Quando menos é muitto mais: a poesia de Camilo Mota

Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci

Universidade Federal Fluminense
Brasil


 

   
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Resumen: Comentario sobre la poesía de Camilo Mota
Palabras clave: Camilo mota, poesía brasileña

 

Às vésperas do Natal de 2007, recebi um envelope coral, com um ramalhete de rosas raras: 14 poemas, sendo dois em prosa, à Baudelaire, à Octavio Paz, à Eduardo Galeano, à Juan Arias. Publicado, em 2007, pela Thesaurus Editora, de Brasília, o opúsculo forja-se pela verve de Camilo Mota, mineiro, virginiano (nasceu no mesmo dia que Antônio Carlos Villaça, o maior memorialista brasileiro) que garimpa palavras e extrai ouro, metamorfoseado em signos poéticos. Paisagens de ambos os mundos expõe, pois, a visão poética do mundo, projetada pelo Autor que, contrariamente à sua origem, não exale traços barrocos, antes, pelo contrário, enxuga palavras, elimina adiposidades retóricas e configura constelações de signos essenciais, em que quanto menos retórica tanto melhor para a significância infinda. No entanto, longe de uma dicção dura, aparentada, por exemplo, a um concretismo mal digerido, o discurso poético de Camilo Mota opera uma sensibilidade à flor da palavra, signo privilegiado no discurso humano.

O libreto inaugura-se com o poema metalingüístico “Palavras simples”, que se inicia com o verso leitmotiv “O que vale são as palavras simples”, que se torna um refrão ressignificado: “o que vale são as palavras singelas”, “o que vale são as palavras calmas”, “o que vale são as palavras íntimas”, “o que vale são as palavras e seus gestos”, estruturando a poética do poeta que abraça, com o verbo, o mundo e a humanidade. “Poema para abraçar o amigo” soa como uma canção, um “canto sertanejo”, um contracanto ao poema-canção “Casa no campo”, de Zé Rodrix, hino entoado por toda uma geração hippie. Poema em prosa, vincado de sedutor lirismo, “Valparaíso”, diário poético, traz lembranças, sonhos e a promessa infantil da poesia por (re)nascer. “Aparecida Senhora” ecoa o sentimento místico mineiro e eleva uma prece, dedicada à mãe, em seu altar. Já, em “Luar de Saquarema”, o poeta celebra, a paixão que todos nós, vindos de Minas e de alhures, cultivamos por esta cidade de lagos, mares e montanhas. Bendita seja Saquarema, enluarada, ensolarada, que abriga poetas do insigne jaez de Camilo Mota, Roseana Murray e Walmir Ayala, pai de todos, e que gerou Nelsinho, pintor de suas paradisíacas paisagens. “Oração” reedita o lado religioso da tradição mineira e se inaugura com um par de versos, que constituem um instigante aforismo: “Deus é óbvio,/ mas só enxergamos labirintos”. No meio do opúsculo, uma obra-prima - “Quatro paisagens de ambos os mundos” - que não posso deixar de transcrever por inteiro: “ O silêncio/ faz simetria/ com os girassóis.// O silêncio é risco, trégua e plano. // Réguas, pipetas, balanças,/ métrica alguma o alcança.// Na rua o menino dorme/ sob rotos jornais:/ não sabe ler os próprios sonhos.// Galos dormem/ o mesmo sonho dos homens:/ guardam sob si os pés de prata e ouro”. Temos aí o “Homem de Vitrúvio” em versão poética: a régua, o compasso e o sentimento solidário do mundo miserável, onde sonhos infantis são roubados; sabedor desse poema lapidar, Leonardo da Vinci terá gozado em seu túmulo marmóreo. Texto hipertextual, o poema seguinte - “Lição infinitiva” - retoma o silêncio geométrico do poema anterior e a criança “que aprende a ver o mundo/ como o melhor dos brinquedos”; insere-se um intertexto com outro poeta-prosador mineiro - Guimarães Rosa -, quando se inscreve “o porém das coisas”; um segundo intertexto - “Inocente como a ave que retorna ao ninho” - remete ao carioca Luís Guimarães Júnior, poeta da minha longínqua infância, cujo poema “Visita à casa paterna”, assim se inicia: “Como a ave que volta ao ninho antigo”. “Aniversário mítico” é poema em prosa ou prosa poética, que poderíamos considerar um texto tirado da Bíblia ou, mais especificamente, um fragmento do Gênesis, dado que fala da origem da poesia e das origens de certa poesia: “De longe, um eco lhe devolve o primeiro suspiro ao ver de súbito a essência da vida num dia de sol”. De novo, tange-se a corda mística com “Mãos de luz”, poema pequeno, súbita iluminação que (des)vela o mistério. O próximo poema - “Verdades” - transtorna o ritmo até então impresso e tem um tom coloquial, prosaico, quase banal, demonstrando que o poeta é um ser humano, demasiadamente humano, “um ser comum,/ que trabalha, sonha, permanece e ama”. Para além da paternidade poética comum, os três derradeiros poemas apresentam significativas semelhanças: “Exílio” é dedicado ao pai - João de Deus (que belo nome) -, ao passo que “Lírica no. 1” é endereçado a Regina (esse nome latino traduz-se, no vernáculo, por “rainha”) Mota, esposa do poeta enamorado; o poema final intitula-se “Canção do exílio”, onde o paradigmático “exílio” é retomado. Em “Exílio”, resgata-se a memória ancestral do pai, retratado em lembranças místicas, rurais e saudosas: “ A memória do pai é uma multidão de dias não contados”. Ao contrário da psicanálise mais ortodoxa, que decreta a morte do pai, a Poesia ressuscita o pai, repertório de sonhos, ficções, horizontes. Por seu turno, “Lírica no. 1” me exige, tamanha a beleza, uma inscrição por inteiro nesta, nesta minha resenha natalina: “a mulher que me anima/ se aninha a meu lado/ pedindo passagem / ao desejo e ao sonho/ será eva ou ninfa,/ cantora de sortilégios?/ ela se despe/ como um soneto/ ao sol/ mistérios de olhos límpidos”. Aposto que, lá no Olimpo, Walmir Ayala chora cada vez que lê esse sublime poema, metalingüístico, erótico, plástico, arquetípico. Ópera breve, o libreto fecha-se com “Canção do exílio”, título emblemático do poema romântico de Gonçalves Dias, o poema mais glosado de toda a literatura brasileira. Essa releitura pós-moderna estrutura-se, como a poética de Camilo Mota, sob a égide da metalinguagem. Referindo o romantismo, estética inaugural da identidade cultural e literária nacionais, essa canção do exílio saquaremense reassume a poética do jovem poeta e reenvia ao romântico francês Lautréamont, pai de todos os surrealistas, “leitura obrigatória”. Foi esse “conde” da modernidade quem criou o eufórico aforismo: “A poesia deve ser feita por todos, não por um”.

Se o universo é uma linguagem e se Mallarmé, de acordo com Octavio Paz, mostra-nos o reverso da linguagem, Paisagens de ambos os mundos, de Camilo Mota, apresenta florações da linguagem, constituindo uma antologia, com peregrinas rosas para cada Natal, enquanto a Poesia insistir, para o bem de todos, em renascer.

 

Latuf Isaias Mucci: professor dos Programas de Pós-Graduação em Letras e Ciência da Arte, da UFF. Poeta, ensaísta, crítico de arte.

 

© Latuf Isaias Mucci 2008

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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