Linguagem, cultura e memória de mulheres profissionais da pesca [1]

Clarice Nadir von Borstel

Universidade Estadual do Oeste do Paraná
(Marechal Cândido Rondon, Paraná, Brasil)


 

   
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Abstract: This text has the objective of reflecting about the cultural and memory conceptions of the woman who works as a fisherman and how it is done the interaction of the use of the verbal language, for this group, in the community of Guaíra, Paraná. It is observed, in this study, the comunicative ability of the fishing women in the daily pragmatic interactions in their activities of fishing and the regular familiar services. The sociolinguistic/pragmatic has the objective of studying on a social ethnographic perspective the oral history of their lives, because it cannot be done without paying attention to the effective social situations, on whatever nature it might be: public spaces, associative meetings, professional situations, familiar and school networks. The investigated data are presented in real professional situations of a hybridization of the cultural history and of the memory, as well as the linguistic articulations of this group of professional fishing women.
Keywords: Bidialectalism, culture/memory, professional fishing women.
Palabras clave:

Resumen: Este texto tem como objetivo refletir sobre as concepções culturais e de memória da mulher que trabalha na pesca e como se dá a interação da linguagem verbal de uso, por este grupo, na comunidade de Guaíra, Paraná. Observa-se, neste estudo, a competência comunicativa de mulheres em suas interações pragmáticas de rotina no cotidiano de suas atividades de pesca e dos serviços na vida familiar. A sociolingüística/pragmática objetiva estudar sob uma forma etnográfica social a história de vida oral, pois ela não pode ser exercida sem recorrer a observações e relatos de situações sociais efetivas, qualquer que seja sua natureza: espaços públicos, reuniões associativas, situações profissionais, redes familiares e de escolarização. Os dados, investigados, são apresentados em situações profissionais reais de uma hibridização de história cultural e de memória, assim como as enunciações lingüísticas deste grupo de mulheres que trabalha na pesca.
Palavras chave: Bidialetalismo, cultura/memória, mulheres profissionais da pesca.

 

Introdução

O presente estudo tem como objetivo abordar fatos sobre cultura e memória da mulher que trabalha na pesca, um grupo específico de mulheres e donas de casa - a pesca enquanto profissão. As noções de trabalho, de relações profissionais, de direito do trabalho e as realidades sociais, políticas, econômicas e culturais que lhes subjazem atravessam uma fase de profundas transformações identitárias das pessoas na sociedade brasileira.

Para referenciar relações e normatividade de trabalho, Ferreira (2002) cita Santos (1995), quando mostra como “a forma como as relações profissionais e a normatividade profissional são afetadas pelos fenômenos da globalização varia em função do impacto e através de um processo dialético descrito, como sendo do processo de globalização e de localização” (2002, p. 260) do trabalho e dos direitos a ele associados, como fator essencial para a (re)construção duma verdadeira condição cidadã, no mundo do trabalho, como se descreve o trabalho deste grupo de mulheres de Guaíra, considerando, também, os fatores sociolingüísticos e pragmáticos, quando se refere ao uso lingüístico e ao trabalho deste grupo de mulheres.

Em um estudo etnográfico social sobre este grupo de mulheres que trabalha na pesca, observou-se que em suas situações enunciativas há um processo de hibridização profissional, cultural, econômica e lingüística. Estas mulheres estão enraizadas geograficamente em Pontos de Pescas na comunidade, na região do Lago de Itaipu fronteira Brasil com o Paraguai e no Rio Paraná divisa do Paraná com o Mato Grosso do Sul. Estas mulheres trabalham lado-a-lado com os homens na pesca, e, ainda, têm a responsabilidade no trabalho necessário dentro de casa e do cuidado com os filhos.

Desta forma, objetiva-se apresentar as situações profissionais de suas narrativas de vida reais de história oral sobre a cultural e a memória deste grupo de mulheres, que trabalham na pesca e a variedade dialetal em suas falas de seu cotidiano.

 

O trabalho na vida de um grupo de mulheres em Guaíra

Para iniciar esta reflexão sobre a mulher trabalhadora, é necessário, antes, tratar sobre memória. Quando se referencia estudos sobre a memória, é fundamental, tratar sobre a história oral, e interpretar e analisar os fatos e ou relatos de experiência de vida deste grupo de mulheres que trabalha na pesca. Parte-se do estudo e reflexões de Paul Thompson, sobre história oral. Para o autor, “a história oral desenvolve a história às pessoas em suas próprias palavras, e ao lhes dar um passado, ajuda-as também a caminhar para um futuro construído por elas mesmas” (1992, p. 337). Assim, também, abordam-se os estudos de Portelli (1996) e de Laverdi (2005) sobre histórias e tragetórias de experiência de vida, apresentado e atravessado pela memória e reforçado por documentos oficiais, o que também acontece nesta investigação.

Os relatos através da história oral, leva a pessoa a recordar e a trazer à tona os fatos de sua experiência de vida familiar, social e de trabalho. Assim, Burke (2006), quando escreve sobre a Transmissão da Memória Social, cita que a memória está relacionada e imbricada nos relatos dados pelos entrevistados em que a

tradicional esfera de ação do historiador, as memórias e outros “relatos” escritos (outro termo relacionado a lembrar, recordare em italiano). Precisamos, é claro, nos lembrar de que esses relatos não são atos inocentes da memória, mas antes tentativas de convencer, formar a memória de outrem. Também precisamos ter em mente, como nem sempre fizeram os historiadores, o aviso de uma crítica literária perspicaz: “Quando lemos narrativas de memórias, é fácil esquecer que não lemos a própria memória, mas suas transformações através da escrita”. (Fussel, 1975; Owen, 1986 apud Burke, 2006, p. 74).

A partir dos relatos e, ou narrativas dadas pelas entrevistadas, ocorrem também as transformações pela interpretação de quem as transcreve a palavra escrita.

Como o próprio Burke aponta todo relato de memória relaciona-se “ao problema de unidade e variedade, não apenas na história cultural, mas na própria cultura” (2006, p.265), e no conhecimento de mundo do pesquisador quando descreve as narrativas de vida do grupo pesquisado.

Como se apresentam neste estudo, os fatos e narrativas orais sobre a experiência de vida familiar, social e profissional da mulher trabalhadora na pesca, assim, é fundamental ter uma visão de cultura e de memória essencialmente de relatos hibridizados pelo processo de globalização e de localização das atividades profissionais e do cotidiano familiar e social, levando-se em conta os meios pelos quais toda a pessoa cria suas misturas, sincretismos e sínteses individuais ou de grupo na comunidade.

Na posição da mulher como profissional da pesca, no momento atual, assiste-se a um intenso debate sobre o conceito de cidadania da mulher no mercado de trabalho.

Na maioria dos sistemas de regalias sociais, as mulheres que trabalham em casa não têm os mesmos direitos às regalias, ou seja, ao subsídio de desemprego como os profissionais fora de casa. O conceito moderno e de sistema de segurança social apresenta o trabalho doméstico como um trabalho inferior e marginalizado pela sociedade. É por causa desta situação que muitas mulheres, no Brasil, ainda se encontram em uma situação de dependência econômica e de subordinação em relação aos homens.

A política sobre a família, ainda restringe o reconhecimento pleno das mulheres como cidadãs. Por conseguinte, a política de família ainda procura defender em muitos aspectos a família tradicional (BAREKSTEN, et. al., 2006, p. 50).

O que pode ser observado, na sociedade atual brasileira, é que os homens ainda ganham mais do que as mulheres, realizando os mesmos trabalhos. A mulher tem uma dupla jornada de trabalho, fora de casa e, ao mesmo tempo, tem a responsabilidade pelo trabalho dentro de casa.

Ainda, citando Bareksten et. al. (2006, p. 51), não é possível uma descrição social completa das mulheres e da família sem incluir a dimensão privada, em que as vidas das mulheres se intersectam mais freqüentemente com os poderes do mercado, da nação e dos homens.

No Brasil, a entrada das mulheres no trabalho profissional da pesca, tem sido visto como um fenômeno novo, resultante de dificuldades econômicas do companheiro (na vida conjugal homem/mulher nem sempre há um casamento legalizado institucionalmente, e, sim, pode existir uma preferência por uma relação de parceria conjugal entre o casal, às vezes pode ocorrer uma relação duradoura e outras vezes não) e, ou marido, e de uma política econômica do país em registrar o profissional da pesca como reflexo de um processo complexo que atravessa as mais diversas áreas da vida social, da globalização dos sistemas produtivos e financeiros, à revolução nas tecnologias e práticas de informação e comunicação, da erosão do Estado nacional e redescoberta da sociedade civil ao aumento exponencial das desigualdades sociais e das novas práticas culturais e identitárias aos estilos de consumo globalizado.

Quando se refere à profissão de mulher pescadora, sabe-se que esta não é muito valorizada pela sociedade como um todo. Como se vai tratar desses fatos, é necessário situar este enfoque como um estudo de caso de memória e de identidade da profissional pescadora. Mulher sofrida com uma profissão que, ainda, não é muito bem definida por ela própria. Nas entrevistas com este grupo de mulheres, isso ficou muito marcado em suas situações enunciativas sobre o trabalho na pesca de forma artesanal.

Antes, a mulher do pescador trabalhava com seu companheiro e/ou marido como auxiliar, sem ter o merecido reconhecimento como uma profissional da pesca. No entanto, a realidade histórica mostra que as mulheres sempre contribuíram para auxiliar nos recursos econômicos para ajudar a manter a família. Nas entrevistas, observou-se que as mulheres pescadoras de Guaíra ainda executam a maior parte do trabalho doméstico necessário para manter em funcionamento a unidade doméstica familiar. A investigação demonstrou que as mulheres, que trabalham na pesca, recebem as regalias Estaduais e ajudam a aumentar o salário do companheiro e, ou marido, assim como fazer todas as atividades domésticas. Muitas das mulheres, além de trabalhar nas atividades domésticas e na pesca, trabalham como diarista em casa de famílias de Guaíra, para poder ajudar economicamente quando não tiram peixe do Rio e/ou do Lago. Pois manter ou reproduzir as vidas dos membros da família exige alimentação, limpeza e habitação. Todas estas atividades requerem disponibilidade de alguma forma a ser realizada sobre a ocupação e tempo para serem efetuadas estas atividades pela mulher.

Os profissionais da pesca entrevistados (homens e mulheres) são unânimes em dizer que depois que o Rio Paraná foi transformado em Lago de Itaipu houve uma redução de vários tipos de peixes e do pescado, quando faltam recursos econômicos e não conseguem pescar (ou não tem peixe, ou as intempéries do tempo não permite o ato de pescar) para poder se manter dignamente com os seus familiares, e, muitas vezes são obrigados a exercer outras atividades profissionais (como dizem - fazem bicos por fora).

Os dados sobre as mulheres que trabalham na pesca, foram investigados sob o enfoque da etnografia social. Quando Hymes (1972) trata sobre a comunidade de fala como speech community, o uso de linguagem é conceituado como formas externas de regulamentação da comunicação verbal, portanto os eventos de fala, não considerando o funcionamento de sistema de língua e sim os fenômenos de usos lingüísticos na interação comunicativa entre os usuários de um determinado grupo sociolingüístico. Pautando-se, também, nos estudos teóricos da sociolingüística interacional de Gumperz (1982) que interpreta os dados empíricos lingüísticos (fonético/fonológico, morfossintático, semântico/pragmáticos e lexicais) e extralingüísticos (grau de escolarização, faixa etária, gênero feminino e masculino, sociocultural, religioso, étnico, entre outros). Porém, quando se trata de estudo de caso, utilizam-se as referências de André (2003), esta enfatiza que o estudo de caso pode ser tratado como “uma determinada unidade e compreendê-la como uma unidade” (p. 31), como o é este estudo de caso de mulheres trabalhadoras.

Assim, também, referenciam-se os aportes da pragmática que leva em consideração as diferenças existentes entre os falantes de uma conversação. As possíveis reflexões dadas sobre os estudos da pragmática e da sociolingüística, são definidas em termos amplos, foram citadas por Mey (1998, 2001), apresentando esses estudos em cenários de enunciação em contextos, voltados ao interesse societal do usuário. Reforça-se o que o autor cita,

tomar uma formação societal como texto implica atribuir vozes: primeiramente, falantes e ouvintes, mas também eventuais espectadores, ouvintes desconhecidos, leitores (próximos e distantes, tanto no tempo como no espaço)... Uma voz pressupõe um papel, uma personagem, portanto, uma atividade, uma ação. (MEY, 2001, p. 19).

Nas investigações, com as mulheres profissionais que trabalham na pesca, a voz societal tem uma concepção de diálogo e de dialética na comunicação verbal, em suas práticas da vida cotidiana, dominada por motivos pragmáticos, em que o conhecimento lingüístico é limitado. As entrevistadas têm em torno de quatro anos de escolarização, isto é, o conhecimento lingüístico é limitado à competência pragmática em desempenhos de rotina do trabalho na pesca, dos serviços de rotina do dia-a-dia dos afazeres da casa e do cuidado com os filhos. Como pode ser observado na situação enunciativa de S. A. M., do Ponto de Pesca Santa Clara, quando relata os fatos de sua experiência sobre seus afazeres como trabalhadora na pesca. Nascida no distrito de Oliveira Castro, divisa com o Lago de Itaipu, fronteira com o Paraguai, a entrevistada tem trinta e quatro anos de idade, quatro anos de escolaridade, trabalha na atividade de pesca há dezoito anos, e faz os trabalhos de casa (lavar e passar roupa, limpar a casa e o ato de cozinhar e servir), o que pode ser observado em sua fala,

É mais ou menos, nóis vamo pro rio né, a tarde, daí nóis volta, deita, de manhã os meninos levanta, vão pro rio de volta, corre... nóis tralhaiá, desse jeito, e fica um período do dia fica um pouco em casa... trabaiá em casa né, daí deu a tarde daqui a poco mesmo e é hora de nóis ir, deu a tarde, aí nóis coloca a isca, tudo dia de manhã nóis já corre, se deu alguma coisa, ou não deu. Hoje nóis pegemo dois, deu um quilo de pexe, um quilo, sabe, tem corage, lá pro Paraguai, por que aqui não tá bom. (A entrevista foi às 08:56 h, Ponto de Pesca Santa Clara, 24/07/06).

A partir do relato de experiência de vida da entrevistada, reforça-se o que Berger e Luckmann (2002, p. 62-63), citam sobre o acervo social do conhecimento, quando inclui o conhecimento da situação do cotidiano e dos limites lingüísticos que os usuários têm em suas práticas. Por conseguinte, é o conhecimento apresentado na lida da rotina de seu cotidiano quando do desempenho comunicativo e lexical em suas atividades de grupos profissionais. Renovando continuamente o léxico lingüístico do arsenal em função das incidências da pesca no dia-a-dia dos pescadores, em seus aspectos mais visíveis e repetitivos quanto à lida da vida cotidiana deste grupo nos Pontos de Pesca na região. Ainda, nas considerações dos autores, “sendo a vida cotidiana dominada por motivos pragmáticos, o conhecimento receitado, isto é, o conhecimento limitado à competência pragmática em desempenhos de rotina, ocupa lugar eminente no acervo social do conhecimento” (op.cit. p. 63), do indivíduo em um cenário cultural de grupo e, ou atividade profissional.

É importante lembrar que a partir de estudos desenvolvidos pelo Centro de Estudos e Demografia Histórica da América Latina, as mulheres de classes sociais menos favorecidas, desempenham o papel principal na família. Não raro, a mulher não sabe quem é o pai de seus filhos ou, se sabe, vê-se muitas vezes abandonada e só, com a guarda das crianças e não lhe resta outra opção a não ser trabalhar como doméstica ou como faxineira. Normalmente essas trabalhadoras não recebem direitos previdenciários.

Na comunidade de Guaíra, a pesca enquanto profissão, é resultado da organização de Associação da Colônia de Pescadores de Guaíra. Este grupo de mulheres está filiado à Colônia de Pescadores, porque, segundo os relatos das entrevistadas é esta que lhes fornece os documentos de uma profissão mais digna de direitos previdenciários, mesmo para manter ou reproduzir as vidas dos membros da família, é necessário que traga e faça a alimentação, a limpeza e tenha a responsabilidade do cuidado com os filhos, e, muitas vezes, sem o marido e, ou companheiro.

Nesta mesma direção, sabe-se que o reconhecimento oficial da mulher que trabalha como profissional da pesca é muito novo, pode ser constatado na enunciação de uma mulher que nasceu na Ilha Grande, no Rio Paraná, Guaíra, cujos pais se mantiveram e sustentaram os filhos, trabalhando com a pesca artesanal e com que cultivavam na roça, na ilha. A valorização da mulher como profissional da pesca só deu-se com a organização da associação da Colônia de Pescadores de Guairá, criada em 1967, através de Portaria Federal, em 1988 e legalizada, em 2005, com Estatuto e o CNPJ de Colônia de Pescadores Profissionais Z-13 de Guaíra - PR.

[...] valorizada como pescadora...ah! quando aconteceu a cartera da mulher... lembraram que existia a muié pescadora .... a minha cartera tem poucos anos... isto foi muito bom... agora pesco com rede e espinhel ... o pai sempre foi pescadô e a mãe também... lá na ilha... o meu filho mais velho também pesca... ah! tem um detalhe eu vivo oito anos sozinha...sou separada...o que ganho é o sustento meu e dos filhos...quando não trabaiava na roça, lá na ilha, ia pescá...pescá é uma beleza não tem stress vou pescá na boca da noite...distrai a mente... agora está ruim ...muito ruim, ganho mais ou menos 150 a 200 reais por mês...não dá para ficar doente... se não pescá... não ganha... o pexe que mais gosto de comê é o piauzinho... este pexe não si pesca muito... tá acabando depois do lago. Eu aqui cuido dos barcos dos pescadô, aqui no rio, ganho mais um dinherinho pra vivê... (A entrevista foi às 10:00 h, Ponto de Pesca Porto Prainha, 24/07/07).

A entrevistada I.T.P., tem quarenta e quatro anos de idade, não é escolarizada. Faz doze anos que veio morar na área urbana de Guaíra, com os filhos, em um barracão no Ponto de Pesca Porto Prainha. Está separada do marido há oito anos que também é pescador. Sustenta a família com o trabalho na pesca e também recebe um valor mensal, cuidando dos barcos dos pescadores, em um canal do rio perto do barracão onde reside. Estes estão amarrados e cadeados para que ninguém os roube. Para a entrevistada, a mulher só foi valorizada como pescadora quando recebeu o registro profissional na carteira de trabalho, isto só ocorreu após a regulamentação oficial da Colônia de Pescadores.

Em uma pesquisa recente, Butzge (2006), estudou sobre as mulheres pescadoras na comunidade de Santa Helena, na região do Lago Itaipu, estado do Paraná fronteira com o Paraguai. Participou do Grupo de Pesquisa de campo do projeto Trajetórias sociais e trabalho na fronteira, orientado por Robson Laverdi, professor do Curso de História da Unioeste campus de Marechal Cândido Rondon. Butzge apresenta um estudo sobre o trabalho das mulheres pescadoras, no qual “o reconhecimento oficial das mulheres como pescadoras, geralmente é como ajudante de pesca, o registro da profissão está vinculado ao barco do marido ou do pai” (2006, p. 118). Portanto, em seus estudos, as mulheres pescadoras demonstram em suas entrevistas que foram introduzidas na profissão como ajudantes da pesca por influência de pais e maridos, de uma cultura de base rural, pela necessidade econômica de conseguir sobreviver nesta atividade e por terem dificuldade para desenvolver outra profissão, visto que não possuem uma situação financeira e nem a escolarização. Ainda, segundo o autor, são consideradas como ajudantes e não como profissionais da pesca, pelos próprios pescadores homens na comunidade e nos Pontos de Pesca.

Nas entrevistas com as mulheres pescadoras de Guaíra, isso também, foi registrado em suas narrativas de vida profissional. Para descrever a atividade destas profissionais da pesca e sua origem de trabalho, apresentam-se alguns fragmentos das narrativas de experiência de vida.

As mulheres que trabalham na pesca, em sua maioria, têm uma origem de trabalho, cultura e linguagem de base rural, como podem ser observados nos fragmentos dados nas entrevistadas, nos relatos de experiência de vida,

Porque quando cheguei aqui, quando eu cheguei aqui, nóis passamo frio e vida dura. Aí nóis crescimo. Andei catando dia de bóia-fria por aí pra trabaiá. Mas uns pagava, outros não pagava, daí eu falei ah!... isso não, essa vida não dá não [...] Daí nós comecemo de pegá isca. Daí não dava também ... o dinheiro não dava pra nada, falei quer sabê de uma coisa, vamo é pescá mesmo! Aí foi a hora que nóis fizemo a cartera. Aí foi fazê e eles não quiseram fazê. Que disse que nóis era de idade. Depois resolveram fazê, mandaram recado que era pra nóis ir lá fazê. ... Aí nóis foi. Cheguemo lá e fizemo, daí que nóis viremo pescadô. (A entrevista foi às 11:10 h, no Ponto de Pesca da Vila São Francisco, dia 02/08/2006).

A entrevistada T. A., é uma senhora com cinqüenta e oito anos de idade, nascida em Rancho Alegre, Paraná, com quatro anos de escolaridade, sempre trabalhou na roça como bóia-fria, e seu primeiro vínculo previdenciário, foi em 2000, como profissional da pesca, em Guaíra. Observou-se que a entrevistada leva muito a sério a sua profissão, a partir dos fatos narrados pela sua história de vida como pescadora.

Outra, entrevistada foi M. S. P., de cinqüenta e seis anos de idade, nascida em Mandaguari, Paraná, com cinco anos de escolaridade. A família sempre foi da agricultura, cada filho ficou com uma pequena parte de terra. O que herdou não dá para se manter com a família e, por isto, ela trabalha com o marido na pesca,

[...] sou pescadora desde que formô o lago, eu pesco junto com ele, meu marido, desde o primeiro dia que ele foi eu também fui. Antes eu trabalhava por dia, por aí... Ajudava a mãe tirá leite, que a mãe tinha bastante vaca, quando morava aqui. Só dez alquere e meio de terra, sabe. Daí tinha a roça ... ajudava a planá milho, planá feijão, colhê...ajudava a mãe a tirá leite, ela entregava leite na rua, assim nóis vivia... (A entrevista foi às 10:00 h, no Ponto de Pesca Santa Clara, 02/08/2006).

Nas situações enunciativas abaixo, da mulher que trabalha na pesca, observa-se uma tradição de origem (porém esta tradição não se caracteriza como hegemônica, a pessoa apresenta indícios culturais de sua família e de seu grupo, não quer dizer que é exatamente como era trabalhado naquele período e, ou época, pois tudo muda muito rápido com o processo de globalização, mídia e as interlocuções entre os grupos) de atividade de pesca com seu pai, desde a infância, quando ia ajudá-lo a tirar a rede do rio e limpar os peixes para vender no mercado local, como pode ser constatado no fragmento a seguir, quando de sua narrativa,

[...] naquele tempo se pegava pexe na vara sabe? ... naquele tempo quando era criança ia lá com meu pai pescá... e vendê... hoje agente vai pescá lá na mata do Paraguai...é caro ir até lá de barco é sessenta real... ah! ...porque já venho de família de pescadô, meu pai era pescadô, toda vida foi... é, aqui em Guaíra, meu pai ainda é pescadô...[...] (A entrevista foi às 08:56 h, no Pontode Pesca Santa Clara, 24/07/06).

Nas histórias de vida dessas mulheres que trabalham na pesca ou mulheres de pescador, no âmbito da pesca artesanal, uma produção familiar de atividade de pesca, com “Direitos Previdenciários e trabalhistas como pescadoras: caminhos de construção de cidadania” da mulher como profissional da pesca, o que significa pensar sobre o trabalho, o ambiente e os direitos de cidadania dessas mulheres no âmbito da sociedade brasileira. Na comunidade, os direitos previdenciários dos pescadores e pescadoras, é um fato recente, como já foi dito, isto só foi possível com a formação da Associação da Colônia de Pescadores de Guaíra.

Alguns Pontos de Pesca estão localizados na periferia da cidade de Guaíra, outros na margem do Lago Itaipu, uns na margem do Rio Paraná e, ainda na margem das ilhas do Rio Paraná, pela natureza dos pescadores, um meio complexo onde se confrontam sistemas de pensamento e práticas heterogêneas, numa imbricação de espaços rurais e de zonas urbanizadas.

Os pescadores e a mulher que trabalham na pesca participam de uma economia urbana de múltiplas formas, mantêm-se muitos ainda, ligados ao desempenho de atividades agrícolas e às comunidades rurais dos seus locais de origem. Uma grande maioria divide a sua lealdade e solidariedade com os seus parentes e/ou redes sociais e grupos de interesses ligados à vizinhança e à Associação da Colônia de Pescadores. Assim, podem existir alterações nas regras de conduta da mulher profissional da pesca, pois há parâmetros comuns que remetem ao universo cultural das comunidades rurais e como dona de casa e, isto ainda, é bastante significativo para estas mulheres trabalhadoras na pesca.

Nas entrevistas quando é tratado sobre histórias de vida, cita-se, também Portelli, quando diz que,

o principal paradoxo da história oral e das memórias e, de fato, que as fontes são pessoas, não documentos, e que nenhuma pessoa, quer decida escrever sua própria autobiografia, [...] quer recorde em responder a uma entrevista, aceita reduzir sua própria vida a um conjunto de fatos que possam estar à disposição da filosofia de outros. Pois, não só a filosofia vai implícita nos fatos, mas a motivação para narrar consiste precisamente em expressar o significado da experiência através dos fatos: recordar e contar já é interpretar (1996, p. 60).

As descrições narrativas aqui apontadas por estas mulheres, expressam o significado dos fatos da experiência do trabalho na área rural, na pesca, no papel de mãe e desenvolvendo no dia-a-dia as atividades da lida doméstica. Somente com o trabalho na pesca, estas mulheres têm acesso e direito ao sistema de proteção previdenciária, mesmo que, muitas vezes são consideradas pelos pescadores e, ou marido pescador de ajudantes da pesca. Portanto, verificou-se que as mulheres trabalhadoras da pesca, ainda executam a maior parte do trabalho doméstico necessário para manter o funcionamento e a unidade doméstica familiar.

Estes fatos manifestam-se nas entrevistas, como também no fatigante trabalho da palavra.

Ao enfocar a pragmática sob o contexto da enunciação, Dascal (1982, p. 21) apresenta que “... a noção de contexto de enunciação de modo a fazê-la conter, também, o que parece natural, o contexto verbal (enunciados anteriores e posteriores) em que se insere o enunciado”, portanto, o enunciado real e sócio-histórico cultural investigado em comunidades de fala de determinado grupo, quando do uso de interação comunicativa bidialetal como se apresenta o presente estudo com as mulheres.

A sociolingüística sob uma abordagem pragmática da vida cotidiana despontou, no cenário da língua materna vernácula nacional como uma área fértil e desafiadora, dada à necessidade de levantar dados para poder compreender e refletir sobre a realidade de usos lingüísticos de um país em que diferentes dimensões sociais se conjugam para a configuração de um quadro sociolingüístico/pragmático em um cenário complexo. Portanto, uma realidade que até um passado bem recente era conhecida como uma forma lingüística marginalizada pela sociedade brasileira, não respeitando a heterogeneidade lingüística regional do bidialetalismo no país, sob um enfoque cultural societal.

 

Os traços bidialetais nos fragmentos das narrativas

Nas narrativas das mulheres que trabalham na pesca aparecem traços de interrupções, digressões, repetições e o uso bidialetal dos elementos prosódicos e dos segmentos lingüísticos do falar do português brasileiro que caracterizam a narração e que são procedimentos constitutivos da oralidade, a partir da competência comunicativa. Como cita Hymes: “é aquela que se refere ao conhecimento e uso da estrutura da língua. É um conhecimento comumente inconsciente e mostrado na fala espontânea” (1972, p. 270), das entrevistadas.

Ficam muito evidentes, nos fragmentos citados no texto, os traços da prosódia que abrangem fenômenos fonéticos segmentais, pois afetam mais de um elemento segmental, como no caso a omissão dos traços de sons sibililantes e/ou fricativos [s; ò ] nos sintagmas nominais e sintagmas verbais; do apagamento do [ r ] em final de palavras das formas verbais do infinitivo (pescá, pescadô, trabaiá, pegá, fazê, colhê); o uso da labialização e da velarização que podem para as falantes apresentar uma harmonização perfeita de sons. Assim, os elementos prosódicos de usos de monotongação (pexe, cartera, dinherinho, formô, alquere, poco); usos de ditongação (nóis); a omissão de traços da nasalidade em elementos lexicais substantivos e verbos (corage, levanta, uns pagava,); a despalatização (trabaiá, muié), os traços segmentais vocálicos e consonantais na fala destas entrevistadas podem ser interpretados como traços prosódicos, pois o acento de intensidade, duração e ritmo, os fenômenos sociais e culturais estão intrinsecamente ligados a fenômenos lingüísticos.

Nos dados, observados na fala das mulheres pescadoras, fica caracterizada a retenção da variante da marca de plural [Ø]. Nos fragmentos anteriormente citados, observou-se que as palavras que apresentam maior diferenciação da redução do sintagma nominal [-s], aparecem na relação singular/plural do léxico substantivo (corage, algueire, sessenta real) e da omissão do sintagma nominal do léxico do verbo na continuidade de primeira pessoa do plural (passamo, crescimo, comecemo,vamo, fizemo, cheguemo, viremo) e da primeira para a terceira pessoa do plural (nóis coloca, nóis corre). A alternância fônica do sintagma nominal e a redução do [-s ] no léxico verbal na continuidade de pessoa reforça as hipóteses, levantadas por Tarallo (1986) e Naro & Scherre (2003), quando ressaltam que o princípio de saliência fônica, embora seja de base fonética, tem sido constatado em fenômenos morfológicos e não em fenômenos fonológicos Quando do aspecto morfológico, as palavras bimorfêmicas (palavras que admitem outras formas de escrita que concordam com gênero masculino e feminino ou com a conjugação verbal de pessoa e número) situam-se na segunda e principalmente na terceira posição no sintagma nominal de pessoa, na continuidade do léxico verbal, sofrendo a variação lingüística da ausência e, ou redução do [ -s ]. Esta variável deu-se pelo baixo índice de escolaridade, foi fator determinante para alta incidência da ausência da marca na concordância de número nas narrativas individuais das entrevistadas.

 

CONCLUSÕES

Finaliza-se esta reflexão sobre a mulher que trabalha na pesca, reforçando o que diz Portelli, “estes procedimentos da oralidade põem em evidência o trabalho da palavra, da memória, da consciência” (1996, p. 69), através das entrevistas pelas narrativas de experiência de vida.

Este estudo sobre a história oral e as memórias deste grupo de mulheres profissionais que trabalham na pesca, através dos fragmentos de suas falas sobre a rotina de seu cotidiano em suas atividades de pesca, como também, a responsabilidade no trabalho necessário dentro de casa e do cuidado com os filhos, para poder manter social e economicamente a vida familiar, não oferece um esquema de experiências comuns, mas sim um campo de possibilidades compartilhadas de experiências comuns de trabalho que podem ser reais ou imaginárias em seus relatos de experiências, em que cada entrevistada é diferente das outras, mesmo que tenham muitas coisas em comum, buscando em seu processo identitário profissional tanto a própria semelhança como a própria diferença, em relação às outras.

O uso prosódico e as mudanças fonéticas latentes na deriva secular do português brasileiro, desde a vinda dos portugueses, dos africanos e de todas as outras imigrações que no Brasil se enraizaram, apresentam uma hibridização lingüística. Amaral (1955), Silva Neto (1979), Câmara Jr. (1977) e Leite & Callou (2002), em seus estudos mostram que a implementação de mudanças de traços prosódicos, fonéticos e morfossintáticos, como foi observado neste estudo, não altera a relação fundamental que se deve estabelecer com extenso e massivo contato entre línguas que ocorreram no Brasil, principalmente, quando se leva em conta o que é consensual entre os estudiosos da sociolingüística e da pragmática quanto ao uso de elementos prosódicos, a redução/eliminação de traços fonéticos e das flexões nominais e verbais, com a conseqüente variação/eliminação das regras de concordância nominal e verbal. É um dos reflexos mais notáveis nas enunciações de falantes de base-rural, e, neste ensaio em particular, o falar das mulheres que trabalham na pesca.

 

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Notas:

[1] Neste artigo, apresentam-se estudos sobre um grupo de mulheres que trabalha na pesca, investigando um dos objetivos do Projeto de Pesquisa Institucional "O Cenário de pescadores de Guaíra: história, memória e linguagem", sob a coordenação da autora deste artigo, com a participação dos professores do Cepedal: Robson Laverdi, Geni Rosa Duarte do Curso de História e Márcia Sipavicius Seide do Curso de Letras, Linha de Pesquisa Linguagem e Cultura do Programa de Mestrado de Letras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

 

Clarice Nadir von Borstel, professora da Graduação e do Curso de Pós-Graduação do Programa de Mestrado em Letras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Com doutorado em Lingüística, sob a orientação Jürgen Heye, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Pós-Doutorado em Lingüística Aplicada, sob a orientação de Marilda Cavalcanti, pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, Brasil.

 

© Clarice Nadir von Borstel 2008

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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