Leitura de narrativa infantil contemporânea: todo cuidado é pouco

Flávia Brocchetto Ramos

Universidade de Caxias do Sul
ramos.fb@gmail.com


 

   
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Resumen: El entendimiento de la narración infantil contemporânea considera la simbiosis de la palabra y de la ilustración. Con ese criterio, el objetivo de este artículo es el análisis de la obra Todo cuidado é pouco!, de Roger Mello, a través del proceso de lectura de quince alumnos que cursan el tercer año de la Enseñanza Primaria en colegios de Caxias do Sul, RS, Brasil. El estudio descubre limitaciones en la manera como los estudiantes leen y, consecuentemente, en la necesidad de capacitar profesores para actuar como catalizadores de literatura en los colegios.
Palabras clave: lectura, ilustración, narración verbo-visual, catalizador

Resumo: O sentido na narrativa infantil contemporânea constitui-se pelo dialogo entre a palavra e a ilustração. Desse modo, o foco deste artigo é a análise da obra Todo cuidado é pouco!, de Roger Mello, e o processo de leitura de quinze alunos que cursam terceira série do Ensino Fundamental em escolas de Caxias do Sul, RS, Brasil. O estudo aponta limitações no modo como os estudantes lêem e, conseqüentemente, a necessidade de instrumentalizar professores para atuarem como mediadores da literatura nas escolas.
Palavras chaves: leitura, ilustração, narrativa verbo-visual, mediação.

 

Introdução

Estudar as relações entre visualidade e palavra, investigando o modo como crianças matriculadas na 3ª série, do ensino fundamental, lêem narrativas contemporâneas é o foco da pesquisa "A produção de sentido e a interação texto-leitor na literatura infantil" [1], desenvolvida na Universidade de Caxias do Sul. Os referenciais teóricos que a sustentam são, em especial, a semiótica greimasiana e o estatuto da literatura infantil apresentado por Regina Zilberman, em Literatura infantil na escola (1984). Parte-se do pressuposto de que o texto precisa da ação do leitor para sua efetivação, uma vez que se apresenta incompleto pelos espaços inerentes à sua estrutura. O leitor completa esses vazios com suas experiências, expectativas e conhecimentos (ISER, 1976).

O material de estudo desse artigo é a análise da obra Todo cuidado é pouco!, de Roger Mello, e o processo de leitura de quinze alunos que cursam terceira série do Ensino Fundamental em escolas de Caxias do Sul. Tais sujeitos são indicados pelas professoras titulares das turmas, que selecionam cinco entre os melhores leitores, conforme critério estabelecido na pesquisa. Após a seleção, os estudantes e seus pais são informados sobre os objetivos do projeto e a modalidade de entrevista individual a que o aluno será submetido. Somente participam, crianças cujos responsáveis autorizam por escrito. Os dados são coletados através de entrevistas episódicas, modalidade adaptada de uma proposta descrita na obra Pesquisa qualitativa com imagem, texto e som (BAUER; GASKELL, 2003), que abrange apenas um encontro entre entrevistador e entrevistado, não ocorrendo qualquer acompanhamento anterior ou posterior a ele. Esse encontro pode ser dividido em dois momentos, primeiro, a entrevistadora relata a finalidade da entrevista, e a criança é questionada sobre sua concepção de livro e de literatura e sua relação com esses tópicos, abrangendo aspectos relacionados à sua história de leitura, ao acesso às obras e ao ambiente onde lê, entre outros. No segundo momento, apresenta-se um livro para que a criança o leia e o aluno fala sobre a obra, revelando o sentido atribuído às linguagens presentes no texto. Acredita-se que, ao observarmos o modo como o entrevistado se refere ao texto, surgem indícios sobre a forma como ele apreende o texto, ou seja, que aspectos são considerados no processo de leitura.

 

Olhando o livro

Todo cuidado é pouco!, escrito e ilustrado por Roger Mello (1999), aponta para a inovação quanto à história contada, tanto no que se refere à história quanto ao modo de narrá-la pela palavra e pela ilustração. A história inicia e encerra com um jardineiro e uma rosa branca, mas entre o princípio, o jardineiro cuidando da rosa branca que estava dentro de um cercado, e o encerramento, num breve descuido do jardineiro, a rosa sumiu do cercado, muitos personagens e ações se interpõem.

Tomando como referência a macroestrutura das narrativas tradicionais em que a seqüência “equilíbrio ——> desequilíbrio ——> equilíbrio” se repete, nessa, a fórmula é rompida. A história é contada através da circularidade: não tem um princípio ou fim definido, já que quando o conto parece ter chegado ao final, o problema, seguido do desequilíbrio, se impõe: o desaparecimento da rosa branca. Os fatos encadeados não seguem a cronologia. Além disso, o espaço não é caracterizado, pelo contrário, altera-se constantemente, provocando uma incerteza quanto ao lugar da ação e à temporalidade.

O encadeamento entre os fatos listados dá-se pela presença de um personagem que vai se alterando (Rajá Malcheiroso, Dalva), um espaço (o buraco) um elemento (broche, carta de amor) entre outros. Não há continuidade nas ações das personagens, pelo contrário, a segunda parte da história mostra o contrário do que está posto na primeira. Desse modo, a atuação da rosa branca move a narrativa em sentido horário e, depois, anti-horário. Aparentemente, há uma situação de equilíbrio enquanto o jardineiro a vigia, mas, ao final da primeira parte, surge um desequilíbrio e a história reaparece ao contrário, voltando ao ponto de partida. Quando o equilíbrio parece se instaurar, surge a problematização.

Na verdade, a narrativa evidencia duas perspectivas frente a um fato: primeiro, destacam-se as ações não realizadas, as dificuldades enfrentadas e, depois, a solução, já que os problemas tendem a ser resolvidos. A narrativa mostra os dois lados de uma mesma moeda. Tudo o que não aconteceu, na seqüência, concretiza-se ou vive-versa. No entanto, essa proposta também altera-se, pois há o desaparecimento da rosa branca, rompendo com a proposta de mostrar, no segundo momento, a solução para os conflitos da primeira parte da narrativa. O sumiço da rosa, enquanto o jardineiro se afasta para recolher a roupa no varal, rompe com a proposta que vinha se desenvolvendo e também com as expectativas do leitor acostumado a um desfecho feliz no final da história. No desfecho desse texto, encontra-se o clímax da narrativa, deixa mais ansiedade no leitor. A seqüência não tem fim e poderia ser reiniciada, referendando a noção de circularidade já apontada pela ilustração da capa (FIGURA 1). A proposta ficcional subverte, pois, com o modelo de narrativas clássicas e exige do leitor alta dose de atenção.

Figura 1

Capa da obra Todo cuidado é pouco!, de Roger Mello

 

Para explicar o modelo narrativo, a seguir apresentamos alguns exemplos do modo como se constrói o texto. Na primeira parte da narrativa, por exemplo, o doutor fajuto pulou o muro da Escola de Medicina, porque não queria ser doutor, mas

(...) tocar gaita de foles.
Mas o pai não permitia: ‘Quem aprende a tocar gaita de foles, acaba vestindo saias!’. O pai era antiquado.
Talvez porque não lesse os jornais.
Que o jornaleiro não trazia por não conhecer o caminho.
O caminho estava num mapa.
Mas ninguém encontrava a direção porque a rosa dos ventos tinha desaparecido. (...)

Na segunda parte, ao contrário, as ações se alteram:

O mapa levou o jornaleiro até a casa do pai de Onofre.
Que recebeu os jornais sempre em dia e é um sujeito muito avançado. Comprou até uma gaita de foles para o filho.
Onofre toca como ninguém a gaita de foles. Foi convidado a se apresentar ao rajá. (...)

Os personagens da trama (em número excessivo, comparando-se ao conto clássico) parecem bastante realistas, ao viverem conflitos que se assemelham aos contemporâneos: ricos perdem fortunas, filhos estão fracassados e desgostosos com a profissão escolhida pelos pais, cartas de amor nunca chegam ao destino, pessoas pensam ser superior a outras.

A multiplicidade de personagens diversifica os conflitos. A história se revela por pares opositivos, de modo que cada um defende interesses particulares, antagônicos aos do Outro. A ligação entre os personagens se dá por ações, objetos ou movidas por sentimentos, momentaneamente impulsivos, lembrando a estrutura da lenga-lenga:

(...) O jardineiro não vai precisar sair de onde está. Nem que chova e a roupa molhe no varal, pois ele amanheceu gripado.
Gripou de tanto andar descalço tentando encontrar pés sapatos.
Que o gato escondeu.
gato, foi seu irmão mais moço quem trouxe.
O irmão mais moço era casado com Dalva, que herdou o gato de um tio.
O tio de Dalva morreu de desgosto esperando uma carta de amor que nunca veio. (grifo nosso)

A atuação das personagens manifesta-se por meio de ações diversas, que oscilam desde a aparentemente satisfação de um desejo supérfluo, como se percebe através da prima do intendente. Era irritante “porque usava um broche de ouro que espetava” ou o fato de o noivo ter um bigode ridículo, conseqüência de uma promessa da mãe, cantora de ópera, que quase perdeu a voz gritando, quando caiu num buraco.

Há outras ações mais reflexivas que contribuem para pensar a condição humana. O ourives não fazia mais broches, porque ninguém mais dava importância ao seu trabalho, já que o ouro passa a valer apenas pelo peso e não pela ourivesaria. Outro fato refere-se ao abandono do idoso: o macaco amestrado vai morar com o velho e lhe dá os medicamentos necessários.

A narrativa constitui-se recortando ações da vida de diversos personagens, não se detendo a nenhuma delas, como se o grande sujeito fosse esse agrupamento de vivências que, sozinhas, não têm sentido. Nesse aspecto, o texto é bastante verossímil, em virtude do modo como revela as personagens, as quais, através de suas ações, denunciam aspectos da sociedade, mostrando oposições, angústias e até fracassos individuais ou sociais. Por meio dessas ações são reveladas características intrínsecas do homem. Para ler a narrativa, todo cuidado é pouco!

 

Como as crianças lêem a narrativa?

O recontar a história pelas crianças evidenciou aspectos diversos. Os sujeitos enfocam, em relação à seqüência, prioritariamente, os personagens. A presença de muitos personagens e a não permanência deles na trama é um aspecto que dificulta a apreensão do texto. Eles afirmam “Conta que tinha um monte de gente...”, ou “A história conta dum jardineiro, assim, conta de um monte de pessoas assim...”. A maioria dos sujeitos percebe a multiplicidade de personagens, mas não consegue estabelecer relação entre eles. Apenas um entrevistado, ao contar a história, sintetiza, afirmando que é a história “da rosa branca” e, na seqüência, desvela outros elementos do conflito.

A multiplicidade de ações compromete a capacidade de atenção e, conseqüentemente, de entendimento do leitor. Um dos entrevistados afirma que não entendeu a história, porque era muito comprida. Os sujeitos ressaltam apenas alguns detalhes da narrativa e fixam-se naqueles pontos que têm mais significado para eles. O rompimento com a estrutura clássica em que há um conflito explícito e a manutenção e caracterização de todos os elementos da narrativa - narrador, tempo, espaço, e personagens (adjuvantes e ou oponentes) - mobiliza o leitor no sentido de atuar na proposta narrativa, uma vez que não há desfecho para a história, pelo contrário, o problema instaura-se nas últimas páginas, e o leitor não encontra a solução. Na segunda parte do livro, todos os conflitos são resolvidos, exceto aquele entre o jardineiro e a rosa branca, que implica o desaparecimento da rosa. A ausência de desfecho e a duplicidade frente a cada dado revela o ludismo do texto. A impossibilidade de agir frente à proposta narrativa e o não entendimento do texto revelam que o leitor não assume uma postura lúdica frente à obra.

Uma das crianças sintetiza o texto da seguinte forma: “... tem um monte de história, conta um monte de história e tu não sabe qual história que conta, porque tu fica perdido... às vezes tu não entende direito. Porque no começo tinha tipo a história de um jardineiro que andava descalço e ficou gripado e bem no fim do livro aí conta a história do mesmo jardineiro que nunca andou descalço e nunca ficou gripado.” O leitor percebe os extremos da narrativa e vê a mudança no modo de narrar, mas apenas um entrevistado comenta que a atuação dos personagens vai se modificando. O texto, na verdade, brinca com o narrar, pois, ao implementar a máxima, quem conta um conto aumenta um ponto, mostra as múltiplas faces da história. Os sujeitos, entretanto, não percebem a subversão, o deslocamento do foco da história para o foco do discurso. [2]

Um estudante distancia-se da narrativa e afirma que o livro “conta a história de um homem que observa uma flor”. Constatamos, aqui, maior abstração frente ao enredo, pois o aluno não fala especificamente de um jardineiro e aponta a postura dele como observador. O estudante também percebe elementos da temporalidade e ressalta que o homem “fica olhando por um bom tempo”, “não via chuva, nem sol que ele não parava de olhar a flor”. Também cita o encadeamento entre os fatos, aspecto que sinaliza a duração da história.

Muitas crianças se confundiram sobre a seqüência narrativa, sem compreender a ligação entre o que ocorre no início e no fim da história. Os entrevistados acreditam que a confusão prevalece no livro: “...é que a história começava e trocava, contando outra história”. Neste sentido, o enredo é complexo, pois ações paralelas são inseridas e vinculam-se entre si, a partir da atuação dos personagens, semelhante a roteiros de telenovelas. A narrativa é construída a partir da diversidade de acontecimentos e de personagens, e isso provoca o leitor, que precisa estar atento para acompanhar a progressão dos fatos narrados e também retroceder na leitura.

As crianças, embora familiarizadas com a linguagem dos desenhos animados, cuja fragmentação é evidente, ao interagir com a narrativa verbo-visual ainda não conseguem apreender os sentidos apontados. A maioria dos alunos, ao ser solicitada a recontar a história, revela não compreender a seqüência narrativa, de modo que foi pouco explorada a relação entre o jardineiro e a rosa branca, personagens que introduzem e finalizam o livro. Uma entrevistada destaca: “Legal dele é aquela parte que sumiu a rosa dos ventos, depois apareceu de novo, depois sumiu do mapa, depois veio de novo e a parte meio maluca, é que no começo falava de uma aliança, no meio falava da rosa-dos-ventos e no finalzinho falava que ele pegou gripe, que não sei o quê.”

Essa leitora compreendeu a trajetória dos personagens (a ida e a volta) e a presença de vários fatos, que revelam situações contrárias às do início. Outra aluna expressa o movimento de inversão dos fatos: “Um pouco diz que o jardineiro que tá gripado e fica descalço e depois que ele nunca mudou de casa e daí ele nunca pegou gripe e assim vareia (sic) assim sabe? Tudo o que conta no começo, conta no final tudo o contrário (...)”. Esses depoimentos mostram que o aluno entendeu o movimento de inversão dos fatos, ao pontuar a relação entre as personagens e as diversas transformações vivenciadas durante a história. As personagens, no geral, assemelham-se a pessoas conhecidas pelo infante.

Já o narrador é um elemento estrutural que, embora fundamental para o desenvolvimento da trama, não é visto pelos entrevistados. Nessa obra, apresenta as personagens e as caracteriza: rosa “branca”, prima “irritante”, pássaro “reluzente”, Rajá “Malcheiroso”, doutor “fajuto”, pai “antiquado”, Rajá “Inebriante”, macaco “amestrado”. O narrador conduz a ação e, em alguns momentos, cede voz à personagem através do discurso direto, amenizando seu papel de centralizador dos fatos ocorridos. Ao dar voz às personagens, torna-se mais democrático:

O macaco amestrado trabalhava no circo, depois fugiu.
‘Fugiu por quê?’, perguntou o proprietário do circo.
‘O palhaço pisou o rabo dele quando veio corrido.’
‘Corri quando ouvi um barulho’, disse o palhaço.

Para o leitor iniciante perceber a atuação do narrador no texto, é importante a orientação de um mediador, que o auxiliaria a perceber as nuances do modo de dizer.

A percepção da totalidade da narrativa diverge entre os entrevistados. Um deles afirma que é “sobre um palhaço que tinha ciúmes do médico que era muito rico.” O destaque é dado aleatoriamente, pinçando, isoladamente, um fato, sem estabelecer relação com outros episódios e sem perceber que o conflito que gera a história, possível fuga da rosa branca, ocorre no final da narrativa. Sua resposta sinaliza que não houve entendimento, quer da história quer do processo discursivo do texto.

Muitos elementos não foram compreendidos pelos sujeitos: “(...) tem um monte de história, conta um monte de história e tu não sabe qual as histórias que contam, porque tu fica perdido, que daí tu tem um monte de história e daí tu não sabe quando é que vem assim as histórias e as vezes tu não entende direito. Porque no começo tinha, tipo a história de um jardineiro que andava descalço e ficou gripado e, bem no fim do livro aí contava a história do mesmo jardineiro que nunca andou descalço e nunca ficou gripado.”

Outra criança afirma que “no final, esclarece tudo, esclarece tudo o que aconteceu. Ele não tava gripado, [...] o outro não morreu de desgosto, que a costureira casou com o homem que não tinha bigode ridículo [...]”. A leitora percebe que há duas partes distintas na narrativa e que, na segunda, os problemas tendem a ser solucionados. A leitora opta por aceitar a segunda parte como decisiva, ignorando a polissemia inerente à literatura. Em relação ao modo como se constrói o conflito, Gabriel afirma que “acontecia uma coisa e depois não acontecia” e isso não o incomoda., sinalizando que o entrevistado reconhece o ludismo da literatura.

Os leitores vêem a confusão na proposta do livro. Entretanto, diante do questionamento sobre possíveis modificações no relato, a maioria manifestou o desejo de permanência dos componentes, afirmando que, apesar de confuso, o livro é interessante, porque é diferente de outros que conhecem, o que sinaliza o desejo de interagir com objetos que os desafiem. Ainda, sobre alterações, um menino enfatiza a presença da rosa, a qual não aparece como personagem ilustrada, sugerindo que a mesma poderia estar na capa: “...uma rosa, um monte de rosa porque ele ta falando da rosa né?”. O fato sugere que a ilustração tem a finalidade de elucidar aspectos verbais e atua como mediadora no processo de construção de sentido da narrativa. A criança queria ver (visualmente) como é a rosa branca, a fim de ter suas hipóteses sobre a aparência da flor confirmadas.

Se por um lado, os leitores, aparentemente passivos, esperam que a ilustração confirme sentidos anunciados pela palavra, por outro a obra rompe com os padrões tradicionais tanto de livro infantil como de narrativa ou de ilustração para criança. O livro, cujo formato é quadrado, é maior do que outros que os infantes costumam manusear. O tipo gráfico e a ilustração também subvertem as propostas visuais com as quais as crianças costumam interagir, ressaltando que a subversão está presente no livro.

Em relação ao tipo gráfico empregado, observa-se que a letra é bastante curvada, parece desenhada ou manuscrita. A forma de grafar é um aspecto que também evidencia a circularidade inerente à história, como a mudança de ótica frente a um mesmo fato. No entanto, isso não foi percebido pelos entrevistados, que leram pausadamente a obra, talvez pelo estranhamento frente ao tipo gráfico impresso.

A capa prioriza temas da história como a circularidade e a subversão, uma vez que as personagens apresentam-se em seqüência e circularmente, no entanto o protagonista não está representado nela, o que já evidencia um rompimento na proposta da narrativa. A rosa branca está nos cantos do livro. No centro do círculo, formado pelas personagens, encontra-se o título da história. A noção de subversão pode ser percebida, em virtude de que o sentido de movimento para frente é ressaltado pela seqüência das personagens, entretanto, a disposição topológica sugere volta.

A primeira e a última páginas contêm ilustração de homens unidos dentro de cercados independentes. São utilizadas páginas coloridas com cores fortes e letra em tamanho maior no início da narrativa, quando ocorre a mudança de rumos e a história é contada sobre outra perspectiva e ainda no desfecho, quando a rosa branca desaparece. O restante da história é escrita sempre em páginas brancas, com desenhos coloridos. A dedicatória, registrada em espiral, retoma a noção de circularidade presente na narrativa. Não há, contudo, observações dos entrevistados sobre esses aspectos da visualidade, sinalizando que compreendem o livro apenas como capa e miolo, de modo que a leitura limita-se à palavra.

Na leitura da capa, as crianças valeram-se de conhecimentos prévios, enumerando elementos conhecidos como pessoas e rádio. Citaram que a história, possivelmente, iria tratar de vários tipos de pessoas: gordas, magras, e talvez músicos, estabelecendo hipóteses sobre prováveis acontecimentos. Para isso, associaram o título e a ilustração de forma coerente, sugerindo que na história haveria várias pessoas. Também relacionaram, a partir da primeira impressão, que a história era diferente, já que perceberam a subversão sugerida ainda na capa: “Meio esquisita porque tem um homem que tá de chapéu, é tudo meio estranho na capa assim, que as pessoas, tem umas com a pele azul, outras tão com a pele rosa, outras tão com a pele amarela e azul, meio estranho assim. Tem umas pessoas que estão de cabeça pra baixo, isso.”

A percepção dos sujeitos em relação à visualidade é bastante variada. Observaram o modo peculiar como as ilustrações se apresentam, diferente de imagens estereotipadas presentes em alguns livros infantis: “Eu achei modernista por causa que, tu vai olhar um livro, um livro da Disney, por exemplo, a Bela e a Fera. Os desenhos são perfeitinhos, é tudo feito sob medida. Já esse aí não. As figuras já eram mais largadas, mais interessantes, mais legais.”

Provavelmente este entrevistado teve um mediador que o ajudou a ver modos de representar por meio das artes plásticas, pois conhece estilos de ilustração, de modo que não apenas o tema, mas também a técnica e o estilo podem aproximar ou não a criança da obra. Outro sujeito afirma que “os desenhos são bem diferentes, mas dá para entender, são bem legais, bem criativos”. O fato sugere que esse estudante ainda busca na ilustração um apoio para os sentidos anunciados pela palavra, pois acrescenta “dá para ver tudo o que tá desenhado”. Outro afirma que quando não há ilustração não dá para ver o que está escrito, ou seja, precisa da imagem como apoio para compreender os sentidos da palavra. Na verdade, um aluno até afirma que o livro não tem figura, sinalizando que não reconhece a ilustração, isto é, o estilo empregado não é considerado na leitura, fato que pode implicar rejeição do livro pelo público mirim.

Há, ainda, outras falas que apontam a presença do adulto no processo de familiarização com a literatura infantil. Nesse caso, a influência não é positiva. Os entrevistados buscam no texto a possibilidade de aprender algo, já internalizaram que uma narrativa ensina algo explicitamente. Essa postura rejeita a natureza artística do texto e a experiência estética do leitor, próprias da Literatura. Eles destacam, como negativo, nessa história, a ausência de um ensinamento.

 

Considerações finais

O ato de ler propicia o encontro e o diálogo entre leitor e texto, entre leitores e ainda do leitor consigo mesmo. Leitores comentam entre si sobre histórias lidas, aproximando aspectos do enredo às suas vivências. Cada sujeito define suas preferências por tipos específicos de leitura, já que as mesmas estão associadas a interesses e necessidades de descobertas do momento, além de se articular a situações presenciadas no meio. Acrescentamos ainda que os pequenos leitores valorizam a aparência dos personagens e identificam-se com o herói. Desse modo, a ausência de um herói definido nessa narrativa bem como o excesso de personagens foi um aspecto criticado pelos entrevistados.

Embora o conto tenha aspectos que prevejam a atuação do leitor, os sujeitos pouco ocuparam esses espaços. Parece que o modo como a narrativa se apresenta bloqueia a atuação do infante na sua proposta. A presença de muitas personagens, a ausência de caracterização das mesmas, a multiplicidade de espaços, a imprecisão do tempo e a não resolução do conflito geram um estranhamento no receptor. E marcas como a oralidade e a repetição que poderiam contribuir para a aproximação do público são ignoradas pelas crianças.

Os entrevistados apresentaram critérios semelhantes ao analisar as qualidades do texto: gostaram da presença de várias histórias (entenderam cada ação como uma história) e da figura do jardineiro “Ah, que nem ali, tem desenhos diferentes, letras diferentes, ah, que nem no começo ele tava sempre gripado, daí no final ele encontrou as botas dele e daí ele não ficou mais gripado”. Os sujeitos foram unânimes ao afirmar que o livro é “muito legal”, assim como a história e a ilustração também receberam mesma qualificação. “Eu achei tudo bem interessante, ele é bem legal de se ler, ele é bem interessante... os desenhos são bem diferentes, mas dá pra entender tudo, tão bem legais, bem criativos.” Se por um lado verbalizam que apreciam a ilustração, por outro, durante a entrevista, não a reconhecem no processo de construção de sentido da história. Os alunos classificaram a história como confusa, devido à presença de vários acontecimentos e personagens. A maioria enfatiza a necessidade de um herói: “Se eu fosse o autor, primeiro eu contaria uma história completa, só do jardineiro”. Apenas um entrevistado constatou inovações no texto, como a ausência de desfecho e de final feliz além do estilo das ilustrações.

Os entrevistados não conseguiram apropriar-se da complexidade da narrativa, já que a introdução de múltiplos personagens entre o jardineiro e a rosa branca parece-lhes desprovida de coerência. Além disso, a inversão dos fatos, a negação das afirmações anteriores, num jogo de linguagem e de ilustrações, confunde o público. Na verdade, a circularidade da narrativa gera um certo desconforto ao leitor infantil e ele parece perder-se na (des)ordem cronológica dos fatos, bem como na ausência de uma situação final.

Em relação aos códigos empregados no livro infantil contemporâneo, ressaltamos que a ilustração manifesta-se como uma linguagem carregada de sentido. A palavra não é legenda da ilustração ou vice-versa. Contudo, a percepção do público não atinge o encadeamento dos fatos na construção da história, pois apenas apreende algumas ações isoladamente. Aliás, o texto apresenta uma multiplicidade de episódios que precisam ser encadeados pelo leitor, exigindo deste a atuação como co-autor na concretização da narrativa.

No geral, a obra cumpriu seu papel de texto literário, pois provocou estranhamento nos leitores. Mesmo considerando o enredo como “uma história confusa”, os estudantes acolheram a diversidade e foram favoráveis à manutenção de fatos e de personagens na narrativa. A proposta da narrativa é sedutora e, a partir desse estudo, podemos afirmar que para o público mirim assumir-se como co-autor, é fundamental a presença de um mediador que o ajude a interagir com a proposta do texto. Lembramos que a experiência de leitura é um ato subjetivo, individual, mas também social e dependente do olhar do outro. Com a ajuda de um leitor guia, o leitor iniciante rompe com os modelos já conhecidos, desacomoda-se e cria hipóteses para interagir com as questões propostas pela narrativa, com esse modo de contar como também busca estratégias para a resolução do conflito.

 

Referências bibliográficas

ISER, Wolfgang (1976): L’acte de la lecture: théorie de l’effet esthétique. Bruxelas: Mardaga.

BAUER, Martin W.; GASKELL, George (2003): Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. 2.ed. Petrópolis: Vozes.

MELLO, Roger. (1999): Todo cuidado é pouco!. São Paulo: Companhia das Letrinhas.

ZILBERMAN, Regina.(1984): Literatura infantil na escola. São Paulo: Global.

 

Notas:

[1] O referido projeto teve apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa/FAPERGS, através do Edital PROADE 2.

[2] Entende-se por história a trama, o conflito, ou seja, o conjunto de ações realizadas pelas personagens. Discurso consiste no modo como a história é contada. Nela está inserido, por exemplo, o modo como o narrador apresenta as personagens, como distribui a voz entre eles, como revela os fatos, como configura o tempo e o espaço.

 

© Flávia Brocchetto Ramos 2007

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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