por onde circula a produção literária é nacional e a visão predominante é, primeiramente interna, passando, aos poucos, a externa. Historicamente, o país passa de Império à República e esta pode ser dividida em dois momentos: a República Velha (1894 a 1930) e a República Nova, instaurada com a revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas que, a partir de 1937, institui o Estado Novo (1937 a 1945), dissolve a Câmara e o Senado, concedendo-se poderes absolutos.

Periodizando-a, corresponde, literariamente, à fase Pós-romântica (1881 a 1922) e ao Modernismo, em suas duas primeiras etapas: à chamada fase heróica do movimento (1922-1930) e à maturidade, conhecida como “geração de 30” (1930 a 1945). O período Pós-romântico, que compreende os movimentos denominados Realismo, Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo, inicia-se com a publicação de O mulato, de Aluísio de Azevedo e de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, ambos de 1881; em 1882, Teófilo Dias publica Fanfarras, iniciando o Parnasianismo; em 1893, Cruz e Sousa dá a conhecer Missal e Broquéis, inaugurando o Simbolismo. No período de 1900 a 1922, a produção literária configura-se, segundo Candido (1976), como literatura de permanência, acomodada e mais preocupada em imitar modelos anteriores, como Machado, Aluísio de Azevedo e outros, do que, efetivamente, criar uma literatura nova. O Modernismo tem como marco inaugural um acontecimento cultural, em 1922, a realização da Semana de Arte Moderna em São Paulo e, com a proposta de romper com a literatura de cunho acadêmico, propõe um novo modo de produção na dialética do universal e do particular que rege a produção literária e cultural do país: ao lado de uma temática essencialmente nacional, questionadora dos destinos do homem brasileiro, sobretudo, os modernistas procuraram se valer de modos de expressão de herança européia:

Os nossos modernistas se informaram, pois, rapidamente da arte européia de vanguarda, aprenderam a psicanálise e plasmaram um tipo ao mesmo tempo local e universal de expressão, reencontrando a influência européia por um mergulho no detalhe brasileiro. (Candido, 1976, p.121)

Entretanto, se, com o advento do Modernismo, o diálogo com Portugal se define pelo que Candido denomina de dialética do geral e do particular, caracterizando-se por atitudes menos conflitantes, nem toda fase de consolidação pode ser vista dessa maneira. Em algumas obras do período Pós-romântico é possível encontrar imagens depreciativas dos elementos lusos. Em O mulato, de 1881, Aluísio de Azevedo revela duas faces da mesma moeda, na caracterização das personagens portuguesas; de um lado, o vendeiro Manuel Pescada que, com algum estudo, tem toda consideração do narrador; de outro, o genro Luís Dias e a sogra Maria Bárbara que, apesar de brasileira de nascimento, é portuguesa por opção. Se as personagens possuem dois lados, o maniqueísmo da caracterização delas, positiva ou negativa, invalida a humanização, tornando-as simples tipos para a comprovação da tese da narrativa. Manuel Pescada, focalizado sempre como bondoso, ingênuo e bem intencionado, deixa-se levar por suas ambições, exclusivamente materiais:

Manuel Pedro da Silva, mais conhecido por Manuel Pescada, era um português de uns cinqüenta anos, forte, vermelho e trabalhador. Diziam-no atilado para o comércio e amigo do Brasil. Gostava da sua leitura nas horas de descanso, assinava respeitosamente os jornais sérios da província e recebia alguns de Lisboa. Em pequeno meteram-lhe na cabeça vários trechos do Camões e não lhe esconderam de todo o nome de outros poetas. Prezava com fanatismo o Marquês de Pombal, de quem sabia muitas anedotas, e tinha uma assinatura no Gabinete Português, a qual lhe aproveitava menos a ele do que à filha, que era perdida pelo romance. (Azevedo, p.1971, p.36)

Luís Dias, o empregado passivo e submisso como um boi de carga, submete-se a tudo para garantir o casamento com a filha do patrão. Ao construí-lo, física e moralmente, o narrador não deixa dúvidas no espírito do leitor quanto à repugnância de sua figura:

O Dias, que completava o pessoal da casa de Manuel Pescada, era um tipo fechado como um ovo, um ovo choco que mal denuncia na casca a podridão interior. Todavia, nas cores biliosas do rosto, no desprezo do próprio corpo, na taciturnidade paciente daquela exagerada economia, adivinhava-lhe-se uma idéia fixa, um alvo para o qual caminhava o acrobata, sem o olhar dos lados, preocupado, nem que se equilibrasse sobre uma corda tesa. Não desdenhava qualquer meio para chegar mais depressa aos fins, aceitava, sem examinar, qualquer caminho, desde que lhe parecesse mais curto; tudo servia, tudo era bom, contanto que o levasse mais rapidamente ao ponto desejado. Lama ou brasa - havia de passar por cima; havia de chegar ao alvo - enriquecer. (Azevedo, 1971, p.56)

Em O cortiço, publicado em 1890, a imagem do português que veio ao Brasil para enriquecer, extrair tudo o que fosse possível da terra e do homem, intensifica-se, especialmente, com as figuras de João Romão, o vendeiro, de Miranda, o comerciante enriquecido e de Jerônimo, o reinol que se deixou enfeitiçar pela mulata Rita Baiana. Uma das justificativas para essas representações pejorativas pode ser a condição política do país, agora sob regime republicano. Parece muito evidente a intenção do narrador em criticar a exploração praticada pelo elemento até então dominador, o português, que acumula bens, a custo da exploração brutal do trabalho do elemento da terra, tanto o mulato quanto o negro. Ao contrário das personagens lusas românticas de Alencar, como D. Antônio de Mariz e Diogo Álvares Correia, o Caramuru, nobres e descompromissadas com o trabalho físico, as figuras de Aluísio de Azevedo revelam parentesco com as de Manuel Antônio de Almeida, pelo grotesco de sua caracterização popular.

Entretanto, as imagens veiculadas pela narrativa de Aluísio não provocam o riso, o deboche irreverente de Memórias de um sargento de milícias; em O cortiço, há uma evidente intenção do narrador no processo de animalização do português, não por sentimento mais nobre de reconhecimento de injustiça social, mas pela presença mais nítida do nacionalismo xenófobo. São três as personagens construídas a partir dessa visão: o português já economicamente realizado, Miranda; o português em processo de enriquecimento, João Romão; o português dominado pelo meio e pela raça, Jerônimo e que, por isso, jamais terá sucesso. As duas primeiras revelam uma exasperação dos elementos negativos, anteriormente apontados em Luís Dias, personagem de O mulato; já, com a figura de Jerônimo, o narrador defende a tese determinista da influência decisiva do meio tropical sobre os sentidos do europeu, no caso, o português dominador. Onisciente, o narrador invade a consciência de Pilar, a esposa abandonada pelo português, para, a partir da visão dela, que estabelece uma comparação entre o comportamento de Jerônimo “lá”, em Portugal, país de terras frias e as atitudes dele, no Brasil, país de campos escaldantes, aludir claramente à influência do meio tropical sobre o homem, transformando-o:

E [Pilar] maldizia soluçando a hora em que saíra da sua terra; essa boa terra cansada, velha como que enferma; essa boa terra tranqüila, sem sobressaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os campos eram frios e melancólicos, de um verde alourado e quieto, e não ardentes e esmeraldinos e afogados em tanto sol e em tanto perfume como o deste inferno, onde em cada folha que se pisa há debaixo um réptil venenoso, como em cada flor que desabotoa e em cada moscardo de adeja há um vírus de lascívia. Lá nos saudosos campos da sua terra, não se ouvia em noites de lua clara roncar a onça e o maracajá, nem pela manhã, ao romper do dia rilhava o bando truculento das queixadas; lá não varava pelas florestas a nata feia e terrível, quebrando árvores; lá a cascavel não chocalhava a sua campainha fúnebre, anunciando a morte, nem a coral esperava traidora o viajante descuidado para lhe dar o bote certeiro e decisivo; lá o seu homem não seria anavalhado pelo ciúme de um capoeira; lá Jerônimo seria antes o mesmo esposo casto, silencioso e meigo, seria o mesmo lavrador triste e contemplativo, como o gado que 1ª tarde levanta para o céu de opala o seu olhar humilde, compungido e bíblico. (Azevedo, 1993, p. 143)

Já em Machado de Assis, contemporâneo de Aluísio de Azevedo, o desejo do brasileiro de ser europeu toma a forma de ironia, seja para apresentar as personagens, seja para revelar a aspiração à nobreza européia, representada, então, pela ascendência lusitana. Assim, a personagem Brás Cubas, de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), no capítulo III, em que trata da própria árvore genealógica, ridicularizando o desejo de nobreza da família, confessa que sua origem viria de certo tanoeiro, natural do Rio de Janeiro. Contudo, ignorando a existência dele e creditando sua gênese a Luís Cubas, que estudara em Coimbra, a família explicava de forma heróica e nobre o sobrenome Cubas: o fundador teria não só participado de batalhas contra os mouros na África, mas seria também descendente de Brás Cubas, que estabeleceu a Vila de S. Vicente, em 1502. O recurso usado para expor ao ridículo as aspirações de nobreza, o calembur, é explicitado pelo narrador. O cômico ocorre porque o leitor percebe o esforço empreendido pela personagem para, a partir do trocadilho, do jogo de significados da palavra cubas, escamotear a origem humilde da família:

Como este apelido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, alegava meu pai, bisneto de Damião, que o dito apelido fora dado a um cavaleiro, herói nas jornadas da África, em prêmio da façanha que praticou, arrebatando trezentas cubas aos mouros. Meu pai era homem de imaginação; escapou à tanoaria nas asas de um calembour. Era um bom caráter, meu pai, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo? Releva notar que ele não recorreu à inventiva senão depois de experimentar a falsificação; primeiramente entroncou-se na família daquele meu famoso homônimo, o Capitão-mór, Brás Cubas, que fundou a vila de S. Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo é que me deu o nome de Brás. Opôs-se-lhe, porém, a família do capitão-mór, e foi então que ele imaginou as trezentas cubas mouriscas. (Machado, 1979, p 515-516)

Uma terceira etapa, denominada culminância, iniciada em 1945, é considerada o momento final da formação do sistema que adquire sua plenitude, ocupando, inclusive, o espaço internacional, uma vez que as obras, e aqui nos referimos especialmente às de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, adquirem expressão universal e a visão dessa produção já é marcadamente externa.

Literariamente, essa etapa estende-se pelo período denominado “tendências contemporâneas” por críticos e historiadores, concepção bastante ampla que abrange a produção nacional desde as primeiras obras dos autores citados anteriormente até nossos dias. Além da produção de Rosa, João Cabral e Lispector, bastante inovadora e que extrapola as fronteiras nacionais, é importante que frisemos, entre outros movimentos, o Concretismo, iniciado no final dos anos 50. Movimento maduro, produziu uma obra que ignorou fronteiras e nacionalidades, preocupou-se apenas com sua elaboração lingüística, posicionando-se antiteticamente à oscilação entre o localismo e o cosmopolitismo, movimento pendular inerente à cultura brasileira.

Nesse momento, o longo diálogo com Portugal, que marcou nossa lenta maturação literária, mostra superação de sentimentos de subserviência ou de rebeldia, desfazendo os estereótipos de elementos lusos, agora sem significado na produção literária brasileira.

 

Referências

CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. Momentos decisivos. São Paulo: Martins Editora, 1959.

__________. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 5.ed. São Paulo: Editora Nacional, 1976.

__________. Iniciação à Literatura Brasileira (Resumo para principiantes). São Paulo: Humanitas (Publicações FFLCH/USP, 1997).

 

Notas:

* Texto apresentado no VI Seminário Internacional de História da Literatura, realizado na PUCRS (Brasil), em 2005, e publicado nos Anais do evento.

** A autora é Doutora em Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa e atua no Curso de Graduação em Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras, na Universidade Estadual de Maringá.

 

© Alice Áurea Penteado Martha 2008

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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