A estética machadiana no conto " Pai contra mãe"

Izaura da Silva Cabral [1]


 

   
Localice en este documento

 

Resumo: Este trabalho analisa a estética machadiana no conto Pai contra mãe, uma pequena parcela da produção deste grande autor, mas que é rica em dados que mostram como ele constrói a sua ironia. Essa construção pode ser percebida através dos subsídios que estruturam essa narrativa. Machado ao construir este conto utilizou elementos que acentuam o tom irônico de suas palavras, isso se torna necessário, uma vez que o conto, enquanto gênero, é caracterizado por ser uma narrativa breve e cuja ação é inerentemente curta. Através da análise dos elementos semânticos, da ambivalência no texto machadiano, responsável pela comparação com o Cândido de Voltaire, do pessimismo e dos aspectos da estrutura narrativa como a perspectiva do narrador, a construção do nome das personagens e a função que a protagonista desempenha dentro do enredo, mostramos como o autor consegue a apresentação de uma ironia rica, trabalhada minuciosamente, a fim de que nenhum aspecto do texto se desvie do propósito dele, que é criticar as várias facetas do ser humano e do sistema social vigente na época em que a narrativa foi escrita.
Palavras chave: Literatura brasileira - Conto machadiano - Estética da ironia

Resumen: Este trabajo analiza la estética machadiana en el cuento Pai contra mãe, una pequeña parte de la produción de este gran autor, y es rica en datos que muestran como él construye su ironía. Esa construcción puede ser percibida a través de los subsídios que estructuran esa narrativa. Machado al construir este cuento utilizó elementos que acentúan el tono irónico de sus palabras; eso se convierte en una necesidad, una vez que el cuento, en cuanto género, es caracterizado por ser una narrativa breve y cuya acción es inherentemente corta. A través de la análisis de los elementos semánticos, de la ambivalencia en el texto machadiano, responsable por la comparación con el Cándido de Voltaire, del pesimismo y de los aspectos de la estructura narrativa como la perspectiva del narrador, la construcción de los nombres de las personajes y la función que la protagonista desempeña dentro del enredo, mostramos cómo el autor consigue la presentación de una ironía rica, trabajada minuciosamente, a fin de que ningún aspecto del texto de desvíe del propósito de él,que es criticar las varias facetas del ser humano y del sistema social vigente en la época en que la narración fue escrita.
Palabras clave: literatura brasileña - Cuento machadiano -Estética de la ironía

 

“A ironia é dizer alguma coisa de uma forma que ative não uma, mas uma série infindável de interpretações subversivas” (MUECKE, D. C)

 

A opção pelo conto Pai contra Mãe de Machado de Assis, justifica-se por ser uma representação de uma parcela importante da produção literária do autor e por sua característica enquanto gênero, que deixa registradas maneiras de análise e certa visão dos fatos. Através da análise de elementos como a ambivalência no texto machadiano, responsável pela comparação com o Cândido, de Voltaire, o pessimismo e os aspectos da estrutura narrativa como a perspectiva do narrador, a construção do nome das personagens e a função que a personagem principal desempenha dentro do enredo, pretendemos mostrar como a ironia se constrói em uma narrativa breve, cuja ação é inerentemente curta, com um número reduzido de personagens, também como o leitor poderá construir uma compreensão a partir da leitura deste conto.

Para Muecke, “a ironia é dizer alguma coisa de uma forma que ative não uma, mas uma série infindável de interpretações subversivas” [2]. Também segundo Teixeira [3], o texto de Machado apresenta realmente uma característica de ambivalência, que produz esta série de interpretações: “a ambivalência é, pelo que temos visto uma das principais características do texto maduro de Machado de Assis”, para ele a frase machadiana “é extremamente maliciosa”, contendo raramente um único significado. E essa forma mais elementar de ambivalência chama-se ironia, pois, conforme este autor, é a “figura que, em sentido restrito, consiste em sugerir o contrário daquilo que se afirma”, assim nós podemos dizer tratar-se de “uma inadequação voluntária e astuciosa entre a forma e o conteúdo de um enunciado, isto é, um contraste entre a aparência e a essência do que se diz”.

Essa ambigüidade machadiana faz com que o seu texto não aponte apenas para uma compreensão, pois como nos diz Kleiman, “o texto não é um produto acabado que traz tudo pronto para o leitor receber de modo passivo” [4]. Cabe, então, a este leitor verificar se as suas expectativas vão ao longo da leitura do texto sendo confirmadas ou refutadas, porque ainda, como nos diz a autora, “uma das atividades do leitor, fortemente determinada pelos seus objetivos e suas expectativas, é a formulação de hipóteses de leitura”.[5]

Assim, para a compreensão de um texto, como este conto, que possui uma estrutura de compreensão mais aberta, que permite a construção de interpretações distintas, variando de leitor para leitor, há a exigência de um maior esforço deste, pois como nos diz Paulino, “quanto mais aberto é um texto, mais exige investimento do leitor” [6]. Além disso, para o autor “o texto exige do leitor várias competências, como a ligada aos conhecimentos prévios: da língua, de texto e de mundo”.[7]

Através da análise de alguns elementos deste conto podemos observar como essa ironia se constrói em Machado. Pessimista e irônico denunciava os interesses que se escondiam sob as ações aparentemente nobres penetrando no íntimo das personagens, revelando-lhes uma vida interior intensa na tentativa de compreender o ser humano e suas atitudes: “amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar” [8]. Aqui revela ao leitor o verdadeiro motivo de as amigas de Clara, lutarem para que ela não se casasse, parecia ser pelo nobre motivo “amizade”, já que o futuro noivo não era muito apegado ao trabalho e “dado em demasia a patuscadas” ·. Como amigas não gostariam de vê-la sofrendo. Mas, o verdadeiro motivo oculto sob essa ação era a “inveja” por não terem um pretendente sequer.

O narrador do texto é outro elemento importante para a construção da ironia nesta narrativa. Em terceira pessoa, a sua perspectiva aproxima o leitor do tempo e do espaço através de relatos históricos sobre os fatos que envolviam a escravidão, como na descrição das crueldades das quais os escravos eram vítimas. Pareciam ser transformados em coisas, deixando de ser humanos. Por exemplo, quando fugiam “grande parte era apenas repreendida; havia alguém em casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, por que dinheiro também dói” [9]. O escravo, essa coisa, objeto, mesmo quando fugisse, não poderia sofrer muitos castigos, já que estes poderiam impedi-lo de prestar os serviços necessários a seu senhor, inutilizando-o, causando assim, grande prejuízo. Quando o narrador comenta “nem todos gostavam da escravidão” e “nem todos gostavam de apanhar pancadas”, qual pessoa gostaria de viver em completa escravidão, à mercê dos mandos e desmandos de alguém e, ainda por cima, levar algumas pancadas? Com sua ironia, parece que é ele, quem dá uma pancada nesse sistema de escravatura.

Segundo Teixeira, outra forma da ambivalência em Machado é a intertextualidade. Para o autor esse tipo de ambivalência é estabelecido através da relação intencional entre o texto que se escreve num dado momento e os outros que o antecederam na história da cultura. Podemos dizer que, trata-se, então, de um diálogo entre um texto do presente e um texto do passado. A intertextualidade é ambivalente porque aponta ao mesmo tempo em duas direções: para a vida concreta das personagens e para os símbolos da tradição literária. Grande parte dos textos machadianos é marcada por essa simultaneidade de significados, fenômeno ao qual se dá o nome de dialogismo ou polifonia. Não é difícil antever as dificuldades para uma leitura correta do estilo dialógico ou polifônico -, tão abrangente nas mãos de Machado de Assis, pois através desse procedimento ele, de alguma forma, incorpora a seus textos toda a história da humanidade. E tal diálogo se estabelece, via de regra, de modo irônico e contestatório. [10]

Essa questão, do diálogo do texto machadiano com outros textos, podemos perceber através do processo de construção da personagem principal, Cândido, que do latim significa “alvo”, “puro”, “imaculado” [11]. Nome que foi grandemente popularizado pelo título de um livro de Voltaire, sátira ao otimismo de Leibniz, então em voga, que nos diz que nos encontramos no melhor dos mundos possíveis. É pertinente a comparação do Cândido de Voltaire e o de Machado, já que ambos são responsáveis por ironizar uma idéia vigente ou um sistema: um o otimismo desenfreado; e outro, o sistema da escravidão em que negros são tratados como objetos e não como seres humanos. Podemos dizer que os dois Cândidos estão longe de demonstrar que o mundo em que vivem é o melhor dos mundos possíveis.

O protagonista da obra de Voltaire é também chamado Cândido, o otimista, já que atravessa um sem fim de desventuras e sempre busca encontrar o lado positivo da situação, seguindo os ensinamentos de seu mestre Panglós. O seu caráter é o reflexo de sua alma, é sensível, apaziguador e sensato: “o seu rosto era o espelho da alma. Era de entendimento claro e espírito simples; e creio que foi essa a razão por que lhe deram o nome de Cândido” [12]. Aqui podemos dizer que reside a ironia do Cândido machadiano, pois seu caráter não revela nenhuma candura, antes pelo contrário mostra-se insensível ao aborto da escrava, é extremamente desumano arrastando-a pelas ruas até a casa do seu senhor, pois o que realmente importa para ele é conseguir alcançar o seu propósito, que é ficar com o seu filho. O egoísmo é sua marca principal.

A idéia de progresso e perfeição na obra de Voltaire está basicamente ligada ao trabalho: “quando o homem foi posto no jardim do Éden, foi ali posto para trabalhar, ut opereratur eum, o que prova que não foi criado para repouso” [13]. Este faz um homem tornar-se perfeito, além de dar-lhe melhores condições de vida, ou seja, ninguém é realmente feliz até que comece a trabalhar. Extremamente irônico, Machado constrói um Cândido que tem uma aversão ao trabalho, para ele todo oficio é custoso, além disso, muitas vezes, quem trabalha não recebe o que merece. Assim seus “empregos foram deixados pouco depois de obtidos" [14]. Então lhe restou o oficio de pegar escravos fugidos, já que este estava destinado aos inaptos para outros trabalhos, como era o seu caso. Ele, porém, tinha necessidade de estabilidade, e considerava isso má sorte ou infelicidade constante, ao contrário do Cândido de Voltaire, sempre otimista. Este, todavia, no fim da obra aceita que é mais importante a ação sobre a reflexão filosófica. Melhor que ficar pensando nos dramas existenciais é colocar-se a trabalhar, pois só o trabalho pode ser o remédio para muitos males, o que não pensa o nosso Candinho.

É conveniente também citar a ironia presente na construção das outras duas personagens do conto. Clara, cujo nome do latim significa “brilhante”, “luzente”, “ilustre”, além da tonalidade, seu nome é ligado ao brilho (de distinção). Distinção essa não revelada por sua personalidade que mesmo em meio à perda de seu filho, não esboça nenhuma reação e é sempre submissa aos desmandos da tia. Mônica, a tia, significa só, sozinha, viúva, o que não acontece no texto, pois está, geralmente, perto do casal, abrigando-os, participando de suas decisões, opinando, não fica sozinha vive em companhia dos dois.

Para dar verossimilhança aos fatos e reforçar a ironia à escravatura e à diminuição dos seres, o espaço ambiente, na cidade do Rio de Janeiro, é fundamental, pois sabemos que os nomes das ruas em que se desenrola a ação, são nomes reais, e que muitos são os mesmos até hoje. Fato que torna essa narrativa extremamente passível de verossimilhança externa.

Segundo Teixeira [15], Machado de Assis apresenta um pessimismo, cuja fonte está em Schopenhauer, pensador alemão, que afirmava que a essência do universo é a vontade ou o querer, entidade da qual emana a parte verdadeira dos indivíduos. Mas a vontade, tanto em estado cósmico quanto individual, é má, pois provoca a agitação, o egoísmo, o ciúme. Por isso a nossa personagem principal age como age, coloca a sua vontade de continuar com o filho acima de qualquer outra coisa, por isso é levado a agir com egoísmo, luta corpo a corpo com a escrava para poder entregá-la a seu senhor, e receber o dinheiro da recompensa, sem ao menos pensar que poderia agir de outra forma para não maltratá-la, já que estava grávida.

Vladimir Propp, em Morfologia do conto maravilhoso, conceitua como função da personagem na narrativa o “procedimento de um personagem, definido do ponto de vista de sua importância para o desenrolar da ação” [16]. Relaciona trinta e uma funções ao estudar, pormenorizadamente, contos populares russos, porém, identificamos algumas destas facilmente no conto de M. de Assis. Através delas podemos perceber como se desenrolou a ação da personagem principal, dentro de um enredo curto, sendo ele um pai que vai lutar para continuar com seu filho, a ironia aqui consiste em não ser a mãe a responsável por essa luta, já que em nossa concepção, a mãe é mais ligada ao filho, por isso mais difícil perdê-lo.

Na primeira função, definida por Propp como afastamento, podemos salientar a tentativa de Candinho em deixar o ócio em que vivia e aprender um ofício, já que agora estava apaixonado por Clara e queria ter em que trabalhar quando casasse.

Na VI, definida como ardil, o Cândido Neves sofreu com as interferências da Tia Mônica que era contra o casamento da sobrinha com a nossa personagem e também das amigas de Clara que “tentaram arredá-la do passo que ia dar”.

Em XII, que trata da reação do herói, Candinho ficou muito triste por que agora ele tinha um filho para sustentar, as dificuldades aumentaram e ele, que agora virara caçador de escravos fugitivos, não conseguia empreitada que lhe rendesse algum dinheiro.

Na função XIV, o herói luta para conquistar um objeto, quando a nossa personagem descobriu em suas notas de escravos fugidos o anúncio da fuga de uma mulata em que a gratificação subia a cem mil-réis, achar a escrava seria a salvação, não teria que entregar seu filho à roda de enjeitados como queria a tia de sua mulher: “agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves. Saiu de manhã a ver e indagar...”.

Podemos salientar também a presença da função XXI, definida como perseguição quando Cândido, ao ir entregar seu filho, encontrou por acaso a escrava fugitiva, deixou o filho em uma farmácia e saiu em sua perseguição: “atravessou a rua, até o ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma”.

Na XXVI, a tarefa é realizada e, na XXVII, o herói é reconhecido. A nossa personagem captura a escrava, entrega-a a seu dono, e recebe a recompensa e volta para casa entre lágrimas com seu filho nos braços. Tia Mônica que não queria saber da criança, ouve a explicação e perdoa a volta do pequeno, uma vez que ele trazia um bom dinheiro para a subsistência da família.

Tendo em vista os aspectos observados, somos levados a crer que Machado ao construir este conto utilizou elementos que acetuam o tom irônico de suas palavras. Pois o conto, enquanto gênero, caracterizado por ser uma narrativa breve e cuja ação é inerentemente curta deve ser bem objetivo, sem muitos rodeios. Através da análise dos elementos semânticos, da ambivalência no texto machadiano, responsável pela comparação com o Cândido de Voltaire, do pessimismo e dos aspectos da estrutura narrativa como a perspectiva do narrador, a construção do nome das personagens e a função que a personagem principal desempenha dentro do enredo, esperamos ter conseguido mostrar como o autor consegue a apresentação de uma ironia extremamente rica, trabalhada minuciosamente, a fim de que nenhum aspecto do texto se desvie do propósito dele que é criticar as várias facetas do ser humano e do sistema social vigente na época em que este conto foi escrito.

 

Notas:

[1] Mestre em Letras - Leitura e Cognição, artigo apresentado à disciplina de Estética e cognição (UNISC).

[2] MUECKE, D. C. Ironia e o irônico. São Paulo: Perspectiva, 1995, p.48.

[3] TEIXEIRA, Ivan. Apresentação de Machado de Assis. Martins Fontes: São Paulo, 1988, p. 80.

[4] KLEIMAN, Ângela. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. 8. ed. Pontes: São Paulo, 2002, p. 36.

[5] Ibidem, p. 36.

[6] PAULINO, Graça; WALTY, Ivete; FONSECA, Maria N.; CURY, Maria Zilda. Tipos de texto, modos de leitura. Formato: São Paulo, 2001, p. 38.

[7] Ibidem, p. 38.

[8] ASSIS, Machado. Contos definitivos. Porto Alegre: Novo Século, 1998, p. 82.

[9] Ibidem, p. 80.

[10] TEIXEIRA, p. 81, passim.

[11] COSTA, Camille Vieira. Dicionário de nomes próprios. 3. ed. São Paulo: Traço, 1988. O significado dos nomes das personagens foi retirado deste dicionário.

[12] VOLTAIRE. Cândido. Publicações Europa-America, 1973, p. 11.

[13] Ibiden, p. 145.

[14] ASSIS, Machado, p. 81.

[15] TEIXEIRA, Ivan, p. 76, passim.

[16] PROPP, Vladimir. Morfologia do conto maravilhoso. Rio de Janeiro: Forense - Universitária, 1984, p. 26.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSIS, Machado. Contos definitivos. Porto Alegre: Novo Século, 1998.

COSTA, Camille Vieira. Dicionário de nomes próprios. 3. ed. São Paulo: Traço, 1988.

KLEIMAN, Ângela. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. 8. ed. Pontes: São Paulo, 2002.

MUECKE, D. C. Ironia e o irônico. São Paulo: Perspectiva, 1995.

PAULINO, Graça; WALTY, Ivete; FONSECA, Maria N.; CURY, Maria Zilda. Tipos de texto, modos de leitura. Formato: São Paulo, 2001.

PROPP, Vladimir. Morfologia do conto maravilhoso. Rio de Janeiro: Forense - Universitária, 1984.

TEIXEIRA, Ivan. Apresentação de Machado de Assis. Martins Fontes: São Paulo, 1988.

VOLTAIRE. Cândido. Publicações Europa-America, 1973.

 

© Izaura da Silva Cabral 2008

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

El URL de este documento es http://www.ucm.es/info/especulo/numero38/paimae.html