As máscaras afiveladas:
a representação literária em Memórias póstumas de Brás Cubas

Márcio Roberto Soares Dias

Departamento de Estudos Lingüísticos e Literários - DELL
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB
Fundação de Ampara à Pesquisa do Estado da Bahia - FAPESB
marcio@uesb.br


 

   
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Resumen: Este artículo busca analizar las Memorias Póstumas da Brás Cubas, del escritor brasileño Machado de Assis, desde dos elementos dominantes en su obra: la alma y la sociedad. Dentro de un estilo original, su trabajo de elaboración consciente escruta la alma humana con una profundidad sin par, exponiendo las verdaderas razones de los actos y comportamientos socialmente aceptados y aprobados. En virtud de su visión del mondo hondamente reflexiva y crítica, él logra infundir en sus escritos un sentido psicológico vigoroso, cuya profundidad analítica, enunciada a través de una lenguaje incisiva trae para su texto un timbre característico de verosimilitud. En las Memórias póstumas de Brás Cubas está representado el contexto social de su época, con sus valores y sentido ético vacilantes, por medio del desfile de personajes comúnes, en un cotidiano gris.
Palabras clave: Machado de Assis, representación; sociedad; literatura brasileña

Resumo: Este artigo procura analisar as Memórias póstumas de Brás Cubas, do escritor brasileiro Machado de Assis, a partir de dois elementos atuantes na sua obra: a alma e a sociedade. Dentro de um estilo original, o seu trabalho de elaboração consciente, devassa a alma humana com uma profundidade ímpar, pondo em descoberto os reais motivos dos atos aceitos e aprovados em sociedade. Em virtude de sua visão de mundo intensamente reflexiva e crítica, consegue imprimir em seu trabalho um senso psicológico adensado, cuja penetração analítica, expressa numa linguagem incisiva, traz um timbre característico de verossimilhança para seu texto. Nas Memórias póstumas de Brás Cubas está representado o contexto social de sua época, a sociedade moderna, com seus valores e senso ético vacilantes, por meio do desfile de personagens comuns, num cotidiano cinza.
Palavras-chave: Machado de Assis, representação; sociedade; literatura brasileira

 

Primeiras considerações

Em literatura, uma questão sempre causou desconforto, tanto para o artífice quanto para o leitor - o condicionamento social e suas implicações nos efeitos de verossimilhança. Tanto que já houve quem achasse que as verdades expressas pelo texto poético haviam de ser sobrecarregadas para se alcançar o verossímil. Mas as relações entre ficção e sociedade são mais ambíguas do que pode parecer à primeira vista. Em primeiro lugar, já não há mais espaço para aquela velha concepção que cria que o valor ou o significado de uma obra derivava do fato de ela exprimir ou não determinado aspecto da realidade - ao cúmulo de se pensar que tal aspecto era o que ela tinha de essencial. Por outro lado, não se pode também considerar que a matéria de uma obra é secundária, e que todo seu peso advém dos aspectos formais utilizados na composição, desenraizando-a de quaisquer condicionamentos, mesmo - e principalmente - dos sociais. Ora, hoje em dia, chega-se à conclusão de que a incolumidade da obra de arte literária só pode ser preservada se não se tomar qualquer dos posicionamentos acima dissociados (CÂNDIDO, 1985, p 3-4). Em outras palavras: texto e contexto amalgamados formam a base para qualquer tipo de investigação interpretativa da obra de arte literária. É com esse direcionamento que este trabalho aborda as relações entre literatura e sociedade, a partir da obra Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Como para o Autor, vai importar também ao analista ver o meio social despido da mística enfatizadora, ou de idealismos evasivos.

 

O corte da renovação

Basta às vezes uma linda casa que se herde, um belo cavalo ou um lindo cão que se venha a possuir, uma tapeçaria, um pêndulo, para aliviar uma grande dor e fazer que se sofra menos uma grande perda .[1]
La Bruyère, Os caracteres.

Caso se queira, por um ou outro motivo, definir em uma palavra apenas a posição ou o papel de Machado de Assis na Literatura Brasileira, talvez a mais apropriada seja “renovador”. Não simplesmente porque engendrou na nossa narrativa um tom mais verossímil e sem retoques supérfluos. Mas principalmente porque conseguiu imprimir-lhe um senso psicológico admirável, alcançando uma densidade e uma penetração analíticas notáveis, frutos de uma visão de mundo visceralmente reflexiva e crítica. De acordo com José Guilherme Merquior, coube a Machado de Assis o papel de introdutor da “perspectiva problematizadora” nas letras brasileira. Essa nova maneira de abordar o texto literário surge como uma resposta à precariedade dos valores e da ética que a sociedade moderna apresenta. Como, então, não houvesse uma estabilidade de valores, “a literatura, no seu papel de interpretação da vida por meio da palavra, passou a procurá-los; daí ter ela assumido uma visão problematizadora” (p. 97). Em outras palavras, a partir dos romances e contos da maturidade, Machado de Assis inaugura essa possibilidade de introjetar a reflexão crítica do destino sem grandeza do homem comum, sempre à mercê da mesquinhez humana e da debilidade do indivíduo. Em verdade, os infortúnios e fraquezas do homem moderno, embora sejam colhidos em forma “bruta” a partir de indicativos do seu cotidiano, são analisados através de uma postura crítica construída ao longo de anos de leituras e reflexões. O dia-a-dia constitui-se, pois, numa fonte perene para extração de material ainda cru, com o qual constrói o mosaico mais representativo da vida humana em sociedade.

Nessa perspectiva, o Escritor perscruta, de forma aguçada, pessoas e ações. A ação pura e simples, no entanto, não é o ponto relevante. Importa mais as razões sociais e particulares que levam os indivíduos a agirem de uma determinada maneira. Em Machado, já é lugar-comum dizer-se que essa perspicácia do observador acurado traz no íntimo da análise formulada um travo de ceticismo, a mais das vezes, expresso através de um humor e de uma ironia filtrados lentamente em forma de frases curtas e de longo alcance. Nesse espírito nascem as Memórias póstumas de Brás Cubas, ou antes, nasce o próprio Brás - talvez a maior “metáfora social” de Machado de Assis.

 

O manejo do distanciamento

O que se diz comumente, que a vida é uma representação cênica, verifica-se sobretudo no fato de que o mundo fala constantemente de um modo e age constantemente de outro
Leopardi, Pensamentos.

Costuma-se dizer que o romance Memórias póstumas de Brás Cubas é uma espécie de divisor de águas entre duas fazes da obra de Machado de Assis: a primeira, dita romântica; e a segunda, denominada de realista, ou da maturidade. Essa divisão - que muitos chamam de didática - dá a falsa impressão de que o Escritor, num súbito acesso de amadurecimento ocorrido em determinado momento de sua vida, tivesse simplesmente voltado as costas para tudo que até então escrevera e decidira, do dia para a noite, dar uma guinada violenta em sua maneira de analisar e interpretar a vida, representada em seus escritos. De qualquer maneira, parece sensato dizer que o escritor Machado de Assis amadureceu. Entretanto, parece igualmente razoável enxergar esse amadurecimento como uma corrente contínua e gradual que perpassa toda sua obra, desde os primeiros escritos até o Memorial de Aires. Porque as Memórias póstumas de Brás Cubas, por si só, não representam o início do amadurecimento - na verdade, como assevera Alfredo Bosi (s/d. p. 196) “o salto qualitativo das Memórias póstumas foi lastreado por alguns textos escritos entre 1878 e 1880, verdadeiro intróito à prosa desmistificaste do defunto-autor”. Também, por outro lado, o amadurecimento do autor do “Elogio da Vaidade” não ficaria representado apenas por aquele romance, porque

o Machado que se indignara, quando jovem cronista liberal, ante os males de uma política obsoleta, foi mudando nos anos de maturidade o sentido do combate, e acabou abraçando como fado eterno dos seres o convívio entre egoísmos, até assumir ares de sábio estóico na pele do Conselheiro Aires. Quer dizer: veio-lhe sempre do espírito atilado um não ao convencional, um não que o tempo foi sombreando de reservas, de mas, de talvez, embora permanecesse até o fim como espinha dorsal de sua relação com a existência. (BOSI, p. 96)

Naturalmente, esse amadurecimento contínuo manifestou-se primeiro no homem Machado, que, presumivelmente a partir de uma construção existencial ligada a leituras e estudos de pensadores vários (o que hoje chamaríamos de história das idéias ou das mentalidades), reconheceu como inexorável destino do Ser o eterno convívio entre a mesquinhez e o egoísmo humanos (Cf.: BOSI, 2000). Mas, se por um lado, desde cedo o homem - já despido das ilusões - pôde operar essa reestruturação original da visão da existência, o artista, por outro, não soube encontrar imediatamente a forma ficcional de expressá-la, de maneira a desnudar as próprias criaturas. Como já foi dito, antes de encontrar as soluções estéticas capazes de exprimir com plenitude essa nova atitude diante da vida, o Escritor fez um verdadeiro exercício com textos escritos principalmente nos anos 1878-80 e que seriam, de certa forma, uma espécie de preâmbulo daquilo que produziria a partir das Memórias póstumas. Em verdade, faltava ao artista desenvolver a habilidade de manejar o distanciamento. Ou seja: dar a palavra ao defunto-autor significou criar todo um estatuto ficcional que pudesse servir de base para a exposição indiferente - e cínica - da história dos homens. Nesse sentido, esse romance torna-se uma obra inusitada. Pois renova - quem sabe revoluciona... - dois aspectos importantes da representação literária da época no contexto brasileiro. No campo formal, por um lado, a adoção do estilo memorialista, com a conseqüente adoção do personagem-autor e o uso da primeira pessoa, vai abalar indelevelmente a concepção do narrador onisciente, que se coloca acima de tudo e de todos, a tudo vendo e a tudo julgando, para deixar emergir a consciência nua do indivíduo fraco e incoerente, mas que tem nas “mãos” o poder de, através de seu próprio olhar, construir-se enquanto sujeito, revelar ao leitor os outros personagens através de sua própria ótica, e reconstruir o passado (já que o seu texto é uma retrospectiva de sua vida) de acordo com a sua subjetividade ou intencionalidade. No campo das idéias, por outro lado, há um corte duplo: por um lado vê-se o desprezo às idealizações românticas; por outro, a agudeza da observação dá-lhe a sutileza para não se perder nos determinismos cientificistas de estreitas visão e observância dos naturalistas.[2]

De fato, o ângulo de visão que relata uma experiência pessoal na categoria de autobiografia tende, em tese, a alargar as fronteiras da ficção, ao tempo que encorpa a sensação de verossimilhança. Pois o artifício do personagem-autor tem, pelo menos, dois implicantes decisivos para a economia do romance: em primeiro lugar, por estar relatando algo que experimentou, ele tem o poder de sintetizar e singularizar essa experiência que, em essência, é sua. Em segundo lugar, por ser essa a experiência de que tomou parte como sujeito ou observador, ele pode lançar mão da faculdade de generalizá-la como “a totalização da condição humana” (CASTELLO, 1969, p. 86). No caso específico das Memórias póstumas de Brás Cubas, o ângulo de visão é ainda mais característico. Pois a situação inusitada e exclusiva de ser delegada a um defunto a função de expor, por meio do relato retrospectivo de sua existência, a história dos homens tem conseqüências bem marcantes. Como está morto, o que o torna cinicamente indiferente à suscetibilidade dos vivos - e à dos mortos (ele próprio incluindo-se neste último grupo) - o distanciamento que se opera entre a ação de relatar e o universo dos fatos relatados é pleno.

Entretanto, essa questão do distanciamento, como aponta Alfredo Bosi em seu livro Machado de Assis: o enigma do olhar, acabou por conduzir uma vertente da crítica, no intento de realizar a exegese desses romances em primeira pessoa, a engendrar uma suposição no mínimo polêmica. Postulou-se a possibilidade de haver nessas obras uma perspectiva bipartida. Haveria, de um lado, uma consciência autoral pela qual Machado de Assis exporia sua visão de mundo. De outro lado, teríamos um foco narrativo explícito, que não seria próprio do autor, mas sim de um narrador embusteiro cuja principal função seria a de ludibriar o leitor, “sugerindo o que o autor não diria, pensando o que o autor não pensaria e omitindo as reais intenções do seu criador”[3].

À primeira vista, parece de bastante argúcia essa conjectura. No entanto, a generalização indiscriminada, como alerta Bosi, pode fazer o estudioso de literatura enveredar por caminhos bem pouco seguros. Sem falar na própria vacilação do leitor comum. Pois se ele, leitor, abraça essa hipótese,

o dilema reponta a cada momento. Em face de um determinado passo do romance, as percepções e os sentimentos declarados do narrador são confiáveis e colam aos do autor? Ou, ao contrário, o autor malicioso teria aqui engendrado uma voz narrativa que daria pistas falsas das quais o romancista, no segredo da sua consciência, divergiria eticamente? O narrador mente, de propósito, e só o autor e alguns leitores mais avisados conhecem a verdade verdadeira e historicamente irrefutável? Mas onde essa duplicidade é inconteste? E onde ela não teria cabimento? Como e o quê escolher no interior do romance? Quem engana não o faz sistematicamente, caso em que bastaria pensar o inverso do que está dito para conhecer o certo. (BOSI, 2000, p. 38)

No início deste artigo, já se anunciavam a perspicácia de Machado para observar e analisar a sociedade brasileira de sua época, e o tom amargo de seu ceticismo. Portanto, ao que parece, crer na possibilidade de uma perspectiva bipartida (a do autor vs. a do narrador) pode conduzir a uma falsa impressão a respeito da própria amplitude da visão de Machado. Afinal, o discurso de Brás Cubas deriva de uma percepção de mundo que seu criador construiu ao longo de anos de leituras e também de vivências. A bem da verdade, e como já foi mencionado anteriormente, o contexto em que Machado de Assis viveu serviu-lhe mais com matéria “bruta”, ou como palco onde pudesse fazer encenar um drama humano tão fluminense, quanto universal. O mundo que se vê nas Memórias póstumas, com todos os seus personagens desfilando uma existência de aparência, sobressai, é verdade, através do desenho de uma sociedade injusta e espúria. Essa visão de sociedade, entretanto, que traz em si um complexo de valores, conceitos, postura existencial, ao que parece, está relacionada ao campo da história das mentalidades, cujos marcos cronológicos, no caso de Machado de Assis, não se podem delimitar tão facilmente, apesar de termos algumas indicações a respeito de algumas das leituras feitas pelo autor de Helena.

 

As máscaras

“Em todas as profissões e em todas as artes, cada um faz para si uma aparência e um exterior que ele põe no lugar da coisa cujo mérito quer obter; de sorte que o mundo todo não é composto senão de aparências e é em vão que trabalhamos para nele encontrar alguma coisa real.”
La Rochefoucauld, Reflexões ou sentenças e máximas morais.

É razoável também dizer que Machado teve a máxima perspicácia para observar com atenção o amor-próprio dos homens a transformar a vaidade - a velha “nomeada” - no motor de impulso das ações. Por isso, o que seria opção acabou por se afirmar como imperativo: fazer emergir as sensações e os estados (às vezes antagônicos) de consciência, para revelar à luz aquilo que se esconde muito abaixo das camadas superficiais do próprio pensamento - as forças do inconsciente. Não esquecendo, é claro, o arbítrio da realidade, expresso invariavelmente através de uma ironia resgatada ao cotidiano, recurso esse que anula quaisquer possibilidades de desvios pelo cientificismo pretensioso da época. Assim, “o romance de Machado (...) desenvolveu essa linha de análise das máscaras que o homem afivela à consciência tão firmemente que acaba por se identificar com elas” (BOSI, 2000, p. 198-99). Porque no convívio com o egoísmo humano,

o olhar da opinião, os contrastes dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo.[4]

O narrador justifica, pois, o tal “fenômeno curioso” de afivelarem-se as máscaras. Mas, com o mesmo cinismo, também não se furta a denunciá-las, por mais “que espante ao leitor a franqueza (...); advirta que a franqueza é a primeira virtude de uma defunto” (p. 45). Pois apenas em sua condição sui generis, pode arrancar o seu próprio disfarce e o dos outros, já que não está mais à mercê da “vida”. É lógico que essa postura pessimista diante da visão “embaçada” do homem é fruto mais de uma mente - e aqui a referência é a Machado - que visitou o mundo de pensadores vários (Maquiavel, Pascal, Leopardi, Adam Smith, Matias Aires, etc), que sugestões de seu meio social. A propósito, o trecho abaixo pertence a Schopenhauer, mas a semelhança com o discurso de Brás Cubas não é coincidência:

Muitos ficariam admirados se vissem do que se compõe a consciência moral, que lhes parece tão imponente: cerca de um quinto de temor aos homens, um quinto de temor aos deuses, um quinto de preconceito, um quinto de vaidade e um quinto de costume; de modo que ninguém é melhor no fundo do que aquele inglês que disse francamente “I can’t afford to keep a conscience”.

Apesar desse desdém que expressa, o defunto memorialista insiste em estabelecer uma comunicação, um diálogo direto com o seu leitor potencial. Ao mesmo tempo, também fala à sua própria consciência. E, em ambos os casos, faz sem melindres ou meias-palavras. O que em hipótese alguma quer dizer que o romance envereda pelas facilidades do relato linear, tão ao gosto dos naturalistas. Ao Contrário. Não há no texto uma linearidade rígida, justamente porque o que é exposto é a “subjetividade decadente” (MERQUIOR, 1979, p. 87) do personagem. As suas memórias são, em suma, a história de um homem comum, igual a tantos outros de sua classe: um irresponsável desfrutador.

A análise das “máscaras”, como foi dito anteriormente, é facilitada pela condição singular do narrador das Memórias - o que lhe faculta falar à sua consciência sem quaisquer rodeios. E o fato de explicitar-se, assim sem recalques, põe em relevo um dado muito importante: o personagem-autor é construído e sustenta-se ao longo de toda a narrativa sem compromissos de rigidez psicológica: ele não se converte em tipo. Ao contrário, o que se vê, principalmente através das lembranças casuais que permeiam essa narrativa “aberta”, são as contradições de uma personalidade oportunista, que muda sua feição ao sabor das conveniências: de consciencioso à aproveitador, a mudança se faz sem maiores dores. É o caso da meia dobra de ouro (cap. li), achada numa calçada, e restituída ao seu dono por força de “uns repelões de consciência”. Repelões que impelem o personagem a devolver a moeda achada, mas que se silenciam quando o achado é um embrulho com cinco contos (cap. lii). (O que faz lembrar outra máxima de La Rochefoucauld: “É difícil julgar se um procedimento limpo, sincero e honesto é feito de probidade ou de habilidade”.) A seguir, trechos dos dois episódios:

Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns repelões de consciência, e uma voz que me perguntava porque diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas somente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro, daquele que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum operário que não teria com que dar de comer à mulher e aos filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda. (p. 67)

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De noite, no dia seguinte, em toda aquela semana pensei o menos que pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretária. Gostava de falar de todas as coisas, menos de dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; todavia não era crime achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da Providência. Não podia ser outra coisa. Não se perdem cinco contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos, apalpam-se a miúdo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim totalmente, numa praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem crime, nem desonra, nem nada que embaciasse o caráter de homem. Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas de cavalo, como os ganhos de um jogo honesto e até direi que a minha felicidade era merecida, porque eu não me sentia mau, nem indigno dos benefícios da Providência. (p. 69)

As citações longas da obra em análise se justificam na medida em que nelas estão contidas reflexões que dão mostra de um cinismo de conotação muito significativa para o livro. Ele (o cinismo) vem destilado em forma de ironia, que leva o leitor a sorrir - um sorriso amarelo, é verdade - ante certas situações que, contadas de outra forma, poderiam despertar outros sentimentos, como piedade ou indignação. Mas estes últimos são sentimentos para alguma alma sensível. E para esse tipo de leitor - que remédio... - só o mesmo cinismo e a mesma ironia:

Há aí entre as cinco ou dez pessoas que me lêem, há aí uma alma sensível, que está decerto um tanto agastada com o capítulo anterior, (...) e talvez... sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cínico. Eu cínico, alma sensível? Pela coxa de Diana! Esta injúria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo. Não, alma sensível, eu não sou cínico, eu fui homem; meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo o gênero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comédia louçã, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um pandemônio, alma sensível, uma barafunda de coisas e pessoas, em que podias ver tudo (...). Não havia ali a atmosfera somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do sapo. Retira, pois, a expressão, alma sensível, castiga os nervos, limpa os óculos, - que isso às vezes é dos óculos, - e acabemos de uma vez com esta flor da moita. (MPBC, p. 55)

O que transparece no fundo de uma digressão desse tipo é a essência de um ideário burguês, cristalizado e justificado pela crença da “paz de consciência”. E essas reflexões, que aparentemente interrompem o fluxo da narrativa, vão, na realidade, promover a amarração do todo semântico do texto, desviando o foco interpretativo das personagens, enquanto indivíduos, e fixando-o num nível mais abrangente, o das relações sociais. Assim, o que parece interrupção é, de fato, a unidade mascarada do romance. Pois, vistos sob o prisma do enfoque social, certos temas ganham um novo tratamento e compreensão. O que justifica, por exemplo, o triângulo amoroso Brás-Virgília-Lobo Neves não aparecer carregado dum passionalismo melodramático, típico dos românticos. Porquanto, contextualizado num meio social, onde as aparências, o jogo de interesses, a luta por posição, a “opinião” do grupo[5] orientam as ações do indivíduo, mesmo o prazer, ardente, caminha ao lado da premeditação, e se subordina ao cálculo, frio:

Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública. Virgília era capaz de iguais e grandes sacrifícios para conservar ambas as vantagens, e a fuga só lhe deixava uma. (MPBC, p. 82)

Não é diferente o sentimento corrosivo da raiva, que também se contém, quando essa é a opção mais conveniente. Isso explica a aparente passividade de Lobo Neves, quando descobre a traição da mulher com Brás Cubas, e com esforço estrangula sentimentos, acomodando a situação:

Poucas horas depois, encontrei Lobo Neves, na rua do Ouvidor; falamos da presidência e da política. Ele aproveitou o primeiro conhecido que nos passou à ilharga, e deixou-me, depois de muitos cumprimentos. Lembra-me que estava retraído, mas de um retraimento que forcejava por dissimular. Pareceu-me então (e peço perdão à crítica, se este meu juízo for temerário!) pareceu-me que ele tinha medo - não medo de mim, nem de si, nem do código, nem da consciência; tinha medo da opinião. Supus que esse tribunal anônimo e invisível, em que cada membro acusa e julga, era o limite posto à vontade do Lobo Neves. Talvez já não amasse a mulher; e, assim, pode ser que o coração fosse estranho à indulgência dos seus últimos atos. Cuido (e de novo insto pela boa vontade da crítica!) cuido que ele estaria pronto a separar-se da mulher (...); mas a opinião, essa opinião que lhe arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquérito acerca do caso, que coligiria uma a uma todas as circunstâncias, antecedências, induções, provas, que as relataria na palestra das chácaras desocupadas, essa terrível opinião, tão curiosa da alcovas, obstou à dispersão da família. Ao mesmo tempo tornou impossível o desforço, que seria a divulgação. Ele não poderia mostrar-se zangado comigo, sem igualmente buscar a separação conjugal; teve então de simular a mesma ignorância de outrora, e, por dedução, iguais sentimentos. (MPBC, p. 115)

O contexto das inter-relações, na sociedade devassada sem melindres pelo morto-escritor, define e molda o indivíduo de maneira a transformar sua vida numa luta eterna pelos deleites da vaidade, da glória (a “nomeada”); enfim, todo esforço para a conquista do poder, para a submissão do outro. Nessa peleja tresloucada, a felicidade ou o amor - o prazer, afinal - são apenas uma “dor bastarda”. É a essência do “delírio” de Brás Cubas, que ganha foros de síntese dessa concepção - sintoma patológico da degeneração das relações humanas. Diante do pessimismo de um quadro desse jaez, nada a esperar como remate senão a conclusão amarga e “em negativo”: no frio balanço cético da vida, feito pelo morto, apenas uma ausência - uma certa abstenção - significa ganho.

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplastro, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. (MPBC, p. 144)

 

Considerações Finais

Quando nossa alma está cheia de sentimentos, nossos discursos estão cheios de interesses.
Vauvenargues, Reflexões e máximas

A análise das Memórias póstumas de Brás Cubas, feita neste artigo, procurou tocar em dois elementos atuantes na obra de Machado de Assis: a alma e a sociedade. Dentro de um estilo original, o seu trabalho de elaboração consciente devassa a alma humana com uma profundidade ímpar, pondo em descoberto os reais motivos dos atos aceitos e aprovados em sociedade. Sobressai, então, o travo de seu pensamento. Pois o foco de seu olhar se detém invariavelmente numa classe dominante que vive de acordo com conveniências e convencionalismos. Mas Machado não faz julgamentos definitivos. Ele parece desconfiar da tendência - naturalista - de apenas representar a personagem através de condicionamentos externos. Prefere devassar a consciência de suas personagens, de onde inventaria os sentimentos - hipocrisia, ambição, inveja, inclinação para a fraude... - que chegam à superfície das ações.

Em virtude de sua visão de mundo intensamente reflexiva e crítica, consegue imprimir em seu trabalho um senso psicológico adensado, cuja penetração analítica, expressa numa linguagem incisiva, traz um timbre característico de verossimilhança para seu texto. É nesse contexto social de sua época, a sociedade moderna, com seus valores e senso ético vacilantes, que desfilam personagens comuns, num cotidiano cinza.

Desses personagens, ditos machadianos, não se pode dizer que são bons ou maus, já que o Autor soube captar justamente os impulsos contraditórios do indivíduo - ...de qualquer indivíduo. São apenas seres humanos a cumprir um destino sem glamour. Nessa sintonia, Machado investiga os motivos intrínsecos que talvez expliquem as ações das pessoas em sociedade. E, no âmago dessa investigação, está o traço amargo de pessimismo, magistralmente expresso através de um humor irônico inteligente e ímpar.

 

REFERÊNCIAS:

ASSIS. Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 17a. ed., São Paulo: Ática, 1991.

ABDALA JR., Benjamin. & CAMPEDELLI, Samira Youssef. Realismo-Naturalismo: as letras em ação. In: _______. Tempos da literatura brasileira. São Paulo, Ática, 1986. p. 131-59.

BOSI, Alfredo. O realismo. In: ________. História concisa da literatura brasileira. 3a ed., São Paulo: Cultrix, 1983. p. 180-203.

BOSI. . Machado de Assis: o enigma do olhar. São Paulo: Ática, 2000.

CÂNDIDO, Antônio. Literatura e sociedade. 7 ed. São Paulo,Companhia Editora Nacional, 1985.

CASTELLO, José Aderaldo. Realidade e ilusão em Machado de Assis. São Paulo, Nacional-Edusp. 1969.

COUTINHO, Afrânio. O movimento realista. In: Introdução à literatura no Brasil. 12a. ed. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1986. p. 139-78.

MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides da Cunha: breve história da literatura brasileira. Vol. I, 2a ed., Rio de Janeiro: José Olímpio, 1979.

PERERIRA, Elvya S. Ribeiro. Machado de Assis: história a Contrapelo. Ferira de Santana: UEFS, [s.d.]. Mimeo

 

NOTAS:

[1] Todas as epígrafes citadas neste trabalho são de autores que Machado de Assis leu, tiradas a partir de traduções feitas por Alfredo Bosi.

[2] Segundo. Elvya Pereira, “O nome Brás Cubas, com Machado de Assis (1839-1908), batiza uma outra formulação estética na literatura brasileira que, diríamos, é marcada por fortes deslocamentos tópicos (entre ficção e história) no contexto da narrativa até então produzida entre nós: primeiro, a subversão do uso corrente da perspectiva, instaurando a narrativa como fragmento de registros existenciais que emergem e, ao mesmo tempo, remetem ao espaço imponderável da morte, desestabilizando o suporte retórico centrado numa idéia de essência histórica e de integridade psico-social; segundo, o nonsense inerente às “memórias póstumas” deságua na quebra do sentido histórico metafísico romântico, voltado para as origens; instaurando um sentido histórico construído na dispersão dos acontecimentos, de feição genealógica”. (Pereira, s/d, p. 14)

[3] Segundo Bosi, esta “hipótese deriva basicamente do livro de Helen Caldwel, The Brazilian Othello of Machado de Assis (University of California, 1960). Retomaram sob ângulos diversos o caráter dúplice da perspectiva ficcional: Silviano Santiago, em “Retórica da verossimilhança” (Uma literatura nos trópicos, S. Paulo, Perspectiva, 1978); John Gledson, The deceptive realism of Machado de Assis, Liverpool, Francis Cairn, 1984 (tradução brasileira: Machado de Assis - Impostura e realismo, Cia. das Letras, 1991); e Roberto Schwarz, Duas meninas (Cia. das Letras, 1991).” (BOSI, 2000, p 38)

[4] ASSIS. Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 17a. ed., São Paulo: Ática, 1991. p. 45. Doravante, os trechos citados do romance serão indicados, no corpo do texto, pelas inicias M.P.B.C., seguidas pelo(s) número(s) da(s) página(s) a que se refere(m).

[5] Alfredo Bosi lembra um pensamento de Pascal que dá conta dessa concepção a respeito da opinião do grupo: “A vida humana não é senão uma ilusão perpétua; não fazemos mais do que nos entre-enganarmos e nos entre-adularmos. Ninguém fala de nós em nossa presença como fala em nossa ausência. A união que existe entre os homens é fundada tão só sobre este mútuo engano; e poucas amizades subsistiriam se cada um soubesse o que o seu amigo diz dele quando ele não está presente, embora o amigo fale sinceramente e sem paixão. O homem não é, portanto, mais do que mascaramento, mentira e hipocrisia, tanto em si mesmo quanto em face dos outros. O homem não quer que se lhe diga a verdade, evita dize-la aos outros; e todas essas disposições, tão afastadas da justiça e da razão, têm uma raiz natural no seu coração.” (BOSI, 2000, p.138)

 

© Márcio Roberto Soares Dias 2008

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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